{"id":366,"date":"2026-08-24T16:40:25","date_gmt":"2026-08-24T16:40:25","guid":{"rendered":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/stream-resolv-autopsia-curadores-defi-2026\/"},"modified":"2026-08-24T16:40:25","modified_gmt":"2026-08-24T16:40:25","slug":"stream-resolv-autopsia-curadores-defi-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/stream-resolv-autopsia-curadores-defi-2026\/","title":{"rendered":"Stream e Resolv: a aut\u00f3psia do modelo de curadores da DeFi"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Em menos de cinco meses, o cr\u00e9dito on-chain viveu os seus dois piores acidentes desde o colapso da Terra. A 4 de novembro de 2025, a Stream Finance revelou que um gestor externo tinha perdido cerca de 93 milh\u00f5es de d\u00f3lares (uns 80 milh\u00f5es de euros ao c\u00e2mbio atual) fora da cadeia; a sua stablecoin xUSD passou de 1 d\u00f3lar para cerca de 0,26 d\u00f3lares em 24 horas e arrastou consigo um efeito domin\u00f3 que chegou a expor 285 milh\u00f5es de d\u00f3lares em v\u00e1rios protocolos. A 22 de mar\u00e7o de 2026, um atacante entrou na infraestrutura de cloud da Resolv, cunhou 80 milh\u00f5es de USR sem lastro e fugiu com cerca de 25 milh\u00f5es de d\u00f3lares, deixando d\u00edvida incobr\u00e1vel em meia d\u00fazia de mercados de cr\u00e9dito. Dois eventos distintos, uma \u00fanica engrenagem em comum: o curador.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Este texto \u00e9 uma aut\u00f3psia. N\u00e3o a de uma moeda, mas a de um modelo: o dos curadores de risco que, ao longo de 2025, se tornaram os verdadeiros gestores de carteira da DeFi, a decidir onde v\u00e3o parar os dep\u00f3sitos de milhares de pessoas. Quando corre bem, o modelo entrega rendimentos que a banca tradicional n\u00e3o consegue. Quando corre mal, como correu com a Stream e com a Resolv, a conta n\u00e3o fica com o protocolo nem com o curador: fica com quem depositou. Vamos abrir os dois casos, perceber o que falhou em cada camada e responder \u00e0 pergunta que a ind\u00fastria tem evitado: quem paga o malparado?<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O curador: o gestor de carteira invis\u00edvel da DeFi<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Para perceber os colapsos, \u00e9 preciso perceber quem toma as decis\u00f5es. Nos protocolos de cr\u00e9dito de nova gera\u00e7\u00e3o, o desenho \u00e9 modular: a infraestrutura (os contratos que guardam o dinheiro e executam as liquida\u00e7\u00f5es) est\u00e1 separada da gest\u00e3o de risco (a decis\u00e3o sobre que garantias aceitar, com que limites e a que pre\u00e7o). Na <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/morpho-2026-banco-invisivel-credito-onchain\/'>Morpho<\/a> e na Euler, essa segunda camada foi entregue a terceiros: os curadores. Um curador constr\u00f3i um vault, define os par\u00e2metros de risco, escolhe os mercados onde o capital \u00e9 emprestado e, em troca, cobra uma comiss\u00e3o sobre o rendimento gerado. O depositante j\u00e1 n\u00e3o confia apenas num protocolo; confia na equipa que assinou aquele vault.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O neg\u00f3cio explodiu. Segundo o relat\u00f3rio <a href='https:\/\/chorus.one\/reports-research\/defi-curators-in-2025-navigating-chaos-building-resilience'>\u00abDeFi Curators in 2025\u00bb<\/a> da Chorus One, o capital gerido por curadores saltou de cerca de 300 milh\u00f5es para 7 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em menos de um ano, um crescimento de 2200%. \u00c9 uma ind\u00fastria jovem e altamente concentrada: os cinco maiores curadores controlam \u00e0 volta de 43% de todo o capital, e mais de metade est\u00e1 em Ethereum. A Gauntlet lidera com cerca de 1,88 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, seguida da Steakhouse Financial com 1,26 mil milh\u00f5es. Para enquadrar a escala, a categoria de cr\u00e9dito da DeFi vale hoje perto de 49 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em <a href='https:\/\/defillama.com\/protocols\/lending'>valor total bloqueado<\/a>, com a Aave \u00e0 cabe\u00e7a (cerca de 19 mil milh\u00f5es) \u00e0 frente da Spark, da Morpho Blue e da Compound.