{"id":271,"date":"2026-08-12T04:40:55","date_gmt":"2026-08-12T04:40:55","guid":{"rendered":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/entrevista-capturada-fundador-cripto-palco-2026\/"},"modified":"2026-08-12T04:40:55","modified_gmt":"2026-08-12T04:40:55","slug":"entrevista-capturada-fundador-cripto-palco-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/entrevista-capturada-fundador-cripto-palco-2026\/","title":{"rendered":"A entrevista capturada: quem controla o palco do fundador cripto"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">As entrevistas ao fundador cripto mais vistas de 2026 quase n\u00e3o t\u00eam jornalistas dentro. Vivem em podcasts de tr\u00eas horas com anfitri\u00f5es amigos, em palcos de confer\u00eancia pagos por patrocinadores e em transmiss\u00f5es que o pr\u00f3prio protagonista organiza, produz e corta. O microfone continua ligado; o que mudou foi quem o segura. E quando muda quem controla o palco, muda aquilo em que se pode acreditar.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Esta \u00e9 a terceira parte de uma leitura da entrevista como g\u00e9nero. Depois de olharmos para <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/entrevista-ao-fundador-cripto-microfone-prova\/'>a entrevista que acaba lida em tribunal<\/a> e para a entrevista de segundo ato, falta a pergunta que condiciona as outras duas: quem \u00e9 o dono do palco onde o fundador fala? A resposta separa uma pe\u00e7a de jornalismo de um an\u00fancio bem embrulhado. E, ao contr\u00e1rio do que acontecia h\u00e1 cinco anos, em 2026 a lei europeia j\u00e1 trata boa parte destes palcos como uma comunica\u00e7\u00e3o supervisionada, n\u00e3o como conversa de caf\u00e9.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A entrevista mudou de dono<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Durante d\u00e9cadas, a entrevista de neg\u00f3cios foi uma transa\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel. O jornalista queria a informa\u00e7\u00e3o que o executivo preferia esconder; o executivo queria a plataforma sem o contradit\u00f3rio. A tens\u00e3o entre os dois era o produto, e o leitor beneficiava precisamente porque nenhum dos lados controlava o resultado por inteiro. O acesso era a moeda que o rep\u00f3rter trocava por escrut\u00ednio: dava-se palco, exigiam-se respostas.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Na cripto, esse equil\u00edbrio partiu-se. O fundador deixou de precisar do jornalista para chegar \u00e0 audi\u00eancia. Tem um p\u00fablico direto no X, um canal pr\u00f3prio no YouTube, um lugar garantido no palco de qualquer confer\u00eancia que queira o seu nome no cartaz e uma fila de podcasts dispostos a dar-lhe horas sem uma \u00fanica pergunta hostil. O acesso, que antes era trocado por escrut\u00ednio, passou a ser uma d\u00e1diva que o fundador distribui a quem o trata bem. Quem faz perguntas dif\u00edceis simplesmente deixa de ser convidado.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado n\u00e3o \u00e9 a morte da entrevista, \u00e9 a sua captura. A conversa continua a existir, muitas vezes mais longa e mais \u00edntima do que nunca, mas o contradit\u00f3rio evaporou-se. E sem contradit\u00f3rio, uma entrevista deixa de ser um teste \u00e0 vers\u00e3o do fundador para passar a ser a sua encena\u00e7\u00e3o. O leitor que n\u00e3o perceber a diferen\u00e7a fica a confundir simpatia com verifica\u00e7\u00e3o.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Tr\u00eas palcos, um mesmo problema de confian\u00e7a<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Nem todos os palcos s\u00e3o iguais, mas quase todos partilham hoje o mesmo defeito: o incentivo de quem os controla n\u00e3o \u00e9 o de testar o fundador. Vale a pena separar os formatos, porque cada um falha de maneira diferente e por raz\u00f5es diferentes.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Palco<\/th><th>Quem controla a conversa<\/th><th>Incentivo dominante<\/th><th>H\u00e1 contradit\u00f3rio?<\/th><th>Risco para o leitor<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Jornalismo adversarial<\/td><td>O meio, com edi\u00e7\u00e3o independente<\/td><td>Reputa\u00e7\u00e3o e furo<\/td><td>Sim, por defini\u00e7\u00e3o<\/td><td>Erro honesto; raramente captura<\/td><\/tr><tr><td>Podcast de acesso<\/td><td>O anfitri\u00e3o, por vezes parte interessada<\/td><td>Manter o acesso e a audi\u00eancia<\/td><td>Raro<\/td><td>Simpatia confundida com verifica\u00e7\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Fireside chat de confer\u00eancia<\/td><td>O organizador e os patrocinadores<\/td><td>Bilhetes, patroc\u00ednios, palco vend\u00e1vel<\/td><td>Quase nunca<\/td><td>Palco pago lido como valida\u00e7\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Canal pr\u00f3prio (AMA, X Spaces)<\/td><td>O pr\u00f3prio fundador<\/td><td>Controlo total da narrativa<\/td><td>Nenhum<\/td><td>Mon\u00f3logo