{"id":421,"date":"2026-08-31T16:45:31","date_gmt":"2026-08-31T16:45:31","guid":{"rendered":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/quem-fica-com-o-juro-guerra-valor-credito-onchain-2026\/"},"modified":"2026-08-31T16:45:31","modified_gmt":"2026-08-31T16:45:31","slug":"quem-fica-com-o-juro-guerra-valor-credito-onchain-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/quem-fica-com-o-juro-guerra-valor-credito-onchain-2026\/","title":{"rendered":"Quem fica com o juro: a guerra do valor no cr\u00e9dito on-chain"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Em junho, a CoinDesk noticiou que a Payward, a empresa-m\u00e3e da Kraken, estava em conversa\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas para comprar 15% da Aave Group por cerca de 35.000 ether e 250.000 tokens AAVE, um neg\u00f3cio que avaliava a estrutura em torno de 385 milh\u00f5es de d\u00f3lares (aproximadamente 332 milh\u00f5es de euros). Stani Kulechov, fundador da Aave, respondeu em menos de 24 horas na rede X: <a href='https:\/\/www.theblock.co\/post\/406252\/aave-stani-kulechov-says-aave-isnt-for-sale-at-70-discount-report-payward-bid'>\u00abn\u00e3o h\u00e1 qualquer hip\u00f3tese de vendermos a AAVE com um desconto de 70%\u00bb<\/a>. E, quase na mesma frase em que rejeitou o n\u00famero, anunciou a Aavenomics 3.0, um motor que passa a recomprar o token de forma autom\u00e1tica.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O epis\u00f3dio resume a \u00fanica pergunta que ainda separa os protocolos de cr\u00e9dito on-chain uns dos outros em 2026. A tecnologia est\u00e1 resolvida: qualquer pessoa deposita, pede emprestado e liquida posi\u00e7\u00f5es sem um banco no meio. O que continua por resolver \u00e9 mais simples e mais desconfort\u00e1vel. Quando o cr\u00e9dito on-chain gera centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares em juros por ano, quem fica com o dinheiro? O protocolo? O token? Os curadores? Os depositantes? Ou uma corretora em San Francisco que quer comprar 15% da estrutura por tr\u00e1s?<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">E, como para lembrar que este valor n\u00e3o \u00e9 gratuito, nesta segunda-feira, 31 de agosto, um pequeno protocolo chamado More Markets foi drenado em cerca de 9,3 milh\u00f5es de d\u00f3lares atrav\u00e9s do modo de efici\u00eancia da pr\u00f3pria Aave. A m\u00e1quina que capta o valor tamb\u00e9m acumula o risco. Este artigo separa uma coisa da outra: primeiro segue o dinheiro, depois segue o perigo.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O paradoxo dos 385 milh\u00f5es<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">O que a Kraken alegadamente prop\u00f4s n\u00e3o foi comprar a AAVE no mercado. Segundo <a href='https:\/\/www.theblock.co\/post\/406252\/aave-stani-kulechov-says-aave-isnt-for-sale-at-70-discount-report-payward-bid'>a reportagem da CoinDesk citada pela The Block<\/a>, baseada num documento e em tr\u00eas fontes an\u00f3nimas, a proposta era adquirir uma participa\u00e7\u00e3o de capital na Aave Group, a entidade societ\u00e1ria que emprega os programadores, e n\u00e3o no protocolo em si. A contrapartida somava cerca de 35.000 ether (na altura perto de 71 milh\u00f5es de d\u00f3lares) mais 250.000 tokens AAVE, para uma avalia\u00e7\u00e3o impl\u00edcita de aproximadamente 385 milh\u00f5es de d\u00f3lares. A esse pre\u00e7o, a participa\u00e7\u00e3o ficava com um desconto de cerca de 70% face ao valor totalmente dilu\u00eddo do token no mercado.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Componente<\/th><th>Detalhe reportado<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Comprador<\/td><td>Payward, empresa-m\u00e3e da Kraken<\/td><\/tr><tr><td>Participa\u00e7\u00e3o<\/td><td>15% do capital da Aave Group<\/td><\/tr><tr><td>Contrapartida<\/td><td>~35.000 ETH (~71 M$) + 250.000 AAVE<\/td><\/tr><tr><td>Avalia\u00e7\u00e3o impl\u00edcita<\/td><td>~385 M$ (~332 M\u20ac)<\/td><\/tr><tr><td>Desconto face ao FDV do token<\/td><td>~70%<\/td><\/tr><tr><td>Estado<\/td><td>Conversa\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas (CoinDesk, tr\u00eas fontes); rejeitado por Kulechov<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><figcaption class='wp-block-table__caption'>Fonte: The Block, citando reportagem da CoinDesk. N\u00fameros da proposta noticiada, n\u00e3o de um neg\u00f3cio fechado.<\/figcaption><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">Kulechov n\u00e3o negou que houvesse conversas. O que negou foi a leitura de que a Aave estava a vender-se ao desbarato. O seu argumento \u00e9 a chave de todo este artigo: a Aave Group, a empresa, \u00e9 uma coisa; a AAVE, o token, \u00e9 outra. Toda a receita do protocolo (o juro que os utilizadores pagam) flui para a tesouraria da DAO, n\u00e3o para os cofres da empresa. Comprar 15% da sociedade n\u00e3o d\u00e1 direito a essa receita. Por isso, dizer que a AAVE valia menos 70% era, na sua \u00f3tica, comparar coisas diferentes. O jornal TechTimes resumiu o epis\u00f3dio numa manchete que vale como tese: a receita flui para o token, n\u00e3o para o capital.