Fim de ano na cripto: o que esperar do quarto trimestre de 2026
O Bitcoin entra no último trimestre de 2026 abaixo do máximo histórico e com uma Fed a subir juros. Analisamos as variáveis que decidem para onde vai o mercado até dezembro.
A três meses do fecho de 2026, o mercado de criptoativos está num lugar desconfortável para quem se habituou aos guiões de outros anos. O Bitcoin negoceia à volta dos 74.000 euros, cerca de 33% abaixo do máximo histórico de 110.735 euros registado este ano, segundo os dados da CoinGecko. Vem de um verão forte e de um setembro que, ao contrário do costume, fechou no verde. Isto, por si só, não seria digno de nota. O que torna este fim de ano diferente é o pano de fundo.
O guião das últimas grandes subidas de fim de ano assentava em três apoios: uma Reserva Federal a cortar juros, o embalo que costuma seguir-se a um halving e uma corrente de dinheiro quase sempre no mesmo sentido a entrar nos ETF à vista. Em 2026, os três apoios estão trocados. A Fed, agora liderada por Kevin Warsh, subiu os juros em setembro pela primeira vez desde 2023. Os fluxos dos ETF passaram a alternar entradas e saídas de semana para semana. E, em Washington, a lei que prometia dar à cripto um enquadramento federal de estrutura de mercado foi chumbada no Senado a meio do mês.
Este artigo não tenta adivinhar um número mágico para 31 de dezembro. Faz outra coisa, mais útil: mapeia as variáveis que, em conjunto, vão decidir para onde vai o mercado até ao fim do ano, e mostra como lê-las. Da política monetária ao encanamento de liquidez do Tesouro, dos fluxos institucionais ao calendário regulatório dos dois lados do Atlântico, do posicionamento em derivados à velha teoria do ciclo de quatro anos. No fim, juntamos tudo em três cenários concretos para dezembro.
O ponto de partida: onde está o mercado a três meses do fecho
Convém fixar o retrato atual antes de projetar seja o que for. O Bitcoin está longe do pânico, mas também longe da euforia. Recuperou de uma queda que, no início do mês, o levou perto dos 80.000 dólares, e chegou a tocar um máximo de vários meses depois de uma série de entradas fortes nos ETF. O Ethereum, esse, continua a arrastar-se: negoceia perto dos 2.360 euros (cerca de 2.690 dólares), com uma capitalização de mercado à volta dos 233 mil milhões de dólares, segundo a CoinDesk, e ainda não deu sinais claros da rotação que muitos esperavam.
| Métrica | Valor (26 de setembro de 2026) |
|---|---|
| Bitcoin (preço) | cerca de 74.000 EUR (perto de 84.000 USD) |
| Máximo histórico do Bitcoin | 110.735 EUR |
| Distância face ao máximo | cerca de 33% abaixo |
| Ethereum (preço) | cerca de 2.360 EUR (perto de 2.690 USD) |
| Capitalização do Ethereum | cerca de 233 mil milhões USD |
| Setembro do Bitcoin | fechou no verde, contrariando o mês historicamente mais fraco |
Dois números merecem destaque. O primeiro é a distância ao topo: um terço abaixo do máximo não é território de mercado em baixa, mas também não é o comportamento de um ativo em plena descoberta de preço. É a zona intermédia, a mais difícil de ler, em que touros e ursos encontram argumentos para a mesma tabela. O segundo é a resiliência de setembro, que historicamente é o pior mês do Bitcoin. Fechar no verde num mês que costuma ser negativo diz alguma coisa sobre a procura de fundo, e é a partir daqui que a história fica interessante.
A Fed de Warsh subiu os juros, e isso reescreve o guião
O acontecimento macro do trimestre já aconteceu. A 16 de setembro, o Comité de Mercado Aberto da Reserva Federal votou por unanimidade, 12 votos a zero, subir a taxa diretora em 25 pontos base, para um intervalo entre 3,75% e 4,00%, a primeira subida desde julho de 2023, noticiou a CNBC. Foi a estreia de Kevin Warsh como presidente da Fed num anúncio de política monetária, depois de ter sido confirmado pelo Senado em maio, na votação mais renhida da história do banco central, segundo a NPR.
