Taxas das L2 da Ethereum: até onde vai a compressão em 2026
As taxas das redes Layer 2 da Ethereum caíram mais de 99% desde 2024. Depois da Fusaka e da EIP-7918, analisamos até onde podem descer e por que motivo não chegam a zero.
As taxas das redes Layer 2 (L2) da Ethereum tornaram-se quase invisíveis para o utilizador comum. Uma transferência simples na Base ou na Arbitrum custa hoje uma fração de cêntimo, quando há três anos a mesma operação podia ultrapassar vários euros em picos de congestionamento na rede principal. Para quem investe ou constrói produtos sobre estas redes, a pergunta relevante já não é se as taxas caíram, porque caíram e de forma brutal, mas sim até onde podem descer a partir daqui e o que impede que cheguem a zero.
Este artigo faz o balanço da compressão de taxas nas L2 após a atualização Fusaka e os forks de parâmetros de blobs, apresenta os números atuais convertidos para euros e traça cenários para 2026 e 2027. Inclui ainda o enquadramento regulatório português, com a CMVM e o Banco de Portugal como autoridades competentes no âmbito do MiCA.
O que já aconteceu: uma queda superior a 99%
A parte mais espetacular da história já pertence ao passado. A introdução dos blobs com a EIP-4844 (proto-danksharding), ativada na atualização Dencun em março de 2024, criou um espaço de dados dedicado e barato para as L2 publicarem as suas transações, cortando os custos de dados em mais de 90%. O efeito nos preços ao utilizador foi imediato e prolongado, porque a maior parte do que uma rollup paga corresponde precisamente à publicação de dados na camada 1.
Os números são claros. A taxa média das três L2 com maior volume, a Arbitrum, a Base e a Optimism, caiu 99,16% entre o primeiro trimestre de 2024 e o primeiro trimestre de 2026, de cerca de 0,18 dólares para 0,0015 dólares por transferência, segundo dados agregados de custos de rollups. Convertido para euros, e com o euro atualmente muito próximo da paridade com o dólar, falamos de frações de cêntimo. Consultar os valores em tempo real em l2fees.info ou no painel de custos da L2BEAT confirma que o grosso da compressão aconteceu num período muito curto. Por outras palavras: o salto de ordem de grandeza que mudou a experiência de utilização já foi dado.
Fusaka, PeerDAS e os forks BPO: mais espaço para blobs
Se a Dencun foi o salto, o ciclo de 2025 e 2026 foi a consolidação. O trajeto de capacidade de blobs seguiu vários passos. A atualização Pectra (maio de 2025, EIP-7691) subiu o alvo de 3 para 6 blobs por bloco e o máximo para 9. A atualização Fusaka, ativada a 3 de dezembro de 2025, introduziu a EIP-7594, conhecida como PeerDAS (amostragem de disponibilidade de dados), que permite aos nós verificar a disponibilidade dos dados por amostragem, em vez de descarregar tudo. É essa técnica que abre caminho a muito mais espaço de blobs sem sobrecarregar os validadores domésticos.
Seguiram-se dois forks de parâmetros de blobs, os chamados BPO (Blob Parameter Only), que alteram apenas os parâmetros sem uma bifurcação completa da rede. O BPO1 (9 de dezembro de 2025) elevou o alvo e o máximo para 10 e 15 blobs, e o BPO2 (7 de janeiro de 2026) para 14 e 21. No conjunto, a rede passou a dispor de cerca de 2,3 vezes mais espaço de blobs do que antes da Fusaka. A Ethereum Foundation detalhou a lógica no anúncio de mainnet, e a própria Optimism confirmou o impacto na sua Superchain. As estimativas de mercado apontavam para um corte adicional de 40% a 60% nos custos de dados das L2, com projeções mais otimistas a falar em 50% a 90% ao longo do tempo.
