{"id":651,"date":"2026-10-02T04:45:24","date_gmt":"2026-10-02T04:45:24","guid":{"rendered":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/fundador-que-desaparece-golpe-saida-entrevista-2026\/"},"modified":"2026-10-02T04:45:24","modified_gmt":"2026-10-02T04:45:24","slug":"fundador-que-desaparece-golpe-saida-entrevista-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hoge.gg\/pt\/fundador-que-desaparece-golpe-saida-entrevista-2026\/","title":{"rendered":"O fundador que desaparece: golpe de sa\u00edda e entrevista imposs\u00edvel"},"content":{"rendered":"<h2 class='wp-block-heading'>A cadeira que fica vazia<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Em 25 de outubro de 2017, Ruja Ignatova embarcou num voo de S\u00f3fia para Atenas. Era a fundadora do OneCoin, um esquema que j\u00e1 tinha convencido milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo a entregar <a href='https:\/\/www.justice.gov\/usao-sdny\/pr\/co-founder-multibillion-dollar-cryptocurrency-scheme-onecoin-sentenced-20-years-prison'>mais de 4 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares<\/a> por uma \u00abcriptomoeda\u00bb que n\u00e3o existia em blockchain nenhuma. Nunca mais foi vista. N\u00e3o houve entrevista de despedida, n\u00e3o houve comunicado, n\u00e3o houve defesa. Houve uma cadeira vazia e, \u00e0 volta dela, uma ind\u00fastria inteira de procuradores, investigadores e jornalistas a tentar reconstituir aquilo que ela nunca mais diria.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Esta s\u00e9rie sobre a entrevista ao fundador cripto j\u00e1 percorreu quase todas as maneiras de dizer pouco a parecer que se diz muito: o fundador que se cala por ordem do advogado, o que se esconde atr\u00e1s de um pseud\u00f3nimo, o que \u00e9 imitado por um deepfake, o que <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/entrevista-vitoria-fundador-cripto-guerra-ganha-2026\/'>ensaia o triunfo antes de a guerra estar ganha<\/a>. Faltava o caso-limite, aquele em que j\u00e1 n\u00e3o existe sequer quem entrevistar. O fundador que desaparece, por fuga, por morte (real ou alegada) ou por aquilo a que o setor chama \u00abgolpe de sa\u00edda\u00bb (exit scam), \u00e9 o buraco negro do g\u00e9nero: a entrevista n\u00e3o \u00e9 adiada nem encenada, \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">E, no entanto, ele deixa rasto. O fundador pode apagar-se, mas a blockchain n\u00e3o esquece, o tribunal arquiva e o dinheiro deixa marcas. Quando a cadeira fica vazia, a \u00abentrevista\u00bb muda de natureza: passa a ser uma ca\u00e7a ao homem, um processo-crime, uma an\u00e1lise on-chain, um document\u00e1rio. Este texto \u00e9 um guia para ler esse sil\u00eancio definitivo e, sobretudo, para o reconhecer antes de ele acontecer, porque \u00e9 a\u00ed, e s\u00f3 a\u00ed, que o leitor ainda tem alguma coisa a fazer com o que l\u00ea.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Tr\u00eas m\u00e1scaras, e uma quarta<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Conv\u00e9m separar o desaparecimento de outras formas de aus\u00eancia que a s\u00e9rie j\u00e1 tratou, porque confundi-las leva a conclus\u00f5es erradas. O fundador silencioso est\u00e1 presente, apenas blindado por advogados; pode voltar a falar amanh\u00e3. O fundador pseud\u00f3nimo esconde o nome, mas continua ativo, a publicar, a decidir, por vezes at\u00e9 a dar entrevistas sob o seu handle. O fundador sint\u00e9tico \u00e9 um deepfake: a pessoa real existe, foi a imagem que foi fabricada. O fundador que desaparece \u00e9 outra coisa, mais radical, porque a pessoa deixou de estar fisicamente ao alcance de qualquer microfone, de qualquer intima\u00e7\u00e3o, de qualquer pergunta de seguimento.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro deste grupo h\u00e1 varia\u00e7\u00f5es que vale a pena distinguir, porque cada uma deixa um sinal diferente antes de acontecer. H\u00e1 a fuga para uma jurisdi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o extradita; h\u00e1 a morte, real ou alegada, de quem detinha sozinho as chaves; h\u00e1 o golpe de sa\u00edda cl\u00e1ssico, em que o rosto do projeto leva o dinheiro e se evapora; e h\u00e1 o rug pull an\u00f3nimo, em que nunca houve rosto nenhum para come\u00e7ar. A tabela resume as quatro, com a pergunta que o leitor deve fazer em cada caso.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Forma de desaparecer<\/th><th>Exemplo-tipo<\/th><th>Ainda se pode entrevistar?