Compressão das taxas nas L2: a previsão para 2026 e 2027
As taxas das redes L2 do Ethereum caíram mais de 99% desde 2024. Analisamos até onde a compressão pode ir, com a Fusaka já ativa e a Glamsterdam à vista.
As taxas de transação nas redes Layer 2 (L2) do Ethereum tornaram-se quase invisíveis para o utilizador comum. Uma transferência que em 2024 custava vários cêntimos paga-se hoje, em muitas dessas redes, por menos de meio cêntimo de euro. Para quem constrói, investe ou simplesmente usa estas redes, a pergunta deixou de ser se as taxas vão descer; passou a ser até onde podem cair, e o que poderia inverter a tendência.
Esta análise integra o nosso conjunto de previsões. Cruzámos os dados disponíveis em junho de 2026, o calendário técnico do Ethereum (já com a atualização Fusaka ativa e a Glamsterdam no horizonte) e o enquadramento regulatório que entra em vigor em Portugal a 1 de julho. O objetivo é traçar cenários plausíveis, não certezas.
De cêntimos a frações de cêntimo: o ponto de partida
A queda foi brutal e rápida. Segundo dados agregados de mercado, a taxa média das três maiores L2 (Arbitrum, Base e Optimism) caiu cerca de 99,16%, de perto de 0,18 dólares por transação no primeiro trimestre de 2024 para aproximadamente 0,0015 dólares no primeiro trimestre de 2026. Em euros, falamos de algo abaixo de meio cêntimo para uma operação simples. Os painéis públicos de taxas, como o l2fees.info, confirmam o mesmo padrão: o custo de usar uma L2 colou-se ao chão.
Este movimento aconteceu num período em que o próprio preço da ETH recuou. Com a ETH a transacionar perto dos 1.400 euros no final de junho, segundo a CoinGecko, a componente da taxa que depende do preço do ativo também ajudou. Mas o grosso da compressão não veio do preço; veio de mudanças estruturais na forma como as L2 publicam dados no Ethereum.
Porque caíram as taxas: a EIP-4844 e os blobs
Uma L2 executa transações fora da cadeia principal, mas precisa de publicar dados no Ethereum para herdar a sua segurança. Até março de 2024, esses dados iam para o espaço de calldata, que compete diretamente com todas as outras transações da rede principal e é caro. A atualização Dencun mudou as regras com a EIP-4844, conhecida como proto-danksharding.
A EIP-4844 criou os blobs: pacotes de dados temporários, com um mercado de taxas próprio e separado do gás normal, que desaparecem ao fim de cerca de 18 dias. Como descreve a documentação oficial do Ethereum, o objetivo é dar às L2 espaço barato e dedicado para os seus dados. O efeito foi imediato: o custo dos dados para as L2 caiu mais de 90% e as taxas ao utilizador seguiram o mesmo caminho.
Pectra e Fusaka empurraram a capacidade para cima
Os blobs não ficaram parados. A atualização Pectra, em maio de 2025, trouxe a EIP-7691, que subiu o número de blobs por bloco de um alvo de 3 e máximo de 6 para um alvo de 6 e máximo de 9. A especificação detalhada está no repositório de EIP no GitHub, e era assumidamente uma medida de curto prazo, à espera de algo maior.
Esse algo maior chegou com a Fusaka, ativa na mainnet desde 3 de dezembro de 2025, segundo o anúncio da Ethereum Foundation. A peça central é o PeerDAS (Peer Data Availability Sampling), que permite aos validadores verificar amostras dos dados em vez de descarregar todos os blobs por inteiro. Isto torna seguro elevar muito a capacidade.
Na prática, a Fusaka introduz aumentos por fases (os chamados BPO). Como resume a CoinGecko, o alvo e o máximo de blobs sobem para 10 e 15 numa primeira fase e para 14 e 21 numa segunda, com a capacidade de dados a poder multiplicar-se por oito face ao ponto de partida. A The Block nota ainda que a Fusaka inaugura uma cadência de duas atualizações por ano, o que acelera todo o calendário.
