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● DeFi & On-chain

O oligopólio do MEV: quem lucra com a arbitragem invisível

O lucro do MEV não está no sandwich que todos temem, mas na arbitragem CEX-DEX que quase ninguém vê. Três builders já ficam com quase 90% dos blocos do Ethereum.

Quando se fala de MEV, quase toda a gente pensa no sandwich: o bot que se cola a uma ordem na Uniswap, compra um instante antes da vítima e vende um instante depois, deixando quem negociou com um preço pior. É a face visível e teatral da extração de valor em cadeia. Não é, porém, onde está o grosso do dinheiro.

Em 2026, a maior fonte de MEV é quase invisível. Um estudo académico aceite na conferência AFT 2025 mediu 233,8 milhões de dólares (mais de 190 milhões de euros) extraídos por apenas 19 searchers a partir de 7,2 milhões de arbitragens entre exchanges centralizadas e descentralizadas, ao longo de 19 meses. Três desses operadores ficaram com três quartos de todo o volume e de todo o valor. Nada disto aparece de forma limpa nas dashboards que contam o MEV bloco a bloco, porque metade da operação acontece fora da cadeia.

Ao mesmo tempo, o mercado que decide a ordem das transações consolidou-se. Segundo a Relayscan, em meados de setembro de 2026 três builders produziam cerca de 88% dos blocos do Ethereum, com a Titan sozinha perto de 56%. O MEV deixou de ser uma caça feita por programadores solitários e passou a ser uma indústria vertical, com poucos vencedores e margens cada vez mais apertadas para todos os outros. Este artigo segue o dinheiro: que estratégias rendem mesmo, quem as domina e porque é que o Ethereum e a Solana estão a tentar mudar as regras do jogo.

MEV deixou de ser caça e passou a indústria

MEV é a sigla de Maximal Extractable Value, o valor máximo que quem ordena um bloco consegue extrair ao escolher que transações inclui, por que ordem e em que posição insere as suas. O termo nasceu no artigo Flash Boys 2.0, de 2020, onde um grupo de investigadores mostrou que esta captura podia ameaçar a própria estabilidade do consenso. Na altura falava-se em Miner Extractable Value; depois da passagem do Ethereum para proof-of-stake, o M passou a significar Maximal, porque já não são mineiros a ordenar os blocos.

A mecânica de cada estratégia, da arbitragem ao sandwich, das liquidações à JIT liquidity, já foi dissecada noutros textos. O que mudou em 2026, e que raramente se explica, é a estrutura económica por trás delas. Extrair MEV à escala deixou de estar ao alcance de um programador com um portátil. Exige capital para manter inventário em várias exchanges, infraestrutura de baixa latência colocada ao lado dos relays, modelos que preveem o preço no bloco seguinte e, cada vez mais, acordos exclusivos para receber o fluxo de ordens antes de toda a gente. É uma corrida ao armamento, e as corridas ao armamento terminam quase sempre com poucos vencedores.

O resultado é um sistema de duas camadas. Em cima, um punhado de empresas que combinam o papel de searcher, quem descobre a oportunidade, com o de builder, quem monta o bloco, e extraem valor com vantagens de escala. Em baixo, uma multidão de bots genéricos que disputam as sobras do MEV mais visível, com margens que tendem para zero. Perceber o MEV em 2026 é perceber esta assimetria, e não apenas a lista de truques.

Atómico contra não-atómico: o mapa que explica quem lucra

A forma mais útil de classificar o MEV em 2026 não é por tipo de truque, mas por uma linha mais funda: a operação é atómica ou não-atómica?

Uma operação atómica acontece inteiramente dentro da cadeia, num único bloco, e tem uma propriedade quase mágica: se não for lucrativa, reverte. O searcher que tenta uma arbitragem entre duas pools ou dispara uma liquidação não corre o risco de ficar a meio do caminho; ou a transação dá lucro, ou falha e ele perde apenas o gás. A arbitragem DEX-DEX, o sandwich, as liquidações e a JIT liquidity são todas atómicas. São também, por isso, visíveis on-chain: qualquer pessoa com um bom indexador as consegue medir.