<\/th><th>Sinal pr\u00e9vio para o leitor<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Fuga ou ex\u00edlio<\/td><td>Faruk \u00d6zer (Thodex) para a Alb\u00e2nia<\/td><td>S\u00f3 se for capturado e extraditado<\/td><td>Sede escolhida pela aus\u00eancia de extradi\u00e7\u00e3o<\/td><\/tr><tr><td>Morte, real ou alegada<\/td><td>Gerald Cotten (QuadrigaCX)<\/td><td>N\u00e3o; resta o processo e a exuma\u00e7\u00e3o<\/td><td>Cust\u00f3dia concentrada numa s\u00f3 pessoa<\/td><\/tr><tr><td>Golpe de sa\u00edda cl\u00e1ssico<\/td><td>Ruja Ignatova (OneCoin)<\/td><td>N\u00e3o; vira ca\u00e7a ao fugitivo<\/td><td>Promessas de retorno sem prova verific\u00e1vel<\/td><\/tr><tr><td>Rug pull an\u00f3nimo<\/td><td>Equipas sem rosto em plataformas de memecoins<\/td><td>N\u00e3o; nunca houve rosto<\/td><td>Projeto sem entidade legal identific\u00e1vel<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><h2 class='wp-block-heading'>OneCoin: a rainha que entrou num avi\u00e3o<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">O OneCoin nasceu em 2014, na Bulg\u00e1ria, e foi vendido como o \u00abBitcoin killer\u00bb, a moeda que ia destronar a original. Na pr\u00e1tica, n\u00e3o tinha blockchain p\u00fablica nem oferta verific\u00e1vel: os \u00abtokens\u00bb eram n\u00fameros numa base de dados interna, e o valor subia porque a empresa dizia que subia. O modelo era uma pir\u00e2mide de recrutamento cl\u00e1ssica, embrulhada em semin\u00e1rios de palco e na linguagem da revolu\u00e7\u00e3o financeira. Segundo a acusa\u00e7\u00e3o federal norte-americana, milh\u00f5es de v\u00edtimas investiram <a href='https:\/\/www.cnbc.com\/2023\/09\/12\/cryptoqueen-partner-gets-20-years-prison-in-4-billion-ponzi-fraud.html'>mais de 4 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares<\/a> em todo o mundo.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Ruja Ignatova era o rosto de tudo isto, a oradora carism\u00e1tica que enchia arenas. At\u00e9 que, em outubro de 2017, depois de alegadamente perceber que o seu companheiro norte-americano cooperava com uma investiga\u00e7\u00e3o do FBI, embarcou naquele voo para Atenas e desapareceu. Em 2022, o FBI colocou-a na <a href='https:\/\/www.washingtonpost.com\/nation\/2022\/07\/01\/cryptoqueen-ruja-ignatova-fugitive\/'>lista dos dez fugitivos mais procurados<\/a>, e o Departamento de Estado chegou a oferecer uma recompensa at\u00e9 <a href='https:\/\/therecord.media\/ruja-ignatova-onecoin-cryptoqueen-us-5million-reward'>5 milh\u00f5es de d\u00f3lares<\/a> por informa\u00e7\u00f5es que levassem \u00e0 sua deten\u00e7\u00e3o.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Como ningu\u00e9m a conseguia entrevistar, outros falaram por ela, \u00e0 for\u00e7a. O cofundador Karl Sebastian Greenwood foi <a href='https:\/\/www.justice.gov\/usao-sdny\/pr\/co-founder-multibillion-dollar-cryptocurrency-scheme-onecoin-sentenced-20-years-prison'>condenado a 20 anos de pris\u00e3o<\/a> em setembro de 2023 e obrigado a devolver 300 milh\u00f5es de d\u00f3lares. O procurador federal de Nova Iorque, Damian Williams, resumiu o caso numa frase que vale como entrevista substituta: Greenwood \u00aboperou um dos maiores esquemas de fraude alguma vez perpetrados\u00bb. A aus\u00eancia da protagonista n\u00e3o impediu o processo; apenas transferiu a palavra para quem ficou para tr\u00e1s.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00e3o foi s\u00f3 Greenwood. Konstantin Ignatov, irm\u00e3o de Ruja, foi detido em 2019 e tornou-se testemunha de coopera\u00e7\u00e3o, descrevendo em tribunal a mec\u00e2nica do esquema; e o advogado norte-americano Mark Scott foi <a href='https:\/\/www.justice.gov\/usao-sdny\/pr\/former-law-firm-partner-sentenced-10-years-prison-laundering-400-million-onecoin-fraud'>condenado a dez anos de pris\u00e3o<\/a> por branquear 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares de receitas do OneCoin. \u00c9 o padr\u00e3o que atravessa todos estes casos: quando a protagonista desaparece, o relato p\u00fablico passa a ser constru\u00eddo por quem ficou ao alcance da lei, n\u00e3o por quem fugiu. A entrevista que Ruja nunca deu foi, na pr\u00e1tica, redigida pelos seus c\u00famplices, sob juramento.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O cap\u00edtulo mais inquietante \u00e9 o que se segue. Documentos citados pela BBC e por jornalistas de investiga\u00e7\u00e3o b\u00falgaros sugerem que Ignatova <a href='https:\/\/www.financemagnates.com\/cryptocurrency\/document-says-onecoin-founder-ruja-ignatova-killed-in-2018-in-greece\/'>ter\u00e1 sido assassinada em 2018<\/a>, num iate, e o corpo lan\u00e7ado ao mar. N\u00e3o h\u00e1 prova confirmada, e ela continua oficialmente na lista do FBI. Esta \u00e9 a entrevista imposs\u00edvel no seu estado mais puro: nem sequer se sabe se a pessoa a quem gostar\u00edamos de apontar o microfone ainda est\u00e1 viva. O artefacto medi\u00e1tico mais consumido sobre Ruja n\u00e3o \u00e9 uma conversa com ela, \u00e9 um podcast da BBC, \u00abThe Missing Cryptoqueen\u00bb, que documenta precisamente a sua aus\u00eancia.