Quanto custa hoje uma transação numa L2
Os valores variam com a rede, o tipo de operação e a congestão do momento, mas a ordem de grandeza é clara. A tabela seguinte resume estimativas de custo em euros para junho de 2026, com a rede principal como referência.
| Rede | Tipo de rollup | Transferência simples | Swap típico |
|---|---|---|---|
| Base | Optimistic (OP Stack) | menos de 0,01 € | 0,01 a 0,05 € |
| Optimism | Optimistic (OP Stack) | 0,01 a 0,02 € | 0,02 a 0,08 € |
| Arbitrum One | Optimistic | 0,02 a 0,05 € | 0,02 a 0,10 € |
| zkSync Era | ZK | menos de 0,02 € | 0,01 a 0,05 € |
| Ethereum (referência) | Camada base | 0,20 a 0,90 € | 1 a 5 € |
O contraste com a rede principal continua enorme. Mesmo num dia calmo, uma simples troca de tokens no Ethereum pode custar o equivalente a centenas de transações numa L2 barata. É este fosso que sustenta a tese de que a atividade vai continuar a migrar para as L2.
Rollups otimistas e ZK: dois caminhos para a mesma compressão
Nem todas as L2 chegam ao mesmo preço pela mesma via. O mercado divide-se em dois grandes grupos. Os rollups otimistas, como a Arbitrum, a Base e a Optimism, assumem que as transações são válidas e só as contestam dentro de uma janela de disputa, normalmente de sete dias. Os rollups de validade, ou ZK, como a zkSync Era, a Starknet ou a Linea, geram uma prova criptográfica que confirma cada lote de transações antes de o enviar para o Ethereum.
Para o utilizador, a diferença mais visível está nos levantamentos. Num rollup otimista, retirar fundos para a rede principal pode demorar dias, a menos que se use um serviço de saída rápida; num rollup ZK, a saída é tendencialmente mais curta porque a prova já garante a validade. No custo por transação, porém, ambos os modelos dependem hoje sobretudo do preço dos blobs, e é por isso que toda a família beneficiou das mesmas atualizações.
Onde a diferença pode pesar na previsão é no custo de gerar provas. Produzir uma prova ZK exige computação intensa, mas esse custo tem caído de forma acentuada com melhores sistemas de prova e hardware dedicado. Se essa tendência se mantiver, os rollups ZK ganham margem para baixar taxas e pressionar os otimistas, o que reforça o nosso cenário de compressão continuada. A concorrência entre os dois modelos é, no fundo, mais uma força a empurrar o preço para baixo.
O que pode interromper a queda
A compressão não é uma linha reta garantida. O mercado de blobs tem um alvo por bloco; quando a procura ultrapassa esse alvo de forma sustentada, a taxa base dos blobs sobe de forma exponencial, tal como acontece com o gás normal. Por outras palavras, capacidade maior não significa capacidade infinita. Há vários fatores que podem voltar a empurrar as taxas para cima:
- Procura induzida: taxas baixas atraem aplicações de elevado volume (redes sociais on-chain, jogos, pagamentos com stablecoins), que consomem o espaço libertado.
- Mais L2 a competir: dezenas de rollups partilham o mesmo espaço de blobs no Ethereum e, quando todas crescem ao mesmo tempo, disputam a mesma capacidade.
- Picos de mercado: em fases de euforia, a atividade dispara e os blobs enchem-se, sobretudo antes de novas subidas de capacidade entrarem em vigor.
- Modelos de receita dos sequenciadores: várias L2 dependem da margem entre o que cobram e o que pagam ao Ethereum e podem resistir a baixar taxas ao mínimo absoluto.
Há um padrão histórico a ter em conta: sempre que o Ethereum criou espaço barato, esse espaço acabou por ser ocupado. Foi assim depois da Dencun, quando o volume de transações nas L2 disparou e absorveu parte da poupança. Não significa que as taxas voltem aos valores de 2023, mas ajuda a explicar por que razão a compressão tende a estabilizar num patamar baixo em vez de desaparecer por completo. Para o leitor, a leitura prática é simples: contar com taxas residuais, sem assumir que serão sempre nulas.
