{"id":388,"date":"2026-08-27T16:45:29","date_gmt":"2026-08-27T16:45:29","guid":{"rendered":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/mev-mempool-encriptado-sandwich-2026\/"},"modified":"2026-08-27T16:45:29","modified_gmt":"2026-08-27T16:45:29","slug":"mev-mempool-encriptado-sandwich-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/mev-mempool-encriptado-sandwich-2026\/","title":{"rendered":"MEV \u00e0s escuras: encriptar o mempool para travar o sandwich"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Em abril de 2026, um dos endere\u00e7os mais conhecidos da Ethereum caiu numa armadilha t\u00e3o antiga como as pr\u00f3prias finan\u00e7as descentralizadas. Vitalik Buterin, co-fundador da rede, submeteu uma troca de poucos euros numa exchange descentralizada e viu-a ser entalada pelo bot conhecido como JaredfromSubway, que cercou a opera\u00e7\u00e3o com cerca de 1 milh\u00e3o de d\u00f3lares (perto de 930 mil euros) em volume para tentar lucrar com a diferen\u00e7a de pre\u00e7o, <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/tech\/2026\/05\/07\/jaredfromsubway-bot-front-runs-vitalik-buterin-s-usd4-token-swap-with-usd1-million-in-volume'>como noticiou a CoinDesk<\/a>. O ataque acabou por n\u00e3o compensar, porque a troca era pequena de mais, mas a mensagem ficou: se nem quem desenhou a Ethereum escapa, ningu\u00e9m escapa.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A cena resume a primeira d\u00e9cada do MEV (Maximal Extractable Value), o valor que quem ordena as transa\u00e7\u00f5es consegue extrair ao reordenar, inserir ou excluir opera\u00e7\u00f5es dentro de um bloco. Durante anos, o setor limitou-se a catalogar as estrat\u00e9gias: arbitragem, liquida\u00e7\u00f5es, sandwich, backrunning. Em 2026, a conversa mudou de rumo. Em vez de perseguir cada bot, as maiores redes atacaram a raiz do problema: o mempool vis\u00edvel, a sala de espera p\u00fablica onde cada transa\u00e7\u00e3o fica exposta antes de ser confirmada. A ideia nova \u00e9 f\u00e1cil de enunciar e dif\u00edcil de executar: esconder o mempool, encriptando as transa\u00e7\u00f5es at\u00e9 ao instante em que s\u00e3o executadas.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Duas das maiores redes seguem o mesmo destino por caminhos diferentes. Na Solana, a Jito p\u00f4s em produ\u00e7\u00e3o o Block Assembly Marketplace (BAM), que corre dentro de enclaves de hardware e j\u00e1 ordena cerca de um ter\u00e7o do stake da rede, <a href='https:\/\/solanacompass.com\/news\/jito-q2-2026-protocol-revenue-falls-45-to-128m-as-bam-reaches-33-of-solana-stake'>segundo o relat\u00f3rio trimestral compilado pela Solana Compass<\/a>. Na Ethereum, o pr\u00f3ximo grande upgrade, Glamsterdam, leva a separa\u00e7\u00e3o entre proposer e builder para dentro do protocolo, e o plano de longo prazo de Buterin aponta para mempools encriptados. Os primeiros dados sugerem que a estrat\u00e9gia resulta: a extra\u00e7\u00e3o por sandwich est\u00e1 em queda acentuada. Este artigo explica o que mudou, quem ganha, quem perde e onde a CMVM e a MiCA entram, ou n\u00e3o, na equa\u00e7\u00e3o.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A floresta escura ficou mesmo mais escura<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2020, os investigadores Dan Robinson e Georgios Konstantopoulos, da Paradigm, descreveram a Ethereum como uma \u00abfloresta escura\u00bb: um espa\u00e7o onde qualquer transa\u00e7\u00e3o exposta no mempool \u00e9 presa f\u00e1cil para predadores automatizados que a copiam, ultrapassam e exploram em milissegundos. A met\u00e1fora colou porque era literal. O mempool \u00e9 p\u00fablico por desenho, e essa transpar\u00eancia, virtude para a verifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma fraqueza para o utilizador comum, cuja inten\u00e7\u00e3o fica vis\u00edvel antes de ser executada.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta de 2026 \u00e9 quase po\u00e9tica: se a floresta \u00e9 perigosa porque se v\u00ea tudo, apaguem-se as luzes. Encriptar o mempool significa que o predador deixa de conseguir ler a presa. Um bot de sandwich precisa de ver a ordem de compra da v\u00edtima para colocar uma ordem \u00e0 frente e outra atr\u00e1s; se essa ordem estiver cifrada at\u00e9 ao momento da execu\u00e7\u00e3o, o ataque perde o alvo. N\u00e3o \u00e9 uma defesa opcional montada pelo utilizador, como um RPC privado, mas uma mudan\u00e7a na pr\u00f3pria infraestrutura que produz os blocos.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A viragem \u00e9 importante porque desloca o campo de batalha. At\u00e9 h\u00e1 pouco, defender-se do MEV era responsabilidade de quem negoceia: usar um agregador, ativar prote\u00e7\u00e3o, encaminhar a ordem por um canal privado. A partir de 2026, a defesa passa a estar embutida na camada que constr\u00f3i os blocos, o que muda quem tem poder, quem lucra e quem fica de fora. Para perceber o que a encripta\u00e7\u00e3o trava e o que deixa passar, conv\u00e9m primeiro arrumar as estrat\u00e9gias.