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● DeFi & On-chain

Restaking em 2026: porque sair é mais difícil do que entrar

A EigenLayer propôs a ELIP-018 para facilitar a saída do restaking, com a fila de entrada da Ethereum acima de 40 dias. Veja como cada protocolo trata quem quer sair em 2026.

Restaking em 2026: porque a saída se tornou o tema do momento

O restaking nasceu com a EigenLayer como forma de reaproveitar ETH já staked, ou um token de liquid staking, para também ajudar a garantir a segurança de infraestrutura adicional: oráculos, pontes entre cadeias, camadas de disponibilidade de dados, sequenciadores de rollups, chamados AVS (Actively Validated Services) na terminologia da própria EigenLayer. Em troca, quem faz restaking recebe rendimento extra e assume condições extra de slashing. A ideia de reaproveitar a mesma garantia económica para vários serviços em simultâneo foi popularizada pela EigenLayer, mas estende-se hoje a concorrentes como a Symbiotic, a Karak (entretanto renomeada OpenGDP) e à Babylon, que aplica o mesmo princípio ao Bitcoin.

A escala já não é pequena. O slashing está ativo na mainnet da EigenLayer desde 17 de abril de 2025, com cerca de 190 AVS em desenvolvimento, perto de 40 já em produção, mais de 2.000 operadores e dezenas de milhares de endereços a participar. É sobre esta base que se discute agora, pela primeira vez a sério, como sair dela.

Durante a maior parte da história do setor, a conversa girou à volta de como entrar: programas de pontos, parcerias de integração, promessas de rendimento anual de dois dígitos. Em julho de 2026, a conversa mudou de sentido. A EigenLayer recebeu no seu próprio fórum de governação uma proposta, a ELIP-018, cujo único objetivo é facilitar a saída de quem faz restaking. Dias depois, a fila de entrada de novos validadores na Ethereum ultrapassou os 40 dias de espera, exatamente quando a fila de saída chegou a zero, uma inversão do enredo habitual de fuga generalizada num mercado em queda.

Vistos em conjunto, os mecanismos de saída deste setor dividem-se em três famílias: saídas mediadas por governação, como a da EigenLayer, dependentes de propostas como a RETIRE ou de filas partilhadas com o resto da Ethereum; saídas nativas de protocolo, como a da Babylon ou da Symbiotic, com regras fixas definidas em código ou diretamente no Bitcoin; e saídas mediadas por mercado, como a de um LRT, em que a liquidez de uma DEX substitui uma fila formal, com todos os riscos de slippage que isso implica. É essa distinção que estrutura o resto deste artigo.

Já em 2023, Vitalik Buterin avisou, num artigo no seu blogue: «Any expansion of the ‘duties’ of Ethereum’s consensus increases the costs, complexities and risks of running a validator.» O argumento volta a fazer sentido agora que a própria EigenLayer debate como simplificar a saída desse mesmo sistema. Este artigo percorre, protocolo a protocolo, o que significa hoje sair do restaking, e porque isso passou a interessar tanto pequenos investidores como as tesourarias institucionais que já alocam capital ao setor.

ELIP-018 RETIRE: a proposta da EigenLayer para destravar a saída

A proposta foi publicada a 11 de julho de 2026 no fórum de governação da EigenLayer, por um utilizador identificado como mcurtis. Chama-se RETIRE, sigla para «Retirement Enabling Terminal, Irreversible Restaking Exit», e o seu estado atual é de rascunho: ainda não foi aprovada pela DAO da EigenLayer nem tem data prevista para chegar à mainnet.

O problema que tenta resolver é técnico mas concreto. Os EigenPods, o contrato que cada restaker usa para gerir os seus validadores nativos, continuam a impor regras de contabilidade de restaking mesmo depois de um levantamento já estar em fila. Isso significa que, hoje, alguém que queira apenas rodar as chaves de um validador, por exemplo depois de suspeitar de um compromisso de segurança, acaba obrigado a sair e voltar a entrar na fila de entrada da beacon chain, atualmente medida em semanas. A própria proposta resume o objetivo assim: «a way to rotate the keys controlling a pod’s validators (…) without exiting and re-entering the (presently multi-week) beacon-chain entry queue, and a low-friction exit from EigenLayer that does not require completing a final checkpoint».