A mensagem foi tudo menos suave. O próprio Warsh sublinhou que a inflação continua «demasiado alta», e o comunicado do comité afirmou que a decisão iria apoiar um regresso mais atempado à meta de 2%. As projeções atualizadas divulgadas com a decisão mostraram que 16 dos 18 participantes contam com pelo menos mais uma subida ainda este ano, quatro deles com duas, de acordo com a CNBC. Por outras palavras, o mercado deixou de discutir se a Fed corta; passou a discutir quanto mais sobe.
Os grandes bancos alinham nesta leitura. A equipa de análise do J.P. Morgan prevê nova subida de um quarto de ponto em dezembro, levando a taxa para o intervalo entre 4,0% e 4,25%. O economista-chefe para os Estados Unidos, Michael Feroli, ressalvou, porém, que a inflação «continua a parecer motivada por choques de oferta» e que, por isso, o banco «não antecipa um ciclo de subidas prolongado» para 2027, escreveu. É uma distinção importante: um aperto pontual contra a inflação de oferta não é o mesmo que uma máquina de subidas em série.
Para os ativos de risco, juros mais altos costumam ser vento de proa: encarecem o dinheiro, valorizam o dólar e aumentam a taxa a que se descontam os fluxos futuros. Quanto mais alto o custo do dinheiro sem risco, menos apetecível parece um ativo volátil que não paga cupão. E, no entanto, o Bitcoin subiu justamente no verão em que a Fed apertou. Já explorámos este divórcio entre a cripto e a política monetária em Alvos de preço 2026: o Bitcoin subiu contra a Fed. A pergunta para o fim do ano é simples de enunciar e difícil de responder: essa desobediência aguenta um segundo aperto seguido em dezembro?
O verdadeiro motor de setembro não foi a Fed, foi o Tesouro
Se a Fed apertou e o Bitcoin subiu, o que é que puxou os preços? A resposta anda menos nas manchetes e mais no encanamento da liquidez. O rali da segunda metade de setembro coincidiu com planos do Tesouro dos Estados Unidos para recomprar dívida de longo prazo, uma operação técnica que devolve dinheiro ao sistema financeiro e alivia as condições nos mercados de curto prazo.
Quem o disse não foram influenciadores anónimos, mas analistas seguidos de perto por Wall Street. Eric Balchunas, analista sénior de ETF da Bloomberg, atribuiu a onda de entradas a esse fator, falando de um «tsunami de 4,6 mil milhões de dólares» de liquidez ligado às recompras do Tesouro, citado pela The Block. Nate Geraci, presidente da The ETF Store, notou que os fundos acumularam cerca de 5,3 mil milhões de dólares em entradas desde os anúncios do Tesouro e classificou a captação de mil milhões de dólares numa única segunda-feira como a «nona maior de sempre».
A distinção importa para quem tenta antecipar dezembro. Se o combustível do rali é liquidez do Tesouro e não uma viragem da Fed, então o fim do ano depende menos das palavras de Warsh e mais de decisões técnicas de gestão de dívida, que raramente aparecem nos calendários dos investidores de retalho. É um motor real, mas silencioso, e pode desligar-se com a mesma discrição com que se ligou. Perceber de onde vem a liquidez é hoje tão importante como acompanhar o gráfico do preço.