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Um mapa r\u00e1pido das estrat\u00e9gias de MEV<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Nem todo o MEV \u00e9 predat\u00f3rio. Alguns tipos s\u00e3o o lubrificante que mant\u00e9m os pre\u00e7os alinhados entre plataformas; outros s\u00e3o um imposto silencioso cobrado ao retalho. A <a href='https:\/\/ethereum.org\/en\/developers\/docs\/mev\/'>documenta\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Ethereum<\/a> divide o fen\u00f3meno em fam\u00edlias que conv\u00e9m distinguir, porque a encripta\u00e7\u00e3o do mempool n\u00e3o as afeta a todas da mesma maneira.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A arbitragem entre exchanges descentralizadas corrige diferen\u00e7as de pre\u00e7o e \u00e9, em geral, benigna: aproxima o pre\u00e7o de um par ao do resto do mercado. As liquida\u00e7\u00f5es mant\u00eam os protocolos de cr\u00e9dito solventes ao fechar posi\u00e7\u00f5es subcolateralizadas, uma fun\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria que j\u00e1 analis\u00e1mos a prop\u00f3sito das <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/morpho-2026-banco-invisivel-credito-onchain\/'>arquiteturas de cr\u00e9dito on-chain como a da Morpho<\/a> e das <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/posicionamento-derivados-cascata-liquidacoes-2026\/'>cascatas de liquida\u00e7\u00e3o em derivados<\/a>. O sandwich, esse, \u00e9 o vil\u00e3o da hist\u00f3ria: coloca uma ordem imediatamente antes da v\u00edtima para empurrar o pre\u00e7o, deixa a v\u00edtima executar pior e vende logo a seguir, embolsando a diferen\u00e7a. \u00c9 o candidato n\u00famero um a desaparecer com o mempool encriptado.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Estrat\u00e9gia<\/th><th>O que faz<\/th><th>Impacto no utilizador<\/th><th>A encripta\u00e7\u00e3o trava?<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Arbitragem entre DEX<\/td><td>Compra num mercado e vende noutro mais caro<\/td><td>Neutro; alinha pre\u00e7os<\/td><td>N\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Liquida\u00e7\u00f5es<\/td><td>Fecha posi\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito subcolateralizadas<\/td><td>Necess\u00e1rio ao sistema<\/td><td>N\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Sandwich<\/td><td>Cerca a ordem da v\u00edtima para piorar o pre\u00e7o<\/td><td>Negativo; imposto direto<\/td><td>Sim; \u00e9 o alvo principal<\/td><\/tr><tr><td>JIT liquidity<\/td><td>Injeta e retira liquidez no mesmo bloco<\/td><td>Amb\u00edguo<\/td><td>Parcial<\/td><\/tr><tr><td>Backrunning<\/td><td>Coloca-se logo a seguir a uma transa\u00e7\u00e3o relevante<\/td><td>Baixo ou neutro<\/td><td>N\u00e3o diretamente<\/td><\/tr><tr><td>Long-tail e cross-domain<\/td><td>Explora eventos raros ou v\u00e1rias cadeias em simult\u00e2neo<\/td><td>Vari\u00e1vel<\/td><td>Depende do desenho<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">A distin\u00e7\u00e3o interessa porque a ind\u00fastria n\u00e3o quer eliminar todo o MEV. A arbitragem e as liquida\u00e7\u00f5es continuam \u00fateis, e v\u00e1rias das novas arquiteturas procuram redistribuir esse valor em vez de o apagar. O alvo declarado \u00e9 o MEV t\u00f3xico, sobretudo o sandwich, que transfere dinheiro do utilizador para o bot sem qualquer contrapartida.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O sandwich est\u00e1 a definhar: o que dizem os dados<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Se a tese da encripta\u00e7\u00e3o estivesse errada, os n\u00fameros n\u00e3o a acompanhariam. Acontece que acompanham. Dados da EigenPhi, a plataforma que rastreia extra\u00e7\u00e3o on-chain, mostram que a receita mensal dos ataques sandwich na Ethereum caiu de perto de 10 milh\u00f5es de d\u00f3lares no final de 2024 para cerca de 2,5 milh\u00f5es em outubro de 2025, <a href='https:\/\/www.tradingview.com\/news\/cointelegraph:fa12ba092094b:0-exclusive-data-from-eigenphi-reveals-that-sandwich-attacks-on-ethereum-have-waned\/'>segundo uma an\u00e1lise divulgada pela Cointelegraph<\/a>. O lucro l\u00edquido, depois de descontar o g\u00e1s, rondou os 260 mil d\u00f3lares por m\u00eas em 2025, e mesmo esse valor foi inflacionado por um \u00fanico ataque em janeiro que rendeu mais de 800 mil d\u00f3lares.