ETF de Ethereum: o staking que muda a leitura dos fluxos
Os fluxos de ETF que enchem as manchetes são de Bitcoin. Mas o segundo maior fundo, o de Ethereum, joga outro jogo: pode fazer staking, e isso muda o que um fluxo vale.
Todos os meses se repetem as mesmas manchetes: os fluxos de ETF de Bitcoin bateram recorde, ou sangraram centenas de milhões, ou voltaram a terreno positivo. O número que domina a conversa é quase sempre o do IBIT da BlackRock e dos seus pares em Bitcoin, que juntos valem largamente mais de 100 mil milhões de dólares. Mas existe um segundo mercado de ETF de cripto, mais pequeno e muito menos comentado, que joga um jogo diferente: o de Ethereum.
A diferença não é só de tamanho. Um ETF de Bitcoin guarda Bitcoin e espera. Um ETF de Ethereum pode fazer algo que o de Bitcoin nunca poderá: pôr os ativos a trabalhar através de staking e gerar um rendimento nativo. Desde o final de 2025, vários fundos americanos começaram a fazê-lo, e isso altera três coisas ao mesmo tempo: o que significa um fluxo, quanto rende de facto o produto e quem fica com o juro. Para quem investe a partir de Portugal, em euros, há ainda uma reviravolta pouco contada: a Europa chegou ao staking em ETP anos antes dos Estados Unidos. Este guia explica como ler os fluxos de ETF de Ethereum sem cair na armadilha de confundir rendimento com lucro.
Dois mercados de ETF, não um
Os dados de 2 de outubro de 2026 resumem o desequilíbrio. O Bitcoin transaciona perto de 86 245 dólares (cerca de 76 844 euros), com uma capitalização acima de 1,7 biliões de dólares, segundo a CoinGecko. O Ethereum está nos 2 739 dólares (aproximadamente 2 439 euros), uma capitalização na ordem dos 334 mil milhões e ainda uns 45% abaixo do máximo histórico de 4 946 dólares, na mesma fonte. Ao longo do texto usamos um câmbio de cerca de 1,12 dólares por euro. Essa hierarquia repete-se nos ETF: os fundos de Bitcoin cotados nos Estados Unidos somam mais de 100 mil milhões de dólares em ativos, enquanto os de Ethereum, lançados a 23 de julho de 2024, acumularam cerca de 14 mil milhões de dólares em entradas líquidas desde a estreia, de acordo com o tracker da Datawallet. É um sétimo do tamanho, para o segundo maior ativo do setor.
Antes de avançar, convém separar três números que são muitas vezes confundidos, e que já dissecámos noutras peças deste cluster: o fluxo (o dinheiro líquido que entra ou sai num período), os ativos sob gestão, ou AUM (o valor total do fundo, que também sobe e desce com o preço), e as moedas efetivamente detidas (que só mudam quando há subscrições ou resgates reais). Um fundo pode perder AUM numa semana de entradas, se o preço cair mais do que o dinheiro que entrou. No caso do Ethereum, há agora um quarto número a vigiar: o rendimento de staking.
No lado americano, um único fundo domina. O iShares Ethereum Trust (ETHA) da BlackRock concentra cerca de 68% dos ativos dos ETF de Ethereum, a mesma lógica de «o vencedor leva tudo» que marca o lado do Bitcoin. Mas, ao contrário do IBIT, o ETHA não faz staking. Para perceber porque é que isso importa, é preciso olhar primeiro para o que o staking é.
O que torna o fluxo de Ethereum diferente: o staking
O Bitcoin assenta em prova de trabalho: a rede é segura por mineradores que gastam eletricidade, e não há forma de um detentor passivo ganhar mais Bitcoin apenas por o guardar. O Ethereum, desde a transição para prova de participação em 2022, funciona de outra maneira. Quem bloqueia ETH como garantia (em lotes de 32 ETH, operando um validador) ajuda a validar transações e recebe em troca novas emissões e taxas da rede. A isto chama-se staking, e é um rendimento nativo do protocolo, não um pagamento prometido por uma contraparte. É rendimento real, no mesmo sentido em que distinguimos rendimento real de emissões inflacionárias ao avaliar protocolos de DeFi.