Os fluxos de ETF viraram positivos, mas o padrão é dente de serra
Os ETF à vista de Bitcoin são, desde 2024, o termómetro mais visível da procura institucional, e em setembro deram um sinal forte. Na semana que terminou a 25 de setembro, os fundos captaram cerca de 2,4 mil milhões de dólares, a maior entrada semanal desde outubro de 2025, com a segunda-feira sozinha a valer 999 milhões, segundo a The Block. O IBIT da BlackRock liderou, com 1,2 mil milhões na semana, e mantém ativos sob gestão acima dos 60 mil milhões de dólares. Com isso, os ETF viraram positivos no acumulado de 2026, com um saldo líquido perto dos 934 milhões, depois de terem chegado a um défice de cerca de 5,8 mil milhões em meados de julho.
O número que tempera o entusiasmo está nas entrelinhas: 54% das sessões de 2026 terminaram com saídas líquidas. O bid institucional existe, mas não é de sentido único; alterna ondas de entrada e de resgate ao sabor do rebalanceamento de carteiras, da realização de lucros e das arbitragens de base entre o mercado à vista e os futuros. Por isso, uma semana recorde não anula meses de indecisão. Ler os fluxos, e não apenas o preço, tornou-se parte obrigatória da análise deste ciclo.
Há aqui uma armadilha para o investidor europeu. Os fundos que fazem estas manchetes são ETF cotados nos Estados Unidos, a que a esmagadora maioria dos aforradores portugueses não tem acesso direto. Na Europa, a exposição regulada faz-se sobretudo através de ETP (produtos negociados em bolsa) com estrutura diferente. O fluxo que se lê nos relatórios nova-iorquinos não é, portanto, o fluxo que se pode comprar em Lisboa, uma distinção que explicámos em ETF ou ETP: o fluxo que lê não é o que pode comprar. Confundir os dois leva a conclusões erradas sobre a procura a que um investidor de retalho europeu tem, de facto, acesso.
O calendário regulatório dos dois lados do Atlântico
Se havia um catalisador regulatório à espera de destravar o mercado americano, ele falhou. A 15 de setembro, a CLARITY Act, a lei que dividiria a supervisão dos ativos digitais entre a SEC e a CFTC, não passou na votação de cloture no Senado: 49 votos a favor contra 50, longe dos 60 necessários para avançar, relatou a CoinDesk. Ficou a 11 votos da cloture e a um só voto da maioria simples. Nenhum democrata presente votou a favor e quatro republicanos, Susan Collins, Josh Hawley, Jerry Moran e Thom Tillis, votaram contra.
O ponto de discórdia não foi o desenho técnico da lei, mas a linguagem sobre ética: a cláusula que limitaria os negócios cripto de altos cargos, incluindo o Presidente e a sua família. Sem um regresso rápido à votação antes de o Congresso entrar em recesso no início de outubro, a estrutura de mercado escorrega para 2027. Entretanto, o testemunho passa para os reguladores: a SEC e a CFTC seguem com as suas próprias regras, o que significa clareza mais lenta e feita caso a caso. Do lado das stablecoins, o quadro federal já existe desde a GENIUS Act, promulgada em julho de 2025, pelo que o vazio é sobretudo na estrutura de mercado, não no dinheiro digital.
Na Europa, o movimento foi no sentido inverso: mais regras, e já em vigor. O período de transição da MiCA terminou em toda a União a 1 de julho de 2026. A ESMA, o supervisor europeu dos mercados, tinha avisado em junho que qualquer entidade a prestar serviços de criptoativos a clientes da UE sem licença passaria a estar em incumprimento, e apelou aos prestadores não autorizados que encerrassem operações de forma ordenada, numa declaração pública. Obter uma licença de CASP exige entidade legal na UE, um quadro de governação documentado e administração idónea; em troca, uma única licença passa a valer nos 27 Estados-membros.
Para Portugal, a autoridade competente é a CMVM, que passa a autorizar e a supervisionar os prestadores nacionais ao abrigo da MiCA. Na prática, o investidor português entra no fim de 2026 com mais proteção e mais transparência do que há um ano, mas também com uma oferta potencialmente mais estreita, à medida que operadores mais pequenos decidem se conseguem suportar o custo da conformidade. A divergência regulatória é, ela própria, uma variável de mercado: enquanto os Estados Unidos hesitam, a Europa fixa as regras do jogo.
