Compressão de taxas nas L2: a previsão para 2026 e 2027
As taxas das rollups do Ethereum caem desde a Dencun e aproximam-se de zero após a Fusaka. Analisamos três cenários até 2027 e o impacto das novas regras MiCA em Portugal.
As taxas das redes de segunda camada (Layer 2, ou L2) do Ethereum caíram de forma quase ininterrupta desde março de 2024. O que começou com a atualização Dencun e a estreia dos blobs transformou-se, em 2026, numa tendência estrutural: o custo de publicar dados na primeira camada (L1) aproxima-se de zero e, com ele, o preço de cada operação numa L2. Para o leitor português, a pergunta deixou de ser se as comissões descem e passou a ser até onde descem, e o que sobra para financiar o negócio das próprias redes.
Esta análise, parte do nosso conjunto de previsões, traça a trajetória das taxas das L2 até 2027. Cruzamos os custos praticados hoje, o calendário técnico do Ethereum depois da atualização Fusaka e o novo enquadramento regulatório que entra em vigor em Portugal a 1 de julho de 2026, repartido entre o Banco de Portugal e a CMVM.
Porque é que as taxas das L2 continuam a cair
A taxa que um utilizador paga numa rollup tem duas componentes. A primeira é o custo de execução dentro da própria L2, que é minúsculo. A segunda, historicamente dominante, é o custo de publicar os dados dessa transação na L1, para que qualquer pessoa os possa verificar. Foi sobre esta segunda componente que a EIP-4844 atuou, ao criar os blobs: um espaço de dados separado, temporário e com um mercado de taxas próprio.
O ponto decisivo é a forma como esse mercado fixa o preço. O blob tem uma taxa-base que sobe quando a procura ultrapassa o alvo de blobs por bloco e desce quando fica abaixo dele, até um mínimo de 1 wei (uma fração ínfima de um cêntimo). Sempre que a procura por espaço de blobs é inferior à capacidade disponível, publicar dados torna-se praticamente gratuito, e a taxa da L2 colapsa para perto de zero. Toda a estratégia de escalonamento do Ethereum consiste, no fundo, em manter a oferta de blobs sistematicamente acima da procura.
De Dencun a Fusaka: a cronologia que reescreveu os custos
A atualização Dencun, em março de 2024, introduziu os blobs com um alvo de 3 e um máximo de 6 por bloco. O efeito foi imediato: as comissões de muitas rollups caíram entre 50% e 90% em poucos dias. Em maio de 2025, a atualização Pectra subiu a fasquia através da EIP-7691, que elevou o alvo para 6 blobs e o máximo para 9, ajustando ainda a velocidade a que a taxa-base reage a blocos cheios.
O salto seguinte chegou com a Fusaka, ativada na mainnet a 3 de dezembro de 2025, conforme anunciado pela Ethereum Foundation e noticiado pela CoinDesk. A Fusaka trouxe duas mudanças de fundo: o PeerDAS e os chamados BPO, ajustes que alteram apenas o número de blobs. O primeiro (BPO1) elevou o alvo para 10 e o máximo para 15 ainda em dezembro de 2025; o segundo (BPO2) levou esses valores para 14 e 21 em janeiro de 2026.
O que custa hoje uma transação numa L2
Os números atuais mostram até onde a compressão já chegou. A tabela seguinte converte para euros os valores de referência publicados pela L2Fees.info, usando uma cotação EUR/USD de cerca de 1,14, a vigente no final de junho de 2026. Incluímos a L1 do Ethereum como termo de comparação.
| Rede | Enviar ETH | Troca de tokens | Tipo |
|---|---|---|---|
| Metis | €0,04 | €0,16 | Optimistic rollup |
| zkSync Era | €0,06 | n.d. | ZK rollup |
| Optimism | €0,08 | €0,16 | Optimistic rollup |
| Arbitrum One | €0,08 | €0,24 | Optimistic rollup |
| StarkNet | €0,17 | €0,50 | ZK rollup |
| Ethereum (L1) | €0,97 | €4,81 | Camada base |
A leitura é clara: uma troca de tokens que na L1 custaria perto de cinco euros resolve-se por menos de 25 cêntimos na maioria das rollups, e por poucos cêntimos nas mais eficientes. Em períodos de baixa procura, redes de elevado volume como a Base e a Arbitrum chegam a cobrar frações de cêntimo por transferências simples. O custo já não é a barreira que era; passou a ser um detalhe.
PeerDAS e o caminho para o danksharding completo
Aumentar o número de blobs sem sobrecarregar quem opera um nó é o problema central. A resposta é o PeerDAS, descrito na EIP-7594 e debatido em detalhe no fórum Ethereum Magicians. Em vez de exigir que cada nó descarregue todos os dados, o PeerDAS permite verificar a disponibilidade por amostragem, transferindo apenas uma pequena fração (hoje, cerca de um oitavo). Isso abre espaço para multiplicar os blobs com segurança.