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O modelo de remunera\u00e7\u00e3o \u00e9 a chave de tudo o que se segue. O curador ganha uma percentagem do rendimento que o vault produz. Quanto maior o rendimento, mais dep\u00f3sitos atrai; quanto mais dep\u00f3sitos, maior a comiss\u00e3o. Alguns curadores chegam a anunciar comiss\u00f5es de 0% nos vaults de montra para atrair liquidez, recuperando depois a margem em acordos negociados com parceiros institucionais. O problema, como veremos, \u00e9 que aceitar garantias mais arriscadas (stablecoins sint\u00e9ticas, tokens alavancados, d\u00f3lares com loops de rendimento) aumenta ao mesmo tempo o rendimento e o risco, mas s\u00f3 o rendimento regressa ao bolso do curador. O preju\u00edzo, quando chega, \u00e9 dos depositantes. Os tokens de governa\u00e7\u00e3o valem pouco \u00e0 luz disto: a MORPHO transaciona a cerca de <a href='https:\/\/www.coingecko.com\/en\/coins\/morpho'>2,32 euros<\/a> e a AAVE a <a href='https:\/\/www.coingecko.com\/en\/coins\/aave'>116,70 euros<\/a>, ambas em forte recupera\u00e7\u00e3o semanal, mas nenhuma delas absorve as perdas de um vault.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Curador<\/th><th>Capital gerido<\/th><th>Nota<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Gauntlet<\/td><td>~1,88 mil M$<\/td><td>Passou a maior curador; presente em Aave e Morpho<\/td><\/tr><tr><td>Steakhouse Financial<\/td><td>~1,26 mil M$<\/td><td>Especialista em stablecoins; ~20% do Kamino na Solana<\/td><\/tr><tr><td>Top 5 curadores<\/td><td>~43% do total<\/td><td>Grau de concentra\u00e7\u00e3o do mercado<\/td><\/tr><tr><td>Top 4 (nov. 2025)<\/td><td>~65% do total<\/td><td>Steakhouse, Gauntlet, MEV Capital, K3 Capital<\/td><\/tr><tr><td>Mercado total de vaults<\/td><td>~7 mil M$<\/td><td>Cresceu de ~300 M$ em menos de um ano<\/td><\/tr><\/tbody><figcaption class='wp-block-table__caption'>Fonte: Chorus One, DefiLlama (agosto de 2026). Valores aproximados.<\/figcaption><\/table><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>Anatomia da Stream: o buraco de 93 milh\u00f5es<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A 4 de novembro de 2025, a Stream Finance anunciou que um gestor de fundos externo tinha perdido cerca de 93 milh\u00f5es de d\u00f3lares dos ativos da plataforma, \u00e0 volta de 17,5% do total que geria. A sua stablecoin de rendimento, a xUSD, era suposta valer sempre 1 d\u00f3lar. Em 24 horas, caiu para cerca de 0,26 d\u00f3lares, uma queda de 77%; no fim da semana, negociava abaixo de 0,15 d\u00f3lares, mais de 90% abaixo do par, segundo a reconstitui\u00e7\u00e3o da <a href='https:\/\/blockeden.xyz\/blog\/2025\/11\/08\/m-defi-contagion\/'>BlockEden<\/a>.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O que tornou a Stream perigosa n\u00e3o foi o rendimento anunciado (chegou a prometer taxas na ordem dos 18% ao ano), mas a forma como o constru\u00eda. A xUSD era usada em ciclos de alavancagem: cunhava-se xUSD, dava-se como garantia para pedir mais stablecoins emprestadas, comprava-se mais xUSD, e assim sucessivamente. Cada volta aumentava o rendimento aparente e a exposi\u00e7\u00e3o real. \u00c9 o mesmo mecanismo de <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/steth-colateral-looping-defi-2026\/'>looping<\/a> que torna qualquer colateral produtivo, com uma diferen\u00e7a fatal: parte das reservas da Stream estava fora da cadeia, em posi\u00e7\u00f5es que ningu\u00e9m do lado on-chain conseguia ver nem auditar.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Foi precisamente a\u00ed que o buraco apareceu. Segundo a a\u00e7\u00e3o judicial que a Stream Trading Corp. apresentou a 8 de dezembro de 2025 no tribunal federal do Norte da Calif\u00f3rnia, noticiada pela <a href='https:\/\/www.dlnews.com\/articles\/defi\/stream-finance-founders-sue-partner-over-alleged-93m-loss\/'>DL News<\/a> e pela <a href='https:\/\/thedefiant.io\/news\/defi\/stream-finance-files-lawsuit-against-0xlaw-mcmeans'>The Defiant<\/a>, o operador que tinha comprado a plataforma no in\u00edcio de 2025, Caleb McMeans (conhecido por \u00ab0xlaw\u00bb), ter\u00e1 gerido a Stream como se fosse o seu pr\u00f3prio neg\u00f3cio e contratado um trader, Ryan DeMattia, cujas estrat\u00e9gias fora da cadeia ter\u00e3o perdido os tais 93 milh\u00f5es. A queixa alega que, a 10 de outubro, DeMattia enfrentou uma margin call numa posi\u00e7\u00e3o pessoal, viu-a liquidada e usou ativos da Stream, aos quais tinha acesso, para cobrir o preju\u00edzo. S\u00e3o acusa\u00e7\u00f5es, e nenhum tribunal se pronunciou. Mas o desenho estava feito: um \u00fanico homem, sem qualquer v\u00ednculo formal vis\u00edvel para os depositantes, controlava o dinheiro.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O cont\u00e1gio de 285 milh\u00f5es: xUSD, deUSD e o resto<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Uma primeira stablecoin raramente morre sozinha. A Elixir tinha emprestado 68 milh\u00f5es de d\u00f3lares \u00e0 Stream, cerca de 65% das reservas que suportavam a sua pr\u00f3pria stablecoin, a deUSD. Quando a Stream congelou os resgates, a Elixir deixou de conseguir honrar os seus: a deUSD colapsou 98%, de 1 d\u00f3lar para menos de 2 c\u00eantimos, e a equipa acabou por descontinuar a moeda. Uma perda fora da cadeia partiu, assim, tr\u00eas stablecoins de uma s\u00f3 vez.