{"id":590,"date":"2026-09-23T16:45:31","date_gmt":"2026-09-23T16:45:31","guid":{"rendered":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/aave-rendimento-real-recompra-aavenomics-2026\/"},"modified":"2026-09-23T16:45:31","modified_gmt":"2026-09-23T16:45:31","slug":"aave-rendimento-real-recompra-aavenomics-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/aave-rendimento-real-recompra-aavenomics-2026\/","title":{"rendered":"Aave: quando o rendimento real volta como recompra"},"content":{"rendered":"<h2 class='wp-block-heading'>A quarta m\u00e1quina do rendimento real<\/h2>Na semana em que a Reserva Federal subiu os juros pela primeira vez desde 2023, um dos maiores vencedores da DeFi n\u00e3o foi uma stablecoin nem um mercado de perp\u00e9tuos: foi a Aave. O token AAVE valorizou cerca de 19,7% em sete dias, para perto dos 140 d\u00f3lares (\u00e0 volta de 122 euros), com a capitaliza\u00e7\u00e3o do protocolo a rondar os 2,1 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, segundo a <a href='https:\/\/www.coingecko.com\/en\/coins\/aave'>CoinGecko<\/a>. A subida n\u00e3o veio de uma narrativa nova. Veio de duas coisas muito concretas: a nova vers\u00e3o do protocolo, a V4, e uma m\u00e1quina de recompra que compra AAVE no mercado todos os dias com a receita real do neg\u00f3cio.Esta s\u00e9rie j\u00e1 dissecou tr\u00eas formas de rendimento real. O rendimento ganho nas comiss\u00f5es, com o <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/rendimento-real-receita-ciclica-hyperliquid-2026\/'>caso da Hyperliquid<\/a>. O rendimento fabricado pela base delta-neutral da Ethena. E o rendimento importado das obriga\u00e7\u00f5es do Tesouro tokenizadas, o mesmo que sustenta stablecoins de rendimento como compar\u00e1mos em <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/sky-ethena-rendimento-real-stablecoins-2026\/'>Sky contra Ethena<\/a>. A Aave acrescenta uma quarta cor a esta paleta: o spread de cr\u00e9dito ganho, devolvido ao detentor n\u00e3o como cup\u00e3o, mas como recompra. \u00c9 a\u00ed que mora a pergunta que organiza este artigo: uma recompra \u00e9 mesmo rendimento?A pergunta n\u00e3o \u00e9 acad\u00e9mica. Em 2026, a recompra de tokens tornou-se a moda da DeFi: dezenas de protocolos passaram a usar a receita para comprar o pr\u00f3prio token, numa onda que j\u00e1 moveu centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares. A Aave \u00e9 o exemplo mais maduro dessa vaga, e por isso o melhor s\u00edtio para testar se a moda entrega mesmo rendimento ao detentor ou apenas engenharia financeira que fica bonita num painel. Para quem investe a partir de Portugal, a resposta tem ainda uma segunda camada: a de saber em que moeda, e com que risco, esse valor acaba por chegar.<h2 class='wp-block-heading'>Rendimento real: o teste de sobreviver ao token a zero<\/h2>Conv\u00e9m recuar um passo. \u00abRendimento real\u00bb (real yield) \u00e9 o rendimento que sai da receita efetiva de um protocolo, e n\u00e3o da impress\u00e3o de novos tokens. O termo nasceu no mercado em baixa de 2022, quando protocolos como a GMX come\u00e7aram a pagar aos detentores uma fatia das comiss\u00f5es em ETH ou em stablecoins, em vez de os remunerarem com emiss\u00f5es que apenas dilu\u00edam quem j\u00e1 l\u00e1 estava. A distin\u00e7\u00e3o interessa porque, num mercado em alta, quase tudo parece render; a mar\u00e9 esconde a diferen\u00e7a entre quem gera dinheiro e quem apenas distribui infla\u00e7\u00e3o.O teste mais honesto \u00e9 uma pergunta \u00fanica: se o token do protocolo fosse a zero amanh\u00e3, o rendimento continuaria a existir? Um cup\u00e3o de obriga\u00e7\u00e3o tokenizada continuaria, porque vem do Tesouro dos Estados Unidos e n\u00e3o do token. O juro que um mutu\u00e1rio paga \u00e0 Aave continuaria, porque vem do empr\u00e9stimo. J\u00e1 uma \u00abAPY\u00bb paga com a emiss\u00e3o do token nativo desapareceria no instante em que o token perdesse valor, porque era o pr\u00f3prio token, e n\u00e3o receita. Este teste separa o caixa do subs\u00eddio, e \u00e9 a r\u00e9gua que vamos aplicar \u00e0 Aave ao longo de todo o texto.Em 2026, esta distin\u00e7\u00e3o deixou de ser um exerc\u00edcio de pureza intelectual e passou a ser um filtro comercial. Depois de dois ciclos em que quase todos os protocolos prometiam rendimentos de dois d\u00edgitos alimentados por emiss\u00f5es, o mercado aprendeu a desconfiar de n\u00fameros altos e a perguntar de onde vem cada ponto percentual. \u00c9 por isso que a an\u00e1lise s\u00e9ria hoje separa tr\u00eas linhas: as comiss\u00f5es que os utilizadores pagam, a receita que fica no protocolo e a fatia dessa receita que realmente chega ao detentor do token. S\u00f3 a \u00faltima merece o nome de rendimento real.