Três cenários para as taxas em 2026 e 2027
Combinando a capacidade já disponível após a Fusaka com a evolução provável da procura, traçamos três cenários para o custo típico de um swap numa L2 generalista até ao final de 2027.
| Cenário | Pressão sobre os blobs | Swap típico numa L2 | Pressupostos |
|---|---|---|---|
| Compressão continua | Procura moderada, capacidade folgada | menos de 0,01 € | BPO totalmente ativos, sem aplicação de massas |
| Equilíbrio | Procura forte mas absorvível | 0,01 a 0,03 € | Crescimento de stablecoins e jogos, concorrência entre L2 |
| Pressão | Picos recorrentes acima do alvo | 0,05 a 0,20 € em picos | Mercado em alta e evento viral antes da Glamsterdam |
O nosso cenário base é o de equilíbrio. A capacidade pós-Fusaka é generosa, mas a história mostra que o espaço barato tende a ser preenchido. Esperamos taxas medianas estáveis na casa do cêntimo, com picos pontuais em momentos de euforia. A queda para zero absoluto é improvável enquanto os sequenciadores precisarem de cobrir custos.
Glamsterdam e o caminho para o danksharding completo
O próximo grande marco é a Glamsterdam, a atualização seguinte à Fusaka. Segundo o roteiro oficial do Ethereum, tem como alvo o final de agosto de 2026, com uma janela realista entre setembro e dezembro. As suas propostas centrais, a EIP-7732 (separação entre proponente e construtor de blocos) e a EIP-7928 (listas de acesso ao nível do bloco), preparam a rede para processar transações em paralelo.
Para as taxas das L2, o que interessa é a direção. A Glamsterdam avança os objetivos de escalar a camada base e os blobs e abre caminho ao danksharding completo, a meta de longo prazo em que a capacidade de dados deixa de ser o estrangulamento. Cada passo nessa direção retira pressão sobre o preço dos blobs e, por arrasto, sobre o que o utilizador paga. A cadência semestral faz com que estes saltos passem a chegar mais depressa.
MiCA, CMVM e o enquadramento em Portugal
Taxas quase nulas mudam a equação dos pagamentos, e é aqui que a regulação entra. Portugal aprovou no final de 2025 a lei que concretiza o regulamento europeu MiCA, que produz efeitos plenos a partir de 1 de julho de 2026, ou seja, já esta semana. A supervisão fica repartida: o Banco de Portugal autoriza os prestadores de serviços e regula as stablecoins, enquanto a CMVM assume a supervisão comportamental do mercado.
O regime traz um quadro sancionatório duro, com coimas que podem chegar aos 5 milhões de euros, e quatro objetivos declarados: proteger quem detém criptoativos, assegurar a integridade do mercado, salvaguardar a estabilidade financeira e responder a riscos para a política monetária. O contexto europeu é coordenado pela ESMA. Para o tema deste artigo, a leitura é direta: quando enviar stablecoins numa L2 custar uma fração de cêntimo, o fator que decide a adoção em Portugal passa a ser a confiança regulatória, não o custo técnico.
Para empresas e utilizadores em Portugal, a combinação é relevante. Pagar um serviço ou liquidar uma fatura com stablecoins numa L2 deixa de ter um custo proibitivo, e passa a fazer-se dentro de um quadro com regras claras de proteção e de combate ao branqueamento. As plataformas que queiram operar legalmente terão de obter autorização e cumprir deveres de informação, o que tende a afastar os atores menos sérios. O custo técnico deixa de ser a barreira; a barreira passa a ser a conformidade.
O que vigiar nos próximos meses
Para acompanhar esta previsão sem depender de manchetes, vale a pena olhar para alguns indicadores concretos ao longo do segundo semestre de 2026:
- A taxa base dos blobs: enquanto se mantiver perto do mínimo, a compressão segura-se; subidas sustentadas são o primeiro sinal de pressão.
- A ativação plena dos BPO da Fusaka e o seu efeito real na capacidade disponível.
- O calendário e o conteúdo final da Glamsterdam, que pode confirmar ou adiar o próximo salto de escala.
- A entrada em funcionamento do regime MiCA em Portugal e as primeiras autorizações concedidas pelo Banco de Portugal e pela CMVM.
A tendência de fundo é clara: o custo de usar uma L2 caminha para o irrelevante, e a tecnologia para lá chegar já está em produção. O que continua em aberto é o ritmo, e se a procura permitirá que o preço acompanhe a capacidade. Para o leitor em Portugal, a boa notícia é dupla; as taxas já quase não pesam e o enquadramento legal começa, finalmente, a dar previsibilidade ao resto.
Por Ricardo Tavares, editor sénior da HOGE Wire.