{"id":323,"date":"2026-08-19T10:44:16","date_gmt":"2026-08-19T10:44:16","guid":{"rendered":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/base-futuros-taxa-juro-cripto-stablecoin-2026\/"},"modified":"2026-08-19T10:44:16","modified_gmt":"2026-08-19T10:44:16","slug":"base-futuros-taxa-juro-cripto-stablecoin-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/base-futuros-taxa-juro-cripto-stablecoin-2026\/","title":{"rendered":"A base dos futuros \u00e9 a taxa de juro da cripto (e virou stablecoin)"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">A maioria dos textos sobre a base dos futuros trata-a como uma coisa s\u00f3. Ou \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o de arbitragem para fundos sofisticados, ou \u00e9 um term\u00f3metro do humor do mercado. As duas leituras s\u00e3o \u00fateis, mas ambas escondem a mais simples e a mais poderosa: a base \u00e9, acima de tudo, uma taxa de juro. \u00c9 o pre\u00e7o do tempo num mercado que n\u00e3o tem banco central, n\u00e3o tem taxa diretora e n\u00e3o tem ningu\u00e9m que fixe o custo do dinheiro por decreto. Quando se olha para a base como uma taxa, muito do que parecia ru\u00eddo passa a ter uma explica\u00e7\u00e3o limpa.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">E em 2026 essa taxa fez duas coisas fora do comum. Primeiro, caiu abaixo do juro sem risco: montar um cash-and-carry de Bitcoin na CME rende hoje menos do que comprar um simples Bilhete do Tesouro norte-americano, algo impens\u00e1vel no auge de 2024. Segundo, a base deixou de ser apenas um n\u00famero num ecr\u00e3 e passou a ser um produto de prateleira. A Ethena empacotou o carry num d\u00f3lar sint\u00e9tico, o USDe, que chegou a valer mais de 14 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares. A taxa de juro da cripto ganhou marca, ticker e, agora, um problema de sustentabilidade.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Este texto pega na base pela ponta das taxas de juro. Vamos ver como se l\u00ea a curva a prazo da cripto, porque \u00e9 que o pr\u00e9mio evaporou, como \u00e9 que uma opera\u00e7\u00e3o de arbitragem se transformou numa stablecoin e o que a CMVM e a DMIF II t\u00eam a dizer a quem, em Portugal, queira l\u00e1 chegar. Salvo indica\u00e7\u00e3o em contr\u00e1rio, os pre\u00e7os s\u00e3o de 19 de agosto de 2026, com o Bitcoin a rondar os 55.400 euros, cerca de 48% abaixo do m\u00e1ximo hist\u00f3rico de outubro de 2025 (dados <a href='https:\/\/www.coingecko.com\/en\/coins\/bitcoin'>CoinGecko<\/a>).<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A base explicada como uma taxa de juro<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Comecemos pela defini\u00e7\u00e3o, mas por uma que raramente aparece nos manuais. A base \u00e9 a diferen\u00e7a entre o pre\u00e7o do contrato de futuros e o pre\u00e7o \u00e0 vista (spot). Se o futuro vale mais do que o spot, a base \u00e9 positiva e o mercado est\u00e1 em contango; se vale menos, a base \u00e9 negativa e h\u00e1 backwardation. At\u00e9 aqui, nada de novo. O salto est\u00e1 em anualizar essa diferen\u00e7a: a base anualizada \u00e9 igual \u00e0 base dividida pelo spot, multiplicada por 365 e dividida pelos dias que faltam at\u00e9 ao vencimento. O resultado n\u00e3o \u00e9 um humor nem um sinal. \u00c9 uma percentagem por ano. \u00c9 uma taxa.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Um exemplo torna isto concreto. Imagine que o Bitcoin \u00e0 vista se troca a 55.405 euros e que o futuro que vence daqui a tr\u00eas meses vale 55.682 euros. A base bruta \u00e9 de 277 euros, ou 0,5%. Multiplicada por 365 e dividida por 90, d\u00e1 pouco mais de 2% ao ano. Esses 2% s\u00e3o o que o mercado cobra, em termos anualizados, a quem quer estar comprado com alavancagem atrav\u00e9s do futuro; e s\u00e3o, do outro lado, o rendimento de quem vende o futuro e compra a vista. \u00c9 uma taxa de financiamento impl\u00edcita, o equivalente cripto de um repo, a opera\u00e7\u00e3o com que a banca financia posi\u00e7\u00f5es no mercado de obriga\u00e7\u00f5es.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma propriedade que faz desta taxa algo captur\u00e1vel: a converg\u00eancia. No vencimento, o pre\u00e7o do futuro e o pre\u00e7o \u00e0 vista t\u00eam de encontrar-se, por constru\u00e7\u00e3o, porque o contrato liquida contra o spot. Isso significa que a base decai mecanicamente at\u00e9 zero \u00e0 medida que o vencimento se aproxima, independentemente do que o pre\u00e7o do Bitcoin fa\u00e7a pelo caminho. \u00c9 essa converg\u00eancia garantida que transforma a base num rendimento colh\u00edvel por quem monta a opera\u00e7\u00e3o e a leva at\u00e9 ao fim: n\u00e3o se est\u00e1 a apostar na dire\u00e7\u00e3o, est\u00e1 a colher-se o encolhimento do pr\u00e9mio ao longo do tempo.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Vista assim, a base responde a uma pergunta simples: quanto custa, ou quanto rende, adiar a entrega de um Bitcoin? Em contango, adiar custa, porque se paga um pr\u00e9mio pela exposi\u00e7\u00e3o futura. Em backwardation, adiar \u00e9 pago, porque h\u00e1 quem queira tanto vender prote\u00e7\u00e3o ou desalavancar que aceita entregar mais barato l\u00e1 \u00e0 frente. O sinal da base \u00e9 o sinal dessa taxa. E, como qualquer taxa, o seu n\u00edvel diz-nos algo sobre a oferta e a procura de dinheiro naquele mercado.