apresentado como di\u00e1logo<\/td><\/tr><tr><td>Entrevista sint\u00e9tica (deepfake)<\/td><td>Um terceiro an\u00f3nimo<\/td><td>Fraude direta<\/td><td>N\u00e3o aplic\u00e1vel<\/td><td>Palavras que o fundador nunca disse<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">A leitura da tabela \u00e9 simples: quanto mais \u00e0 direita e mais abaixo se desce, menor \u00e9 a probabilidade de algu\u00e9m contrariar o fundador e maior \u00e9 a probabilidade de o leitor tomar produ\u00e7\u00e3o por prova. Um palco vendido, um canal pr\u00f3prio ou uma conversa amistosa podem conter informa\u00e7\u00e3o verdadeira; o ponto \u00e9 que a estrutura n\u00e3o a garante. A confian\u00e7a tem de vir de outro lado, e \u00e9 isso que o resto deste texto procura.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O podcast longo: intimidade sem contradit\u00f3rio<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">O formato dominante de 2026 \u00e9 o podcast de longa dura\u00e7\u00e3o. Programas de acesso alargado, do Lex Fridman Podcast a s\u00e9ries especializadas como o Bankless ou o The Rollup, deram ao fundador aquilo que nenhuma entrevista de televis\u00e3o dava: tempo. Tr\u00eas horas para explicar a vis\u00e3o, humanizar-se, contar a inf\u00e2ncia, rir com o anfitri\u00e3o. \u00c9 genuinamente valioso ouvir algu\u00e9m pensar em voz alta durante tanto tempo, e muitas destas conversas s\u00e3o interessantes.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 o que a intimidade faz ao rigor. O formato premeia a empatia entre anfitri\u00e3o e convidado, porque \u00e9 essa qu\u00edmica que segura a audi\u00eancia e garante o pr\u00f3ximo convidado de peso. Fazer a pergunta que faria o fundador levantar-se e sair \u00e9 mau para o neg\u00f3cio do podcast. Acresce um conflito espec\u00edfico da cripto: uma parte dos anfitri\u00f5es mais influentes n\u00e3o s\u00e3o jornalistas, s\u00e3o investidores, detentores de tokens ou operadores do pr\u00f3prio setor que analisam. N\u00e3o h\u00e1 nada de ilegal nisso, mas significa que o entrevistador e o entrevistado podem partilhar o mesmo interesse na subida do ativo em discuss\u00e3o.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda a dimens\u00e3o para-social. O ouvinte que acompanha um anfitri\u00e3o durante centenas de horas cria com ele um la\u00e7o de confian\u00e7a que depois transfere, sem se aperceber, para os convidados que esse anfitri\u00e3o trata como amigos. Quando o entrevistador se apresenta abertamente como aliado do setor, algu\u00e9m que quer que o p\u00fablico \u00abganhe\u00bb com a pr\u00f3xima vaga de tokens, a entrevista deixa de ser um exame e passa a ser uma recomenda\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada de conversa. O problema n\u00e3o \u00e9 a falta de honestidade do anfitri\u00e3o; \u00e9 o facto de a estrutura confundir cumplicidade com credibilidade.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Para o leitor, a regra pr\u00e1tica \u00e9 distinguir tempo de escrut\u00ednio. Uma conversa longa n\u00e3o \u00e9 uma conversa exigente. As melhores horas de podcast do mundo continuam a valer zero como verifica\u00e7\u00e3o se ningu\u00e9m, em momento algum, tentar furar a vers\u00e3o apresentada.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A fireside chat paga: quando o acesso \u00e9 um produto<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo palco \u00e9 o da confer\u00eancia. Eventos como o Token2049 ou o Consensus s\u00e3o, entre outras coisas, m\u00e1quinas de vender acesso. O bilhete \u00e9 caro, o patroc\u00ednio \u00e9 mais caro ainda, e o palco principal \u00e9 um produto: quem paga entra na conversa, quem n\u00e3o paga fica na plateia. A chamada fireside chat, aquela conversa de sof\u00e1 conduzida por um moderador simp\u00e1tico, \u00e9 o formato perfeito para este modelo, porque projeta proximidade sem risco de confronto.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A mec\u00e2nica refor\u00e7a o efeito. O moderador \u00e9 muitas vezes escolhido pela organiza\u00e7\u00e3o ou pelo patrocinador, o alinhamento dos temas \u00e9 combinado com anteced\u00eancia e o formato foi desenhado para n\u00e3o haver surpresas. N\u00e3o \u00e9 corrup\u00e7\u00e3o, \u00e9 produ\u00e7\u00e3o: um evento que vive de bilhetes e patroc\u00ednios precisa de convidados satisfeitos que voltem no ano seguinte, e um convidado humilhado no palco n\u00e3o volta. O incentivo do organizador est\u00e1 do lado do conforto do fundador, n\u00e3o do escrut\u00ednio da sua hist\u00f3ria.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O perigo \u00e9 de perce\u00e7\u00e3o. A audi\u00eancia tende a ler a presen\u00e7a num grande palco como uma valida\u00e7\u00e3o, quando muitas vezes \u00e9 apenas uma transa\u00e7\u00e3o comercial. Um fundador que aparece ao lado de nomes respeitados, sob luzes profissionais e com o log\u00f3tipo do evento atr\u00e1s, ganha um verniz de credibilidade que n\u00e3o teve de merecer. O palco n\u00e3o certificou o neg\u00f3cio; certificou apenas que algu\u00e9m pagou para l\u00e1 estar, ou que o nome vendia bilhetes.