Quanto rende? Menos do que a lenda sugere. No final de 2026, a taxa base de staking do Ethereum comprimiu-se para cerca de 2,78% ao ano, com o MEV a acrescentar entre meio ponto e um ponto percentual para quem corre o software adequado, o que dá um rendimento total na ordem dos 3,3% a 3,8% para um validador bem operado, segundo dados compilados pela Datawallet. Há cerca de 897 mil validadores ativos e perto de 38,9 milhões de ETH em staking, aproximadamente 32% de toda a oferta. Quanto mais ETH entra em staking, mais o rendimento se dilui; os mais de 4% de 2023 não voltaram.
Esta é a característica que nenhum ETF de Bitcoin pode copiar, e é por isso que um fluxo para um ETF de Ethereum pode significar duas coisas muito diferentes. Ou alguém quer exposição ao preço do ETH, pura e simples, ou quer também o rendimento que vem agarrado a ele. O produto que o investidor escolhe diz-nos qual dos dois.
De proibido a permitido: a linha do tempo do staking em ETF
Quando os primeiros ETF de Ethereum à vista estrearam em julho de 2024, a SEC impôs uma condição: não podiam fazer staking. O receio regulatório era duplo. O staking podia reforçar a tese de que o produto era um contrato de investimento (uma security), e levantava um problema de liquidez, porque ETH em staking não está imediatamente disponível para resgate. Durante mais de um ano, os ETF americanos de Ethereum foram, na prática, cofres de ETH parado.
Essa barreira caiu por etapas. A 6 de outubro de 2025, o Grayscale Ethereum Trust (ETHE) e o Grayscale Ethereum Mini Trust tornaram-se os primeiros ETP de cripto à vista cotados nos EUA a ligar o staking. A 5 de janeiro de 2026, o ETHE deu o passo seguinte e foi o primeiro a distribuir rendimento de staking aos acionistas: 0,083178 dólares por ação, referentes às recompensas acumuladas entre 6 de outubro e 31 de dezembro de 2025, segundo o comunicado depositado na SEC, com distribuições mensais a continuarem ao longo do semestre. No início de 2026, os reguladores americanos passaram a tratar o staking de protocolo como fora do perímetro das leis de valores mobiliários, removendo o principal obstáculo legal.
| Data | Marco |
|---|---|
| 23 jul. 2024 | Estreia dos ETF de Ethereum à vista nos EUA, sem autorização para staking |
| 6 out. 2025 | Grayscale (ETHE e Mini) liga o staking, o primeiro ETP de cripto à vista dos EUA a fazê-lo |
| 5 jan. 2026 | ETHE é o primeiro a distribuir recompensas de staking (0,083178 dólares por ação) |
| 12 mar. 2026 | BlackRock lança o ETHB, um fundo separado com staking, na Nasdaq |
| abr. 2026 | BlackRock corta a sua fatia das recompensas de 18% para 10% |
Dois caminhos: ligar o staking ou lançar um fundo novo
Havia duas formas de um emitente oferecer staking, e os dois maiores nomes escolheram caminhos opostos. A Grayscale ligou o staking dentro dos fundos que já existiam: o ETHE e o seu irmão de baixo custo passaram a fazer staking sem que o investidor tivesse de mudar de produto. A BlackRock fez o contrário. Manteve o ETHA, o seu fundo gigante, sem staking, e lançou a 12 de março de 2026 um veículo separado, o iShares Staked Ethereum Trust (ticker ETHB), cotado na Nasdaq, como noticiou a TradingView.
A opção da BlackRock não é um detalhe burocrático. Um fundo com staking assume riscos (de slashing, de liquidez, de prestador de serviço) que um fundo sem staking não tem; separar os produtos permite que o investidor conservador fique no ETHA, intocado, e que quem quer o rendimento vá para o ETHB de olhos abertos. Também isola, do ponto de vista fiscal e operacional, o rendimento de staking num só veículo. O resultado é que a BlackRock passou a ter dois fundos de Ethereum a competir lado a lado, e os fluxos entre eles contam uma história que o número agregado esconde, como veremos.
Quem fica com o rendimento: a economia do staking ETF
Aqui entra a parte que raramente aparece nas manchetes de fluxos: o rendimento de staking não vai todo para o investidor. O emitente fica com uma fatia. No lançamento, a BlackRock reteve 18% das recompensas brutas de staking do ETHB, deixando 82% para os acionistas, uma repartição em que a própria Coinbase, enquanto operadora do staking, participa, segundo a DL News. Poucas semanas depois, sob pressão concorrencial, a BlackRock cortou a sua fatia de 18% para 10%, elevando a parte do investidor para 90%, conforme noticiado pela CryptoNews. A comissão de gestão do ETHB é de 0,25%, com uma promoção de 0,12% no primeiro ano ou até aos primeiros 2,5 mil milhões de dólares em ativos.
