Restaking em 2026: rendimento extra na Ethereum e o olhar da CMVM
O restaking transformou ETH bloqueado numa camada de segurança alugada a dezenas de serviços. Explicamos como funciona, quem lidera e porque os reguladores europeus fazem perguntas.
O restaking é, provavelmente, a ideia que mais mexeu com a arquitetura da Ethereum desde a passagem para proof-of-stake. Em pouco mais de dois anos, transformou ETH bloqueado numa camada de segurança alugada a dezenas de serviços e chegou a atrair dezenas de milhares de milhões de dólares. Com o ETH a negociar perto dos 1.500 euros, segundo a CoinGecko, e com o período transitório da MiCA em Portugal a terminar a 1 de julho, vale a pena perceber o que é, quem manda no setor e onde estão os riscos.
O que é o restaking, sem jargão
Quando um validador protege a Ethereum, bloqueia ETH como garantia. Age de forma honesta e recebe recompensas; tenta enganar a rede e parte desse ETH é destruída, num mecanismo chamado slashing. O restaking parte de uma pergunta simples: e se a mesma garantia pudesse, ao mesmo tempo, proteger outros serviços que precisam de segurança criptoeconómica, como oráculos, pontes ou camadas de disponibilidade de dados?
É isso que o restaking permite. O utilizador volta a comprometer (o «re» de restaking) o seu ETH, ou um token que o represente, e aceita novas regras de penalização em troca de recompensas adicionais. A promessa é de eficiência de capital, pois a mesma garantia trabalha em várias frentes. O reverso é a acumulação de risco, um ponto a que voltamos mais abaixo.
O apelo ajuda a explicar a corrida de 2024. Num mercado em que o staking simples de ETH rende poucos pontos percentuais ao ano, somar recompensas de vários serviços sobre a mesma garantia atraiu uma onda de capital. Boa parte entrou à procura de pontos e de futuros airdrops, mais do que pela utilidade imediata dos serviços protegidos.
EigenLayer e a arquitetura dos AVS
O protocolo que popularizou o conceito foi a EigenLayer, criada pela Eigen Labs e pelo investigador Sreeram Kannan, hoje integrada na plataforma EigenCloud. A peça central são os AVS (Actively Validated Services), serviços que alugam segurança à rede de validadores em vez de construírem, do zero, o seu próprio conjunto de garantias.
Um AVS pode ser uma camada de disponibilidade de dados, uma rede de oráculos, uma ponte entre cadeias ou um sequenciador partilhado para rollups. Em vez de cada projeto convencer milhares de validadores a comprar o seu token, recorre ao ETH já restaked. No modelo da EigenLayer, o operador corre o software do AVS, enquanto o detentor de ETH delega nesse operador e partilha com ele recompensas e riscos.
Quanto dinheiro está em jogo
Os valores oscilam com o mercado e com as campanhas de pontos, pelo que qualquer número é uma fotografia e não um valor fixo. À data de publicação, agregadores como a DefiLlama colocavam o capital depositado nos protocolos de restaking na casa das dezenas de milhares de milhões de dólares, num claro movimento de consolidação face ao pico de 2024.
A tabela seguinte resume os principais intervenientes. Os valores de capital bloqueado (TVL) estão convertidos para euros a uma taxa aproximada e servem apenas de referência.
| Protocolo | Base | Token | TVL aproximado (EUR) |
|---|---|---|---|
| EigenLayer (EigenCloud) | Ethereum | EIGEN | 8,5 mil milhões |
| ether.fi | Ethereum | eETH / weETH | 5,3 mil milhões |
| Babylon | Bitcoin | BABY | 3,8 mil milhões |
| Kelp DAO | Ethereum | rsETH | 600 milhões |
| Symbiotic | Ethereum | sem token nativo | 520 milhões |
Convém lembrar o contexto. No auge da corrida aos pontos, em 2024, o capital na EigenLayer chegou a ser estimado acima dos 15 mil milhões de dólares. Boa parte retirou-se após a distribuição do token EIGEN, num movimento clássico de capital mercenário. O que ficou é uma base mais estável, ainda que sensível às oscilações de preço do ETH.
Os liquid restaking tokens e o caso ezETH
A maioria dos investidores de retalho não toca diretamente na EigenLayer. Fá-lo através dos liquid restaking tokens (LRT), emitidos por protocolos como a ether.fi, a Renzo ou a Kelp. O princípio repete o dos tokens de staking líquido: deposita-se ETH, recebe-se um token que representa a posição e mantém-se liquidez para o usar noutras aplicações enquanto se acumulam recompensas. O weETH da ether.fi, hoje o maior LRT do mercado, tornou-se um dos colaterais mais aceites em protocolos de crédito.
A diferença é que o LRT carrega, por baixo, várias camadas de risco em simultâneo, e a sua paridade depende de existir liquidez para sair. Em abril de 2024, o ezETH da Renzo mostrou o que pode correr mal: após um anúncio de tokenomics mal recebido, e sem levantamentos ativados, o token chegou a cair para cerca de 700 dólares na Uniswap (quando um ETH valia mais de 3.000 dólares), provocando mais de 60 milhões de dólares em liquidações entre quem o usara como garantia alavancada. A liquidez de um LRT pode evaporar-se em minutos quando o mercado duvida do seu valor.
O slashing e a redistribuição em produção
Durante muito tempo, o restaking viveu em modo de demonstração: havia recompensas, mas as penalizações mais severas não estavam ativas. Isso acabou. A EigenLayer ativou o slashing na mainnet a 17 de abril de 2025, dando aos AVS a capacidade de penalizar operadores que falhem os compromissos assumidos. O mecanismo é opcional, pois só afeta operadores, e quem neles delega, que aceitem entrar em conjuntos puníveis.
