Argentina 2027: a cripto e a dolarização rumo às urnas
Na Argentina, a população trocou o peso por dólares em stablecoins muito antes de qualquer lei. A eleição de 2027 será o referendo sobre formalizar essa dolarização de baixo para cima.
Enquanto os mercados de cripto passam o outono de 2026 a contar votos em Washington e a vigiar a próxima moção sobre o CLARITY Act, a experiência mais completa do mundo sobre como uma eleição mexe com a cripto não está a decorrer nos Estados Unidos. Está em Buenos Aires. E corre ao contrário do guião a que a Europa se habituou. Na Argentina, a cripto não espera pela lei nem pelo regulador: a população trocou o peso por dólares digitais muito antes de qualquer decreto, e a eleição presidencial de 24 de outubro de 2027 será, na prática, um referendo sobre formalizar aquilo que os cidadãos já fazem todos os dias na carteira.
No centro dessa história está um presidente que é, ao mesmo tempo, o maior campeão político da cripto e o protagonista do seu maior escândalo. Com o Bitcoin a rondar os 68.771 euros e uma capitalização de mercado de cerca de 1,38 biliões de euros, segundo a CoinGecko (máximo histórico de 107.662 euros), o preço global continua a ser ditado pela liquidez em dólares. Mas é na Argentina que se vê, em estado puro, o que acontece quando o dólar digital deixa de ser especulação e passa a ser sobrevivência. Para quem investe em euros, vale a pena perceber porquê.
Um país que dolarizou na carteira antes de qualquer lei
A estatística que resume a Argentina de 2026 não vem de um comício nem de um boletim de voto. Vem dos livros de ordens. Cerca de 94% de todo o volume de negociação de cripto denominado em pesos passa por stablecoins, de acordo com um relatório da a16z crypto publicado a 30 de agosto de 2026 com dados da Artemis, a quota mais alta registada para qualquer moeda nacional que a empresa acompanha, como noticiou a crypto.news. Aproximadamente um em cada cinco argentinos usa cripto, e nas maiores carteiras locais o padrão é claro: na Lemon, por exemplo, o Bitcoin representa cerca de 36% dos ativos, as stablecoins cerca de 27% e o peso apenas 18%.
A equipa de investigação da a16z crypto resumiu a dinâmica numa frase que devia estar pregada em qualquer análise sobre o país: na Argentina, «comprar cripto com pesos significa comprar dólares». Não se trata de especulação com o token da moda nem de apostar num ciclo de alta. Trata-se de proteger salários e poupanças de uma moeda que perde valor. A inflação mensal foi de 2,1% em julho de 2026 (contra 1,9% em junho) e a inflação anual chegou a 33,8%, um progresso enorme face aos 289% anuais de abril de 2024, mas ainda o suficiente para que guardar poupanças em pesos seja um erro caro. É este o motor: a procura por dólares sintéticos é estrutural, não cíclica.
O detalhe mais revelador é que a adoção não recuou com a desinflação. Mesmo com a inflação a arrefecer e com o governo a aliviar as restrições à compra de dólares desde abril de 2025, os downloads de carteiras continuaram a subir e o prémio do dólar digital sobre a cotação oficial estreitou-se para cerca de 4% no final de agosto de 2026. Por outras palavras, o argentino médio não usa stablecoins só porque não consegue comprar dólares no banco; usa-as porque o dólar digital se tornou a ferramenta financeira quotidiana. Esta é a diferença que separa a Argentina de qualquer discussão europeia sobre stablecoins como veículo de dólar sintético para arbitragem de rendimento: aqui, a stablecoin é o salário, a poupança e o meio de pagamento. E, como qualquer instrumento que a população usa para guardar valor, levanta a questão incómoda da solidez das reservas que garantem esses tokens.
O presidente que é a marca e o passivo da cripto
Javier Milei chegou ao poder em dezembro de 2023 como um economista libertário que prometia três coisas: dolarizar a economia, fechar o banco central e privatizar o sistema de pensões. Foi eleito com o vocabulário da cripto na boca e, poucas semanas depois de tomar posse, o seu governo abriu caminho à legalização de contratos liquidados em Bitcoin e noutras criptomoedas, em dezembro de 2023, como recordou a Cointelegraph. Para o setor, Milei era o sonho: um chefe de Estado que falava de moeda sólida, de escolha individual e de retirar o dinheiro das mãos dos políticos.