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Porque \u00e9 que um mercado sem banco central precisa de uma taxa<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">No sistema tradicional, o custo do dinheiro tem um dono. O Banco Central Europeu fixa a taxa de dep\u00f3sito, a Reserva Federal fixa o intervalo dos fed funds e, a partir da\u00ed, constr\u00f3i-se toda a estrutura de juros: Euribor, obriga\u00e7\u00f5es, cr\u00e9dito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o. Na cripto n\u00e3o h\u00e1 nada disto. N\u00e3o existe autoridade monet\u00e1ria, n\u00e3o existe taxa oficial e, no entanto, o mercado precisa desesperadamente de um pre\u00e7o para o tempo e para a alavancagem. Esse pre\u00e7o emerge sozinho, das transa\u00e7\u00f5es, e chama-se base nos futuros com vencimento e funding rate nos perp\u00e9tuos.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A intui\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica \u00e9 direta. H\u00e1 quase sempre mais gente a querer estar comprada com alavancagem em Bitcoin do que gente disposta a fornecer essa alavancagem de gra\u00e7a. Quem fornece o outro lado (vende futuros, vende perp\u00e9tuos, financia a opera\u00e7\u00e3o) exige uma compensa\u00e7\u00e3o. Essa compensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a base. Quando a euforia domina e todos querem alavancagem longa, a taxa dispara: \u00e9 o que produz os 20% ou 25% anualizados dos grandes mercados em alta. Quando a procura seca ou o capital de arbitragem chega em massa, a taxa desce. \u00c9 oferta e procura de dinheiro, exatamente como no mercado monet\u00e1rio, s\u00f3 que sem comit\u00e9 de pol\u00edtica.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo mais citado sobre o tema, o Working Paper n.\u00ba 1087 do <a href='https:\/\/www.bis.org\/publ\/work1087.htm'>Banco de Pagamentos Internacionais<\/a> (intitulado \u00abCrypto carry\u00bb, de Maik Schmeling, Andreas Schrimpf e Karamfil Todorov), documenta precisamente isto: o carry da cripto rendeu, em m\u00e9dia, mais de 10% ao ano, com picos acima de 40%, e \u00e9 explicado n\u00e3o por diferenciais de taxa de juro, mas pela procura alavancada de investidores de retalho que perseguem a tend\u00eancia, combinada com capital de arbitragem limitado. Por outras palavras, a taxa da cripto \u00e9 alta quando h\u00e1 muita gente a querer apostar e pouca gente a querer financiar. \u00c9 o pre\u00e7o de um recurso escasso: o balan\u00e7o de quem faz o outro lado.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A curva a prazo da cripto: overnight, um m\u00eas, tr\u00eas meses<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Se a base \u00e9 uma taxa, ent\u00e3o h\u00e1 uma curva. E h\u00e1 mesmo. No sistema tradicional, a curva de juro vai do overnight (a taxa a um dia) at\u00e9 aos 30 anos. Na cripto, a curva \u00e9 mais curta, mas obedece \u00e0 mesma l\u00f3gica, e vale a pena desmont\u00e1-la por prazos.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">No extremo curto est\u00e1 o contrato perp\u00e9tuo. Um perp\u00e9tuo n\u00e3o vence nunca, e o mecanismo que o mant\u00e9m colado ao spot \u00e9 a funding rate: um pagamento peri\u00f3dico (a cada oito horas, na maioria das plataformas) entre longos e curtos. Quando a funding \u00e9 positiva, quem est\u00e1 comprado paga a quem est\u00e1 vendido; quando \u00e9 negativa, o inverso. \u00c9, literalmente, a taxa overnight da cripto, reposta tr\u00eas vezes por dia. Na Deribit, por exemplo, a funding est\u00e1 limitada a mais ou menos 0,5% por per\u00edodo de oito horas, um teto que impede a taxa de disparar sem limite em momentos de p\u00e2nico.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A seguir v\u00eam os futuros com vencimento: um m\u00eas, tr\u00eas meses, seis meses. S\u00e3o as taxas a prazo. A rela\u00e7\u00e3o entre elas desenha a inclina\u00e7\u00e3o da curva. Numa fase de otimismo, a curva sobe: quanto mais longe o vencimento, maior a base anualizada, porque h\u00e1 mais tempo para a euforia render. Em stress, a curva achata-se ou inverte-se, com os prazos curtos a pagar mais (ou a ficar negativos) do que os longos. Ler a curva da cripto \u00e9, em tudo, ler a curva de juro de uma pequena economia.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Instrumento<\/th><th>Prazo<\/th><th>Reposi\u00e7\u00e3o ou vencimento<\/th><th>Taxa anualizada (aprox., ago. 2026)<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Perp\u00e9tuo (funding rate)<\/td><td>Sem vencimento<\/td><td>Cada 8 horas (teto Deribit \u00b10,5%)<\/td><td>Pr\u00f3xima de neutra, ligeiramente positiva<\/td><\/tr><tr><td>Futuro a 1 m\u00eas<\/td><td>Cerca de 30 dias<\/td><td>Vencimento mensal<\/td><td>1,5% a 2%<\/td><\/tr><tr><td>Futuro a 3 meses<\/td><td>Cerca de 90 dias<\/td><td>Vencimento trimestral<\/td><td>Cerca de 2%<\/td><\/tr><tr><td>Futuro a 6 meses<\/td><td>Cerca de 180 dias<\/td><td>Vencimento semestral<\/td><td>2% a 2,5%<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><figcaption class='wp-block-table__caption'>A curva a prazo da cripto, do overnight dos perp\u00e9tuos ao termo dos futuros. Valores ilustrativos; leitura em tempo real na <a href='https:\/\/cryptoquant.com\/asset\/btc\/chart\/derivatives\/cme-futures-annualized-basis'>CryptoQuant<\/a>.