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● Markets

A comissão não é o custo: o preço real dos ETF de cripto

Outubro virou os fluxos de ETF ao contrário e lembrou uma verdade esquecida: a comissão anunciada é só o início da conta. Tracking error, spread e prémio ao valor decidem o custo real.

Há dois números que dominam quase tudo o que se escreve sobre os exchange-traded funds (ETF) de cripto: o fluxo e a comissão. O fluxo diz quanto dinheiro entrou ou saiu dos fundos num dia ou numa semana; a comissão é a taxa de gestão que aparece no anúncio, 0,15% aqui, 0,25% ali, 1,50% no veterano do costume. Outubro de 2026 encheu as páginas com o primeiro número e, ao fazê-lo, lembrou uma verdade incómoda sobre o segundo: nenhum dos dois é, por si só, o custo de ter Bitcoin ou Ethereum através de um fundo cotado.

Depois de um setembro de recordes, em que as entradas semanais voltaram a terreno positivo, o mês virou. A 7 de outubro saíram 484,9 milhões de dólares dos ETF de Bitcoin numa só sessão, o pior dia desde junho, com o iShares Bitcoin Trust (IBIT) da BlackRock a responder por 207,7 milhões, segundo o Digital Today. A 12 de outubro, uma cascata de liquidações apagou cerca de 771 milhões de dólares em posições alavancadas em 24 horas e empurrou o Bitcoin para baixo dos 82 mil dólares (Bitcoin Foundation). A meio da semana de 19 de outubro, o Bitcoin trocava de mãos a cerca de 82.439 dólares, ou 73.552 euros, quase 35% abaixo do máximo histórico de 107.662 euros (CoinGecko).

Este artigo não é sobre o fluxo. É sobre a conta que fica escondida atrás dele. Entre a comissão anunciada e o dinheiro que o investidor leva mesmo para casa há várias camadas: o tracking error (o erro de replicação), o spread, o prémio e o desconto face ao valor líquido, a diferença entre um mercado que nunca dorme e um fundo que só abre em horário de bolsa e, em Portugal, o imposto. Em meses calmos, essas camadas são quase invisíveis. Em meses como outubro, aparecem todas ao mesmo tempo.

Outubro partiu a narrativa: o mês em que os fluxos viraram

Vale a pena olhar para os números com calma, porque são o pano de fundo de tudo o resto. A entrada em outubro foi positiva: nos primeiros dias, os ETF de Bitcoin ainda somaram cerca de 293 milhões de dólares. A partir daí, o sinal inverteu-se. A semana terminada a 11 de outubro levou 681,1 milhões de dólares, e a seguinte, até 18 de outubro, mais 228,6 milhões, para um total de cerca de 910 milhões em duas semanas, de acordo com o Digital Today. No cômputo do mês, os fundos passaram daqueles 293 milhões de entradas para um saldo negativo de 615 milhões.

O lado do Ethereum foi pior em termos relativos. Os ETF de ETH registaram a terceira semana consecutiva de saídas, com cerca de 320 milhões de dólares a sair na semana até 16 de outubro, dos quais perto de 299 milhões só no fundo da BlackRock (KuCoin). No acumulado do mês, os produtos de Ethereum perderam cerca de 955 milhões, ainda que o saldo do ano continuasse positivo, na ordem dos 814 milhões (KuCoin). O Ethereum seguia a 2.171 euros, mais de 50% abaixo do seu máximo (CoinGecko).

PeríodoFluxo líquido (ETF de Bitcoin, EUA)Nota
7 out-484,9 M$pior sessão desde junho (IBIT -207,7 M$)
15 out+175,7 M$raro dia verde
16 out-261,4 M$maior saída diária do mês
17 out+5,1 M$quase plano
18 out-82,4 M$fim de semana negativo
Semana até 11 out-681,1 M$reversão instalada
Semana até 18 out-228,6 M$segunda semana de saídas
Outubro (até 18)-615 M$depois de +293 M$ no arranque
Fonte: Digital Today, dados de fluxos dos ETF de Bitcoin à vista nos EUA, outubro de 2026.

Repare-se já num detalhe que vai orientar o resto do texto: o Bitcoin caiu cerca de 35% face ao topo e, mesmo assim, as entradas líquidas acumuladas desde o lançamento dos fundos continuavam na casa das dezenas de milhares de milhões de dólares, estimadas pelo Digital Today em cerca de 57,3 mil milhões. Em 2026, o fluxo mensal é volátil; o capital que ficou é pegajoso. Um fluxo negativo não é, portanto, sinónimo de venda em massa, e perceber porquê é o primeiro passo para perceber onde está o custo.