Em termos técnicos, a RETIRE introduz:

  • disablePod(), um novo método no contrato EigenPodManager que arranca um processo de saída irreversível
  • disableRestaking() e withdrawDisabledPodETH(), no próprio EigenPod, para libertar o ETH para levantamento total
  • clearQueuedWithdrawalsForDisabledPod(), no DelegationManager, para limpar levantamentos pendentes que tenham ficado presos
  • uma nova flag de pausa, PAUSED_DISABLE_POD, com adesão inteiramente opcional: pods existentes continuam a funcionar exatamente como hoje caso não ativem a função

Ou seja, a RETIRE não acelera a fila de entrada da beacon chain em si, isso depende de parâmetros da própria Ethereum, mas retira o restaking nativo dessa equação para quem só quer sair de vez ou trocar de chaves sem penalização em rendimento perdido.

A fila de validadores da Ethereum: zero dias para sair, 43 para entrar

Os números atuais ajudam a perceber a urgência por trás da RETIRE. Segundo o validatorqueue.com, a fila de entrada da Ethereum tinha, à data de publicação, cerca de 2,49 milhões de ETH à espera de ativação, um tempo estimado de aproximadamente 43 dias. A fila de saída, pelo contrário, estava em zero: nenhum ETH à espera para sair, um tempo de espera de zero minutos, embora se aplique depois um atraso técnico («sweep delay») de cerca de 7,7 dias até os fundos chegarem de facto ao endereço de levantamento.

A assimetria explica-se pela forma como a Ethereum limita o ritmo de entradas e saídas: uma taxa de câmbio fixa (churn rate) de 256 validadores por epoch, com cada epoch a durar cerca de 6,4 minutos, define um teto diário para quantos validadores podem ativar ou desativar. Quando a procura para entrar excede esse teto, a fila cresce; foi o que aconteceu ao longo de 2026.

A leitura mais interessante é precisamente essa inversão face ao que seria de esperar. Com uma fatia considerável do ETH em circulação já em staking, distribuído por centenas de milhares de validadores, e um rendimento nativo situado nos primeiros dígitos percentuais antes de qualquer bónus de restaking, é a procura para entrar que está hoje a condicionar o sistema, não uma fuga generalizada. É precisamente esta fila, e a obrigação de a atravessar sempre que alguém queira apenas rodar chaves ou sair de forma limpa da EigenLayer, que a RETIRE tenta contornar.

EigenCloud em números: TVL, EIGEN e o desbloqueio de amanhã

O valor total bloqueado (TVL) na EigenCloud, o nome atual do ecossistema da EigenLayer desde o seu pivô para «nuvem verificável», continua a ser um número contestado consoante o agregador: leituras recentes oscilam entre poucos milhares de milhões de dólares em plataformas como a DefiLlama e cerca de 19 mil milhões de dólares, ou 4,6 milhões de ETH, noutras estimativas de mercado, uma discrepância que reflete sobretudo diferenças de metodologia entre trackers. O que é consensual é a direção: o TVL está muito abaixo do pico de quase 20 mil milhões de dólares atingido no início de 2026.

O token EIGEN reflete essa contração. Segundo a CoinGecko, negoceia perto de 0,1564 euros, cerca de 0,1802 dólares, uma capitalização de mercado de aproximadamente 116 milhões de euros e o lugar 216 no ranking geral por capitalização, uma queda de 96,8% face ao máximo histórico de 5,65 dólares atingido a 16 de dezembro de 2024. A mesma página assinala uma nova tranche de cerca de 36,82 milhões de tokens EIGEN agendada para ser libertada já amanhã, dia 1 de agosto de 2026, de dimensão semelhante à liberada no início de julho, o que mantém pressão de diluição sobre o preço precisamente enquanto a comunidade debate como facilitar saídas do outro lado do sistema.

Nem tudo no setor segue a mesma trajetória. A Symbiotic, por exemplo, tem visto o seu TVL oscilar entre várias centenas de milhões e mais de mil milhões de dólares consoante a leitura, uma volatilidade que reflete tanto a imaturidade dos trackers deste segmento como a rotação de capital entre plataformas concorrentes.