A 22 de julho de 2025, a Eigen Labs foi mais longe com a redistribuição. Em vez de ser simplesmente queimado, o valor penalizado pode agora ser reencaminhado, o que abre casos de uso como seguros ou reembolsos em protocolos de crédito. Por agora, a redistribuição abrange tokens ERC-20, incluindo LST e tokens de AVS, mas ainda não o ETH nativo nem o EIGEN. Para quem delega, a lição é direta: um erro de configuração, um bug ou um ataque bem-sucedido deixaram de ser abstratos e podem traduzir-se em perdas reais.
Symbiotic, Kelp e a nova concorrência
Durante 2024, restaking era quase sinónimo de EigenLayer. Já não é. A Symbiotic, apoiada pela Paradigm, pela Pantera e pela Coinbase Ventures, propôs um modelo sem permissões em que quase qualquer token ERC-20 serve de garantia, e não apenas ETH. Em 2026, alargou o âmbito para lá do restaking puro, apostando em «mercados de colateral» com a versão Core V2 e num serviço de resgate rápido para ativos tokenizados. Curiosamente, continua sem token próprio, o que alimenta especulação e alguma impaciência na comunidade.
Entre os emissores de LRT, a Kelp DAO consolidou-se com o rsETH e uma base grande de detentores, enquanto nomes como a Puffer e a Swell disputam o mesmo público. O resultado é um mercado mais competitivo, em que os protocolos disputam operadores, garantias e, sobretudo, os AVS que geram procura por segurança. Para o utilizador, mais concorrência tende a significar melhores condições, mas também mais opções difíceis de comparar.
O restaking chega ao Bitcoin
A ideia não ficou presa à Ethereum. A Babylon levou um conceito próximo ao Bitcoin, permitindo que os detentores de BTC bloqueiem os seus ativos para proteger cadeias de prova de participação sem os entregar a uma ponte centralizada. O mecanismo assenta em contratos temporais nativos do Bitcoin, o que evita mover os fundos para fora da rede. Segundo dados recentes, a Babylon voltou a ultrapassar o equivalente a mais de 3,8 mil milhões de euros em valor bloqueado em 2026, depois de uma retração acentuada ao longo de 2025.
Para o maior ativo do setor, largamente parado em carteiras, a promessa é apelativa: gerar rendimento sem abdicar da segurança do Bitcoin. Os riscos acompanham a lógica do restaking em geral, com a nota adicional de que o ecossistema de aplicações em torno do BTC é ainda jovem e pouco testado.
MiCA, a CMVM e o fim do período transitório
Para o investidor em Portugal, a pergunta prática é uma só: como se enquadra isto na lei? O momento é oportuno. O período transitório da MiCA, transposto para a ordem interna pela Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, terminou a 1 de julho de 2026. A partir dessa data, quem não obteve autorização ao abrigo da MiCA deixa de poder prestar serviços de criptoativos, restando-lhe gerir o encerramento ordenado das posições dos clientes.
A supervisão está repartida: o Banco de Portugal fica com as matérias ligadas às stablecoins e à autorização prudencial dos prestadores, enquanto a CMVM supervisiona a conduta de mercado, o abuso de mercado e as regras de negociação. As coimas por infrações muito graves podem ir de 25 mil a 5 milhões de euros para pessoas coletivas.
A MiCA não define «restaking» nem «staking» de forma específica, o que deixa uma zona cinzenta. A questão delicada é saber quando um LRT ou um serviço de staking gerido deixa de ser um simples criptoativo e passa a comportar-se como instrumento financeiro, sujeito à DMIF II (MiFID II). Um produto que prometa rendimento a partir do esforço de gestão de terceiros aproxima-se, para vários juristas, da noção de valor mobiliário. Enquanto não houver orientação definitiva, a mensagem para o utilizador é de cautela, e as recompensas continuam a exigir atenção na declaração à Autoridade Tributária.
A ressalva de Vitalik Buterin
Nem toda a comunidade Ethereum aplaude o restaking. Numa publicação de maio de 2023 que continua a ser citada, «Don’t overload Ethereum’s consensus», Vitalik Buterin traçou uma linha importante. O uso duplo do ETH em staking, escreveu, é «fundamentalmente aceitável»; o perigoso é tentar «recrutar» o consenso social da Ethereum para os fins de uma aplicação específica.
O receio concreto é o de um AVS grande demais para falhar. Perante um colapso, poderia surgir pressão social para um resgate que envolvesse a própria camada base, contaminando o ativo que sustenta boa parte da DeFi. Os defensores do restaking respondem que as penalizações estão contidas e são opcionais. O debate mantém-se aberto e é, talvez, o mais importante de todos, porque toca na segurança da própria Ethereum.
O que vigiar nos próximos meses
Para quem acompanha o setor a partir da Europa, alguns sinais merecem atenção especial nos próximos trimestres:
- As recompensas reais pagas pelos AVS, agora que o slashing está ativo e o risco é concreto.
- Eventuais orientações da ESMA ou da CMVM sobre a classificação de LRT e de serviços de staking geridos.
- A concentração de operadores: se poucos detiverem a maioria do ETH restaked, cresce o risco sistémico.
- A saúde da paridade dos principais LRT em momentos de tensão, sobretudo em pontes entre cadeias.
- A evolução do restaking de Bitcoin e a chegada de aplicações que justifiquem essa segurança adicional.
O restaking é, ao mesmo tempo, uma das inovações mais ambiciosas e mais controversas da Ethereum. Oferece eficiência de capital e uma nova fonte de rendimento, mas empilha riscos que só agora começam a ser testados em condições reais. Para o investidor informado, a regra é a de sempre: perceber onde está o dinheiro, quem o pode penalizar e em que circunstâncias.
Por João Mendes, editor de mercados da HOGE Wire.