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O verdadeiro problema foi a xUSD estar espalhada como garantia por dezenas de mercados. Protocolos como a Euler, a Silo e a Gearbox aceitavam-na como colateral; v\u00e1rios curadores tinham canalizado dep\u00f3sitos em USDC para vaults que perseguiam o seu rendimento. Quando o pre\u00e7o da xUSD se afundou, muitos or\u00e1culos continuaram a marc\u00e1-la perto de 1 d\u00f3lar (voltaremos a este pecado adiante), o que impediu as liquida\u00e7\u00f5es a tempo. A exposi\u00e7\u00e3o total do ecossistema foi estimada em at\u00e9 285 milh\u00f5es de d\u00f3lares, cerca de 244 milh\u00f5es de euros. A tabela seguinte resume quem estava mais exposto, segundo a an\u00e1lise da Yields and More citada pela <a href='https:\/\/protos.com\/stream-finance-meltdown-winners-and-losers-in-defi-risk-curator-reckoning\/'>Protos<\/a>.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Curador ou entidade<\/th><th>Exposi\u00e7\u00e3o estimada<\/th><th>Nota<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Telos Consilium (TelosC)<\/td><td>~124 M$<\/td><td>Maior credor exposto<\/td><\/tr><tr><td>Elixir<\/td><td>68 M$<\/td><td>Empr\u00e9stimo igual a ~65% das reservas da deUSD<\/td><\/tr><tr><td>MEV Capital<\/td><td>~34 M$<\/td><td>V\u00e1rios mercados e um vault<\/td><\/tr><tr><td>Varlamore<\/td><td>&gt;19 M$<\/td><td>Cinco vaults de xUSD<\/td><\/tr><tr><td>Re7 Labs<\/td><td>~14,65 M$ + 12,75 M$<\/td><td>Cluster xUSD\/USDT0 e colateral<\/td><\/tr><tr><td>Ecossistema (total)<\/td><td>at\u00e9 ~285 M$<\/td><td>Morpho, Euler, Silo, Gearbox e outros<\/td><\/tr><\/tbody><figcaption class='wp-block-table__caption'>Fonte: Yields and More, via Protos (novembro de 2025). Valores aproximados.<\/figcaption><\/table><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>Isolamento \u00e0 prova: porque a Morpho travou o inc\u00eandio<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Nem tudo correu mal da mesma maneira, e a raz\u00e3o importa. Na Morpho, cada vault empresta para mercados isolados: se um colateral se estraga, o preju\u00edzo fica contido no vault que o aceitou, sem contaminar os restantes. Foi o que aconteceu. Dos cerca de 320 vaults da Morpho, apenas um (gerido pela MEV Capital) tinha exposi\u00e7\u00e3o direta relevante \u00e0 xUSD, o que resultou em aproximadamente 700 mil d\u00f3lares de d\u00edvida incobr\u00e1vel. Os outros mais de 300 vaults ficaram intactos. A MEV Capital removeu o par sdeUSD\/USDC afetado, realizando uma perda equivalente a quase 3,6% do capital daquele vault na altura.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A li\u00e7\u00e3o \u00e9 dupla e desconfort\u00e1vel. Por um lado, o isolamento funcionou: a arquitetura da Morpho impediu que a Stream se tornasse um evento sist\u00e9mico para o protocolo, ao contr\u00e1rio do que sucede em pools partilhadas, onde um \u00fanico ativo t\u00f3xico envenena toda a piscina de liquidez. Por outro, o isolamento n\u00e3o impede que um depositante escolha o vault errado. Quem tinha capital no vault exposto perdeu, mesmo sem culpa pr\u00f3pria, porque confiou num curador que perseguiu rendimento. A boa engenharia limitou o raio da explos\u00e3o; n\u00e3o desarmou a bomba. E o dano no ecossistema mais alargado, na Euler e na Silo, mostrou o que acontece quando as garantias t\u00f3xicas circulam sem essa conten\u00e7\u00e3o.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Resolv: quando a chave privada vira or\u00e1culo<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Se a Stream foi um caso de m\u00e1 gest\u00e3o fora da cadeia, a Resolv foi um caso de seguran\u00e7a operacional. A 22 de mar\u00e7o de 2026, um atacante obteve acesso \u00e0 infraestrutura de cloud da Resolv atrav\u00e9s de uma intrus\u00e3o na cadeia de fornecimento: uma credencial de GitHub comprometida abriu caminho a um fluxo de CI\/CD malicioso, que por sua vez exfiltrou as credenciais de nuvem e permitiu manipular a pol\u00edtica da chave de assinatura (a SERVICE_ROLE no AWS KMS) que autoriza a cunhagem de USR. Com essa chave, o atacante depositou entre 100 e 200 mil d\u00f3lares em USDC e cunhou 80 milh\u00f5es de USR sem lastro em duas transa\u00e7\u00f5es (50 milh\u00f5es e 30 milh\u00f5es), um desfasamento de 500 para 1, porque o contrato n\u00e3o tinha verifica\u00e7\u00e3o de or\u00e1culo, valida\u00e7\u00e3o de montante nem limite m\u00e1ximo de cunhagem.