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O detalhe importa porque exp\u00f5e a fratura que atravessa toda a ind\u00fastria. Num banco tradicional, quem tem as a\u00e7\u00f5es tem o lucro. No cr\u00e9dito on-chain, o lucro e o token podem viver em contas separadas, e um investidor sofisticado como a Kraken pode querer o primeiro sem pagar pelo segundo. A pergunta \u00abquanto vale isto\u00bb transforma-se em \u00abvale isto para quem\u00bb.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>De onde vem, afinal, o dinheiro<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de discutir quem fica com o juro, conv\u00e9m perceber como ele nasce. Um mercado de cr\u00e9dito on-chain \u00e9 uma piscina: uns depositam um ativo (digamos, um stablecoin) para render, outros pedem esse ativo emprestado contra garantias e pagam juro. A taxa de juro sobe com a utiliza\u00e7\u00e3o da piscina; quanto mais perto de esgotar a liquidez, mais caro fica pedir emprestado. At\u00e9 aqui, todo o juro pago pelos mutu\u00e1rios pertenceria aos depositantes.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O protocolo entra atrav\u00e9s de uma pequena mordida chamada reserve factor: uma fatia do juro (que pode ir de 10% a mais de metade, conforme o ativo) que n\u00e3o vai para o depositante, mas para a tesouraria. \u00c9 da\u00ed, dessa fatia, que a Aave tira a maior parte da sua receita. H\u00e1 ainda uma segunda fonte, mais limpa: quando o mutu\u00e1rio pede emprestado o stablecoin nativo da Aave, o GHO, praticamente todo o juro \u00e9 receita do protocolo, porque a Aave \u00e9 simultaneamente a casa de c\u00e2mbio e o banco central dessa moeda. Cerca de 90% do volume de empr\u00e9stimos on-chain \u00e9, de resto, denominado em stablecoins, o que faz da moeda em que se cota a d\u00edvida um assunto tudo menos neutro, como <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/cotado-stablecoin-moeda-volume-exchanges-2026\/'>j\u00e1 explor\u00e1mos a prop\u00f3sito do volume das exchanges<\/a>.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A partir daqui, o desenho diverge. Cada protocolo decide qual a mordida, para onde vai e se o token que governa o sistema tem direito a ela. S\u00e3o tr\u00eas perguntas, e as respostas desenham dois mundos opostos: o da Aave, que capta o valor no token, e o da Morpho, que decidiu (por enquanto) n\u00e3o captar nada.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda um terceiro interveniente que raramente aparece nas manchetes: o curador. Nos protocolos modulares, \u00e9 ele que monta o cofre, escolhe as garantias aceites e define os limites de risco, e cobra por isso uma comiss\u00e3o de gest\u00e3o ou de desempenho retirada do rendimento do depositante. Ou seja, antes mesmo de o protocolo decidir se fica com alguma coisa, o juro bruto j\u00e1 foi repartido em tr\u00eas: a maior parte para quem deposita, uma fatia para quem gere o risco, e a mordida (ou a sua aus\u00eancia) para o protocolo. Quando se pergunta quem fica com o juro, conv\u00e9m lembrar que o depositante recebe o rendimento l\u00edquido, n\u00e3o o bruto, e que a diferen\u00e7a entre os dois \u00e9 precisamente o valor que os outros captam.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Aave: a m\u00e1quina de recompra<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A Aave escolheu o modelo mais parecido com uma empresa cotada. Depois da proposta AWW (\u00abAave Will Win\u00bb), aprovada na primavera de 2026, a regra passou a ser que 100% da receita do protocolo, do GHO e dos produtos de marca Aave vai para a tesouraria da DAO. A Aavenomics 3.0, confirmada em agosto, deu o passo seguinte e o mais decisivo: automatizou a recompra. Em vez de um comit\u00e9 decidir a cada ciclo se compra AAVE no mercado, <a href='https:\/\/thedefiant.io\/news\/defi\/aave-confirms-aavenomics-3-0-live-buybacks-dao-spending-cut'>um motor imut\u00e1vel e n\u00e3o discricion\u00e1rio passa a canalizar a receita para recomprar o token sem pedir autoriza\u00e7\u00e3o a ningu\u00e9m<\/a>. Kulechov descreveu-a como um sistema de \u00abrecompras de AAVE imut\u00e1veis e autom\u00e1ticas\u00bb.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Os n\u00fameros exigem cuidado, porque h\u00e1 duas contas a circular. Kulechov cifrou a receita anual do protocolo em cerca de 134 milh\u00f5es de d\u00f3lares; a DefiLlama, anualizando a janela dos \u00faltimos sete dias, chega perto de 402 milh\u00f5es. N\u00e3o s\u00e3o a mesma m\u00e9trica, e n\u00e3o se devem somar nem confundir: uma \u00e9 uma m\u00e9dia anual conservadora, a outra \u00e9 uma extrapola\u00e7\u00e3o de uma semana que pode estar inflacionada por um pico. O que ambas confirmam \u00e9 a ordem de grandeza: a Aave gera receita a s\u00e9rio, na casa das centenas de milh\u00f5es por ano.