<h2 class='wp-block-heading'>O spread de cr\u00e9dito ganho: a quarta cor do rendimento<\/h2>A Aave \u00e9, na sua ess\u00eancia, um banco sem balc\u00f5es. Os depositantes colocam ativos (USDC, ETH e por a\u00ed adiante) e recebem juro; os mutu\u00e1rios d\u00e3o colateral e pedem emprestado, pagando juro. Entre o que o mutu\u00e1rio paga e o que o depositante recebe existe uma diferen\u00e7a, e o protocolo fica com uma fatia dela atrav\u00e9s do chamado fator de reserva (reserve factor). Esse spread de cr\u00e9dito \u00e9 a primeira fonte de receita, e \u00e9 genuinamente real: existe porque algu\u00e9m pediu emprestado e pagou por isso, exatamente a mec\u00e2nica que explic\u00e1mos no guia de <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/credito-garantido-cripto-pedir-emprestado-guia-2026\/'>pedir emprestado sem vender<\/a>.Vale a pena perceber como esse spread se forma. As taxas de juro na Aave n\u00e3o s\u00e3o fixadas por um comit\u00e9, sobem e descem com a taxa de utiliza\u00e7\u00e3o de cada mercado: quanto mais alta a fatia de um ativo que est\u00e1 emprestada, mais caro fica pedi-lo emprestado, o que atrai novos dep\u00f3sitos e reequilibra o sistema. O fator de reserva \u00e9 a percentagem desse juro que o protocolo ret\u00e9m antes de pagar o resto aos depositantes. \u00c9 uma comiss\u00e3o sobre a intermedia\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito, exatamente como a margem financeira de um banco, com a diferen\u00e7a de que aqui o livro est\u00e1 aberto para qualquer pessoa auditar em tempo real.Mas n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica fonte. A Aave inventou os <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/flash-loans-emprestimo-um-bloco-defi-2026\/'>flash loans<\/a>, empr\u00e9stimos que nascem e morrem dentro do mesmo bloco, e cobra uma comiss\u00e3o por cada um. Cobra penaliza\u00e7\u00f5es quando uma posi\u00e7\u00e3o \u00e9 liquidada. E, desde 2023, emite a sua pr\u00f3pria stablecoin, o GHO, sobre a qual cobra juro a quem a cunha. Somadas, estas linhas fazem da Aave o maior mercado de cr\u00e9dito da DeFi, com cerca de 18 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em dep\u00f3sitos, o primeiro lugar entre as centenas de protocolos de cr\u00e9dito listados pela <a href='https:\/\/defillama.com\/protocol\/aave'>DefiLlama<\/a>. A tabela seguinte arruma as fontes por natureza e por ciclicidade, um detalhe a que voltaremos.<figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Fonte de receita<\/th><th>O que \u00e9<\/th><th>Ciclicidade<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Spread de juro (fator de reserva)<\/td><td>Fatia do juro pago pelos mutu\u00e1rios que fica no protocolo<\/td><td>Alta: sobe e desce com a procura de cr\u00e9dito<\/td><\/tr><tr><td>Juro do GHO<\/td><td>Juro cobrado a quem cunha a stablecoin nativa<\/td><td>M\u00e9dia: ligada \u00e0 taxa base e \u00e0 procura<\/td><\/tr><tr><td>Flash loans<\/td><td>Comiss\u00e3o sobre empr\u00e9stimos abertos e fechados no mesmo bloco<\/td><td>M\u00e9dia-alta: picos em momentos de volatilidade<\/td><\/tr><tr><td>Liquida\u00e7\u00f5es<\/td><td>Penaliza\u00e7\u00e3o cobrada quando uma posi\u00e7\u00e3o \u00e9 liquidada<\/td><td>Alta: concentra-se nas quedas de mercado<\/td><\/tr><tr><td>Produtos de marca (V4, Horizon)<\/td><td>Receita de mercados institucionais e novos m\u00f3dulos<\/td><td>A crescer, ainda uma fatia pequena<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>Como separar o caixa do subs\u00eddio<\/h2>Verificar isto n\u00e3o exige f\u00e9, exige olhar para os n\u00fameros certos. Na DefiLlama, tr\u00eas m\u00e9tricas contam a hist\u00f3ria: fees (o total pago pelos utilizadores), revenue (a parte que fica no protocolo) e holders revenue (a parte que efetivamente chega aos detentores do token). Um protocolo pode ter comiss\u00f5es enormes e receita min\u00fascula, porque devolve quase tudo a quem fornece liquidez; ou pode ter receita alta e, ainda assim, pagar aos detentores com emiss\u00f5es, o que n\u00e3o conta como rendimento real. A verifica\u00e7\u00e3o, que aprofund\u00e1mos ao <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/rendimento-real-ou-subsidio-auditar-caixa-defi-2026\/'>auditar o caixa da DeFi<\/a>, \u00e9 sempre a mesma: subtrair os incentivos pagos em token \u00e0 receita declarada e ver o que sobra.No caso da Aave, os n\u00fameros resistem a esse escrut\u00ednio. Em 2026, o protocolo gera na ordem dos 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares de receita anualizada, segundo a <a href='https:\/\/thedefiant.io\/news\/defi\/aave-confirms-aavenomics-3-0-live-buybacks-dao-spending-cut'>The Defiant<\/a>, e essa receita n\u00e3o depende de novas emiss\u00f5es de AAVE. Pelo contr\u00e1rio: hoje \u00e9 usada para retirar AAVE de circula\u00e7\u00e3o. \u00c9 o oposto de um subs\u00eddio. A quest\u00e3o, como veremos, n\u00e3o \u00e9 se o rendimento \u00e9 real, mas sim o formato em que chega a quem det\u00e9m o token.