O calendário aponta para uma escalada rápida. Depois dos BPO da Fusaka, os programadores discutem novos ajustes que poderão levar a capacidade até 48 blobs por bloco a meio de 2026, com o danksharding completo a apontar para cerca de 128 blobs por slot como objetivo de longo prazo, segundo o roteiro do Ethereum.
| Marco | Data | Alvo (blobs/bloco) | Máximo (blobs/bloco) |
|---|---|---|---|
| Dencun (EIP-4844) | mar. 2024 | 3 | 6 |
| Pectra (EIP-7691) | mai. 2025 | 6 | 9 |
| Fusaka, BPO1 | dez. 2025 | 10 | 15 |
| Fusaka, BPO2 | jan. 2026 | 14 | 21 |
| BPO seguintes (previsto) | meados de 2026 | até 48 | em discussão |
| Danksharding completo (objetivo) | sem data definida | ~128 por slot | ~128 por slot |
A guerra da disponibilidade de dados: Celestia, EigenDA e Avail
Nem todas as L2 dependem exclusivamente dos blobs do Ethereum. Surgiu um mercado paralelo de camadas de disponibilidade de dados (DA) que oferecem o mesmo serviço a custo ainda mais baixo. A Celestia, cuja arquitetura está descrita na sua documentação oficial, concentra a maior fatia desse mercado e publicita reduções de custo na ordem dos 99% face à publicação direta na L1. A EigenDA, apoiada no restaking do Ethereum, e a Avail competem pelos mesmos clientes, com integrações já anunciadas em redes como Arbitrum, Optimism e Polygon.
Esta concorrência empurra o custo dos dados para perto de zero, mas tem uma contrapartida que o utilizador português deve conhecer: uma L2 que publica fora do Ethereum troca parte das garantias de segurança da L1 por preço. Não é necessariamente um mau negócio, mas é uma escolha de risco, e nem sempre fica visível na carteira.
Previsão de taxas: três cenários até 2027
Com a oferta de blobs a subir mais depressa do que a procura, o cenário mais provável é de estabilização em valores muito baixos, com picos pontuais. Resumimos a nossa previsão em três trajetórias.
- Cenário base (mais provável): as trocas de tokens estabilizam entre €0,02 e €0,10 na maioria das rollups, e as transferências simples ficam abaixo de €0,02. O mercado de blobs passa quase todo o tempo no preço mínimo, pelo que o custo dos dados deixa de pesar e o que resta é a margem do sequenciador e, nas ZK rollups, o custo de gerar provas.
- Cenário otimista (expansão agressiva de blobs e DA externa): com 48 blobs por bloco e camadas de DA a competir por margens mínimas, as trocas descem de forma consistente para baixo de €0,01 e os micropagamentos tornam-se viáveis em qualquer rollup.
- Cenário pessimista (a procura supera a capacidade): se a atividade das L2 crescer mais depressa do que o calendário de blobs, o mercado de blobs volta a leiloar espaço em momentos de congestão e as taxas regressam pontualmente à faixa dos €0,20 a €0,50, como sucedeu em surtos de 2024.
Em qualquer dos cenários, a direção é a mesma: a média desce. A diferença está na volatilidade dos picos, e essa depende de algo que ninguém controla por completo, que é o ritmo de adoção.
Quem paga quando as taxas chegam a zero
Taxas a tender para zero são ótimas para quem usa, mas levantam uma questão incómoda para quem investe: de onde virá a receita das L2? Quando o custo dos dados desaparece, sobra pouco do que antes alimentava as redes. A receita dos sequenciadores (as entidades que ordenam as transações) passa a depender sobretudo das comissões de prioridade (priority fees) e do valor extraível por ordenação, o conhecido MEV.
É por isso que ganham relevo temas como a descentralização dos sequenciadores e o chamado based sequencing, em que a própria L1 ordena as transações. Para os tokens de governação das principais redes, como ARB e OP, a tese de investimento desloca-se: deixa de assentar na receita de comissões e passa a depender do volume de atividade e dos mecanismos que devolvam valor a quem detém o token. Margens comprimidas exigem escala, e a escala não está garantida para todos.
MiCA e a CMVM: o que muda em Portugal a 1 de julho
A queda das taxas chega num momento de viragem regulatória. A Lei n.º 69/2025 executa em Portugal o Regulamento MiCA da União Europeia e entra em pleno vigor a 1 de julho de 2026. A supervisão fica repartida: o Banco de Portugal autoriza o registo dos prestadores de serviços de criptoativos e fiscaliza as stablecoins, enquanto a CMVM assume a supervisão comportamental do mercado. As coimas podem chegar aos cinco milhões de euros.
Que relação tem isto com as taxas das L2? Mais do que parece. Os prestadores autorizados a operar em Portugal têm cada vez mais incentivo para liquidar operações em rollups, porque o custo baixo melhora as margens e a experiência do cliente. Ao mesmo tempo, o MiCA impõe transparência de custos e levanta perguntas ainda sem resposta clara: um token de governação de uma L2 é um token utilitário sujeito a livro branco? Um sequenciador único e centralizado constitui um ponto de risco que a supervisão comportamental deva acompanhar? São questões que a CMVM terá de enfrentar à medida que estas redes ganham peso em Portugal.
O que esperar como utilizador ou investidor
Para quem usa, a mensagem é animadora: pagar para transacionar deixou de ser um obstáculo, e a tendência aponta para valores ainda mais baixos. Vale a pena, ainda assim, verificar que camada de disponibilidade de dados sustenta a rollup escolhida, porque preço baixíssimo e segurança máxima nem sempre andam juntos.
Para quem investe, a leitura é mais subtil. Comissões perto de zero são uma vitória para os utilizadores e um desafio para os modelos de negócio das redes; o valor tende a concentrar-se em quem captar volume e em quem resolver a descentralização dos sequenciadores sem perder eficiência. E, a partir de 1 de julho, há uma camada extra a considerar em Portugal: operar apenas com plataformas autorizadas ao abrigo do MiCA deixou de ser uma sugestão e passou a ser a regra. Taxas baixas não eliminam os riscos das pontes, dos sequenciadores centralizados ou dos pressupostos de confiança nas camadas de dados; apenas tornam esses riscos mais fáceis de ignorar.
Por Tiago Marques, editor sénior de mercados da HOGE Wire.