As taxas das L2 em euros, hoje
O quadro seguinte resume as taxas medianas atuais para uma transferência simples (por exemplo, de uma stablecoin) nas principais L2, segundo agregadores como o l2fees.info e a L2BEAT. Os valores são publicados em dólares; com o câmbio perto da paridade, os montantes em euros são praticamente equivalentes. Importa reter uma ressalva essencial: estes valores referem-se a transferências simples. Trocas (swaps), operações de empréstimo e interações mais complexas de DeFi custam tipicamente 3 a 10 vezes mais em qualquer uma destas redes.
| Rede L2 | Taxa mediana (transferência simples) | Tecnologia |
|---|---|---|
| Base | €0,02 | Optimistic rollup |
| OP Mainnet | €0,03 | Optimistic rollup |
| Arbitrum One | €0,04 | Optimistic rollup |
| Linea | €0,04 | ZK rollup |
| zkSync Era | €0,05 | ZK rollup |
| Scroll | €0,06 | ZK rollup |
Como referência de contexto, a Ethereum (ETH) transacionava perto de 1.560 euros no início de julho de 2026. É o preço do ativo que determina, em última análise, quanto vale em euros cada unidade de gas gasta, um pormenor que se torna decisivo na previsão que se segue.
O travão que muda tudo: a EIP-7918
Aqui reside o ponto mais mal compreendido de toda a previsão. Muita gente assume que, com cada vez mais espaço de blobs, as taxas das L2 acabarão por chegar praticamente a zero. Isso deixou de ser verdade com a Fusaka.
Durante a maior parte de 2024 e 2025, a taxa base dos blobs manteve-se colada a cerca de 1 wei, um valor efetivamente nulo; as rollups obtinham disponibilidade de dados quase de graça e a Ethereum não capturava praticamente nenhum valor. A EIP-7918, incluída na Fusaka, corrige isso ao impor um piso: um blob tem de custar, no mínimo, uma fração fixa da taxa base de execução da camada 1 (aproximadamente 1/15,3). O efeito imediato foi dramático; a taxa base dos blobs disparou aproximadamente 15 milhões de vezes face ao seu piso pré-Fusaka.
A leitura para quem faz previsões é direta. As «taxas gratuitas» nas L2 são um mito: existe agora um piso estrutural ligado ao custo de execução da rede principal. Qualquer compressão adicional terá de vir de outras fontes, e não de mais blobs: melhor compressão de dados, provas de conhecimento zero mais eficientes e margens de sequenciador mais apertadas. A EIP original que abriu esta era, a EIP-4844, criou o mercado dos blobs; a EIP-7918 colocou-lhe um chão.
Previsão: até onde podem cair as taxas
Com o piso da EIP-7918 no lugar, o cenário mais provável é de estabilização, não de nova queda abrupta. Para transferências simples, é razoável esperar que as medianas oscilem numa faixa de cerca de 0,001 a 0,02 euros ao longo de 2026, com as redes mais eficientes (a Base, por exemplo) na extremidade inferior. Para swaps e interações de DeFi, a faixa realista situa-se entre 0,03 e 0,20 euros, consoante a rede e a congestão pontual.
Os fatores que ainda podem empurrar os valores para baixo não são mais blobs, mas sim: compressão mais agressiva de dados de chamada e de diferenças de estado; provas ZK mais baratas de gerar e de verificar; e concorrência entre sequenciadores, que comprime a margem que cada rollup adiciona por cima do custo de dados. Um fator de sentido contrário, muitas vezes esquecido, é o preço do ETH: como o gas é pago em ETH, uma subida material do ativo pode aumentar as taxas em euros mesmo que o número de unidades de gas por transação continue a cair. A previsão de taxas ao utilizador é, por isso, também uma previsão sobre o preço do ativo.
O outro lado: as L2 esvaziam a receita da Ethereum?
A compressão de taxas tem um custo que raramente aparece no ecrã do utilizador: menos ETH queimado. O mecanismo da EIP-1559 destrói parte das taxas pagas na camada 1, e menos transações na rede principal, somadas a blobs baratíssimos, significaram menos queima. A receita de taxas que chega à camada base caiu mais de 95% face aos máximos de 2021.
O exemplo mais citado é o da Base: a rede terá gerado cerca de 94 milhões de dólares de lucro enquanto pagou apenas cerca de 4,9 milhões de dólares à Ethereum, segundo a investigação da Yellow. Este desequilíbrio alimenta o debate sobre se as L2 estão a escalar ou a esvaziar a Ethereum. A EIP-7918 foi, em parte, desenhada para responder a isto: segundo análise da Fidelity Digital Assets, as taxas de blobs poderão contribuir com 30% a 50% da queima total de ETH em 2026. Existe, portanto, uma tensão permanente: o utilizador quer taxas mais baixas, o detentor de ETH quer captura de valor, e cada decisão de governação sobre parâmetros de blobs mexe nos dois pratos da balança. É essa tensão que torna qualquer previsão de taxas dependente de política, e não apenas de tecnologia.
