{"id":338,"date":"2026-08-21T04:42:28","date_gmt":"2026-08-21T04:42:28","guid":{"rendered":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/culto-do-builder-quem-constroi-cripto-2026\/"},"modified":"2026-08-21T04:42:28","modified_gmt":"2026-08-21T04:42:28","slug":"culto-do-builder-quem-constroi-cripto-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/culto-do-builder-quem-constroi-cripto-2026\/","title":{"rendered":"O culto do builder: quem constr\u00f3i a cripto e a hora da verdade"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma palavra que, dentro da cripto, vale mais do que qualquer cargo impresso num cart\u00e3o de visita. N\u00e3o \u00e9 CEO, n\u00e3o \u00e9 fundador, n\u00e3o \u00e9 investidor. \u00c9 \u00abbuilder\u00bb. Quem constr\u00f3i ganha o direito de ser levado a s\u00e9rio; quem apenas especula \u00e9, na melhor das hip\u00f3teses, tolerado. Durante mais de uma d\u00e9cada, o setor transformou o ato de escrever c\u00f3digo, desenhar protocolos e \u00abenviar\u00bb produto (o famoso \u00abship\u00bb) numa forma de estatuto quase moral. O builder \u00e9 o her\u00f3i da narrativa, o adulto na sala, a prova de que por tr\u00e1s dos gr\u00e1ficos e dos memes h\u00e1 gente a construir algo que fica.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2026, esse estatuto foi posto \u00e0 prova como nunca. O rosto mais vis\u00edvel da cultura builder, Jesse Pollak, da Base, admitiu em p\u00fablico que apostou no lado errado. A principal m\u00e1quina de financiar bens p\u00fablicos do Ethereum, o RetroPGF da Optimism, entrou em pausa. E a Europa fechou a porta ao improviso com o fim do per\u00edodo transit\u00f3rio da MiCA. Este texto \u00e9 um perfil do builder enquanto classe: de onde vem o mito, quem o paga, que arqu\u00e9tipos esconde e o que a hora da verdade deste ano revela sobre a pessoa por tr\u00e1s do commit.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O que \u00e9, afinal, um builder?<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra chega em ingl\u00eas e fica em ingl\u00eas, mesmo quando toda a frase \u00e0 volta \u00e9 portuguesa. Num grupo de Telegram em Lisboa, no Porto ou em S\u00e3o Paulo, quase ningu\u00e9m traduz \u00abbuilder\u00bb por \u00abconstrutor\u00bb: o termo importado carrega uma aura que a tradu\u00e7\u00e3o perde. Na pr\u00e1tica, designa qualquer pessoa que entrega. O core dev que mant\u00e9m um cliente de Ethereum, o autor de uma biblioteca de ferramentas, o fundador que lan\u00e7a uma aplica\u00e7\u00e3o, o investigador que publica um paper, por vezes at\u00e9 o respons\u00e1vel de comunidade que desenha incentivos. O denominador comum n\u00e3o \u00e9 o cargo, \u00e9 o verbo: construir.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O curioso \u00e9 que a palavra est\u00e1 sobrecarregada. No jarg\u00e3o do MEV, \u00abbuilder\u00bb significa outra coisa por completo: a entidade que monta blocos de Ethereum, ordenando transa\u00e7\u00f5es para extrair valor, num mercado de leil\u00f5es em milissegundos que j\u00e1 <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/mev-pfof-cripto-guerra-ordem-de-fluxo-2026\/'>funciona como o PFOF da cripto<\/a>. O mesmo voc\u00e1bulo cobre um engenheiro de Solidity idealista e um agente que lucra a reorganizar a ordem do fluxo. Culturalmente, por\u00e9m, \u00abbuilder\u00bb \u00e9 menos um trabalho e mais um crach\u00e1 de identidade: \u00abwe are all builders here\u00bb, \u00abbuilder szn\u00bb, \u00abgo build\u00bb. \u00c9 uma forma de dizer \u00abeu perten\u00e7o, eu contribuo, n\u00e3o estou aqui s\u00f3 para extrair\u00bb.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Conv\u00e9m separar \u00abbuilder\u00bb de duas figuras vizinhas com que \u00e9 muitas vezes confundido. O fundador \u00e9 quem cria a empresa e capta capital, um papel que pode ou n\u00e3o envolver construir de facto; o investidor aloca dinheiro e assume risco financeiro, sem tocar no produto. O builder define-se pela rela\u00e7\u00e3o direta com aquilo que entrega: escreve, desenha, mant\u00e9m. Na pr\u00e1tica, os tr\u00eas pap\u00e9is sobrep\u00f5em-se numa mesma pessoa com frequ\u00eancia, e \u00e9 dessa sobreposi\u00e7\u00e3o que nascem quase todos os mal-entendidos, incluindo o de tratar como builder algu\u00e9m que h\u00e1 muito deixou de o ser para se dedicar a levantar rondas e a dar entrevistas.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>De Satoshi a Vitalik: a genealogia de um estatuto<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A venera\u00e7\u00e3o do builder n\u00e3o caiu do c\u00e9u. Vem da linhagem cypherpunk dos anos 1990, quando Eric Hughes escreveu que a privacidade \u00e9 necess\u00e1ria para uma sociedade aberta na era eletr\u00f3nica e que os cypherpunks escrevem c\u00f3digo porque sabem que algu\u00e9m tem de o escrever para defender essa privacidade. A ideia fundadora \u00e9 simples e radical: n\u00e3o se pede autoriza\u00e7\u00e3o, escreve-se software. O c\u00f3digo \u00e9 discurso e \u00e9 a\u00e7\u00e3o.