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>QuadrigaCX: o homem que morreu com as chaves<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Nem todos os desaparecimentos s\u00e3o fugas. Gerald Cotten era o fundador da QuadrigaCX, a maior casa de c\u00e2mbio de criptomoedas do Canad\u00e1. Em dezembro de 2018, em lua de mel na \u00cdndia, <a href='https:\/\/www.cbc.ca\/news\/business\/osc-quadriga-gerald-cotten-1.5607990'>morreu em Jaipur<\/a>, aos 30 anos, de complica\u00e7\u00f5es da doen\u00e7a de Crohn. O problema \u00e9 que Cotten era, alegadamente, a \u00fanica pessoa com acesso \u00e0s chaves privadas dos cold wallets da plataforma. Com a sua morte, dizia-se, o dinheiro dos clientes ficou trancado para sempre num cofre cuja \u00fanica chave tinha ido para a campa.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A realidade era pior. Em junho de 2020, a Ontario Securities Commission concluiu, num <a href='https:\/\/www.osc.gov.on.ca\/quadrigacxreport\/'>relat\u00f3rio detalhado<\/a>, que a QuadrigaCX era uma fraude e que Cotten geria um esquema Ponzi: abria contas com nomes falsos, creditava-se a si pr\u00f3prio saldos fict\u00edcios e negociava-os contra clientes reais; quando o pre\u00e7o se virava contra ele, cobria os levantamentos com os dep\u00f3sitos de outros. A frase do regulador ficou c\u00e9lebre: \u00abo que aconteceu na Quadriga foi uma fraude \u00e0 moda antiga embrulhada em tecnologia moderna\u00bb. Dos cerca de 169 milh\u00f5es de d\u00f3lares canadianos em falta, a maior parte resultou dessa negocia\u00e7\u00e3o fraudulenta, n\u00e3o da morte.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O caso tornou-se t\u00e3o improv\u00e1vel que gerou pedidos de exuma\u00e7\u00e3o do corpo, para confirmar que Cotten estava mesmo morto, e um document\u00e1rio da Netflix, \u00abTrust No One: The Hunt for the Crypto King\u00bb. A li\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 t\u00e9cnica e aplica-se a qualquer plataforma: quando uma s\u00f3 pessoa \u00e9 a chave, o corpo dessa pessoa torna-se, literalmente, a chave privada. Sem cust\u00f3dia distribu\u00edda e sem prova de reservas independente, a sa\u00fade de um homem passa a ser o risco sist\u00e9mico de milhares de clientes.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Thodex: a fuga que acabou numa cela<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A Thodex era uma das maiores casas de c\u00e2mbio da Turquia, com centenas de milhares de utilizadores. Em abril de 2021, deixou subitamente de processar levantamentos e, dias depois, o fundador Faruk Fatih \u00d6zer apanhou um avi\u00e3o para a Alb\u00e2nia. As autoridades turcas calcularam que ter\u00e1 levado consigo <a href='https:\/\/www.seattletimes.com\/business\/turkish-crypto-boss-sentenced-to-over-11000-years-in-prison\/'>at\u00e9 cerca de 2 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares<\/a> em fundos de clientes. Durante meses, a entrevista foi imposs\u00edvel pela via mais banal de todas: o homem estava simplesmente noutro pa\u00eds, fora de alcance.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Desta vez, a fuga n\u00e3o foi o fim da hist\u00f3ria. \u00d6zer foi extraditado em 2023 e um tribunal turco condenou-o, juntamente com dois irm\u00e3os, a <a href='https:\/\/www.seattletimes.com\/business\/turkish-crypto-boss-sentenced-to-over-11000-years-in-prison\/'>11 196 anos de pris\u00e3o<\/a>, uma pena quase simb\u00f3lica na sua dimens\u00e3o. Mesmo capturado, nunca deu a entrevista que as v\u00edtimas queriam: nenhuma explica\u00e7\u00e3o completa, nenhuma devolu\u00e7\u00e3o. E em novembro de 2025 o caso fechou-se da forma mais definitiva poss\u00edvel, quando \u00d6zer foi <a href='https:\/\/www.dlnews.com\/articles\/people-culture\/turkish-thodex-crypto-exchange-founder-faruk-fatih-ozer-dead\/'>encontrado morto na cela<\/a>, numa pris\u00e3o de alta seguran\u00e7a. A fuga que come\u00e7ou com um avi\u00e3o terminou com um processo sem protagonista.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Africrypt e o gui\u00e3o do \u00abfomos pirateados\u00bb<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Se h\u00e1 um gui\u00e3o que costuma anteceder o desaparecimento, \u00e9 este: primeiro o \u00abhack\u00bb, depois o pedido para n\u00e3o chamar as autoridades. Em abril de 2021, os irm\u00e3os Ameer e Raees Cajee, respons\u00e1veis pela plataforma sul-africana Africrypt, comunicaram aos clientes que a empresa <a href='https:\/\/www.theregister.com\/2021\/06\/23\/africrypt_bitcoin_disappearance\/'>tinha sido alvo de um ataque inform\u00e1tico<\/a> e pediram-lhes que n\u00e3o envolvessem advogados nem a pol\u00edcia, porque isso \u00abatrasaria a recupera\u00e7\u00e3o\u00bb dos fundos. Pouco depois, os pr\u00f3prios irm\u00e3os estavam incontact\u00e1veis.