Sair de um LRT: ether.fi, Renzo e a lição do Kelp DAO

Os liquid restaking tokens (LRTs) resolvem a fricção de saída de outra forma: em vez de obrigar a atravessar filas de protocolo, emitem um token líquido e transacionável que representa o depósito restaked, negociável a qualquer momento em mercado secundário. A ether.fi (eETH) lidera este segmento por larga margem, seguida pela Renzo (ezETH) e pela Kelp DAO (rsETH). Na prática, sair passa por uma troca instantânea numa DEX, sujeita a liquidez e slippage disponíveis no momento, ou por uma fila de resgate nativa do próprio protocolo, que tende a demorar de minutos a alguns dias consoante a procura.

O caso da Kelp DAO mostra o que acontece quando essa saída falha por completo em vez de simplesmente ser lenta. A 19 de abril de 2026, um atacante explorou uma ponte entre cadeias baseada em LayerZero para cunhar 116.500 rsETH do nada, sem alguma vez tocar nos depósitos reais, inflacionando a oferta em cerca de 18%. Esses tokens falsificados foram depois usados como colateral na Aave para pedir emprestado wETH, deixando a Aave com dívida incobrável estimada entre 196 e 230 milhões de dólares consoante a fonte, e o seu TVL a cair de forma acentuada num único fim de semana, segundo a CoinDesk.

Para quem quer perceber melhor quais os protocolos que se recompõem depois de um incidente destes e quais acabam por desaparecer, vale a pena ler também a nossa análise sobre quem sobrevive ao hack e quem desaparece. O contraste é útil: nem toda a saída falhada é igual, e a forma como um protocolo responde nas semanas seguintes conta tanto quanto o incidente em si.

Babylon: sete dias para sair do restaking de Bitcoin

A Babylon aplica a mesma lógica de restaking ao Bitcoin, mas sem embrulhar ou fazer bridge do BTC: as moedas ficam bloqueadas através do próprio scripting de timelock nativo do Bitcoin, e essa garantia passa a proteger cadeias PoS que optem por integrar-se como «Bitcoin Supercharged Networks».

É também o protocolo com a saída mais simples de todo o setor. O unbonding pode ser pedido a qualquer momento, por iniciativa do próprio staker, e demora cerca de sete dias, 1008 blocos de Bitcoin, definidos diretamente no script on-chain, segundo o blogue oficial da Babylon Labs. Ao contrário da EigenLayer, essa saída não depende de uma votação de DAO, de uma atualização de contrato, ou sequer da infraestrutura da própria Babylon estar operacional, porque a lógica de unbonding vive no Bitcoin, não num sistema à parte.

O painel da Babylon Labs mostra atualmente 56.853,16 BTC staked, cerca de 5,64 mil milhões de dólares em TVL. Vale notar que esta leitura se tem mantido praticamente inalterada ao longo de várias semanas em verificações sucessivas, o que sugere tratar-se de um número atualizado com pouca frequência, mais um resumo periódico do que um contador em tempo real.

Symbiotic e Karak/OpenGDP: epochs, vaults e uma saída sem token

A Symbiotic segue uma terceira abordagem: qualquer token ERC-20 pode servir de colateral, e os levantamentos funcionam por epochs. Um pedido de levantamento pode ser submetido a qualquer momento, mas só fica resgatável no limite do epoch seguinte do vault em causa, entre um a dois epochs de espera consoante o momento do pedido, de acordo com a documentação oficial da Symbiotic. Mais importante: o montante pedido continua sujeito a slashing até esse limite de epoch ser ultrapassado, uma escolha de desenho deliberada para impedir que alguém escape a um slashing já em curso apenas por pedir o levantamento no momento certo. A Symbiotic continua sem token público, e desde o lançamento do Core V2, a 1 de julho de 2026, tem vindo a pivotar para mercados de colateral ligados a ativos do mundo real através de um produto chamado Liquid Lane, uma direção que se cruza com o tema de como o setor está a construir cobertura de seguro contra slashing em cascata.

