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● DeFi & On-chain

MEV em 2026: o manual de defesa e os limites da ordem privada

O ataque sandwich caiu quase 75% com a adoção de RPC privados e leilões de ordem. Só que a ordem privada não é à prova de bala, e o Glamsterdam muda o jogo a 6 de outubro.

Cada vez que envia uma troca numa exchange descentralizada, a sua ordem passa primeiro por uma sala de espera pública, o mempool, onde qualquer pessoa a consegue ver antes de ser confirmada. Durante anos, essa transparência alimentou uma indústria discreta: programas automáticos que reordenam, inserem ou cercam transações alheias para extrair valor. É o fenómeno a que a indústria chama MEV (Maximal Extractable Value), o valor máximo que quem ordena um bloco consegue retirar das transações dos outros.Em 2026, alguma coisa mudou. O ataque mais visível e mais odiado, o sandwich, recuou de forma acentuada: a extração mensal caiu de perto de 10 milhões de dólares no final de 2024 para cerca de 2,5 milhões em outubro de 2025, segundo dados da EigenPhi, e isto enquanto o volume das exchanges descentralizadas subia. A defesa profissionalizou-se, e milhões de utilizadores passaram a encaminhar as ordens por canais privados.Só que a história tem um senão. Um estudo recente mostra que a própria ordem privada já está a ser atacada, e a correção definitiva não está nas mãos do utilizador, mas no protocolo: a atualização Glamsterdam chega à rede de teste Sepolia a 6 de outubro, com o ePBS a reescrever a forma como os blocos são construídos. Este é o manual de defesa contra o MEV em 2026, e o mapa de onde a defesa ainda falha.

Porque é que cada transação é uma isca

Numa blockchain pública, uma transação não é confirmada no instante em que carrega no botão. Fica à espera no mempool, visível para toda a gente, até um validador a incluir num bloco. Quem controla a ordem das transações dentro desse bloco controla o preço a que elas são executadas, e é aí que nasce o MEV. A metáfora que ficou foi a de Dan Robinson e Georgios Konstantopoulos, da Paradigm, que em 2020 descreveram a Ethereum como uma «floresta escura» onde predadores automáticos esperam para atacar qualquer transação lucrativa que apareça a descoberto.A documentação da própria Ethereum define o MEV como o valor que pode ser extraído reordenando, incluindo ou excluindo transações num bloco. Nem todo ele é predatório; a arbitragem que alinha os preços entre plataformas é benigna e até necessária. Mas uma fatia significativa vive de lucrar à sua custa, e a engrenagem concentrou-se numa mão-cheia de intervenientes, o tema de uma análise anterior da HOGE Wire sobre o oligopólio do MEV. Aqui o foco é o lado oposto: o do utilizador que quer deixar de pagar a conta.Para perceber a defesa, convém saber como a sua ordem viaja. Depois de assinada, ela não vai diretamente para a blockchain: passa por uma cadeia de intermediários que se consolidou após a transição da Ethereum para proof-of-stake. Primeiro, os searchers (os bots) vasculham o mempool à procura de oportunidades e montam pacotes de transações; depois, os builders competem para montar o bloco mais lucrativo; por fim, o validador que propõe o bloco escolhe a proposta mais rentável. Cada elo desta cadeia vê a sua ordem antes de ela ser definitiva, e é por isso que esconder a ordem, em vez de confiar na boa vontade de cada elo, se tornou a estratégia dominante.

