Compressão de taxas nas L2: até onde podem cair em 2026?
As taxas das rollups caíram para cêntimos após a Fusaka e a expansão dos blobs. Vemos até onde pode ir a compressão em 2026 e o que muda para quem usa cripto em Portugal.
Durante anos, o custo de usar a Ethereum foi o principal travão à adoção. Em picos de procura, uma simples troca de tokens podia custar dezenas de euros. Esse cenário mudou de forma radical: hoje, uma transferência numa rollup de segunda camada (L2) custa menos de dois cêntimos, e a tendência aponta para baixo. Para quem investe, constrói ou apenas movimenta cripto em Portugal, a pergunta já não é se as taxas vão descer, mas até onde.
A resposta depende de três forças que se cruzam em 2026: a expansão da capacidade de dados na Ethereum, um novo piso técnico que impede as taxas de chegarem a zero e a procura induzida por custos mais baixos. Reunimos os números, o calendário das atualizações e uma previsão fundamentada para os próximos meses, sem esquecer o enquadramento regulatório que passou a valer em Portugal a partir de 1 de julho.
O que é a compressão de taxas nas L2
As rollups (Arbitrum, Base, Optimism, zkSync, entre outras) executam transações fora da cadeia principal e depois publicam um resumo comprimido dos dados na Ethereum. Esse passo de publicação é o que garante a segurança e foi, durante muito tempo, a parte mais cara da conta. Até março de 2024, as rollups competiam pelo mesmo espaço de bloco que qualquer outra transação, o que tornava as taxas voláteis e caras.
A EIP-4844, ativada na atualização Dencun, criou um espaço dedicado chamado blobs (bolhas de dados temporárias) com um mercado de preços próprio. O custo de uma transação numa L2 passou a ter duas parcelas: uma fração mínima de execução na própria rollup e o preço do blob na camada base. Quando o preço do blob cai, a fatura do utilizador cai quase na mesma proporção. Antes dos blobs, os dados podiam representar mais de 90% do custo de uma transação numa rollup, pelo que qualquer alívio no preço do espaço de dados chega quase intacto ao utilizador. É essa descida estrutural, e não uma promoção pontual, que se designa por compressão de taxas.
Da Dencun à Fusaka: como chegámos aqui
O caminho até aos cêntimos foi feito por etapas. A Dencun introduziu os blobs com um alvo de três e um máximo de seis por bloco. Em maio de 2025, a atualização Pectra elevou esses valores através da EIP-7691, passando o alvo para seis e o máximo para nove. O salto mais recente veio com a Fusaka.
Segundo o anúncio da Ethereum Foundation, a Fusaka entrou em funcionamento na rede principal (mainnet) a 3 de dezembro de 2025. Não aumentou de imediato o número de blobs, mas preparou o terreno para o fazer de forma gradual e segura, através de atualizações dedicadas apenas a parâmetros, as chamadas BPO (Blob Parameter Only). A primeira, a 9 de dezembro de 2025, levou o alvo para dez e o máximo para quinze; a segunda, a 7 de janeiro de 2026, elevou-os para catorze e vinte e um. Em pouco mais de um mês, a capacidade de dados da rede mais do que duplicou.
PeerDAS: o motor da próxima descida
O elemento central da Fusaka é o PeerDAS, definido na EIP-7594. Até aqui, cada nó completo da rede tinha de descarregar e verificar todos os blobs, o que limitava a capacidade ao que o nó mais modesto conseguia aguentar. Com a amostragem de disponibilidade de dados (data availability sampling), cada nó passa a verificar apenas uma fração dos dados e confia na verificação coletiva do resto. Na prática, a rede pode transportar muitos mais blobs sem exigir hardware mais caro aos validadores. Os blobs são temporários por definição: cada nó guarda-os apenas cerca de 18 dias, tempo suficiente para as provas das rollups, o que ajuda a conter os custos de armazenamento à medida que a capacidade sobe.
É esta arquitetura que torna credível o calendário que os programadores centrais têm vindo a traçar: novas BPO ao longo de 2026, com o objetivo de aproximar a rede dos 48 blobs por bloco em meados do ano e, no horizonte do danksharding completo, 128 blobs por bloco. Cada aumento de oferta pressiona o preço do blob para baixo e, com ele, a taxa que o utilizador final paga. A Optimism descreveu a atualização como o passo que permite escalar a sua Superchain sem sacrificar a segurança da camada base.
Quanto custa hoje transacionar numa L2
Os números atuais ajudam a dimensionar a descida. De acordo com o painel growthepie, o custo mediano de uma transferência simples de stablecoin em abril de 2026 ficou abaixo de quatro cêntimos na maioria das grandes rollups. Os valores da tabela estão convertidos para euros a uma taxa aproximada de 1,10 dólares por euro; como o growthepie cota em dólares, são aproximações.
| Rollup | Tipo | Custo mediano (abril de 2026) |
|---|---|---|
| Base | Optimistic | ~0,018 EUR |
| OP Mainnet (Optimism) | Optimistic | ~0,027 EUR |
| Starknet | ZK | ~0,027 EUR |
| Arbitrum One | Optimistic | ~0,036 EUR |
| Linea | ZK | ~0,036 EUR |
| zkSync Era | ZK | ~0,045 EUR |
| Scroll | ZK | ~0,055 EUR |
Para contexto, a mesma transferência na Ethereum L1 custa tipicamente entre um e vários euros, consoante a congestão. Estes valores referem-se a transferências simples; trocas em DEX e interações mais complexas custam entre três e dez vezes mais, como assinala o L2fees.info. Com a ETH a cotar cerca de 1.420 euros no início de julho, segundo a CoinGecko, a componente em euros destas taxas mantém-se residual mesmo quando o preço do ativo sobe.