Sazonalidade contra ciclo: o que promete o «Uptober»
Chegados a outubro, entra em cena o argumento sazonal. Historicamente, o quarto trimestre é o mais forte do Bitcoin, com um ganho médio a rondar os 79,5% na última década. Outubro é positivo em mais de 80% dos anos, o que lhe valeu a alcunha de «Uptober», e novembro é, em média, o melhor mês do ano. Em anos em que o Bitcoin fechou setembro no verde, como 2015, 2016, 2023 e 2024, o trimestre seguinte também subiu, com ganhos de 57% em 2023 e 48% em 2024, segundo a 24/7 Wall St.. Como vimos, setembro de 2026 fechou no verde, cumprindo esse pré-requisito.
Há uma lógica por trás do padrão. O fecho de ano coincide com comités de investimento a alocar capital antes do fim do exercício fiscal e com o regresso dos participantes depois do marasmo do verão. Mais volume e mais alocação empurram os preços. A estatística, porém, não é destino. Em outubro de 2025, o Bitcoin teve o seu primeiro outubro negativo desde 2018: uma ameaça de tarifas do Presidente Trump despoletou cerca de 19 mil milhões de dólares em liquidações num único dia, o 10 de outubro, recorda a 24/7 Wall St.. A sazonalidade é um vento de cauda, não uma garantia, e um choque macro consegue anulá-la numa tarde.
O ciclo de quatro anos ainda vale?
Por trás da sazonalidade está uma tese maior: o ciclo de quatro anos, ancorado no halving do Bitcoin. Segundo esse modelo, o pico de cada ciclo chega tipicamente entre 12 e 18 meses depois do halving. Como o último halving foi em 2024, o calendário apontaria para um topo algalgures entre o fim de 2025 e 2026, o que colocaria o mercado atual na fase mais delicada do guião: perto ou logo a seguir ao pico, precisamente quando os ciclos passados começavam a virar.
Há motivos para desconfiar do modelo, e não são poucos. A Bernstein nota que as correções deste ciclo têm sido bem menos violentas, na ordem dos 50%, contra os 75% a 90% dos ciclos anteriores, o que sugere que a propriedade institucional está a criar uma base mais sólida nas quedas, escreveu o analista Gautam Chhugani. Se assim for, os ETF, os compradores empresariais e os investidores institucionais podem ter esticado e suavizado o ciclo, transformando os antigos colapsos de 80% em correções de 50% e os topos afiados em planaltos mais longos. É uma hipótese, não um facto, mas ajuda a explicar por que razão o mercado não desabou apesar de estar «atrasado» face ao relógio do halving.
O contra-argumento também tem peso: talvez o ciclo não tenha morrido, apenas se tenha alongado, e o inverno chegue mais tarde e mais suave. Esta é, no fundo, a mesma pergunta que fizemos em O inverno acabou? A cripto e a perspetiva de fim de ano: se o ciclo mudou de forma, os manuais de outros anos podem estar a apontar para o sítio errado. Quem decidir com base apenas no calendário do halving arrisca-se a lutar a guerra anterior.
Posicionamento em derivados: o expiry de dezembro e o «max pain»
Quem quer ler as expectativas do mercado com dinheiro em jogo olha para as opções. Na Deribit, a maior praça de opções de cripto, o vencimento de 25 de dezembro de 2026 concentra o interesse no strike de compra (call) de 120.000 dólares, com mais de 7.500 BTC em posições em aberto, mas tem também uma almofada defensiva no strike de venda (put) de 60.000 dólares, com mais de 6.200 BTC, segundo dados citados pela Bitcoin.com. Traduzindo: há apostas fortes tanto num salto para os 120.000 como numa rede de segurança bem abaixo do preço atual.