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O detalhe que torna esta queda convincente \u00e9 o pano de fundo. O n\u00famero de ataques manteve-se elevado, entre 60 mil e 90 mil por m\u00eas, e o volume das exchanges descentralizadas subiu de cerca de 65 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares por trimestre para mais de 100 mil milh\u00f5es. Por outras palavras: mais transa\u00e7\u00f5es, mais tentativas, mas muito menos valor extra\u00eddo por cada uma. A margem do sandwich est\u00e1 a ser espremida, n\u00e3o por falta de v\u00edtimas, mas porque a prote\u00e7\u00e3o melhorou.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Indicador<\/th><th>Final de 2024<\/th><th>Outubro de 2025<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Extra\u00e7\u00e3o mensal por sandwich<\/td><td>Cerca de 10 milh\u00f5es USD<\/td><td>Cerca de 2,5 milh\u00f5es USD<\/td><\/tr><tr><td>Ataques por m\u00eas<\/td><td>60 mil a 90 mil<\/td><td>60 mil a 90 mil<\/td><\/tr><tr><td>Volume trimestral das DEX<\/td><td>Cerca de 65 mil milh\u00f5es USD<\/td><td>Mais de 100 mil milh\u00f5es USD<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">A EigenPhi aponta uma explica\u00e7\u00e3o prov\u00e1vel: mais traders est\u00e3o a usar ferramentas de prote\u00e7\u00e3o contra o MEV. A mesma an\u00e1lise menciona inova\u00e7\u00f5es de encripta\u00e7\u00e3o de limiar, como as da Shutter, que cifram as transa\u00e7\u00f5es antes de entrarem no bloco. A leitura \u00e9 clara: as defesas constru\u00eddas nos \u00faltimos anos, dos agregadores aos leil\u00f5es de fluxo de ordens, come\u00e7aram a morder. A encripta\u00e7\u00e3o do mempool \u00e9 o passo seguinte, e mais radical, dessa mesma trajet\u00f3ria.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Vale a pena recordar como se chegou aqui. Antes da encripta\u00e7\u00e3o, a defesa contra o sandwich montou-se em tr\u00eas camadas: RPC privados, que retiram a transa\u00e7\u00e3o do mempool p\u00fablico e a entregam diretamente a um builder; leil\u00f5es de fluxo de ordens, como o MEV Blocker e o MEV-Share, que devolvem ao utilizador a maior parte do valor que um backrunner estaria disposto a pagar; e desenhos de execu\u00e7\u00e3o em lote, como os da CoW, que liquidam v\u00e1rias ordens ao mesmo pre\u00e7o e tornam o sandwich matematicamente in\u00fatil. A encripta\u00e7\u00e3o, por hardware ou por limiar, \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o natural desta linha, porque protege por omiss\u00e3o, sem exigir que o utilizador saiba sequer que o perigo existe.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A ideia que muda tudo: esconder o mempool<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Como se esconde um mempool sem deixar de o poder processar? H\u00e1 duas escolas. A primeira \u00e9 a encripta\u00e7\u00e3o de limiar (threshold encryption): as transa\u00e7\u00f5es s\u00e3o cifradas e s\u00f3 um conjunto distribu\u00eddo de operadores, agindo em conjunto, as consegue decifrar depois de a ordem estar fixada. A segunda, a que ganhou tra\u00e7\u00e3o em 2026, usa Trusted Execution Environments (TEE), enclaves de hardware dentro do processador que isolam o c\u00f3digo e os dados de toda a gente, incluindo o dono da m\u00e1quina.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Num TEE, as transa\u00e7\u00f5es entram cifradas, s\u00e3o ordenadas dentro do enclave e s\u00f3 a\u00ed s\u00e3o reveladas, j\u00e1 sem margem para as reordenar de forma hostil. O enclave produz uma prova criptogr\u00e1fica (uma attestation) de que executou o c\u00f3digo prometido, para que qualquer pessoa possa confirmar que ningu\u00e9m espreitou o fluxo. \u00c9 a diferen\u00e7a entre confiar na palavra do operador e confiar na matem\u00e1tica do chip.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Buterin resumiu a l\u00f3gica numa frase que vale por um artigo inteiro. \u00abSe uma transa\u00e7\u00e3o estiver encriptada at\u00e9 ao momento em que \u00e9 inclu\u00edda, ningu\u00e9m tem a oportunidade de a &#8217;embrulhar&#8217; de forma hostil\u00bb, <a href='https:\/\/www.theblock.co\/post\/391840\/vitalik-buterin-eyes-big-focil-and-encrypted-mempools-to-prevent-centralization-in-block-building-pipeline'>afirmou em mar\u00e7o de 2026<\/a>, referindo-se diretamente ao sandwich, que consiste precisamente em embrulhar a ordem da v\u00edtima. A frase pesa porque vem de quem menos precisaria de defender esta solu\u00e7\u00e3o: o mempool p\u00fablico foi, durante anos, um dogma da transpar\u00eancia da Ethereum.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A aposta da Solana: o BAM da Jito<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A Solana nunca teve um mempool global como a Ethereum, mas nem por isso escapou ao MEV. Cada validador detinha autoridade total sobre a ordem das transa\u00e7\u00f5es no seu slot, com pouca transpar\u00eancia sobre a forma como o bloco era montado, o que abriu espa\u00e7o a mercados cinzentos e a acordos fora da cadeia. J\u00e1 em 2024 a Jito tinha desligado o seu fluxo de mempool p\u00fablico, precisamente por alimentar ataques sandwich contra utilizadores de retalho, <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/business\/2024\/03\/08\/solana-client-developer-jito-announces-end-of-mempool-function'>como noticiou a CoinDesk na altura<\/a>.