Posicionamento em derivados: quando a multidão vira alvo
Em cripto, o teu posicionamento está à vista, e isso muda tudo. Da caça aos stops ao gamma dos dealers: como ler o mapa de derivados sem te tornares a presa.
Há uma diferença silenciosa entre os mercados de derivados de cripto e quase tudo o resto nas finanças: aqui, as tuas cartas estão viradas para cima. Um gestor de ações espera dias pelo relatório COT da CFTC para saber, de forma agregada e atrasada, onde estão os outros. Em cripto, o open interest atualiza-se ao segundo, o funding é público, os muros de opções estão à vista na Deribit e, nas bolsas on-chain, cada posição de cada carteira pode ser lida por qualquer pessoa. O posicionamento deixou de ser informação privada. Passou a ser um mapa aberto.
E um mapa aberto não é neutro. No dia 30 de setembro de 2026, com o Bitcoin a rondar os 73.717 euros (cerca de 83.742 dólares, ainda uns 33% abaixo do máximo histórico de 126.080 dólares registado em outubro de 2025, segundo a CoinGecko), o livro voltou a inclinar-se para o lado comprado poucos dias depois de o vencimento trimestral de 25 de setembro ter reposto o tabuleiro. A taxa de funding de referência da Kraken, o índice KFRI, marcava 7,5% anualizados a 29 de setembro, depois de ter estado negativa logo a seguir ao vencimento, segundo a CF Benchmarks: a alavancagem longa reconstruiu-se em poucos dias. Ou seja, há outra vez uma multidão concentrada de um só lado. E onde há uma multidão visível e alavancada, há caça.
Este texto é sobre a dimensão que raramente se discute quando se fala de ler o posicionamento: o facto de que outros leem o mesmo mapa que tu, e alguns leem-no precisamente para te apanhar do lado errado. É a sequência natural da nossa série sobre posicionamento em derivados, depois de termos analisado a rolagem trimestral que reinicia o tabuleiro. Aqui invertemos a lente: já não interessa só o que o mapa me diz, mas o que o mapa diz a quem me quer do outro lado.
Posicionamento à vista: o que muda quando todos veem as cartas
Nos mercados tradicionais, o posicionamento é um segredo mal guardado que chega tarde. A Commodity Futures Trading Commission publica o seu relatório Commitments of Traders uma vez por semana, com dias de atraso e de forma agregada por categoria. Quem quer saber onde está o dinheiro esperto trabalha com fotografias desfocadas e antigas.
Em cripto, a fotografia é em direto e em alta resolução. O open interest dos perpétuos e dos futuros é reportado ao minuto pelas bolsas e por agregadores. O funding, a taxa que longos e shorts trocam entre si, é público e reajusta-se a cada poucas horas. A cadeia de opções da Deribit mostra, strike a strike, onde está o interesse. E nas bolsas descentralizadas, como a Hyperliquid ou a Drift, o livro é literalmente on-chain: cada carteira, cada tamanho de posição, cada preço de liquidação está gravado num registo público que qualquer pessoa pode consultar.
Esta transparência costuma vender-se como uma vantagem para o investidor de retalho. «Agora podes ver o que as baleias fazem», diz a promessa. É verdade, mas é meia verdade. Os mesmos dados que te ajudam a ler a multidão dizem aos predadores da multidão exatamente onde a multidão está. E os leitores mais bem equipados desse mapa não és tu: são os criadores de mercado, as mesas proprietárias e os bots que correm 24 horas por dia. A informação flui para quem a lê melhor, e quem a lê melhor raramente é o comprador alavancado de fim de semana. Como já explorámos a propósito das baleias que sabem que estão a ser observadas, a visibilidade é ao mesmo tempo um bem público e um terreno de caça.
O mapa de liquidações: onde a alavancagem se empilha
A ferramenta que melhor materializa esta ideia é o mapa de liquidações, o chamado «liquidation heatmap». Plataformas como o CoinGlass publicam-no em tempo real: um gráfico em que o eixo do preço se enche de faixas coloridas, das mais escuras (pouca exposição) às mais brilhantes (muita). Uma faixa brilhante marca um nível onde se estima estar acumulada uma grande quantidade de posições alavancadas que seriam fechadas à força se o preço lá chegasse.