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Satoshi Nakamoto \u00e9 o arqu\u00e9tipo perfeito: um builder an\u00f3nimo que entregou o Bitcoin, respondeu a bugs no f\u00f3rum e depois desapareceu sem monetizar a fama. Vitalik Buterin \u00e9 o segundo ato: o builder-fil\u00f3sofo que n\u00e3o s\u00f3 escreveu o whitepaper do Ethereum aos 19 anos como continua a publicar ensaios sobre bens p\u00fablicos, \u00abd\/acc\u00bb e a \u00e9tica de construir. Entre os dois, formou-se um c\u00e2none. O poder leg\u00edtimo, neste espa\u00e7o desconfiado de intermedi\u00e1rios e de curr\u00edculos, ganha-se a enviar, n\u00e3o a herdar. Numa ind\u00fastria que despreza os \u00absuits\u00bb, o estatuto compra-se com commits. \u00c9 por isso que chamar algu\u00e9m \u00abbuilder\u00bb \u00e9, ao mesmo tempo, uma descri\u00e7\u00e3o e um elogio.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo dos ciclos, o r\u00f3tulo foi mudando de dono. No boom das ICO de 2017, \u00abbuilder\u00bb servia muitas vezes para dar respeitabilidade a projetos que eram sobretudo capta\u00e7\u00e3o de fundos. No ver\u00e3o do DeFi de 2020 e na euforia dos NFT de 2021, tornou-se um grito de guerra, com o \u00abWAGMI\u00bb a colar-se a qualquer um que estivesse dentro. Cada mercado em baixa que se seguiu funcionou como uma peneira: quando o pre\u00e7o desaparece, ficam os que continuam a escrever c\u00f3digo sem plateia. Foi essa depura\u00e7\u00e3o c\u00edclica que deu \u00e0 palavra o seu prest\u00edgio atual, e \u00e9 tamb\u00e9m por isso que os invernos cripto s\u00e3o recordados, dentro da tribo, como a \u00e9poca em que os \u00abverdadeiros builders\u00bb se revelam.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>2026, o ano em que o builder-mor admitiu o erro<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Se havia um builder que encarnava o c\u00e2none em 2026, era Jesse Pollak. Engenheiro da Coinbase e criador da Base (a Layer 2 da Coinbase constru\u00edda sobre o Ethereum), Pollak fez da palavra \u00abbuilder\u00bb quase uma assinatura pessoal e apostou tudo numa tese: a de que a cripto ia crescer pelo social e pela cria\u00e7\u00e3o de conte\u00fado on-chain, com \u00abcreator coins\u00bb e feeds dentro da pr\u00f3pria carteira.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A 15 de julho de 2026, essa tese foi a enterrar em p\u00fablico. Pollak <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/business\/2026\/07\/15\/coinbase-s-jesse-pollak-steps-back-from-base-app-leadership-after-admitting-his-crypto-social-strategy-failed'>afastou-se da lideran\u00e7a da Base app depois de admitir que a aposta no social tinha falhado<\/a>, escrevendo sem rodeios \u00abI was definitely wrong\u00bb e resumindo o balan\u00e7o numa frase que define a \u00e9poca: \u00abwe made the right bet on builders, but obviously the wrong bet on social\u00bb. A Base passou a priorizar trading, pagamentos e agentes de IA, com Pollak a reposicion\u00e1-la como infraestrutura para as finan\u00e7as globais.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A app mudou de m\u00e3os. Passou a ser liderada por Jordan Fish, mais conhecido pelo pseud\u00f3nimo \u00abCobie\u00bb, cuja plataforma Echo a Coinbase <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/business\/2026\/07\/15\/coinbase-s-jesse-pollak-steps-back-from-base-app-leadership-after-admitting-his-crypto-social-strategy-failed'>comprou por cerca de 375 milh\u00f5es de d\u00f3lares<\/a> (uns 321 milh\u00f5es de euros). Em agosto, Pollak admitiu que a app est\u00e1 a tornar-se <a href='https:\/\/www.theblock.co\/post\/411023\/jesse-pollak-base-app-become-less-base-centric-cobie-builds-trading-platform'>\u00abless Base-centric\u00bb<\/a>, ou seja, um agregador de trading multi-cadeia. Meses antes, em fevereiro, a Base app j\u00e1 tinha <a href='https:\/\/www.theblock.co\/post\/389191\/base-app-removes-farcaster-powered-talk-feed-to-sharpen-focus-on-onchain-trading'>removido o feed social alimentado pelo Farcaster e encerrado o programa Creator Rewards<\/a>, que pagara mais de 450 000 d\u00f3lares (cerca de 385 000 euros) a milhares de criadores em seis meses. O lema virou \u00abdo less, better\u00bb.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Porque \u00e9 que isto importa para a cultura builder? Porque o builder mais celebrado do ciclo fez, em direto, o <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/post-mortem-negocio-forense-cripto-2026\/'>post-mortem da sua pr\u00f3pria tese<\/a>. E f\u00ea-lo com uma franqueza que a cultura, no seu melhor, diz valorizar. Pollak at\u00e9 teve a eleg\u00e2ncia de estender a m\u00e3o aos rivais, defendendo <a href='https:\/\/www.thetokendispatch.com\/p\/jesse-pollak-the-base-builder'>que o objetivo \u00e9 fazer crescer o bolo, n\u00e3o apenas competir pelo bolo existente<\/a>, e mostrando respeito pela equipa da Solana. Mas a honestidade n\u00e3o apaga a li\u00e7\u00e3o: quando o discurso de builder se descola do que os utilizadores realmente usam, a realidade cobra a conta. \u00c9 o mesmo mecanismo que sustenta <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/guiao-fundador-retorica-repete-antes-colapso-2026\/'>o gui\u00e3o do fundador que se repete antes do colapso<\/a>, s\u00f3 que aqui o protagonista teve a coragem de o interromper a meio.