A concorrência pela disponibilidade de dados: Celestia e EigenDA
Há ainda uma variável externa capaz de alterar toda a equação: as camadas de disponibilidade de dados alternativas. Uma rollup não é obrigada a publicar os seus dados nos blobs da Ethereum; pode recorrer a fornecedores como a Celestia ou a EigenDA, tipicamente muito mais baratos. Segundo a Blockworks, quando as L2 pagavam 3,83 dólares por megabyte para publicar dados em blobs da Ethereum, a Celestia cobrava 0,07 dólares pelo mesmo megabyte, cerca de 55 vezes menos.
Esta concorrência é uma faca de dois gumes para a previsão de taxas. Por um lado, dá às rollups uma alavanca para baixar ainda mais os custos, empurrando as taxas ao utilizador para baixo. Por outro, se demasiadas L2 levarem os seus dados para fora da Ethereum, a procura por blobs enfraquece, a queima de ETH mantém-se baixa e o piso da EIP-7918 torna-se menos relevante na prática, porque poucos estarão a usar blobs. O resultado líquido nas taxas depende de qual das forças acabar por dominar, e é essa incerteza que separa um cenário benigno de um cenário de risco.
O que muda para o investidor em Portugal: CMVM e MiCA
As taxas de rede em si não são reguladas, mas as plataformas onde o investidor português compra, guarda e movimenta estes ativos são. O enquadramento é o MiCA, transposto para o direito nacional pela Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, cujo texto pode ser consultado no Diário da República.
O calendário é relevante já este ano. O regime transitório para as entidades que estavam registadas junto do Banco de Portugal termina a 1 de julho de 2026; a partir dessa data, quem não tiver autorização MiCA não pode prestar serviços sobre criptoativos na União Europeia, como explica a análise da CMS. A repartição de competências é clara: a CMVM supervisiona os Títulos II e VI (incluindo abuso de mercado e regras de negociação), enquanto o Banco de Portugal cobre os aspetos prudenciais e as stablecoins (fichas de moeda eletrónica e fichas referenciadas a ativos). As coimas para infrações muito graves vão de 25.000 a 5.000.000 de euros, podendo chegar a 15% do volume de negócios em casos de abuso de mercado. Vale a pena notar que os tokens de L2, como o ARB ou o OP, são criptoativos abrangidos pelo MiCA; já os derivados sobre esses ativos (futuros, perpétuos) são instrumentos financeiros sob a DMIF II (MiFID II), supervisionados pela CMVM enquanto regulador de mercados, e não pelo MiCA.
Cenários para 2026 e 2027
Reunindo as peças, ficam três cenários plausíveis para a evolução das taxas nas L2 nos próximos dezoito meses.
- Cenário base (mais provável): as taxas de transferência estabilizam entre 0,001 e 0,02 euros; a EIP-7918 impede a descida a zero e a compressão adicional vem de eficiência de software, não de mais blobs.
- Cenário favorável ao utilizador: novas técnicas de compressão, provas ZK mais baratas e margens de sequenciador comprimidas empurram as medianas dos swaps de forma consistente para baixo de 0,05 euros, tornando as microtransações verdadeiramente viáveis.
- Cenário de risco para a Ethereum: a fuga de dados para a Celestia ou a EigenDA reduz a procura por blobs, a queima de ETH permanece baixa e a governação é pressionada a rever parâmetros; o utilizador ganha taxas baixas, mas o ativo perde captura de valor.
A conclusão para quem acompanha a tese de investimento em Ethereum e L2 é sóbria: a era das quedas espetaculares de taxas terminou. Entrámos numa fase de afinação fina, em que os ganhos são incrementais e o verdadeiro campo de batalha passou a ser a captura de valor pelo ETH, e não o preço de uma transferência. As taxas abaixo de um cêntimo vieram para ficar, mas o chão que as sustenta é agora tão importante como o teto que já derrubaram.
Por Tomás Rebelo, editor sénior de mercados da HOGE Wire.