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● Predictions & Forecasts

Compressão de taxas nas L2: a previsão de custos até 2027

A Fusaka e as atualizações de blobs cortaram as comissões das Layer 2 para frações de cêntimo. Analisamos três cenários até 2027 e o impacto do fim do período transitório da MiCA.

As comissões de rede deixaram de ser o principal obstáculo para quem usa a Ethereum no dia a dia. Duas atualizações do protocolo, a Dencun em março de 2024 e a Fusaka em dezembro de 2025, reescreveram a economia das redes de segunda camada (Layer 2, ou L2) e empurraram o custo de uma transação comum para frações de cêntimo. Com o Ether a negociar perto dos 1.390 euros, depois de uma queda próxima dos 35 por cento em doze meses, a pergunta relevante para investidores e programadores já não é quando descem as taxas, mas até onde podem descer.

Este artigo reúne os dados mais recentes sobre comissões, a mecânica dos blobs que sustenta a tendência e três cenários de preço até 2027. No final, olhamos para o calendário regulatório, porque a 1 de julho de 2026, poucos dias após a publicação deste texto, termina o período transitório do regulamento MiCA em toda a União Europeia, com efeitos diretos para quem opera a partir de Portugal.

O que significa compressão de taxas nas Layer 2

A expressão descreve a queda sustentada do custo por transação à medida que aumenta a capacidade de publicação de dados na Ethereum. As rollups, o tipo de L2 mais usado, executam transações fora da cadeia principal e publicam depois um resumo comprimido na Ethereum, onde fica garantida a sua disponibilidade e segurança. O grosso da fatura de uma rollup nunca foi a computação; foi o espaço que ela tinha de comprar na camada base para publicar esses dados.

Enquanto esse espaço era partilhado com todas as outras transações da rede, o custo subia sempre que a procura disparava. A solução foi criar um espaço dedicado e mais barato, os blobs, e depois ampliá-lo de forma faseada. Cada aumento de capacidade reduz o preço unitário do dado publicado, e é essa descida em degraus que o setor passou a designar por compressão de taxas.

De Dencun a Fusaka: a cronologia que derrubou os custos

O ponto de viragem foi o EIP-4844, conhecido como proto-danksharding, ativado na atualização Dencun a 13 de março de 2024. Esta alteração introduziu as transações com blobs, um canal de dados separado e temporário, com preço próprio, que as rollups passaram a usar em vez do dispendioso calldata. O efeito foi imediato: como noticiou a imprensa especializada, as comissões de várias L2 caíram mais de 90 por cento nas primeiras horas.

A Fusaka, ativada na mainnet a 3 de dezembro de 2025, foi o segundo degrau e o mais ambicioso. O seu componente central é o EIP-7594, ou PeerDAS, um protocolo de amostragem que permite aos validadores confirmar a disponibilidade dos dados descarregando apenas uma fração de cada bloco. Segundo o anúncio da Ethereum Foundation, este desenho liberta o caminho para multiplicar o número de blobs sem sobrecarregar os nós que sustentam a rede.

O aumento não foi feito de uma só vez. A Fusaka trouxe também o EIP-7892, que define mini-atualizações dedicadas apenas a ajustar os parâmetros dos blobs. Através de duas dessas intervenções, em dezembro de 2025 e janeiro de 2026, o alvo de blobs por bloco subiu de 6 para 14 e o máximo de 9 para 21, mais do que o dobro da capacidade anterior. O desenho modular permite aumentar a oferta de dados sem esperar por uma atualização completa de cada vez.

Como funciona o mercado de blobs (e porque os preços não chegam a zero)

Cada bloco tem um número alvo e um número máximo de blobs. Quando a procura fica acima do alvo, a taxa base dos blobs sobe; quando fica abaixo, desce. É o mesmo mecanismo do EIP-1559 que rege o gás normal, aplicado a um recurso separado. Em períodos de calmaria, com a procura abaixo do novo alvo de 14, o preço dos blobs tende para o mínimo e as rollups pagam quase nada para publicar.