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O BAM, anunciado em julho de 2025 e em produ\u00e7\u00e3o na mainnet da Solana desde setembro desse ano, \u00e9 a resposta estrutural. Na <a href='https:\/\/www.helius.dev\/blog\/block-assembly-marketplace-bam'>descri\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica publicada pela Helius<\/a>, o sistema separa fun\u00e7\u00f5es: os n\u00f3s BAM tratam de receber, filtrar e ordenar as transa\u00e7\u00f5es, enquanto os validadores se concentram na execu\u00e7\u00e3o e no consenso. Tudo isto acontece dentro de TEE assentes em processadores AMD com SEV-SNP, que a Helius diz introduzirem apenas 2 a 5 por cento de sobrecarga, r\u00e1pido o suficiente para o ritmo da Solana. As transa\u00e7\u00f5es permanecem cifradas dentro do enclave at\u00e9 serem executadas, e cada n\u00f3 emite uma attestation que prova a ordem escolhida.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A parte mais ambiciosa \u00e9 o quadro de plugins, a que a Jito chama Application-Controlled Execution. Permite que um protocolo defina a sua pr\u00f3pria l\u00f3gica de ordena\u00e7\u00e3o no momento em que o bloco \u00e9 constru\u00eddo: prote\u00e7\u00e3o nativa contra slippage, tipos de ordem program\u00e1veis ou atualiza\u00e7\u00f5es de or\u00e1culo just-in-time, em que um feed de pre\u00e7os como o da Pyth \u00e9 atualizado exatamente quando \u00e9 preciso. Este \u00faltimo ponto liga-se a um problema recorrente da DeFi, o da <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/oraculos-pontes-credito-malparado-defi-2026\/'>manipula\u00e7\u00e3o de or\u00e1culos e do cr\u00e9dito malparado<\/a>: controlar quando o pre\u00e7o entra no bloco fecha a porta a uma classe inteira de ataques.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A ado\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi acidental. O BAM avan\u00e7a por fases, do arranque com n\u00f3s operados pela Jito \u00e0 entrada progressiva de operadores externos, e a Jito comprometeu-se a abrir o c\u00f3digo para que a rede n\u00e3o dependa de um \u00fanico respons\u00e1vel. \u00c9 uma resposta direta a uma cr\u00edtica \u00f3bvia: trocar a opacidade de milhares de validadores pela opacidade de um s\u00f3 sistema n\u00e3o seria progresso nenhum. A aposta \u00e9 que a combina\u00e7\u00e3o de enclaves, attestations e plugins abertos entregue privacidade sem recriar um ponto \u00fanico de controlo.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A vis\u00e3o de quem lidera a Jito \u00e9 expl\u00edcita. Lucas Bruder, co-fundador e CEO da Jito Labs, tem defendido que a constru\u00e7\u00e3o de blocos deve ser transparente e verific\u00e1vel, em vez de depender da boa vontade de um \u00fanico validador. Ao lan\u00e7ar o JTX, a camada de trading que assenta na mesma infraestrutura, resumiu a estrat\u00e9gia: \u00abo JTX pega nessa mesma infraestrutura e coloca-a diretamente nas m\u00e3os dos traders\u00bb, disse, citado no <a href='https:\/\/solanacompass.com\/news\/jito-q2-2026-protocol-revenue-falls-45-to-128m-as-bam-reaches-33-of-solana-stake'>relat\u00f3rio da Solana Compass<\/a>.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O paradoxo da Jito: mais rede, menos receita<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma ironia no centro desta hist\u00f3ria. Quanto mais eficaz \u00e9 a infraestrutura a travar o MEV t\u00f3xico, menos dinheiro h\u00e1 para extrair, e isso v\u00ea-se nas contas de quem a opera. No segundo trimestre de 2026, o BAM chegou a 33 por cento do stake da Solana ponderado pela rede, com 378 validadores e cerca de 10,6 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares (perto de 9,8 mil milh\u00f5es de euros) em SOL delegado. E, no entanto, a receita de protocolo da Jito caiu 45 por cento face ao trimestre anterior, para cerca de 1,28 milh\u00f5es de d\u00f3lares (\u00e0 volta de 1,2 milh\u00f5es de euros), <a href='https:\/\/solanacompass.com\/news\/jito-q2-2026-protocol-revenue-falls-45-to-128m-as-bam-reaches-33-of-solana-stake'>segundo a Solana Compass<\/a>.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O chamado transaction-ordering value, o valor associado \u00e0 ordena\u00e7\u00e3o de transa\u00e7\u00f5es que \u00e9 a mat\u00e9ria-prima do MEV, caiu cerca de 50 por cento, para 9,9 milh\u00f5es de d\u00f3lares (perto de 9,1 milh\u00f5es de euros). Por outras palavras: a Jito ganhou quota e perdeu receita ao mesmo tempo. Parte disso reflete um mercado mais calmo, mas parte reflete o pr\u00f3prio desenho, que redistribui e reduz a extra\u00e7\u00e3o em vez de a maximizar.