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O or\u00e7amento de recompra, esse, \u00e9 mais modesto e revela a disciplina (ou o receio) da governa\u00e7\u00e3o. Em mar\u00e7o de 2026, a DAO cortou o or\u00e7amento anual de recompra de cerca de 50 milh\u00f5es para 30 milh\u00f5es de d\u00f3lares, invocando uma quebra de 25% na receita de comiss\u00f5es de empr\u00e9stimo face ao pico. O ritmo atual ronda 292 AAVE comprados por dia, e cerca de 20 milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano ficam de parte em reservas de stablecoins para pagar prestadores de servi\u00e7o e programas de crescimento. Repare-se na assimetria: a recompra \u00e9 pr\u00f3-c\u00edclica. Quando a receita cai, o pr\u00f3prio or\u00e7amento que sustenta o pre\u00e7o encolhe, exatamente no momento em que faria mais falta.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O GHO merece um par\u00eantesis, porque \u00e9 a pe\u00e7a que torna o modelo da Aave mais parecido com um banco central do que com um simples mercado de cr\u00e9dito. Sendo o stablecoin nativo do protocolo, cada euro de GHO emprestado gera juro que \u00e9 quase todo receita da Aave, sem ter de ser partilhado com um depositante externo. \u00c9 a margem mais limpa que um protocolo de cr\u00e9dito pode ter, e \u00e9 tamb\u00e9m por isso que a Aave empurra o GHO como ativo de liquida\u00e7\u00e3o e oferece uma vers\u00e3o remunerada, o sGHO, para incentivar a sua ado\u00e7\u00e3o. Quanto mais o GHO circula, mais receita pr\u00f3pria a Aave gera, e mais combust\u00edvel o motor de recompra tem para queimar.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Morpho: a taxa que ningu\u00e9m ligou<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A Morpho escolheu o oposto. O seu n\u00facleo, a Morpho Blue, \u00e9 m\u00ednimo e imut\u00e1vel, e cada mercado tem cinco par\u00e2metros fixos. Um deles \u00e9 o fee switch, um interruptor que permitiria \u00e0 DAO cobrar entre 0% e 25% do juro de cada mercado, com tudo o que recolhesse a ir para a tesouraria da Morpho. <a href='https:\/\/docs.morpho.org\/curate\/concepts\/fee\/'>Esse interruptor est\u00e1 desligado desde o lan\u00e7amento<\/a>. Na pr\u00e1tica, a taxa de protocolo da Morpho \u00e9 zero, e a receita que o protocolo ret\u00e9m para si \u00e9, hoje, tamb\u00e9m zero. Todo o juro vai para os depositantes e para os curadores que gerem os cofres, como detalh\u00e1mos no <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/morpho-2026-banco-invisivel-credito-onchain\/'>retrato do banco invis\u00edvel do cr\u00e9dito on-chain<\/a>.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O token MORPHO, por sua vez, \u00e9 puramente de governa\u00e7\u00e3o. <a href='https:\/\/docs.morpho.org\/learn\/governance\/morpho-token\/'>N\u00e3o tem direito autom\u00e1tico a qualquer receita<\/a>; serve para votar, incluindo, ironicamente, para votar se o tal interruptor de comiss\u00f5es deve um dia ser ligado. Quem compra MORPHO compra o direito de decidir, n\u00e3o um fluxo de caixa. \u00c9 uma aposta expl\u00edcita: primeiro conquistar a rede, depois logo se ver\u00e1 como o token captura valor.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Paul Frambot, cofundador da Morpho, defende a escolha com uma frase que se tornou o manifesto da empresa: <a href='https:\/\/crypto-economy.com\/morpho-and-the-institutionalization-of-defi-lending-infrastructure\/'>\u00aba tecnologia das finan\u00e7as descentralizadas funciona melhor como infraestrutura, permitindo que marcas e institui\u00e7\u00f5es ofere\u00e7am produtos mais abertos, mais transparentes e mais competitivos do que os constru\u00eddos sobre os carris financeiros tradicionais\u00bb<\/a>. A l\u00f3gica \u00e9 a de uma AWS do cr\u00e9dito: n\u00e3o competir pelo utilizador final, mas ser a canaliza\u00e7\u00e3o invis\u00edvel por baixo da Coinbase, da Robinhood ou de um banco. A receita fica com quem monta a fachada; a Morpho fica com a ubiquidade. Se isso chega para justificar uma capitaliza\u00e7\u00e3o de mais de mil milh\u00f5es de euros \u00e9 a pergunta de mil milh\u00f5es.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O enigma da capitaliza\u00e7\u00e3o quase igual<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui est\u00e1 o dado que resume tudo. Nesta manh\u00e3 de 31 de agosto, <a href='https:\/\/www.coingecko.com\/en\/coins\/aave\/eur'>a AAVE valia cerca de 105,97 euros<\/a>, para uma capitaliza\u00e7\u00e3o de mercado de aproximadamente 1,635 mil milh\u00f5es de euros. A <a href='https:\/\/www.coingecko.com\/en\/coins\/morpho\/eur'>MORPHO valia cerca de 2,28 euros<\/a>, com uma capitaliza\u00e7\u00e3o de perto de 1,57 mil milh\u00f5es de euros. Ou seja: quase o mesmo valor de mercado. Mas a Aave tem mais do dobro dos dep\u00f3sitos da Morpho (cerca de 30 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares contra cerca de 11,8 mil milh\u00f5es) e, ao contr\u00e1rio dela, j\u00e1 recompra o pr\u00f3prio token com a receita.