<\/figcaption><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>Ler a curva: contango, backwardation e o que dizem os regimes<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A forma da curva conta uma hist\u00f3ria, e os \u00faltimos dois anos deram exemplos de manual. Em fevereiro de 2024, logo ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o dos ETF \u00e0 vista nos Estados Unidos, a base anualizada a tr\u00eas meses da CME chegou perto dos 25%. Em novembro de 2024, no rescaldo das elei\u00e7\u00f5es norte-americanas, voltou a passar dos 20%. Eram curvas de contango acentuado: o mercado pagava car\u00edssimo para estar comprado a prazo, sinal de procura alavancada em massa.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Depois veio o outro extremo. Em fevereiro de 2025, a base chegou a ficar negativa, em backwardation, um regime raro que costuma coincidir com desalavancagem for\u00e7ada e vendas em cascata. E em agosto de 2026 a base instalou-se num n\u00edvel baixo, \u00e0 volta dos 2% anualizados, mas por uma raz\u00e3o diferente do p\u00e2nico: excesso de capital de arbitragem e procura alavancada morna. A mesma taxa baixa pode significar coisas opostas conforme o contexto, e \u00e9 por isso que a base se l\u00ea sempre com a curva inteira \u00e0 frente, n\u00e3o com um n\u00famero isolado.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Momento<\/th><th>Base anualizada (cerca de 3 meses)<\/th><th>Contexto<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Fevereiro 2024<\/td><td>Cerca de 25%<\/td><td>P\u00f3s-aprova\u00e7\u00e3o dos ETF \u00e0 vista nos EUA<\/td><\/tr><tr><td>Novembro 2024<\/td><td>Mais de 20%<\/td><td>Euforia p\u00f3s-elei\u00e7\u00f5es norte-americanas<\/td><\/tr><tr><td>Fevereiro 2025<\/td><td>Abaixo de 0%<\/td><td>Backwardation, desalavancagem for\u00e7ada<\/td><\/tr><tr><td>Agosto 2026<\/td><td>Cerca de 2%<\/td><td>Abaixo do juro sem risco, excesso de arbitragem<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><figcaption class='wp-block-table__caption'>Regimes da base CME nos \u00faltimos dois anos. Fontes: <a href='https:\/\/www.cfbenchmarks.com\/blog\/revisiting-the-bitcoin-basis-how-momentum-sentiment-impact-the-structural-drivers-of-basis-activity'>CF Benchmarks<\/a> e <a href='https:\/\/cryptoquant.com\/asset\/btc\/chart\/derivatives\/cme-futures-annualized-basis'>CryptoQuant<\/a>.<\/figcaption><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">A leitura fina \u00e9 esta: uma base muito alta n\u00e3o \u00e9 bom press\u00e1gio, \u00e9 um aviso de excesso de alavancagem que costuma preceder desalavancagens violentas; uma base negativa n\u00e3o \u00e9 o fim do mundo, \u00e9 muitas vezes o ponto de exaust\u00e3o dos vendedores. Como em qualquer curva de juro, os extremos dizem mais do que o meio.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O spread sobre o ativo sem risco<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui chegamos ao ponto mais importante e ao mais mal compreendido. Uma taxa de juro nunca se avalia sozinha; avalia-se contra o ativo sem risco. Um investidor racional s\u00f3 monta um cash-and-carry de Bitcoin se este render mais do que a alternativa mais segura que tem \u00e0 m\u00e3o: um Bilhete do Tesouro, um fundo do mercado monet\u00e1rio, um dep\u00f3sito. A base tem de pagar um spread sobre o juro sem risco, porque a opera\u00e7\u00e3o, por muito \u00abneutra ao pre\u00e7o\u00bb que seja, carrega riscos que o Tesouro n\u00e3o tem: risco de contraparte da corretora, risco de liquida\u00e7\u00e3o da margem, risco de a converg\u00eancia falhar no vencimento.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Vale a pena abrir esse spread, porque ele paga, em teoria, quatro coisas ao mesmo tempo: o risco de a corretora falhar ou congelar levantamentos (algo que a FTX ensinou a n\u00e3o subestimar), o risco de uma vela violenta liquidar a perna curta antes da converg\u00eancia, o custo de imobilizar capital e margem durante meses e o simples pr\u00e9mio de escassez de quem est\u00e1 disposto a fazer o outro lado. Quando esse spread encolhe para zero, n\u00e3o \u00e9 que os riscos tenham desaparecido; \u00e9 que o mercado deixou de os remunerar. E um risco n\u00e3o remunerado \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de um mau neg\u00f3cio.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 aqui que 2026 se torna estranho. Em agosto, um Bilhete do Tesouro norte-americano a tr\u00eas meses rendia 3,79% (dados da <a href='https:\/\/tradingeconomics.com\/united-states\/3-month-bill-yield'>Trading Economics<\/a>), a Euribor a tr\u00eas meses estava em 2,50% (<a href='https:\/\/www.euribor-rates.eu\/en\/current-euribor-rates\/2\/euribor-rate-3-months\/'>euribor-rates.eu<\/a>) e a taxa de dep\u00f3sito do BCE em 2,00%. A base do Bitcoin, essa, rondava os 2% anualizados. Ou seja: a taxa de juro da cripto caiu abaixo da taxa de juro do d\u00f3lar. O pr\u00e9mio pelo risco desapareceu e, com ele, a raz\u00e3o de ser da opera\u00e7\u00e3o.