As jogadas que o visam: sandwich, front-running e companhia

Nem todas as estratégias de MEV atacam o utilizador comum da mesma maneira, e vale a pena conhecer as principais, porque cada uma tem uma defesa diferente. No front-running, o bot vê a sua ordem no mempool, copia-a e paga mais gás para ser executado imediatamente antes de si, aproveitando o movimento de preço que a sua própria ordem vai provocar. O back-running é o inverso, entrar logo a seguir à sua transação, por exemplo para arbitrar o preço que ela desalinhou; é a forma menos nociva e a base dos reembolsos que veremos adiante. O sandwich é a combinação das duas, uma compra antes e uma venda depois, que espreme a diferença e lhe deixa a pior execução possível.Há ainda duas jogadas mais especializadas. A JIT (just-in-time) liquidity é quando um fornecedor injeta liquidez no exato bloco da sua grande troca para capturar a comissão e a retira logo a seguir. E o alvo de liquidações, em que os bots competem para liquidar posições de crédito no instante em que ficam elegíveis, um tema que explorámos quando analisámos a cascata de liquidações num perp DEX. A tabela seguinte resume quem o visa e por onde começar a defesa.
JogadaComo funcionaQuem visaA sua defesa
SandwichCompra antes e venda depois da sua ordemTrocas em DEX com slippage folgadoRPC privado, leilão em lote
Front-runningCopia a ordem e paga mais gás para ir à frenteOrdens visíveis e lucrativasRPC privado, mempool encriptado
Back-runningEntra logo a seguir para arbitrarQualquer ordem que mova o preçoOrder-flow auction (devolve-lhe parte)
JIT liquidityLiquidez injetada e retirada no mesmo blocoGrandes trocas e fornecedores de liquidezPouca; é sobretudo problema dos LP
Alvo de liquidaçõesCorrida a liquidar colateral elegívelMutuários alavancadosMargem folgada, alertas de saúde
Entre todas, o sandwich é o que mais dói ao utilizador comum, porque o visa diretamente. O guião é sempre o mesmo: o bot deteta a sua ordem de compra no mempool, compra o mesmo ativo um instante antes (empurrando o preço para cima), deixa a sua ordem executar-se a esse preço inflacionado e vende logo a seguir, embolsando a diferença. O utilizador recebe menos tokens do que esperava e, na maioria dos casos, nem dá por isso, porque a execução continua dentro da tolerância de slippage que autorizou. É um imposto invisível, cobrado bloco a bloco.

O sandwich recuou: os números de 2026

A boa notícia é que a defesa está a ganhar terreno. Dados exclusivos da EigenPhi, compilados pela Cointelegraph Research, mostram que a extração por sandwich na Ethereum caiu de quase 10 milhões de dólares por mês no final de 2024 para cerca de 2,5 milhões em outubro de 2025, uma queda de aproximadamente 75%. E isto aconteceu ao mesmo tempo que o volume mensal das DEX subia de cerca de 65 mil milhões para bem mais de 100 mil milhões de dólares. Menos extração com mais volume é o sinal claro de que a proteção está a funcionar.Os pormenores contam o resto da história. O número de ataques manteve-se alto, entre 60 mil e 90 mil por mês, mas o lucro médio por ataque desabou para pouco mais de 3 dólares, e no conjunto de 2025 os sandwiches drenaram várias dezenas de milhões de dólares aos utilizadores. Cerca de 70% de todos os ataques são atribuídos a uma única entidade, o conhecido jaredfromsubway.eth, o mesmo bot que em abril de 2026 chegou a cercar uma pequena troca do próprio Vitalik Buterin. Os alvos preferidos são os pools de baixa volatilidade: 38% dos ataques visaram pares de stablecoins e ativos embrulhados, onde o utilizador não espera derrapagem e por isso baixa a guarda. A própria EigenPhi aponta a adoção de ferramentas de proteção como a explicação mais provável para o recuo.Com o ether a cotar-se nos 2.396,50 euros e uma capitalização a rondar os 292 mil milhões de euros, e com dezenas de mil milhões a mudar de mãos por mês nas DEX, mesmo uma fração de ponto percentual por troca representa muito dinheiro. É por isso que a defesa deixou de ser um nicho de especialistas e passou a ser uma rotina para quem negoceia a sério.Há uma ironia por trás destes números. O MEV tornou-se tão competitivo que os próprios atacantes se espremeram mutuamente: com dezenas de milhares de tentativas por mês a disputar as mesmas oportunidades, o lucro por ataque desceu a níveis irrisórios e a maioria dos pequenos searchers desistiu. O que resta é um punhado de operadores altamente especializados, a trabalhar com margens mínimas e volumes enormes. Para o utilizador, isto significa duas coisas: o sandwich oportunista quase desapareceu, mas quem continua no jogo é mais sofisticado e mais difícil de evitar sem ferramentas dedicadas.