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O epis\u00f3dio da Base n\u00e3o foi um caso isolado, foi o sintoma mais vis\u00edvel de uma tese de \u00e9poca a desinflar. A ideia de que cada pessoa teria a sua \u00abmoeda pessoal\u00bb e de que a aten\u00e7\u00e3o se converteria diretamente em liquidez seduziu meio setor entre 2024 e 2026; quando a novidade passou, sobrou uma paisagem de tokens sem uso e de criadores com carteiras cheias de ativos il\u00edquidos. Para a classe builder, a li\u00e7\u00e3o \u00e9 inc\u00f3moda mas \u00fatil: entusiasmo n\u00e3o \u00e9 ado\u00e7\u00e3o, e o facto de uma narrativa ser tecnicamente poss\u00edvel n\u00e3o a torna algo que as pessoas queiram usar todos os dias.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A m\u00e1quina que fabrica builders<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Ningu\u00e9m se torna builder de estatuto sozinho. H\u00e1 uma infraestrutura inteira, quase invis\u00edvel para quem est\u00e1 de fora, cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 descobrir, financiar e legitimar quem constr\u00f3i. S\u00e3o quatro grandes carris, cada um com a sua moeda e o seu sinal social, mais um quinto que o pr\u00f3prio protocolo paga.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Via de financiamento<\/th><th>Como paga<\/th><th>Escala aproximada<\/th><th>Sinal que emite<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Hackathons (ETHGlobal)<\/td><td>Pr\u00e9mios e liga\u00e7\u00e3o a investidores<\/td><td><a href='https:\/\/ethglobal.com\/'>Mais de 95 eventos, 14 000 projetos e 150 mil pessoas<\/a><\/td><td>\u00abSabes enviar sob press\u00e3o\u00bb<\/td><\/tr><tr><td>Grants comunit\u00e1rios (Gitcoin)<\/td><td>Quadratic funding da comunidade<\/td><td><a href='https:\/\/www.gitcoin.co\/'>Mais de 60 M$ para 3 500 projetos desde 2019<\/a><\/td><td>\u00abA comunidade acha-te \u00fatil\u00bb<\/td><\/tr><tr><td>Financiamento retroativo (RetroPGF, Optimism)<\/td><td>Recompensa impacto j\u00e1 provado<\/td><td>Quatro rondas, mais de 100 M$; agora em pausa<\/td><td>\u00abJ\u00e1 entregaste valor p\u00fablico\u00bb<\/td><\/tr><tr><td>Capital de risco (a16z crypto)<\/td><td>Equity e tokens antecipados<\/td><td><a href='https:\/\/www.coindesk.com\/business\/2022\/05\/25\/andreessen-horowitz-establishes-45b-crypto-fund-its-fourth'>Fundo de 4,5 mil M$ em 2022, o maior de sempre<\/a><\/td><td>\u00abAlgu\u00e9m aposta no teu futuro\u00bb<\/td><\/tr><tr><td>Token pr\u00f3prio \/ real yield<\/td><td>Emiss\u00e3o de token ou receita do protocolo<\/td><td>Muito vari\u00e1vel<\/td><td>\u00abO mercado paga por manteres isto vivo\u00bb<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">Cada carril seleciona um perfil diferente. O hackathon premeia quem entrega sob press\u00e3o em 48 horas; o grant premeia quem a comunidade considera \u00fatil; o financiamento retroativo premeia o impacto j\u00e1 provado; o capital de risco aposta no futuro de uma pessoa antes de ela o provar. Juntos, formam um funil que converte talento an\u00f3nimo em \u00abbuilder reconhecido\u00bb, com tudo o que o r\u00f3tulo implica em acesso, seguidores e capacidade de levantar rondas.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um efeito de rede pouco discutido nesta m\u00e1quina: os mesmos rostos aparecem nas tr\u00eas pontas. O investidor que financia tamb\u00e9m julga hackathons e recomenda nomes para grants; o vencedor de um hackathon torna-se mentor no seguinte. Isto acelera o talento genu\u00edno, mas tamb\u00e9m cria panelinhas, em que pertencer \u00e0 rede certa importa tanto como o c\u00f3digo entregue. A cr\u00edtica interna mais dura \u00e0 cultura builder \u00e9 precisamente esta: por baixo da meritocracia proclamada corre, por vezes, uma economia de favores e de acesso que se parece bastante com o mundo que a cripto dizia vir substituir.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O fim (por agora) do dinheiro retroativo<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">De todos os carris, o mais idealista \u00e9 o financiamento retroativo de bens p\u00fablicos, o RetroPGF. A ideia, desenhada por Vitalik Buterin e pela Optimism, resolve um problema antigo: \u00e9 quase imposs\u00edvel saber \u00e0 partida que projeto de infraestrutura vai ser \u00fatil, mas \u00e9 relativamente f\u00e1cil olhar para tr\u00e1s e ver o que foi. Como <a href='https:\/\/medium.com\/ethereum-optimism\/retroactive-public-goods-funding-33c9b7d00f0c'>resume o princ\u00edpio da Optimism<\/a>, \u00e9 mais f\u00e1cil concordar sobre o que foi \u00fatil do que prever o que ser\u00e1 \u00fatil. Em vez de apostar no futuro, recompensa-se o passado provado.