Restaking em 2026: infraestrutura, risco e o relógio da MiCA
O restaking deixou de ser promessa e tornou-se infraestrutura, mas a TVL recuou e os riscos ficaram mais visíveis. A poucos dias do fim do período transitório da MiCA, a Europa reescreve as regras.
O restaking começou 2024 como a narrativa mais quente da DeFi e chega ao verão de 2026 com um perfil bem diferente: menos euforia, mais infraestrutura e uma fatura de risco que já ninguém ignora. O capital total bloqueado nos protocolos de restaking recuou face aos máximos do ano passado, vários projetos mudaram de estratégia e um ataque de centenas de milhões de euros recordou a toda a gente que segurança partilhada também significa risco partilhado.
Ao mesmo tempo, o calendário regulatório aperta. A 1 de julho de 2026, a poucos dias de distância, termina o período transitório da MiCA, o regulamento europeu para os mercados de criptoativos. Para quem investe a partir de Portugal, vale a pena perceber o que é o restaking, onde está o dinheiro e o que muda quando a CMVM e o Banco de Portugal passarem a exigir contas a quem presta estes serviços.
O que é, afinal, o restaking?
Quando um utilizador faz staking de Ether (ETH), bloqueia os seus tokens para ajudar a validar a rede Ethereum e recebe recompensas por isso. O restaking dá um passo adicional: permite reutilizar esse mesmo ETH já em staking, ou um token que o represente, para garantir em simultâneo a segurança de outros serviços, as chamadas Actively Validated Services (AVS). São oráculos, pontes, redes de disponibilidade de dados e outras infraestruturas que, sozinhas, teriam dificuldade em montar um conjunto de validadores credível.
A ideia foi popularizada pela EigenLayer, que abriu o mercado em 2023 e 2024 e chegou a acumular mais de 15 mil milhões de dólares em depósitos no pico do entusiasmo, como noticiou a The Block. A promessa é sedutora: em vez de cada novo protocolo ter de comprar a sua própria segurança do zero, aluga a segurança económica já existente do Ethereum. Em troca, os validadores recebem recompensas adicionais, mas aceitam novas regras de penalização, o chamado slashing.
De promessa a infraestrutura: o reposicionamento da EigenLayer
O entusiasmo arrefeceu. Em junho de 2026, a TVL da EigenLayer rondava os 4,67 mil milhões de dólares (cerca de 4 mil milhões de euros ao câmbio atual), depois de ter passado pelos 8,9 mil milhões em março, segundo os agregadores de mercado. A própria queda das cotações ajuda a explicar parte do número: o Ether negociava perto dos 1.380 euros no final de junho, menos cerca de 22 por cento do que um mês antes, de acordo com a CoinGecko. A descida não é um acidente isolado, é o reflexo de um setor que deixou de crescer a crédito de emissões de tokens e passou a ter de provar que gera receita real.
A resposta da equipa foi reposicionar o projeto. A EigenLayer passou a apresentar-se como EigenCloud, uma camada de cloud verificável que junta disponibilidade de dados, resolução de disputas e computação ao restaking original. A proposta de governação ELIP-12 segue o mesmo sentido: prevê uma comissão sobre as recompensas das AVS e encaminha a totalidade das taxas dos serviços EigenCloud para a recompra do token EIGEN, ligando o valor do token à receita da infraestrutura em vez de depender só de incentivos, como detalha o blogue da EigenCloud.
Os liquid restaking tokens dominam o capital
Se há um segmento que sobreviveu melhor à ressaca, é o dos liquid restaking tokens (LRT). Em vez de bloquear o ETH diretamente, o utilizador deposita-o num protocolo que faz o restaking por si e devolve um token líquido, que continua a circular pela DeFi enquanto o ativo subjacente trabalha. É a mesma lógica do liquid staking, mas com uma camada extra de recompensas e de risco.
O líder destacado é a ether.fi, cujo token weETH concentra a maior fatia da TVL da categoria, na casa dos 9 mil milhões de dólares (perto de 7,5 mil milhões de euros) e com uma rentabilidade anual a rondar os 2,8 por cento, segundo a categoria de liquid restaking tokens da CoinGecko. A ether.fi distingue-se por um modelo não custodial: o utilizador mantém o controlo das chaves de levantamento mesmo enquanto o ETH está a ser reutilizado. A Renzo, com o ezETH, apostou na expansão multi-cadeia, levando o seu token a redes Layer 2 como Arbitrum, Blast, Linea e Mode.