Uma operação não-atómica tem uma perna fora da cadeia. O caso dominante é a arbitragem CEX-DEX: o searcher compra um ativo numa pool da Uniswap e vende-o numa exchange como a Binance, ou faz o inverso, para capturar a diferença de preço entre os dois mercados. A perna on-chain fica registada no bloco; a perna na exchange centralizada não. Isto tem duas consequências enormes. Primeira, grande parte do valor nunca aparece nas contas públicas de MEV, pelo que o tamanho real do fenómeno é sistematicamente subestimado. Segunda, só quem tem capital e contas institucionais nas CEX o consegue fazer, o que afunila a estratégia para muito poucas mãos. A tabela resume o mapa.

EstratégiaTipoOnde ocorreVisível on-chainQuem domina
Arbitragem DEX-DEXAtómicoEntre pools na mesma cadeiaSimBots gerais, margem baixa
SandwichAtómicoEm torno da ordem da vítimaSimBots especializados
LiquidaçõesAtómicoProtocolos de créditoSimKeepers e bots de liquidação
JIT liquidityAtómicoPools concentradas (Uniswap v3/v4)SimMarket makers sofisticados
Arbitragem CEX-DEXNão-atómicoEntre uma CEX e uma DEXParcial, perna off-chain ocultaPoucos searchers com capital
O eixo atómico contra não-atómico explica tanto a visibilidade como a concentração de cada estratégia.

A arbitragem CEX-DEX: o canto mais escuro da floresta

Se há uma peça de investigação que define o MEV de 2026, é o estudo Measuring CEX-DEX Extracted Value and Searcher Profitability, assinado por Fei Wu, Danning Sui, Thomas Thiery e Mallesh Pai e aceite na conferência Advances in Financial Technologies. O subtítulo diz tudo: «o canto mais escuro da floresta escura do MEV». Dois dos autores são investigadores da Flashbots, a empresa que mais fez para tornar o MEV mensurável, e mesmo assim precisaram de reconstruir 19 meses de dados para iluminar esta zona.

Os números são claros. Entre agosto de 2023 e março de 2025, 19 searchers extraíram 233,8 milhões de dólares de pouco mais de 7,2 milhões de arbitragens CEX-DEX. Três deles capturaram três quartos do volume e do valor. Para efeito de comparação, este montante supera o MEV atómico (sandwich, arbitragem entre pools e liquidações) medido no mesmo período. Por outras palavras: a estratégia de que quase ninguém fala é a maior de todas, e está concentrada num trio.

Economicamente, a arbitragem CEX-DEX é prima direita do basis trade que domina os mercados de derivados. Em ambos os casos, o operador explora um desalinhamento de preço entre dois locais e fecha a posição assim que o diferencial se esgota; a diferença é que aqui uma das pernas vive numa pool automática e a outra num livro de ordens centralizado. Quem acompanhou sete anos de basis trade no Bitcoin reconhece o padrão: retornos consistentes, pouco espetaculares, capturados por quem tem capital e infraestrutura para o fazer à escala industrial.

É também por ser não-atómica que esta arbitragem é tão exclusiva. O searcher assume risco de preço entre o instante em que executa a perna on-chain e o instante em que cobre a posição na exchange; se o mercado se mexer nesse intervalo, pode perder. Gerir esse risco exige inventário permanente em várias exchanges, linhas de crédito e modelos sofisticados. Um bot de sandwich corre num servidor barato; uma operação CEX-DEX parece-se com uma mesa de trading de alta frequência. Daí o afunilamento para tão poucos operadores.

O sandwich faz barulho, mas pesa pouco

O sandwich é a estrela mediática do MEV, e por boas razões: é o ataque que o utilizador sente diretamente na carteira. Em abril de 2026, um bot conhecido como JaredfromSubway chegou a fazer sandwich a uma troca de cerca de 4 dólares feita por Vitalik Buterin, movimentando mais de um milhão em volume para ganhar cêntimos. Dois meses depois, em ironia poética, o próprio bot foi drenado em cerca de 7,5 milhões de dólares num exploit. É teatro de rua, e dá boas manchetes.