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Ao lado do modelo retroativo cresceu um outro, igualmente engenhoso: o quadratic funding do Gitcoin, em que o valor de um donativo conta menos do que o n\u00famero de pessoas que o fazem, favorecendo projetos com apoio amplo em vez de apoio concentrado. Juntos, o financiamento retroativo e o quadr\u00e1tico foram a tentativa mais s\u00e9ria da cripto de resolver o velho problema dos bens p\u00fablicos, aquilo que toda a gente usa mas ningu\u00e9m quer pagar sozinho. A sua ascens\u00e3o explica porque \u00e9 que, durante anos, tantos developers puderam viver de manter bibliotecas e ferramentas que n\u00e3o tinham modelo de neg\u00f3cio.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Durante alguns anos, funcionou como um \u00edman. Foram quatro rondas que distribu\u00edram, no total, mais de 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares por milhares de contribuidores, de quem mant\u00e9m documenta\u00e7\u00e3o a quem escreve clientes de Ethereum. Para muitos builders, foi a diferen\u00e7a entre largar o emprego \u00aba s\u00e9rio\u00bb e dedicar-se a tempo inteiro ao open source.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2026, a torneira fechou. A 8 de janeiro, a Optimism anunciou que <a href='https:\/\/www.optimism.io\/blog\/season-9-from-experiment-to-organization'>o programa n\u00e3o vai correr durante pelo menos os pr\u00f3ximos 12 meses<\/a>, com cerca de 775 milh\u00f5es de OP reservados que poder\u00e3o at\u00e9 ser realocados, enquanto a funda\u00e7\u00e3o se concentra em execu\u00e7\u00e3o e ado\u00e7\u00e3o empresarial. N\u00e3o \u00e9 um detalhe t\u00e9cnico: \u00e9 a maior fonte de subs\u00eddio ao builder idealista a entrar em suspenso. O sinal \u00e9 claro e desconfort\u00e1vel. A era em que se podia construir bem p\u00fablico e esperar que algu\u00e9m pagasse retroativamente est\u00e1, no m\u00ednimo, em revis\u00e3o.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Builder ou especulador? A linha que a cultura tra\u00e7a<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">No cora\u00e7\u00e3o da cultura est\u00e1 uma fronteira moral: de um lado, o builder que cria valor; do outro, o \u00abdegen\u00bb que s\u00f3 extrai. \u00c9 uma distin\u00e7\u00e3o que a comunidade policia com zelo quase religioso: \u00abest\u00e1s a construir ou s\u00f3 a fazer farming?\u00bb. Ser apanhado do lado errado da linha custa reputa\u00e7\u00e3o, e por vezes custa a pr\u00f3pria narrativa de um projeto inteiro.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que a linha \u00e9 porosa. Quase todos os builders det\u00eam tokens dos seus pr\u00f3prios projetos; muitos lan\u00e7aram esses tokens precisamente para se financiarem. O movimento do \u00abreal yield\u00bb, que ganhou for\u00e7a ao tentar pagar aos protocolos com receita real em vez de emiss\u00e3o inflacion\u00e1ria, foi em parte uma tentativa de tornar a linha defens\u00e1vel: se o teu protocolo gera receita e a partilha, \u00e9s builder; se s\u00f3 imprimes um token para pagar recompensas, \u00e9s outra coisa. Mas a hipocrisia espreita sempre. O mesmo fundador que despreza os especuladores pode estar a desenhar a tokenomics para maximizar a sua pr\u00f3pria sa\u00edda. A cultura precisa da fronteira para se sentir virtuosa e, ao mesmo tempo, vive de a atravessar.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A fronteira tem tamb\u00e9m um custo humano que a cultura raramente admite. O culto do \u00abship\u00bb premeia quem trabalha a horas imposs\u00edveis, publica de madrugada e nunca desliga; o mercado, aberto 24 horas por dia e sete dias por semana, refor\u00e7a o h\u00e1bito. O resultado \u00e9 uma epidemia silenciosa de esgotamento entre developers e fundadores, agravada pela volatilidade emocional de ver o pre\u00e7o do pr\u00f3prio projeto oscilar em tempo real. Ser builder, na vers\u00e3o saud\u00e1vel, devia ser uma maratona; boa parte da cultura ainda o trata como uma sucess\u00e3o infinita de sprints.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Guia de campo: os arqu\u00e9tipos do builder<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">\u00abBuilder\u00bb n\u00e3o descreve uma pessoa, descreve uma fam\u00edlia de personagens. Saber distingui-las \u00e9 meio caminho para ler um perfil sem cair no marketing. Fica aqui um guia de campo, com o que cada arqu\u00e9tipo constr\u00f3i, como se apresenta e o sinal de alarme a vigiar.