Porque é que estas zonas importam? Porque cada liquidação forçada não é um evento passivo. Quando uma posição longa é liquidada, a bolsa emite uma ordem de venda a mercado para a fechar; essa venda empurra o preço mais para baixo, na direção da faixa de liquidações seguinte. Ao contrário, liquidar shorts obriga a comprar, e essa compra alimenta a subida. Uma zona densa é, por isso, um sítio onde vender gera mais venda e comprar gera mais compra. É combustível empilhado à espera de faísca.
O que torna estas faixas previsíveis é a aritmética da alavancagem. Os traders usam múltiplos redondos, 10x, 25x, 50x, 100x, e entram muitas vezes perto dos mesmos números redondos de preço. A partir daí, o preço de liquidação de cada posição é uma conta simples e determinística. Quando milhares de pessoas fazem apostas parecidas com alavancagens parecidas, os seus pontos de rutura caem quase todos nos mesmos sítios. O heatmap não inventa os clusters: apenas revela onde a matemática da multidão os colocou. E é essa revelação que constitui a matéria-prima da caça.
A caça à liquidez: stops, sweeps e liquidity grabs
Chamam-lhe «stop hunt», «liquidity grab» ou «liquidity sweep», e descreve sempre o mesmo padrão: o preço empurra brevemente para lá de um máximo ou de um mínimo importante, aciona uma camada de stops e liquidações acumulados nesse nível e depois inverte quase de imediato. Quem tinha stops nesse ponto foi expulso; quem orquestrou o movimento ficou com a liquidez de que precisava.
O padrão costuma desenrolar-se em três tempos: primeiro acumula-se um aglomerado de ordens logo por cima (ou por baixo) de um nível óbvio, aquilo a que os analistas chamam a poça de liquidez; depois o preço crava uma mecha para lá desse nível, disparando os stops; por fim, em uma a três velas, regressa para dentro do intervalo original. Visto de fora, parece manipulação cirúrgica. Visto de dentro, é apenas incentivo.
A razão por que funciona é quase desconfortável de tão simples. A maioria dos traders de retalho coloca os stops nos mesmos sítios óbvios: por baixo do mínimo do dia, uns cêntimos abaixo de um número redondo, junto a um suporte que toda a gente vê no mesmo gráfico. Se sabes onde a multidão esconde os stops, sabes onde está a liquidez. E um participante grande, que precisa de contrapartes para preencher uma ordem de tamanho, tem todo o interesse em fabricar essas contrapartes empurrando o preço para onde elas estão. Segundo uma análise da Crypto Scenario Insights, «traders de momentum e vendedores a descoberto tentam muitas vezes empurrar o preço para o nível de gatilho, para forçar uma cascata». Não é preciso uma conspiração: basta o mapa estar à vista e a recompensa ser óbvia.
O íman que talvez não exista: um heatmap não é uma profecia
Aqui é preciso travar a narrativa antes que ela se torne mística, porque a leitura ingénua do heatmap é tão perigosa como ignorá-lo. Nem toda a mecha é uma caça, e nem toda a zona brilhante é um íman.
Convém lembrar o que um heatmap é de facto. Como sublinha um guia da Bitsgap, o mapa é uma estimativa construída a partir do open interest, de pressupostos de alavancagem e da profundidade do livro de ordens, e não um registo de posições confirmadas. Uma zona quente significa apenas que, se o preço lá chegar, muita exposição alavancada estimada seria provavelmente fechada à força, e não diz nada sobre se o preço vai lá chegar. O próprio guia avisa contra «tratar uma zona brilhante como um alvo ou assumir que o mercado está a ser deliberadamente empurrado para lá». Heatmap não é o mesmo que previsão.
É a mesma humildade que os profissionais das opções aplicam ao max pain, que veremos a seguir. Jasper De Maere, então trader da Wintermute, resumiu-o à CoinDesk ao dizer que, por mais sedutora que seja a narrativa, os vencimentos recentes não fixaram mecanicamente os preços da forma que o mercado espera. A leitura sofisticada fica no meio-termo: os clusters mudam o comportamento à margem (os fornecedores de liquidez alargam spreads perto deles, alguns participantes inclinam-se na sua direção quando o momentum ajuda), mas o preço não é obrigado a visitar nenhuma zona, e o mapa é um modelo, não um livro-razão. O erro do retalho é ler uma emboscada em cada vela. Às vezes é caça; muitas vezes é só ruído.