Repare no que isto faz à conta de resultados do emitente. Um ETF de Bitcoin tem uma única fonte de receita: a comissão sobre os ativos. Um staking ETF de Ethereum tem duas: a comissão de gestão e a fatia das recompensas de staking. Quando analisámos a economia do IBIT, o argumento era que uma comissão fixa sobre uma base volátil transforma o fundo numa aposta alavancada no preço do Bitcoin. No Ethereum soma-se uma segunda alavanca: quanto mais ETH o fundo põe em staking e quanto mais a rede paga, maior o rendimento que o emitente embolsa por cima da comissão.
Um exemplo torna a dupla alavanca concreta. Imagine um fundo com mil milhões de dólares em ETH, 85% em staking a render 3% brutos. São cerca de 25,5 milhões de dólares de recompensas por ano; com uma fatia de 10%, o emitente embolsa perto de 2,55 milhões só de staking, por cima dos 2,5 milhões da comissão de gestão de 0,25%. O rendimento que aparece ao investidor como um extra é, do outro lado da mesa, uma segunda linha de receita que cresce com o preço e com a taxa da rede. A tabela resume o essencial, e já adianta a surpresa europeia: lá fora, a conta pode ser outra.
| Produto | Região | Comissão de gestão | Recompensas de staking |
|---|---|---|---|
| BlackRock ETHB | EUA | 0,25% (0,12% no 1.º ano) | 90% para o investidor (eram 82%) |
| CoinShares Physical Staked Ethereum | Europa | 0,0% | 1,25%/ano creditado em ETH |
| 21Shares ETHC (Core Staking) | Europa | 0,10% | Reinvestido, capitaliza no valor |
| 21Shares AETH (Staking) | Europa | 1,49% | Refletido no valor do produto |
A conta que desilude: staking contra o juro sem risco
Juntando as peças, chega-se a uma conclusão incómoda: o rendimento de staking de um ETF é, hoje, provavelmente inferior ao que um Bilhete do Tesouro paga. A matemática é simples. A rede paga cerca de 2,78% de base, ou 3,3% a 3,8% com MEV. Desse bruto, o fundo retira a comissão de gestão (0,25% no ETHB) e a sua fatia das recompensas (10%). O que sobra para o investidor ronda, no melhor dos casos, os 2,5% a 3% líquidos.
Agora olhe para a alternativa sem risco. A Reserva Federal subiu os juros a 16 de setembro de 2026 para o intervalo de 3,75% a 4,00%, a primeira subida desde 2023, segundo o comunicado oficial. Um Bilhete do Tesouro americano de curto prazo rende perto de 4%. Por outras palavras, o cofre mais seguro do mundo paga mais do que o staking de Ethereum, e sem a volatilidade de um ativo que caiu cerca de 45% face ao máximo. É a mesma lógica que explorámos no carry do Bitcoin: um rendimento só é atrativo quando supera o custo de oportunidade do dinheiro, e com a Fed neste nível a fasquia está alta. A reunião de 27 e 28 de outubro dirá se os juros sobem mais; depois de a medida de inflação preferida da Fed ter abrandado em agosto, o mercado reduziu a probabilidade de nova subida já este mês.
Staking não é dinheiro grátis: os riscos
E mesmo esse rendimento magro vem com riscos que o cupão de um Bilhete do Tesouro não tem. O mais brutal é o preço. Entre 1 de janeiro e 6 de junho de 2026, dez mil dólares investidos no staking ETF de Ethereum da Grayscale transformaram-se em 5 328 dólares, uma queda de 47%, a acompanhar um ETH que perdeu 46% no período, como mostrou uma análise da Yahoo Finance. Num único dia, 5 de junho, o fundo caiu 11%. Um rendimento de uns pontos percentuais ao ano equivale a uns cêntimos por dia de negociação; quando o ativo de referência se mexe 10% numa sessão, o rendimento é ruído estatístico. O cupão não salva no dia que interessa.