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O valor noticiado na altura chegou aos 3,6 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em Bitcoin, um n\u00famero que os irm\u00e3os viriam a contestar e que nunca foi confirmado, pelo que deve ser lido com cautela. Mas os detalhes eram eloquentes: os funcion\u00e1rios tinham perdido o acesso \u00e0s plataformas internas sete dias antes do alegado ataque, e os reguladores suspeitaram de um esquema Ponzi. O pedido de sil\u00eancio \u00e0s v\u00edtimas \u00e9, por si s\u00f3, o sinal mais reconhec\u00edvel do golpe de sa\u00edda, porque quem pede para n\u00e3o se falar com advogados est\u00e1, na pr\u00e1tica, a pedir tempo para desaparecer.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Casos como este ensinam a desconfiar da sequ\u00eancia, n\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o. Um ataque inform\u00e1tico genu\u00edno costuma ser reportado \u00e0s autoridades, documentado on-chain e seguido de uma investiga\u00e7\u00e3o p\u00fablica; um golpe de sa\u00edda disfar\u00e7ado de ataque costuma vir acompanhado de um pedido para n\u00e3o investigar. A diferen\u00e7a entre as duas coisas raramente est\u00e1 no comunicado do fundador, est\u00e1 no comportamento: para onde foram as moedas, e quem perdeu o acesso primeiro.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Porque \u00e9 que o fundador cripto consegue desaparecer<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Desaparecer com dinheiro sempre existiu; a cripto apenas tornou o processo mais r\u00e1pido e mais dif\u00edcil de reverter. Uma transfer\u00eancia on-chain \u00e9 irrevers\u00edvel e n\u00e3o tem chargeback: ao contr\u00e1rio de um cart\u00e3o de cr\u00e9dito, n\u00e3o h\u00e1 um banco que anule a opera\u00e7\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m instant\u00e2nea e transfronteiri\u00e7a, o que permite mover fundos para fora de qualquer jurisdi\u00e7\u00e3o em minutos e escolher um pa\u00eds de destino pela sua dist\u00e2ncia dos tribunais que importam. E, em muitos projetos, a cust\u00f3dia est\u00e1 concentrada, com uma s\u00f3 pessoa, ou um punhado delas, a deter as chaves que controlam tudo.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Junte-se a isto a aus\u00eancia de um registo central obrigat\u00f3rio e de reservas auditadas, e o resultado \u00e9 uma estrutura em que o desaparecimento \u00e9 tecnicamente f\u00e1cil e economicamente tentador. Num banco tradicional h\u00e1 uma licen\u00e7a, um supervisor, um regime de resolu\u00e7\u00e3o e um seguro de dep\u00f3sitos; quando o gestor foge, a institui\u00e7\u00e3o continua a existir. Numa plataforma cripto mal governada, o fundador e a infraestrutura podem ser a mesma coisa, e quando ele se evapora n\u00e3o fica institui\u00e7\u00e3o nenhuma, apenas um endere\u00e7o de carteira que deixou de se mexer.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Foi precisamente para fechar esta porta que, depois do colapso da FTX em 2022, se generalizou a exig\u00eancia de prova de reservas: atesta\u00e7\u00f5es criptogr\u00e1ficas, muitas vezes com \u00e1rvores de Merkle, que permitem a um cliente verificar que a plataforma det\u00e9m de facto os ativos que diz deter, sem depender da palavra do fundador. A prova de reservas n\u00e3o \u00e9 perfeita, porque mostra os ativos mas raramente os passivos na totalidade, e n\u00e3o impede uma fuga; mas substitui a confian\u00e7a cega por uma verifica\u00e7\u00e3o parcial. A sua aus\u00eancia, num projeto que movimenta fundos de terceiros, \u00e9 hoje um sinal de alarme por si s\u00f3.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Importa um aviso de equil\u00edbrio: nem toda a aus\u00eancia \u00e9 crime. Satoshi Nakamoto afastou-se do Bitcoin sem levar nada e sem deixar v\u00edtimas, e h\u00e1 fundadores que simplesmente se reformam, adoecem ou se cansam. O ponto n\u00e3o \u00e9 presumir culpa sempre que algu\u00e9m se cala, \u00e9 perceber que a mesma estrutura que permite uma retirada honesta permite tamb\u00e9m um golpe de sa\u00edda, e que a \u00fanica defesa do leitor \u00e9 olhar para o desenho antes de confiar, n\u00e3o para o carisma.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Sem microfone, a investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 a entrevista<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o protagonista desaparece, o fio condutor desta s\u00e9rie mant\u00e9m-se: o documento vence o microfone. Na falta de uma conversa com o fundador, o \u00abdepoimento\u00bb vem de tr\u00eas fontes. A primeira \u00e9 a an\u00e1lise on-chain: investigadores pseud\u00f3nimos como o ZachXBT e empresas de forense de blockchain conseguem seguir o dinheiro de carteira em carteira, reconstruindo a fuga que o fundador nunca narraria. A blockchain \u00e9, aqui, a testemunha que n\u00e3o se pode subornar nem silenciar.