Max pain: o íman suave das opções (e porque falhou a 25 de setembro)
O max pain é o análogo do heatmap no mundo das opções. É o preço no vencimento que faz expirar sem valor o maior número de contratos, ou seja, o nível onde quem vendeu as opções (os dealers) perde o mínimo. A teoria diz que esses vendedores, ao cobrirem a sua exposição, tendem a arrastar o preço para perto do max pain à medida que o vencimento se aproxima. Daí a fama de íman.
Mas é um íman fraco, e falha com frequência. O vencimento trimestral de 25 de setembro é a ilustração perfeita: o max pain rondava os 76.000 dólares na Deribit e na OKX, enquanto o Bitcoin negociava perto dos 85.500. Não houve fixação nenhuma; a procura à vista simplesmente esmagou o suposto íman. Foram cerca de 16 mil milhões de dólares em opções de Bitcoin a expirar, num livro carregado de calls (rácio put/call de 0,69) que eliminou perto de 37% do open interest de opções de BTC da Deribit, segundo a CoinDesk.
O presidente executivo da Deribit, Luuk Strijers, deu à mesma publicação a explicação mecânica que interessa reter: quando o gamma e o fluxo de cobertura se desfazem depois da liquidação, «o efeito de fixação desvanece-se, a volatilidade de curto prazo pode aumentar e a banda vigente pode reiniciar-se». Por outras palavras, o íman de opções só existe enquanto os dealers têm posições para cobrir; passado o vencimento, o campo magnético desliga-se. O max pain, tal como o heatmap, é descritivo, não é uma garantia. Quem o negoceia como profecia acaba, ironicamente, a alimentar a liquidez de quem não o faz.
Gamma dos dealers: o motor reflexivo por trás do preço
Para perceber por que razão o posicionamento em opções chega a mover o preço à vista, é preciso falar de gamma. O gamma é a sensibilidade da cobertura de um dealer à variação do preço. Quando os dealers estão «short gamma», ou seja, venderam opções, são obrigados a cobrir-se comprando quando o preço sobe e vendendo quando desce. Esse comportamento amplifica o movimento: funciona como um acelerador. Quando estão «long gamma», fazem o contrário, compram nas quedas e vendem nas subidas, e assim amortecem o movimento, como um travão.
A consequência é profunda. O posicionamento em opções não é apenas uma fotografia da opinião do mercado; é parte da máquina que move o preço. Um bolsão de gamma negativo perto do preço à vista é uma zona onde um pequeno empurrão é amplificado e, por isso, um alvo natural para quem quer provocar um movimento maior com pouco capital. É esta a natureza reflexiva do posicionamento: ao ser visível, ele muda a probabilidade do seu próprio desfecho. O mapa não é apenas observado; é um dos motores do território.
Por isso é que os operadores mais atentos vigiam não só o max pain, mas a distribuição do gamma dos dealers em torno do preço. Uma parede de calls muito vendidas logo acima do spot pode funcionar como um teto, com os dealers a vender à medida que o preço se aproxima; um bloco de puts pode funcionar como um chão. Estas forças não são infalíveis, mas são reais, e explicam por que um mercado aparentemente calmo pode disparar quando o preço entra na zona errada do livro de opções.
A baleia mais visível é a mais caçada
Nenhum lugar torna esta dinâmica tão nua como as bolsas de perpétuos on-chain. Na Hyperliquid ou na Drift, a transparência que é vendida como virtude da descentralização tem um reverso incómodo: as posições grandes tornam-se alvos públicos. Como nota a Crypto Scenario Insights, os mapas de liquidação em tempo real da Hyperliquid «expõem as zonas de preço exatas onde as posições grandes ficam vulneráveis a liquidação forçada». Não é preciso adivinhar onde está o ponto de rutura de uma baleia; está escrito na cadeia.
O caso mais citado é o do trader conhecido por «Machi Big Brother». A 23 de junho de 2026, uma posição longa em Ethereum atribuída a ele na Hyperliquid foi liquidada sete vezes numa janela de dez horas, de acordo com dados da Lookonchain reportados pela mesma análise. Sete liquidações em dez horas não são azar; são o que acontece quando toda a gente vê onde está o teu preço de liquidação e alguns têm capital para o testar. A posição visível deixou de ser uma aposta e passou a ser um convite.
A ironia é evidente para quem acompanha a evolução destas plataformas, que já analisámos a propósito dos perp DEX na Solana depois do hack da Drift: quanto mais transparente é o mercado, mais exposto fica o maior jogador. Para o investidor de retalho, a lição não é que só as baleias são caçadas. É o contrário. Não é preciso ser baleia para ser presa; basta ser previsível. A baleia é apenas o exemplo mais visível de um princípio que se aplica a qualquer stop colocado num sítio óbvio.