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Arqu\u00e9tipo<\/th><th>O que constr\u00f3i<\/th><th>Como se apresenta<\/th><th>Sinal de alarme<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>O core dev<\/td><td>Protocolo, cliente, infraestrutura de base<\/td><td>Discreto, GitHub cheio, pouca presen\u00e7a em palco<\/td><td>S\u00e3o poucos; risco de depend\u00eancia de uma s\u00f3 pessoa<\/td><\/tr><tr><td>O founder-builder<\/td><td>Empresa e produto para o utilizador<\/td><td>Threads, palco, podcast, entrevistas<\/td><td>Ret\u00f3rica a crescer mais depressa do que os commits<\/td><\/tr><tr><td>O anon<\/td><td>Ferramentas sob pseud\u00f3nimo (ex.: 0xngmi)<\/td><td>Handle e avatar, sem cara<\/td><td>Dif\u00edcil de responsabilizar se algo corre mal<\/td><\/tr><tr><td>O growth-builder<\/td><td>Comunidade, incentivos, \u00abmindshare\u00bb<\/td><td>Muito ativo no Farcaster e no X<\/td><td>M\u00e9tricas de vaidade, TVL inflada, Sybils<\/td><\/tr><tr><td>O grant-maximalista<\/td><td>Projetos desenhados para receber grants<\/td><td>Candidaturas polidas, relat\u00f3rios de impacto<\/td><td>Vive do subs\u00eddio, n\u00e3o do uso real<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhum destes arqu\u00e9tipos \u00e9 intrinsecamente bom ou mau; o mesmo indiv\u00edduo pode transitar entre eles ao longo de uma carreira. O erro de leitura mais comum \u00e9 confundir o volume de presen\u00e7a p\u00fablica com o volume de trabalho entregue, precisamente a dist\u00e2ncia que o caso da Base tornou vis\u00edvel para toda a ind\u00fastria.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O builder como marca<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Na cripto, o builder \u00e9, cada vez mais, uma marca pessoal. Um bom handle vale capital: nomes como \u00ab0xngmi\u00bb, o programador pseud\u00f3nimo por tr\u00e1s do DefiLlama, tornaram-se ativos reconhec\u00edveis, com peso pr\u00f3prio. Construir \u00abem p\u00fablico\u00bb (o famoso \u00abbuild in public\u00bb) virou estrat\u00e9gia: mostra-se o processo, partilha-se o screenshot do c\u00f3digo, narra-se a jornada. Bem feito, cria confian\u00e7a e comunidade. Mal feito, transforma a constru\u00e7\u00e3o em conte\u00fado, e o conte\u00fado em teatro.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O palco onde esse teatro se desenrolava era, em boa parte, o Farcaster, a rede social descentralizada que funcionava como a pra\u00e7a p\u00fablica dos builders de Ethereum. A sa\u00edda da Base desse feed, em fevereiro de 2026, fragmentou essa pra\u00e7a e lembrou a todos que uma coisa \u00e9 o protocolo e outra \u00e9 a app que o exp\u00f5e. O risco de reduzir o builder a marca \u00e9 conhecido: a aten\u00e7\u00e3o mede-se melhor do que o impacto, e o incentivo desliza para performar constru\u00e7\u00e3o em vez de a fazer.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2026, essa l\u00f3gica ganhou mercado pr\u00f3prio. Plataformas que medem \u00abmindshare\u00bb, classificando quem gera mais conversa sobre um projeto, transformaram a aten\u00e7\u00e3o numa m\u00e9trica quase financeira, com recompensas para quem publica mais e melhor. O efeito perverso \u00e9 conhecido: incentiva-se a produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado sobre construir, que nem sempre coincide com construir. O bom builder-comunicador amplifica trabalho real; o mau limita-se a ocupar o feed. Distinguir os dois a olho \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil, e \u00e9 precisamente a\u00ed que a reputa\u00e7\u00e3o, lentamente acumulada, se torna o ativo mais valioso de todos.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O caso-limite dessa deriva tem nome. Em 2022, um programador chamado Ian Macalinao <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/layer2\/2022\/08\/04\/master-of-anons-how-a-crypto-developer-faked-a-defi-ecosystem'>orquestrou onze identidades falsas de developer para inflar artificialmente a TVL da Solana<\/a>, fazendo parecer que um ecossistema inteiro era obra de muitas m\u00e3os. A sua pr\u00f3pria justifica\u00e7\u00e3o \u00e9 reveladora: \u00abse um ecossistema \u00e9 todo constru\u00eddo por meia d\u00fazia de pessoas, n\u00e3o parece t\u00e3o aut\u00eantico\u00bb. Ou seja, at\u00e9 a autenticidade se fabrica. \u00c9 o mesmo terreno movedi\u00e7o onde vive <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/entrevista-fundador-move-preco-abuso-mercado-2026\/'>a entrevista que move o pre\u00e7o<\/a>: a palavra do builder, amplificada, pode valer mais do que aquilo que ele construiu, e essa dist\u00e2ncia \u00e9 onde nasce o abuso.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Quando a IA reescreve o builder<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma for\u00e7a nova a redefinir o que significa construir: a intelig\u00eancia artificial. Por um lado, as ferramentas de \u00abvibe coding\u00bb baixaram a barreira, permitindo que uma pessoa descreva o que quer em linguagem natural e deixe o modelo escrever grande parte do c\u00f3digo. Por outro, os pr\u00f3prios agentes de IA come\u00e7am a ser utilizadores: pagam por servi\u00e7os, executam transa\u00e7\u00f5es, interagem com contratos. N\u00e3o \u00e9 acaso que a Base, ao reformular a estrat\u00e9gia, tenha colocado os agentes de IA ao lado do trading e dos pagamentos como um dos seus pilares.