<h2 class='wp-block-heading'>Da Aavenomics ao buyback imut\u00e1vel<\/h2>Nem sempre foi assim. Durante anos, a Aave acumulou receita sem a devolver aos detentores, e o AAVE funcionava sobretudo como token de governa\u00e7\u00e3o e de seguro, atrav\u00e9s do antigo Safety Module. A viragem come\u00e7ou em mar\u00e7o de 2025, quando Marc Zeller, fundador da Aave Chan Initiative (ACI), apresentou uma proposta que descreveu como \u00aba proposta mais importante da nossa hist\u00f3ria\u00bb, nas palavras citadas pelo <a href='https:\/\/www.theblock.co\/post\/344488\/aave-contributor-presents-most-important-proposal-in-our-history-token-price-jumps-8'>The Block<\/a>: um programa que compraria um milh\u00e3o de d\u00f3lares de AAVE por semana, financiado pela receita excedent\u00e1ria e distribu\u00eddo a quem tinha o token em staking.A proposta passou com apoio quase un\u00e2nime e abriu caminho a um plano maior. Em outubro de 2025, a governa\u00e7\u00e3o discutiu escalar o programa para cerca de 50 milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano, como noticiou a <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/markets\/2025\/10\/22\/aave-bounces-amid-usd50m-token-buyback-governance-proposal'>CoinDesk<\/a>. Em abril de 2026 chegou o \u00abAave Will Win\u00bb, que encaminhou a totalidade da receita do protocolo, do GHO e dos produtos de marca para a tesouraria da DAO. E, no final de junho de 2026, entrou em funcionamento a Aavenomics 3.0: uma m\u00e1quina de recompra autom\u00e1tica e, nas palavras reportadas pela The Defiant, \u00abimut\u00e1vel\u00bb, que j\u00e1 n\u00e3o precisa de aprova\u00e7\u00e3o humana em cada ciclo e compra na ordem dos 292 AAVE por dia.A engenharia por tr\u00e1s disto \u00e9 o que a distingue das promessas anteriores. Em vez de um comit\u00e9 decidir a cada semana quanto gastar, a Aavenomics 3.0 codifica a regra em contratos que executam as compras de forma program\u00e1tica, com a receita a ser encaminhada automaticamente para o mercado. Retira-se o fator humano, e com ele o risco de que uma futura maioria simplesmente desligue o programa por conveni\u00eancia pol\u00edtica. O reverso \u00e9 que uma regra autom\u00e1tica tamb\u00e9m precisa de ser bem desenhada \u00e0 partida, porque corrigi-la exige mobilizar a mesma governa\u00e7\u00e3o que se quis contornar.<h2 class='wp-block-heading'>Uma recompra \u00e9 rendimento?<\/h2>Aqui est\u00e1 o n\u00f3 do artigo. Uma recompra n\u00e3o \u00e9 um dividendo. Quando a Aave gasta a sua receita a comprar AAVE no mercado aberto, n\u00e3o deposita euros na carteira de ningu\u00e9m; cria procura pelo token e sustenta-lhe o pre\u00e7o. O detentor s\u00f3 transforma essa procura em dinheiro se vender para dentro dela. Quem n\u00e3o vende continua exposto \u00e0 volatilidade do AAVE e pode ver o \u00abrendimento\u00bb evaporar-se numa queda de mercado que arraste o token para baixo apesar das compras di\u00e1rias do protocolo.Os cr\u00edticos v\u00e3o mais longe. Uma recompra, dizem, \u00e9 a forma mais f\u00e1cil de um protocolo parecer que devolve valor sem se comprometer com nada: n\u00e3o promete um montante, n\u00e3o cria um direito, e pode ser cortada a qualquer momento se a receita cair. Alguns analistas notam que a vaga de recompras de 2026 moveu centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares sem fechar a dist\u00e2ncia entre a receita dos protocolos e a capitaliza\u00e7\u00e3o dos seus tokens, sinal de que o mercado nem sempre premeia quem recompra. A defesa da Aave \u00e9 que a sua recompra \u00e9 autom\u00e1tica e financiada por receita corrente, n\u00e3o por reservas, o que a torna mais cred\u00edvel do que uma promessa discricion\u00e1ria.Isto n\u00e3o invalida o teste de sobreviver ao token a zero, porque a receita \u00e9 real e existiria na mesma, mas muda a natureza daquilo que se recebe. \u00c9 a mesma l\u00f3gica das recompras de a\u00e7\u00f5es em Wall Street: a empresa devolve capital comprimindo o n\u00famero de a\u00e7\u00f5es em vez de pagar dividendos, e o acionista fica com uma fatia maior de um bolo que espera ver valorizar. H\u00e1 uma vantagem (n\u00e3o h\u00e1 evento fiscal enquanto n\u00e3o se vende) e uma desvantagem (n\u00e3o se recebe nada em m\u00e3o). A tabela seguinte arruma os v\u00e1rios mecanismos por aquilo que realmente entregam.<figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Mecanismo<\/th><th>Como funciona<\/th><th>Recebe dinheiro?<\/th><th>Sobrevive ao token a zero?