Porque as taxas não vão chegar a zero
Há um limite para esta descida e foi desenhado de propósito. Antes da Fusaka, quando a oferta de blobs excedia largamente a procura, o preço do blob colapsava para o mínimo técnico, praticamente zero. Isso agrada ao utilizador no curto prazo, mas mina o mercado de dados e reduz a quantidade de ETH queimada quase a nada.
A EIP-7918, incluída na Fusaka, introduziu um piso: o preço base do blob não pode descer abaixo de um valor proporcional ao custo de execução do bloco. Por outras palavras, mesmo em períodos de baixa procura, as rollups pagam sempre uma fração relevante do custo real que impõem aos nós. Para o utilizador, isto quer dizer que a taxa de uma L2 pode aproximar-se de zero, mas não vai lá chegar; estabiliza num patamar baixo mas positivo. Para a Ethereum, garante um fluxo mínimo de ETH queimada e um mercado de dados que continua a funcionar.
Previsão: até onde podem cair as taxas em 2026
Juntando as peças, é possível traçar cenários. A modelação da Ethereum Foundation apontava para uma queda adicional de 40% a 60% nas taxas das rollups nos primeiros meses após a Fusaka, com potencial para reduções superiores a 90% à medida que a capacidade sobe. Os dados de abril de 2026 já refletem parte desse efeito. Em muitas rollups, o custo mediano já se encontra na casa dos dois a quatro cêntimos, um nível impensável há dois anos.
Num cenário base, com as BPO a decorrerem como planeado e a procura a crescer de forma ordenada, é razoável esperar que a transferência mediana nas principais rollups estabilize entre um e três cêntimos ao longo do segundo semestre. Num cenário otimista, com a rede próxima dos 48 blobs por bloco e a procura ainda contida, os custos podem descer até ao piso definido pela EIP-7918, aproximando-se de meio cêntimo em algumas redes.
O contra-argumento chama-se procura induzida. Quando transacionar custa quase nada, surgem casos de uso que antes não faziam sentido: micropagamentos, jogos on-chain, agentes automatizados. Se essa procura crescer mais depressa do que a oferta de blobs, o preço do blob volta a subir e absorve parte da poupança. É o velho paradoxo de Jevons aplicado ao espaço de dados. O piso da EIP-7918 e o teto dos 128 blobs delimitam a faixa em que este cabo de guerra se vai jogar.
O que muda para o utilizador em Portugal
A tecnologia é global, mas o acesso é regulado. A 1 de julho de 2026 terminou o período transitório do regulamento MiCA em Portugal, previsto na Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro. Na prática, os prestadores de serviços de criptoativos (CASP) que não tenham obtido autorização já não podem angariar novos clientes nem promover serviços na União Europeia; ficam limitados a permitir que os utilizadores transfiram ou fechem posições.
A supervisão está repartida: o Banco de Portugal trata do registo e das questões prudenciais e de stablecoins, enquanto a CMVM assume a supervisão comportamental do mercado, incluindo a prevenção de abusos e o tratamento de reclamações. Para quem usa L2 a partir de Portugal, a descida das taxas não altera estas obrigações: a MiCA regula os prestadores de serviços (as exchanges e os custódios), não a infraestrutura das rollups em si. Os derivados de cripto, recorde-se, continuam sob a MiFID II (DMIF II) e não sob a MiCA.
Há, ainda assim, um efeito indireto que a CMVM acompanha de perto. Taxas quase nulas incentivam mais atividade de retalho on-chain, mais experimentação e, potencialmente, mais exposição a fraudes. Custos baixos não eliminam o risco de contraparte nem o risco associado aos contratos inteligentes, e uma transação barata continua a ser irreversível.
Riscos e sinais a vigiar
Nenhuma previsão sobrevive ao contacto com o mercado sem ressalvas. Ficam os principais riscos e indicadores a acompanhar nos próximos meses:
- Procura de blobs: se várias rollups grandes disputarem o espaço em simultâneo, o preço base do blob sobe e a compressão trava. Vale a pena seguir o preço do blob em painéis como o growthepie.
- Concentração de sequenciadores: taxas baixas valem pouco se a ordenação das transações estiver nas mãos de poucos operadores; a descentralização dos sequenciadores continua por resolver.
- Custo de execução: com o blob quase gratuito, a fração de execução na própria rollup ganha peso relativo e torna-se o próximo alvo de otimização.
- Próxima atualização: a seguir à Fusaka, a comunidade prepara a atualização provisoriamente designada Glamsterdam, que poderá trazer novas alterações à camada de execução e ao mercado de dados.
Para o utilizador português, a leitura é simples: 2026 deve consolidar as taxas das L2 num patamar de cêntimos, com margem para descerem mais se a oferta de blobs continuar a crescer mais depressa do que a procura. O piso técnico garante que não há almoços grátis eternos, e o novo enquadramento da MiCA lembra que a escolha do prestador conta tanto como o custo da transação.
Por Ricardo Fontes, editor sénior da HOGE Wire.