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Para o utilizador, \u00e9 boa not\u00edcia. Para o investidor no token, \u00e9 um lembrete de que os neg\u00f3cios constru\u00eddos sobre o MEV enfrentam um teto natural: se a promessa \u00e9 proteger quem negoceia, o sucesso mede-se pela extra\u00e7\u00e3o que desaparece, n\u00e3o pela que se acumula. \u00c9 uma tens\u00e3o que vai definir a economia da camada de ordena\u00e7\u00e3o nos pr\u00f3ximos anos.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A aposta da Ethereum: ePBS, mempool encriptado e FOCIL<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Do lado da Ethereum, a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa (para j\u00e1) por um enclave \u00fanico, mas por reescrever as regras do protocolo. O pr\u00f3ximo grande upgrade, batizado Glamsterdam e <a href='https:\/\/blog.quicknode.com\/ethereum-glamsterdam-upgrade-whats-coming-in-h1-2026\/'>esperado para o final de 2026<\/a>, traz como pe\u00e7a central o EIP-7732, a chamada separa\u00e7\u00e3o imposta entre proposer e builder (ePBS), que leva para dentro do protocolo a coordena\u00e7\u00e3o que hoje depende de relays externos. Junta-se-lhe o EIP-7928, com listas de acesso ao n\u00edvel do bloco.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Buterin foi claro sobre os limites do ePBS. \u00abIsto garante que a centraliza\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o de blocos n\u00e3o contamina a centraliza\u00e7\u00e3o do staking, mas deixa a pergunta: o que fazemos quanto \u00e0 centraliza\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o de blocos?\u00bb, <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/tech\/2026\/03\/02\/vitalik-buterin-unveils-plan-to-curb-ethereum-block-builder-centralization'>escreveu em mar\u00e7o de 2026<\/a>. A resposta que prop\u00f5e tem duas pernas. A primeira \u00e9 o FOCIL (listas de inclus\u00e3o impostas pela fork-choice), que obriga os builders a incluir transa\u00e7\u00f5es escolhidas por um comit\u00e9 aleat\u00f3rio de validadores. \u00abMesmo que 100 por cento da constru\u00e7\u00e3o de blocos seja tomada por um ator hostil, n\u00e3o conseguem impedir que as transa\u00e7\u00f5es sejam inclu\u00eddas, porque os FOCILers empurram-nas\u00bb, explicou.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda perna \u00e9 o mempool encriptado, o mesmo princ\u00edpio que a Solana j\u00e1 implementou por hardware. Um pormenor de calend\u00e1rio mostra a prud\u00eancia dos programadores: o FOCIL ficou de fora do conjunto principal de Glamsterdam, adiado para uma atualiza\u00e7\u00e3o posterior, para n\u00e3o juntar duas mudan\u00e7as por testar na mesma rede em produ\u00e7\u00e3o. A Ethereum quer chegar ao mesmo destino da Solana, o mempool \u00e0s escuras, mas por uma estrada mais lenta e mais descentralizada.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O verdadeiro gargalo: quem constr\u00f3i os blocos<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Encriptar o mempool resolve o problema do utilizador, mas cria outro, mais subtil: concentra poder em quem opera a infraestrutura que faz a encripta\u00e7\u00e3o. Na Ethereum, a constru\u00e7\u00e3o de blocos j\u00e1 \u00e9 assustadoramente concentrada. Em meados de 2026, dois builders montavam a larga maioria de todos os blocos, e um pequeno grupo concentrava quase toda a produ\u00e7\u00e3o, uma tend\u00eancia que a pr\u00f3pria <a href='https:\/\/buildernet.org\/blog\/beaverbuild'>Beaverbuild, o maior builder da Ethereum desde 2022<\/a>, reconheceu ao anunciar que ia mudar de rumo. Quem controla essa camada controla, na pr\u00e1tica, a ordem das transa\u00e7\u00f5es de toda a rede.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A compara\u00e7\u00e3o entre as duas redes mostra que est\u00e3o a resolver o mesmo problema com filosofias opostas. A Ethereum aposta em regras de protocolo e num mercado competitivo de builders; a Solana aposta em enclaves de hardware operados por n\u00f3s especializados. Uma confia na teoria dos jogos e no consenso; a outra confia no sil\u00edcio.