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Essa testemunha, por\u00e9m, tem limites. Um fundador que planeia desaparecer pode passar os fundos por mixers, por pontes entre blockchains ou por casas de c\u00e2mbio sem KYC, dificultando o rastreio; e a an\u00e1lise on-chain mostra para onde foi o dinheiro, n\u00e3o necessariamente quem est\u00e1 ao teclado. \u00c9 por isso que os casos que acabam em condena\u00e7\u00e3o costumam juntar tr\u00eas camadas de prova, o rasto on-chain, os registos das plataformas e o testemunho humano, em vez de dependerem de uma s\u00f3. Para o leitor, a li\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o tratar um \u00fanico gr\u00e1fico de transa\u00e7\u00f5es como prova definitiva, mas como uma pe\u00e7a entre v\u00e1rias.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda fonte s\u00e3o os tribunais e os insiders que colaboram. Quando um fundador se cala ou foge, s\u00e3o muitas vezes os cofundadores e executivos que negoceiam com a acusa\u00e7\u00e3o que acabam por contar a hist\u00f3ria real, como se v\u00ea nos processos em que <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/dois-fundadores-duas-versoes-entrevista-cripto-2026\/'>duas vers\u00f5es se transformam em acusa\u00e7\u00e3o<\/a>. O testemunho de quem esteve l\u00e1 dentro substitui a entrevista que o l\u00edder recusa dar. A terceira fonte \u00e9 o jornalismo de investiga\u00e7\u00e3o e o document\u00e1rio, de \u00abThe Missing Cryptoqueen\u00bb a \u00abTrust No One\u00bb, que transformam a procura do ausente num g\u00e9nero pr\u00f3prio.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Repare-se na invers\u00e3o: o entrevistador deixa de ser o jornalista com o microfone e passa a ser o <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/investigador-shipper-duas-almas-builder-cripto-2026\/'>investigador que segue o rasto<\/a>. A pergunta de seguimento, que num palco pago raramente aparece, \u00e9 feita pela an\u00e1lise forense, pela intima\u00e7\u00e3o, pelo extrato banc\u00e1rio. Para o leitor comum, a conclus\u00e3o pr\u00e1tica \u00e9 simples: perante um fundador desaparecido, o sinal fi\u00e1vel n\u00e3o est\u00e1 em nenhuma declara\u00e7\u00e3o, est\u00e1 nos dados que podem ser verificados sem a coopera\u00e7\u00e3o dele.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Cinco desaparecimentos, um padr\u00e3o<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Postos lado a lado, os casos mais citados da \u00faltima d\u00e9cada mostram varia\u00e7\u00f5es do mesmo enredo: cust\u00f3dia concentrada, fundos movidos para fora de alcance, um comunicado vago e, no fim, uma cadeira vazia. Os valores devem ser lidos como ordens de grandeza noticiadas, n\u00e3o como contabilidade fechada, sobretudo nos casos ainda em disputa judicial.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Fundador<\/th><th>Projeto<\/th><th>Ano<\/th><th>Valor associado (relatado)<\/th><th>Estado atual<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Ruja Ignatova<\/td><td>OneCoin<\/td><td>2017<\/td><td>Mais de 4 mil milh\u00f5es USD<\/td><td>Foragida; alegadamente morta em 2018, sem prova<\/td><\/tr><tr><td>Gerald Cotten<\/td><td>QuadrigaCX<\/td><td>2018<\/td><td>Cerca de 169 milh\u00f5es CAD em falta<\/td><td>Morto; fraude confirmada pela OSC<\/td><\/tr><tr><td>Faruk Fatih \u00d6zer<\/td><td>Thodex<\/td><td>2021<\/td><td>At\u00e9 cerca de 2 mil milh\u00f5es USD<\/td><td>Morto na pris\u00e3o em 2025; pena de 11 196 anos<\/td><\/tr><tr><td>Ameer e Raees Cajee<\/td><td>Africrypt<\/td><td>2021<\/td><td>At\u00e9 3,6 mil milh\u00f5es USD (contestado)<\/td><td>Paradeiro e valores em disputa<\/td><\/tr><tr><td>Equipas an\u00f3nimas<\/td><td>Plataformas de memecoins<\/td><td>2024-2026<\/td><td>Milhares de milh\u00f5es agregados<\/td><td>Nunca identificadas<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">O padr\u00e3o \u00e9 suficientemente est\u00e1vel para servir de alerta. Em quase todos os casos havia concentra\u00e7\u00e3o de cust\u00f3dia ou de poder numa figura \u00fanica; faltava uma prova de reservas independente; e o desfecho foi precedido por fric\u00e7\u00e3o nos levantamentos. O leitor n\u00e3o precisa de prever o desaparecimento, precisa de reconhecer o terreno que o torna poss\u00edvel, porque esse terreno \u00e9 vis\u00edvel muito antes da fuga.