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O saque final rondou os 25 milh\u00f5es de d\u00f3lares, consolidados em 11 408 ETH, depois de o atacante converter o USR em wstUSR (a vers\u00e3o embrulhada, mais dif\u00edcil de vigiar) e o passar por Curve e Uniswap at\u00e9 chegar a stablecoins e, por fim, a ETH. A <a href='https:\/\/rekt.news\/resolv-labs-rekt'>rekt.news<\/a> resumiu a falha numa frase seca: o modelo de amea\u00e7a assumia simplesmente que a chave n\u00e3o vazaria, e a chave vazou. A Resolv pausou opera\u00e7\u00f5es em cerca de tr\u00eas horas, chamou investigadores forenses e, at\u00e9 6 de abril, tinha queimado ou colocado na lista negra cerca de 57% do USR il\u00edcito, compensando 1 para 1 os detentores anteriores ao ataque. Mas o estrago no cr\u00e9dito j\u00e1 estava feito, e por um motivo que se repete.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O pecado recorrente: o or\u00e1culo fixado por c\u00f3digo<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">O elo entre a Stream e a Resolv n\u00e3o \u00e9 o m\u00e9todo do ataque, \u00e9 a resposta dos mercados de cr\u00e9dito. Nos dois casos, os or\u00e1culos que os vaults usavam para avaliar o colateral estavam fixados por c\u00f3digo (\u00abhardcoded\u00bb): devolviam um pre\u00e7o constante em vez de o irem buscar ao mercado. Enquanto o ativo \u00e9 est\u00e1vel, ningu\u00e9m repara. Quando descola, o or\u00e1culo continua a mentir. Omer Goldberg, fundador da empresa de risco Chaos Labs, documentou o mecanismo na <a href='https:\/\/thedefiant.io\/news\/hacks\/defi-has-seen-resolv-s-usd25m-usr-exploit-many-times-before'>The Defiant<\/a>: \u00abO or\u00e1culo est\u00e1 fixado por c\u00f3digo e por isso nunca \u00e9 reavaliado. O wstUSR estava marcado a 1,13 d\u00f3lares enquanto era transacionado a cerca de 0,63 d\u00f3lares nos mercados secund\u00e1rios.\u00bb O resto \u00e9 aritm\u00e9tica de arbitragem: comprava-se wstUSR barato no mercado aberto e depositava-se como garantia ao pre\u00e7o inflacionado do or\u00e1culo, pedindo USDC emprestado contra ele e desaparecendo.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A parte mais inc\u00f3moda \u00e9 que n\u00e3o foi a primeira vez, nem a segunda. Foi a quarta falha de or\u00e1culo fixado em catorze meses. A tabela abaixo alinha os quatro epis\u00f3dios; o padr\u00e3o \u00e9 t\u00e3o n\u00edtido que se tornou previs\u00edvel.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Data<\/th><th>Ativo<\/th><th>Protocolo(s)<\/th><th>Consequ\u00eancia<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Jan. 2025<\/td><td>USD0++ (Usual)<\/td><td>Morpho<\/td><td>Piso descido para 0,87 $, or\u00e1culo fixo em 1 $; utiliza\u00e7\u00e3o a 100%<\/td><\/tr><tr><td>Out.-Nov. 2025<\/td><td>Moonwell<\/td><td>Moonwell<\/td><td>&gt;5 M$ em d\u00edvida incobr\u00e1vel<\/td><\/tr><tr><td>Nov. 2025<\/td><td>xUSD (Stream)<\/td><td>Morpho, Euler, Silo<\/td><td>At\u00e9 ~285 M$ de exposi\u00e7\u00e3o no ecossistema<\/td><\/tr><tr><td>Mar. 2026<\/td><td>wstUSR (Resolv)<\/td><td>Fluid, Morpho, Inverse<\/td><td>~25 M$ roubados e d\u00edvida incobr\u00e1vel em v\u00e1rios vaults<\/td><\/tr><\/tbody><figcaption class='wp-block-table__caption'>Fonte: The Defiant, KuCoin. A quarta falha de or\u00e1culo fixado em catorze meses.<\/figcaption><\/table><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>O dinheiro que entrou depois do assalto<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um detalhe da Resolv que devia envergonhar toda a ind\u00fastria. Grande parte da d\u00edvida incobr\u00e1vel gerada na Morpho n\u00e3o veio de capital que j\u00e1 l\u00e1 estava quando o ataque aconteceu; veio de capital que foi depositado depois. Como notou Goldberg num <a href='https:\/\/x.com\/omeragoldberg\/status\/2035817791786221990'>fio detalhado<\/a>, quase toda a d\u00edvida m\u00e1 nos vaults da Gauntlet foi fornecida ap\u00f3s o exploit j\u00e1 ser p\u00fablico. A pergunta \u00f3bvia \u00e9: porque \u00e9 que um curador continuaria a injetar milh\u00f5es de USDC num mercado j\u00e1 partido?<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta est\u00e1 nos alocadores autom\u00e1ticos. Um vault que persegue rendimento v\u00ea um mercado a pagar taxas alt\u00edssimas (durante o epis\u00f3dio da Stream, houve mercados a exibir taxas anualizadas de 190%) e interpreta-o como oportunidade, n\u00e3o como armadilha. Os rob\u00f4s de aloca\u00e7\u00e3o continuam a encaminhar liquidez para onde a taxa \u00e9 maior, sem perceber que a taxa est\u00e1 alta precisamente porque o mercado est\u00e1 a implodir. O princ\u00edpio do humano no circuito, que deveria travar isto, falhou porque o circuito \u00e9, cada vez mais, s\u00f3 de m\u00e1quinas. \u00c9 a vers\u00e3o de cr\u00e9dito daquilo que os mercados de derivados conhecem bem: quando a m\u00e1quina persegue o n\u00famero sem ler o contexto, alimenta a <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/posicionamento-derivados-cascata-liquidacoes-2026\/'>cascata<\/a> em vez de a evitar.