{"id":648,"date":"2026-10-01T16:45:08","date_gmt":"2026-10-01T16:45:08","guid":{"rendered":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/cofres-mira-mica-regulacao-credito-defi-2026\/"},"modified":"2026-10-01T16:45:08","modified_gmt":"2026-10-01T16:45:08","slug":"cofres-mira-mica-regulacao-credito-defi-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/cofres-mira-mica-regulacao-credito-defi-2026\/","title":{"rendered":"Cofres na mira: a MiCA aproxima-se do cr\u00e9dito DeFi"},"content":{"rendered":"<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante tr\u00eas anos, o cr\u00e9dito on-chain cresceu num ponto cego do direito europeu. A MiCA, o regulamento que desde 2023 organiza o mercado de criptoativos na Uni\u00e3o Europeia, deixou de fora, de prop\u00f3sito, a atividade de pedir e conceder empr\u00e9stimos. Na \u00faltima semana de setembro de 2026, esse ponto cego deixou de ser confort\u00e1vel.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A 24 de setembro, a Autoridade Banc\u00e1ria Europeia (EBA) recomendou formalmente trazer o cr\u00e9dito cripto e o acesso \u00e0 DeFi para dentro da MiCA. A 30 de setembro, a Autoridade Europeia dos Valores Mobili\u00e1rios e dos Mercados (ESMA) prop\u00f4s criar um servi\u00e7o regulado novo para quem d\u00e1 aos utilizadores acesso a protocolos descentralizados, no mesmo dia em que fechava a consulta p\u00fablica da Comiss\u00e3o Europeia sobre a revis\u00e3o do regulamento. E, entre as duas datas, os dois maiores protocolos de cr\u00e9dito DeFi, a Aave e a Morpho, entraram em rota de colis\u00e3o sobre uma palavra que o direito europeu nem sequer reconhece: cofre.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Esta \u00e9 a hist\u00f3ria de como a Europa decidiu, finalmente, olhar para dentro dos cofres da DeFi, e de porque \u00e9 que isso \u00e9 bem mais complicado do que parece.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A semana em que Bruxelas bateu \u00e0 porta da DeFi<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A sequ\u00eancia de acontecimentos concentrou-se em poucos dias. A Comiss\u00e3o Europeia tinha aberto, a 20 de maio de 2026, uma consulta dirigida sobre a revis\u00e3o da MiCA; o prazo de resposta, inicialmente marcado para 31 de agosto, foi prolongado at\u00e9 30 de setembro. \u00c9 esse o pano de fundo: n\u00e3o uma lei nova, mas o fim da fase de escuta e o in\u00edcio do trabalho que o setor j\u00e1 apelida de MiCA 2.0.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro dessa janela, as autoridades europeias alinharam as suas posi\u00e7\u00f5es. A EBA entregou a sua resposta a 24 de setembro, pedindo que o cr\u00e9dito e o empr\u00e9stimo de criptoativos passem a ter regras. A ESMA respondeu a 30 de setembro, com um pacote que vai dos influenciadores aos protocolos descentralizados. O facto de os tr\u00eas pilares da supervis\u00e3o europeia (autoridade banc\u00e1ria, autoridade dos mercados e banco central) terem submetido contributos convergentes na mesma janela sugere que a dire\u00e7\u00e3o da reforma j\u00e1 est\u00e1, no essencial, acordada.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Os pre\u00e7os contaram uma hist\u00f3ria de duas velocidades. A 1 de outubro de 2026, o token da Aave negociava a cerca de <a href='https:\/\/www.coingecko.com\/en\/coins\/aave\/eur'>148,62 euros, uma subida de 18,6% em sete dias<\/a>, com uma capitaliza\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima dos 2,29 mil milh\u00f5es de euros (o 42.\u00ba maior ativo). No mesmo dia, o <a href='https:\/\/www.coingecko.com\/en\/coins\/morpho\/eur'>MORPHO ca\u00eda 12,3% na semana<\/a>, para cerca de 2,21 euros e uma capitaliza\u00e7\u00e3o de 1,54 mil milh\u00f5es de euros (o 60.\u00ba lugar). O contraste n\u00e3o \u00e9 inocente: num momento em que Bruxelas discute quem responde pelo risco de cada modelo, o mercado parece preferir o protocolo com uma governa\u00e7\u00e3o mais vis\u00edvel e um token que recompra receitas \u00e0quele cujo valor assenta, sobretudo, na promessa de crescimento.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O buraco deixado de prop\u00f3sito: o Considerando 94<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a MiCA foi adotada, em maio de 2023, os legisladores sabiam exatamente o que estavam a deixar de fora. O Considerando 94 do regulamento afirma, em termos pr\u00e1ticos, que a concess\u00e3o e a tomada de empr\u00e9stimos de criptoativos n\u00e3o s\u00e3o abrangidas. N\u00e3o foi um esquecimento: foi uma op\u00e7\u00e3o deliberada, tomada num momento em que o cr\u00e9dito DeFi ainda era pequeno e em que ningu\u00e9m queria atrasar o resto do regulamento para resolver um problema complexo.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Tr\u00eas anos depois, o problema deixou de ser pequeno. A pr\u00f3pria MiCA previu o seu reexame: os artigos 140.