O chamado «max pain», o preço a que a maior fatia das opções expira sem valor, situa-se nos 75.000 dólares para os vencimentos de setembro e de dezembro de 2026. Não é uma previsão, é uma força gravitacional: à medida que o vencimento se aproxima, os agentes que venderam opções tendem a empurrar o preço para essa zona, para minimizar as perdas. Vale a pena ter esse ponto no radar quando dezembro se aproximar, porque grandes vencimentos costumam trazer volatilidade acrescida nos dias que os antecedem.
A alavancagem não vive só nas praças centralizadas. Boa parte migrou para os perp DEX, as bolsas descentralizadas de futuros perpétuos, onde o risco de liquidação em cadeia é mais difícil de ver mas igualmente real, como analisámos em Perp DEX na Solana: quem manda depois do hack da Drift. Em fins de trimestre, com liquidez mais fina e posições alavancadas concentradas, é aí que as cascatas de liquidação costumam começar, transformando um movimento ordeiro numa queda abrupta.
Ethereum e a rotação que ainda não veio
Um verdadeiro fim de ano de touros costuma trazer rotação: o dinheiro sai do Bitcoin e espalha-se pelo resto do mercado, com o Ethereum à cabeça. Desta vez, a rotação demora. O ETH negoceia perto dos 2.360 euros, com o rácio ETH/BTC ainda deprimido, e as estimativas dos analistas para o fecho do ano espalham-se por um intervalo largo, entre 3.000 e 4.500 dólares, sustentadas em entradas de staking, na procura pelos ETF de Ethereum e no crescimento das redes layer 2.
O que pode acender o pavio é a substância, não a narrativa. A parte do mercado que gera receita real, em vez de viver de emissões inflacionárias, tem-se mostrado mais resistente, e os protocolos que devolvem esse rendimento aos detentores ganharam tração ao longo do ano. A eventual autorização de staking dentro dos ETF de Ethereum nos Estados Unidos é um catalisador que muitos gestores vigiam, porque transformaria um produto passivo num instrumento com rendimento. Se a rotação chegar no quarto trimestre, é provável que comece pelos ativos com fundamentos e fluxos de caixa, não pelos que só têm uma história para contar.
As metas dos analistas: de 100 a 150 mil dólares
Com o pano de fundo montado, o que dizem os que arriscam números? As casas de investimento que seguem a cripto convergiram, este ano, para metas mais modestas do que as que apregoavam há doze meses. A tabela seguinte resume as previsões públicas mais citadas.
| Casa / analista | Meta para o Bitcoin | Horizonte |
|---|---|---|
| Standard Chartered (Geoff Kendrick) | 100.000 USD | fim de 2026 |
| Bernstein (Gautam Chhugani) | 125.000 USD | fim de 2026 |
| Bernstein (Gautam Chhugani) | 150.000 USD | meados de 2027 |
| Bernstein (Gautam Chhugani) | 300.000 a 500.000 USD | 2029 |
| Bernstein (Gautam Chhugani) | 1.000.000 USD | 2033 |
Geoff Kendrick, responsável global de análise de ativos digitais da Standard Chartered, reafirmou a meta de 100.000 dólares para o fecho de 2026 e desvalorizou as vendas de Bitcoin de Michael Saylor, dizendo tratar-se «sobretudo de ruído, não de sinal», numa nota citada pelos media. É de notar que a própria Standard Chartered já cortou esta meta face a projeções anteriores bem mais altas, sinal de que até os mais otimistas moderaram o tom.
A Bernstein é mais otimista no curto prazo: Chhugani aponta 125.000 dólares para o fim de 2026 e traça um caminho de longo prazo que chega a 1 milhão em 2033. O raciocínio assenta em três forças, os ETF à vista, a entrada de instituições e os compradores empresariais, e naquela ideia de que as correções mais rasas revelam uma base mais firme. Convém guardar todas estas metas com sal grosso: as mesmas casas falharam, por vezes por larga margem, as previsões de fim de ano em exercícios anteriores. Uma meta é uma hipótese com um logótipo, não uma promessa.