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Quem paga a conta (e n\u00e3o \u00e9 o curador)<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui chegamos \u00e0 pergunta do t\u00edtulo. Quando um vault acumula d\u00edvida incobr\u00e1vel, quem perde? N\u00e3o \u00e9 o protocolo, que \u00e9 apenas o contrato. N\u00e3o \u00e9, na maior parte dos casos, o curador, cujo capital raramente est\u00e1 em risco. \u00c9 o depositante. Num banco, existe uma hierarquia: os acionistas absorvem as primeiras perdas, depois os credores subordinados, e o dep\u00f3sito comum est\u00e1 protegido por um fundo de garantia. Na DeFi de cr\u00e9dito, essa hierarquia n\u00e3o existe. O depositante \u00e9, ele pr\u00f3prio, o capital de primeira linha que absorve o preju\u00edzo.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">As respostas variaram conforme a vergonha de cada equipa. No caso da Resolv, a Fluid garantiu empr\u00e9stimos de curto prazo para cobrir 100% da d\u00edvida incobr\u00e1vel e prometeu tornar todos os utilizadores inteiros; a Morpho viu cerca de 6,2 milh\u00f5es de d\u00f3lares fornecidos a mercados partidos (96% a partir de vaults da Gauntlet) antes de desligar os alocadores autom\u00e1ticos. Mas \u00e9 crucial perceber que a decis\u00e3o da Fluid foi um resgate reputacional volunt\u00e1rio, n\u00e3o uma obriga\u00e7\u00e3o contratual. Ningu\u00e9m era obrigado a compensar ningu\u00e9m. Quem depositou num vault que n\u00e3o foi socorrido, ficou simplesmente com a perda. \u00c9 a diferen\u00e7a entre um seguro e a boa vontade de quem gere a casa.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O rescaldo: a guerra pelos credores<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Recuperar o que resta \u00e9 a fase mais ingrata. No caso da Stream, a equipa come\u00e7ou a recolher reclama\u00e7\u00f5es de credores como primeiro passo para aquilo a que chama uma \u00abresolu\u00e7\u00e3o global\u00bb, segundo a <a href='https:\/\/thedefiant.io\/news\/defi\/stream-finance-starts-collecting-creditor-claims-in-step-toward-global-resolution'>The Defiant<\/a>. Mas a hierarquia entre as classes de credores continua por decidir, e j\u00e1 h\u00e1 conflito: a Elixir reclama o direito de resgatar ao valor nominal de 1 d\u00f3lar, enquanto a Stream ainda n\u00e3o reconheceu a posi\u00e7\u00e3o de nenhum credor \u00e0 frente de um processo formal. Traduzido: mesmo depois de identificado o buraco, quem recebe primeiro, e quanto, \u00e9 uma disputa em aberto.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Na Resolv, o desfecho foi mais limpo, em parte porque a perda foi menor e o atacante deixou rasto. A equipa executou uma atualiza\u00e7\u00e3o de contrato que destruiu de forma permanente cerca de 36,73 milh\u00f5es de tokens wstUSR e stUSR, concluiu os reembolsos aos detentores eleg\u00edveis e recorreu a investigadores forenses para seguir os fundos at\u00e9 \u00e0s carteiras finais. A diferen\u00e7a entre os dois rescaldos \u00e9 instrutiva: um ataque com culpado on-chain e reservas parcialmente recuper\u00e1veis resolve-se em semanas; uma perda fora da cadeia, entregue a um \u00fanico operador e envolta em lit\u00edgio, arrasta-se por meses e deixa os depositantes num limbo. Em ambos os casos, o denominador comum \u00e9 o mesmo: a devolu\u00e7\u00e3o, quando existe, depende da tesouraria e da boa vontade de quem geria, n\u00e3o de qualquer garantia.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Sem pele em jogo: o problema de incentivos<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">O problema de fundo \u00e9 de incentivos, e \u00e9 simples de enunciar. O curador cobra sobre o rendimento; o rendimento sobe quando aceita colateral mais arriscado; o risco desse colateral recai sobre o depositante. O curador ganha na subida e, na descida, arrisca sobretudo a reputa\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que os anglo-sax\u00f3nicos chamam falta de \u00abskin in the game\u00bb: pele em jogo. Marc Zeller, uma das vozes mais influentes da comunidade Aave, resumiu-o com uma imagem citada pela <a href='https:\/\/protos.com\/stream-finance-meltdown-winners-and-losers-in-defi-risk-curator-reckoning\/'>Protos<\/a>: o modelo permissionless de curadores \u00e9 como um hospital onde qualquer pessoa se pode registar como m\u00e9dico, deixando os pacientes a desenrascarem-se sozinhos.