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Dimens\u00e3o<\/th><th>Aave (AAVE)<\/th><th>Morpho (MORPHO)<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Modelo<\/td><td>Banco universal, integrado<\/td><td>Rede de cr\u00e9dito, modular<\/td><\/tr><tr><td>Taxa de protocolo<\/td><td>Reserve factor + juro do GHO<\/td><td>0% (fee switch desligado)<\/td><\/tr><tr><td>Destino da receita<\/td><td>100% para a DAO, depois recompra<\/td><td>Depositantes e curadores<\/td><\/tr><tr><td>Recompra do token<\/td><td>Sim, autom\u00e1tica (~30 M$\/ano)<\/td><td>N\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Receita anualizada<\/td><td>~134 M$ (Kulechov) a ~402 M$ (DefiLlama 7d)<\/td><td>~0 para o protocolo<\/td><\/tr><tr><td>Dep\u00f3sitos<\/td><td>~30 mil M$<\/td><td>~11,8 mil M$<\/td><\/tr><tr><td>Capitaliza\u00e7\u00e3o<\/td><td>~1,64 mil M\u20ac<\/td><td>~1,57 mil M\u20ac<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><figcaption class='wp-block-table__caption'>Fontes: The Defiant, DefiLlama, CoinGecko (31 ago 2026). TVL e dep\u00f3sitos variam com o m\u00e9todo de contagem.<\/figcaption><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">Como se explica que o mercado pague o mesmo por um neg\u00f3cio que j\u00e1 distribui e por outro que ainda n\u00e3o distribui? H\u00e1 duas leituras, e nenhuma \u00e9 obviamente certa. A leitura pr\u00f3-Aave: o mercado est\u00e1 a subvalorizar a recompra, e a AAVE deveria negociar com pr\u00e9mio sobre a MORPHO, n\u00e3o ao mesmo n\u00edvel. A leitura pr\u00f3-Morpho: o mercado est\u00e1 a pagar o crescimento, e assume que o interruptor de comiss\u00f5es ser\u00e1 um dia ligado, transformando de repente milh\u00f5es de d\u00f3lares de juro em receita para o token. A Standard Chartered inclina-se para a segunda: <a href='https:\/\/www.theblock.co\/post\/406888'>\u00abestamos otimistas quanto \u00e0s perspetivas da Morpho, o segundo maior protocolo de cr\u00e9dito DeFi depois da Aave\u00bb<\/a>, escreveu o banco ao iniciar cobertura, tra\u00e7ando um caminho de pre\u00e7o que ia de 3,50 d\u00f3lares em 2026 at\u00e9 60 d\u00f3lares em 2030, com a taxa de protocolo a zero tratada como caracter\u00edstica, n\u00e3o defeito. \u00c9 uma tese de opcionalidade: paga-se hoje pela receita que ainda n\u00e3o existe.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A compara\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais escorregadia do que parece, por causa da oferta de tokens. A AAVE tem uma oferta em circula\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima do seu total, cerca de 15,4 milh\u00f5es de unidades, pelo que capitaliza\u00e7\u00e3o de mercado e valor totalmente dilu\u00eddo quase coincidem. A MORPHO, com mil milh\u00f5es de tokens no total e menos de 700 milh\u00f5es em circula\u00e7\u00e3o, ainda tem emiss\u00e3o por libertar, o que significa que a sua capitaliza\u00e7\u00e3o de mercado subestima o valor totalmente dilu\u00eddo. Comparar as duas ao mesmo n\u00edvel de capitaliza\u00e7\u00e3o esconde, portanto, uma diferen\u00e7a: parte do valor da Morpho est\u00e1 por diluir, e cada novo token que entra em circula\u00e7\u00e3o sem receita que o sustente \u00e9 mais press\u00e3o sobre a tese de que o crescimento acabar\u00e1 por justificar o pre\u00e7o.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O mapa do cr\u00e9dito e quem capta o valor<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A Aave e a Morpho s\u00e3o os dois extremos, mas a categoria inteira, com cerca de 49 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares de valor bloqueado repartidos por mais de 500 protocolos, arruma-se ao longo do mesmo espetro de captura de valor.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Protocolo<\/th><th>TVL l\u00edquido aprox.<\/th><th>Quota da categoria<\/th><th>Token<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Aave<\/td><td>~18-19 mil M$<\/td><td>~35%<\/td><td>AAVE<\/td><\/tr><tr><td>Morpho Blue<\/td><td>~9,5 mil M$<\/td><td>~19%<\/td><td>MORPHO<\/td><\/tr><tr><td>Spark (Sky)<\/td><td>~6,8 mil M$<\/td><td>~14%<\/td><td>SKY \/ SPK<\/td><\/tr><tr><td>Compound<\/td><td>~2,7 mil M$<\/td><td>~5%<\/td><td>COMP<\/td><\/tr><tr><td>Fluid (Instadapp)<\/td><td>~1,6 mil M$<\/td><td>~3%<\/td><td>FLUID<\/td><\/tr><tr><td>Kamino (Solana)<\/td><td>~1,2 mil M$<\/td><td>~2%<\/td><td>KMNO<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><figcaption class='wp-block-table__caption'>Fonte: <a href='https:\/\/defillama.com\/protocols\/lending'>DefiLlama<\/a>. Valores aproximados; a contagem de TVL varia por metodologia.<\/figcaption><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os extremos, h\u00e1 h\u00edbridos. A Spark, do ecossistema Sky (ex-Maker), fica com o spread entre o que paga aos depositantes atrav\u00e9s da Sky Savings Rate e o que ganha a emprestar, e o excedente alimenta um motor de recompra do token. A Compound, pioneira do sector, mant\u00e9m uma tesouraria substancial mas n\u00e3o tem hoje um programa de recompra ativo, e o COMP vive sobretudo do direito de voto. A Fluid, da Instadapp, ensaia modelos de partilha de receita com o seu token. O padr\u00e3o \u00e9 claro: quase toda a gente flerta com a ideia de devolver valor ao token, poucos o fazem com a mec\u00e2nica autom\u00e1tica e imut\u00e1vel que a Aave adotou. A conclus\u00e3o pr\u00e1tica \u00e9 simples: um TVL enorme n\u00e3o significa um token valioso, se o desenho n\u00e3o ligar um ao outro.