Existe, porém, um travão deliberado. Um dos ajustes da Fusaka introduziu um piso para a taxa base dos blobs, indexado ao custo de execução da transação que os transporta. O objetivo é duplo: evitar que o espaço de dados fique praticamente de borla, o que distorceria os incentivos dos validadores, e assegurar alguma receita por blob. Por outras palavras, a compressão de taxas tem um limite inferior desenhado de propósito; as comissões aproximam-se de zero, mas não o tocam.

Tabela comparativa: o que custa transacionar nas principais L2

Os números abaixo refletem valores medianos recolhidos em portais de monitorização como o L2Fees e o L2BEAT, convertidos para euros à cotação atual. Servem de fotografia, não de garantia: uma transferência simples custa muito menos do que um swap numa exchange descentralizada (DEX), e as comissões prioritárias podem disparar de forma pontual nos momentos de maior atividade.

RedeTransferência simplesSwap típicoCamada de dadosValor protegido (TVS)
Arbitrum Onecerca de 0,004 euros0,02 a 0,09 eurosblobs da Ethereumcerca de 16 mil milhões de euros
Basecerca de 0,018 euros0,01 a 0,045 eurosblobs da Ethereumcerca de 12 mil milhões de euros
OP Mainnetcerca de 0,006 euros0,01 a 0,05 eurosblobs da Ethereumcerca de 4 mil milhões de euros
zkSync Eracerca de 0,010 euros0,02 a 0,06 eurosblobs da Ethereumcerca de 0,5 mil milhões de euros
Starknetcerca de 0,008 euros0,01 a 0,04 eurosblobs da Ethereumcerca de 0,3 mil milhões de euros

A leitura de conjunto é clara. A mediana das comissões de L2 caiu de cerca de 0,045 euros no início de 2024 para perto de 0,0014 euros em 2026, uma quebra superior a 95 por cento, ao mesmo tempo que a Arbitrum e a Base concentram mais de três quartos do valor total protegido em toda a segunda camada.

A guerra da disponibilidade de dados: Celestia, EigenDA e Avail

A descida das taxas na Ethereum mexe com um setor inteiro que cresceu a vender alternativas mais baratas para publicar dados. Antes da Fusaka, camadas externas como a Celestia ofereciam um megabyte de dados por cerca de 0,06 euros, contra mais de 3 euros nos blobs da Ethereum, segundo a comparação da Conduit. Era uma diferença de mais de cinquenta vezes que justificava a migração de várias rollups.

Com o salto de capacidade da Fusaka, essa vantagem encolhe. Várias rollups adotaram uma estratégia híbrida: recorrem a camadas externas como a EigenDA ou a Celestia quando a taxa dos blobs dispara e regressam à Ethereum quando o preço volta a cair. A EigenDA, por exemplo, assenta num comité de operadores e num modelo de restaking, com um perfil de confiança distinto do dos blobs verificados por toda a rede. A questão para 2026 é se a Ethereum, ao baixar tanto o custo, torna estas camadas redundantes para a maioria dos casos de uso ou se elas sobrevivem a vender capacidade nos picos de procura.

Previsão: três cenários para as taxas até 2027

A Ethereum Foundation estima que as comissões das rollups possam recuar mais 40 a 60 por cento nos primeiros meses após a Fusaka, com quedas acima de 90 por cento à medida que a capacidade aumenta. Com base nesse enquadramento e no calendário conhecido de atualizações, traçamos três cenários.

  • Cenário base, o mais provável: a transferência mediana estabiliza entre 0,001 e 0,003 euros e o swap típico entre 0,01 e 0,03 euros até meados de 2027, com picos ocasionais em fases de euforia. A próxima atualização, provisoriamente chamada Glamsterdam, mantém a trajetória sem rutura.
  • Cenário de compressão acelerada: a procura cresce devagar e a oferta de blobs aumenta mais depressa do que o uso, levando a transferência para perto de 0,0005 euros de forma quase permanente. Bom para o utilizador, exigente para a segurança económica das redes.
  • Cenário de congestão: uma vaga de adoção, por exemplo pagamentos em stablecoins ou um ciclo especulativo intenso, satura os blobs antes da próxima subida de capacidade e devolve as comissões à casa dos 0,10 euros nas horas de ponta, até a oferta acompanhar.