O problema é que a mesma proximidade que fez de Milei a marca da cripto argentina fez dele também o seu maior passivo. A aprovação do presidente caiu para cerca de 36% na primavera de 2026, o valor mais baixo desde que tomou posse, segundo a Bloomberg, depois de quatro meses consecutivos de queda e de uma perda de 17 pontos desde janeiro. E, no entanto, o seu partido, La Libertad Avanza, venceu as eleições legislativas intercalares de outubro de 2025 com 40,68% dos votos, um resultado que a NPR descreveu como acompanhado de perto por Washington, mesmo com sondagens a mostrarem uma maioria de argentinos a ver o presidente de forma negativa. Este é o paradoxo que define a política argentina de cripto: um eleitorado que desconfia do homem, mas continua a votar no projeto, porque o projeto lhe dá dólares.
LIBRA: o escândalo que não sai de campanha
Nenhuma análise da cripto argentina rumo a 2027 pode ignorar as quatro letras que assombram a presidência. A 14 de fevereiro de 2025, Milei publicou na rede X uma promoção de um token chamado LIBRA, com uma ligação e detalhes técnicos de acesso, apresentando-o como uma iniciativa privada. Apagou a mensagem horas depois. Nesse intervalo, o token disparou até uma capitalização de cerca de 4,5 mil milhões de dólares e desabou 96%, evaporando aproximadamente 251 milhões de dólares (cerca de 222 milhões de euros) em cerca de 114.000 carteiras, segundo o balanço um ano depois feito pela Mercopress.
| Elemento | Detalhe verificado |
|---|---|
| Data | 14 de fevereiro de 2025 (publicação e remoção no mesmo dia) |
| Pico de capitalização | Cerca de 4,5 mil milhões de dólares, atingido em cerca de uma hora |
| Queda | Cerca de 96% em poucas horas |
| Perdas | Cerca de 251 milhões de dólares em cerca de 114.000 carteiras |
| Criador | Hayden Davis (Kelsier Ventures), token na Solana; carteiras ligadas terão extraído cerca de 100 milhões de dólares |
| Ligações | Sete chamadas com o intermediário Mauricio Novelli na noite do lançamento; minuta de acordo de 5 milhões de dólares no telemóvel de Novelli |
| Estatuto de Milei | Pessoa de interesse, sem acusação formal; ilibado pelo Gabinete Anticorrupção em junho de 2025 |
O caso não desapareceu com o tempo; institucionalizou-se. Uma comissão parlamentar apresentou as suas conclusões a 24 de março de 2026 e, segundo o Buenos Aires Herald, concluiu que o presidente usou o cargo para difundir um alegado esquema fraudulento, implicando também a irmã e secretária-geral da Presidência, Karina Milei. Registos telefónicos divulgados pelo New York Times em abril de 2026, noticiados pela CoinDesk, ligaram Milei às chamadas com Novelli antes e depois da publicação. O presidente não foi formalmente acusado e o Gabinete Anticorrupção classificou a sua mensagem como conduta pessoal, não oficial, mas a investigação criminal federal continua aberta e uma ação coletiva com queixosos da Argentina, dos EUA e do Reino Unido segue nos tribunais. Para 2027, a lição é dupla: a cripto pode eleger, mas a cripto mal usada também pode afundar quem a promove.
Competência de moedas: a política monetária que passa pela cripto
Aqui está a parte que distingue a Argentina de qualquer outro caso do mundo. Milei prometeu dolarizar, mas não dolarizou por decreto. Escolheu um caminho gradual a que chama «competência de moedas»: deixar o peso concorrer livremente com o dólar, o euro, o real, o renminbi e, explicitamente, as criptomoedas, permitindo que cada cidadão escolha em que moeda quer poupar, faturar e pagar. Não é um detalhe retórico. É uma estratégia monetária em que a cripto tem, nas palavras do próprio presidente, um papel central, sobretudo para os jovens profissionais que trabalham para o estrangeiro e recebem em ativos digitais, como descreveu o El Cronista.