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Dimens\u00e3o<\/th><th>Ethereum (ePBS)<\/th><th>Solana (BAM)<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Como esconde o fluxo<\/td><td>Mempool encriptado (em desenvolvimento)<\/td><td>TEE de hardware (em produ\u00e7\u00e3o)<\/td><\/tr><tr><td>Quem ordena<\/td><td>Builders em concorr\u00eancia<\/td><td>N\u00f3s BAM com plugins dos protocolos<\/td><\/tr><tr><td>Raiz da confian\u00e7a<\/td><td>Protocolo e fork-choice<\/td><td>Attestation do enclave<\/td><\/tr><tr><td>Estado em 2026<\/td><td>ePBS no Glamsterdam (final do ano)<\/td><td>Ao vivo, cerca de 33% do stake<\/td><\/tr><tr><td>Anti-censura<\/td><td>FOCIL (adiado para depois do Glamsterdam)<\/td><td>Depende do operador e da governa\u00e7\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Risco principal<\/td><td>Concentra\u00e7\u00e3o de builders<\/td><td>Confian\u00e7a no fabricante do chip<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta de quem controla estas camadas \u00e9, no fundo, uma pergunta de reputa\u00e7\u00e3o e de poder, o tipo de tens\u00e3o que j\u00e1 explor\u00e1mos ao escrever sobre o <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/builder-anonimo-reputacao-sem-rosto-cripto-2026\/'>builder an\u00f3nimo e a reputa\u00e7\u00e3o sem rosto na cripto<\/a>. Seja um enclave de sil\u00edcio, seja um builder dominante, algu\u00e9m decide a ordem, e essa pessoa (ou m\u00e1quina) torna-se o novo ponto sens\u00edvel do sistema.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>BuilderNet e a promessa de \u00abverificar, n\u00e3o confiar\u00bb<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta da Ethereum \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o tem nome: BuilderNet. Lan\u00e7ada pela Flashbots, \u00e9 uma rede descentralizada de constru\u00e7\u00e3o de blocos que tamb\u00e9m usa TEE, de modo a que nenhum operador isolado veja todo o fluxo de ordens. O sinal mais forte da sua import\u00e2ncia chegou quando a Beaverbuild anunciou que iria aposentar o seu builder centralizado para trabalhar a tempo inteiro na BuilderNet.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">No an\u00fancio publicado no blogue da BuilderNet, a equipa descreveu o objetivo como \u00abuma nova cadeia de fornecimento de MEV que qualquer pessoa pode verificar, em vez de confiar\u00bb, com a promessa de reduzir custos, melhorar a privacidade e eliminar os pontos centralizados que restam na separa\u00e7\u00e3o entre proposer e builder. \u00c9 a mesma l\u00f3gica do BAM, verificar em vez de confiar, por um caminho diferente.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A ironia n\u00e3o escapa a ningu\u00e9m: para descentralizar a constru\u00e7\u00e3o de blocos, tanto a Ethereum como a Solana se apoiam em enclaves de hardware fabricados por um punhado de empresas. A <a href='https:\/\/www.helius.dev\/blog\/block-assembly-marketplace-bam'>Helius nota<\/a> que j\u00e1 cerca de 40 por cento dos blocos da Ethereum s\u00e3o constru\u00eddos em TEE, e que na Unichain a propor\u00e7\u00e3o chega aos 100 por cento. A confian\u00e7a mudou de s\u00edtio, dos operadores para o sil\u00edcio, e essa mudan\u00e7a tem custos pr\u00f3prios.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Ganhadores e perdedores com o mempool \u00e0s escuras<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Quem sai a ganhar com o mempool \u00e0s escuras? Primeiro, o utilizador de retalho, que deixa de pagar o imposto invis\u00edvel do sandwich em cada troca. Depois, os fornecedores de liquidez das exchanges descentralizadas, que perdiam valor para arbitragistas mais r\u00e1pidos e agora podem recuperar parte desse fluxo. E, por fim, os pr\u00f3prios protocolos, que com ferramentas como os plugins do BAM ou os hooks de ordena\u00e7\u00e3o passam a poder capturar e redistribuir o MEV que antes fugia para terceiros.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Do outro lado, os grandes perdedores s\u00e3o os searchers especializados em estrat\u00e9gias t\u00f3xicas. Um bot de sandwich vive de ver a ordem da v\u00edtima; sem essa vis\u00e3o, o neg\u00f3cio evapora-se, e os dados da EigenPhi j\u00e1 mostram margens a caminho de zero. A arbitragem pura sobrevive, mas fica mais competitiva e menos lucrativa, empurrando os operadores para nichos mais sofisticados ou para o outro lado da mesa, a construir a infraestrutura em vez de a explorar.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 aqui um eco de Wall Street. O debate sobre quem lucra com o fluxo de ordens n\u00e3o \u00e9 novo: no mundo tradicional, a pr\u00e1tica de pagar pelo encaminhamento de ordens (o payment for order flow) foi proibida para o retalho na Uni\u00e3o Europeia, e o MEV \u00e9 muitas vezes descrito como o seu equivalente on-chain, um tema que cruz\u00e1mos ao escrever sobre o <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/funding-perpetuos-juro-wall-street-2026\/'>funding dos perp\u00e9tuos e o juro que chegou a Wall Street<\/a>. A diferen\u00e7a \u00e9 que, na cripto, a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas regulat\u00f3ria; \u00e9 tamb\u00e9m de engenharia.