O denominador comum dos três cenários é que o piso introduzido na Fusaka impede uma situação de taxa zero permanente. A direção é descendente, mas com um chão.

O reverso da medalha: receitas dos sequenciadores

Taxas mais baixas são uma boa notícia para quem transaciona, mas levantam uma questão de sustentabilidade. As rollups financiam-se com a diferença entre o que cobram ao utilizador e o que pagam para publicar na Ethereum. Quando a camada base reduz de forma drástica o custo de publicação, essa margem comprime-se também, e os operadores (os chamados sequenciadores) passam a depender do volume para compensar a queda do preço unitário.

Para a Ethereum há um efeito de segundo grau. Menos receita de blobs significa menos Ether queimado e menos pressão deflacionária sobre o ativo, num ano em que a cotação já recuou de forma acentuada. O piso da taxa base dos blobs foi pensado precisamente para mitigar este risco, ao garantir alguma remuneração por bloco mesmo em períodos de baixa procura. O equilíbrio entre acessibilidade para o utilizador e receita dos validadores será um dos temas centrais da próxima fase do roteiro.

Enquadramento regulatório: MiCA, a CMVM e o que muda a 1 de julho

A componente técnica não vive isolada das regras. A 1 de julho de 2026 termina o período transitório do regulamento MiCA em toda a União Europeia. A partir dessa data, qualquer entidade que preste serviços sobre criptoativos a clientes europeus sem licença ao abrigo da MiCA fica em incumprimento, como recordou a Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA) na sua declaração de abril.

Em Portugal, o quadro ficou definido com a Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, que adapta a ordem jurídica nacional à MiCA. O modelo é repartido: o Banco de Portugal trata da autorização e do registo dos prestadores e da supervisão das stablecoins, enquanto a CMVM assume a supervisão de mercado e de conduta, incluindo o abuso de mercado e a proteção dos investidores. Se um token for qualificado como oferta pública, é à CMVM que cabe aprovar o respetivo prospeto.

Para o tema deste artigo, a ligação é indireta mas real. Comissões baixas tornam as L2 atrativas para pagamentos e para produtos financeiros de retalho, exatamente o terreno que a MiCA passa a vigiar de perto. Um prestador português que queira oferecer serviços sobre ativos negociados em redes Layer 2 terá de o fazer dentro da licença MiCA, com a CMVM como interlocutor para a conduta de mercado. A descida do custo técnico não dispensa o custo de conformidade.

O que vigiar nos próximos meses

A trajetória das taxas até 2027 vai depender de três variáveis observáveis. A primeira é o ritmo das próximas atualizações de parâmetros de blobs, que podem chegar antes da Glamsterdam e antecipar novas descidas. A segunda é a curva de adoção: se os pagamentos em stablecoins nas L2 crescerem depressa, a procura pode testar o novo teto de capacidade. A terceira é regulatória, com a entrada em pleno da MiCA e os primeiros processos de licenciamento em Portugal a darem o tom do mercado europeu.

A conclusão prática é sóbria. A era das comissões de vários euros nas redes Ethereum acabou e dificilmente regressa, mas o mito da transação totalmente gratuita também não se concretiza. O destino mais provável é um custo estável, previsível e quase irrelevante para o utilizador comum, com um piso técnico que protege a economia da rede. Para quem constrói ou investe a pensar em 2027, a variável decisiva deixou de ser a taxa e passou a ser o cumprimento das novas regras.

Por João Almeida, editor sénior da HOGE Wire. Análise informativa, não constitui aconselhamento financeiro.

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