\u00ba e 142.\u00ba obrigam a Comiss\u00e3o Europeia a apresentar relat\u00f3rios sobre a aplica\u00e7\u00e3o do regulamento e sobre a evolu\u00e7\u00e3o do mercado, relat\u00f3rios que, se justificado, podem vir acompanhados de uma proposta legislativa para alterar e completar as regras. A <a href='https:\/\/finance.ec.europa.eu\/regulation-and-supervision\/consultations-0\/targeted-consultation-review-mica-regulation_en'>consulta dirigida da Comiss\u00e3o<\/a>, conduzida pela Dire\u00e7\u00e3o-Geral da Estabilidade Financeira (DG FISMA), nasceu precisamente desses artigos e agrupou o staking, a concess\u00e3o e a tomada de empr\u00e9stimos como atividades atualmente n\u00e3o tratadas na MiCA.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Importa sublinhar o calend\u00e1rio, porque dele depende a enxurrada de manchetes alarmistas. O fecho da consulta a 30 de setembro n\u00e3o muda nada no imediato. \u00c9 o ponto de partida para um relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o e, eventualmente, uma proposta legislativa que dificilmente chegar\u00e1 antes de 2027, e que depois ter\u00e1 de passar pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho. Entre a recomenda\u00e7\u00e3o de um supervisor e uma regra aplic\u00e1vel a um portugu\u00eas que usa a Aave h\u00e1 um caminho longo. Mas a dire\u00e7\u00e3o ficou tra\u00e7ada.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O que a EBA quer mudar<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta da EBA \u00e9 a mais concreta. Segundo o <a href='https:\/\/cointelegraph.com\/news\/eu-eba-crypto-lending-defi-mica-rules'>relato da Cointelegraph<\/a>, a autoridade banc\u00e1ria argumenta que a lacuna se tornou insustent\u00e1vel: a atividade de concess\u00e3o e tomada de empr\u00e9stimos de criptoativos est\u00e1 documentada em pelo menos 16 Estados-Membros, e ferramentas de intermedia\u00e7\u00e3o apoiadas em intelig\u00eancia artificial est\u00e3o a esbater a fronteira entre os prestadores de servi\u00e7os (CASP) j\u00e1 regulados e as pools de DeFi sem supervis\u00e3o. Por outras palavras, o utilizador comum j\u00e1 nem sabe quando sai do mundo regulado e entra no outro.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">As medidas propostas pela EBA andam todas em torno da prote\u00e7\u00e3o do investidor de retalho. A autoridade sugere testes de adequa\u00e7\u00e3o antes de dar a um utilizador acesso a cr\u00e9dito alavancado, limites de alavancagem, divulga\u00e7\u00f5es pr\u00e9-contratuais mais exigentes e avisos expl\u00edcitos de que os protocolos verdadeiramente descentralizados n\u00e3o est\u00e3o regulados. Prop\u00f5e ainda <a href='https:\/\/gokhshtein.com\/news\/2026-09-26-eba-pushes-mica-expansion-to-regulate-defi-lending-access'>proibir os CASP de intermediar ou facilitar<\/a> cr\u00e9dito que envolva tokens que cumprem a defini\u00e7\u00e3o de stablecoin da MiCA mas que n\u00e3o t\u00eam a devida autoriza\u00e7\u00e3o.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia mais original, e a que mais desconforto causou ao setor, \u00e9 um regime de certifica\u00e7\u00e3o para os protocolos de cr\u00e9dito DeFi, que avaliaria a sua resili\u00eancia a ciberataques e a que as empresas licenciadas na UE se poderiam ligar. Seria o primeiro contacto regulat\u00f3rio direto entre o direito europeu e a infraestrutura de um protocolo descentralizado: n\u00e3o um registo do protocolo em si, que ningu\u00e9m controla, mas um selo que diria \u00e0s entidades reguladas a que cofres podem encostar o dinheiro dos clientes.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A escala ajuda a perceber o nervosismo de Bruxelas. Segundo a <a href='https:\/\/ambcrypto.com\/eu-targets-54b-defi-sector-as-aave-slams-morphos-vault-proposal-as-self-serving\/'>AMBCrypto<\/a>, o mercado de cr\u00e9dito DeFi vale hoje cerca de 54 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, dos quais perto de 10 mil milh\u00f5es est\u00e3o alojados em mais de quatro mil cofres curados. Deixar esse volume inteiramente fora do per\u00edmetro, quando bancos e gestoras europeias come\u00e7am a ligar-se a ele, tornou-se pol\u00edtica e prudencialmente dif\u00edcil de justificar.