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Refer\u00eancia<\/th><th>Taxa anualizada (ago. 2026)<\/th><th>Moeda<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Base CME Bitcoin (3 meses)<\/td><td>Cerca de 2%<\/td><td>USD<\/td><\/tr><tr><td>Bilhete do Tesouro EUA (3 meses)<\/td><td>3,79%<\/td><td>USD<\/td><\/tr><tr><td>Euribor a 3 meses<\/td><td>2,50%<\/td><td>EUR<\/td><\/tr><tr><td>Taxa de dep\u00f3sito do BCE<\/td><td>2,00%<\/td><td>EUR<\/td><\/tr><tr><td>sUSDe (rendimento Ethena)<\/td><td>4% a 4,5%<\/td><td>USD<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><figcaption class='wp-block-table__caption'>Quando o carry cripto rende menos do que o juro sem risco. Fontes: <a href='https:\/\/tradingeconomics.com\/united-states\/3-month-bill-yield'>Trading Economics<\/a>, <a href='https:\/\/www.euribor-rates.eu\/en\/current-euribor-rates\/2\/euribor-rate-3-months\/'>euribor-rates.eu<\/a> e <a href='https:\/\/www.forbes.com\/sites\/digital-assets\/2026\/06\/15\/ethenas-usde-pays-yield-legally-and-the-genius-act-has-no-answer-for-it\/'>Forbes<\/a>.<\/figcaption><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">A implica\u00e7\u00e3o \u00e9 dura. Se o cash-and-carry rende 2% e um Bilhete do Tesouro rende 3,79%, um fundo que fa\u00e7a a opera\u00e7\u00e3o est\u00e1 a ser pago para correr risco de cripto menos do que se n\u00e3o corresse risco nenhum. N\u00e3o admira que tantos tenham desmontado a posi\u00e7\u00e3o. Como argument\u00e1mos no texto <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/base-futuros-nao-e-dinheiro-gratis-carry-2026\/'>\u00abA base dos futuros n\u00e3o \u00e9 dinheiro gr\u00e1tis\u00bb<\/a>, depois de descontar custos de execu\u00e7\u00e3o, margem e capital, a base l\u00edquida de 2026 aproxima-se de zero. A base bruta \u00e9 uma ilus\u00e3o de \u00f3tica; a base l\u00edquida, contra o juro sem risco, \u00e9 o que realmente interessa.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>2026, o ano em que o pr\u00e9mio evaporou<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Como \u00e9 que uma taxa que pagava 25% caiu para 2% em pouco mais de um ano? A resposta tem dois motores. O primeiro \u00e9 estrutural: os ETF \u00e0 vista democratizaram a perna comprada da opera\u00e7\u00e3o. Antes, montar um cash-and-carry exigia infraestrutura para comprar e custodiar Bitcoin; depois dos ETF, basta comprar um fundo cotado e vender o futuro contra ele. Quando montar a opera\u00e7\u00e3o fica trivial, mais capital acorre, e mais capital comprime o pr\u00e9mio. \u00c9 a mec\u00e2nica de qualquer arbitragem: quanto mais f\u00e1cil, menos rende.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo motor foi o grande desalavancar de 2026. Os dados do relat\u00f3rio <a href='https:\/\/coinshares.com\/insights\/research-data\/bitcoin-13f-q1-2026-report\/'>Bitcoin 13F do primeiro trimestre da CoinShares<\/a> mostram fundos de cobertura a cortar 31.400 BTC de exposi\u00e7\u00e3o via ETF, uma queda de 39% num \u00fanico trimestre, enquanto a banca norte-americana fazia o contr\u00e1rio e refor\u00e7ava posi\u00e7\u00f5es (o JPMorgan somou cerca de 3.000 BTC e o Wells Fargo cerca de 4.000). Os pesados resgates de ETF de 2026 n\u00e3o foram, na leitura de quem olha para os dados, uma fuga do Bitcoin, mas o desmontar de uma arbitragem que deixou de compensar.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Michael Marshall, respons\u00e1vel de investiga\u00e7\u00e3o da Amberdata, resumiu o padr\u00e3o a prop\u00f3sito do epis\u00f3dio an\u00e1logo do final de 2025, quando quase 4 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares sa\u00edram dos ETF: as vendas estavam \u00abaltamente concentradas em poucos emitentes e ligadas a um desmonte mec\u00e2nico do basis trade, n\u00e3o a um medo generalizado dos investidores\u00bb, e o open interest dos perp\u00e9tuos caiu 37,7% quase em sincronia, com uma correla\u00e7\u00e3o de 0,878 com os movimentos da base (declara\u00e7\u00f5es \u00e0 <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/markets\/2025\/12\/04\/usd4b-bitcoin-etf-outflows-in-oct-nov-reflect-basis-trade-unwind-not-capitulation-research-analyst'>CoinDesk<\/a>). O mercado, dizia ele, ficou \u00abmuito mais limpo\u00bb. \u00c9 a assinatura de uma taxa que desce por satura\u00e7\u00e3o de arbitragem, n\u00e3o por colapso de convic\u00e7\u00e3o.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O carry que virou d\u00f3lar: a Ethena e o USDe<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Se a base \u00e9 uma taxa, algu\u00e9m, mais cedo ou mais tarde, ia querer vend\u00ea-la como um produto de poupan\u00e7a. Foi exatamente o que a Ethena fez. O USDe, o d\u00f3lar sint\u00e9tico da Ethena, n\u00e3o \u00e9 lastreado em dinheiro nem em Bilhetes do Tesouro guardados num banco. \u00c9 lastreado, na origem, por uma opera\u00e7\u00e3o de base: compra-se cripto \u00e0 vista e vende-se a descoberto um perp\u00e9tuo de igual nocional. A cobertura anula a exposi\u00e7\u00e3o ao pre\u00e7o, e o que fica \u00e9 o rendimento (a funding dos perp\u00e9tuos mais o staking da perna \u00e0 vista) a acumular para quem det\u00e9m a vers\u00e3o remunerada, o sUSDe.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Por outras palavras, o USDe \u00e9 o cash-and-carry embrulhado num token. \u00c9 a taxa de juro da cripto transformada numa stablecoin que rende. E o mercado adorou: no auge de 2025, o USDe superou os 14 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em circula\u00e7\u00e3o, tornando-se um dos maiores d\u00f3lares digitais do mundo, \u00e0 frente de quase todos os concorrentes exceto os gigantes lastreados em fiduci\u00e1rio. Em meados de 2026, depois do grande desalavancar de outubro de 2025, a oferta assentou \u00e0 volta dos 5 mil milh\u00f5es (dados e enquadramento da <a href='https:\/\/www.forbes.com\/sites\/digital-assets\/2026\/06\/15\/ethenas-usde-pays-yield-legally-and-the-genius-act-has-no-answer-for-it\/'>Forbes<\/a>).