Da caça à cascata: quando um sweep se autoalimenta
Há um ponto em que a caça deixa de ter um caçador. Quando um sweep aciona um cluster suficientemente grande, as liquidações que dispara empurram o preço para o cluster seguinte, que desencadeia mais liquidações, e assim sucessivamente. O que começou como uma investida deliberada contra um nível transforma-se numa reação em cadeia que ninguém controla.
Quando o motor de liquidação de uma bolsa esgota o fundo de seguro, entra em cena o mecanismo de último recurso, o «auto-deleveraging» (ADL), que fecha à força as posições vencedoras para absorver as perdas das perdedoras, como explica um guia da crypto.news. Nesse momento, até quem estava do lado certo da aposta pode ser expulso. É o mapa a colapsar sobre si próprio.
Não são hipóteses académicas. A 21 de setembro de 2026, o Bitcoin disparou para os 85.000 dólares e forçou a saída de cerca de 648 milhões de dólares em posições curtas num só dia, num aperto de shorts clássico, segundo a CoinDesk. E o exemplo extremo continua a ser a mega-cascata de 10 de outubro de 2025, quando cerca de 19 mil milhões de dólares foram liquidados em 24 horas e o Bitcoin caiu de 122.574 para 104.782 dólares, uma queda de mais de 14% em horas, conforme documentado pela CoinGecko. Quando a liquidez do livro à vista está fina, cada liquidação forçada pesa mais, e a distância entre um sweep localizado e uma cascata generalizada encurta perigosamente.
Até o mapa mente: liquidações subreportadas e estimativas
Se a leitura ingénua do heatmap é um erro, a confiança cega nos números de liquidação é outro. O mapa que o caçador e a presa partilham é, ele próprio, incompleto e manipulável.
Repare-se na própria contabilidade das liquidações. Jeff Yan, cofundador da Hyperliquid, notou ao The Block que bolsas centralizadas como a Binance reportam apenas uma ordem de liquidação por segundo, o que faz com que, em picos de volatilidade, os valores publicados subreportem a realidade «até 100 vezes». O próprio CoinGlass reconheceu que o número de 19 mil milhões de dólares da cascata de outubro de 2025 era provavelmente muito maior. Ou seja, os totais de liquidação que aparecem nos ecrãs são um piso, não a verdade.
E o heatmap, como já vimos, é uma estimativa assente em pressupostos de alavancagem, não um inventário. A isto acresce que alguns atores alimentam o mapa com sinais falsos: ordens colocadas para serem canceladas (o chamado «spoofing»), posições-chamariz, tamanhos exibidos para induzir uma leitura errada. O resultado é desconfortável mas clarificador: tanto quem caça como quem é caçado trabalha a partir de uma representação parcial, ruidosa e por vezes envenenada do mercado. A conclusão prática é desconfiar da precisão. Uma faixa a brilhar num nível é um palpite ponderado por probabilidades, não uma certeza; e os totais de liquidação que vês são o mínimo, não o retrato completo.
O livro em 30 de setembro: apostar em alta com a mão no travão
Como está então o mapa neste momento? Segundo um balanço da news.bitcoin.com de 23 de setembro, o open interest total das opções de Bitcoin ultrapassou os 50 mil milhões de dólares, o valor mais alto desde o fim de 2025, com as calls a representarem perto de 60% das posições em aberto. À primeira vista, é um livro claramente inclinado para cima.
Mas o detalhe revelador está no fluxo, não no stock: as puts representaram cerca de 58% do volume das últimas 24 horas. Por outras palavras, o mercado construiu um livro carregado de calls mas, na margem, corre a comprar proteção. A própria publicação resume a postura como «apostar em alta com uma mão bem firme no travão de emergência». O open interest de futuros regressou à zona dos 60 mil milhões de dólares e o funding nas várias bolsas manteve-se moderadamente positivo, algures entre 1% e 4% anualizado, coerente com o índice KFRI de 7,5% a 29 de setembro. No mercado de opções, o strike mais carregado para o fim do ano continua a ser a call de 120.000 dólares de dezembro, segundo a news.bitcoin.com. A tabela seguinte resume o tabuleiro.