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Eixo<\/th><th>EBA (24 set)<\/th><th>ESMA (30 set)<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Alvo principal<\/td><td>Trazer cr\u00e9dito e empr\u00e9stimo para a MiCA<\/td><td>Criar um servi\u00e7o regulado de acesso a protocolos DeFi<\/td><\/tr><tr><td>Retalho<\/td><td>Testes de adequa\u00e7\u00e3o, limites de alavancagem, divulga\u00e7\u00f5es<\/td><td>Avisos refor\u00e7ados e regras duras para marketing e influenciadores<\/td><\/tr><tr><td>Stablecoins<\/td><td>Proibir CASP de intermediar cr\u00e9dito com stablecoins n\u00e3o autorizadas<\/td><td>Fechar lacunas em torno de stablecoins e staking<\/td><\/tr><tr><td>Infraestrutura<\/td><td>Certifica\u00e7\u00e3o de protocolos (resili\u00eancia a ciberataques)<\/td><td>Detetar, bloquear e desativar sites fraudulentos; congelar ativos<\/td><\/tr><tr><td>Natureza do ato<\/td><td>Recomenda\u00e7\u00e3o \u00e0 Comiss\u00e3o<\/td><td>Resposta \u00e0 consulta da Comiss\u00e3o<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>A ESMA e o novo servi\u00e7o de acesso \u00e0 DeFi<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Se a EBA olha para o cr\u00e9dito pela lente prudencial, a ESMA olha pela lente dos mercados e do investidor. A sua <a href='https:\/\/www.esma.europa.eu\/press-news\/esma-news\/esma-calls-changes-make-mica-clearer-safer-and-ready-emerging-services'>resposta oficial \u00e0 consulta<\/a>, publicada a 30 de setembro, prop\u00f5e criar um servi\u00e7o de criptoativos regulado inteiramente novo: o do prestador que d\u00e1 a clientes acesso a protocolos ou servi\u00e7os descentralizados, seja fornecendo a interface t\u00e9cnica que permite interagir com a DeFi, encaminhando transa\u00e7\u00f5es ou atuando, de alguma forma, como intermedi\u00e1rio entre o cliente e o smart contract.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma mudan\u00e7a de \u00e2ngulo subtil mas decisiva. Em vez de tentar regular o protocolo (imposs\u00edvel, porque n\u00e3o h\u00e1 uma entidade a quem dar ordens), a ESMA regula a porta de entrada. Quem construir e explorar essa porta passa a ser um servi\u00e7o sujeito a licen\u00e7a, deveres de informa\u00e7\u00e3o e supervis\u00e3o. A autoridade quer tamb\u00e9m regras mais claras para decidir quando uma atividade \u00e9 verdadeiramente descentralizada, por oposi\u00e7\u00e3o a um neg\u00f3cio centralizado disfar\u00e7ado de DeFi.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O pacote da ESMA n\u00e3o se fica pela DeFi. Inclui regras mais duras para o marketing de criptoativos, sobretudo quando influenciadores e outros terceiros promovem os ativos, e, segundo a <a href='https:\/\/www.cryptotimes.io\/2026\/09\/30\/esma-proposes-tougher-mica-rules-for-crypto-marketing-and-defi\/'>CryptoTimes<\/a>, refor\u00e7a a capacidade da UE para detetar, bloquear e desativar sites fraudulentos e congelar criptoativos em casos de suspeita de abuso de mercado ou de financiamento do terrorismo. Nada disto se aplica sozinho: qualquer alargamento exige ainda decis\u00e3o pol\u00edtica e, provavelmente, altera\u00e7\u00e3o legislativa. A ESMA recomenda; a Comiss\u00e3o, o Parlamento e o Conselho decidem.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Porque \u00e9 que cofre n\u00e3o existe no direito europeu<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui come\u00e7a a verdadeira dificuldade. Um cofre (vault, no jarg\u00e3o ingl\u00eas) \u00e9, em DeFi, um contrato inteligente que recebe dep\u00f3sitos e os encaminha, segundo regras, para mercados de cr\u00e9dito. Mas o direito europeu n\u00e3o conhece a figura. Como explicou o advogado de ativos digitais Yuriy Brisov, da Digital &amp; Analogue Partners, \u00e0 <a href='https:\/\/cointelegraph.com\/magazine\/mica-is-coming-for-defi-vaults-but-regulation-will-be-difficult'>Cointelegraph<\/a>: \u00abO direito europeu n\u00e3o tem nenhuma categoria chamada &#8216;cofre&#8217;. Por isso, um advogado define-o como um regulador o qualificaria: pela fun\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pelo r\u00f3tulo.\u00bb<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A consequ\u00eancia \u00e9 que um cofre pode cair em caixas jur\u00eddicas muito diferentes consoante o que faz na pr\u00e1tica. Se h\u00e1 um gestor que decide a estrat\u00e9gia e recebe uma comiss\u00e3o, aproxima-se de um fundo ou de uma gest\u00e3o de carteiras, com as regras pesadas que isso implica. Se n\u00e3o h\u00e1 gestor, se o utilizador pode sair antes de qualquer altera\u00e7\u00e3o de par\u00e2metros e se os direitos dos depositantes est\u00e3o inscritos no c\u00f3digo, Brisov defende que a estrutura deveria ficar fora do per\u00edmetro regulat\u00f3rio. O problema \u00e9 que a maioria dos cofres reais vive algures no meio deste espectro.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Durante tr\u00eas anos, os cofres sobreviveram gra\u00e7as a interpreta\u00e7\u00f5es n\u00e3o vinculativas que os colocavam fora da MiCA e fora das regras europeias de fundos. Essa zona cinzenta foi confort\u00e1vel enquanto ningu\u00e9m olhou. Agora que Bruxelas olha, a pergunta deixa de ser te\u00f3rica: \u00e9 pela fun\u00e7\u00e3o de cada cofre que se decidir\u00e1 se ele precisa, ou n\u00e3o, de licen\u00e7a.