A imagem que ficou famosa foi a da floresta escura. Em 2020, Dan Robinson e Georgios Konstantopoulos, da Paradigm, descreveram o mempool público do Ethereum como uma «dark forest» onde qualquer transação exposta é presa de predadores automáticos. A metáfora é certeira, mas levou muita gente a confundir a parte mais assustadora do MEV com a parte mais lucrativa. São coisas diferentes.

Em valor, o sandwich é uma fração do que rende a arbitragem CEX-DEX, e está em declínio estrutural. As defesas que o atacam de frente, dos RPC protegidos aos leilões em lote, já lhe tiraram boa parte da base. Protocolos como a CoW Protocol liquidam todas as ordens de um lote ao mesmo preço, o que torna o sandwich matematicamente impossível dentro desse lote. O mempool encriptado, se for mesmo adotado, fecha o resto da porta. Ou seja: a estratégia que mais assusta o retalho é também a que o ecossistema está mais perto de neutralizar. O dinheiro grande, esse, mora na parte invisível e difícil de regular.

Liquidações e JIT: o MEV que se disfarça de serviço

Nem todo o MEV é predatório. As liquidações são o melhor exemplo de extração que também presta um serviço. Quando um empréstimo em protocolos como a Aave ou a Morpho cai abaixo do rácio de garantia exigido, um bot (chamado keeper) salda a dívida e fica com um desconto sobre o colateral. Esse desconto é MEV, mas é também o que mantém os mercados de crédito solventes: sem liquidadores rápidos, uma queda de preço deixaria dívida por saldar e o protocolo acumularia perdas.

O problema aparece nos momentos de stress. Quando o preço cai a pique e milhares de posições ficam liquidáveis ao mesmo tempo, a competição entre keepers vira uma guerra de gás e de latência que, mais uma vez, favorece quem tem a melhor infraestrutura. A dinâmica é a mesma que se vê nos derivados, onde o posicionamento da multidão se torna um alvo: quando toda a gente está do mesmo lado, as liquidações em cascata transformam-se numa colheita para quem está preparado para as apanhar.

A JIT liquidity (just-in-time) é mais subtil. Um market maker deteta uma ordem grande prestes a executar numa pool concentrada da Uniswap, deposita liquidez no intervalo de preço exato um instante antes, cobra a comissão dessa troca e retira a liquidez logo a seguir. Para o trader, o preço até pode melhorar. Para os fornecedores de liquidez passivos da pool, é comissão que lhes foi retirada debaixo do nariz. É MEV vestido de serviço, e também ele exige uma sofisticação que a maioria não tem.

A cadeia de abastecimento: searcher, builder, relay, proposer

Para perceber onde o valor se concentra, é preciso conhecer a linha de montagem do bloco. A documentação do Ethereum descreve quatro papéis. O searcher procura oportunidades e empacota transações em bundles. O builder recebe bundles de vários searchers, junta-lhes transações normais e monta um bloco completo, otimizado para extrair o máximo de valor. O relay é o intermediário de confiança que recebe os blocos dos builders e os mostra ao proposer sem revelar o conteúdo até ao último momento. O proposer, um validador escolhido para aquele slot, limita-se a assinar o bloco mais valioso que lhe oferecem.

Este desenho chama-se proposer-builder separation e, hoje, vive quase todo fora do protocolo, através do MEV-Boost, o software da Flashbots que mais de 90% dos validadores usam para leiloar os seus blocos. A lógica é defensável: separar quem propõe de quem constrói evita que cada validador caseiro tenha de competir em sofisticação com mesas profissionais. O validador recebe uma parte do MEV sem ter de o extrair.

O reverso da medalha é que esta cadeia criou pontos de estrangulamento. O proposer vê apenas um preço, não o bloco, e confia no relay. E o builder, que de facto monta o bloco e decide a ordem, tornou-se o verdadeiro centro de poder. É aí, no elo do builder, que a integração vertical mais compensa, como se verá a seguir.