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A cr\u00edtica n\u00e3o \u00e9 ret\u00f3rica. Sem registo, sem identidade divulgada e sem capital de risco pr\u00f3prio, o curador n\u00e3o tem nenhum mecanismo de responsabiliza\u00e7\u00e3o para al\u00e9m da reputa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 barata de reconstruir sob outro nome. A reforma mais discutida, avan\u00e7ada por an\u00e1lises como a da <a href='https:\/\/www.chaincatcher.com\/en\/article\/2222131'>ChainCatcher<\/a>, \u00e9 obrigar os curadores a manter capital de risco que seja deduzido quando as perdas de um vault ultrapassam um limiar, alinhando o incentivo com o do depositante. Sem essa pele em jogo, cada colapso continua a ter o mesmo ep\u00edlogo: o curador segue em frente, o depositante fica com o buraco.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Morpho contra Aave: dois modelos de risco em disputa<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Os colapsos reacenderam um debate estrutural que divide a DeFi: onde deve viver a gest\u00e3o de risco? De um lado, a Morpho, que separa um n\u00facleo m\u00ednimo e imut\u00e1vel (os contratos que nunca mudam) da gest\u00e3o de risco entregue a curadores externos, com mercados isolados e sem qualquer rede de seguran\u00e7a comum. \u00c9 o modelo do prime broker: eficiente, flex\u00edvel, mas que empurra a responsabilidade para quem escolhe o vault. Do outro, a Aave, que funciona como um banco universal: pools governadas pelo DAO, par\u00e2metros que se ajustam por vota\u00e7\u00e3o e um backstop coletivo, o Umbrella, que faz slashing de capital em staking, ativo a ativo, para cobrir d\u00e9fices.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Stani Kulechov, fundador da Aave, n\u00e3o escondeu a leitura: descreveu o uso de feeds de pre\u00e7os, curvas de juro e par\u00e2metros imut\u00e1veis como \u00abuma m\u00e1 receita para os protocolos de cr\u00e9dito\u00bb, precisamente porque um sistema que n\u00e3o consegue reavaliar o risco em tempo real fica ref\u00e9m do seu pr\u00f3prio c\u00f3digo quando o mundo muda. Os defensores da Morpho respondem que a imutabilidade \u00e9 uma virtude (ningu\u00e9m pode alterar as regras a meio do jogo) e que o isolamento conteve a Stream melhor do que qualquer pool partilhada teria contido. Os dois t\u00eam raz\u00e3o numa parte. A tabela clarifica as diferen\u00e7as.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Dimens\u00e3o<\/th><th>Morpho<\/th><th>Aave<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Modelo<\/td><td>Prime broker (infra + curadores externos)<\/td><td>Banco universal (pools governadas)<\/td><\/tr><tr><td>Gest\u00e3o de risco<\/td><td>Por vault, a cargo do curador<\/td><td>Framework de risco do DAO<\/td><\/tr><tr><td>Mercados<\/td><td>Isolados<\/td><td>Partilhados (com modo de isolamento)<\/td><\/tr><tr><td>Se o colateral falha<\/td><td>Perda fica no vault exposto<\/td><td>Absorvida pela pool; backstop coletivo<\/td><\/tr><tr><td>Rede de seguran\u00e7a<\/td><td>Nenhuma (depositante suporta)<\/td><td>Umbrella (staking com slashing por ativo)<\/td><\/tr><tr><td>Or\u00e1culos e par\u00e2metros<\/td><td>Escolhidos pelo curador; por vezes fixos<\/td><td>Aprovados e ajust\u00e1veis pelo DAO<\/td><\/tr><\/tbody><figcaption class='wp-block-table__caption'>Fonte: documenta\u00e7\u00e3o Morpho e Aave; declara\u00e7\u00f5es via Protos.<\/figcaption><\/table><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>O que muda depois da aut\u00f3psia<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A conclus\u00e3o mais dura veio do pr\u00f3prio relat\u00f3rio da Chorus One, e vale a pena repeti-la: a arquitetura da DeFi \u00e9 resiliente, mas a sua cultura de risco n\u00e3o \u00e9. Os contratos aguentaram; foi a decis\u00e3o humana de tratar uma stablecoin sint\u00e9tica alavancada como se fosse um d\u00f3lar que falhou. Daqui saem v\u00e1rias linhas de reforma que a ind\u00fastria j\u00e1 come\u00e7a a testar. A primeira \u00e9 a transpar\u00eancia de risco: um enquadramento comum de nota\u00e7\u00f5es, ao estilo AAA\/BBB, com metodologia aberta, para que um depositante saiba que tipo de risco est\u00e1 a comprar antes de comprar, como acontece com as ag\u00eancias de rating na d\u00edvida tradicional.