A lógica é a de uma dolarização endógena: em vez de forçar a troca de todos os pesos por dólares num só dia, o governo aposta que a economia se dolariza por dentro, à medida que as pessoas abandonam voluntariamente a moeda fraca. «La dolarización va a producirse naturalmente» (a dolarização vai produzir-se naturalmente), repetiu Milei, numa formulação citada pelo iProfesional. Depois de uma reforma da carta orgânica do banco central que fixou um mandato único de preservação do valor da moeda e proibiu o financiamento monetário do Estado, o presidente reafirmou a dolarização como meta final e abriu formalmente essa transição de competência de moedas, segundo o El Vocero. Analistas do Real Instituto Elcano notam que este regime pode consolidar o dólar como unidade de conta muito antes de qualquer lei de dolarização formal. Traduzindo para linguagem de mercado: o Estado argentino está, de propósito, a deixar a cripto fazer parte do trabalho de dolarizar o país.
O colete de Washington: o swap de 20 mil milhões
A experiência argentina não se sustenta sozinha. A 9 de outubro de 2025, o Tesouro dos EUA, liderado por Scott Bessent, anunciou um acordo de troca cambial de até 20 mil milhões de dólares (cerca de 18 mil milhões de euros) com o banco central argentino, usando recursos do Exchange Stabilization Fund para comprar pesos e apoiar a moeda, um objetivo central da administração Milei, como noticiou a Al Jazeera. Até ao fim de outubro de 2025, o banco central argentino já tinha trocado pesos por 2,5 mil milhões de dólares através dessa linha, e Bessent chegou a falar em procurar mais 20 mil milhões junto de investidores privados, de acordo com o relatório do Congressional Research Service.
O que isto significa para quem lê os mercados é simples e pouco confortável: a estratégia de dólar da Argentina, e por extensão o seu ecossistema de dólares digitais, está parcialmente subscrita pelo Tesouro dos EUA. A Cointelegraph descreveu o swap como um reforço dos laços económicos com um dos maiores aliados de Buenos Aires. Isto cria um canal de transmissão que nenhum outro país tem na mesma intensidade: uma mudança de humor político em Washington, ou em Buenos Aires, altera diretamente o custo e a disponibilidade de dólares na economia real argentina. É o oposto de uma carteira em euros protegida por um regime europeu fechado: aqui, a política externa e a política monetária são o mesmo objeto.
2027: o referendo sobre a experiência
A 24 de outubro de 2027, os argentinos vão eleger presidente e vice-presidente, renovar parte da Câmara dos Deputados e do Senado e escolher a maioria dos governadores provinciais. Milei, eleito em 2023, pode recandidatar-se e já manifestou intenção de o fazer. As primeiras sondagens colocam La Libertad Avanza à frente das intenções de voto para 2027, com um estudo da Opinaia a apontar cerca de 42%, embora o cenário esteja longe de fechado: o movimento peronista, agora organizado sob a marca Fuerza Patria, é o principal desafiante, e o Buenos Aires Times descreve o surgimento de uma «terceira via» à medida que a aura de Milei se desvanece.
É por isso que 2027 funciona como um referendo, e não apenas como uma eleição. Não se trata de escolher quem regula a cripto, como acontece nos EUA. Trata-se de decidir se a Argentina continua a caminhar para uma economia dolarizada em que o dólar digital é peça central, ou se trava e regressa a um modelo de maior controlo do peso e das divisas. O eleitor argentino não vota num programa abstrato de política de ativos digitais; vota, na prática, na moeda em que vai poupar durante os próximos quatro anos. Poucas eleições no mundo têm uma ligação tão direta, e tão pouco mediada por lobbies ou comités de ação política, entre o boletim de voto e a carteira digital.
Como o voto argentino chega ao preço
Nos Estados Unidos, o dinheiro da cripto chega às urnas através de comités como o Fairshake e a política de ativos digitais decide-se no Congresso e nos reguladores. Na Argentina, o mecanismo é outro. O voto não financia a cripto; a cripto é o resultado de uma economia em fuga do peso, e o voto decide se essa fuga é acomodada ou combatida. A tabela seguinte mapeia os canais reais pelos quais uma eleição argentina se traduz em preços e fluxos.