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>A prova de vida e o v\u00e1cuo que o deepfake preenche<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Um fundador desaparecido n\u00e3o deixa apenas um rombo financeiro, deixa um v\u00e1cuo de identidade que outros se apressam a preencher. Em torno de qualquer caso medi\u00e1tico surgem v\u00eddeos falsos, canais de \u00abatualiza\u00e7\u00f5es\u00bb e supostos reaparecimentos: \u00aba Ruja est\u00e1 viva e vai reembolsar toda a gente\u00bb, \u00abo fundador voltou e tem um plano de recupera\u00e7\u00e3o\u00bb. Com as ferramentas de hoje, basta um deepfake convincente e uma transmiss\u00e3o em direto para montar uma segunda colheita sobre as mesmas v\u00edtimas, os chamados golpes de recupera\u00e7\u00e3o, que prometem devolver o dinheiro perdido mediante um novo pagamento.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui a l\u00f3gica do \u00abdividendo do mentiroso\u00bb funciona ao contr\u00e1rio. Normalmente, esse conceito descreve o fundador real que desmente imagens aut\u00eanticas alegando que s\u00e3o falsas; no caso do fundador ausente, \u00e9 a pr\u00f3pria aus\u00eancia que permite a fabrica\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m vivo e localiz\u00e1vel para desmentir o impostor. Quanto mais famoso o desaparecido, mais valiosa \u00e9 a sua cara para quem quer enganar. A autentica\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 era dif\u00edcil, torna-se quase imposs\u00edvel quando a pessoa que poderia confirmar ou negar simplesmente n\u00e3o est\u00e1.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">Para o leitor, a regra pr\u00e1tica \u00e9 dura mas clara: qualquer \u00abreaparecimento\u00bb de um fundador desaparecido deve ser tratado como fraude at\u00e9 prova em contr\u00e1rio, sobretudo se vier acompanhado de um pedido de dinheiro. Um fundador genu\u00edno que quisesse mesmo voltar a falar f\u00e1-lo-ia atrav\u00e9s de canais verific\u00e1veis e de processos legais, n\u00e3o de uma transmiss\u00e3o em direto com um c\u00f3digo QR a pedir dep\u00f3sitos.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>O desaparecimento tamb\u00e9m move o pre\u00e7o<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Como qualquer declara\u00e7\u00e3o de um fundador, o seu desaparecimento \u00e9 um evento de mercado. No instante em que uma plataforma congela levantamentos, ou em que uma investiga\u00e7\u00e3o revela sa\u00eddas de fundos para carteiras de insiders, o pre\u00e7o do token associado colapsa, muitas vezes em minutos. Os mercados cripto funcionam 24 horas por dia, sem disjuntores e, frequentemente, com liquidez fina, pelo que uma revela\u00e7\u00e3o sobre a solv\u00eancia ou a honestidade de um fundador se propaga sem trav\u00f5es. Quem est\u00e1 alavancado descobre-o da pior maneira, numa <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/posicionamento-derivados-multidao-alvo-liquidez-2026\/'>cascata de liquida\u00e7\u00f5es<\/a>.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A reflexividade agrava tudo. Um projeto cujo valor assenta na confian\u00e7a no fundador perde essa confian\u00e7a de forma abrupta e n\u00e3o gradual: a d\u00favida sobre se ele fugiu alimenta a corrida aos levantamentos, que confirma a falta de fundos, que valida a d\u00favida inicial. \u00c9 o mesmo mecanismo de corrida banc\u00e1ria que j\u00e1 se viu noutros colapsos, s\u00f3 que sem banco central para o conter. Por isso, no limite, a not\u00edcia de que n\u00e3o h\u00e1 entrevista poss\u00edvel, porque n\u00e3o h\u00e1 quem a d\u00ea, \u00e9 ela pr\u00f3pria a informa\u00e7\u00e3o que faz o pre\u00e7o cair.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda um efeito de cont\u00e1gio. Quando um fundador desaparece com os fundos de uma plataforma, os investidores n\u00e3o fogem apenas desse projeto: reavaliam todos os que partilham a mesma fragilidade, a cust\u00f3dia opaca e o rosto \u00fanico. Foi o que se viu em cada grande colapso, da Mt. Gox \u00e0 FTX, em que a queda de um nome arrastou a confian\u00e7a em muitos outros. O desaparecimento de um fundador raramente \u00e9, por isso, um evento isolado no pre\u00e7o; \u00e9 um teste de esfor\u00e7o a todo um segmento que assenta na mesma promessa n\u00e3o verificada.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Quando a lei n\u00e3o tem a quem telefonar<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">O enquadramento europeu foi desenhado, em parte, para tornar o desaparecimento mais caro. A MiCA, o regulamento dos criptoativos da Uni\u00e3o Europeia, exige no seu <a href='https:\/\/www.springlex.eu\/en\/packages\/mica\/mica-regulation\/article-6\/'>artigo 6.\u00ba<\/a> que o white paper de uma oferta identifique um emitente que seja pessoa coletiva, com nome, forma jur\u00eddica, morada registada e \u00f3rg\u00e3o de gest\u00e3o identificado e respons\u00e1vel. Por outras palavras, a lei obriga a existir, \u00e0 partida, exatamente a \u00e2ncora de responsabiliza\u00e7\u00e3o que um golpe de sa\u00edda remove: uma entidade com morada e um nome em quem pegar.