<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>M\u00e9trica do USDe<\/th><th>Pico (2025)<\/th><th>Agosto 2026<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Oferta em circula\u00e7\u00e3o<\/td><td>Mais de 14 mil M$<\/td><td>Cerca de 5 mil M$<\/td><\/tr><tr><td>Rendimento do sUSDe<\/td><td>Dois d\u00edgitos<\/td><td>4% a 4,5%<\/td><\/tr><tr><td>Peso do basis trade no lastro<\/td><td>Dominante<\/td><td>Minorit\u00e1rio (mais RWA)<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><figcaption class='wp-block-table__caption'>O carry transformado em produto: o USDe da Ethena antes e depois da compress\u00e3o. Fonte: <a href='https:\/\/www.forbes.com\/sites\/digital-assets\/2026\/06\/15\/ethenas-usde-pays-yield-legally-and-the-genius-act-has-no-answer-for-it\/'>Forbes<\/a>.<\/figcaption><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">A parte reflexiva desta hist\u00f3ria \u00e9 a mais interessante. Quando qualquer pessoa pode capturar o carry comprando um token, a procura por esse carry sobe e o pr\u00f3prio carry comprime-se. A Ethena industrializou a base e, ao faz\u00ea-lo, ajudou a esprem\u00ea-la. O rendimento do sUSDe, que j\u00e1 foi de dois d\u00edgitos, caiu para cerca de 4% no in\u00edcio de 2026 e manteve-se em torno dos 4% a 4,5% depois disso, \u00e0 medida que a funding dos perp\u00e9tuos encolhia. A stablecoin que vivia da base come\u00e7ou a ficar sem base para viver.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um sen\u00e3o que a euforia de 2024 e 2025 tendia a esquecer: a base pode ficar negativa. Quando a funding dos perp\u00e9tuos vira em baixo, a opera\u00e7\u00e3o delta-neutra deixa de receber e passa a pagar, e o rendimento do sUSDe pode aproximar-se de zero ou tornar-se negativo antes que o mecanismo de reservas absorva o choque. Foi parte do que se viu no desalavancar de outubro de 2025, quando a oferta do USDe encolheu com a mesma rapidez com que tinha crescido. Uma stablecoin constru\u00edda sobre uma taxa de mercado herda a volatilidade dessa taxa, e a Ethena passou boa parte de 2026 a tentar reduzir essa depend\u00eancia.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Quando a base seca, muda-se de dieta: o desvio para os RWA<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Uma taxa que se aproxima de zero obriga a repensar o modelo de neg\u00f3cio. Ao longo de 2026, a Ethena reconstruiu o lastro do USDe, e a opera\u00e7\u00e3o de base, que definia o protocolo, passou a ser uma parte menor da reserva. O caminho foi o mesmo que boa parte do setor est\u00e1 a percorrer: ativos do mundo real (real-world assets, ou RWA), sobretudo d\u00edvida de curto prazo e fundos do mercado monet\u00e1rio tokenizados. Se o carry cripto rende menos do que um Bilhete do Tesouro, ent\u00e3o mais vale ter o Bilhete do Tesouro.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A Ethena formalizou isso com um produto irm\u00e3o, o USDtb, que incorpora um fundo do mercado monet\u00e1rio tokenizado da BlackRock e foi desenhado para caber nas regras norte-americanas de stablecoins. Aqui h\u00e1 uma subtileza regulat\u00f3ria que a <a href='https:\/\/www.forbes.com\/sites\/digital-assets\/2026\/06\/15\/ethenas-usde-pays-yield-legally-and-the-genius-act-has-no-answer-for-it\/'>Forbes<\/a> sublinhou: como o rendimento do USDe vem de derivados e n\u00e3o de reservas fiduci\u00e1rias, escapa \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o de juro que a GENIUS Act imp\u00f4s \u00e0s stablecoins de pagamento. A base, por ser uma taxa de mercado e n\u00e3o um juro pago sobre dep\u00f3sitos, encontra uma porta legal que as stablecoins cl\u00e1ssicas n\u00e3o t\u00eam. Toda esta engenharia \u00e9, no fundo, uma resposta \u00e0 mesma pergunta: onde \u00e9 que ainda h\u00e1 rendimento quando o pr\u00e9mio da base desaparece?<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A base como sinal macro: Fed, BCE e a concorr\u00eancia de rendimentos<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Ver a base como taxa liga-a diretamente \u00e0 macroeconomia, e \u00e9 aqui que a cripto de 2026 se comporta menos como um bicho ex\u00f3tico e mais como qualquer outro ativo financeiro. A base compete por capital com todos os outros rendimentos dispon\u00edveis: o staking de Ethereum, os Bilhetes do Tesouro, os dep\u00f3sitos remunerados, o rendimento das pr\u00f3prias stablecoins. Existe, na pr\u00e1tica, uma curva de rendimentos da cripto, e o dinheiro flui para onde o retorno ajustado ao risco for melhor.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Isso torna a base sens\u00edvel \u00e0 pol\u00edtica monet\u00e1ria. Quando a Reserva Federal (agora sob a presid\u00eancia de Kevin Warsh, com a pr\u00f3xima reuni\u00e3o do FOMC marcada para setembro) corta juros, o Bilhete do Tesouro rende menos e o carry cripto, mesmo baixo, volta a parecer competitivo em termos relativos. Quando os juros sobem, acontece o inverso e a base perde atratividade. Do lado europeu, com a Euribor a 2,50% e o BCE em 2,00%, o mesmo racioc\u00ednio aplica-se em euros. Como explor\u00e1mos em <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/cripto-ativo-macro-perspetiva-fim-de-ano-2026\/'>\u00abCripto virou ativo macro\u00bb<\/a>, o Bitcoin deixou de negociar num v\u00e1cuo: a sua taxa de financiamento conversa com a taxa dos bancos centrais.