| Canal | Como funciona na Argentina | Sinal a vigiar |
|---|---|---|
| Macro (peso e inflação) | A procura por stablecoins sobe quando o peso enfraquece; a desinflação não trava a adoção estrutural | Inflação mensal, prémio do dólar digital sobre a cotação oficial |
| Dólar sintético (stablecoins) | Comprar cripto com pesos é comprar dólares; fluxo de sobrevivência, não de especulação | Quota de stablecoins no volume em pesos, downloads de carteiras |
| Regulação (CNV e PSAV) | A Ley 27.739 e a RG 1058/2025 definem quem pode operar; um novo governo pode apertar ou aliviar | Registo de PSAV, fiscalização e sanções da CNV |
| Alinhamento com Washington | O swap cambial liga a oferta de dólares à relação bilateral EUA-Argentina | Renovação ou ampliação do swap, spreads da dívida soberana |
| Risco político (escândalo) | O caso LIBRA mantém a confiança sob pressão; um choque judicial pode contagiar o peso e o apetite por risco | Avanços do processo, sondagens de aprovação |
Repare-se em como estes canais diferem do modelo que descrevemos ao analisar a cripto nas intercalares norte-americanas de 2026. Nos EUA, o dinheiro entra primeiro, a lei vem depois e o preço reage à expectativa regulatória. Na Argentina, a adoção já existe, massiva e enraizada, e o que a eleição faz é confirmar ou ameaçar as condições macroeconómicas que a sustentam. É a diferença entre um mercado que compra a promessa de regras favoráveis e um povo que já resolveu o problema por conta própria.
A cadeira reguladora: CNV, Ley 27.739 e o PSAV
Por baixo da política, há uma infraestrutura regulatória que qualquer governo pode endurecer ou suavizar. A Ley 27.739, promulgada em março de 2024, criou o registo de fornecedores de serviços de ativos virtuais (PSAV, na sigla local) sob supervisão da Comisión Nacional de Valores (CNV). A camada de implementação viva é a Resolução Geral 1058/2025 da CNV, que regula o perímetro de registo, o capital mínimo, a governação interna, a cibersegurança, a custódia e a proteção dos ativos dos clientes; a maioria das exigências do seu Capítulo III tornou-se aplicável aos PSAV já registados a 31 de dezembro de 2025, como detalha a CryptoSlate. Estão obrigadas a registar-se as empresas com volumes mensais acima de 35.000 UVA (cerca de 29.000 dólares), com deveres de KYC, monitorização de transações e reporte à unidade de informação financeira, em linha com as recomendações do GAFI.
Este é o ponto em que a eleição de 2027 tem consequências concretas e imediatas. A cadeira reguladora é o lugar onde uma mudança de poder se sente primeiro, tal como sublinhámos ao explicar que, muitas vezes, não é a lei, é a nomeação dos árbitros que move a cripto. Um governo de continuidade tenderá a manter uma abordagem de mão leve, coerente com a competência de moedas. Um regresso peronista poderia apertar controlos cambiais e a supervisão de PSAV, não para banir a cripto, mas para reconquistar o controlo sobre a saída de capital em dólares. A adoção de base dificilmente desaparece de um dia para o outro, mas o enquadramento em que opera pode mudar depressa.
O espelho invertido: Argentina e o modelo dos EUA
Vale a pena colocar os dois modelos lado a lado, porque a Argentina é, em muitos aspetos, a imagem invertida do caso norte-americano. E é também o oposto do vizinho: enquanto o Brasil murou a cripto para fora da política, proibindo doações de campanha e apostas eleitorais, a Argentina está de tal forma saturada de dólares digitais que a cripto se tornou o próprio tema económico da eleição.
| Dimensão | Argentina | Estados Unidos |
|---|---|---|
| Sentido da causalidade | De baixo para cima: a população dolariza, a política corre atrás | De cima para baixo: dinheiro cripto, Congresso, reguladores |
| Cripto dominante | Stablecoins de dólar (94% do volume em pesos) | Bitcoin e ETF como ativo de investimento |
| Papel do voto | Referendo sobre formalizar a dolarização | Referendo sobre quem nomeia os árbitros |
| Dinheiro de campanha | Escândalo (LIBRA), não financiamento organizado | Comités de ação política com centenas de milhões |
| Risco principal | Soberano e idiossincrático (peso, dívida, judicial) | Regulatório e legislativo (CLARITY, SEC) |
O contraste não é apenas académico. Diz-nos que a expressão «impacto das eleições na cripto» significa coisas diferentes consoante a economia. Num país de moeda forte, a eleição decide o enquadramento de um ativo de risco opcional. Num país de moeda fraca, a eleição decide as condições de acesso a um instrumento de sobrevivência que já está em uso generalizado. A Argentina é o laboratório onde a segunda versão da tese está a ser testada em tempo real.