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A recompra \u00e9 mesmo valor? O debate<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma escola que torce o nariz \u00e0s recompras. Uma recompra n\u00e3o cria valor novo; apenas troca dinheiro da tesouraria por token no mercado aberto, e o efeito no pre\u00e7o depende de haver quem venda do outro lado. Se o protocolo est\u00e1 a distribuir mais tokens em incentivos do que os que recompra, a recompra pode ser apenas maquilhagem sobre uma infla\u00e7\u00e3o l\u00edquida. E, como vimos, o or\u00e7amento da Aave \u00e9 pr\u00f3-c\u00edclico: encolhe quando a receita cai. Um c\u00e9tico dir\u00e1 que isto \u00e9 engenharia financeira, n\u00e3o cria\u00e7\u00e3o de valor.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A escola oposta responde que a recompra \u00e9 a \u00fanica forma honesta de ligar a receita ao token sem prometer dividendos (que atrairiam de imediato a aten\u00e7\u00e3o dos reguladores de valores mobili\u00e1rios). Comparem-se dois desenhos que a ind\u00fastria conhece bem. A Ethereum queima ETH com cada transa\u00e7\u00e3o, retirando oferta de circula\u00e7\u00e3o; foi a promessa do \u00abultrasound money\u00bb, que entretanto se complicou quando as taxas ca\u00edram e a rede voltou a inflacionar, como fizemos a <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/autopsia-ultrasound-money-eth-2026\/'>aut\u00f3psia noutro artigo<\/a>. A recompra da Aave \u00e9 a mesma ideia com um passo a mais: em vez de queimar uma taxa de rede, usa lucro real de um neg\u00f3cio para comprar o token. A diferen\u00e7a decisiva chama-se rendimento real: valor que vem de receita, n\u00e3o de emiss\u00e3o de novos tokens. Essa distin\u00e7\u00e3o, entre pagar juro com lucro e pagar juro com infla\u00e7\u00e3o, \u00e9 a mesma que separa um <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/rendimento-real-chao-que-sobe-taxa-base-2026\/'>rendimento sustent\u00e1vel de uma miragem<\/a>, sobretudo agora que a taxa base subiu e elevou a fasquia.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Vale a compara\u00e7\u00e3o com a bolsa tradicional, onde as recompras de a\u00e7\u00f5es s\u00e3o rotina h\u00e1 d\u00e9cadas e continuam a dividir opini\u00f5es pelas mesmas raz\u00f5es. Uma empresa que recompra a\u00e7\u00f5es devolve capital aos acionistas sem lhes criar um facto tribut\u00e1vel imediato, tal como um protocolo que recompra o token evita a etiqueta de dividendo. Mas, na bolsa, a recompra \u00e9 escrutinada por auditores, reguladores e uma contabilidade padronizada; on-chain, o investidor tem de confiar num contrato e num painel de dados como a DefiLlama para saber se a recompra \u00e9 real, cont\u00ednua e superior \u00e0 emiss\u00e3o. A transpar\u00eancia do livro-raz\u00e3o p\u00fablico \u00e9 uma vantagem; a aus\u00eancia de uma norma contabil\u00edstica comum \u00e9 a desvantagem que ainda separa este mercado de um verdadeiro mercado de capitais.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O custo de captar valor: o risco fica com quem?<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Toda esta discuss\u00e3o sobre quem fica com o juro tem um reverso inc\u00f3modo: quem fica com o preju\u00edzo. E aqui a assimetria \u00e9 brutal. O protocolo capta uma fatia pequena do juro; o depositante capta a maior fatia, mas tamb\u00e9m carrega quase todo o risco de cr\u00e9dito. Quando um mercado acumula d\u00edvida incobr\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 o token nem a empresa que absorvem a perda em primeiro lugar; s\u00e3o os fornecedores de liquidez.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O caso desta segunda-feira ilustra-o em miniatura. A More Markets, um protocolo constru\u00eddo sobre a Flow EVM, foi drenada em cerca de 9,3 milh\u00f5es de d\u00f3lares (15,5 milh\u00f5es de tokens WFLOW retirados de uma reserva) quando um atacante combinou o token de staking l\u00edquido ankrFLOW, da Ankr, com o modo de efici\u00eancia (E-mode) da Aave V3 para desbloquear capacidade de empr\u00e9stimo superior \u00e0quilo que a garantia suportava. Depois do golpe, o valor bloqueado do protocolo caiu para cerca de 3,64 milh\u00f5es de d\u00f3lares contra 3,67 milh\u00f5es em empr\u00e9stimos ativos, praticamente sem folga entre ativos e passivos. A empresa de seguran\u00e7a Blockaid, que divulgou o incidente, resumiu-o numa frase: <a href='https:\/\/bitcoinethereumnews.com\/tech\/defi-lending-exploit-impacts-more-markets-with-9-3m-loss\/'>\u00abuma funcionalidade criada para premiar o uso eficiente de capital tornou-se a alavanca exata usada para sobre-endividar\u00bb<\/a>. A More Markets n\u00e3o emitiu qualquer comunicado nem suspendeu o protocolo no imediato.