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A leitura pr\u00e1tica para o investidor \u00e9 que a base n\u00e3o se interpreta apenas contra o humor do mercado, mas contra o custo de oportunidade. Uma base de 2% num mundo de Tesouros a 4% \u00e9 cara em risco e pobre em retorno; a mesma base de 2% num mundo de Tesouros a 1% seria outra conversa. A taxa da cripto s\u00f3 faz sentido em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 taxa do dinheiro que lhe est\u00e1 por baixo.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>ETF, fluxos e a reflexividade da base<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma dan\u00e7a circular entre os fluxos dos ETF e a base que vale a pena isolar, porque \u00e9 o motor mec\u00e2nico de quase tudo o resto. Quando entra dinheiro nos ETF \u00e0 vista, o pre\u00e7o spot sobe e a base tende a alargar, porque cresce a procura por exposi\u00e7\u00e3o alavancada e o contango acentua-se. Esse alargamento atrai a opera\u00e7\u00e3o de cash-and-carry, que vende futuros para capturar o pr\u00e9mio, o que por sua vez limita a subida da base. O fluxo puxa a base, a base puxa a arbitragem, a arbitragem trava a base. \u00c9 um term\u00f3stato.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Os n\u00fameros confirmam a escala. Segundo a <a href='https:\/\/www.cfbenchmarks.com\/blog\/revisiting-the-bitcoin-basis-how-momentum-sentiment-impact-the-structural-drivers-of-basis-activity'>CF Benchmarks<\/a>, o open interest dos futuros cresceu mais de 83% desde o lan\u00e7amento dos ETF \u00e0 vista, sinal de quanto capital de base entrou no sistema. Quando esse capital reflui, como aconteceu em 2026, a base afunda e os resgates de ETF sucedem-se, sem que isso signifique medo. Para quem quiser perceber quanto \u00e9 que estes fluxos mexem mesmo no pre\u00e7o, vale a leitura de <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/fluxos-etf-impacto-preco-multiplicador-2026\/'>\u00abFluxos de ETF\u00bb<\/a>, que separa o efeito mec\u00e2nico do efeito narrativo.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Onde vive a base: CME, Deribit, perp\u00e9tuos e on-chain<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A base n\u00e3o existe num s\u00edtio s\u00f3, e a sua geografia mudou muito em 2026. A refer\u00eancia institucional continua a ser a CME, o mercado regulado onde os grandes fundos operam. E a CME deu um passo importante: desde o final de maio de 2026, os seus futuros e op\u00e7\u00f5es de cripto negoceiam 24 horas por dia, sete dias por semana, com uma janela de manuten\u00e7\u00e3o de duas horas por semana. Acabou o \u00abgap de fim de semana\u00bb que distorcia a base quando a CME fechava e o resto do mundo continuava a negociar.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Tim McCourt, respons\u00e1vel global de a\u00e7\u00f5es, c\u00e2mbios e produtos alternativos da CME, justificou a mudan\u00e7a: \u00abAo oferecer liquidez cont\u00ednua durante o fim de semana, estamos a responder \u00e0 procura dos clientes e a fechar o fosso entre os mercados regulados tradicionais e a natureza 24\/7 dos ativos cripto\u00bb (<a href='https:\/\/www.cmegroup.com\/media-room\/press-releases\/2026\/6\/01\/cme_group_announceslaunchof247cryptocurrencyfuturesandoptionstra.html'>comunicado da CME<\/a>). Uma base que j\u00e1 n\u00e3o fecha ao fim de semana \u00e9 uma taxa mais cont\u00ednua e menos sujeita a saltos artificiais.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">No mesmo m\u00eas, a fronteira regulat\u00f3ria avan\u00e7ou noutra dire\u00e7\u00e3o. A 29 de maio de 2026, a CFTC aprovou o contrato BTCPERP da Kalshi, o primeiro perp\u00e9tuo de Bitcoin regulado nos Estados Unidos. O presidente da CFTC, Mike Selig, chamou-lhe \u00abum passo importante\u00bb para \u00abconsolidar a Am\u00e9rica como a capital mundial da cripto\u00bb (declara\u00e7\u00f5es reproduzidas pela <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/policy\/2026\/05\/28\/u-s-cftc-opens-crypto-perp-door-with-approval-of-first-regulated-firm'>CoinDesk<\/a>). Trazer o perp\u00e9tuo, e portanto a funding rate, para dentro de um mercado regulado \u00e9 trazer a taxa overnight da cripto para debaixo de supervis\u00e3o.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">E depois h\u00e1 a fronteira on-chain, onde os perp\u00e9tuos descentralizados criaram a sua pr\u00f3pria funding rate, muitas vezes desligada da dos mercados centralizados. A Hyperliquid e os seus concorrentes movem hoje volumes que rivalizam com corretoras estabelecidas, como cont\u00e1mos em <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/perp-dex-guerra-onchain-hyperliquid-2026\/'>\u00abPerp DEX\u00bb<\/a>. A base, hoje, \u00e9 uma taxa fragmentada por dezenas de plataformas, e a arbitragem entre elas \u00e9 um neg\u00f3cio por si s\u00f3.