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Isto n\u00e3o desqualifica as confer\u00eancias, que continuam a ser onde muita informa\u00e7\u00e3o real circula nos corredores. Mas conv\u00e9m separar as duas coisas: o que se aprende num evento raramente vem do palco patrocinado; vem das conversas laterais, dos documentos que circulam e dos c\u00e9ticos que ningu\u00e9m convidou para o sof\u00e1.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O canal pr\u00f3prio: o fundador tamb\u00e9m \u00e9 o editor<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">O terceiro palco \u00e9 o mais puro na sua captura: o canal que o pr\u00f3prio fundador controla. As sess\u00f5es de perguntas e respostas no X Spaces, os diretos no YouTube, o fio de tweets di\u00e1rio. Aqui n\u00e3o h\u00e1 moderador, n\u00e3o h\u00e1 edi\u00e7\u00e3o independente, n\u00e3o h\u00e1 sequer a fic\u00e7\u00e3o de um contradit\u00f3rio. O fundador \u00e9 simultaneamente o convidado, o entrevistador e o editor. \u00c9 um mon\u00f3logo vendido como di\u00e1logo.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O arqu\u00e9tipo cautelar j\u00e1 existe e chama-se Alex Mashinsky. O fundador da Celsius transformou uma sess\u00e3o semanal, a c\u00e9lebre Ask Mashinsky Anything, num instrumento de gest\u00e3o de narrativa. Vendia rendimentos de dois d\u00edgitos como se fossem de baixo risco, repetia o lema \u00abunbank yourself\u00bb e dava aos clientes aquilo que os procuradores viriam a chamar um falso conforto sobre aprova\u00e7\u00f5es regulat\u00f3rias que nunca existiram. N\u00e3o havia ningu\u00e9m do outro lado do microfone para o contrariar. O desfecho foi um <a href='https:\/\/www.cbsnews.com\/news\/celsius-founder-alex-mashinsky-arrested-charged-with-fraud'>conjunto de acusa\u00e7\u00f5es em julho de 2023<\/a> e, mais tarde, uma <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/policy\/2025\/05\/08\/celsius-founder-alex-mashinsky-sentenced-to-12-years-in-prison-for-fraud'>pena de doze anos de pris\u00e3o<\/a>, depois de se ter apurado que encaixou mais de 45 milh\u00f5es de d\u00f3lares (perto de 39 milh\u00f5es de euros) enquanto vendia seguran\u00e7a \u00e0 sua audi\u00eancia.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O mecanismo que torna o canal pr\u00f3prio perigoso \u00e9 o mesmo que o torna eficaz: o ritual. Uma sess\u00e3o semanal \u00e0 hora marcada cria h\u00e1bito, o h\u00e1bito cria lealdade e a lealdade transforma as perguntas inc\u00f3modas da audi\u00eancia em deslealdade. Quando os pr\u00f3prios clientes come\u00e7am a defender o fundador de quem duvida, o canal deixou de informar e passou a doutrinar. \u00c9 a diferen\u00e7a entre uma sala de imprensa e uma congrega\u00e7\u00e3o.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A li\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 que todo o canal pr\u00f3prio conduz \u00e0 pris\u00e3o. \u00c9 que um canal pr\u00f3prio nunca \u00e9 uma fonte de verifica\u00e7\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o. Quando o mesmo ator escreve as perguntas e as respostas, o formato s\u00f3 pode confirmar o que o fundador j\u00e1 queria dizer.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Acesso contra documento: Going Infinite e a folha de balan\u00e7o<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">O caso que melhor ilustra o pre\u00e7o do acesso n\u00e3o \u00e9 sequer um podcast; \u00e9 um livro. Michael Lewis passou cerca de ano e meio ao lado de Sam Bankman-Fried para escrever Going Infinite, publicado em outubro de 2023, com uma proximidade ao protagonista que poucos jornalistas alguma vez tiveram. Essa proximidade transformou-se em cr\u00edtica: Lewis foi acusado de ter sido demasiado brando, de ter comprado a mitologia do g\u00e9nio exc\u00eantrico, e chegou a descrever a FTX, em televis\u00e3o, como um neg\u00f3cio genu\u00edno. Confrontado, <a href='https:\/\/time.com\/6321668\/michael-lewis-sam-bankman-fried-going-infinite\/'>defendeu a sua leitura do personagem<\/a> mesmo depois da queda.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Contraste-se isto com o que realmente derrubou a FTX. N\u00e3o foi nenhuma entrevista, por mais pr\u00f3xima que fosse. Foi um documento. A 2 de novembro de 2022, o jornalista Ian Allison, da CoinDesk, publicou <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/policy\/2023\/09\/20\/breaking-down-the-infamous-alameda-balance-sheet'>a folha de balan\u00e7o da Alameda Research<\/a>, que mostrava a empresa a assentar cerca de 14,6 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em ativos numa depend\u00eancia enorme do FTT, o token emitido pela pr\u00f3pria FTX. Quatro dias depois, a Binance anunciou que venderia as suas posi\u00e7\u00f5es em FTT, o pre\u00e7o colapsou e o imp\u00e9rio desfez-se em pouco mais de uma semana.