Depois há os riscos próprios do staking:
- Slashing: um validador que se porte mal (dupla assinatura, inatividade prolongada) pode ser penalizado com a perda de parte do ETH dado em garantia.
- Liquidez: ETH em staking não sai de forma instantânea. No final de 2026, a fila de entrada demorava cerca de 50 dias a ativar novos depósitos, e a fila de saída pode ser igualmente longa em períodos de stress. É por isso que estes fundos nunca põem 100% em staking: a BlackRock faz staking de 70% a 95% do ETH do ETHB, mantendo uma almofada líquida para honrar resgates.
- Prestador e custódia: o staking é operado por terceiros (a Coinbase e a Figment, no caso do ETHB), o que adiciona risco de contraparte e concentração, o mesmo problema de a custódia num só cofre que já marca o lado do Bitcoin.
Há ainda a fricção com os próprios fluxos. Um resgate grande obriga o fundo a entregar ETH líquido; se quase tudo estiver em staking e a fila de saída estiver longa, o emitente tem de gerir o descasamento. É uma razão técnica, pouco glamorosa, para os fundos não maximizarem a percentagem em staking, mesmo que isso reduza o rendimento anunciado.
A rotação que o número líquido esconde: ETHA para ETHB
Volte então à decisão da BlackRock de ter dois fundos. Quando um investidor vende ETHA (sem staking) e compra ETHB (com staking), o fluxo líquido agregado dos ETF de Ethereum pode nem se mexer: sai de um, entra no outro. Mas a composição mudou, e essa mudança é um sinal. Diz que o dinheiro começou a querer o rendimento, não só a exposição.
Já se viu este padrão: o ETHA, sem staking, a registar saídas enquanto os produtos com staking recebiam entradas. Não era capital novo a chegar, era capital a rodar para dentro do rendimento. Para quem lê fluxos, a lição é a de sempre, aqui com tempero de Ethereum. O número da manchete é líquido e agregado, e esconde a direção; vale mais olhar para onde o dinheiro vai (fundo com ou sem staking, emitente caro ou barato) do que para o sinal de mais ou de menos à frente do total. É a mesma disciplina de ler o posicionamento em vez do preço nu.
ETH contra BTC: porque o fluxo diverge
Os fluxos de Ethereum não são uma versão à escala dos de Bitcoin; movem-se ao seu próprio ritmo. Houve janelas em 2026 em que os ETF de Ethereum, apesar de muito mais pequenos, registaram em termos relativos entradas mais vigorosas do que os de Bitcoin, e outras em que sangraram enquanto o Bitcoin recebia. No arranque de outubro, por exemplo, os ETF de Bitcoin viram terminar uma série de nove dias e cerca de 3 mil milhões de dólares em entradas, com 149 milhões a sair num só dia, segundo o The Block, ao passo que os de Ethereum vinham de uma série própria de entradas antes de arrefecerem.
A razão da divergência é narrativa. O Bitcoin vende-se como ouro digital, uma reserva de valor simples. O Ethereum é mais difícil de embrulhar numa frase: é infraestrutura, é um ativo produtivo que rende, é a base de stablecoins e de finança on-chain. O staking era, em teoria, a peça que faltava para dar ao ETH a história institucional que lhe faltava. Mas, como avisou o analista da Bloomberg Eric Balchunas, autorizar o staking «ajuda, não pode prejudicar»; para as entradas acelerarem, porém, o Ether precisa de «uma corrida de vários meses» e de uma narrativa forte, não de um estímulo de curto prazo, segundo declarações recolhidas pela imprensa especializada. Por outras palavras: o staking não cria procura sozinho; amplifica a procura que já existe quando o preço acompanha.
Há ainda um efeito de segunda ordem que o Bitcoin não tem. Cada ETH colocado em staking por um fundo é ETH que sai do mercado disponível e fica bloqueado como garantia, o que reduz a oferta líquida à venda. Se os fluxos para staking ETF forem consistentes, o produto deixa de ser apenas um veículo de procura e passa a ser também um sorvedouro de oferta, um argumento que os defensores do ETH gostam de sublinhar e que se cruza com o debate mais amplo sobre quem controla a oferta trancada da rede.
A Europa chegou primeiro ao staking
Aqui está a reviravolta que raramente se conta ao investidor português. Enquanto os ETF americanos estiveram proibidos de fazer staking até ao final de 2025, a Europa já oferecia ETP de Ethereum com staking, a distribuir ou a creditar recompensas, havia anos. O produto europeu é um ETP (um título de dívida fisicamente garantido), não um fundo à moda americana, mas faz exatamente aquilo que os ETF dos EUA só agora podem fazer.