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A guerra dos cofres: Aave contra Morpho<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Foi exatamente sobre onde tra\u00e7ar essa linha que os dois gigantes do cr\u00e9dito DeFi se desentenderam em p\u00fablico. O fundador da Morpho, Paul Frambot, prop\u00f4s um sistema de classifica\u00e7\u00e3o com duas categorias: cofres sem cust\u00f3dia, que limitariam o papel do curador e dariam flexibilidade ao utilizador (incluindo a capacidade de sair ou um bloqueio temporal), e cofres discricion\u00e1rios, geridos por gestores de ativos e que, por isso, acionariam a l\u00f3gica das leis de valores mobili\u00e1rios, do tipo da que a SEC aplica nos Estados Unidos.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A rea\u00e7\u00e3o do fundador da Aave, Stani Kulechov, foi imediata e pouco diplom\u00e1tica. A 25 de setembro, citado pela <a href='https:\/\/ambcrypto.com\/eu-targets-54b-defi-sector-as-aave-slams-morphos-vault-proposal-as-self-serving\/'>AMBCrypto<\/a>, Kulechov afirmou: \u00abEsta categoriza\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz sentido e \u00e9, no essencial, feita em proveito pr\u00f3prio.\u00bb E acrescentou, segundo o <a href='https:\/\/cryptonews.net\/news\/defi\/33497465\/'>CryptoNews<\/a>, que \u00abos cofres que poderiam razoavelmente ser considerados sem cust\u00f3dia s\u00e3o aqueles que n\u00e3o t\u00eam um gestor\u00bb. A acusa\u00e7\u00e3o de que a proposta \u00e9 interesseira (self-serving, no original) tem um fundo de arquitetura: cada empresa sugere a fronteira no s\u00edtio que mais lhe conv\u00e9m.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A Aave funciona, no essencial, como uma pool partilhada, com par\u00e2metros definidos por vota\u00e7\u00e3o da sua organiza\u00e7\u00e3o aut\u00f3noma descentralizada (DAO) e sem curadores externos a parametrizar mercados. A Morpho construiu precisamente o oposto: uma base m\u00ednima sobre a qual curadores independentes montam cofres \u00e0 medida. Uma classifica\u00e7\u00e3o que trate os curadores como gestores discricion\u00e1rios apanharia em cheio o modelo da Morpho e deixaria a Aave relativamente intocada; uma que valorize a aus\u00eancia de cust\u00f3dia favoreceria a Morpho. Da\u00ed o calor da troca.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a de avalia\u00e7\u00e3o entre os dois tokens n\u00e3o \u00e9 alheia a este debate. A Aave usa parte das receitas do protocolo para recomprar o seu token, ao passo que o MORPHO continua, por agora, um ativo sobretudo de governa\u00e7\u00e3o; uma distin\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vimos pesar noutros protocolos que apostaram em <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/jupiter-jup-recompra-litterbox-rendimento-real-2026\/'>programas de recompra para ligar o pre\u00e7o do token \u00e0 receita<\/a>. Quando o risco regulat\u00f3rio sobe, o mercado tende a premiar o modelo cujo valor \u00e9 mais f\u00e1cil de explicar a um regulador.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O que \u00e9, afinal, um cofre curado<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Para perceber o que est\u00e1 em jogo, conv\u00e9m saber como funciona um cofre moderno. No modelo da Morpho, o chamado Vaults V2 \u00e9 descrito na documenta\u00e7\u00e3o oficial como uma estrutura de cofres sem permiss\u00e3o para estrat\u00e9gias de cr\u00e9dito curadas, com um sistema de adaptadores, um sistema de limites e acumula\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica de juros a partir de relat\u00f3rios de ativos em tempo real. Os pap\u00e9is est\u00e3o divididos entre quatro fun\u00e7\u00f5es: o Owner (dono), o Curator (curador), o Allocator (alocador) e o Sentinel (sentinela). Como nota a <a href='https:\/\/www.cryptonexa.com\/mica-defi-lending-vaults-face-brussels-regulatory-test'>CryptoNexa<\/a>, o Owner tem as permiss\u00f5es de topo, mas nenhum controlo direto sobre os ativos; quem define para onde vai o risco \u00e9 o curador.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 essa figura, o curador, que coloca os reguladores em sentido. Um curador escolhe que colaterais aceitar, que taxas de juro cobrar e que limites impor, e cobra por isso uma comiss\u00e3o. Para um depositante, isto \u00e9 indistingu\u00edvel de confiar dinheiro a um gestor de fundos; a diferen\u00e7a \u00e9 que o curador nunca toca no dinheiro, que permanece no contrato. A Aave evita esta ambiguidade ao concentrar as decis\u00f5es na sua DAO, mas paga o pre\u00e7o de uma governa\u00e7\u00e3o mais lenta e de um s\u00f3 conjunto de par\u00e2metros para todos.