O quadro seguinte resume os principais protocolos e os valores aproximados que movimentam:
| Protocolo | Token | Rede base | Categoria | TVL / valor protegido (aprox.) |
|---|---|---|---|---|
| EigenLayer (EigenCloud) | EIGEN | Ethereum | Restaking e cloud verificável | 4 mil milhões € |
| ether.fi | weETH | Ethereum | Liquid restaking | 7,5 mil milhões € |
| Symbiotic | (ainda sem token) | Multi-cadeia | Universal staking | 460 milhões € |
| Babylon | BABY | Bitcoin | Bitcoin staking | 5 mil milhões € |
| Kelp DAO | rsETH | Ethereum e L2 | Liquid restaking | Reduzida após o ataque de abril |
Symbiotic e a aposta no universal staking
Nem todos seguem o guião da EigenLayer. A Symbiotic, apoiada por fundos como a Paradigm e a Pantera Capital, levantou 29 milhões de dólares (cerca de 25 milhões de euros) numa ronda de Série A para passar de protocolo de restaking a plataforma de universal staking, um modelo modular pensado para funcionar em qualquer tipo de rede, de Layer 1 a Layer 2, como avançou a The Block. A própria empresa diz proteger mais de 550 milhões de dólares (mais de 460 milhões de euros) em dezenas de aplicações.
A 2 de junho de 2026, a Symbiotic lançou a Liquid Lane, uma rede que promete resgates quase instantâneos em stablecoins para ativos tokenizados, incluindo fundos e crédito privado. Em vez de esperar por janelas de resgate que podem chegar a 180 dias, o investidor envia um pedido que é encaminhado para market makers que competem para fornecer liquidez, explicou a CoinDesk. É um sinal de para onde o setor está a derivar: do restaking puro para mercados de colateral ligados a ativos do mundo real (RWA).
O restaking chega ao Bitcoin com a Babylon
O restaking deixou de ser um exclusivo do Ethereum. A Babylon trouxe o conceito para o Bitcoin e tornou-se o maior protocolo de staking nativo da rede, com mais de 56 mil BTC bloqueados, equivalentes a quase 5 mil milhões de euros em meados de 2026. O detalhe técnico que a distingue é não exigir wrapping nem pontes: o Bitcoin permanece bloqueado na sua própria cadeia durante todo o processo, com as transações publicamente verificáveis, como apresenta a própria Babylon.
Para um ativo historicamente passivo como o Bitcoin, a possibilidade de gerar rendimento sem sair da rede de origem abriu uma categoria inteira, a chamada BTCfi. Mas a história recente da Babylon também serve de aviso: a sua TVL já oscilou de forma violenta, com episódios em que grandes detentores retiraram milhares de BTC de uma só vez, recordando que estes depósitos são tudo menos pegajosos.
Os riscos que Vitalik Buterin já tinha avisado
Muito antes de o restaking se tornar moda, Vitalik Buterin, cofundador do Ethereum, publicou em 2023 um texto que continua a ser citado, “Don’t overload Ethereum’s consensus”. O argumento é simples e incómodo: usar o consenso do Ethereum para garantir aplicações externas pode criar a expectativa de que a rede será forçada a fazer um fork para salvar quem perdeu dinheiro, contaminando a camada base com disputas que nada têm a ver com a validação de blocos.
Na prática, os riscos concentram-se em três frentes:
- Slashing correlacionado: se um validador viola as regras de uma AVS, o seu capital pode ser penalizado, e penalizações em cadeia podem atingir muitos participantes ao mesmo tempo.
- Sobreposição de alavancagem: ao empilhar LRT sobre LRT em estratégias de looping, um utilizador pode ficar exposto a vários protocolos em simultâneo sem se aperceber.
- Dependência de peças externas: pontes, oráculos e operadores são pontos de falha onde basta um elo ceder para todo o castelo tremer.