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio isolado nem o pior do ano. Foi este o padr\u00e3o das grandes feridas de 2026: o colapso da Stream Finance e o exploit da Resolv, que dissec\u00e1mos na <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/stream-resolv-autopsia-curadores-defi-2026\/'>aut\u00f3psia do modelo de curadores<\/a>, e os epis\u00f3dios de or\u00e1culos e pontes que deixaram cr\u00e9dito malparado at\u00e9 na conservadora Aave. Em todos, o token continuou a ser recomprado ou a valer pela governa\u00e7\u00e3o enquanto o depositante engolia a perda. A captura de valor \u00e9 para cima; o risco desce.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A taxa base sobe e o spread encolhe<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um advers\u00e1rio que nenhum destes protocolos controla: a taxa sem risco. <a href='https:\/\/www.ecb.europa.eu\/stats\/policy_and_exchange_rates\/key_ecb_interest_rates\/html\/index.en.html'>A taxa de dep\u00f3sito do Banco Central Europeu est\u00e1 em 2,25% desde 17 de junho de 2026<\/a>, e os bilhetes do Tesouro americano rendem bem acima disso. Esse \u00e9 o ch\u00e3o contra o qual todo o rendimento on-chain \u00e9 medido. Se um cofre de stablecoins na Morpho ou na Aave paga menos do que um fundo do mercado monet\u00e1rio tokenizado, o capital institucional simplesmente sai. O cr\u00e9dito on-chain compete, queira ou n\u00e3o, com a d\u00edvida soberana.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Isto tem uma consequ\u00eancia direta sobre quem capta o valor. Quando a taxa base sobe, o ch\u00e3o sobe com ela, e o spread que o protocolo consegue reter (aquela mordida do reserve factor) fica espremido entre o que tem de pagar aos depositantes para os manter e o que os mutu\u00e1rios est\u00e3o dispostos a pagar. Foi essa a leitura que fizemos do modo como <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/base-futuros-taxa-sem-risco-warsh-jackson-hole-2026\/'>a postura restritiva sa\u00edda de Jackson Hole elevou o custo de oportunidade de todo o capital<\/a>. Num ambiente de taxas altas, a recompra da Aave fica mais dif\u00edcil de financiar (menos receita) e a aposta da Morpho fica mais cara de justificar (o token continua sem fluxo enquanto a alternativa sem risco rende mais de 2%). A macro n\u00e3o \u00e9 pano de fundo; \u00e9 a fasquia.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O vencedor leva tudo, tamb\u00e9m no valor<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Se o valor se concentra, concentra-se em todo o lado. N\u00e3o apenas nos dep\u00f3sitos, mas tamb\u00e9m na camada dos curadores, os gestores de risco que decidem que garantias entram em cada cofre. O patrim\u00f3nio sob gest\u00e3o dos curadores on-chain saltou de cerca de 300 milh\u00f5es de d\u00f3lares para perto de 7 mil milh\u00f5es em menos de um ano, e os cinco maiores concentram cerca de 43% do total, com a Gauntlet e a Steakhouse \u00e0 cabe\u00e7a. Ou seja: mesmo no modelo modular da Morpho, onde em teoria qualquer um pode ser curador, o capital agrupa-se em meia d\u00fazia de nomes.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Isto reescreve a promessa original da DeFi. A ideia de mil florzinhas a desabrochar deu lugar a uma estrutura de oligop\u00f3lio: dois protocolos dominam o TVL, meia d\u00fazia de curadores dominam o risco, e um punhado de tokens capta (ou promete captar) o valor. A cauda longa de protocolos e cofres mais pequenos existe, mas vive de sobras e morre depressa quando a liquidez foge para o topo, exatamente o retrato que tra\u00e7\u00e1mos a prop\u00f3sito da <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/fluxos-etf-vencedor-leva-tudo-longa-cauda-2026\/'>longa cauda que morre nos fluxos de ETF<\/a>. A pergunta \u00abquem fica com o juro\u00bb tem, no fim, uma resposta desconfortavelmente curta: cada vez menos gente.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A governa\u00e7\u00e3o como ativo: quem controla, capta<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Se o token MORPHO n\u00e3o d\u00e1 direito a receita, o que vale exatamente? Vale o controlo. Num sistema onde o interruptor de comiss\u00f5es pode transformar zero em centenas de milh\u00f5es com uma vota\u00e7\u00e3o, quem controla os votos controla um fluxo futuro. \u00c9 por isso que um token de pura governa\u00e7\u00e3o n\u00e3o vale necessariamente zero: vale a op\u00e7\u00e3o de, um dia, se auto-atribuir a receita. O risco \u00e9 o inverso: se a governa\u00e7\u00e3o nunca ligar o interruptor, ou se um grande detentor capturar o processo em benef\u00edcio pr\u00f3prio, o token pode escalar em uso e ficar para tr\u00e1s em valor.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Esta tens\u00e3o entre uso e captura n\u00e3o \u00e9 exclusiva da Morpho. \u00c9 o mesmo dilema que atravessa a governa\u00e7\u00e3o de qualquer protocolo cujo token serve para votar sobre milh\u00f5es em ativos: o poder de decidir para onde vai o dinheiro \u00e9, ele pr\u00f3prio, o ativo em disputa. A li\u00e7\u00e3o repete-se: no on-chain, o direito de decidir \u00e9 frequentemente mais valioso, e mais disputado, do que o dinheiro que j\u00e1 est\u00e1 a ser distribu\u00eddo. Quem desenha o mecanismo de governa\u00e7\u00e3o desenha, no fundo, quem fica com o juro amanh\u00e3.