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Modelo<\/th><th>Como funciona<\/th><th>Quem decide o risco<\/th><th>Como o regulador o pode ver<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Pool partilhada (Aave)<\/td><td>Mercado \u00fanico com par\u00e2metros definidos pela DAO<\/td><td>Governa\u00e7\u00e3o e gestores de risco, por vota\u00e7\u00e3o<\/td><td>Mais f\u00e1cil de associar a um servi\u00e7o identific\u00e1vel<\/td><\/tr><tr><td>Cofre curado (Morpho Vaults V2)<\/td><td>Dep\u00f3sitos encaminhados para mercados isolados; pap\u00e9is Owner, Curator, Allocator, Sentinel<\/td><td>O curador parametriza, sem deter os fundos<\/td><td>Amb\u00edguo: parece gest\u00e3o de ativos, mas sem cust\u00f3dia<\/td><\/tr><tr><td>Cofre discricion\u00e1rio<\/td><td>Um gestor de ativos define e muda a estrat\u00e9gia<\/td><td>O gestor, de forma discricion\u00e1ria<\/td><td>Potencialmente valores mobili\u00e1rios<\/td><\/tr><tr><td>Cr\u00e9dito sem cust\u00f3dia puro<\/td><td>Contrato imut\u00e1vel, sem gestor, sa\u00edda garantida antes de altera\u00e7\u00f5es<\/td><td>O c\u00f3digo e o pr\u00f3prio utilizador<\/td><td>Argumento para ficar fora do per\u00edmetro<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>O teste da descentraliza\u00e7\u00e3o e o paradoxo que cria<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A proposta da ESMA assenta, no fundo, num teste: a atividade \u00e9 mesmo descentralizada ou h\u00e1 algu\u00e9m a comand\u00e1-la? A intui\u00e7\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel, mas aplic\u00e1-la \u00e9 um campo minado. Jonathan Galea, s\u00f3cio da Cahill Gordon &amp; Reindel, resumiu o perigo \u00e0 Cointelegraph: \u00aba descentraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um espetro e uma fun\u00e7\u00e3o do tempo: um teste assente nela penalizaria os protocolos mais recentes e mais inovadores, entrincheirando os incumbentes maduros que tiveram anos para distribuir o controlo.\u00bb<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O paradoxo \u00e9 cruel. Um protocolo jovem, lan\u00e7ado h\u00e1 meses e ainda controlado por uma equipa pequena, falharia o teste e seria regulado; um protocolo antigo, cuja equipa j\u00e1 dispersou as chaves por anos de distribui\u00e7\u00e3o, passaria. A regula\u00e7\u00e3o premiaria a idade, n\u00e3o a seguran\u00e7a. Galea avisa tamb\u00e9m contra o r\u00f3tulo \u00fanico: \u00abtrazer o &#8216;cr\u00e9dito DeFi&#8217; para o per\u00edmetro como uma etiqueta s\u00f3 faz com que estruturas que mereciam respostas opostas corram o risco de ser apanhadas juntas.\u00bb Ainda assim, n\u00e3o desvaloriza a utilidade da figura: \u00abos cofres de cr\u00e9dito resolvem mais problemas pr\u00e1ticos do que aqueles que criam.\u00bb<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Michael Egorov, fundador da Curve Finance, vai por outra via. Defende que, se o cr\u00e9dito DeFi vier a ser regulado, \u00abdeve ser tratado de forma completamente diferente\u00bb do cr\u00e9dito tradicional, porque a estrutura de mercado on-chain dispensa algumas salvaguardas e exige outras, feitas \u00e0 sua medida. E sugere um pormenor t\u00e9cnico com grandes consequ\u00eancias: em vez de alargar a defini\u00e7\u00e3o de prestador de servi\u00e7os de criptoativos, Bruxelas deveria acrescentar explicitamente a concess\u00e3o e a tomada de empr\u00e9stimos \u00e0 lista de servi\u00e7os regulados. A diferen\u00e7a entre as duas vias decidir\u00e1 quantos atores s\u00e3o, de repente, apanhados pela rede.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Porque \u00e9 que os reguladores se preocupam: o historial de 2026<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Nada disto acontece no v\u00e1cuo. A ESMA \u00e9 expl\u00edcita sobre os riscos que a motivam: alavancagem excessiva, cont\u00e1gio, ataques inform\u00e1ticos e fraude. E 2026 forneceu exemplos para todos. O mais grave foi o colapso da Kelp DAO em abril: um atacante cunhou rsETH sem lastro atrav\u00e9s de uma falha de configura\u00e7\u00e3o numa ponte e, segundo a <a href='https:\/\/www.coindesk.com\/tech\/2026\/04\/20\/aave-could-face-up-to-usd230-million-in-losses-after-kelp-dao-bridge-exploit-triggers-defi-chaos'>CoinDesk<\/a>, o buraco de cerca de 292 milh\u00f5es de d\u00f3lares transformou-se em mais de 200 milh\u00f5es de d\u00edvida malparada na Aave, o maior protocolo de cr\u00e9dito do setor. O ponto inc\u00f3modo: a Aave tinha listado aquele colateral como leg\u00edtimo. N\u00e3o foi um protocolo obscuro que falhou, foi o mais conservador.