Integração vertical: quando o searcher e o builder são a mesma empresa

A ideia original da proposer-builder separation era saudável: cada papel da cadeia competiria no seu nível e o mercado manter-se-ia aberto. Na prática, aconteceu o contrário. As empresas perceberam que juntar papéis dá vantagem e começaram a integrar-se verticalmente. A própria Flashbots alertou para o perigo num ensaio intitulado The risks of vertical integration in MEV-Boost, onde descreve o risco de uma única organização acumular o RPC que recebe o fluxo privado, o builder que monta o bloco e o relay que o entrega.

O exemplo mais citado é a Titan, que em 2024 lançou o seu próprio relay, configurado para aceitar apenas os blocos construídos por si. Quando o mesmo grupo controla o searcher, o builder e o relay, o fluxo de ordens que entra por uma ponta nunca escapa para os concorrentes, e a margem fica toda em casa. É este o motor da concentração.

A peça que fecha o puzzle é o fluxo de ordens exclusivo. Carteiras, agregadores e aplicações assinam acordos para enviar as transações dos seus utilizadores diretamente a um builder, em troca de uma parte do MEV. Para o builder integrado, esse fluxo é ouro: garante-lhe transações que mais ninguém vê e com as quais pode montar o bloco mais valioso. O estudo sobre a arbitragem CEX-DEX mostra a consequência em números: os searchers neutros, que repartem o fluxo por vários builders, conseguem reter margens mais altas; os searchers exclusivos, amarrados a um só builder, ficam com margens menores e entregam a maior parte do valor extraído ao parceiro. A integração compra fluxo, mas cobra-o em partilha de lucro.

O oligopólio dos builders em 2026

Os números do mercado de construção de blocos confirmam a tese. A tabela abaixo usa dados da Relayscan de meados de setembro de 2026; as quotas oscilam de dia para dia, mas a forma do mercado mantém-se há meses.

BuilderQuota de blocos (set. 2026)ModeloNota
Titan~56%Builder com searcher e relay própriosRelay lançado em 2024 só aceita os seus blocos
Quasar~17%BuilderEntrante que subiu depressa em 2026
BuilderNet~15%Multi-operador em TEE, redistribui valorFlashbots, Beaverbuild e Nethermind
Restantes (rsync, bombora, outros)~12% no totalVáriosbombora chegou a registar prejuízo de 2,13 ETH em 24 horas
Fonte: Relayscan, janela de 24 horas em meados de setembro de 2026. As quotas variam diariamente.

Três builders produzem cerca de 88% dos blocos. O índice Herfindahl-Hirschman, a medida clássica de concentração que as autoridades da concorrência usam para avaliar fusões, situa-se à volta de 2.140, o que coloca este mercado em território moderadamente concentrado. E há um detalhe revelador nas margens: num dia típico de setembro, a Titan gerou perto de 48 ETH de lucro em 24 horas (mais de 115 mil euros à cotação de cerca de 2.400 euros por ETH), enquanto um builder pequeno como a bombora registou prejuízo. As vantagens de escala entrincheiram os líderes: quem tem mais fluxo monta blocos mais valiosos, ganha mais slots e atrai ainda mais fluxo.

É um ciclo que se autoalimenta e que explica por que razão o mercado, apesar de ser tecnicamente aberto (qualquer pessoa pode correr um builder), tende para o oligopólio. Não é por falta de concorrentes; é porque a economia do MEV premeia a escala e a exclusividade do fluxo acima de tudo o resto.

A concentração não é só uma questão de preço; é também uma questão de resistência à censura. Depois de os Estados Unidos terem sancionado o Tornado Cash em 2022, vários relays e builders passaram a excluir transações ligadas a endereços sancionados, e o painel MEV Watch chegou a medir uma maioria de blocos a cumprir essa filtragem. Quanto menos builders existirem, mais fácil é pressioná-los a decidir o que entra e o que fica de fora, e mais frágil se torna a promessa de neutralidade do Ethereum.

A corrida ao fundo: porque a margem do searcher independente colapsa

Do lado de quem não está integrado, a história é de erosão. À medida que mais bots competem pelas mesmas oportunidades atómicas, o lucro de cada arbitragem ou liquidação é empurrado para baixo, porque os searchers licitam entre si em gás e em gorjetas ao builder até restar quase nada. É a tal corrida ao fundo: numa arbitragem simples e pública, o vencedor paga ao bloco quase todo o lucro para garantir a prioridade. O valor existe, mas acaba no builder e no validador, não no searcher.