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 a moral central desta hist\u00f3ria: o acesso apanhou a personagem, o documento apanhou a fraude. Quando a narrativa e os n\u00fameros divergem, s\u00e3o os n\u00fameros que ganham, e nenhuma quantidade de horas ao lado do fundador substitui uma folha de c\u00e1lculo lida por quem n\u00e3o tem interesse em acreditar. \u00c9 o mesmo princ\u00edpio que j\u00e1 discutimos <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/anatomia-post-mortem-falha-nao-e-codigo-2026\/'>na anatomia de um post-mortem<\/a>: a ret\u00f3rica adia, a evid\u00eancia decide.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O contraexemplo: as perguntas dif\u00edceis ainda existem<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Seria injusto concluir que o formato longo \u00e9 irremedi\u00e1vel. A prova de que acesso e rigor podem coexistir tem nome: Laura Shin. Foi a <a href='https:\/\/unchainedcrypto.com\/about\/'>primeira jornalista mainstream a cobrir Bitcoin a tempo inteiro<\/a>, criou o podcast Unchained em 2016 e construiu uma reputa\u00e7\u00e3o a fazer exatamente aquilo que o palco capturado evita: perguntas dif\u00edceis. No seu livro The Cryptopians, de 2022, reuniu com as suas fontes evid\u00eancias que apontam a identidade do respons\u00e1vel pelo ataque \u00e0 The DAO de 2016, um dos maiores mist\u00e9rios do setor.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O que distingue este modelo n\u00e3o \u00e9 o formato, \u00e9 a postura. Shin entrevista fundadores durante horas, tal como qualquer podcast de acesso, mas mant\u00e9m a dist\u00e2ncia de quem pode publicar uma reportagem inc\u00f3moda na semana seguinte. O convidado sabe que a simpatia n\u00e3o compra imunidade. \u00c9 essa possibilidade de confronto, ainda que raramente exercida, que d\u00e1 valor a tudo o resto que \u00e9 dito.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A conclus\u00e3o pr\u00e1tica para o leitor \u00e9 que o problema n\u00e3o est\u00e1 no microfone nem na dura\u00e7\u00e3o, est\u00e1 na cadeira do entrevistador. A pergunta certa n\u00e3o \u00e9 \u00abque canal \u00e9 este?\u00bb, \u00e9 \u00abesta pessoa est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de me dizer que o fundador est\u00e1 errado?\u00bb. Se a resposta for n\u00e3o, o formato n\u00e3o interessa.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>2026: o regresso ensaiado no palco certo<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A captura do palco ficou mais vis\u00edvel no ciclo de regressos de 2026. Depois de perdoado por Donald Trump <a href='https:\/\/www.cnbc.com\/2025\/10\/23\/trump-pardons-binance-founder-cz-zhao.html'>a 23 de outubro de 2025<\/a>, Changpeng Zhao escolheu cuidadosamente onde reaparecer. Numa <a href='https:\/\/www.theblock.co\/post\/386854'>entrevista \u00e0 The Block, em janeiro de 2026<\/a>, declarou-se \u00abagora um homem verdadeiramente livre\u00bb e classificou o perd\u00e3o como uma \u00abcaixa negra\u00bb, dizendo nunca ter falado com o presidente. Foi uma conversa conduzida em terreno amigo, sem procurador do outro lado, e funcionou: o tom foi de vit\u00f3ria, n\u00e3o de presta\u00e7\u00e3o de contas. Vale a pena lembrar que a culpa de CZ foi por falha de programa antibranqueamento, n\u00e3o por fraude, um detalhe que o pr\u00f3prio soube real\u00e7ar no palco que escolheu.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">No extremo oposto, Sam Bankman-Fried, depois de <a href='https:\/\/www.foxbusiness.com\/markets\/convicted-ftx-founder-sam-bankman-fried-insists-hes-innocent-exclusive-prison-interview'>perder o recurso e insistir, numa entrevista a partir da pris\u00e3o, que \u00abn\u00e3o roubou fundos dos utilizadores\u00bb<\/a>, apoia-se num argumento que soa a palco controlado: o de que a massa insolvente da FTX acabou por pagar os credores. \u00c9 verdade que os credores foram reembolsados, mas isso resulta da liquida\u00e7\u00e3o de ativos e da subida do mercado desde 2022, n\u00e3o da aus\u00eancia de crime; a apropria\u00e7\u00e3o indevida foi provada em tribunal. Pagar de volta n\u00e3o \u00e9 o mesmo que n\u00e3o ter roubado. Trat\u00e1mos esta gram\u00e1tica do arrependimento em detalhe <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/entrevista-redencao-regresso-fundador-cripto-2026\/'>na leitura da entrevista de reden\u00e7\u00e3o<\/a>; aqui interessa apenas o padr\u00e3o: escolher o palco \u00e9 escolher a hist\u00f3ria.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O contraste entre os dois \u00e9, por si s\u00f3, uma li\u00e7\u00e3o sobre palcos. CZ, que saiu ao fim de quatro meses e recuperou grande parte da fortuna, encontrou meios dispostos a receb\u00ea-lo como um sobrevivente; Mashinsky e Do Kwon, a cumprir penas longas, n\u00e3o t\u00eam palco amigo nenhum. O regresso pela porta da frente n\u00e3o \u00e9 distribu\u00eddo pela gravidade do que se fez, mas pela liberdade e pelo capital de quem o quer fazer. Quem controla o palco decide tamb\u00e9m quem merece uma segunda entrevista.