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Antes disso, houve os colapsos da Stream Finance e da Resolv, que expuseram a fragilidade do modelo de curadores. O da Stream, em novembro de 2025, come\u00e7ou com uma perda de 93 milh\u00f5es de d\u00f3lares num gestor externo e <a href='https:\/\/blockeden.xyz\/blog\/2025\/11\/08\/m-defi-contagion\/'>irradiou cerca de 285 milh\u00f5es de d\u00f3lares de cont\u00e1gio<\/a> por protocolos interligados, porque o seu xUSD tinha sido reutilizado como colateral alavancado em v\u00e1rios mercados. O da Resolv, em mar\u00e7o de 2026, foi um <a href='https:\/\/thedefiant.io\/news\/hacks\/defi-has-seen-resolv-s-usd25m-usr-exploit-many-times-before'>epis\u00f3dio de cerca de 25 milh\u00f5es de d\u00f3lares<\/a> em que uma chave de nuvem comprometida bastou para cunhar stablecoins do nada. E em agosto de 2026 bastou um trader gastar cerca de 320 mil d\u00f3lares a manipular um or\u00e1culo para desencadear <a href='https:\/\/www.cryptotimes.io\/2026\/08\/25\/morphos-15-minute-twap-oracle-exploited-in-36-4m-liquidation-attack\/'>36,14 milh\u00f5es de d\u00f3lares em liquida\u00e7\u00f5es num mercado da Morpho<\/a>, sem sequer existir uma falha de c\u00f3digo. A isto somou-se, ao longo do ano, uma <a href='https:\/\/www.kucoin.com\/blog\/defi-lending-price-manipulation-exploits-2026'>vaga de ataques com flash loans<\/a> que manipulam o pre\u00e7o de um ativo num \u00fanico bloco para enganar um protocolo de cr\u00e9dito. \u00c9 este padr\u00e3o repetido, mais do que qualquer caso isolado, que levou os supervisores europeus a concluir que a autorregula\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega. Quem j\u00e1 estudou como uma <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/posicionamento-derivados-multidao-alvo-liquidez-2026\/'>cascata de liquida\u00e7\u00f5es transforma uma multid\u00e3o alavancada em alvo<\/a> reconhece o enredo.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Epis\u00f3dio<\/th><th>Data<\/th><th>Perda estimada<\/th><th>O que falhou<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Kelp DAO (rsETH)<\/td><td>abril 2026<\/td><td>~292 M USD (mais de 200 M em d\u00edvida malparada na Aave)<\/td><td>Falha de configura\u00e7\u00e3o numa ponte; colateral listado como leg\u00edtimo<\/td><\/tr><tr><td>Stream Finance (xUSD)<\/td><td>novembro 2025<\/td><td>~285 M USD de cont\u00e1gio<\/td><td>Posi\u00e7\u00f5es opacas montadas fora da cadeia<\/td><\/tr><tr><td>Resolv (USR)<\/td><td>mar\u00e7o 2026<\/td><td>~25 M USD<\/td><td>Chave de nuvem comprometida; or\u00e1culo fixo<\/td><\/tr><tr><td>Morpho (PT-reUSD)<\/td><td>agosto 2026<\/td><td>~36 M USD em liquida\u00e7\u00f5es<\/td><td>Or\u00e1culo TWAP de 15 minutos manipulado<\/td><\/tr><tr><td>Vaga de flash loans<\/td><td>ao longo de 2026<\/td><td>centenas de M USD<\/td><td>Manipula\u00e7\u00e3o de pre\u00e7o num s\u00f3 bloco<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>A stablecoin no centro da disputa<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 um detalhe na proposta da EBA que pode ter mais impacto pr\u00e1tico do que todo o debate sobre curadores: a ideia de proibir os prestadores regulados de intermediar cr\u00e9dito que envolva stablecoins que cumprem a defini\u00e7\u00e3o da MiCA mas n\u00e3o t\u00eam autoriza\u00e7\u00e3o. Para entender o alcance, h\u00e1 que lembrar que a MiCA divide as stablecoins em duas fam\u00edlias, os tokens de moeda eletr\u00f3nica (EMT), ligados a uma \u00fanica moeda, e os tokens referenciados a ativos (ART), e exige que os seus emitentes sejam autorizados na UE.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que quase todo o cr\u00e9dito DeFi corre sobre stablecoins. Na Morpho, por exemplo, a esmagadora maioria dos empr\u00e9stimos ativos \u00e9 denominada em stablecoins, com o <a href='https:\/\/crypto-economy.com\/morpho-hits-5b-loan-milestone-as-defi-lending-rival-closes-in-on-aave\/'>USDC a representar a maior fatia<\/a>. Ora, se o USDC e o EURC da Circle j\u00e1 se movem dentro do per\u00edmetro europeu, o mesmo n\u00e3o se pode dizer das stablecoins descentralizadas (como o DAI e o seu sucessor USDS, o crvUSD ou o GHO), cunhadas contra colateral e sem um emitente autorizado \u00e0 maneira da MiCA. \u00c9 um mundo que j\u00e1 explor\u00e1mos a prop\u00f3sito de quem decide cunhar o pr\u00f3prio d\u00f3lar.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Se a regra avan\u00e7ar na forma mais dura, um banco ou uma corretora europeia poderia ficar impedido de encaminhar clientes para cofres que emprestam nessas stablecoins, estrangulando uma parte substancial da atividade. \u00c9 o tipo de medida que, no papel, protege o retalho, mas que, na pr\u00e1tica, pode empurrar o cr\u00e9dito para fora da Europa ou para a franja totalmente sem permiss\u00e3o, onde nenhum intermedi\u00e1rio responde. O equil\u00edbrio entre proteger e expulsar vai ser o n\u00f3 g\u00f3rdio da MiCA 2.0.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Portugal: CMVM, Banco de Portugal e o que muda c\u00e1<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Para o investidor portugu\u00eas, a tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 direta. A MiCA aplica-se c\u00e1 por via europeia, e a lei nacional que a executa \u00e9 a <a href='https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/lei\/69-2025-992098939'>Lei n.