O que muda para uma carteira em euros
Para o leitor português, a primeira tentação é aplicar o caso argentino à sua própria carteira. É precisamente aqui que convém ter cuidado. Na União Europeia, o regime de cripto está fechado: o MiCA entrou em plena aplicação e o período de transição terminou a 1 de julho de 2026, como a ESMA sublinhou aos profissionais e aos investidores de retalho. Em Portugal, a Lei 69/2025 transpôs esse quadro, com a CMVM a supervisionar a conduta de mercado e o Banco de Portugal a tratar dos aspetos prudenciais e das stablecoins; as mais-valias de curto prazo (posições detidas menos de 365 dias) continuam a ser tributadas a 28%.
Sob o MiCA, uma stablecoin em euros ou em dólares é um token de moeda eletrónica regulado, com regras de reservas e de resgate, e não um colete salva-vidas contra a hiperinflação. O USDC de um aforrador de Lisboa é uma jogada de conveniência e de rendimento; o USDT de um comerciante de Buenos Aires é a diferença entre preservar ou perder o valor do mês. Dito isto, o caso argentino oferece três ensinamentos concretos a quem investe em euros. Primeiro, o risco soberano e idiossincrático é difícil de cobrir: um choque político na Argentina não se replica facilmente com instrumentos europeus, e apostas diretas nesse tema carregam risco de execução elevado. Segundo, existe um verdadeiro «trade de alinhamento com Washington», visível no swap cambial, que liga o destino do ecossistema argentino à relação bilateral. Terceiro, e talvez o mais importante, a procura por stablecoins em economias de moeda fraca é um piso real e não especulativo para o setor: quando se pergunta quem sustenta a procura estrutural por dólares digitais, boa parte da resposta está em países como a Argentina, a Turquia e a Nigéria, não nas mesas de trading europeias.
Os cenários de 2027 e o que o mercado deve pesar
Faltam mais de doze meses para a votação e as sondagens vão mudar muitas vezes até lá. Mesmo assim, é útil esboçar os cenários e as suas implicações, tratando as probabilidades de forma qualitativa e resistindo à tentação de inventar precisão onde não existe. O único ponto de dados firme é a liderança inicial de La Libertad Avanza nas intenções de voto; o resto é leitura de tendência.
| Cenário | Leitura atual | Implicação para a cripto |
|---|---|---|
| Milei reeleito | La Libertad Avanza à frente nas primeiras sondagens (cerca de 42%, Opinaia) | Continuidade da competência de moedas; stablecoins e cripto mantêm espaço; alinhamento com Washington preservado |
| Terceira via | Emergente e ainda difusa, a ganhar terreno com o desgaste de Milei | Provável moderação; menos ênfase na dolarização formal, sem reversão total da adoção |
| Regresso peronista (Fuerza Patria) | Principal desafiante organizado | Risco de controlos cambiais mais apertados e supervisão de PSAV reforçada; a adoção de base resiste, mas o enquadramento pode endurecer |
O erro a evitar é assumir que qualquer destes cenários apaga a adoção. A procura argentina por dólares digitais nasceu de décadas de instabilidade, não de um único governo, e sobreviveu a controlos cambiais, a proibições e a crises. O que a eleição altera é a velocidade e a fricção: quão fácil é converter pesos em dólares digitais, quão pesada é a supervisão, quão estável é a oferta de dólares que o swap ajuda a garantir.
Onde a tese se parte
Um bom argumento tem de dizer onde falha. E este tem vários pontos frágeis que qualquer leitor honesto deve pesar antes de tratar a Argentina como modelo ou como oportunidade.
Primeiro, a adoção de cripto na Argentina é um sintoma de falha monetária, não um endosso ideológico à tecnologia. Se Milei, ou um sucessor, conseguir estabilizar o peso de forma duradoura, a experiência do Peru e do Uruguai mostra que as economias tendem a des-dolarizar-se lentamente, à medida que a credibilidade da moeda nacional regressa. O sucesso da desinflação pode, ironicamente, erodir o caso de uso das stablecoins ao longo dos anos. Segundo, o efeito no preço global do Bitcoin é limitado: a Argentina é pequena face à liquidez em dólares que fixa a cotação, e um resultado eleitoral em Buenos Aires dificilmente move de forma duradoura o preço em euros que um português vê no ecrã. Terceiro, o risco é idiossincrático e pouco replicável: não existe um instrumento europeu limpo para exprimir uma visão sobre a cripto argentina sem apanhar risco cambial, soberano e político ao mesmo tempo. E quarto, o próprio caso LIBRA é um aviso permanente de que a cripto ligada à política pode destruir valor tão depressa como o cria. Quem confunde entusiasmo político com solidez de projeto já viu, na Argentina, como isso acaba.