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que as san\u00e7\u00f5es pressup\u00f5em um destinat\u00e1rio. O <a href='https:\/\/mco.mycomplianceoffice.com\/blog\/mica-and-insider-risk-what-crypto-firms-need-to-know'>artigo 91.\u00ba<\/a> alcan\u00e7a \u00abqualquer pessoa\u00bb por manipula\u00e7\u00e3o de mercado, e o <a href='https:\/\/www.kpmglaw.ie\/insight\/micar-the-eu-regulatory-regime-for-crypto-assets'>artigo 111.\u00ba<\/a> prev\u00ea coimas at\u00e9 5 milh\u00f5es de euros para pessoas singulares. Mas n\u00e3o se aplica uma coima a um fantasma, nem se intima um morto. A ESMA j\u00e1 alertou, nas suas <a href='https:\/\/www.esma.europa.eu\/press-news\/esma-news\/esma-issues-supervisory-guidelines-prevent-market-abuse-under-mica'>orienta\u00e7\u00f5es sobre abuso de mercado ao abrigo da MiCA<\/a>, para a natureza transfronteiri\u00e7a do setor e para o \u00abuso intensivo das redes sociais\u00bb; ainda assim, perante um fundador em fuga, morto ou que nunca teve rosto, a aplica\u00e7\u00e3o da lei esbarra sempre na mesma parede, a aus\u00eancia. \u00c9 por isto que a abordagem europeia, de <a href='https:\/\/hoge.gg\/pt\/cofres-mira-mica-regulacao-credito-defi-2026\/'>empurrar a responsabilidade para entidades identific\u00e1veis<\/a>, faz mais sentido como preven\u00e7\u00e3o do que como rem\u00e9dio.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Portugal, a CMVM e o registo que tem morada<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">Para o leitor portugu\u00eas, a melhor defesa contra o fundador que desaparece \u00e9 escolher, \u00e0 partida, contrapartes que tenham o oposto de um fundador fantasma: uma morada, um nome e um supervisor. O per\u00edodo transit\u00f3rio para os antigos VASP terminou a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.\u00ba 69\/2025, e cabe agora \u00e0 CMVM autorizar e supervisionar os prestadores de servi\u00e7os de criptoativos (CASP). A 30 de mar\u00e7o de 2026 havia 63 prestadores autorizados, um n\u00famero que a pr\u00f3pria comiss\u00e3o publica e que qualquer investidor pode consultar antes de confiar um c\u00eantimo a uma plataforma.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">No seu <a href='https:\/\/eco.sapo.pt\/2026\/04\/20\/riscos-glosario-e-prestadores-autorizados-cmvm-lanca-explicador-de-criptoativos\/'>explicador de criptoativos<\/a>, publicado em abril de 2026, a CMVM \u00e9 expl\u00edcita quanto ao limite da prote\u00e7\u00e3o: constar da lista de prestadores autorizados \u00abn\u00e3o elimina os riscos associados, em particular a elevada volatilidade e a aus\u00eancia de cobertura pelo sistema de indemniza\u00e7\u00e3o aos investidores\u00bb. Traduzindo: ao contr\u00e1rio dos dep\u00f3sitos banc\u00e1rios, os criptoativos n\u00e3o t\u00eam uma rede de seguran\u00e7a que reembolse o cliente quando o fundador desaparece com o dinheiro. O <a href='https:\/\/investidor.cmvm.pt\/pinvestidor'>portal do investidor da CMVM<\/a> re\u00fane o registo e os avisos de fraude num s\u00f3 s\u00edtio.<\/p><p class=\"wp-block-paragraph\">A sequ\u00eancia para o investidor \u00e9, por isso, pr\u00e1tica: confirmar que a plataforma consta do registo de CASP autorizados, preferir entidades com gest\u00e3o identificada e prova de reservas, e evitar projetos cujo \u00fanico rosto \u00e9 um fundador carism\u00e1tico ou um pseud\u00f3nimo. Um prestador registado pode, ainda assim, falhar; mas tem uma morada, um respons\u00e1vel e um supervisor a quem telefonar, que \u00e9 exatamente aquilo que falta quando a cadeira fica vazia.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Como ler antes de a cadeira ficar vazia<\/h2><p class=\"wp-block-paragraph\">A entrevista mais \u00fatil com um fundador que vai desaparecer \u00e9 a que se faz antes de ele desaparecer, lendo a estrutura e n\u00e3o o discurso. Os sinais abaixo n\u00e3o provam fraude, mas descrevem o terreno em que o desaparecimento se torna poss\u00edvel e impune; quantos mais estiverem presentes, maior deve ser a desconfian\u00e7a.<\/p><figure class='wp-block-table'><table><thead><tr><th>Sinal<\/th><th>Porque importa<\/th><th>Pergunta a fazer<\/th><\/tr><\/thead><tbody><tr><td>Cust\u00f3dia numa s\u00f3 pessoa<\/td><td>Se ela desaparece, as chaves desaparecem<\/td><td>Quem mais tem acesso aos cold wallets?<\/td><\/tr><tr><td>Sem prova de reservas<\/td><td>N\u00e3o h\u00e1 como verificar se os fundos existem<\/td><td>Existe uma auditoria ou prova de reservas independente?<\/td><\/tr><tr><td>Sem entidade legal identific\u00e1vel<\/td><td>N\u00e3o h\u00e1 a quem responsabilizar<\/td><td>Qual \u00e9 a empresa, a morada, o pa\u00eds?<\/td><\/tr><tr><td>Sede sem acordo de extradi\u00e7\u00e3o<\/td><td>A fuga pode j\u00e1 estar planeada<\/td><td>Porque est\u00e1 domiciliada precisamente ali?