O caso otimista para o fecho de 2026
Juntando as peças, o cenário de alta para o quarto trimestre apoia-se em fatores concretos, não em fé:
- Liquidez do Tesouro: se as recompras de dívida continuarem, o «tsunami de dinheiro» que alimentou setembro pode prolongar-se até dezembro.
- Fluxos de ETF: uma retoma sustentada das entradas, depois de os fundos virarem positivos no ano, reforçaria o bid institucional e a narrativa de adoção.
- Sazonalidade: outubro e novembro são, historicamente, os meses mais fortes, e 2026 cumpre o pré-requisito de um setembro verde.
- Base institucional: correções mais rasas sugerem menos vendedores forçados nas quedas e um chão mais alto.
- Posicionamento: o interesse concentrado nas calls de 120.000 dólares mostra que há capital disposto a apostar na subida.
Neste enredo, o Bitcoin voltaria a testar a zona dos 100.000 dólares (cerca de 88.000 euros) e as metas da Standard Chartered e da Bernstein deixariam de parecer ambiciosas. Bastaria que a Fed sinalizasse o fim do aperto para que o desconto de risco começasse a jogar a favor.
O caso pessimista: o que pode correr mal
O reverso da moeda é igualmente concreto e, para muitos gestores, mais provável:
- Fed teimosa: uma segunda subida em dezembro, para o intervalo entre 4,0% e 4,25%, com Warsh a insistir que a inflação continua alta, aperta as condições financeiras.
- Fluxos a inverter: com 54% das sessões de 2026 a fecharem com saídas, uma nova vaga de resgates é tudo menos improvável.
- Limbo regulatório nos Estados Unidos: a CLARITY chumbada empurra a clareza para 2027 e deixa o mercado dependente de regras avulsas da SEC e da CFTC.
- Aperto na Europa: a MiCA, ao subir a fasquia, pode estreitar a oferta e a liquidez em plataformas mais pequenas durante a transição.
- Risco de choque: o precedente de outubro de 2025, com 19 mil milhões em liquidações num dia após uma manchete sobre tarifas, mostra como um único evento apaga semanas de ganhos.
- Gravidade do «max pain»: com o ponto de dor em 75.000 dólares, o vencimento de dezembro pode puxar o preço para baixo em vez de o impulsionar.
Neste guião, o Bitcoin recuaria para a zona dos 60.000 a 65.000 dólares (à volta dos 55.000 euros), precisamente onde repousa a almofada de puts de dezembro. Não seria o fim do mundo cripto, mas seria um fecho de ano bem diferente do que os touros desenham.
Três cenários para dezembro
Nenhum destes fatores age isolado. A forma mais honesta de olhar para o fim do ano é em cenários, com probabilidades atribuídas e revistas à medida que os dados chegam, a mesma disciplina que os mercados de previsão impõem a quem aposta, e sobre a qual escrevemos em Mercados de previsão: quando a eleição vira cotação em cripto.
| Cenário | Gatilhos | Bitcoin no fim do ano |
|---|---|---|
| Otimista | Fed sinaliza pausa; recompras do Tesouro continuam; ETF em entrada sustentada | zona dos 100.000 USD (~88.000 EUR) |
| Base | Fed sobe mais 25 pb mas suaviza o tom; fluxos alternam; sazonalidade positiva | entre 70.000 e 90.000 USD (~62.000 a 79.000 EUR) |
| Pessimista | Fed mantém o aperto; PCE teimoso; choque de liquidez ou de manchete | zona dos 60.000 a 65.000 USD (~55.000 EUR) |
Se tivéssemos de apontar o cenário mais provável, seria o do meio: um mercado que oscila, digere um segundo aperto e fecha o ano não muito longe de onde está, com a sazonalidade a puxar para cima e a Fed a puxar para baixo. Mas o valor deste exercício não está no palpite; está em saber que sinais observar para migrar de um cenário para outro. A decisão de dezembro da Fed, o ritmo das recompras do Tesouro e a direção dos fluxos de ETF são os três interruptores a vigiar.