A Karak seguiu um caminho radicalmente diferente: deixou praticamente de existir enquanto marca de restaking. Rebatizou-se OpenGDP, e o seu site já não menciona restaking, AVS ou segurança partilhada em lado nenhum do conteúdo principal, descrevendo-se antes como «the operating layer for real-world economic execution», segundo o site da OpenGDP. O rodapé continua, no entanto, a apontar para os antigos produtos de staking V1 e V2 e para a bridge K2, o que significa que quem ainda tem posições nesses produtos legados precisa de gerir a própria saída de uma infraestrutura que a empresa já publicamente abandonou. É talvez a história de «saída» mais literal de todo o setor: um protocolo inteiro a sair da categoria restaking.

SSV e o restaking coordenado: sair em grupo é mais complicado

A SSV Network resolve a segurança partilhada de outra forma: através de Distributed Validator Technology (DVT), a chave de assinatura de um único validador é dividida por vários operadores de nó independentes, um cluster, usando criptografia de threshold para que nenhum operador consiga agir sozinho. A Obol Network segue uma lógica semelhante no mesmo nicho de DVT. Isto tem implicações diretas na saída: processar a saída limpa de um validador exige a cooperação de um número mínimo de operadores desse cluster, e o modelo de «based applications» (bApps) da SSV permite que o mesmo validador garanta segurança a várias aplicações em simultâneo, cada uma com os seus próprios termos de compromisso, o que acrescenta mais uma camada de coordenação ao processo padrão de saída da beacon chain sempre que um participante quer mesmo sair.

O token SSV negoceia perto de 1,89 euros, uma capitalização de mercado de cerca de 27,7 milhões de euros, segundo a CoinGecko, cerca de 96,7% abaixo do máximo histórico de 65,82 dólares alcançado em março de 2024.

Tabela comparativa: tempos e mecanismos de saída por protocolo

A tabela seguinte resume, lado a lado, o mecanismo de saída de cada protocolo e o tempo típico envolvido, da mais rápida à mais dependente de coordenação:

ProtocoloAtivo subjacenteMecanismo de saídaTempo típico
EigenLayer (staking nativo)ETHFila de levantamento, com bypass em debate via ELIP-018 RETIRELigado à fila de entrada da beacon chain se for preciso reentrar, atualmente cerca de 43 dias
LRTs (ether.fi, Renzo, Kelp DAO)eETH, ezETH, rsETHTroca instantânea numa DEX ou fila de resgate nativa do protocoloMinutos a alguns dias, consoante liquidez
BabylonBTCScript de unbonding on-chain no próprio BitcoinCerca de 7 dias (1008 blocos)
SymbioticQualquer token ERC-20Pedido de levantamento, resgatável no limite do epoch seguinte do vault1 a 2 epochs, consoante o vault
Karak / OpenGDPVários (produtos legados)Encerramento dos produtos V1/V2 de staking e da bridge K2Não especificado publicamente
SSV (clusters DVT)ETHSaída de validador coordenada entre operadores do clusterProcesso padrão da beacon chain, sujeito a coordenação do cluster

Porque a fricção de saída chegou às tesourarias institucionais

O restaking deixou de ser um exercício quase exclusivamente de retalho. A SharpLink Gaming encaminhou uma fatia do seu programa de tesouraria em ETH para AVS na EigenCloud via Linea, a Flow Traders, cotada na Euronext Amsterdam, opera como operador de AVS no protocolo de crédito Cap construído sobre a EigenLayer, e a Hex Trust oferece staking custodiado de Bitcoin através da Babylon aos seus clientes institucionais. Do lado da Symbiotic, a Fasanara Capital, gestora londrina com vários milhares de milhões de dólares sob gestão, é a primeira curadora do produto Liquid Lane. Quem quiser perceber em detalhe quem está de facto a alocar capital, e através de que via de acesso, pode ler a nossa análise dedicada sobre restaking institucional em 2026.

O que mudou é o que os comités de risco perguntam antes de autorizar uma alocação. O rendimento anual deixou de ser a única variável relevante; termos de saída e janelas de liquidez pesam hoje tanto quanto o APY anunciado, precisamente porque o episódio Kelp mostrou o que acontece quando uma via de saída dada como garantida afinal não é fiável. Para uma tesouraria corporativa, a diferença entre um levantamento de sete dias na Babylon e uma dependência de uma ponte entre cadeias com histórico de exploração é, na prática, uma decisão de gestão de risco, não um pormenor técnico.