<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Recompra (o modelo da Aave)<\/td><td>O protocolo compra o token no mercado com a receita<\/td><td>S\u00f3 se vender para dentro da procura<\/td><td>Sim, \u00e9 receita real<\/td><\/tr><tr><td>Queima (burn)<\/td><td>Os tokens comprados s\u00e3o destru\u00eddos, reduzindo a oferta<\/td><td>Indireto, via escassez<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Partilha de comiss\u00f5es<\/td><td>Parte das comiss\u00f5es \u00e9 distribu\u00edda a quem faz staking<\/td><td>Sim, direto<\/td><td>Sim<\/td><\/tr><tr><td>Cup\u00e3o ou dividendo<\/td><td>Pagamento peri\u00f3dico, normalmente em stablecoin<\/td><td>Sim, direto<\/td><td>Sim, vem do ativo e n\u00e3o do token<\/td><\/tr><tr><td>Emiss\u00e3o (farming)<\/td><td>Novos tokens distribu\u00eddos como incentivo<\/td><td>Sim, mas dilui os restantes<\/td><td>N\u00e3o, \u00e9 subs\u00eddio<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>O corte de mar\u00e7o: quando o spread encolhe<\/h2>H\u00e1 um sen\u00e3o que a euforia das recompras tende a esconder: elas escalam com a receita, e a receita da Aave \u00e9 c\u00edclica. O spread de cr\u00e9dito engorda quando h\u00e1 apetite por alavancagem e encolhe quando o cr\u00e9dito seca. Foi exatamente o que aconteceu em mar\u00e7o de 2026, quando a governa\u00e7\u00e3o aprovou reduzir o or\u00e7amento de recompra de cerca de 50 para cerca de 30 milh\u00f5es de d\u00f3lares por ano, invocando uma quebra de perto de 25% na receita de comiss\u00f5es de empr\u00e9stimo face ao pico, segundo o registo da proposta no <a href='https:\/\/governance.aave.com\/t\/arfc-buyback-program-budget-adjustment\/24229'>f\u00f3rum de governa\u00e7\u00e3o da Aave<\/a>.O precedente \u00e9 a pr\u00f3pria GMX, o protocolo que popularizou o rendimento real em 2022 e cujo rendimento encolheu quando o volume de negocia\u00e7\u00e3o secou. Uma recompra financiada por receita c\u00edclica \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, uma recompra c\u00edclica: cresce nos bons momentos e murcha nos maus, precisamente quando o pre\u00e7o do token j\u00e1 anda em baixa. Isto liga a Aave \u00e0 mesma pergunta que fizemos sobre a Hyperliquid: n\u00e3o basta o rendimento ser real, \u00e9 preciso que dure. Uma m\u00e1quina de recompra n\u00e3o \u00e9 uma promessa de rendimento fixo, \u00e9 um espelho da sa\u00fade do neg\u00f3cio subjacente.Para o detentor, isto tem uma consequ\u00eancia pr\u00e1tica desconfort\u00e1vel. A recompra costuma ser mais forte quando o mercado est\u00e1 euf\u00f3rico e a alavancagem \u00e9 cara, ou seja, quando o pre\u00e7o do AAVE j\u00e1 subiu; e mais fraca quando o cr\u00e9dito seca e o token cai. \u00c9 o oposto de um estabilizador: em vez de amortecer as quedas, a recompra tende a recuar precisamente quando daria mais jeito. Quem compra o token pela recompra tem de contar com esta pr\u00f3-ciclicidade, e n\u00e3o presumir que o suporte estar\u00e1 l\u00e1 no pior dia.<h2 class='wp-block-heading'>GHO e sGHO: onde vive o juro<\/h2>O GHO \u00e9 a stablecoin da Aave, cunhada por quem deposita colateral no protocolo e paga juro por isso. Ultrapassou os 580 milh\u00f5es de tokens em circula\u00e7\u00e3o e est\u00e1 presente em v\u00e1rias redes, com mais de metade a render juro no sGHO, o produto de poupan\u00e7a da Aave, segundo dados do <a href='https:\/\/governance.aave.com\/t\/gho-stewards-september-2026-gho-parameter-update\/25644'>f\u00f3rum de governa\u00e7\u00e3o<\/a> e da <a href='https:\/\/eco.com\/support\/en\/articles\/12209036-gho-stablecoin'>documenta\u00e7\u00e3o do ecossistema<\/a>. O GHO \u00e9, ao mesmo tempo, um produto para o utilizador e um motor de receita para o protocolo, porque o juro que paga alimenta diretamente a m\u00e1quina de recompra.O GHO funciona de forma parecida com o DAI que consagrou a categoria: mant\u00e9m a paridade com o d\u00f3lar atrav\u00e9s da sobrecolateraliza\u00e7\u00e3o (cada GHO nasce garantido por mais do que um d\u00f3lar em ativos depositados) e de um conjunto de facilitadores autorizados que o cunham dentro de limites definidos pela governa\u00e7\u00e3o. Quando o pre\u00e7o se afasta de um d\u00f3lar, os incentivos de arbitragem e os par\u00e2metros de juro empurram-no de volta. N\u00e3o \u00e9 uma stablecoin lastreada por d\u00f3lares num banco, \u00e9 uma stablecoin de cr\u00e9dito, e essa diferen\u00e7a explica tanto o seu potencial de receita como o seu perfil de risco.O detalhe regulat\u00f3rio importa, e muito. Na Europa, a MiCA pro\u00edbe remunerar a mera deten\u00e7\u00e3o de uma stablecoin: os artigos 40 e 50 vedam o pagamento de juro sobre tokens referenciados a ativos e sobre tokens de moeda eletr\u00f3nica. Por isso o juro n\u00e3o vive no GHO, vive no sGHO; o utilizador tem de bloquear a stablecoin num produto de poupan\u00e7a para receber rendimento. \u00c9 a mesma engenharia que separa o sUSDS do USDS e o sUSDe do USDe. J\u00e1 o estatuto do pr\u00f3prio GHO na MiCA \u00e9 uma zona cinzenta, por ser uma stablecoin descentralizada, sobrecolateralizada e sem um emitente \u00fanico licenciado. A gal\u00e1xia de tokens que rodeia a Aave arruma-se assim.<figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Ativo<\/th><th>O que \u00e9<\/th><th>Rende juro?<\/th><th>Origem do rendimento<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>GHO<\/td><td>Stablecoin nativa, cunhada contra colateral<\/td><td>N\u00e3o: a mera deten\u00e7\u00e3o n\u00e3o paga<\/td><td>N\u00e3o aplic\u00e1vel<\/td><\/tr><tr><td>sGHO<\/td><td>GHO bloqueado no produto de poupan\u00e7a<\/td><td>Sim<\/td><td>Receita do protocolo<\/td><\/tr><tr><td>aTokens (aUSDC, aWETH)<\/td><td>Recibo de dep\u00f3sito que acumula juro<\/td><td>Sim<\/td><td>Juro pago pelos mutu\u00e1rios<\/td><\/tr><tr><td>Umbrella (stkGHO e afins)<\/td><td>Staking que protege o protocolo de d\u00edvida incobr\u00e1vel<\/td><td>Sim, com risco<\/td><td>Incentivos mais receita, sujeito a corte<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>V4 e Horizon: hub-and-spoke, cr\u00e9dito e a virada institucional<\/h2>A V4, lan\u00e7ada na mainnet da Ethereum a 30 de mar\u00e7o de 2026, reorganiza tudo numa arquitetura hub-and-spoke, explicada pelo <a href='https:\/\/www.theblock.co\/post\/395617\/aave-v4-launches-ethereum-mainnet'>The Block<\/a>: uma reserva de liquidez central (o hub) alimenta mercados individuais (os spokes), cada um com o seu pr\u00f3prio perfil de risco. \u00abO hub d\u00e1 uma linha de cr\u00e9dito a cada spoke. Cada caso de uso fica limitado pela exposi\u00e7\u00e3o dessa linha de cr\u00e9dito, e isso funciona como uma funcionalidade de mitiga\u00e7\u00e3o de risco\u00bb, disse Stani Kulechov, fundador e presidente executivo da Aave. Os primeiros operadores de spokes incluem nomes como Lido, EtherFi, Kelp, Ethena e Lombard.Essa lista revela uma reflexividade inc\u00f3moda: o spread que a Aave ganha assenta, em parte, sobre outros rendimentos reais. Quando algu\u00e9m deposita um token de <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/restaking-2026-juros-fed-premio-risco-derreteu\/'>restaking<\/a> como colateral para cunhar GHO e voltar a investir (o chamado looping), o juro que paga \u00e0 Aave depende do rendimento que recebe l\u00e1 atr\u00e1s. Empilham-se rendimentos e, com eles, empilham-se riscos. Ao mesmo tempo, a Aave abriu a porta \u00e0s institui\u00e7\u00f5es com o Horizon, um mercado de cr\u00e9dito para ativos do mundo real tokenizados, lan\u00e7ado em 2025, que ter\u00e1 chegado \u00e0 casa dos mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em colateral no in\u00edcio de 2026, segundo a pr\u00f3pria <a href='https:\/\/aave.com\/blog\/aave-2025-recap'>Aave<\/a>. \u00c9 o mesmo movimento de fundo que analis\u00e1mos nos <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/perpetuos-rwa-nova-linha-receita-juro-real-2026\/'>perp\u00e9tuos de RWA<\/a>: a receita real vai buscar-se, cada vez mais, ao mundo tokenizado.O Horizon \u00e9 a aposta mais expl\u00edcita da Aave nesse futuro. Desenhado para institui\u00e7\u00f5es que querem depositar obriga\u00e7\u00f5es e fundos tokenizados como colateral e pedir stablecoins emprestadas, aproxima o protocolo do mesmo capital que move a tokeniza\u00e7\u00e3o de ativos do mundo real, com nomes da finan\u00e7a tradicional a testar a infraestrutura. Se resultar, acrescenta uma linha de receita mais est\u00e1vel e menos dependente do apetite especulativo, o que suavizaria a ciclicidade que penaliza a recompra. Se falhar, ter\u00e1 sido mais uma promessa institucional que n\u00e3o passou de piloto. Por agora, \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o em cima da mesa, n\u00e3o um facto consumado.<h2 class='wp-block-heading'>A recompra contra a nova taxa base<\/h2>Nada disto acontece no v\u00e1cuo. A 16 de setembro de 2026, a Reserva Federal subiu a taxa dos fundos federais para o intervalo de 3,75% a 4,00%, a primeira subida desde julho de 2023, segundo o comunicado do <a href='https:\/\/www.federalreserve.gov\/newsevents\/pressreleases\/monetary20260916a1.htm'>Federal Reserve<\/a>. No mesmo per\u00edodo, a taxa de dep\u00f3sito do <a href='https:\/\/www.ecb.europa.eu\/'>Banco Central Europeu<\/a> fixou-se em 2,50%. Uma taxa base mais alta \u00e9 uma r\u00e9gua mais exigente: o spread de cr\u00e9dito da Aave passa a competir com um Tesouro americano tokenizado que j\u00e1 paga cerca de 3,50%, segundo a <a href='https:\/\/app.rwa.xyz\/treasuries'>rwa.xyz<\/a>. Se um investidor