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Isto pressiona o estatuto builder pelas duas pontas. Se o c\u00f3digo \u00e9 cada vez mais escrito por m\u00e1quinas, o m\u00e9rito de \u00abter enviado\u00bb dilui-se; se o utilizador final \u00e9 um agente, o produto deixa de ser feito para humanos. E h\u00e1 um problema de confian\u00e7a que se agrava: quando a persona do builder pode ser gerada, quando o rosto, a voz e o portef\u00f3lio podem ser sint\u00e9ticos, o \u00abver para crer\u00bb deixa de bastar. \u00c9 a mesma inquieta\u00e7\u00e3o que percorre <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/fundador-sintetico-deepfakes-fim-ver-para-crer-2026\/'>o fen\u00f3meno do fundador sint\u00e9tico e dos deepfakes<\/a>. A pergunta que a IA imp\u00f5e \u00e0 cultura builder \u00e9 dura: se qualquer um pode parecer que constr\u00f3i, o que \u00e9 que ainda distingue quem constr\u00f3i mesmo?<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Culturas rivais: Ethereum, Solana e Bitcoin<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o h\u00e1 uma cultura builder \u00fanica; h\u00e1 dialetos, e cada grande cadeia venera um arqu\u00e9tipo diferente. O mundo Ethereum, herdeiro do idealismo de bens p\u00fablicos, valoriza o builder \u00abregenerativo\u00bb, o que pensa em externalidades, contribui para o comum e v\u00ea o RetroPGF como express\u00e3o de valores. O vocabul\u00e1rio \u00e9 de coordena\u00e7\u00e3o, \u00abd\/acc\u00bb e sustentabilidade.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A cultura Solana puxa noutra dire\u00e7\u00e3o: mais comercial, mais veloz, orgulhosa do lema \u00abonly possible on Solana\u00bb. Aqui celebra-se quem envia depressa, quem lan\u00e7a a app que ganha utilizadores esta semana, com menos cerim\u00f3nia filos\u00f3fica e mais m\u00e9trica de mercado. Foi por isso significativo que Pollak, ao afastar-se, tenha estendido a m\u00e3o \u00e0 equipa da Solana em vez de a atacar: reconhecer o rival \u00e9, tamb\u00e9m, admitir que o seu modelo de builder entregou.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O Bitcoin \u00e9 o oposto de ambos. A sua cultura de constru\u00e7\u00e3o \u00e9 conservadora por desenho: mexer no protocolo base \u00e9 suspeito, e o estatuto ganha-se n\u00e3o por inovar depressa mas por proteger o que j\u00e1 funciona. O core dev de Bitcoin \u00e9 venerado como guardi\u00e3o, n\u00e3o como criador de novidades. Tr\u00eas culturas, tr\u00eas defini\u00e7\u00f5es do que \u00e9 um \u00abbom builder\u00bb, e boa parte das guerras de narrativa da cripto resume-se a qual delas tem raz\u00e3o.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Os builders lus\u00f3fonos: de Lisboa ao mapa<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A cultura builder tem sotaque global, mas tamb\u00e9m tem endere\u00e7o em portugu\u00eas. O exemplo mais citado nasceu em Portugal: a Utrust, plataforma de pagamentos em cripto fundada por volta de 2017 por uma equipa que inclu\u00eda Artur Goul\u00e3o, Filipe Castro, Nuno Correia e Roberto Machado. A proposta era concreta e n\u00e3o especulativa: permitir a comerciantes aceitar cripto com prote\u00e7\u00e3o do comprador e convers\u00e3o para euros, resolvendo um problema real de pagamentos em vez de prometer riqueza f\u00e1cil.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria da Utrust ilustra bem o percurso do builder europeu. Em janeiro de 2022, foi <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/business\/2022\/01\/11\/elrond-foundation-acquires-crypto-payments-firm-utrust'>adquirida pela Elrond (hoje MultiversX)<\/a> numa aposta em pagamentos Web3 e, em mar\u00e7o do mesmo ano, <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/business\/2022\/03\/16\/crypto-payments-firm-utrust-receives-operating-license-from-central-bank-of-portugal'>obteve junto do Banco de Portugal a licen\u00e7a para operar como prestador de servi\u00e7os de ativos virtuais<\/a>, antes de rebrandizar para xMoney. Do improviso de garagem \u00e0 empresa licenciada: \u00e9 o arco que a regula\u00e7\u00e3o europeia hoje imp\u00f5e a qualquer projeto s\u00e9rio.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">E h\u00e1 infraestrutura de comunidade. Lisboa consolidou-se como um dos polos builder da Europa, com a ETHGlobal a levar o seu hackathon \u00e0 cidade, a semana \u00abOnchain Lisbon\u00bb a juntar developers no ver\u00e3o e o Web Summit a trazer, de 9 a 12 de novembro de 2026, milhares de fundadores \u00e0 capital. O builder lus\u00f3fono t\u00edpico constr\u00f3i para um mercado global a partir de um caf\u00e9 em Lisboa, no Porto ou em Braga, e essa \u00e9, cada vez mais, uma vantagem e n\u00e3o uma periferia.