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O novo ponto de confian\u00e7a: o sil\u00edcio<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Nem tudo s\u00e3o boas not\u00edcias. Um TEE s\u00f3 \u00e9 seguro enquanto o for o hardware que o sustenta. A hist\u00f3ria recente das tecnologias de enclave, da Intel SGX \u00e0 AMD SEV, est\u00e1 pontilhada de vulnerabilidades: ataques de canal lateral, falhas de firmware e provas de conceito que extra\u00edram chaves supostamente seladas. Confiar a ordem das transa\u00e7\u00f5es a um chip significa confiar no seu fabricante, na cadeia de fornecimento e na aus\u00eancia de portas dos fundos.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tamb\u00e9m um risco de governa\u00e7\u00e3o. Se a maior parte do stake da Solana passar por n\u00f3s BAM operados por um n\u00famero reduzido de entidades, ou se a constru\u00e7\u00e3o de blocos da Ethereum se concentrar em poucos operadores de TEE, o sistema troca um problema (o sandwich) por outro (a censura ou a captura). \u00c9 por isso que Buterin insiste no FOCIL como complemento: a encripta\u00e7\u00e3o impede que espreitem a transa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o garante, por si s\u00f3, que ela seja inclu\u00edda.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A conclus\u00e3o honesta \u00e9 que o mempool encriptado n\u00e3o elimina a confian\u00e7a, apenas a desloca. Em vez de confiar que um validador n\u00e3o vai reordenar as suas transa\u00e7\u00f5es, passa a confiar que um enclave faz o que promete e que quem o opera n\u00e3o conspira. Para muitos utilizadores, \u00e9 uma troca claramente melhor. Mas \u00e9 uma troca, n\u00e3o um passe de m\u00e1gica.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O \u00e2ngulo regulat\u00f3rio: CMVM, MiCA e os bots an\u00f3nimos<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Onde entra o regulador? Em Portugal, a supervis\u00e3o comportamental do mercado de criptoativos cabe \u00e0 CMVM, que herdou com a MiCA compet\u00eancias sobre o regime de abuso de mercado aplic\u00e1vel a criptoativos admitidos \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o e sobre a conduta dos prestadores de servi\u00e7os (os CASP). O enquadramento nacional est\u00e1 na <a href='https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/lei\/69-2025-992098939'>Lei n.\u00ba 69\/2025, de 22 de dezembro<\/a>, que fixou o fim do per\u00edodo transit\u00f3rio para os antigos prestadores em 1 de julho de 2026 e previu coimas que, <a href='https:\/\/eco.sapo.pt\/2025\/12\/22\/novas-leis-dos-criptoativos-trazem-multas-ate-5-milhoes-de-euros\/'>de acordo com o jornal ECO, podem chegar aos 5 milh\u00f5es de euros<\/a>.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que estas regras foram desenhadas para entidades identific\u00e1veis. A MiCA e a CMVM podem, em teoria, punir um CASP que fa\u00e7a front-running \u00e0s ordens dos seus pr\u00f3prios clientes, tal como o direito dos mercados pune o front-running de um corretor tradicional. Mas o MEV predat\u00f3rio \u00e9 executado, na esmagadora maioria dos casos, por bots an\u00f3nimos em exchanges descentralizadas sem operador, fora do per\u00edmetro de qualquer supervisor. \u00c9 o buraco no meio da rede: a lei alcan\u00e7a o intermedi\u00e1rio regulado, n\u00e3o o algoritmo pseud\u00f3nimo.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda uma dimens\u00e3o pr\u00e1tica que os supervisores europeus come\u00e7am a admitir. Provar abuso de mercado on-chain exige seguir o rasto de um endere\u00e7o pseud\u00f3nimo, correlacion\u00e1-lo com uma entidade identific\u00e1vel e demonstrar inten\u00e7\u00e3o, um percurso quase imposs\u00edvel quando o operador \u00e9 um contrato aut\u00f3nomo. Por isso, a tend\u00eancia tem sido menos punir o bot e mais responsabilizar os pontos de contacto com o sistema tradicional: as exchanges licenciadas, os emitentes de stablecoins e os prestadores de cust\u00f3dia. O MEV vive fora desse per\u00edmetro, o que faz da defesa t\u00e9cnica, e n\u00e3o da coima, a linha da frente.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 aqui que a engenharia e a regula\u00e7\u00e3o se cruzam de forma curiosa. Se o direito n\u00e3o consegue chegar ao bot an\u00f3nimo, talvez a infraestrutura consiga, ao torn\u00e1-lo cego. O mempool encriptado faz, por desenho, aquilo que a supervis\u00e3o n\u00e3o consegue fazer por decreto: retira ao predador a informa\u00e7\u00e3o de que precisa. Para a CMVM e para as suas cong\u00e9neres europeias, que t\u00eam pressionado por uma supervis\u00e3o mais uniforme dos grandes CASP ao n\u00edvel da ESMA, \u00e9 um lembrete de que, nesta camada, o c\u00f3digo muitas vezes anda mais depressa do que a lei.