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda \u00e9 t\u00e9cnica e imediata: banir or\u00e1culos fixos para colateral vol\u00e1til e impor disjuntores autom\u00e1ticos que suspendam um mercado quando o pre\u00e7o on-chain se afasta demasiado do pre\u00e7o de mercado. A terceira \u00e9 a governa\u00e7\u00e3o: timelocks de um a sete dias em cada altera\u00e7\u00e3o de par\u00e2metro, durante os quais quem discorda pode sair, e endere\u00e7os de guardi\u00e3o com poder de veto ou pausa de emerg\u00eancia. A quarta, mais controversa, \u00e9 institucional: registo dos curadores, capacidade de KYC e capital de risco pr\u00f3prio, aquilo que transformaria um otimizador de rendimento num gestor de ativos respons\u00e1vel. Nada disto elimina o risco. Torna-o leg\u00edvel, e transfere parte do custo de volta para quem o cria.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O mercado j\u00e1 est\u00e1 a fazer parte desta sele\u00e7\u00e3o sozinho. Novembro de 2025 foi um teste de esfor\u00e7o alargado (na mesma altura, um bug de arredondamento na Balancer v2 drenou cerca de 130 milh\u00f5es de d\u00f3lares), e o capital saiu a votar com os p\u00e9s. Os curadores mais disciplinados, com foco em stablecoins e hist\u00f3rico limpo, mantiveram ou aumentaram mandatos; os que perseguiram os rendimentos da xUSD viram a confian\u00e7a evaporar-se. A concentra\u00e7\u00e3o no topo, com a Gauntlet e a Steakhouse a liderar, \u00e9 em parte um regresso \u00e0 qualidade. \u00c9 saud\u00e1vel, mas insuficiente: um mercado que s\u00f3 aprende a punir depois de cada colapso continua a pagar a fatura em dep\u00f3sitos alheios.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A DeFi n\u00e3o \u00e9 um banco (e a MiCA sabe disso)<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Para o leitor europeu, a li\u00e7\u00e3o regulat\u00f3ria \u00e9 a mais importante de todas: n\u00e3o h\u00e1 aqui um fundo de garantia de dep\u00f3sitos. A MiCA, o regulamento europeu para criptoativos, supervisiona emitentes e prestadores de servi\u00e7os (as CASP), n\u00e3o os protocolos DeFi aut\u00f3nomos. Quando se interage diretamente com um contrato inteligente, fica-se fora do per\u00edmetro de supervis\u00e3o, sem dep\u00f3sito garantido e sem credor de \u00faltimo recurso. O relat\u00f3rio conjunto da EBA e da ESMA previsto no artigo 142 da MiCA, publicado no in\u00edcio de 2025, classificou a DeFi como um nicho, respons\u00e1vel por cerca de 4% do valor cripto global, e a Comiss\u00e3o n\u00e3o a colocou como prioridade regulat\u00f3ria imediata.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Isso pode estar a come\u00e7ar a mudar. A Comiss\u00e3o Europeia abriu, a 20 de maio de 2026, uma <a href='https:\/\/finance.ec.europa.eu\/regulation-and-supervision\/consultations-0\/targeted-consultation-review-mica-regulation_en'>consulta de revis\u00e3o da MiCA<\/a> com 86 perguntas, incluindo a fronteira entre o que \u00e9 e n\u00e3o \u00e9 supervisionado, com respostas at\u00e9 31 de agosto. Em Portugal, a <a href='https:\/\/www.cmvm.pt'>CMVM<\/a> supervisiona a conduta de mercado e o Banco de Portugal trata do registo das CASP e das stablecoins, ao abrigo da Lei n.\u00ba 69\/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, cujo regime transit\u00f3rio para os antigos VASP terminou a 1 de julho de 2026. A moldura macro tamb\u00e9m aperta: com a taxa de dep\u00f3sito do <a href='https:\/\/www.ecb.europa.eu\/stats\/policy_and_exchange_rates\/key_ecb_interest_rates\/html\/index.en.html'>BCE<\/a> nos 2,25%, um rendimento de 18% numa stablecoin devia soar, por si s\u00f3, a alarme. A regra n\u00e3o escrita mant\u00e9m-se: quem quer o retorno da DeFi assume o risco da DeFi, e esse risco \u00e9, muitas vezes, a solv\u00eancia de um curador que nunca conheceu.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Como avaliar um vault antes de depositar<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhuma lista elimina o risco, mas a maior parte das v\u00edtimas da Stream e da Resolv teria hesitado se tivesse feito estas perguntas. Antes de aceitar o rendimento de um vault de cr\u00e9dito, vale a pena ler a <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/fim-do-premio-como-ler-tesouraria-cripto-2026\/'>estrutura por baixo do n\u00famero<\/a> com a mesma frieza com que se l\u00ea uma tesouraria.<\/p><ul class='wp-block-list'><li><strong>Historial e transpar\u00eancia do curador:<\/strong> tem nome, equipa identific\u00e1vel e um registo p\u00fablico de decis\u00f5es? Reputa\u00e7\u00e3o an\u00f3nima \u00e9 pele em jogo nenhuma.<\/li><li><strong>Qualidade do colateral:<\/strong> o vault aceita d\u00f3lares sint\u00e9ticos, tokens alavancados ou ativos com loops de rendimento? Rendimento muito acima do mercado quase sempre esconde risco de cr\u00e9dito.<\/li><li><strong>Tipo de or\u00e1culo:<\/strong> o pre\u00e7o do colateral vem do mercado em tempo real ou est\u00e1 fixado por c\u00f3digo? Um or\u00e1culo fixo \u00e9 uma bomba com temporizador.