O caso Kelp/Aave revisitado: a saída que nunca devia ter sido necessária

Vale a pena voltar ao incidente Kelp/Aave com mais detalhe, porque ilustra o que acontece quando uma via de saída falha por completo em vez de ser apenas lenta. Durante o pico da crise, a Aave chegou a suspender por completo o poder de colateral do rsETH nos seus mercados, uma medida de contenção que, na prática, transformou uma emergência de bridge numa lição sobre como qualquer colateral líquido pode deixar de ser líquido de um momento para o outro. Depois do ataque, formou-se uma coligação de resgate que incluiu a Lido, a própria ether.fi, a Consensys e o fundador da Aave, Stani Kulechov, a título pessoal, com promessas de mais de 300 milhões de dólares para ajudar a cobrir o rombo, segundo a CoinDesk. Kulechov resumiu o momento assim: «Aave is my life’s work and we’re working nonstop to find the best possible outcome for users. I’m working to see this resolved and market conditions normalized as soon as possible.»

O episódio tornou-se também um caso de estudo para quem investiga incidentes deste tipo: perceber como uma ponte comprometida consegue inflacionar a oferta de um token sem tocar em depósitos reais, espalhados por dezenas de cadeias, é exatamente o tipo de trabalho forense que descrevemos em detalhe em quem investiga os hacks cripto por dentro. E porque a ponte da Kelp nunca tinha sido apontada como o elo mais fraco antes do ataque, o caso encaixa também na discussão mais lata sobre protocolos auditados e ainda assim explorados. A lição para o resto do setor é direta: a fricção de saída desenhada de propósito, o atraso por epoch da Symbiotic, o unbonding on-chain da Babylon, até a contabilidade cuidadosa da própria RETIRE, existe precisamente para evitar este tipo de desmantelamento não controlado.

CMVM, MiCA e o vazio regulatório sobre a saída do restaking

O regime transitório do MiCA para prestadores de serviços de ativos virtuais em Portugal terminou formalmente a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, já lá vai um mês. O Banco de Portugal fica com a supervisão prudencial e a autorização como CASP, enquanto a CMVM trata da conduta de mercado e da deteção de abuso de mercado, segundo um resumo da CMS Law. Passado o prazo, prestadores ainda não autorizados só podem encerrar relações existentes, sem angariar novos clientes portugueses.

Aplicado ao restaking, isto significa que o restaking-as-a-service oferecido através de um custodiante CASP autorizado a operar em Portugal cai dentro deste perímetro de supervisão, com alguma proteção de conduta de mercado da CMVM e supervisão prudencial do Banco de Portugal. Mas um utilizador português que faça restaking diretamente através dos contratos da EigenLayer, que autocustodie um timelock de Bitcoin na Babylon, ou que compre um LRT peer to peer, fica em grande medida fora desse perímetro: sem recurso à CMVM, sem fundo de compensação, se algo correr mal a meio de uma saída, como aconteceu aos depositantes da Kelp. Os derivados cripto, para contexto, seguem uma via completamente diferente, a da MiFID II, e não a do MiCA. Nos Estados Unidos, a SEC tem evitado incluir explicitamente o restaking no mesmo alívio regulatório que já concedeu a outras formas de staking, mantendo uma zona cinzenta semelhante do outro lado do Atlântico.

Preços e capitalização: EIGEN, SSV, BABY e ETH em euros

Para contexto, a fotografia atual dos principais tokens ligados a este ecossistema, com dados recolhidos junto da CoinGecko:

TokenPreço (EUR)Cap. de mercado (EUR)Variação 7 diasMáximo histórico
EIGEN€0,1564≈ €116 milhões-14,9%5,65 USD (16 dez 2024, -96,8%)
SSV€1,89≈ €27,7 milhões+3,6%65,82 USD (24 mar 2024, -96,7%)
BABY€0,00995≈ €40,1 milhões-8,2%0,1661 USD (12 abr 2025, -93,1%)
ETH€1.617,18≈ €195,1 mil milhões-3,0% (24h)referência de mercado do setor

O ETH, ativo de referência para praticamente todo este ecossistema, negoceia perto de 1.617,18 euros, com uma capitalização de mercado à volta de 195 mil milhões de euros, depois de uma queda de cerca de 3% nas últimas 24 horas.