O CoinShares Physical Staked Ethereum cobra 0,0% de comissão de gestão (uma estrutura de comissão zero em vigor desde fevereiro de 2023) e credita ao investidor uma recompensa de staking fixa de 1,25% ao ano, em vigor desde fevereiro de 2024, segundo o comunicado do emitente. «A CoinShares é o único emitente de ETP de cripto a oferecer recompensas de staking transparentes e partilhadas», afirmou Townsend Lansing, responsável de produto da CoinShares, «através de uma comissão de gestão reduzida e de um aumento diário, numa percentagem pré-definida, da quantidade de criptomoeda a que o investidor tem direito». A 21Shares segue dois caminhos: o ETHC (Ethereum Core Staking), com 0,10% de comissão, que reinveste as recompensas para capitalizar o valor, e o AETH (Ethereum Staking), a 1,49%, ambos fisicamente garantidos e em custódia fria, de acordo com as fichas de produto da 21Shares.
Repare na ironia. Um investidor europeu podia ter acesso a staking de Ethereum embrulhado num produto cotado muito antes de um americano e, nalguns casos, a uma comissão de 0% que nenhum ETF dos EUA iguala. O «sinal» dos fluxos americanos que lê nas manchetes é, para si, exatamente isso: um sinal. O produto que pode comprar é outro.
O embrulho importa: ETP não é fundo, e o fisco
Esta diferença de embrulho não é cosmética; tem consequências de risco e de imposto. Um ETF americano é um fundo: os ativos estão segregados e, em princípio, protegidos do balanço do emitente. Um ETP europeu é, tipicamente, um ETN ou ETC, ou seja, um título de dívida garantido fisicamente por cripto em custódia, mas sem a proteção de património autónomo de um fundo. Se o emitente falhar, o investidor é credor. É a troca que a Europa faz para contornar a regra UCITS, que exige diversificação mínima e, por isso, proíbe um fundo de um só ativo (a mesma razão por que não existe um ETF UCITS de ouro puro). Os ETF dos EUA, por seu lado, não são distribuíveis a retalho na UE porque lhes falta o documento de informação fundamental (KID) exigido pelo regime PRIIPs.
| Característica | ETF dos EUA (ex.: ETHB) | ETP europeu (ex.: CoinShares, 21Shares) |
|---|---|---|
| Estrutura jurídica | Fundo (unidades de participação) | Título de dívida (ETN/ETC), não é um fundo |
| Proteção do património | Ativos segregados do fundo | Risco de emitente e de contraparte |
| Acesso ao retalho na UE | Não distribuível (sem KID PRIIPs) | Negociável via corretoras na Xetra e na SIX |
| Staking | Permitido desde finais de 2025 | Disponível há anos |
Em Portugal, a supervisão reparte-se: o Banco de Portugal regista os prestadores de serviços de criptoativos e trata das stablecoins, enquanto a CMVM vigia a conduta de mercado, tudo sob o chapéu da MiCA e da Lei n.º 69/2025, cujo período de transição terminou a 1 de julho de 2026. Note-se que os derivados de cripto (futuros, perpétuos) caem na DMIF II, não na MiCA.
A fiscalidade reserva uma surpresa. O regime especial português para criptoativos (28% sobre mais-valias abaixo de 365 dias de detenção, isenção a partir de um ano) aplica-se apenas a criptoativos que não sejam valores mobiliários. Um ETN de Ethereum é um valor mobiliário, logo fica de fora: as mais-valias são tributadas a 28% sem a isenção de longo prazo que premiaria quem detivesse o ETH diretamente por mais de um ano. E as distribuições de staking creditadas por esse ETP são rendimento, tributável enquanto tal. Ou seja, o embrulho que lhe dá o rendimento pode também custar-lhe mais imposto do que deter o ativo na carteira. Convém confirmar o enquadramento junto do Portal das Finanças ou de um contabilista certificado, um tema que aflorámos ao escrever sobre tesourarias de cripto e o seu imposto de papel.
Como ler um fluxo de ETF de Ethereum
Juntando tudo, eis um método para não ser enganado por uma manchete de fluxos de Ethereum:
- Separe os quatro números: fluxo, AUM, ETH detido e rendimento de staking. Só o terceiro reflete subscrições reais; o segundo mexe-se com o preço.