Comissão, fluxo e custo: três números que não são a mesma coisa

Antes de falar de custo, convém separar três ideias que o noticiário costuma misturar.

  • O fluxo é o dinheiro novo que entra (criações) menos o que sai (resgates) num período. Mede procura, não preço.
  • Os ativos sob gestão (AUM) são o valor total do fundo. Sobem e descem com o preço do Bitcoin, mesmo sem um único cêntimo de fluxo novo.
  • A comissão (TER, total expense ratio) é a fatia anual que o emitente cobra sobre esses ativos.

A 16 de outubro, o conjunto dos ETF de Bitcoin à vista nos Estados Unidos geria cerca de 106 mil milhões de dólares, equivalentes a 1.284.465 bitcoins, ou 6,12% de todo o Bitcoin que alguma vez existirá (Bitbo). Só o IBIT detinha 803.871 bitcoins, uns 66,4 mil milhões de dólares, mais de 62% da categoria. Nenhum destes números é o custo. O custo é o que separa o desempenho do fundo do desempenho do Bitcoin, e esse mora noutro sítio.

O custo de posse total: a conta que o anúncio não mostra

Na indústria de fundos há um conceito que raramente chega às manchetes de cripto: o custo total de posse (total cost of ownership). A ideia é simples. A comissão de gestão é apenas uma das parcelas do que custa ter um ETF. As outras são o tracking error, o spread entre compra e venda, o prémio ou desconto a que o fundo negoceia face ao seu valor líquido e, consoante a jurisdição, o imposto. Algumas dessas parcelas são explícitas; a maioria não.

Comece-se pela parcela visível. A tabela de comissões dos ETF de Bitcoin nos Estados Unidos vai de 0,15% no Grayscale Mini a 1,50% no antigo Grayscale Bitcoin Trust (GBTC), com a maioria dos grandes, o IBIT e o FBTC da Fidelity, a cobrar 0,25%, e o Franklin EZBC (0,19%), o Bitwise BITB (0,20%) e o ARKB (0,21%) um pouco abaixo (crypto.news). Parece pouco, e é. Mas a comissão compõe-se ao longo do tempo, e a distância entre 0,25% e 1,50% torna-se enorme num horizonte de anos.

A mesma análise faz as contas: num investimento de 100 mil dólares mantido dez anos, com o preço do Bitcoin estável, a comissão do Grayscale Mini custaria cerca de 1.489 dólares, a do IBIT cerca de 2.472, e a do GBTC uns 14.093, uma diferença de 11.621 dólares entre o mais caro e o mais barato dos grandes. Se o Bitcoin valorizar 15% ao ano, a fatura do GBTC sobe para perto de 53.800 dólares e a do IBIT para cerca de 9.960, e o fosso entre os dois alarga para mais de 43 mil. A comissão é pequena num ano; é decisiva numa década.

Tracking error: quando o ETF não acompanha o Bitcoin

Se a comissão fosse o único custo, o desempenho de um ETF seria exatamente o do Bitcoin menos a taxa. Não é. A diferença real entre o que o fundo rende e o que o ativo subjacente rendeu chama-se tracking difference (diferença de replicação), e a sua variabilidade ao longo do tempo é o tracking error (erro de replicação). São conceitos distintos: a diferença é a média, o erro é o desvio em torno dela. Para o investidor, ambos significam a mesma coisa prática: o fundo nunca replica o Bitcoin na perfeição.

Nos onze ETF de Bitcoin à vista cotados nos Estados Unidos, o tracking error anualizado varia entre cerca de 0,03% e 0,42%, segundo a crypto.news. Os melhores, o IBIT e o FBTC, ficam perto dos 0,03%; os mais pequenos chegam aos 0,42%. Essa dispersão não é aleatória. Vem de quatro fontes principais.

  • Mecânica de criação e resgate: o preço a que as cotas são criadas ou resgatadas nem sempre coincide com o preço de referência do fundo.
  • Cash drag: o dinheiro que fica parado à espera de ser convertido em Bitcoin não rende como o Bitcoin.
  • Calendário de custódia: o momento exato em que o Bitcoin é movido e liquidado introduz pequenos desfasamentos.
  • Spread sobre o ativo: cada compra e venda de Bitcoin pelo fundo paga um spread, que corrói uns pontos-base.

