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● Predictions & Forecasts

Compressão das taxas nas L2: previsão para 2026 e 2027

As taxas das Layer 2 da Ethereum caíram para cêntimos depois da Fusaka e dos forks de blob. Analisamos até onde pode ir a compressão em 2026 e 2027 e o que a pode travar.

As taxas de transação nas redes Layer 2 da Ethereum caíram para frações de cêntimo, um patamar que era impensável há dois anos. A pergunta que interessa aos leitores e aos investidores já não é se as taxas descem, mas até onde podem descer e o que as impede de chegar a zero. Depois da Fusaka, ativada a 3 de dezembro de 2025, e dos dois forks de parâmetros de blob que se seguiram, a Ethereum multiplicou o espaço de dados disponível para os rollups. O resultado é uma compressão de taxas que parece imparável, mas que tem travões técnicos concretos.

Esta análise faz parte do nosso trabalho de previsões e procura separar o que já está garantido do que ainda depende da procura, da concorrência entre soluções de disponibilidade de dados e das decisões dos próprios rollups. Com a Ethereum a cotar cerca de €1.497 no início de julho de 2026, segundo a CoinGecko, o custo em euros de uma transferência simples numa L2 é hoje residual. Mas residual não é gratuito, e a diferença explica boa parte do que se segue.

O estado atual das taxas nas L2 em 2026

Uma transferência simples numa das grandes L2 custa hoje entre um e cinco cêntimos de euro, dependendo da rede e do momento. Os dados agregados da L2BEAT e do l2fees.info mostram a Base e a OP Mainnet no extremo mais barato, com os rollups de conhecimento zero (ZK) a rondar valores semelhantes depois de várias otimizações de prova. A tabela abaixo resume as medianas observadas no primeiro semestre de 2026, convertidas de dólares para euros à taxa de câmbio em vigor.

Rede (L2)Tipo de rollupTaxa mediana (transferência simples)
BaseOptimisticcerca de €0,02
OP MainnetOptimisticcerca de €0,03
Arbitrum OneOptimisticcerca de €0,04
LineaZKcerca de €0,04
zkSync EraZKcerca de €0,05
ScrollZKcerca de €0,05
Medianas do primeiro semestre de 2026, valores aproximados convertidos de dólares. Fontes: L2BEAT e l2fees.info.

Convém contextualizar a escala. A atividade nas L2 já ultrapassa a da mainnet numa proporção que oscila entre cinco e dez para um em dias normais, e a Base processa vários milhões de transações diárias. Este volume só é possível porque o custo marginal por transação colapsou. Quando uma transferência custa dois cêntimos, o atrito do gás deixa de pesar na decisão da maioria dos utilizadores.

De onde veio a compressão: a EIP-4844 e a Dencun

A história recente das taxas começa em março de 2024, com a atualização Dencun e a introdução da EIP-4844, conhecida como proto-danksharding. Até aí, os rollups publicavam os dados das suas transações no espaço de calldata da mainnet, competindo diretamente com todas as outras operações pelo mesmo gás caro. A EIP-4844 criou um mercado separado, os blobs, blocos de dados temporários com o seu próprio mecanismo de taxas e que são apagados ao fim de cerca de 18 dias.

O efeito foi imediato. O custo dos dados para as L2 caiu mais de 90 por cento e as taxas para o utilizador final passaram de dólares para cêntimos. A Dencun definiu um alvo de três blobs por bloco, com um máximo de seis. Foi o primeiro grande passo de uma estratégia deliberada de escalar a Ethereum através da disponibilidade de dados, e não do processamento no L1.

Fusaka, PeerDAS e os forks de blob

O salto seguinte chegou com a Pectra, em maio de 2025, que subiu o alvo para seis blobs e o máximo para nove. Mas a mudança estrutural foi a Fusaka. Ativada a 3 de dezembro de 2025, segundo o anúncio da Ethereum Foundation, trouxe a EIP-7594, o PeerDAS. Em vez de cada nó ter de descarregar todos os blobs, o PeerDAS permite verificar a disponibilidade dos dados por amostragem, o que reduz os requisitos de largura de banda e abre caminho para muito mais blobs por bloco.