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O que a Wall Street quer comprar<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Voltemos \u00e0 Kraken. O que torna a proposta reveladora n\u00e3o \u00e9 o pre\u00e7o, \u00e9 o objeto. Uma corretora que quer 15% da Aave Group est\u00e1 a dizer que v\u00ea valor na empresa, na equipa, na marca, na op\u00e7\u00e3o de moldar o protocolo. Kulechov responde que o valor real est\u00e1 no token, porque \u00e9 a\u00ed que a receita aterra. Os dois podem ter raz\u00e3o ao mesmo tempo, e essa \u00e9 a novidade: o cr\u00e9dito on-chain criou, pela primeira vez, ativos separ\u00e1veis (a empresa e o token) que uma institui\u00e7\u00e3o pode querer comprar em separado.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Do outro lado, a Morpho j\u00e1 escolheu o seu lado desta guerra. Coinbase, Robinhood e a Soci\u00e9t\u00e9 G\u00e9n\u00e9rale-FORGE constroem produtos de cr\u00e9dito por cima da Morpho sem que o utilizador final saiba que a Morpho est\u00e1 l\u00e1. Quem capta a rela\u00e7\u00e3o com o cliente, e boa parte da margem, \u00e9 a fachada; a Morpho fica com a infraestrutura, tal como Frambot desenhou. No cr\u00e9dito on-chain de 2026, h\u00e1 duas formas de ganhar: ser a marca que o cliente v\u00ea, ou ser a canaliza\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m v\u00ea. A Aave quer as duas; a Morpho aposta na segunda, e cobra zero por agora para tornar essa canaliza\u00e7\u00e3o o mais barata e ub\u00edqua poss\u00edvel.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Regula\u00e7\u00e3o: o token que n\u00e3o \u00e9 (ou \u00e9?) um t\u00edtulo<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta de quem capta o valor tem uma sombra jur\u00eddica. Um token que recompra a si pr\u00f3prio com o lucro de um neg\u00f3cio come\u00e7a a parecer-se, aos olhos de um regulador, com algo que distribui rendimento aos detentores, ou seja, com um valor mobili\u00e1rio. Foi precisamente para evitar essa leitura que a Aave escolheu recompra em vez de dividendo, e que Kulechov insiste que a receita pertence \u00e0 DAO, uma entidade sem dono, e n\u00e3o a uma empresa. A engenharia da Aavenomics 3.0 \u00e9 tanto financeira como defensiva.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Na Uni\u00e3o Europeia, o enquadramento \u00e9 o MiCA, que regula os prestadores de servi\u00e7os de criptoativos e os emitentes, n\u00e3o os protocolos aut\u00f3nomos. Um relat\u00f3rio conjunto da EBA e da ESMA classificou a DeFi como um nicho, cerca de 4% do valor global dos criptoativos, e a Comiss\u00e3o mant\u00e9m em curso uma <a href='https:\/\/finance.ec.europa.eu\/regulation-and-supervision\/consultations-0\/targeted-consultation-review-mica-regulation_en'>consulta de revis\u00e3o do MiCA<\/a> cujo prazo de respostas termina precisamente hoje, 31 de agosto de 2026, com a fronteira entre o regulado e o n\u00e3o regulado entre as quest\u00f5es centrais. Em Portugal, a CMVM supervisiona a conduta de mercado e o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores e das regras de stablecoins; a Lei n.\u00ba 69\/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, encerrou o regime transit\u00f3rio dos antigos VASP a 1 de julho de 2026. Nada disto cobre o depositante que interage diretamente com um contrato inteligente: n\u00e3o h\u00e1 fundo de garantia de dep\u00f3sitos, n\u00e3o h\u00e1 credor de \u00faltima inst\u00e2ncia, e a d\u00edvida incobr\u00e1vel cai sobre quem forneceu a liquidez. Conv\u00e9m lembrar tamb\u00e9m que os derivados de cripto (futuros, perp\u00e9tuos) caem sob a DMIF II, n\u00e3o sob o MiCA.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Como avaliar quem capta o valor: um guia<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Para o leitor que quer olhar para um protocolo de cr\u00e9dito e perceber onde vai parar o dinheiro, valem algumas perguntas pr\u00e1ticas, na ordem certa.<\/p><ul class='wp-block-list'><li><strong>O token capta a receita?<\/strong> H\u00e1 recompra, queima ou partilha de comiss\u00f5es? Ou \u00e9 um token de pura governa\u00e7\u00e3o, cujo valor depende de uma vota\u00e7\u00e3o futura que pode nunca acontecer?<\/li><li><strong>A captura \u00e9 sustent\u00e1vel?<\/strong> A recompra \u00e9 financiada por lucro real ou por emiss\u00e3o de novos tokens? Se o or\u00e7amento encolhe quando a receita cai, est\u00e1 a comprar valor ou a adiar um problema?<\/li><li><strong>Qual \u00e9 a mordida do protocolo?<\/strong> Verifique o reserve factor por ativo e se h\u00e1 um fee switch ligado. Uma taxa a zero \u00e9 \u00f3tima para o depositante e p\u00e9ssima para o token, e vice-versa.<\/li><li><strong>Quem carrega o risco?<\/strong> Em caso de d\u00edvida incobr\u00e1vel, quem absorve primeiro: um m\u00f3dulo de seguran\u00e7a, o token, ou diretamente o depositante? H\u00e1 isolamento entre mercados ou o cont\u00e1gio \u00e9 partilhado?<\/li><li><strong>A macro est\u00e1 a ajudar ou a espremer?