<\/li><li><strong>Timelock e guardi\u00e3o:<\/strong> as altera\u00e7\u00f5es de par\u00e2metros t\u00eam per\u00edodo de espera que permita sair? Existe endere\u00e7o de guardi\u00e3o com pausa de emerg\u00eancia?<\/li><li><strong>Concentra\u00e7\u00e3o:<\/strong> um \u00fanico ativo representa uma fatia grande do vault? A diversifica\u00e7\u00e3o \u00e9 a diferen\u00e7a entre um susto e uma ru\u00edna.<\/li><li><strong>Liquidez de sa\u00edda:<\/strong> h\u00e1 saldo ocioso suficiente para resgatar quando todos quiserem sair ao mesmo tempo? Foi a corrida aos resgates que amplificou a Stream.<\/li><\/ul><h2 class='wp-block-heading'>Perguntas frequentes<\/h2><h3 class='wp-block-heading'>O que \u00e9 um curador na DeFi?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Um curador \u00e9 um gestor de risco que constr\u00f3i e opera um vault num protocolo de cr\u00e9dito como a Morpho ou a Euler. Define que garantias o vault aceita, com que limites e a que pre\u00e7o, e canaliza os dep\u00f3sitos dos utilizadores para os mercados que escolhe. Em troca, cobra uma comiss\u00e3o sobre o rendimento gerado. N\u00e3o custodia o dinheiro, mas decide o risco a que ele fica exposto, o que faz do curador o verdadeiro gestor de carteira por tr\u00e1s de muitos rendimentos da DeFi.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>O que aconteceu \u00e0 Stream Finance e \u00e0 xUSD?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">A 4 de novembro de 2025, a Stream Finance revelou que um gestor externo tinha perdido cerca de 93 milh\u00f5es de d\u00f3lares em posi\u00e7\u00f5es fora da cadeia. A sua stablecoin xUSD, que deveria valer 1 d\u00f3lar, caiu para cerca de 0,26 d\u00f3lares em 24 horas e para menos de 0,15 d\u00f3lares no fim da semana. Como a xUSD era usada como garantia alavancada em v\u00e1rios protocolos, o cont\u00e1gio chegou a expor at\u00e9 285 milh\u00f5es de d\u00f3lares e arrastou a deUSD da Elixir, que lhe tinha emprestado a maioria das reservas.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>O que \u00e9 um or\u00e1culo fixado por c\u00f3digo e porque \u00e9 perigoso?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Um or\u00e1culo fixado por c\u00f3digo devolve sempre o mesmo pre\u00e7o para um ativo, em vez de o ir buscar ao mercado em tempo real. Enquanto o ativo se mant\u00e9m est\u00e1vel, ningu\u00e9m nota o problema. Quando descola do seu valor, o or\u00e1culo continua a reportar o pre\u00e7o antigo, o que impede as liquida\u00e7\u00f5es e permite que um arbitragista compre o ativo barato no mercado e o deposite como garantia ao pre\u00e7o inflacionado. Foi este o mecanismo comum aos colapsos da Usual, da Moonwell, da Stream e da Resolv.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>Se um vault acumular d\u00edvida incobr\u00e1vel, quem perde o dinheiro?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Na maioria dos casos, o depositante. Um protocolo DeFi n\u00e3o \u00e9 um banco: n\u00e3o h\u00e1 fundo de garantia de dep\u00f3sitos, credor de \u00faltimo recurso nem hierarquia de acionistas a absorver as primeiras perdas. Quando um vault fica com d\u00edvida incobr\u00e1vel, o preju\u00edzo recai sobre quem forneceu a liquidez. Algumas equipas optaram por cobrir voluntariamente as perdas para proteger a reputa\u00e7\u00e3o, como fez a Fluid no caso da Resolv, mas isso \u00e9 boa vontade, n\u00e3o uma obriga\u00e7\u00e3o contratual.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>A MiCA ou a CMVM protegem quem usa protocolos DeFi de cr\u00e9dito?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o diretamente. A MiCA regula os emitentes de criptoativos e os prestadores de servi\u00e7os (as CASP), mas n\u00e3o os protocolos DeFi aut\u00f3nomos com os quais se interage diretamente atrav\u00e9s de contratos inteligentes. Em Portugal, a CMVM supervisiona a conduta de mercado e o Banco de Portugal trata do registo das CASP e das stablecoins, mas nenhum deles garante os dep\u00f3sitos feitos num vault DeFi. Quem interage diretamente com o protocolo fica fora do per\u00edmetro de supervis\u00e3o e assume integralmente o risco de perda.<\/p><script type=\"application\/ld+json\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@type\":\"FAQPage\",\"mainEntity\":[{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"O que \u00e9 um curador na DeFi?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"Um curador \u00e9 um gestor de risco que constr\u00f3i e opera um vault num protocolo de cr\u00e9dito como a Morpho ou a Euler. 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