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A base prev\u00ea o mercado? Coincidente, n\u00e3o l\u00edder<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Uma tenta\u00e7\u00e3o recorrente \u00e9 usar a base como bola de cristal: base alta, vender; base baixa, comprar. Os dados desanimam essa esperan\u00e7a. A investiga\u00e7\u00e3o de Mark Pilipczuk, da <a href='https:\/\/www.cfbenchmarks.com\/blog\/revisiting-the-bitcoin-basis-how-momentum-sentiment-impact-the-structural-drivers-of-basis-activity'>CF Benchmarks<\/a>, mostra que a base \u00e9 coincidente com o momentum, n\u00e3o l\u00edder: correlaciona-se em torno de 0,50 com o z-score do MACD e 0,54 com o z-score a 90 dias dos retornos a 30 dias. A base n\u00e3o antecipa o pre\u00e7o; acompanha-o, com o momentum a mover-se primeiro e a base a seguir dias depois.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Onde a base tem valor informativo \u00e9 como medidor de multid\u00e3o. Em regime de gan\u00e2ncia extrema (o \u00edndice de medo e gan\u00e2ncia acima de 0,75), a base costuma disparar para os 15% a 30% anualizados, e n\u00edveis assim raramente duram. Uma base extrema \u00e9 menos uma previs\u00e3o e mais um term\u00f3metro de aglomera\u00e7\u00e3o: diz que muita gente est\u00e1 do mesmo lado, o que aumenta o risco de uma desalavancagem. \u00c9 \u00fatil como aviso de excesso, n\u00e3o como gatilho de entrada.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Portugal, a CMVM e a Europa: a base encontra a regula\u00e7\u00e3o<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Para o investidor portugu\u00eas, h\u00e1 uma fronteira jur\u00eddica que conv\u00e9m conhecer antes de sequer pensar em capturar a base. Futuros e perp\u00e9tuos de cripto s\u00e3o instrumentos financeiros e caem sob a DMIF II (a diretiva dos mercados de instrumentos financeiros), com supervis\u00e3o da <a href='https:\/\/www.cmvm.pt'>CMVM<\/a>. N\u00e3o est\u00e3o abrangidos pelo MiCA, que regula apenas os ativos \u00e0 vista e os prestadores de servi\u00e7os de criptoativos (os CASP). \u00c9 uma distin\u00e7\u00e3o que confunde muita gente: o Bitcoin \u00e0 vista \u00e9 MiCA; o futuro de Bitcoin \u00e9 DMIF II.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A ESMA foi mais longe e, no in\u00edcio de 2026, esclareceu que os contratos perp\u00e9tuos se equiparam a CFD para efeitos da DMIF II, o que os sujeita aos limites de alavancagem de retalho j\u00e1 em vigor para esses produtos (2:1 na cripto). Na pr\u00e1tica, um investidor de retalho na Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o pode usar a alavancagem agressiva que as plataformas offshore anunciam. E h\u00e1 uma raz\u00e3o de fundo: capturar a base l\u00edquida exige escala, margem eficiente e capital barato, vantagens que quase s\u00f3 as institui\u00e7\u00f5es t\u00eam.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">No plano nacional, o per\u00edodo transit\u00f3rio do MiCA para os prestadores portugueses terminou a 1 de julho de 2026, e a supervis\u00e3o \u00e9 partilhada: o Banco de Portugal autoriza e regista os CASP e trata das stablecoins, enquanto a CMVM cuida da conduta de mercado. A lei de execu\u00e7\u00e3o \u00e9 a Lei n.\u00ba 69\/2025, com coimas que podem chegar aos 5 milh\u00f5es de euros. Quem negoceia derivados de cripto a partir de Portugal faz duas viagens regulat\u00f3rias ao mesmo tempo: a do ativo (MiCA) e a do instrumento (DMIF II).<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O que vigiar at\u00e9 ao fim de 2026<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta que fica \u00e9 se o pr\u00e9mio da base volta. H\u00e1 tr\u00eas coisas a observar. A primeira \u00e9 a pol\u00edtica monet\u00e1ria: se a Reserva Federal cortar juros na reuni\u00e3o de setembro, o custo de oportunidade da base desce e a opera\u00e7\u00e3o pode voltar a parecer atrativa, mesmo sem a base subir. A segunda \u00e9 a procura alavancada: sem uma nova onda de euforia (a sazonalidade de fim de ano \u00e9 candidata, como discutimos em <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/uptober-fim-de-ano-cripto-sazonalidade-2026\/'>\u00abUptober e o fim de ano cripto\u00bb<\/a>), a base dificilmente sai dos d\u00edgitos baixos.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A terceira \u00e9 estrutural e \u00e9 a mais interessante: at\u00e9 onde vai a produtiza\u00e7\u00e3o da base. Se protocolos como a Ethena continuarem a migrar para RWA, a base cripto pura perde o seu maior comprador natural, o que a mant\u00e9m comprimida; se, pelo contr\u00e1rio, uma nova vaga de procura fizer a funding disparar, o carry volta a ser rent\u00e1vel e o dinheiro regressa. A taxa de juro da cripto est\u00e1, neste momento, no ponto mais baixo e mais interessante do seu curto ciclo de vida: baixa demais para compensar o risco, importante demais para desaparecer.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Perguntas frequentes<\/h2><h3 class='wp-block-heading'>O que \u00e9 a base dos futuros em cripto?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">A base \u00e9 a diferen\u00e7a entre o pre\u00e7o do futuro e o pre\u00e7o \u00e0 vista. Anualizada, funciona como uma taxa de juro: mede o custo de financiar uma posi\u00e7\u00e3o longa alavancada e o rendimento de quem faz a opera\u00e7\u00e3o inversa. Base positiva chama-se contango; base negativa, backwardation.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>Porque \u00e9 que a base dos futuros caiu tanto em 2026?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Porque o capital de arbitragem ficou abundante e a procura alavancada arrefeceu. Com os ETF \u00e0 vista, ficou trivial montar o cash-and-carry em escala, o que comprimiu o pr\u00e9mio. Em agosto de 2026 a base a tr\u00eas meses rondava os 2%, abaixo dos 3,79% de um Bilhete do Tesouro a tr\u00eas meses.