Para o utilizador, este custo é largamente invisível, e é esse o ponto. Num trabalho publicado na SSRN, o investigador Antonio Lopez Hernandez descreve o MEV como o PFOF da cripto, um imposto implícito por transação, e estima que a comissão visível que o utilizador paga numa troca em DEX representa apenas 28% a 36% do custo total; o resto é custo implícito, incluindo o MEV que lhe é extraído. Dito de outra forma: por cada euro de comissão que vê, paga outros que não vê.

Para o searcher pequeno, a conclusão é desanimadora. Sem fluxo exclusivo, sem capital para a perna CEX-DEX e sem infraestrutura colada aos relays, fica remetido às arbitragens de margem mínima que os grandes já nem se dão ao trabalho de disputar. É aqui que entra a parte mais interessante de 2026: um conjunto de iniciativas que tenta devolver valor a quem o perde, dos utilizadores aos searchers independentes.

BuilderNet e a contra-ofensiva da redistribuição

A resposta mais ambiciosa à concentração chama-se BuilderNet, uma rede de construção de blocos lançada pela Flashbots com a Beaverbuild e a Nethermind. Em vez de um builder fechado, vários operadores correm o mesmo software dentro de ambientes de execução confiável (TEE), que garantem que ninguém vê nem adultera o fluxo de ordens alheio. A rede partilha o fluxo entre operadores e aplica uma regra de reembolso que devolve valor a utilizadores, carteiras, aplicações e searchers na proporção do que cada um contribuiu.

O objetivo declarado, na própria documentação da rede, é explícito: criar «um campo de jogo nivelado onde os searchers independentes possam receber os mesmos resultados financeiros e a mesma privacidade que hoje só os searcher-builders integrados têm». A BuilderNet aponta o dedo diretamente ao problema que este artigo descreve, os acordos de fluxo exclusivo que, nas suas palavras, «entrincheiraram um duopólio no mercado de builders». Em setembro de 2026 já valia cerca de 15% dos blocos, uma fatia minoritária mas em crescimento, e a Flashbots e a Beaverbuild comprometeram-se a integrar os seus builders centralizados na rede.

A BuilderNet não está sozinha. Há uma pilha inteira de defesas que redistribuem MEV, cada uma a atacar uma camada diferente do problema.

MecanismoComo devolve valorQuem beneficiaEstado em 2026
RPC protegido (Flashbots Protect)Mantém a ordem fora do mempool públicoUtilizadorAmplamente usado
Leilão de fluxo (MEV Blocker)Devolve cerca de 90% do backrun ao utilizadorUtilizadorEm produção
Leilão em lote (CoW Protocol)Preço único por lote elimina o sandwichUtilizadorEm produção
BuilderNet (TEE)Reembolso proporcional ao fluxo contribuídoUtilizador, carteira, searcher~15% dos blocos
MEV ao nível da app (Unichain, Angstrom)Reordena a favor dos fornecedores de liquidez da própria appLPs e protocoloEm expansão
As defesas de 2026 já não tentam só esconder a ordem; tentam devolver o valor a quem o gera.

O MEV Blocker, construído pela CoW Protocol com parceiros, é o mais direto para o utilizador comum: encaminha a ordem para um leilão onde os searchers competem para fazer backrun e devolve cerca de 90% do valor ganho a quem negociou. Ao nível da aplicação, projetos como a Angstrom, construída sobre hooks da Uniswap v4, ou a Unichain reordenam internamente as transações para que o MEV reverta para os fornecedores de liquidez em vez de fugir para os builders. É o início de uma ideia poderosa: se o MEV é inevitável, que fique ao menos com quem usa o protocolo.

Glamsterdam, ePBS e FOCIL: a resposta do protocolo

As defesas de mercado atacam os sintomas. A cura, se existir, terá de vir do próprio protocolo. A próxima grande atualização do Ethereum, batizada Glamsterdam, entra em testes na rede Sepolia a 6 de outubro de 2026, com a ativação em mainnet esperada para o último trimestre do ano. A peça central é a EIP-7732, que traz a proposer-builder separation para dentro do protocolo (a chamada ePBS), acompanhada das block-level access lists da EIP-7928.