\u00ba 69\/2025, de 22 de dezembro<\/a>, em vigor desde o final desse m\u00eas. O per\u00edodo transit\u00f3rio que permitia aos antigos prestadores de servi\u00e7os com ativos virtuais continuar a operar terminou a 1 de julho de 2026: quem n\u00e3o estiver autorizado tem de parar.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A supervis\u00e3o \u00e9 partilhada. Segundo o <a href='https:\/\/dinheirovivo.dn.pt\/economia\/novas-regras-para-criptoativos-em-vigor-a-1-de-julho-banco-de-portugal-e-cmvm-partilham-superviso'>Dinheiro Vivo<\/a>, o Banco de Portugal e a Comiss\u00e3o do Mercado de Valores Mobili\u00e1rios (CMVM) dividem os poderes, com coimas que podem chegar aos cinco milh\u00f5es de euros. \u00c0 CMVM cabe a supervis\u00e3o comportamental do mercado: preven\u00e7\u00e3o de abusos, tratamento de reclama\u00e7\u00f5es e conflitos entre entidades e consumidores. A pr\u00f3pria CMVM, embora reconhe\u00e7a mais estabilidade com a MiCA, mant\u00e9m o aviso de que os criptoativos continuam a ser ativos de alto risco e lembra que n\u00e3o est\u00e3o cobertos pelo Sistema de Indemniza\u00e7\u00e3o aos Investidores.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Isto tem duas leituras. A primeira: se e quando as regras de cr\u00e9dito entrarem na MiCA, ser\u00e1 a CMVM e o Banco de Portugal a fiscalizar os prestadores que, c\u00e1, oferecerem acesso a cr\u00e9dito DeFi, tal como o novo servi\u00e7o de acesso proposto pela ESMA prev\u00ea. A segunda: o protocolo em si, o contrato que vive na Ethereum, permanece fora de alcance, e um portugu\u00eas que use a Aave diretamente, a partir da sua pr\u00f3pria carteira, continua tecnicamente sozinho. Acresce a camada fiscal, com a diretiva DAC8 j\u00e1 a obrigar \u00e0 troca de informa\u00e7\u00e3o sobre criptoativos, um terreno que percorremos ao falar de <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/tesourarias-cripto-contabilidade-prejuizo-papel-imposto-2026\/'>tesourarias cripto e do imposto sobre o lucro em papel<\/a>.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O que muda para quem usa, e o que n\u00e3o muda<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Conv\u00e9m repetir, porque as manchetes v\u00e3o sugerir o contr\u00e1rio: a 1 de outubro de 2026, nada mudou para quem usa cr\u00e9dito DeFi. O que aconteceu foi o fecho de uma consulta e a entrega de recomenda\u00e7\u00f5es. O relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o e qualquer proposta legislativa s\u00f3 dever\u00e3o surgir em 2027, e ainda ter\u00e3o de ser negociados. Entre hoje e uma regra vinculativa h\u00e1, no m\u00ednimo, ano e meio.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Quando essa regra chegar, o desenho mais prov\u00e1vel \u00e9 uma bifurca\u00e7\u00e3o. De um lado, um canal institucional e de retalho regulado, com testes de adequa\u00e7\u00e3o, limites de alavancagem e intermedi\u00e1rios licenciados a responder pelo que oferecem; do outro, a DeFi pura, acess\u00edvel a quem assume o risco por sua conta, acompanhada de avisos de que ningu\u00e9m a supervisiona. A responsabilidade tende a assentar na porta de entrada (o prestador de acesso), n\u00e3o no protocolo. Para o utilizador m\u00e9dio, isto pode significar mais fric\u00e7\u00e3o e mais formul\u00e1rios; para o utilizador avan\u00e7ado, pouca diferen\u00e7a, porque continuar\u00e1 a poder ligar-se diretamente.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda a quest\u00e3o do porqu\u00ea. Os utilizadores n\u00e3o v\u00e3o \u00e0 DeFi por capricho: v\u00e3o atr\u00e1s de um rendimento que a banca tradicional n\u00e3o d\u00e1. Com a <a href='https:\/\/www.ecb.europa.eu\/stats\/policy_and_exchange_rates\/key_ecb_interest_rates\/html\/index.en.html'>facilidade de dep\u00f3sito do BCE em 2,50%<\/a> desde 16 de setembro, o custo de oportunidade de deixar o dinheiro parado subiu, mas tamb\u00e9m subiram as taxas on-chain. \u00c9 a mesma procura de <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/gmx-rendimento-real-origem-perdeu-trono-2026\/'>rendimento real, sustentado por receita e n\u00e3o por emiss\u00e3o de tokens<\/a>, que move boa parte deste mercado. Regular sem matar essa procura \u00e9 o verdadeiro desafio da Comiss\u00e3o.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O per\u00edmetro e o protocolo: o que a Europa ainda n\u00e3o decidiu<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">No fundo, toda esta discuss\u00e3o gira \u00e0 volta de uma \u00fanica pergunta t\u00e9cnica: \u00e9 poss\u00edvel regular a porta sem regular a casa? A estrat\u00e9gia europeia (apanhar o prestador de acesso, o emitente de stablecoin, o curador que parece gestor) \u00e9 inteligente porque ataca os pontos onde h\u00e1 mesmo uma pessoa ou empresa a quem dar ordens. Mas \u00e9 tamb\u00e9m porosa: um utilizador determinado passa ao lado da porta regulada e interage diretamente com o contrato, e a\u00ed o per\u00edmetro europeu acaba.