<\/td><\/tr><tr><td>\u00abFomos pirateados\u00bb e \u00abn\u00e3o chamem advogados\u00bb<\/td><td>\u00c9 o gui\u00e3o cl\u00e1ssico do golpe de sa\u00edda<\/td><td>Quem est\u00e1 a pedir sil\u00eancio, e a troco de qu\u00ea?<\/td><\/tr><tr><td>Rosto \u00fanico e carism\u00e1tico<\/td><td>O culto do fundador tapa a falta de prova<\/td><td>O que acontece ao projeto se ele sair amanh\u00e3?<\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure><p class=\"wp-block-paragraph\">Nada disto \u00e9 paranoia; \u00e9 a aplica\u00e7\u00e3o, \u00e0 entrevista do fundador, da regra que atravessa toda esta s\u00e9rie. O microfone pode ser desligado, a cara pode ser falsificada, o nome pode ser escondido e, no limite, a pessoa pode simplesmente desaparecer. O que n\u00e3o desaparece \u00e9 o registo: a entidade legal, a cust\u00f3dia, a prova de reservas, o rasto on-chain. Com o Bitcoin a rondar os 77 mil euros e o capital a voltar ao setor, segundo a <a href='https:\/\/www.coingecko.com\/en\/coins\/bitcoin\/eur'>CoinGecko<\/a>, o apetite por hist\u00f3rias de fundadores vision\u00e1rios vai aumentar, e com ele o n\u00famero de cadeiras que um dia ficam vazias. A melhor entrevista \u00e9 a verifica\u00e7\u00e3o que se faz enquanto o fundador ainda est\u00e1 sentado.<\/p><h2 class='wp-block-heading'>Perguntas frequentes<\/h2><h3 class='wp-block-heading'>O que \u00e9 um golpe de sa\u00edda (exit scam) em cripto?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 quando os respons\u00e1veis por um projeto ou plataforma desaparecem com os fundos dos investidores, muitas vezes depois de uma hist\u00f3ria de encobrimento, como um alegado ataque inform\u00e1tico. Difere de um colapso normal porque h\u00e1 inten\u00e7\u00e3o de fugir com o dinheiro; o OneCoin de Ruja Ignatova e o Africrypt dos irm\u00e3os Cajee s\u00e3o exemplos citados na imprensa.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>O que aconteceu a Ruja Ignatova, a \u00abrainha das criptomoedas\u00bb?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Fundou o OneCoin, que ter\u00e1 defraudado mais de 4 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares, e desapareceu em outubro de 2017, depois de embarcar num voo de S\u00f3fia para Atenas. Est\u00e1 na lista dos dez mais procurados do FBI, com uma recompensa at\u00e9 5 milh\u00f5es de d\u00f3lares; documentos citados pela BBC sugerem que ter\u00e1 sido morta em 2018, mas n\u00e3o h\u00e1 prova confirmada e continua oficialmente foragida.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>Como pode um fundador \u00abmorrer com as chaves\u00bb?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Quando uma s\u00f3 pessoa controla as chaves privadas dos cold wallets de uma plataforma, a sua aus\u00eancia pode tornar os fundos inacess\u00edveis. Foi o que inicialmente se alegou no caso QuadrigaCX ap\u00f3s a morte de Gerald Cotten em 2018, embora a Ontario Securities Commission tenha conclu\u00eddo que a perda resultou sobretudo de fraude, e n\u00e3o da morte.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>A MiCA protege contra fundadores que desaparecem?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">A MiCA exige que o white paper identifique um emitente que seja pessoa coletiva, com morada registada e gest\u00e3o identific\u00e1vel e respons\u00e1vel, que \u00e9 precisamente a \u00e2ncora que um golpe de sa\u00edda remove. Mas as coimas e as regras de abuso de mercado s\u00f3 funcionam se houver algu\u00e9m localiz\u00e1vel; perante um fundador em fuga ou morto, a aplica\u00e7\u00e3o da lei esbarra na aus\u00eancia.<\/p><h3 class='wp-block-heading'>Como posso proteger-me antes de investir num projeto cripto?<\/h3><p class=\"wp-block-paragraph\">Prefira prestadores registados (em Portugal, consulte o registo de CASP autorizados da CMVM), verifique se existe uma entidade legal com morada e gest\u00e3o identificadas, exija prova de reservas independente e desconfie de projetos cujo \u00fanico rosto \u00e9 um fundador carism\u00e1tico ou um pseud\u00f3nimo. Lembre-se de que os criptoativos n\u00e3o est\u00e3o cobertos pelo sistema de indemniza\u00e7\u00e3o aos investidores.<\/p><script type='application\/ld+json'>{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@type\":\"FAQPage\",\"mainEntity\":[{\"@type\":\"Question\",\"name\":\"O que \u00e9 um golpe de sa\u00edda (exit scam) em cripto?\",\"acceptedAnswer\":{\"@type\":\"Answer\",\"text\":\"\u00c9 quando os respons\u00e1veis por um projeto ou plataforma desaparecem com os fundos dos investidores, muitas vezes depois de uma hist\u00f3ria de encobrimento, como um alegado ataque inform\u00e1tico. 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