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Parte desse magnetismo teve raz\u00f5es fiscais. Durante anos, o regime portugu\u00eas tratou com leveza os ganhos de particulares em cripto, o que ajudou a atrair n\u00f3madas digitais e fundadores estrangeiros para Lisboa e para a costa; desde 2023, os ganhos de curto prazo passaram a ser tributados, aproximando Portugal da m\u00e9dia europeia. Ainda assim, o ecossistema lus\u00f3fono \u00e9 maior do que o pa\u00eds: o Brasil tornou-se um dos maiores mercados de retalho de cripto do mundo, e n\u00e3o \u00e9 raro uma equipa juntar um developer no Porto, um designer em Lisboa e um respons\u00e1vel de comunidade em S\u00e3o Paulo, todos a construir para utilizadores que nunca v\u00e3o saber onde fica a sede.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O que a CMVM e a MiCA mudam para quem constr\u00f3i<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">O lema fundador \u00abn\u00e3o se pede autoriza\u00e7\u00e3o\u00bb colide, na Europa de 2026, com uma realidade legal nova. Construir e operar servi\u00e7os de cripto deixou de ser terra de ningu\u00e9m. O per\u00edodo transit\u00f3rio da MiCA para os prestadores portugueses (os antigos VASP) termina a 1 de julho de 2026, e a lei nacional que enquadra o regime, a Lei n.\u00ba 69\/2025, est\u00e1 em vigor desde 27 de dezembro de 2025.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Na pr\u00e1tica, a supervis\u00e3o reparte-se: a CMVM assume a conduta de mercado e a prote\u00e7\u00e3o do investidor, enquanto o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores e das regras sobre stablecoins. Para o builder, isto muda o c\u00e1lculo. Quem quer lan\u00e7ar uma exchange, uma carteira custodial ou um servi\u00e7o de pagamentos precisa de autoriza\u00e7\u00e3o, tal como a Utrust precisou; quem desenvolve protocolos DeFi vive numa zona cinzenta onde a quest\u00e3o \u00e9 quanto controlo mant\u00e9m sobre o servi\u00e7o. E as regras de abuso de mercado que a ESMA detalhou sob o T\u00edtulo VI da MiCA tocam diretamente naquela \u00abpalavra que move o pre\u00e7o\u00bb: um builder com megafone e um token na carteira passa a ter deveres, n\u00e3o s\u00f3 audi\u00eancia. A constru\u00e7\u00e3o continua livre; a opera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda camadas que apanham o builder de surpresa. Quem emite um token pode ter de publicar um whitepaper conforme \u00e0 MiCA; quem gere infraestrutura cr\u00edtica cai no \u00e2mbito da DORA, o regulamento europeu de resili\u00eancia operacional que exige planos de continuidade e testes. Nada disto mata a inova\u00e7\u00e3o, mas muda o perfil de quem sobrevive: o builder solit\u00e1rio de fim de semana continua livre para experimentar, ao passo que transformar essa experi\u00eancia num servi\u00e7o com clientes europeus passa a exigir advogados, auditorias e um respons\u00e1vel de compliance. \u00c9 a diferen\u00e7a, hoje incontorn\u00e1vel, entre um projeto e uma empresa.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O que a hora da verdade de 2026 nos diz<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Juntando as pe\u00e7as, emerge um padr\u00e3o. O mea culpa de Pollak, a pausa do RetroPGF e o fim do transit\u00f3rio da MiCA n\u00e3o s\u00e3o eventos isolados: s\u00e3o tr\u00eas formas de o mercado repre\u00e7ar o mito do builder. Durante anos, \u00abbuilder\u00bb funcionou como um cheque em branco de credibilidade; bastava o r\u00f3tulo para se abrirem portas, seguidores e rondas. 2026 est\u00e1 a pedir a fatura.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A boa not\u00edcia \u00e9 que o repre\u00e7amento \u00e9 sinal de maturidade, n\u00e3o de morte. O que est\u00e1 a acontecer \u00e9 a passagem do builder-identidade para o builder-profiss\u00e3o. A pergunta deixou de ser \u00abconstr\u00f3is?\u00bb e passou a ser \u00abo que constru\u00edste que algu\u00e9m realmente usa, quem te paga por isso e aguenta o escrut\u00ednio?\u00bb. Um builder que corre o seu pr\u00f3prio post-mortem, como Pollak fez, sai maior desta transi\u00e7\u00e3o; um que vive de vibes e de handle sai mais pequeno. A cultura n\u00e3o vai deixar de venerar quem constr\u00f3i, mas est\u00e1 a aprender a perguntar o qu\u00ea e para quem.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Vale a pena guardar as tr\u00eas datas deste ano como um pequeno mapa: 8 de janeiro, quando a Optimism pausou o dinheiro retroativo; 15 de julho, quando Pollak admitiu o erro; e 1 de julho, quando a MiCA fechou a janela de improviso na Europa. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que os tr\u00eas marcos apontem na mesma dire\u00e7\u00e3o, a de exigir provas em vez de promessas. Quem constr\u00f3i na cripto entra assim numa fase mais adulta e menos rom\u00e2ntica, em que o estatuto continua a existir, mas deixou de ser oferecido \u00e0 cabe\u00e7a e passou a ser cobrado ao fim de cada ciclo.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Como ler um perfil de builder<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Para o leitor que quer separar subst\u00e2ncia de encena\u00e7\u00e3o, fica um checklist pr\u00e1tico, feito das perguntas que este ano tornou incontorn\u00e1veis.