pode ter 3,50% praticamente sem risco de cr\u00e9dito, o pr\u00e9mio que a Aave oferece por assumir risco tem de justificar a diferen\u00e7a, o mesmo dilema de custo de oportunidade que descrevemos em <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/cripto-juro-custo-oportunidade-dezembro-2026\/'>a cripto contra o juro<\/a>.A forma mais \u00fatil de olhar para qualquer rendimento de DeFi, incluindo o da Aave, \u00e9 medi-lo como um spread sobre esta base, e n\u00e3o em termos absolutos. Um rendimento de 6% quando a base \u00e9 3,5% oferece um pr\u00e9mio de 2,5 pontos por assumir risco de contrato inteligente, de liquidez e de cr\u00e9dito; o mesmo 6% quando a base fosse 1% ofereceria um pr\u00e9mio muito maior. Com a Fed a subir e o Tesouro tokenizado a firmar acima dos 3%, o pr\u00e9mio que a DeFi paga encolheu na pr\u00e1tica, mesmo quando os n\u00fameros nominais n\u00e3o mexeram. \u00c9 esta compress\u00e3o silenciosa que torna a qualidade da receita mais importante do que nunca.O tom foi dado semanas antes por Kevin Warsh, presidente da Reserva Federal, em Jackson Hole: \u00abA estabilidade de pre\u00e7os n\u00e3o se concretiza sozinha, nem a infla\u00e7\u00e3o regressa necessariamente \u00e0 m\u00e9dia\u00bb, afirmou, acrescentando que \u00aba infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 acima do nosso objetivo de 2%\u00bb, segundo o texto publicado pelo <a href='https:\/\/www.federalreserve.gov\/newsevents\/speech\/warsh20260828a.htm'>Federal Reserve<\/a>. Para a Aave, uma base a subir tem dois efeitos opostos: encarece o cr\u00e9dito, o que pode alargar o spread, mas tamb\u00e9m torna a alavancagem menos apetec\u00edvel, o que pode sec\u00e1-lo. Ao lado, a taxa de poupan\u00e7a da Sky mant\u00e9m-se nos 3,75% (<a href='https:\/\/sky.money\/'>sky.money<\/a>), o sUSDe da Ethena ronda os 5% consoante o funding (<a href='https:\/\/defillama.com\/protocol\/ethena'>DefiLlama<\/a>) e o staking de ETH continua abaixo da base em d\u00f3lares, \u00e0 volta de 2,7% (<a href='https:\/\/ethereum.org\/en\/staking\/'>ethereum.org<\/a>). A tabela situa cada rendimento face \u00e0 nova base.<figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Refer\u00eancia<\/th><th>Taxa (setembro de 2026)<\/th><th>Reage a uma subida da Fed?<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Fed funds (limite superior)<\/td><td>4,00%<\/td><td>\u00c9 a pr\u00f3pria taxa<\/td><\/tr><tr><td>Taxa de dep\u00f3sito do BCE<\/td><td>2,50%<\/td><td>Baixa: pol\u00edtica pr\u00f3pria<\/td><\/tr><tr><td>Tesouro dos EUA tokenizado (APY 7 dias)<\/td><td>cerca de 3,50%<\/td><td>Alta: quase direta<\/td><\/tr><tr><td>sUSDe (Ethena)<\/td><td>cerca de 5%<\/td><td>Amb\u00edgua: depende do funding<\/td><\/tr><tr><td>Taxa de poupan\u00e7a da Sky (SSR)<\/td><td>3,75%<\/td><td>Baixa: fixada por vota\u00e7\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Staking de ETH (base)<\/td><td>cerca de 2,7%<\/td><td>Nenhuma: j\u00e1 abaixo da base em d\u00f3lares<\/td><\/tr><tr><td>Spread de cr\u00e9dito da Aave<\/td><td>vari\u00e1vel<\/td><td>M\u00e9dia: sobe com a alavancagem, cai se o cr\u00e9dito seca<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>A conta em euros: c\u00e2mbio e recompra<\/h2>Para o investidor portugu\u00eas, h\u00e1 uma tor\u00e7\u00e3o que costuma passar despercebida. Um cup\u00e3o em d\u00f3lares (o do Tesouro tokenizado, o de um aUSDC) \u00e9 um rendimento em moeda estrangeira, e traz risco cambial. A 23 de setembro de 2026, o EUR\/USD negociava perto de 1,14, num m\u00ednimo de quase dois meses, com o euro a enfraquecer e as apostas em novas subidas do BCE a serem revistas em baixa por causa da descida dos pre\u00e7os da energia, segundo a <a href='https:\/\/tradingeconomics.com\/euro-area\/currency'>Trading Economics<\/a>. Num rendimento anual de cerca de 4% em d\u00f3lares, basta o euro valorizar 5% para o c\u00e2mbio comer todo o cup\u00e3o e ainda deixar preju\u00edzo.E \u00e9 aqui que a recompra da Aave muda o problema, sem o eliminar. Uma recompra devolve valor no pr\u00f3prio token, o AAVE, e n\u00e3o em d\u00f3lares; troca-se o risco cambial pelo risco de pre\u00e7o do token, que \u00e9 bem maior. Cobrir o c\u00e2mbio de um rendimento em d\u00f3lares tem um custo que se aproxima do diferencial de juro entre a Fed e o BCE (\u00e0 volta de 1,4 pontos percentuais), o que puxa o retorno l\u00edquido de volta para perto da base europeia. A tabela seguinte \u00e9 ilustrativa, para um rendimento de 4% em d\u00f3lares, e serve para lembrar que, para quem vive em euros, a r\u00e9gua nunca \u00e9 a taxa americana pura.<figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Cen\u00e1rio do EUR\/USD a 12 meses<\/th><th>Efeito sobre um rendimento de 4% em d\u00f3lares<\/th><th>Rendimento efetivo em euros<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Euro sobe 5% (d\u00f3lar enfraquece)<\/td><td>O c\u00e2mbio come mais do que o cup\u00e3o<\/td><td>cerca de -1%<\/td><\/tr><tr><td>Euro est\u00e1vel (perto de 1,14)<\/td><td>Sem efeito cambial<\/td><td>cerca de +4%<\/td><\/tr><tr><td>Euro desce 5% (d\u00f3lar refor\u00e7a)<\/td><td>O c\u00e2mbio soma ao cup\u00e3o<\/td><td>cerca de +9%<\/td><\/tr><tr><td>Com cobertura cambial (hedge)<\/td><td>Custo perto do diferencial entre a Fed e o BCE, \u00e0 volta de 1,4 pontos<\/td><td>cerca de +2,6%, perto da base do BCE<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>Riscos: governa\u00e7\u00e3o, ciclicidade e reflexividade<\/h2>A hist\u00f3ria da Aave em 2026 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de recompras a subir. \u00c9 tamb\u00e9m de tens\u00e3o interna, e vale a pena listar os riscos com frieza antes de tratar o AAVE como um ativo de rendimento.<ul class='wp-block-list'><li>Governa\u00e7\u00e3o concentrada e em ruptura: o lan\u00e7amento da V4 coincidiu com a sa\u00edda de dois contribuidores de peso, a BGD Labs e a pr\u00f3pria Aave Chan Initiative de Marc Zeller, ap\u00f3s meses de atrito; em resposta, Kulechov prop\u00f4s o \u00abAave Will Win\u00bb para transferir a marca e a propriedade intelectual da Aave Labs para o controlo da DAO, segundo o <a href='https:\/\/www.theblock.co\/post\/395617\/aave-v4-launches-ethereum-mainnet'>The Block<\/a>. Uma recompra autom\u00e1tica s\u00f3 \u00e9 t\u00e3o fi\u00e1vel quanto a governa\u00e7\u00e3o que a sustenta.<\/li><li>Ciclicidade da receita: como mostrou o corte de mar\u00e7o, o or\u00e7amento de recompra sobe e desce com a procura de cr\u00e9dito, e tende a encolher justamente quando o mercado cai.<\/li><li>Reflexividade e looping: quando o colateral s\u00e3o outros ativos de rendimento (restaking, stablecoins de rendimento), um choque num deles propaga-se \u00e0 Aave.<\/li><li>S\u00f3 realiza quem vende: a recompra sustenta o pre\u00e7o, mas n\u00e3o paga um c\u00eantimo a quem simplesmente det\u00e9m e n\u00e3o vende o token.<\/li><li>Risco de contrato inteligente e de d\u00edvida incobr\u00e1vel: o novo m\u00f3dulo Umbrella substituiu o antigo Safety Module e pode cortar (slashing) o capital de quem faz staking para cobrir d\u00edvidas que o protocolo n\u00e3o recupere.<\/li><\/ul><h2 class='wp-block-heading'>CMVM, Banco de Portugal e o fisco<\/h2>Em Portugal e na Uni\u00e3o Europeia, \u00e9 preciso separar o que a MiCA cobre do que n\u00e3o cobre. A MiCA regula os emitentes de stablecoins e os prestadores de servi\u00e7os de criptoativos (as CASP), n\u00e3o o protocolo em si nem o token de governa\u00e7\u00e3o. A supervis\u00e3o nacional est\u00e1 repartida pela Lei n.\u00ba 69\/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025: o Banco de Portugal fica com os t\u00edtulos relativos a stablecoins (tokens referenciados a ativos e de moeda eletr\u00f3nica) e a CMVM com a conduta de mercado e o abuso de mercado, com coimas que podem chegar aos 5 milh\u00f5es de euros, segundo o <a href='https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/lei\/69-2025-992098939'>Di\u00e1rio da Rep\u00fablica<\/a>. O per\u00edodo transit\u00f3rio para os antigos prestadores portugueses (os VASP) termina a 1 de julho de 2026.Se o AAVE \u00e9 ou n\u00e3o um instrumento financeiro \u00e9 outra quest\u00e3o, resolvida pela fronteira que a <a href='https:\/\/www.esma.europa.eu\/'>ESMA<\/a> tra\u00e7ou em mar\u00e7o de 2025 entre a MiCA e a DMIF II. No plano fiscal, e sem substituir aconselhamento profissional, o enquadramento portugu\u00eas distingue dois regimes: as recompensas de staking e juros tendem a cair na Categoria E (rendimentos de capitais), tributadas a 28% no momento em que s\u00e3o recebidas e sem isen\u00e7\u00e3o por tempo de deten\u00e7\u00e3o; as mais-valias na venda de cripto entram na Categoria G, tamb\u00e9m a 28%, mas isentas se os ativos forem detidos mais de 365 dias. A ironia \u00e9 reveladora: para um detentor de longo prazo, uma recompra que valoriza o token e \u00e9 resgatada como mais-valia depois de um ano pode ser mais eficiente do que um cup\u00e3o tributado como juro logo \u00e0 cabe\u00e7a. O tratamento de produtos que acumulam valor no pr\u00f3prio token (como o sGHO) continua por fechar pela Autoridade Tribut\u00e1ria, pelo que conv\u00e9m confirmar cada caso.Na pr\u00e1tica, o investidor portugu\u00eas que compra AAVE pela tese da recompra est\u00e1 a fazer uma aposta de capital, n\u00e3o a subscrever um rendimento: ganha se o pre\u00e7o subir sustentado pelas compras do protocolo, perde se a receita secar ou se a governa\u00e7\u00e3o mudar as regras. J\u00e1 quem deposita stablecoins na Aave ou bloqueia sGHO recebe um juro em d\u00f3lares, com o risco cambial que isso implica para quem gasta em euros. S\u00e3o dois produtos diferentes, com dois tratamentos fiscais diferentes, escondidos atr\u00e1s da mesma marca. Distinguir um do outro \u00e9 o primeiro passo antes de decidir se a Aave tem lugar numa carteira.