Em meses tranquilos, estes efeitos somam uns pontos-base e passam despercebidos. Num mês como outubro de 2026, com o Bitcoin a abanar 35% abaixo do topo e volumes a disparar nos dias de queda, as fontes de erro aumentam todas ao mesmo tempo: os spreads sobre o ativo alargam, a liquidação fica mais cara e o fundo que replica melhor em dias calmos pode replicar pior num dia de pânico. O tracking error é, no fundo, o custo da promessa de que uma cota segue o Bitcoin.

Prémio e desconto: porque é que o preço cola ao valor (quase sempre)

Um ETF negoceia em bolsa como uma ação, com um preço que muda ao segundo. Mas o fundo tem também um valor líquido (NAV), o valor do Bitcoin que detém a dividir pelo número de cotas. Quando o preço de mercado fica acima do NAV, diz-se que o fundo negoceia com prémio; quando fica abaixo, com desconto. Idealmente, os dois andam colados. A 15 de outubro de 2026, o IBIT negociava a -0,08% face ao NAV, um desconto quase nulo (CompaniesMarketCap).

Por que é que a cola aguenta? Por causa dos authorized participants (AP), os bancos e criadores de mercado autorizados a criar e resgatar cotas diretamente com o emitente. Se o ETF sobe acima do NAV, um AP cria cotas novas (entrega Bitcoin ou dinheiro, recebe cotas) e vende-as no mercado, empurrando o preço para baixo. Se cai abaixo do NAV, resgata cotas e fica com o Bitcoin, empurrando o preço para cima. Essa arbitragem é o mecanismo que mantém o preço do fundo próximo do valor do que ele detém, e é a mesma lógica que move o cash-and-carry por trás da base dos futuros de Bitcoin.

Desde 29 de julho de 2025, a SEC permite criações e resgates em espécie (in-kind) para todos os ETF de Bitcoin e Ethereum à vista, e não apenas em dinheiro (SEC). Para o investidor, isto é boa notícia de custo: menos fricção na arbitragem significa prémios e descontos mais apertados e menos atrito fiscal e operacional dentro do fundo. Quando a máquina funciona, o prémio-desconto fica em torno de zero. O problema é quando a máquina encrava, e aí o GBTC é o manual de instruções do que corre mal.

O fantasma do GBTC: quando o desconto foi o maior custo de todos

Antes de janeiro de 2024, o GBTC não era um ETF. Era um trust fechado: aceitava dinheiro para comprar Bitcoin, mas não tinha mecanismo de resgate. Sem AP para arbitrar, nada obrigava o preço a seguir o NAV. Durante a euforia de 2020 e 2021, negociou com prémio; depois, quando o ciclo virou, afundou para um desconto brutal. A 13 de dezembro de 2022, no auge do contágio pós-FTX, o GBTC negociava a -48,9% face ao valor do Bitcoin que detinha, um recorde (The Block).

Pense-se no que isto significa em custo. Um investidor que detivesse GBTC em dezembro de 2022 tinha exposição a um Bitcoin que valia quase o dobro do que o mercado lhe pagava pela cota. O desconto era, na prática, um custo de saída de perto de 50%, muito maior do que qualquer comissão. E só fechou quando a conversão em ETF, a 11 de janeiro de 2024, abriu finalmente a porta dos resgates e deixou os AP fazerem o seu trabalho. A lição é dura: a estrutura do produto é, ela própria, uma fonte de custo, e a liquidez do mecanismo de arbitragem vale mais do que uns pontos-base de comissão.

O spread e a liquidez: o pedágio invisível de cada ordem

Há um custo que nenhuma tabela de comissões mostra e que o investidor paga sempre que negoceia: o spread entre o preço de compra e o de venda. Num ETF muito líquido, com milhões de cotas a trocar de mãos por dia, esse spread é de um ou dois cêntimos e quase não se sente. Num fundo pequeno, pode ser dez vezes maior, e come o retorno a cada entrada e saída. É por isso que os investidores institucionais escolhem muitas vezes o IBIT não pela comissão, que até iguala a do FBTC, mas pela profundidade: é onde o spread é mais apertado e onde cabe uma ordem grande sem mover o preço.