| Métrica (30 set. 2026) | Valor | Leitura |
|---|---|---|
| Bitcoin (à vista) | 73.717 EUR / 83.742 USD | cerca de 33% abaixo do máximo de out. 2025 |
| OI de opções (BTC) | mais de 50 mil milhões USD | máximo desde o fim de 2025 |
| Calls vs puts (posições) | calls perto de 60% | livro inclinado para cima |
| Fluxo de opções (24h) | puts cerca de 58% do volume | procura de proteção na margem |
| OI de futuros (BTC) | cerca de 60 mil milhões USD | alavancagem elevada |
| Funding (várias bolsas) | +1% a +4% anualizado | longos pagam, sem sobreaquecer |
| KFRI (Kraken, 29 set.) | 7,5% anualizado | realavancou após o reset trimestral |
| Max pain (venc. 25 set.) | 76.000 USD vs spot cerca de 85.500 | o íman falhou |
| Strike mais carregado | call de 120.000 USD (dezembro) | aposta direcional de topo |
Lida à luz deste artigo, esta configuração é quase um convite duplo. Um livro comprado e alavancado deixa uma camada de stops e liquidações por baixo do preço, à espera de um sweep de descida; ao mesmo tempo, a proteção comprada e os shorts táticos por cima alimentam o risco de um novo aperto em alta, como o de 21 de setembro. O mapa está carregado dos dois lados.
Como ler o mapa sem virar presa
A conclusão útil não é «ignora o posicionamento» nem «segue o heatmap como um horóscopo». É aprender a ler o mapa sabendo que os outros também o leem. Alguns princípios práticos ajudam.
Primeiro, os stops. Colocá-los em números redondos ou uns cêntimos para lá do máximo ou do mínimo óbvio é entregar-se à parte do livro mais fácil de varrer. Um stop num nível menos previsível, ou dado com mais folga, sobrevive à mecha que apanha a multidão. Segundo, evita colocar stops ou entradas alavancadas dentro de uma zona visivelmente quente do heatmap: como avisa a Bitsgap, é precisamente aí que os movimentos rápidos e violentos acontecem se o preço chegar. Terceiro, dimensiona a posição a contar com o sweep: assume que a mecha vai tocar o nível óbvio e inverter, e ou dás espaço ou reduzes o tamanho.
Há ainda uma assimetria estrutural que vale a pena interiorizar: quem não é direcional dificilmente é caçado. Os fundos que fazem «cash-and-carry», comprando à vista e vendendo o futuro para arrecadar a base, estão cobertos e não têm um ponto de liquidação óbvio para atacar, como explicámos no backtest do carry do Bitcoin. Os caçados são quase sempre as apostas alavancadas de um só sentido. Por fim, lê o funding e o heatmap em conjunto: um funding muito esticado (multidão longa a pagar caro) sobre um cluster denso do lado oposto é uma armadilha carregada. A tabela reúne o essencial.
| Sinal de posicionamento | O que o caçador vê | Como não virar presa |
|---|---|---|
| Cluster de liquidações (heatmap) | zona onde forçar o preço gera mais fluxo | não deixar stops nem entradas dentro da zona quente |
| Stops em números redondos | liquidez fácil e previsível de varrer | usar níveis menos óbvios ou dar mais folga |
| Funding muito positivo | multidão longa, esticada e a pagar | reduzir o tamanho quando o consenso é extremo |
| Muro de opções / max pain | possível cobertura de dealers perto do spot | tratar como descritivo, nunca como profecia |
| Posição on-chain visível | o teu preço de liquidação exato, público | menos alavancagem, margem mais folgada |
| OI a subir sem o preço mexer | energia acumulada à espera de descarga | esperar a resolução em vez de perseguir |
CMVM, ESMA e o custo real de ser a multidão alavancada
Para o investidor português, há uma camada regulatória que torna tudo isto ainda mais concreto. Os perpétuos e a maioria dos derivados de cripto negociados com alavancagem não caem sob o regulamento MiCA, que trata dos ativos à vista e dos prestadores de serviços (as CASP). Caem sob a DMIF II (MiFID II), como instrumentos financeiros, e são supervisionados pela CMVM enquanto autoridade de conduta de mercado.