A capacidade extra não chegou toda de uma vez. A Fusaka introduziu um mecanismo chamado Blob Parameter Only (BPO), forks ligeiros que sobem apenas os parâmetros de blob sem exigir uma atualização completa da rede. Como noticiou a CoinDesk, o objetivo declarado era baixar os custos de operação de um nó e acelerar a liquidação das L2. O The Block confirmou o segundo e último fork planeado a 7 de janeiro de 2026.

Atualização ou forkDataBlobs alvoBlobs máximo
DencunMarço 202436
PectraMaio 202569
Fusaka3 dez. 202569
BPO19 dez. 20251015
BPO27 jan. 20261421
Do alvo de 3 blobs da Dencun ao alvo de 14 do BPO2, o espaço de dados para rollups multiplicou-se por mais de quatro. Fonte: Ethereum Foundation.

Em números redondos, o espaço de blobs por bloco mais do que duplicou face ao período pré-Fusaka e ficou quase cinco vezes acima do patamar inicial da Dencun. As estimativas dos programadores apontavam para cortes adicionais de 40 a 60 por cento nas taxas de dados das L2, e foi mais ou menos isso que se observou no primeiro trimestre de 2026.

O travão da compressão: a EIP-7918 e o piso das taxas

Aqui está o ponto que muitas análises ignoram e que é decisivo para qualquer previsão. A Fusaka não trouxe apenas mais blobs; trouxe também a EIP-7918, que estabelece um piso para a taxa base de blob, ancorado ao custo de execução do L1. Por outras palavras, mesmo quando a oferta de blobs excede largamente a procura, a taxa não pode cair para perto de zero de forma persistente.

A lógica é de engenharia económica. Blobs demasiado baratos convidam ao desperdício e a picos de congestionamento imprevisíveis; um piso mantém o sinal de preço vivo e torna o custo mais previsível para quem constrói rollups. A consequência prática é enorme. A partir de agora, o custo dos dados de uma L2 deixa de ser ditado pela escassez de blobs, porque há blobs a mais, e passa a ser ditado por este piso, pela eficiência da compressão de dados de cada rollup e pela margem que o sequencer decide cobrar.

É esta a razão pela qual prever taxas totalmente gratuitas nas L2 é um erro. Existe um limite inferior desenhado de propósito. A compressão continua, mas muda de natureza.

A previsão para 2026 e 2027

Com estes elementos na mesa, é possível traçar três cenários para os próximos dezoito meses.

  • Cenário central, o mais provável: com o excedente de espaço de blobs depois do BPO2, a taxa base assenta no piso da EIP-7918 na maior parte do tempo. As taxas para transferências simples estabilizam em torno de um a poucos cêntimos de euro, com picos raros e curtos durante eventos de procura extrema. A compressão adicional é marginal e vem de otimizações de execução, não de mais blobs.
  • Cenário otimista, compressão agressiva: a adoção de rollups nativos e de melhor compressão de dados, somada à concorrência entre sequencers, empurra as taxas para frações de cêntimo de forma sustentada. Swaps abaixo de um cêntimo tornam-se comuns nas redes mais eficientes.
  • Cenário adverso, reversão parcial: uma nova vaga de procura, seja de memecoins, de inscriptions ou de novos rollups de alto débito, satura o alvo de blobs. A taxa base sobe acima do piso e os picos regressam, embora o teto de 21 blobs por bloco amorteça muito o impacto face a 2024.

O fio condutor dos três cenários é o mesmo. A grande compressão, a que levou as taxas de dólares para cêntimos, já aconteceu. O que resta é uma margem estreita entre o piso técnico e o valor atual, e é nessa margem que se vai jogar a competição de 2026 e 2027.