Isto liga o custo à concentração. Quando mais de 62% dos ativos da categoria estão num só fundo, a liquidez concentra-se aí, e o segundo e o terceiro fundos ficam com spreads estruturalmente mais largos. Para quem negoceia pouco e mantém muito tempo, o spread importa menos do que a comissão. Para quem entra e sai, o spread pode ser o maior custo de todos. A liquidez, recorde-se, é também o que separa um ativo que o mercado absorve de um que ele não absorve, o mesmo princípio por trás do debate sobre se a liquidez vence a escassez na formação do preço do Bitcoin.

Em outubro, este pedágio subiu. Nos dias de liquidação, os volumes de negociação dos ETF dispararam e os spreads sobre o Bitcoin subjacente alargaram. Quem vendeu em pânico a 12 de outubro não pagou só a queda do preço; pagou também um spread mais largo do que teria pago numa terça-feira calma. O custo de transacionar é pró-cíclico: é mais caro exatamente quando mais gente quer negociar.

O Bitcoin não dorme, o ETF sim: o buraco das 24 horas

Aqui está uma fonte de custo que é específica da cripto e que os ETF de ações não têm. O Bitcoin negoceia 24 horas por dia, sete dias por semana. O ETF só negoceia em horário de bolsa, das 9h30 às 16h de Nova Iorque, de segunda a sexta. O que acontece ao Bitcoin durante a noite, ao fim de semana ou num feriado norte-americano não aparece no preço do fundo até a bolsa reabrir.

Na prática, isto cria um buraco. Se o Bitcoin cai 8% num domingo, como já aconteceu em vários fins de semana de 2026, o ETF abre na segunda-feira a recuperar esse desfasamento de uma só vez, e o prémio-desconto intradiário pode disparar nos primeiros minutos até a arbitragem repor a ordem. A própria cascata de meio de outubro teve a sua fase mais violenta fora do horário de bolsa, o que significa que o detentor de ETF viu o buraco abrir e só o pôde fechar quando o sino tocou. Para quem detém o ativo diretamente, a queda é contínua; para quem o detém via ETF, é descontínua, e essa descontinuidade é um risco, logo um custo.

Some-se a isto o risco operacional de depender de uma só infraestrutura de custódia e execução. Se o custodiante do fundo tem um problema num dia de stress, o impacto não se vê na comissão: vê-se no prémio-desconto e na capacidade de a arbitragem funcionar, o mesmo tipo de ponto único de falha que decide tantas vezes o post-mortem de um incidente cripto.

A conta toda, lado a lado

Junte-se tudo numa só imagem. A comissão é a camada visível; o tracking error, o spread e o prémio-desconto são as invisíveis. A tabela seguinte põe as peças ao lado umas das outras para os principais fundos norte-americanos.

FundoComissão anualTracking error aprox.Custo a 10 anos / 100.000 $ (preço estável)
Grayscale Mini (BTC)0,15%baixo~1.489 $
Bitwise BITB0,20%baixo a médiointermédio
ARKB0,21%baixo a médiointermédio
IBIT0,25%~0,03%~2.472 $
FBTC0,25%~0,03%intermédio
GBTC1,50%mais elevado~14.093 $
Comissões, tracking error e custo a 10 anos: crypto.news. Fundos e ativos: Bitbo. O tracking error no conjunto dos onze ETF varia entre 0,03% e 0,42%.

A leitura é clara: o fundo mais barato não é necessariamente o que replica melhor, e o que replica melhor não é o mais barato. O IBIT iguala a comissão do FBTC, mas ganha na liquidez; o Grayscale Mini bate todos na comissão, mas é o spread e o tracking error que decidem o resultado para quem negoceia. O número do anúncio é o princípio da conversa, não o fim.

A Europa paga de outra maneira: ETP, ETN e as camadas extra

Nada disto está, na verdade, ao alcance direto de um investidor de retalho em Portugal. Os ETF norte-americanos à vista, o IBIT e companhia, não podem ser distribuídos a retalho na União Europeia, porque não têm o documento de informação fundamental (KID) exigido pelo regulamento PRIIPs e porque as regras UCITS proíbem fundos de um único ativo. O que o investidor europeu compra são ETP e ETN, produtos cotados com Bitcoin em custódia, mas com uma estrutura jurídica diferente: títulos de dívida emitidos por uma sociedade veículo, não fundos com património autónomo.