<h2 class='wp-block-heading'>Cinco perguntas para saber se a recompra \u00e9 rendimento<\/h2><ul class='wp-block-list'><li>A receita sobrevive ao token a zero? Se a fonte \u00e9 juro de empr\u00e9stimos e comiss\u00f5es, sim; se \u00e9 a emiss\u00e3o do pr\u00f3prio token, n\u00e3o.<\/li><li>A recompra \u00e9 financiada por receita ou por tesouraria? A da Aave vem da receita corrente, n\u00e3o da venda de reservas.<\/li><li>\u00c9 autom\u00e1tica ou discricion\u00e1ria? A Aavenomics 3.0 \u00e9 autom\u00e1tica, o que reduz o risco de captura pol\u00edtica, mas fixa uma regra que tamb\u00e9m \u00e9 preciso confiar que se mant\u00e9m.<\/li><li>Recebo dinheiro ou pre\u00e7o? Uma recompra d\u00e1-lhe pre\u00e7o; s\u00f3 recebe dinheiro se vender para dentro da procura que ela cria.<\/li><li>O rendimento bate a base certa? Para quem vive em euros, a r\u00e9gua n\u00e3o \u00e9 a taxa americana, \u00e9 a taxa do BCE depois do custo de cobertura cambial.<\/li><\/ul><h2 class='wp-block-heading'>Perguntas frequentes<\/h2><h3 class='wp-block-heading'>O que \u00e9 o rendimento real (real yield) na DeFi?<\/h3>O rendimento real \u00e9 o rendimento pago a partir da receita efetiva de um protocolo (juros de empr\u00e9stimos, comiss\u00f5es de troca, funding, cup\u00f5es de obriga\u00e7\u00f5es tokenizadas), e n\u00e3o da emiss\u00e3o inflacion\u00e1ria do pr\u00f3prio token. O teste pr\u00e1tico \u00e9 simples: se o token do protocolo fosse a zero amanh\u00e3, o rendimento continuaria a existir? Se sim, \u00e9 real; se n\u00e3o, \u00e9 subs\u00eddio disfar\u00e7ado.<h3 class='wp-block-heading'>Uma recompra de AAVE conta como rendimento?<\/h3>\u00c9 rendimento para o protocolo, mas chega ao detentor de forma indireta. A Aave usa a receita para comprar AAVE no mercado aberto, o que sustenta o pre\u00e7o em vez de pagar um dividendo. O detentor s\u00f3 transforma essa recompra em dinheiro se vender para dentro dessa procura; quem n\u00e3o vende fica exposto ao risco do token. Passa no teste de sobreviver ao token a zero, mas n\u00e3o \u00e9 o mesmo que um cup\u00e3o em euros.<h3 class='wp-block-heading'>Como \u00e9 que a Aave ganha dinheiro?<\/h3>A Aave cobra um spread de cr\u00e9dito: fica com uma fatia do juro que os mutu\u00e1rios pagam (o fator de reserva), soma o juro sobre a sua stablecoin GHO, as comiss\u00f5es dos flash loans e as penaliza\u00e7\u00f5es das liquida\u00e7\u00f5es. Em 2026 isso equivale a cerca de 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares de receita anualizada, hoje encaminhada para a recompra autom\u00e1tica de AAVE.<h3 class='wp-block-heading'>O que \u00e9 o GHO e como rende juro?<\/h3>O GHO \u00e9 a stablecoin nativa da Aave, cunhada contra colateral depositado no protocolo. O juro n\u00e3o \u00e9 pago sobre o GHO em si (a MiCA pro\u00edbe remunerar a mera deten\u00e7\u00e3o de uma stablecoin), mas sobre o sGHO, o produto de poupan\u00e7a onde os utilizadores bloqueiam GHO para receber um rendimento. \u00c9 a mesma l\u00f3gica que separa o sUSDS do USDS ou o sUSDe do USDe.<h3 class='wp-block-heading'>Como \u00e9 tributado o rendimento de DeFi em Portugal?<\/h3>Em Portugal, as recompensas de staking e juros tendem a cair na Categoria E (rendimentos de capitais), tributadas a 28% no momento em que s\u00e3o recebidas, sem isen\u00e7\u00e3o por tempo de deten\u00e7\u00e3o. As mais-valias na venda de cripto entram na Categoria G, tamb\u00e9m a 28%, mas com isen\u00e7\u00e3o se os ativos forem detidos mais de 365 dias. O enquadramento de produtos que acumulam valor no pr\u00f3prio token ainda n\u00e3o est\u00e1 fechado pela Autoridade Tribut\u00e1ria, pelo que conv\u00e9m confirmar cada caso.<script type=\"application\/ld+json\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@type\":\"FAQPage\",\"mainEntity\":[{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"O que \u00e9 o rendimento real (real yield) na DeFi?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"O rendimento real \u00e9 o rendimento pago a partir da receita efetiva de um protocolo (juros de empr\u00e9stimos, comiss\u00f5es de troca, funding, cup\u00f5es de obriga\u00e7\u00f5es tokenizadas), e n\u00e3o da emiss\u00e3o inflacion\u00e1ria do pr\u00f3prio token. O teste pr\u00e1tico \u00e9 simples: se o token do protocolo fosse a zero amanh\u00e3, o rendimento continuaria a existir? 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