A lição do ataque à Kelp DAO
O exemplo mais recente desse perigo não veio do slashing, veio de uma ponte. A 18 de abril de 2026, um atacante explorou um adaptador cross-chain da Kelp DAO, o protocolo por trás do token rsETH. A configuração usava um único validador para autenticar mensagens entre cadeias, e uma assinatura forjada bastou para cunhar cerca de 292 milhões de dólares (perto de 250 milhões de euros) em rsETH sem qualquer lastro, o equivalente a cerca de 18 por cento da oferta em circulação, como reconstruiu o defiprime.
A equipa reagiu depressa, pausando os contratos em menos de 46 minutos, e parte das perdas acabou coberta por mecanismos de seguro de terceiros, como o sistema Umbrella da Aave. Ainda assim, o episódio confirmou o aviso: num sistema de segurança partilhada, o elo mais fraco não costuma ser a criptografia do Ethereum, mas a engenharia que se constrói à volta dela.
O que a MiCA muda para o restaking na Europa
Enquanto o setor se reorganiza, a Europa fecha o cerco regulatório. A 1 de julho de 2026 termina o período transitório da MiCA: a partir dessa data, qualquer prestador de serviços de criptoativos (CASP) que não tenha obtido autorização deixa de poder operar legalmente na União Europeia. A supervisão do regulamento, a nível europeu, está a cargo da ESMA, que mantém o quadro normativo atualizado.
O restaking, contudo, vive numa zona cinzenta. A MiCA foi desenhada a pensar em emissores e plataformas centralizadas, não em protocolos não custodiais geridos por contratos inteligentes. Por isso, em maio de 2026 a Comissão Europeia lançou uma consulta pública para avaliar se a DeFi, o staking, o lending e os NFT devem passar a estar abrangidos pelo regulamento, e o Parlamento Europeu já recomendou rever expressamente os serviços de staking, como noticiou a CoinDesk. A conclusão prática, para já: os serviços de staking e restaking oferecidos por plataformas centralizadas estão claramente no radar; os protocolos puramente descentralizados continuam por enquadrar, mas não por muito tempo.
Portugal: CMVM, Banco de Portugal e o fim do período transitório
Em Portugal, a aplicação da MiCA seguiu uma solução de duas cabeças, a chamada solução bicéfala. A Lei n.º 69/2025, publicada no Diário da República em dezembro, repartiu competências entre a CMVM e o Banco de Portugal: a autorização dos CASP corre pelo Banco de Portugal, em articulação com a CMVM, que tem reforçado nos seus portais a informação ao investidor sobre criptoativos.
Na prática, quem usa uma plataforma para fazer staking ou restaking a partir de Portugal deve verificar, a partir de julho, se essa plataforma está autorizada ao abrigo da MiCA. As entidades que já estavam registadas no Banco de Portugal a 30 de dezembro de 2024 podem continuar a operar até 1 de julho de 2026 ou até decisão final sobre o seu pedido, o que ocorrer primeiro. Para o utilizador, a mensagem da CMVM tem sido constante: rendimento elevado costuma andar de mãos dadas com risco elevado, e o capital aplicado em criptoativos não está coberto por qualquer fundo de garantia.
O que esperar no segundo semestre de 2026
O restaking entra na segunda metade do ano mais maduro e mais magro. A fase de crescimento alimentado por pontos e airdrops deu lugar a uma corrida por receita real, casos de uso verificáveis e conformidade regulatória. A EigenLayer aposta na cloud verificável, a Symbiotic em mercados de colateral, a ether.fi em produtos para retalho e instituições, e a Babylon em levar rendimento ao Bitcoin.
Para o investidor europeu, o teste dos próximos meses é duplo: perceber se estes protocolos conseguem gerar rendimento sustentável sem repetir os erros que levaram ao ataque da Kelp, e acompanhar como a MiCA vai tratar uma tecnologia que nasceu precisamente para diluir fronteiras entre redes. Segurança partilhada continua a ser uma das ideias mais poderosas da DeFi; resta saber se o setor aprende a partilhá-la sem partilhar também o próximo colapso.
Por Tiago Ferreira, editor sénior da HOGE Wire.