Essa diferença acrescenta camadas de custo e de risco que não existem no ETF norte-americano. Primeiro, o risco de contraparte do emitente: um ETN é uma promessa de pagamento e vale o que valer quem a emite, mesmo quando há Bitcoin em garantia. Segundo, o câmbio: um produto cotado em euros sobre um ativo cotado em dólares embute uma exposição a EUR/USD, que a meio de outubro andava perto de 1,12. Em contrapartida, a guerra de comissões europeia é feroz e, nalguns casos, o europeu paga menos do que o americano.

Produto europeu (ETP/ETN)ComissãoNota
CoinShares Physical Bitcoin (BITC)0,15%o maior ETP físico da Europa (~1,65 mil M$)
Bitwise Core Bitcoin (BTC1)0,05% até 31/12/2026, depois 0,14%comissão promocional
21Shares Bitcoin Core (CBTC)0,10%dos mais baratos
Invesco Physical Bitcoin (BTIC)0,10%dos mais baratos
21Shares Bitcoin (ABTC)1,49%o produto antigo e caro
Bitwise Physical Bitcoin (BTCE)2,00%o GBTC europeu
Fonte: CoinShares e comunicados dos emitentes, 2026.

A CoinShares cortou a comissão do seu BITC para 0,15% de forma permanente em fevereiro de 2026, tornando-o mais barato do que o IBIT (0,25%) que os europeus nem sequer podem comprar (CoinShares). O presidente executivo da empresa, Jean-Marie Mognetti, defendeu que um preço acessível deve ser estrutural e não promocional. No extremo oposto, o BTCE da Bitwise ainda cobra 2,00%, o equivalente europeu ao GBTC: caro, antigo e a derreter devagar enquanto a concorrência corta preços.

Portugal: o imposto que muda a conta

Há uma camada de custo que é puramente portuguesa e que inverte, aliás, a vantagem fiscal que muita gente associa à cripto. O regime especial português trata de forma benigna os ganhos com criptoativos detidos há mais de 365 dias: ficam isentos de imposto sobre mais-valias. Mas esse regime aplica-se, segundo o folheto de criptoativos do Portal das Finanças, apenas aos criptoativos que não sejam valores mobiliários.

Ora um ETN ou ETP de Bitcoin é, juridicamente, um valor mobiliário. Fica, por isso, de fora do regime dos criptoativos e é tributado como mais-valia mobiliária à taxa de 28%, sem a isenção dos 365 dias. Por outras palavras: o investidor português que compre Bitcoin diretamente e o guarde mais de um ano pode não pagar imposto sobre o ganho; o que compre o mesmo Bitcoin através de um ETP paga 28% sobre a mais-valia, por mais tempo que o mantenha. A conveniência do invólucro cotado tem um preço fiscal, e não é pequeno.

Do lado da supervisão, a conduta de mercado destes produtos cabe à CMVM, enquanto o Banco de Portugal regista os prestadores de serviços de criptoativos e trata das stablecoins; o período de transição do regulamento MiCA para os operadores portugueses terminou a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.º 69/2025. Note-se ainda que os derivados sobre cripto, futuros e perpétuos, caem sob a DMIF II e não sob o MiCA, uma distinção que importa para quem combina um ETP com cobertura em derivados.

Custo em mês de queda: o que outubro ensinou

Volte-se ao princípio. Outubro foi um mês de saídas, mas a lição não é sobre a direção do fluxo; é sobre como o stress revela o custo. Quando o mercado está calmo, a comissão domina e tudo o resto dorme. Quando o mercado cai, as camadas invisíveis acordam: os spreads alargam, o prémio-desconto oscila mais, o buraco das 24 horas abre com mais violência e a arbitragem que mantém o preço colado ao NAV é testada no pior momento.

Convém, ainda assim, não confundir fluxo com venda. Um resgate de ETF não obriga, por si só, a uma venda de Bitcoin no mercado aberto; com criações e resgates em espécie, o AP pode simplesmente receber Bitcoin em troca de cotas. Foi por isso que, mesmo com 910 milhões de dólares a sair em duas semanas, o preço não entrou em queda livre: a maior parte do capital que entrou desde 2024 continua lá dentro. Eric Balchunas, analista sénior de ETF da Bloomberg Intelligence, já tinha descrito este tipo de saídas como «ruído» face à escala do mercado (CoinDesk).