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O que esperar at\u00e9 2027<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">O calend\u00e1rio dos pr\u00f3ximos dezoito meses vai decidir se 2026 foi o ponto de viragem ou apenas mais um epis\u00f3dio. Do lado da Solana, a Jito prometeu abrir o c\u00f3digo do BAM e alargar a rede de plugins, o que testar\u00e1 se o modelo aguenta mais operadores sem perder as garantias. Do lado da Ethereum, tudo depende de Glamsterdam entrar em produ\u00e7\u00e3o no final de 2026 com o ePBS, e de a atualiza\u00e7\u00e3o seguinte trazer o FOCIL e, mais tarde, o mempool encriptado nativo.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Para o mercado, o pano de fundo \u00e9 de alguma calma. A Ethereum negoceia perto dos 2.168 euros, com uma capitaliza\u00e7\u00e3o a rondar os 261 mil milh\u00f5es de euros, <a href='https:\/\/www.coingecko.com\/en\/coins\/ethereum\/eur'>segundo a CoinGecko<\/a>, e a Solana perto dos <a href='https:\/\/www.coingecko.com\/en\/coins\/solana\/eur'>92 euros<\/a>. Pre\u00e7os moderados significam menos frenesim especulativo e, por tabela, menos MEV f\u00e1cil, o que d\u00e1 tempo \u00e0 infraestrutura para amadurecer antes do pr\u00f3ximo ciclo de euforia. A grande inc\u00f3gnita \u00e9 o que acontece quando o volume voltar.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A aposta \u00e9 grande. Se o mempool encriptado se generalizar, o sandwich, que durante anos foi a forma mais lucrativa de MEV t\u00f3xico na Ethereum, pode tornar-se uma nota de rodap\u00e9 hist\u00f3rica. N\u00e3o porque algu\u00e9m o proibiu, mas porque a rede deixou de lhe dar de comer. A floresta continua escura; s\u00f3 que, desta vez, a escurid\u00e3o joga a favor da presa.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Perguntas frequentes<\/h2><h3 class='wp-block-heading'>O que \u00e9 um ataque sandwich em cripto?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma forma de MEV em que um bot deteta a ordem de troca de um utilizador no mempool p\u00fablico, coloca uma ordem imediatamente antes para empurrar o pre\u00e7o na dire\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel, deixa a v\u00edtima executar a um pre\u00e7o pior e vende logo a seguir, ficando com a diferen\u00e7a. \u00c9 considerado o tipo de MEV mais t\u00f3xico porque transfere valor do utilizador para o atacante sem qualquer benef\u00edcio para a rede.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>O que \u00e9 o BAM da Jito na Solana?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">O Block Assembly Marketplace \u00e9 um sistema de constru\u00e7\u00e3o de blocos lan\u00e7ado pela Jito, em produ\u00e7\u00e3o na mainnet da Solana desde setembro de 2025, que corre dentro de enclaves de hardware (TEE). As transa\u00e7\u00f5es ficam cifradas at\u00e9 serem executadas, o que reduz drasticamente os ataques sandwich, e um quadro de plugins permite aos protocolos definir a sua pr\u00f3pria l\u00f3gica de ordena\u00e7\u00e3o. No segundo trimestre de 2026 j\u00e1 ordenava cerca de 33 por cento do stake da Solana.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>O que \u00e9 o ePBS e o upgrade Glamsterdam da Ethereum?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">O ePBS (separa\u00e7\u00e3o imposta entre proposer e builder, o EIP-7732) \u00e9 a pe\u00e7a central do Glamsterdam, o pr\u00f3ximo grande upgrade da Ethereum, esperado para o final de 2026. Leva para dentro do protocolo a coordena\u00e7\u00e3o entre quem prop\u00f5e e quem constr\u00f3i os blocos, que hoje depende de relays externos, para reduzir a centraliza\u00e7\u00e3o. Mecanismos complementares, como o FOCIL e o mempool encriptado, est\u00e3o previstos para atualiza\u00e7\u00f5es seguintes.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>Um mempool encriptado acaba com o MEV?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o com todo. A encripta\u00e7\u00e3o do mempool ataca sobretudo o MEV t\u00f3xico, como o sandwich, ao esconder as transa\u00e7\u00f5es at\u00e9 \u00e0 execu\u00e7\u00e3o. A arbitragem entre plataformas e as liquida\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o \u00fateis ao funcionamento do mercado, continuam a existir. Al\u00e9m disso, a encripta\u00e7\u00e3o desloca a confian\u00e7a para quem opera os enclaves ou constr\u00f3i os blocos, pelo que n\u00e3o elimina o problema; transforma-o.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>A CMVM regula o MEV em Portugal?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">A CMVM supervisiona a conduta de mercado dos prestadores de servi\u00e7os de criptoativos e o regime de abuso de mercado da MiCA, pelo que pode atuar sobre um prestador regulado que prejudique deliberadamente as ordens dos seus clientes. No entanto, a maior parte do MEV predat\u00f3rio \u00e9 executada por bots an\u00f3nimos em protocolos descentralizados sem operador, que ficam fora do per\u00edmetro de supervis\u00e3o. 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