O que pode reverter a queda

Do lado da procura, o risco mais óbvio é o número de rollups. Já existem dezenas de redes a competir pelo mesmo espaço de blobs, e cada novo rollup, ou cada L3 construída sobre uma L2, consome capacidade. Se a procura crescer mais depressa do que os próximos aumentos de parâmetros, os blobs voltam a ser disputados e o piso deixa de ser o preço praticado.

Do lado da oferta há um fator menos intuitivo: a concorrência das camadas de disponibilidade de dados externas, como a Celestia e a EigenDA. Quando um rollup opta por publicar os seus dados fora dos blobs da Ethereum, alivia a procura de blobs e ajuda a manter as taxas baixas, mas troca parte das garantias de segurança da Ethereum por custos menores. É uma faca de dois gumes que os leitores devem compreender antes de escolher em que rede movimentam valor.

Por fim, o MEV e a forma como os sequencers são operados continuam a ser variáveis em aberto. A maioria das grandes L2 ainda depende de um sequencer centralizado que captura parte do valor. Modelos de based sequencing, em que a própria Ethereum ordena as transações, podem redistribuir esse valor e mudar quem beneficia da compressão.

O lado incómodo: menos ETH queimado

A compressão de taxas tem um custo para a narrativa económica da Ethereum. Quando as L2 pagam quase nada pelos blobs e o L1 processa menos transações diretas, queima-se menos ETH através do mecanismo da EIP-1559. O debate sobre se as L2 estão a drenar receita da rede que as sustenta ganhou força ao longo de 2026 e é um dos temas mais discutidos entre analistas.

Para o investidor, a leitura é dupla. Taxas baixas são excelentes para quem usa as aplicações, porque reduzem o atrito e alargam o mercado. Mas taxas baixas no L1 significam menos pressão deflacionária sobre o ativo, o que pode pesar na tese de investimento em ETH a médio prazo. Uma previsão honesta sobre taxas tem de reconhecer esta tensão, em vez de a esconder.

O que muda para o investidor português

As taxas de gás não são reguladas por ninguém; nenhuma autoridade fixa o preço de um blob. A MiCA, o regulamento europeu de criptoativos, supervisiona os prestadores de serviços, os CASP, e não a infraestrutura dos rollups nem o mercado de taxas. Ainda assim, a compressão tem implicações concretas para quem investe a partir de Portugal.

Desde 1 de julho de 2026, o regime da MiCA está plenamente em vigor em Portugal, com supervisão partilhada entre o Banco de Portugal, responsável pela autorização dos CASP, e a CMVM. A CMVM ficou com a supervisão dos Títulos II e VI do regulamento, com coimas que podem chegar aos cinco milhões de euros, e colocou a proteção do investidor de retalho no centro das suas prioridades para 2026, segundo o Jornal Económico.

A ligação é indireta, mas real. Taxas quase nulas reduzem o atrito de mover ativos entre carteiras e plataformas, o que tende a aumentar a atividade de retalho, precisamente a área que a CMVM quer vigiar. Convém sublinhar que taxas baixas não alteram as obrigações das plataformas nem os riscos de contraparte. Uma transação barata numa L2 continua a ser uma transação irreversível, e a proteção do investidor depende da plataforma autorizada que utiliza, não do custo do gás.

Conclusão: até onde vai a compressão

A previsão central é menos espetacular do que os títulos costumam sugerir, mas é mais útil. O espaço de blobs deixou de ser o estrangulamento, a EIP-7918 impôs um piso e a maior parte da compressão possível já foi extraída. Para 2026 e 2027, o cenário mais provável é o de taxas estáveis em torno do cêntimo de euro para operações simples, com picos raros e cada vez mais curtos. Quem esperar taxas totalmente gratuitas vai ficar desiludido; quem receava o regresso dos picos de dezenas de euros pode descansar.

O campo de batalha muda de sítio. Deixa de ser a escassez de dados no L1 e passa a ser a eficiência de execução de cada rollup, a compressão dos dados e a margem que os sequencers cobram. É aí que os leitores devem concentrar a atenção nos próximos meses, porque é aí que se vai decidir o último cêntimo.

Por Tomás Figueiredo, editor sénior de mercados da HOGE Wire.

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