O pano de fundo macro ajudou a explicar a maré. Uma leitura de inflação acima do esperado reacendeu o receio de juros altos por mais tempo, as taxas da dívida norte-americana andaram perto de máximos de décadas e o apetite pelo risco esfriou. O Bitcoin chegou a cair abaixo do preço médio de entrada estimado dos investidores em ETF, cerca de 82.300 dólares, observou o analista da Nexo Iliya Kalchev (Digital Today). Com a Reserva Federal a ter voltado a subir os juros em setembro e o mercado a hesitar entre uma pausa a 28 de outubro e novo aperto em dezembro, o custo de oportunidade de ter cripto subiu, e isso, mais do que qualquer comissão, é o que pesa na decisão. É o mesmo nó que atravessa o debate sobre a cripto entre a pausa e o aperto de dezembro e os alvos de preço para 2026.

Como ler o custo antes de comprar

Para o investidor em Portugal, a conclusão prática resume-se a olhar para além do número grande do anúncio. Uma checklist simples:

  • A comissão é o ponto de partida, não o custo total. Compare-a, mas não pare aí.
  • Verifique o tracking error, não só a taxa: um fundo barato que replica mal pode sair mais caro do que um fundo um pouco mais caro que replica bem.
  • Olhe para a liquidez e o spread do produto que vai usar; para quem negoceia, o spread pode superar a comissão.
  • Confirme o prémio-desconto antes de comprar ou vender, sobretudo em dias de stress e nos primeiros minutos de sessão.
  • No caso europeu, pese o risco de contraparte do emitente do ETP e a exposição cambial ao EUR/USD.
  • Em Portugal, conte com os 28% sobre a mais-valia do ETP, sem a isenção dos 365 dias que valeria para Bitcoin detido diretamente.

Nenhuma destas camadas torna os ETF um mau produto. Para a maioria dos investidores, a comodidade, a custódia profissional e o acesso através de uma conta de corretagem normal justificam largamente alguns pontos-base de custo. O ponto é outro: o custo existe, está distribuído por várias camadas e aparece sobretudo quando o mercado abana. Quem souber onde procurar não terá surpresas no próximo outubro.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre a comissão e o custo total de um ETF de cripto?

A comissão (TER) é a taxa anual de gestão que o emitente cobra, entre 0,15% e 1,50% nos ETF de Bitcoin. O custo total inclui ainda o tracking error, o spread entre compra e venda, o prémio ou desconto face ao valor líquido e, em Portugal, o imposto de 28% sobre a mais-valia. Em meses calmos domina a comissão; em meses de queda, as outras camadas pesam mais.

O que é o tracking error de um ETF de Bitcoin?

É o desvio entre o desempenho do fundo e o do Bitcoin que ele replica. Nos ETF à vista norte-americanos varia entre cerca de 0,03% e 0,42% ao ano, consoante a mecânica de criação e resgate, o dinheiro parado, o calendário de custódia e os spreads sobre o ativo. Os maiores e mais líquidos, como o IBIT e o FBTC, ficam perto dos 0,03%.

Porque é que o GBTC chegou a negociar com um desconto de quase 50%?

Antes de janeiro de 2024, o GBTC era um trust fechado sem mecanismo de resgate, pelo que nada obrigava o preço a seguir o valor do Bitcoin que detinha. A 13 de dezembro de 2022 chegou a negociar a -48,9% face ao NAV. O desconto só fechou quando a conversão em ETF abriu a porta aos resgates e deixou a arbitragem funcionar.

Um investidor em Portugal pode comprar o IBIT ou o FBTC?

Não diretamente. Os ETF norte-americanos à vista não têm o documento KID exigido pelo PRIIPs e as regras UCITS proíbem fundos de um único ativo, pelo que não são distribuídos a retalho na União Europeia. O investidor europeu usa ETP e ETN físicos, como o CoinShares BITC a 0,15%, que são títulos de dívida com Bitcoin em custódia.

Porque é que os ETF de Bitcoin tiveram saídas em outubro de 2026?

Depois de um setembro de recordes, uma leitura de inflação acima do esperado reacendeu o receio de juros altos e esfriou o apetite pelo risco. Saíram cerca de 910 milhões de dólares dos ETF de Bitcoin em duas semanas, com o pior dia a 7 de outubro (-484,9 milhões). Ainda assim, com resgates em espécie, um fluxo negativo não equivale a uma venda forçada de Bitcoin.

Liam Brennan escreve sobre mercados e produtos de investimento em cripto para a HOGE Wire.

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