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Porque a economia da aten\u00e7\u00e3o premeia o palco controlado<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Nada disto acontece por acaso. A economia da aten\u00e7\u00e3o premeia a confian\u00e7a, n\u00e3o a nuance, e o palco controlado \u00e9 a m\u00e1quina mais eficiente para produzir confian\u00e7a. Um fundador que domina o seu pr\u00f3prio canal pode repetir a mensagem sem atrito, cortar o que corre mal e amplificar o que ressoa. O algoritmo recompensa a certeza, e a certeza \u00e9 precisamente o que um contradit\u00f3rio destr\u00f3i.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Por cima disto assenta a cultura do \u00abfounder mode\u00bb, a ideia, popularizada por um ensaio de Paul Graham em 2024, de que o fundador vision\u00e1rio deve contornar os intermedi\u00e1rios e impor a sua vis\u00e3o. Aplicada \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o, esta cultura legitima a fuga ao jornalismo: se o gestor med\u00edocre precisa de filtros, o g\u00e9nio fundador fala diretamente ao seu p\u00fablico. O problema \u00e9 que o mesmo racioc\u00ednio que dispensa o quadro interm\u00e9dio dispensa tamb\u00e9m o rep\u00f3rter inc\u00f3modo.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O leitor que segue mercados j\u00e1 conhece esta din\u00e2mica noutra forma. \u00c9 a mesma press\u00e3o que transforma <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/alvos-preco-2026-como-ler-previsoes-cripto\/'>os alvos de pre\u00e7o num espet\u00e1culo de convic\u00e7\u00e3o<\/a>, em que o n\u00famero mais ousado ganha mais aten\u00e7\u00e3o do que o mais prov\u00e1vel. A narrativa do fundador segue a mesma f\u00edsica: quanto mais limpa e mais confiante, mais viaja, independentemente de ser verdadeira.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>MiCA: um palco promocional \u00e9 uma comunica\u00e7\u00e3o vigiada<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui entra a mudan\u00e7a de fundo que separa 2026 de 2021. Na Europa, uma entrevista promocional deixou de ser apenas rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e passou a ser potencialmente uma comunica\u00e7\u00e3o supervisionada. O regime de abuso de mercado do T\u00edtulo VI da MiCA cobre a divulga\u00e7\u00e3o il\u00edcita de informa\u00e7\u00e3o privilegiada e a manipula\u00e7\u00e3o de mercado, e n\u00e3o faz distin\u00e7\u00e3o entre um comunicado oficial e uma declara\u00e7\u00e3o num podcast: se um fundador fizer afirma\u00e7\u00f5es falsas ou enganosas sobre um criptoativo abrangido, com efeito no pre\u00e7o, o palco onde o disse \u00e9 irrelevante para o supervisor.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Um exemplo torna isto tang\u00edvel. Imagine-se um fundador que, num direto descontra\u00eddo, garante que uma listagem numa grande plataforma est\u00e1 \u00abpraticamente fechada\u00bb e que o pre\u00e7o do seu token \u00abs\u00f3 pode subir a partir daqui\u00bb, sabendo que nada disso est\u00e1 confirmado. Se o token estiver abrangido pela MiCA e a afirma\u00e7\u00e3o mover o mercado, n\u00e3o estamos perante entusiasmo, estamos perante uma potencial manipula\u00e7\u00e3o por difus\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o enganosa. O tom de conversa n\u00e3o dilui a responsabilidade; limita-se a document\u00e1-la em v\u00eddeo.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A ESMA j\u00e1 traduziu isto em pr\u00e1tica. As <a href='https:\/\/www.esma.europa.eu\/press-news\/esma-news\/esma-issues-supervisory-guidelines-prevent-market-abuse-under-mica'>orienta\u00e7\u00f5es de supervis\u00e3o para prevenir o abuso de mercado ao abrigo da MiCA<\/a> estabelecem como as autoridades nacionais devem detetar e sancionar estas condutas, com a \u00faltima parte do regime a aplicar-se a partir de julho de 2026. Por outras palavras, a conversa amistosa de tr\u00eas horas n\u00e3o est\u00e1 fora do radar s\u00f3 porque n\u00e3o tem um jornalista dentro. Se promover um token, entra na esfera do supervisor tal como entraria um prospeto.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Esta \u00e9 uma invers\u00e3o subtil mas importante. Durante anos, o fundador fugiu ao jornalismo para escapar ao escrut\u00ednio. A ironia de 2026 \u00e9 que, ao transformar a entrevista num ve\u00edculo de promo\u00e7\u00e3o, o fundador atraiu um escrut\u00ednio diferente e mais duro: o do regulador de mercado, que n\u00e3o precisa de ser convidado para o palco.