O que isto significa para o investidor português
Para quem investe a partir de Portugal, três conclusões práticas sobressaem. A primeira é de acesso: a maior parte da exposição regulada faz-se por ETP europeus e por plataformas agora licenciadas ao abrigo da MiCA, com a CMVM como autoridade competente nacional. Vale a pena confirmar que a corretora usada opera com autorização válida, sobretudo depois de o período de transição ter terminado a 1 de julho.
A segunda é de gestão de risco. Num trimestre em que a Fed aperta e a liquidez depende de decisões técnicas do Tesouro, a volatilidade tende a ser maior, não menor. Dimensionar posições com prudência, evitar alavancagem em vésperas de grandes vencimentos de opções e distinguir o fluxo que se lê do fluxo que se pode comprar são cuidados básicos que ganham peso no fim do ano.
A terceira é fiscal. Em Portugal, o tratamento das mais-valias com criptoativos distingue o curto do longo prazo: os ganhos com ativos detidos há menos de um ano são tributados, ao passo que os detidos há mais tempo beneficiam, em muitos casos, de isenção. As regras têm nuances e exceções, pelo que vale a pena confirmar a situação concreta junto de um profissional antes de realizar ganhos em dezembro apenas por razões de calendário.
Frequently Asked Questions
O Bitcoin vai subir até ao fim de 2026?
Ninguém sabe, e convém desconfiar de quem garantir que sim. Os fatores de alta (sazonalidade forte no quarto trimestre, liquidez do Tesouro e ETF que viraram positivos) convivem com fatores de baixa (uma Fed a subir juros e a incerteza regulatória nos Estados Unidos). As metas dos analistas para o fecho do ano vão de cerca de 100.000 a 125.000 dólares, mas as mesmas casas já falharam previsões no passado. O mais sensato é pensar em cenários, não num número único.
Porque é que a cripto subiu se a Fed está a subir os juros?
Porque o motor do rali de setembro não foi a política de juros, mas a liquidez. Planos do Tesouro dos Estados Unidos para recomprar dívida de longo prazo injetaram dinheiro no sistema, e boa parte encontrou caminho para os ETF de Bitcoin. Analistas como Eric Balchunas, da Bloomberg, descreveram-no como um «tsunami» de liquidez. É um motor real, mas que pode desligar-se sem aviso.
O que acontece agora que a CLARITY Act foi chumbada?
A lei de estrutura de mercado ficou parada no Senado depois de a votação de cloture ter falhado a 15 de setembro por 49 votos contra 50. Sem um regresso rápido à votação antes do recesso do Congresso, a clareza legislativa escorrega para 2027. Entretanto, a definição das regras passa para os reguladores, a SEC e a CFTC, através das suas próprias rulemakings.
Como é que a MiCA afeta quem investe em cripto em Portugal?
Desde 1 de julho de 2026, qualquer prestador de serviços de criptoativos a clientes da UE precisa de licença ao abrigo da MiCA. Em Portugal, a autoridade competente é a CMVM. Para o investidor, isto significa mais proteção e transparência, mas também uma oferta possivelmente mais estreita, à medida que operadores mais pequenos se ajustam ao custo da conformidade. Convém confirmar que a plataforma usada está devidamente autorizada.
Quais são as metas de preço do Bitcoin para o fim de 2026?
A Standard Chartered, pela voz de Geoff Kendrick, reafirmou 100.000 dólares para o fecho de 2026. A Bernstein, com o analista Gautam Chhugani, aponta 125.000 dólares para a mesma data e traça um caminho de mais longo prazo até 1 milhão em 2033. Ambas reviram em baixa metas anteriores mais agressivas, o que convida a alguma cautela.
Por Ricardo Nunes, editor sénior da HOGE Wire.