<\/strong> O rendimento oferecido supera a taxa sem risco depois de descontado o risco de contrato inteligente? Se n\u00e3o, o capital institucional acabar\u00e1 por sair.<\/li><\/ul><p class=\"wp-block-paragraph\">No fim, a guerra do valor no cr\u00e9dito on-chain n\u00e3o se resolve com uma vit\u00f3ria limpa. A Aave aposta que capturar valor no token agora vale mais do que crescer sem o capturar; a Morpho aposta o contr\u00e1rio, que a ubiquidade vem primeiro e a captura depois. O mercado, ao pagar quase o mesmo pelas duas, est\u00e1 a dizer que ainda n\u00e3o sabe quem tem raz\u00e3o. E, enquanto n\u00e3o souber, o \u00fanico conselho seguro \u00e9 o de sempre: siga o dinheiro, mas nunca perca de vista quem fica com o preju\u00edzo.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Perguntas frequentes<\/h2><h3 class='wp-block-heading'>O que \u00e9 a Aavenomics 3.0?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 a atualiza\u00e7\u00e3o da economia do token da Aave, confirmada em agosto de 2026, que torna as recompras de AAVE imut\u00e1veis e autom\u00e1ticas. Toda a receita do protocolo, do GHO e dos produtos de marca Aave flui para a tesouraria da DAO, e um motor n\u00e3o discricion\u00e1rio canaliza uma parte para recomprar o token no mercado, sem necessidade de aprova\u00e7\u00e3o ciclo a ciclo. O or\u00e7amento anual de recompra foi cortado de cerca de 50 para 30 milh\u00f5es de d\u00f3lares em mar\u00e7o de 2026.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>Porque \u00e9 que a Morpho n\u00e3o cobra taxa de protocolo?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Porque o seu fee switch, o interruptor que permitiria cobrar entre 0% e 25% do juro, est\u00e1 desligado desde o lan\u00e7amento. \u00c9 uma decis\u00e3o estrat\u00e9gica: a Morpho aposta em crescer como infraestrutura de cr\u00e9dito, deixando todo o juro para depositantes e curadores, e adia a captura de receita para o protocolo. A governa\u00e7\u00e3o pode ligar o interruptor no futuro atrav\u00e9s de uma vota\u00e7\u00e3o.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>O token MORPHO capta a receita do protocolo?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, n\u00e3o. O MORPHO \u00e9 um token de governa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o tem direito autom\u00e1tico a receita, at\u00e9 porque o protocolo n\u00e3o ret\u00e9m receita com o fee switch a zero. O seu valor assenta na opcionalidade: o direito de votar e, um dia, potencialmente ligar as comiss\u00f5es. Analistas como a Standard Chartered tratam essa op\u00e7\u00e3o futura como parte da tese de investimento.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>A Kraken comprou a Aave?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o. A CoinDesk noticiou conversa\u00e7\u00f5es avan\u00e7adas para a empresa-m\u00e3e da Kraken adquirir cerca de 15% do capital da Aave Group por perto de 385 milh\u00f5es de d\u00f3lares, mas n\u00e3o h\u00e1 neg\u00f3cio fechado, e Stani Kulechov rejeitou publicamente a leitura de que estaria a vender a AAVE com um desconto de 70%. O objeto seria capital na empresa, n\u00e3o o token, cuja receita pertence \u00e0 DAO.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>Investir em cr\u00e9dito DeFi tem garantia de dep\u00f3sitos?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o. Um protocolo de cr\u00e9dito on-chain n\u00e3o \u00e9 um banco: n\u00e3o h\u00e1 fundo de garantia de dep\u00f3sitos, n\u00e3o h\u00e1 credor de \u00faltima inst\u00e2ncia e, em caso de d\u00edvida incobr\u00e1vel, a perda recai sobre quem forneceu a liquidez. O MiCA regula prestadores de servi\u00e7os e emitentes, n\u00e3o os protocolos aut\u00f3nomos com que o utilizador interage diretamente, e em Portugal a supervis\u00e3o reparte-se entre a CMVM e o Banco de Portugal.<\/p><script type='application\/ld+json'>{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@type\":\"FAQPage\",\"mainEntity\":[{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"O que \u00e9 a Aavenomics 3.0?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"\u00c9 a atualiza\u00e7\u00e3o da economia do token da Aave, confirmada em agosto de 2026, que torna as recompras de AAVE imut\u00e1veis e autom\u00e1ticas. Toda a receita do protocolo, do GHO e dos produtos de marca Aave flui para a tesouraria da DAO, e um motor n\u00e3o discricion\u00e1rio canaliza uma parte para recomprar o token no mercado. O or\u00e7amento anual de recompra foi cortado de cerca de 50 para 30 milh\u00f5es de d\u00f3lares em mar\u00e7o de 2026.\"}},{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"Porque \u00e9 que a Morpho n\u00e3o cobra taxa de protocolo?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"Porque o seu fee switch, o interruptor que permitiria cobrar entre 0% e 25% do juro, est\u00e1 desligado desde o lan\u00e7amento. \u00c9 uma decis\u00e3o estrat\u00e9gica: a Morpho aposta em crescer como infraestrutura de cr\u00e9dito, deixando todo o juro para depositantes e curadores, e adia a captura de receita para o protocolo. 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