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>ESMA, finfluencers e a fatura da promo\u00e7\u00e3o paga<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo instrumento europeu apanha o outro lado do microfone: quem organiza o palco. A <a href='https:\/\/www.fma.gv.at\/en\/esma-factsheet-for-finfluencers-tips-for-responsible-financial-promotion\/'>ficha informativa da ESMA para finfluencers<\/a>, publicada a 9 de janeiro de 2026, deixa claro que quem promove produtos financeiros nas redes tem responsabilidades, mesmo sem qualquer credencial. As exig\u00eancias s\u00e3o diretas:<\/p><ul class='wp-block-list'><li>marcar claramente como publicidade qualquer conte\u00fado pago, oferecido ou patrocinado;<\/li><li>garantir que as afirma\u00e7\u00f5es sobre produtos financeiros s\u00e3o verdadeiras, claras e n\u00e3o enganosas;<\/li><li>incluir avisos de risco nos produtos vol\u00e1teis, com a possibilidade expl\u00edcita de perda total do capital;<\/li><li>assumir a responsabilidade pelo conte\u00fado, mesmo sem qualquer qualifica\u00e7\u00e3o financeira.<\/li><\/ul><p class=\"wp-block-paragraph\">A frase que resume a posi\u00e7\u00e3o do supervisor tornou-se conhecida: promover um produto financeiro, avisa a ESMA, <a href='https:\/\/cointelegraph.com\/news\/italy-consob-esma-crypto-finfluencers-advertising-rules'>\u00abn\u00e3o \u00e9 como promover sapatos ou rel\u00f3gios\u00bb<\/a>. E a fatura n\u00e3o \u00e9 simb\u00f3lica: ao abrigo do regime de abuso de mercado, as coimas para pessoas singulares podem chegar aos cinco milh\u00f5es de euros. Isto alcan\u00e7a diretamente o anfitri\u00e3o de podcast ou o moderador de confer\u00eancia que recebe para dar palco a um fundador e ao seu token sem divulgar o pagamento nem avisar do risco. A cortesia deixou de ser gratuita.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Portugal: a CMVM, o Banco de Portugal e o fim do regime transit\u00f3rio<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Em Portugal, a arquitetura de supervis\u00e3o divide-se em dois. A CMVM \u00e9 o supervisor de conduta de mercado, respons\u00e1vel pela integridade e pela prote\u00e7\u00e3o do investidor, enquanto o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores de servi\u00e7os de criptoativos e das quest\u00f5es ligadas \u00e0s stablecoins. Uma entrevista que promova um token junto de investidores portugueses cai, portanto, no campo de vis\u00e3o da CMVM, n\u00e3o como jornalismo, mas como potencial comunica\u00e7\u00e3o comercial sujeita \u00e0s regras de abuso de mercado.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O contexto local torna isto mais concreto. O regime transit\u00f3rio para os antigos VASP nacionais terminou a 1 de julho de 2026, ao abrigo da lei que transp\u00f4s a MiCA para o ordenamento portugu\u00eas (a Lei n.\u00ba 69\/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025). A partir dessa data, s\u00f3 operadores autorizados podem prestar servi\u00e7os; um fundador que use uma entrevista para promover uma plataforma sem autoriza\u00e7\u00e3o est\u00e1, na pr\u00e1tica, a assinalar um problema. A CMVM antecipou-se com um <a href='https:\/\/eco.sapo.pt\/2026\/04\/20\/riscos-glosario-e-prestadores-autorizados-cmvm-lanca-explicador-de-criptoativos\/'>explicador de criptoativos, lan\u00e7ado em abril de 2026<\/a>, que re\u00fane riscos, gloss\u00e1rio, uma sec\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 fraude e a lista de prestadores autorizados; a vers\u00e3o consult\u00e1vel est\u00e1 no <a href='https:\/\/investidor.cmvm.pt\/pinvestidor\/'>Portal do Investidor da CMVM<\/a>.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Na pr\u00e1tica, a verifica\u00e7\u00e3o est\u00e1 ao alcance de qualquer investidor. O registo dos prestadores autorizados \u00e9 p\u00fablico, a CMVM mant\u00e9m alertas sobre entidades n\u00e3o habilitadas e o Banco de Portugal divulga a lista de quem obteve registo para operar em Portugal. Uma entrevista que evite nomear a entidade regulada por tr\u00e1s do produto, ou que responda a perguntas sobre autoriza\u00e7\u00e3o com vaguidades, diz por omiss\u00e3o aquilo que as palavras tentam esconder.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Para o leitor portugu\u00eas, isto traduz-se numa verifica\u00e7\u00e3o de trinta segundos. Antes de dar cr\u00e9dito a uma entrevista entusiasmada com uma plataforma ou um token, confirme se o prestador consta da lista da CMVM ou do registo do Banco de Portugal. Se o nome n\u00e3o estiver l\u00e1, o palco pode ser brilhante, mas o produto n\u00e3o passou pelo crivo que a lei j\u00e1 exige.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Deepfakes: quando o palco inteiro \u00e9 sint\u00e9tico<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma vers\u00e3o final da captura do palco em que o fundador nem sequer est\u00e1 presente. Em 2026, os falsos diretos proliferam: transmiss\u00f5es que imitam a cara e a voz de figuras como Elon Musk ou Vitalik Buterin, montadas para parecer entrevistas ao vivo e desenhadas para empurrar esquemas de \u00abduplica\u00e7\u00e3o\u00bb de cripto. N\u00e3o s\u00e3o v\u00eddeos amadores; usam imagens reais recontextualizadas e legendas cred\u00edveis. Numa das campanhas documentadas, <a href='https:\/\/crypto.news\/spacex-giveaway-scam-floods-youtube-with-deep-fake-elon-musk\/'>uma s\u00f3 carteira ter\u00e1 recolhido perto de cinco milh\u00f5es de d\u00f3lares<\/a> a partir deste tipo de fraude.