O que vigiar entre agora e outubro de 2027
Em vez de tentar adivinhar o resultado, o mais útil é acompanhar os sinais que dizem, mês a mês, se a experiência avança ou trava. Esta é a lista de vigilância a manter até à votação.
- Inflação mensal e anual: a desinflação continua a arrefecer ou estagna acima de níveis toleráveis?
- Quota de stablecoins no volume em pesos e prémio do dólar digital: a procura estrutural mantém-se com controlos mais soltos?
- Renovação ou ampliação do swap cambial com o Tesouro dos EUA e evolução dos spreads da dívida soberana argentina.
- Marcos judiciais do caso LIBRA: novas provas, mudanças de estatuto processual, decisões da ação coletiva.
- Atividade de fiscalização da CNV sobre PSAV e qualquer sinal de aperto ou alívio do perímetro regulatório.
- Sondagens presidenciais e a consolidação (ou não) de uma terceira via face a Fuerza Patria.
- O estado geral da relação Buenos Aires-Washington, que continua a ser o colete que sustenta a estratégia de dólar.
A Argentina não é um caso de estudo exótico à margem da história da cripto. É, talvez, a sua versão mais pura: um país onde milhões de pessoas já votaram com a carteira antes de votarem nas urnas, e onde a eleição seguinte vai apenas dizer se o Estado ratifica ou contraria essa escolha. Para o resto do mundo, incluindo a Europa de moeda forte e regime fechado, é o lembrete de que, quando o dinheiro falha, a cripto deixa de ser uma aposta e passa a ser uma decisão de sobrevivência. E as decisões de sobrevivência, essas, não esperam por leis.
Perguntas frequentes
A Argentina é o país que mais usa stablecoins no mundo?
Em termos de quota do volume de negociação, sim. Cerca de 94% de todo o volume de cripto denominado em pesos passa por stablecoins, a proporção mais alta registada para qualquer moeda nacional acompanhada pela Artemis, segundo um relatório da a16z crypto de agosto de 2026. Aproximadamente um em cada cinco argentinos usa cripto, sobretudo dólares digitais, como forma de proteger poupanças da desvalorização do peso.
O que foi o escândalo LIBRA de Milei?
A 14 de fevereiro de 2025, o presidente Javier Milei promoveu na rede X um token chamado LIBRA, que subiu até cerca de 4,5 mil milhões de dólares de capitalização e desabou 96% em horas, com perdas de aproximadamente 251 milhões de dólares. Uma comissão parlamentar concluiu, em março de 2026, que Milei usou o cargo para difundir um alegado esquema; ele mantém-se pessoa de interesse, sem acusação formal, e a investigação criminal continua aberta.
Milei já dolarizou a economia argentina?
Não por decreto. Milei optou por uma «competência de moedas», deixando o peso concorrer com o dólar, o euro, o real, o renminbi e as criptomoedas, na aposta de que a dolarização ocorra de forma endógena e gradual. Depois de reformar a carta orgânica do banco central, reafirmou a dolarização como meta final, mas mantém uma transição em que a cripto tem papel central.
Quando são as eleições presidenciais na Argentina?
As eleições gerais estão marcadas para 24 de outubro de 2027, com escolha de presidente e vice-presidente, renovação parcial do Congresso e eleição da maioria dos governadores. Milei, eleito em 2023, pode recandidatar-se e já manifestou intenção de o fazer; La Libertad Avanza lidera as primeiras sondagens, com o peronismo, sob a marca Fuerza Patria, como principal desafiante.
A eleição argentina afeta o preço do Bitcoin em euros?
O efeito direto no preço global é limitado, porque a cotação do Bitcoin é fixada pela liquidez em dólares e a Argentina é pequena nesse cálculo. O impacto relevante é local e idiossincrático: mexe na procura por stablecoins, no risco soberano argentino e na relação com Washington, através do swap cambial. Para uma carteira em euros, o caso argentino é sobretudo um indicador da procura estrutural, e não especulativa, por dólares digitais.
Tomás Almeida cobre política monetária, mercados e regulação de cripto na HOGE Wire, a partir de Lisboa.