A ePBS formaliza no consenso o que hoje vive no MEV-Boost: o builder compromete-se com um payload que só revela mais tarde, e um comité de pontualidade atesta se cumpriu o prazo. Em teoria, retira poder aos relays de confiança e torna a separação mais robusta. Mas há quem avise que não chega. Vitalik Buterin apresentou em março de 2026 um plano em que defende que a ePBS, sozinha, é insuficiente: o estado partilhado síncrono empurra sempre para alguma centralização dos builders, pelo que é preciso somar-lhe a FOCIL (listas de inclusão geridas por um comité aleatório, para impedir a censura de transações) e, mais à frente, mempools encriptados e encaminhamento anónimo.

A tensão não passou despercebida à comunidade técnica, que sinalizou o risco de o leilão de builders dentro do protocolo reproduzir a mesma concentração que já existe fora dele. O próprio Buterin assinalou que o tempo dos forks «normais» está a terminar, à medida que as mudanças passam a mexer no coração do consenso. Por outras palavras: resolver o MEV ao nível do protocolo é mais difícil do que esconder transações, e vai levar anos, não meses.

Solana e o modelo Jito: outro desenho, mesma tensão

O MEV não é um problema exclusivo do Ethereum. Na Solana, onde a SOL vale cerca de 107 euros e capitaliza perto de 63 mil milhões de euros, o desenho é diferente mas a tensão é a mesma. Não há um mempool global: as transações vão diretas aos validadores. O papel que o MEV-Boost tem no Ethereum cabe aqui ao cliente Jito-Solana, que corre em mais de 90% do stake e introduz um mercado de bundles e gorjetas para ordenar transações.

A diferença mais elegante do modelo Jito é o que faz com as gorjetas: recicla-as no token de staking líquido JitoSOL, de modo que o MEV capturado volta, em parte, para quem faz staking. É um ângulo que ganha relevância agora que os ETF começam a incorporar o staking na leitura dos fluxos: se o rendimento de staking inclui MEV reciclado, o MEV deixa de ser só um custo e passa a ser também uma fonte de yield para o investidor institucional.

Isso não apagou a parte tóxica. Em 2024, a Solana Foundation expulsou mais de 30 validadores do seu programa de delegação por operarem mempools privados para fazer sandwich a utilizadores de retalho. Tim Garcia, responsável pelas relações com validadores, classificou a decisão como «final». A lição é transversal: seja no Ethereum, seja na Solana, seja em agregadores como o Jupiter, que concentram o fluxo de ordens, a ordenação das transações é poder, e o poder tende a concentrar-se.

MEV, abuso de mercado e a CMVM

Para o regulador, o MEV é um quebra-cabeças. Nos mercados tradicionais, o front-running e a manipulação de ordens são infrações claras. Em cadeia, a mesma conduta vive numa zona cinzenta. A MiCA trouxe um regime de abuso de mercado no seu Título VI (insider dealing, divulgação ilícita e manipulação), e a CMVM, enquanto supervisor de conduta em Portugal, pode em teoria atuar sobre um prestador de serviços de criptoativos (CASP) que faça front-running às ordens dos seus clientes.

O problema é que o MEV mais lucrativo não é feito por CASP registados. É feito por bots anónimos em DEX sem permissões, fora de qualquer perímetro de supervisão. Um regulador consegue sancionar uma exchange licenciada; não consegue identificar nem responsabilizar um searcher que opera através de um contrato anónimo. E a concentração dos builders, talvez o maior risco sistémico, tem a forma de um problema de concorrência, não de abuso de mercado: nenhum regulador de criptoativos tem mandato para tratar um oligopólio de infraestrutura como trataria uma fusão abusiva.