<\/p><ul class='wp-block-list'><li>Commits ou threads? Compare o ritmo do trabalho entregue com o ritmo da presen\u00e7a p\u00fablica; quando a segunda cresce muito mais depressa do que o primeiro, desconfie.<\/li><li>Quem paga? Grant, capital de risco, token pr\u00f3prio ou receita real mudam radicalmente os incentivos; pe\u00e7a sempre a fonte do rendimento.<\/li><li>Doxxed ou an\u00f3nimo, e isso importa aqui? O anonimato n\u00e3o \u00e9 defeito, mas altera a forma de responsabilizar; avalie caso a caso.<\/li><li>O que \u00e9 que outros usam? O impacto mede-se por depend\u00eancia real de terceiros, n\u00e3o por n\u00famero de an\u00fancios.<\/li><li>Corre os seus pr\u00f3prios post-mortems? Quem admite erros em p\u00fablico, como no caso da Base, d\u00e1 um sinal de honestidade dif\u00edcil de fingir.<\/li><li>O impacto \u00e9 prov\u00e1vel ou apenas prometido? Prefira o que pode ser verificado retroativamente ao que s\u00f3 existe no roadmap.<\/li><\/ul><h2 class='wp-block-heading'>Perguntas frequentes<\/h2><h3 class='wp-block-heading'>O que significa \u00abbuilder\u00bb em cripto?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 o termo, mantido em ingl\u00eas, para quem constr\u00f3i no ecossistema: programadores de protocolos, autores de ferramentas, fundadores de aplica\u00e7\u00f5es e, por extens\u00e3o, quem contribui com trabalho t\u00e9cnico ou de coordena\u00e7\u00e3o. Mais do que um cargo, funciona como um estatuto cultural que distingue quem cria valor de quem apenas especula. Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 ambiguidade: no jarg\u00e3o do MEV, \u00abbuilder\u00bb designa tamb\u00e9m a entidade que monta blocos, um significado t\u00e9cnico diferente.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>Porque \u00e9 que Jesse Pollak disse que estava errado?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">O criador da Base admitiu a 15 de julho de 2026 que a aposta da app no social e nas \u00abcreator coins\u00bb n\u00e3o resultou, escrevendo \u00abI was definitely wrong\u00bb e resumindo que a equipa acertou ao apostar nos builders mas errou ao apostar no social. A Base virou-se para trading, pagamentos e agentes de IA, e a lideran\u00e7a da app passou para Jordan Fish, o \u00abCobie\u00bb.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>O que \u00e9 o RetroPGF e porque est\u00e1 em pausa?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">O RetroPGF (financiamento retroativo de bens p\u00fablicos) \u00e9 um modelo, desenhado por Vitalik Buterin e pela Optimism, que recompensa o impacto j\u00e1 provado em vez de apostar no futuro. Distribuiu mais de 100 milh\u00f5es de d\u00f3lares em quatro rondas, mas a Optimism anunciou a 8 de janeiro de 2026 que o programa n\u00e3o corre durante pelo menos doze meses, enquanto reavalia a sua estrat\u00e9gia e o destino dos cerca de 775 milh\u00f5es de OP reservados.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>H\u00e1 builders de cripto portugueses conhecidos?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Sim. O exemplo mais citado \u00e9 a Utrust, plataforma de pagamentos fundada em Portugal por volta de 2017 e adquirida pela Elrond (MultiversX) em 2022, que obteve licen\u00e7a do Banco de Portugal e passou a chamar-se xMoney. Lisboa \u00e9 tamb\u00e9m um polo builder europeu, com eventos como a ETHGlobal, a semana Onchain Lisbon e o Web Summit a atrair fundadores de todo o mundo.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>Preciso de licen\u00e7a da CMVM ou do Banco de Portugal para construir em cripto em Portugal?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Depende do que se constr\u00f3i. Escrever software n\u00e3o exige licen\u00e7a, mas operar servi\u00e7os regulados (exchange, cust\u00f3dia, pagamentos) exige autoriza\u00e7\u00e3o ao abrigo da MiCA, cujo per\u00edodo transit\u00f3rio para os prestadores portugueses termina a 1 de julho de 2026. A supervis\u00e3o reparte-se entre a CMVM (conduta de mercado) e o Banco de Portugal (registo de prestadores e stablecoins); os protocolos DeFi vivem numa zona cinzenta que depende do grau de controlo mantido.<\/p><script type=\"application\/ld+json\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@type\":\"FAQPage\",\"mainEntity\":[{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"O que significa \u00abbuilder\u00bb em cripto?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"\u00c9 o termo, mantido em ingl\u00eas, para quem constr\u00f3i no ecossistema: programadores de protocolos, autores de ferramentas, fundadores de aplica\u00e7\u00f5es e quem contribui com trabalho t\u00e9cnico ou de coordena\u00e7\u00e3o. Mais do que um cargo, funciona como um estatuto cultural que distingue quem cria valor de quem apenas especula. 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