O que vem a seguir: RETIRE, Aave V4 x Babylon e o resto da fila

A RETIRE continua em fase de rascunho, sem votação da DAO agendada. Vale acompanhar se o Protocol Council da EigenLayer a leva a votação e se isso acontece antes ou depois de a fila de entrada da beacon chain aliviar por si só; propostas semelhantes no historial da EigenLayer costumam demorar vários meses entre o rascunho e a aprovação final.

Em paralelo, a proposta da Babylon Labs e da Aave Labs para permitir BTC nativo como colateral na Aave V4, através de Trustless Bitcoin Vaults e de um token de contabilidade de transferência restrita chamado vaultBTC, continua limitada a testnet nas verificações mais recentes, com a governação da Aave ainda a fechar parâmetros de risco, desenho de oráculos e mecânica de liquidação antes de qualquer data de mainnet. A integração está a passar por um nível de auditoria acima do habitual para uma funcionalidade DeFi, dada a sensibilidade de mexer diretamente com BTC nativo. Se avançar, sair de uma posição na Aave colateralizada com BTC herdará o ritmo de sete dias da própria Babylon, não o da Ethereum. Vale também vigiar se a Symbiotic chega a lançar um token público, e se o mercado de bApps da SSV, ou uma SSV Chain multi-L1 prometida, chegam finalmente a arrancar; qualquer um destes eventos volta a mexer nesta comparação.

Durante a maior parte da curta história do restaking, o setor otimizou quase exclusivamente para a entrada. A RETIRE, a inversão da fila de validadores, o unbonding simples da Babylon e o desenho por epochs da Symbiotic apontam todos na mesma direção, tardia mas bem-vinda: os termos de saída estão a tornar-se uma funcionalidade desenhada e divulgada, em vez de um pormenor que só se descobre da pior forma, como aconteceu aos depositantes da Kelp em abril.

Perguntas Frequentes

O que é o restaking?

Restaking é reaproveitar ETH já staked, ou um token de liquid staking, para também ajudar a garantir a segurança de serviços adicionais, como oráculos, pontes entre cadeias ou camadas de disponibilidade de dados, chamados AVS (Actively Validated Services) na terminologia da EigenLayer. Em troca de rendimento extra, quem faz restaking assume também condições extra de slashing, o que torna o desenho da saída tão relevante quanto o da entrada.

O que é a ELIP-018 RETIRE da EigenLayer?

É uma proposta de governação publicada em julho de 2026 no fórum da EigenLayer, ainda em fase de rascunho, que quer permitir a quem faz restaking nativo sair de forma definitiva, ou rodar as chaves dos seus validadores, sem ter de voltar a atravessar a fila de entrada da beacon chain. Introduz novas funções nos contratos EigenPod, EigenPodManager e DelegationManager, mas continua sem data prevista para a DAO votar ou para chegar à mainnet.

Quanto tempo demora atualmente a sair (fazer unstake) da Ethereum?

À data de publicação, a fila de saída da Ethereum estava em zero, sem espera para iniciar o processo, embora se aplique depois um atraso técnico de cerca de 7,7 dias até os fundos chegarem ao endereço de destino. O contraste está na fila de entrada, que ultrapassava os 40 dias de espera para novos validadores, o inverso do que seria de esperar num mercado em queda.

É mais rápido sair do restaking de Bitcoin via Babylon do que da Ethereum?

Sim. O unbonding da Babylon está definido diretamente num script on-chain do próprio Bitcoin e demora cerca de sete dias, independentemente de filas da Ethereum, de votações de DAO ou do estado da infraestrutura da Babylon. É, atualmente, o mecanismo de saída mais simples e mais previsível entre os principais protocolos de restaking.

O restaking está protegido pela CMVM em Portugal?

Só parcialmente. Um serviço de restaking oferecido através de um prestador CASP autorizado a operar em Portugal cai sob supervisão do Banco de Portugal e da CMVM. Mas quem interage diretamente com os contratos da EigenLayer, da Babylon ou de outro protocolo, sem passar por um intermediário autorizado, fica fora desse perímetro de proteção, sem recurso à CMVM nem fundo de compensação em caso de perda.

Mariana Coutinho é jornalista da HOGE Wire, especializada em DeFi, restaking e infraestrutura on-chain.

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