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>A base dos futuros \u00e9 o mesmo que a funding rate dos perp\u00e9tuos?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o primas da mesma fam\u00edlia. A funding rate \u00e9 a base dos contratos perp\u00e9tuos, que n\u00e3o vencem; paga-se a cada oito horas e comporta-se como a taxa overnight da cripto. A base dos futuros trimestrais \u00e9 a taxa a prazo. Juntas, formam a curva de juro do mercado.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>O que \u00e9 o USDe da Ethena e o que tem a ver com a base?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">O USDe \u00e9 um d\u00f3lar sint\u00e9tico cujo lastro \u00e9, na origem, uma opera\u00e7\u00e3o de base: compra do ativo \u00e0 vista e venda a descoberto de um perp\u00e9tuo de igual nocional. Ao empacotar o carry, a Ethena transformou a base num produto de rendimento. Com o pr\u00e9mio comprimido em 2026, come\u00e7ou a diversificar para ativos do mundo real.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>Como pode um investidor em Portugal aceder \u00e0 base dos futuros?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Futuros e perp\u00e9tuos s\u00e3o instrumentos financeiros sob a DMIF II, supervisionados pela CMVM, e ficam fora do MiCA. A ESMA equipara os perp\u00e9tuos a CFD, com alavancagem de retalho limitada a 2:1 na cripto. Capturar a base l\u00edquida exige escala, margem eficiente e capital barato, vantagens que o retalho raramente tem.<\/p><script type='application\/ld+json'>{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@type\":\"FAQPage\",\"mainEntity\":[{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"O que \u00e9 a base dos futuros em cripto?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"A base \u00e9 a diferen\u00e7a entre o pre\u00e7o do futuro e o pre\u00e7o \u00e0 vista. Anualizada, funciona como uma taxa de juro: mede o custo de financiar uma posi\u00e7\u00e3o longa alavancada e o rendimento de quem faz a opera\u00e7\u00e3o inversa. Base positiva chama-se contango; base negativa, backwardation.\"}},{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"Porque \u00e9 que a base dos futuros caiu tanto em 2026?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"Porque o capital de arbitragem ficou abundante e a procura alavancada arrefeceu. Com os ETF \u00e0 vista, ficou trivial montar o cash-and-carry em escala, o que comprimiu o pr\u00e9mio. Em agosto de 2026 a base a tr\u00eas meses rondava os 2%, abaixo dos 3,79% de um Bilhete do Tesouro a tr\u00eas meses.\"}},{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"A base dos futuros \u00e9 o mesmo que a funding rate dos perp\u00e9tuos?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"S\u00e3o primas da mesma fam\u00edlia. A funding rate \u00e9 a base dos contratos perp\u00e9tuos, que n\u00e3o vencem; paga-se a cada oito horas e comporta-se como a taxa overnight da cripto. A base dos futuros trimestrais \u00e9 a taxa a prazo. Juntas, formam a curva de juro do mercado.\"}},{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"O que \u00e9 o USDe da Ethena e o que tem a ver com a base?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"O USDe \u00e9 um d\u00f3lar sint\u00e9tico cujo lastro \u00e9, na origem, uma opera\u00e7\u00e3o de base: compra do ativo \u00e0 vista e venda a descoberto de um perp\u00e9tuo de igual nocional. Ao empacotar o carry, a Ethena transformou a base num produto de rendimento. Com o pr\u00e9mio comprimido em 2026, come\u00e7ou a diversificar para ativos do mundo real.\"}},{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"Como pode um investidor em Portugal aceder \u00e0 base dos futuros?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"Futuros e perp\u00e9tuos s\u00e3o instrumentos financeiros sob a DMIF II, supervisionados pela CMVM, e ficam fora do MiCA. A ESMA equipara os perp\u00e9tuos a CFD, com alavancagem de retalho limitada a 2:1 na cripto. Capturar a base l\u00edquida exige escala, margem eficiente e capital barato, vantagens que o retalho raramente tem.\"}}]}<\/script><p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Liam Brennan \u00e9 editor de mercados da HOGE Wire e escreve sobre estrutura de mercado, derivados e a fronteira entre a cripto e a macroeconomia.<\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A base dos futuros n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 arbitragem ou humor do mercado: \u00e9 a taxa de juro de um sistema sem banco central. Em 2026, esse juro caiu abaixo do Tesouro e virou d\u00f3lar sint\u00e9tico.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":324,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-323","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-markets"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/323","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=323"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/323\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/324"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=323"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=323"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=323"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}