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O efeito mais insidioso n\u00e3o \u00e9 o dinheiro roubado a incautos, \u00e9 a eros\u00e3o da confian\u00e7a em geral. \u00c0 medida que qualquer clip pode ser falsificado, instala-se o chamado \u00abdividendo do mentiroso\u00bb: um fundador real pode agora negar imagens aut\u00eanticas, alegando que s\u00e3o um deepfake, e ningu\u00e9m consegue provar o contr\u00e1rio com certeza absoluta. O palco sint\u00e9tico n\u00e3o corrompe apenas as entrevistas falsas; contamina a credibilidade das verdadeiras.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A dete\u00e7\u00e3o n\u00e3o acompanha a produ\u00e7\u00e3o. As ferramentas que geram estes v\u00eddeos melhoram mais depressa do que os classificadores que os apanham, e as plataformas removem os diretos fraudulentos horas depois de j\u00e1 terem chegado a milhares de pessoas. Enquanto a autentica\u00e7\u00e3o de origem n\u00e3o for a norma, o \u00f3nus recai sobre o espetador, que tem de partir do princ\u00edpio de que qualquer promessa extraordin\u00e1ria feita em nome de um fundador conhecido \u00e9 falsa at\u00e9 prova em contr\u00e1rio.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A defesa \u00e9 a mesma que aplicamos a qualquer sinal de mercado: verificar a origem antes de reagir ao conte\u00fado. Um direto que promete rendimentos garantidos, aloja-se num canal rec\u00e9m-criado e pede para enviar cripto para receber o dobro \u00e9, com probabilidade pr\u00f3xima da certeza, uma fraude, use a cara de quem usar.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Como ler uma entrevista pelo palco<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Se a estrutura do palco determina a confian\u00e7a, ent\u00e3o a leitura cr\u00edtica de uma entrevista come\u00e7a por perguntas sobre o palco, n\u00e3o sobre o conte\u00fado. A ideia \u00e9 a mesma que aplicamos a qualquer indicador ruidoso: <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/whale-alerts-ler-baleias-sinal-falso-2026\/'>separar o sinal do teatro<\/a> antes de agir sobre ele. A tabela seguinte resume o m\u00e9todo.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Pergunta a fazer<\/th><th>Porque importa<\/th><th>Bandeira vermelha<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Quem paga este palco?<\/td><td>O patroc\u00ednio muda o incentivo do anfitri\u00e3o<\/td><td>Anfitri\u00e3o com posi\u00e7\u00e3o no token discutido<\/td><\/tr><tr><td>Houve alguma pergunta dif\u00edcil?<\/td><td>Sem contradit\u00f3rio n\u00e3o h\u00e1 teste \u00e0 vers\u00e3o do fundador<\/td><td>Horas de conversa sem uma \u00fanica obje\u00e7\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>O token est\u00e1 a ser promovido?<\/td><td>Pode ser abuso de mercado ao abrigo da MiCA<\/td><td>Promo\u00e7\u00e3o sem qualquer aviso de risco<\/td><\/tr><tr><td>H\u00e1 divulga\u00e7\u00e3o de interesses?<\/td><td>A ESMA exige que o conte\u00fado pago seja marcado<\/td><td>Nenhuma men\u00e7\u00e3o a patroc\u00ednio ou posi\u00e7\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>A fonte \u00e9 aut\u00eantica?<\/td><td>Os deepfakes imitam a cara e a voz do fundador<\/td><td>Diretos que prometem \u00abduplicar a sua cripto\u00bb<\/td><\/tr><tr><td>Promete retorno?<\/td><td>Retorno garantido \u00e9 o sinal cl\u00e1ssico de fraude<\/td><td>Express\u00f5es como \u00abrendimento seguro\u00bb ou \u00absem risco\u00bb<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhuma destas perguntas exige conhecimento t\u00e9cnico. Exige apenas o h\u00e1bito de olhar para a moldura antes do quadro. Uma entrevista pode ser fascinante, longa e cheia de detalhe e continuar a n\u00e3o valer nada como prova; e uma conversa curta e \u00e1spera, conduzida por algu\u00e9m disposto a discordar, pode valer mais do que dez horas de elogio m\u00fatuo.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma coisa que nem o melhor palco controlado consegue produzir: um facto verific\u00e1vel de forma independente. Foi um documento, n\u00e3o uma entrevista, que exp\u00f4s a FTX. Foi uma senten\u00e7a, n\u00e3o um podcast, que fixou os doze anos de Mashinsky e <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/policy\/2025\/12\/10\/terraform-s-do-kwon-sentenced-to-15-years-in-prison-for-fraud'>os quinze anos de Do Kwon<\/a>, este \u00faltimo com o juiz a avisar, em dezembro de 2025, que \u00abao pr\u00f3ximo Do Kwon\u00bb a fraude custaria a liberdade por muito tempo. O palco molda a narrativa; a realidade fica com a \u00faltima palavra.