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O risco que preocupa at\u00e9 alguns defensores da regula\u00e7\u00e3o \u00e9 o de empurrar a atividade para fora de alcance, premiando a opacidade em vez de a reduzir. Se o teste da descentraliza\u00e7\u00e3o entrincheira os incumbentes e o r\u00f3tulo \u00fanico trata de forma igual o que \u00e9 diferente, pode acontecer o contr\u00e1rio do pretendido: menos inova\u00e7\u00e3o dentro do per\u00edmetro e mais risco escondido na franja. A tens\u00e3o entre o per\u00edmetro e o protocolo, entre o que se pode supervisionar e o que apenas se pode avisar, ficar\u00e1 por resolver muito depois de a consulta fechar.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Por agora, o que a \u00faltima semana de setembro deixou claro \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o destino. A Europa decidiu que o cr\u00e9dito on-chain \u00e9 grande e s\u00e9rio demais para continuar num ponto cego. Como o far\u00e1 sem apagar aquilo que torna a DeFi \u00fatil, isso ningu\u00e9m em Bruxelas, por enquanto, sabe responder.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Perguntas frequentes<\/h2><h3 class='wp-block-heading'>A MiCA j\u00e1 regula o cr\u00e9dito e os empr\u00e9stimos DeFi?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o. Quando a MiCA foi adotada em 2023, o Considerando 94 deixou de fora, de prop\u00f3sito, a concess\u00e3o e a tomada de empr\u00e9stimos de criptoativos. Em setembro de 2026, a EBA e a ESMA recomendaram trazer esta atividade para dentro do regulamento, mas trata-se de propostas: nenhuma regra vinculativa est\u00e1 ainda em vigor, e uma eventual proposta legislativa s\u00f3 dever\u00e1 surgir em 2027.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>O que \u00e9 um cofre, ou vault, na DeFi?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Um cofre \u00e9 um contrato inteligente que recebe dep\u00f3sitos e os encaminha, segundo regras, para mercados de cr\u00e9dito on-chain. Nos cofres curados, como os da Morpho, um curador define que colaterais aceitar e que limites impor, cobrando uma comiss\u00e3o, mas nunca det\u00e9m os fundos, que ficam no contrato. O direito europeu n\u00e3o tem uma categoria chamada cofre, pelo que cada um \u00e9 avaliado pela fun\u00e7\u00e3o que desempenha.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>O que prop\u00f4s a EBA para o cr\u00e9dito cripto em 2026?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">A 24 de setembro de 2026, a EBA recomendou testes de adequa\u00e7\u00e3o para o retalho, limites de alavancagem, divulga\u00e7\u00f5es pr\u00e9-contratuais mais exigentes, uma restri\u00e7\u00e3o ao cr\u00e9dito com stablecoins n\u00e3o autorizadas e um regime de certifica\u00e7\u00e3o dos protocolos de cr\u00e9dito DeFi quanto \u00e0 resili\u00eancia a ciberataques. Justificou-o com a presen\u00e7a de atividade de cr\u00e9dito cripto em pelo menos 16 Estados-Membros.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>O cr\u00e9dito DeFi est\u00e1 protegido em Portugal?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o da forma que um dep\u00f3sito banc\u00e1rio est\u00e1. A CMVM e o Banco de Portugal supervisionam os prestadores de servi\u00e7os de criptoativos ao abrigo da Lei n.\u00ba 69\/2025, mas a CMVM avisa que os criptoativos continuam a ser ativos de alto risco e n\u00e3o est\u00e3o cobertos pelo Sistema de Indemniza\u00e7\u00e3o aos Investidores. O protocolo DeFi em si permanece fora do per\u00edmetro regulat\u00f3rio.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>Quando entram em vigor as novas regras da MiCA para a DeFi?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">A consulta da Comiss\u00e3o Europeia fechou a 30 de setembro de 2026. A seguir vem um relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o e, eventualmente, uma proposta legislativa, que dificilmente chegar\u00e1 antes de 2027 e que ter\u00e1 ainda de ser aprovada pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho. Na pr\u00e1tica, n\u00e3o se espera uma regra vinculativa para o cr\u00e9dito DeFi antes de, pelo menos, 2027.<\/p><script type=\"application\/ld+json\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@type\":\"FAQPage\",\"mainEntity\":[{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"A MiCA j\u00e1 regula o cr\u00e9dito e os empr\u00e9stimos DeFi?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"N\u00e3o. Quando a MiCA foi adotada em 2023, o Considerando 94 deixou de fora, de prop\u00f3sito, a concess\u00e3o e a tomada de empr\u00e9stimos de criptoativos. 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