Em fevereiro de 2026, a ESMA esclareceu que os perpétuos são, muito provavelmente, contratos por diferença (CFD), independentemente do nome comercial que lhes deem, e que nem os mecanismos de funding nem salvaguardas voluntárias como os fundos de seguro alteram essa classificação. Consequência prática: para o retalho, a alavancagem em cripto está limitada a 2:1, com proteção de saldo negativo e encerramento por margem obrigatórios. A CMVM tornou permanentes, no mercado português, os limites de alavancagem que a ESMA introduziu para os CFD.
E há um número que devia estar colado a qualquer ecrã de negociação alavancada. Segundo dados da CMVM e da ESMA citados pelo Jornal Económico, entre 74% e 89% dos investidores não profissionais em CFD perdem dinheiro, com perdas médias entre 1.600 e 29.000 euros. Lido à luz de tudo o que vimos, este número deixa de ser abstrato. Ser a multidão alavancada e visível não é um risco de cauda; é o caso base estatístico. O limite de 2:1 existe precisamente porque a multidão perde, e a multidão perde, em parte, porque está à vista.
Outubro e o próximo tabuleiro
O mapa não é estático, e os clusters do próximo mês já se começam a formar em torno de datas conhecidas. As duas últimas reuniões do Fed do ano, em outubro e dezembro, e o vencimento trimestral de dezembro são pontos de agenda onde o posicionamento se concentra de forma previsível. Cada um deles é um momento em que o mapa se ilumina e em que, portanto, a caça se arma.
A sazonalidade de outubro, o famoso «Uptober», tende a atrair alavancagem longa, e a call de 120.000 dólares de dezembro já sinaliza onde vive a aposta direcional mais ambiciosa. Nada disto prevê a direção do preço; o que faz é dizer onde a multidão se vai empilhar antes de cada evento, e é aí que o sweep, se vier, há de mirar. Para quem quiser enquadrar o trimestre com mais detalhe, reunimos as peças no nosso guia do quarto trimestre de 2026.
A grande mudança de perspetiva que este artigo propõe é simples de enunciar e difícil de interiorizar: o teu posicionamento não é apenas uma opinião que tens sobre o mercado; é informação que ofereces ao mercado. Numa arena onde as cartas estão viradas para cima, a vantagem não está em ter a leitura mais bonita do mapa, mas em não ser a figura mais óbvia que lá aparece desenhada.
Perguntas frequentes
O que é um mapa de liquidações (liquidation heatmap)?
É um gráfico que estima onde estão acumuladas posições alavancadas que seriam fechadas à força se o preço lá chegasse. As zonas mais brilhantes indicam maior concentração. É construído a partir do open interest, de pressupostos de alavancagem e da profundidade do livro de ordens, pelo que é uma estimativa, e não um registo de posições reais. Ferramentas como o CoinGlass publicam-no em tempo real.
O que é um stop hunt ou caça aos stops em cripto?
É um movimento em que o preço empurra brevemente para lá de um nível óbvio (um máximo, um mínimo, um número redondo) para acionar os stops e as liquidações acumulados aí, e depois inverte. Como a maioria dos traders coloca os stops nos mesmos sítios previsíveis, esses níveis concentram liquidez que participantes maiores têm incentivo para ir buscar.
As zonas de liquidação atraem mesmo o preço como ímanes?
Em parte. Cada liquidação forçada gera uma ordem a mercado que empurra o preço na mesma direção, o que pode puxá-lo para dentro de um cluster. Mas o heatmap é uma estimativa, não uma profecia: o preço não é obrigado a visitar nenhuma zona, e tratar cada faixa brilhante como um alvo garantido é um erro comum. A dinâmica é real na margem, não é uma lei.
O que é o max pain e prevê o preço no vencimento?
O max pain é o strike no qual expira sem valor o maior número de opções, ou seja, onde os vendedores de opções perdem menos. A cobertura dos dealers pode arrastar o preço para perto desse nível, mas o efeito é fraco e falha com frequência: no vencimento trimestral de 25 de setembro de 2026, o max pain rondava os 76.000 dólares e o Bitcoin negociava perto dos 85.500. É um indicador descritivo, não preditivo.
Como evito que a minha posição seja caçada?
Evita colocar stops em números redondos ou logo por cima ou por baixo de níveis óbvios, não coloques stops nem entradas dentro de uma zona quente do heatmap, dimensiona a posição a contar com um possível sweep e usa menos alavancagem para afastar o teu preço de liquidação dos aglomerados visíveis. A regra geral é não seres previsível: a caça precisa que sejas.
Por Liam Brennan, editor de mercados da HOGE Wire.