O enquadramento português consolidou-se com a Lei n.º 69/2025, que transpôs a MiCA, e com o fim do período transitório para os antigos VASP a 1 de julho de 2026. Mas isso regula quem presta o serviço, não quem ordena o bloco. A mesma lacuna aparece noutros domínios do DeFi: tal como a MiCA se aproxima do crédito DeFi sem conseguir agarrar os protocolos verdadeiramente descentralizados, no MEV o perímetro fica-se pela porta de entrada e o essencial escapa.

O que muda para o investidor comum

Nada disto exige que o pequeno investidor se torne especialista em teoria de leilões. Mas há três ideias práticas que vale a pena reter.

  • Use proteção por defeito. Enviar as trocas através de um RPC protegido ou de um agregador com leilão de fluxo de ordens, como o MEV Blocker, ou negociar em protocolos de leilão em lote, como a CoW Protocol, elimina a maior parte do risco de sandwich sem custo visível.
  • Saiba que paga um imposto invisível. Mesmo bem protegido, parte do custo de negociar em cadeia é MEV embutido no preço. É o argumento a favor de ordens-limite e de execução paciente, em vez de market orders apressadas.
  • Vigie a concentração, não só o sandwich. O risco de longo prazo não é perder cêntimos numa troca; é um punhado de builders ganhar poder para censurar ou reordenar o que lhes convém. É por isso que iniciativas como a BuilderNet e a ePBS importam mais do que parecem.

O MEV não vai desaparecer: enquanto houver valor em escolher a ordem das transações, haverá quem o extraia. A pergunta que define 2026 não é se o MEV existe, mas quem fica com ele. Entre o oligopólio vertical que o captura hoje e as redes que tentam devolvê-lo ao utilizador, joga-se uma das batalhas mais importantes, e menos visíveis, do DeFi.

Perguntas frequentes

O que é a arbitragem CEX-DEX e porque é a maior fonte de MEV?

A arbitragem CEX-DEX explora a diferença de preço entre uma exchange centralizada, como a Binance, e uma pool descentralizada, como a Uniswap. Uma das pernas da operação acontece fora da cadeia, pelo que grande parte do valor nunca aparece on-chain e escapa às dashboards de MEV. Um estudo académico de 2025 mediu 233,8 milhões de dólares extraídos por apenas 19 searchers ao longo de 19 meses, um valor que ultrapassa o MEV visível dos sandwich.

O que é a integração vertical no MEV?

Acontece quando a mesma empresa controla várias etapas da cadeia de produção de blocos, tipicamente o searcher e o builder. Quem integra recebe o fluxo de ordens em exclusivo e consegue ordenar os blocos a seu favor, o que lhe dá uma vantagem estrutural sobre os searchers independentes. A Flashbots documentou estes riscos e a Titan chegou a lançar o seu próprio relay em 2024 para só aceitar os seus blocos.

Quantos builders controlam o Ethereum em 2026?

Segundo os dados da Relayscan de setembro de 2026, três builders (Titan, Quasar e BuilderNet) produzem cerca de 88% dos blocos, com a Titan sozinha perto de 56%. É uma concentração elevada, que o índice Herfindahl-Hirschman coloca em território moderadamente concentrado, e as vantagens de escala tendem a entrincheirar os líderes.

A BuilderNet resolve o problema da concentração?

A BuilderNet é uma rede de construção de blocos operada em ambientes de execução confiável (TEE) que partilha o fluxo de ordens entre vários operadores e devolve valor a utilizadores, carteiras e searchers na proporção do que contribuíram. O objetivo declarado é dar ao searcher independente o mesmo resultado financeiro e a mesma privacidade que hoje só os searcher-builders integrados têm. É uma contra-ofensiva promissora, mas ainda detém uma fatia minoritária do mercado.

Como é que um utilizador comum se protege do MEV?

A defesa mais simples é enviar as transações através de um RPC protegido ou de um agregador com leilão de fluxo de ordens, como o MEV Blocker, que devolve ao utilizador cerca de 90% do valor capturado por quem faz backrun à sua ordem. Protocolos com leilões em lote, como a CoW Protocol, eliminam na prática o sandwich ao liquidar todas as ordens ao mesmo preço. Ainda assim, a arbitragem CEX-DEX e a concentração dos builders continuam fora do alcance do investidor individual.

Por Mariana Osório, redação da HOGE Wire.

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