- Veja para onde vai o dinheiro, não só o total: entradas no ETHB a par de saídas do ETHA são rotação para rendimento, não capital novo.
- Desconte o rendimento: ao «rendimento de staking» anunciado, tire a comissão e a fatia do emitente, e compare com o Bilhete do Tesouro. Muitas vezes o cofre sem risco ganha.
- Lembre-se de que o preço manda: um rendimento de 3% não compensa uma queda de 40%; o staking é um amortecedor, não um escudo.
- Conte o atraso: os dados de fluxo têm desfasamento (T+1) e os trackers divergem entre si; trate um único dia como ruído.
- Se investe em euros, leia os fluxos dos EUA como termómetro, não como montra. O que pode comprar é um ETP europeu, com outra estrutura, outra fiscalidade e, por vezes, melhor comissão.
O que vem a seguir
O mercado de staking ETF está só a começar, e três forças vão moldá-lo. A primeira é a guerra de comissões, que saltou da comissão de gestão para a fatia das recompensas: o corte da BlackRock de 18% para 10% em poucas semanas mostra que a repartição do rendimento é o novo campo de batalha, e isso é bom para o investidor. A segunda é a macro: enquanto a Fed mantiver os juros perto de 4%, o rendimento de staking terá dificuldade em brilhar, e as entradas dependerão mais do preço do ETH do que do cupão; a reunião de 27 e 28 de outubro e a de dezembro são as próximas balizas. A terceira é a oferta: cada ETH que um fundo põe em staking é ETH retirado de circulação e bloqueado, o que, a prazo, aperta a oferta disponível.
Para já, a conclusão é sóbria. O staking faz do ETF de Ethereum um animal diferente do de Bitcoin, com um rendimento real, uma economia de duas pontas e uma leitura de fluxos mais rica. Mas não transforma um ativo volátil numa obrigação. Quem compra um staking ETF de Ethereum compra, antes de tudo, Ethereum; o rendimento é o prémio, não a tese. E, visto de Lisboa, o produto a comprar nem sequer é aquele que gera as manchetes.
Perguntas frequentes
Um ETF de Ethereum paga dividendos ou juros?
Não no sentido tradicional. Alguns ETF e ETP de Ethereum fazem staking do ETH que detêm e distribuem, ou creditam, as recompensas resultantes, que rondam 3% a 4% brutos ao ano. Não é um juro garantido por uma contraparte, mas um rendimento nativo da rede, variável e sujeito ao risco de preço do próprio Ethereum.
Qual é a diferença entre o ETHA e o ETHB da BlackRock?
O ETHA é o fundo de Ethereum à vista original da BlackRock e não faz staking. O ETHB, lançado em março de 2026, é um fundo separado que faz staking de 70% a 95% do seu ETH e distribui a maior parte das recompensas aos investidores. Têm o mesmo ativo subjacente, mas o ETHB acrescenta rendimento e risco de staking.
Posso comprar o ETF de Ethereum da BlackRock em Portugal?
Na prática, não. Os ETF americanos não são distribuíveis a retalho na União Europeia porque lhes falta o documento KID exigido pelo regime PRIIPs e porque a regra UCITS proíbe fundos de um só ativo. O investidor em Portugal acede ao Ethereum através de ETP europeus, de emitentes como a CoinShares ou a 21Shares, negociáveis em bolsas como a Xetra.
Vale a pena o rendimento de staking com os juros onde estão?
Depende da sua tese sobre o preço do Ethereum. Com a Reserva Federal a manter os juros entre 3,75% e 4%, um Bilhete do Tesouro rende tanto ou mais do que o staking líquido de Ethereum, e sem volatilidade. O staking só compensa se acreditar na valorização do ETH; como rendimento isolado, não bate hoje o dinheiro sem risco.
Como são tributadas em Portugal as recompensas de staking de um ETP?
Um ETP de Ethereum é um valor mobiliário, pelo que as mais-valias são tributadas a 28% sem a isenção aplicável a criptoativos detidos há mais de um ano, e as distribuições de staking são tratadas como rendimento tributável. O enquadramento exato deve ser confirmado junto do Portal das Finanças ou de um contabilista certificado.
Por Beatriz Fonseca, editora de mercados da HOGE Wire.