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Isto n\u00e3o significa desligar os podcasts nem boicotar as confer\u00eancias. Significa consumir a entrevista pelo que ela \u00e9: um documento ret\u00f3rico com um autor interessado e, cada vez mais, um palco pago. Num mercado onde o Bitcoin ronda os <a href='https:\/\/www.coingecko.com\/en\/coins\/bitcoin'>55.200 euros<\/a> e onde uma frase confiante move pre\u00e7os em minutos, saber quem segura o microfone deixou de ser curiosidade de cr\u00edtica de media. \u00c9 gest\u00e3o de risco.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O fundador do futuro ter\u00e1 cada vez mais palcos e cada vez menos perguntas. Cabe ao leitor repor o contradit\u00f3rio que o formato retirou, uma pergunta de cada vez, come\u00e7ando sempre pela mais simples: quem controla este palco, e o que ganha se eu acreditar?<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Frequently Asked Questions<\/h2><h3 class='wp-block-heading'>Porque \u00e9 que as entrevistas a fundadores cripto deixaram de ser feitas por jornalistas?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Porque o fundador j\u00e1 n\u00e3o precisa do jornalista para chegar ao p\u00fablico. Tem redes pr\u00f3prias, palcos de confer\u00eancia e podcasts dispostos a dar-lhe horas sem contradit\u00f3rio, pelo que o acesso deixou de ser trocado por escrut\u00ednio e passou a ser oferecido a quem trata bem o entrevistado. O formato tornou-se mais longo e \u00edntimo, mas perdeu a pergunta dif\u00edcil que testava a vers\u00e3o do fundador.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>Uma entrevista paga a um fundador pode violar as regras da MiCA?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Pode. Se a conversa promover um criptoativo abrangido e contiver informa\u00e7\u00e3o falsa ou enganosa com efeito no pre\u00e7o, entra no regime de abuso de mercado do T\u00edtulo VI da MiCA, com orienta\u00e7\u00f5es de supervis\u00e3o da ESMA a aplicar-se em 2026. Uma apari\u00e7\u00e3o promocional n\u00e3o \u00e9 apenas rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas; \u00e9 uma comunica\u00e7\u00e3o que o supervisor pode investigar como manipula\u00e7\u00e3o de mercado.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>O que diz a CMVM sobre a promo\u00e7\u00e3o de criptoativos em Portugal?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">A CMVM \u00e9 o supervisor de conduta de mercado e, em 2026, publicou um explicador de criptoativos com riscos, gloss\u00e1rio, lista de prestadores autorizados e uma sec\u00e7\u00e3o de fraude. Como o regime transit\u00f3rio para os antigos VASP terminou a 1 de julho de 2026, promover uma plataforma n\u00e3o autorizada junto de investidores portugueses \u00e9 um sinal de alerta; conv\u00e9m confirmar o nome na lista da CMVM ou no registo do Banco de Portugal.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>Como identificar uma entrevista de fundador que \u00e9 afinal publicidade?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Pergunte quem paga o palco, se houve alguma pergunta dif\u00edcil, se o anfitri\u00e3o det\u00e9m o token em causa e se existe divulga\u00e7\u00e3o de patroc\u00ednio. A aus\u00eancia total de contradit\u00f3rio, as promessas de retorno e a falta de qualquer aviso de risco s\u00e3o as bandeiras vermelhas mais fi\u00e1veis. Um palco caro ou uma conversa longa n\u00e3o substituem a verifica\u00e7\u00e3o independente.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>As entrevistas em deepfake de fundadores cripto s\u00e3o comuns?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, e s\u00e3o cada vez mais convincentes. Circularam falsos diretos de Elon Musk e Vitalik Buterin a promover esquemas de duplica\u00e7\u00e3o de cripto, com uma s\u00f3 carteira a recolher perto de cinco milh\u00f5es de d\u00f3lares, e o fen\u00f3meno cria o chamado dividendo do mentiroso, em que fundadores reais passam a poder negar imagens aut\u00eanticas. Verificar sempre a origem do canal \u00e9 a defesa mais eficaz.<\/p><script type=\"application\/ld+json\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@type\":\"FAQPage\",\"mainEntity\":[{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"Porque \u00e9 que as entrevistas a fundadores cripto deixaram de ser feitas por jornalistas?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"Porque o fundador j\u00e1 n\u00e3o precisa do jornalista para chegar ao p\u00fablico. Tem redes pr\u00f3prias, palcos de confer\u00eancia e podcasts dispostos a dar-lhe horas sem contradit\u00f3rio, pelo que o acesso deixou de ser trocado por escrut\u00ednio e passou a ser oferecido a quem trata bem o entrevistado.\"}},{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"Uma entrevista paga a um fundador pode violar as regras da MiCA?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"Pode. 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