Primeira linha de defesa: o RPC privado

A defesa mais eficaz e, ao mesmo tempo, mais simples é nunca passar pela sala de espera pública. Um RPC privado (o RPC é o ponto de ligação que a carteira usa para falar com a rede) não difunde a sua transação no mempool aberto; entrega-a diretamente a quem constrói os blocos, sem a expor aos bots que vasculham o mempool à procura de presas. Troca-se o endereço de RPC nas definições da carteira e, para o utilizador, tudo o resto fica igual.O Flashbots Protect é o mais conhecido. Encaminha as transações para um mempool privado da Flashbots, onde ficam escondidas dos bots de front-running e de sandwich, e acrescenta três proteções úteis: reembolso de MEV e de gás quando aplicável, proteção contra reversão (se a transação vai falhar, não entra no bloco e o utilizador não paga gás por uma operação falhada) e ausência de registo de dados pessoais como o endereço IP. O MEV Blocker, mantido pela CoW Protocol em conjunto com a Agnostic Relay e a Beaver Build, é a outra grande opção, e acrescenta um incentivo financeiro que merece secção própria.O RPC privado tem contrapartidas que vale a pena conhecer. Como a transação deixa de circular no mempool público, pode demorar um pouco mais a ser incluída num bloco, sobretudo em momentos de congestionamento, e o utilizador passa a confiar que o operador do mempool privado se comporta como promete. O Flashbots Protect permite ajustar esse equilíbrio entre velocidade, privacidade e reembolso, mas a troca de fundo mantém-se: ganha-se proteção contra os bots em troca de alguma dependência de um intermediário. Para a esmagadora maioria dos utilizadores, é uma troca largamente vantajosa.

O reembolso: quando o bot lhe paga a si

A ideia por trás das order-flow auctions (leilões de fluxo de ordens) é engenhosa: se o back-running da sua transação vale dinheiro, por que não devolver esse valor a quem o gerou, ou seja, a si? O MEV Blocker organiza um leilão entre uma rede de searchers que podem fazer back-run da sua transação, mas nunca front-run nem sandwich. Quem ganha o leilão paga, e esse valor é dividido 90/10: o utilizador fica com 90% do lance vencedor e o validador com os restantes 10%. Em mais de 62 milhões de transações protegidas, o reembolso mediano ronda os 26 dólares.A Flashbots segue a mesma lógica com o MEV-Share, um protocolo aberto que permite a utilizadores, carteiras e aplicações internalizarem o MEV que as suas ordens criam, em vez de o oferecerem de graça. Mas aqui entra o primeiro aviso importante. Robert Miller, da Flashbots, reconhece que os leilões de fluxo de ordens conseguiram devolver valor aos utilizadores, mas alerta para os efeitos centralizadores dos componentes fora da cadeia que gerem esses leilões. Por outras palavras: para ser protegido, o utilizador tem de confiar num operador. Guarde esta ideia, porque ela volta mais à frente.O reembolso muda a economia da proteção. Em vez de ser apenas um custo (mudar de endpoint, aceitar algum atrito), passar a ordem por um leilão de fluxo pode até devolver dinheiro ao utilizador, o que explica por que carteiras e aplicações começaram a integrar estes leilões por omissão: quem controla o fluxo de ordens pode partilhar o valor com o utilizador em vez de o entregar a um bot anónimo. É a mesma lógica que, no mercado tradicional, se discute a propósito do pagamento por fluxo de ordens, só que aqui o valor é, pelo menos em parte, devolvido a quem o gera.

Negociar em lote: a CoW Swap e o leilão de preço único

Há uma defesa ainda mais radical: deixar de ter uma ordem individual exposta. A CoW Swap, da CoW Protocol, agrupa as ordens em lotes e liquida-as todas ao mesmo preço de equilíbrio, num leilão em que vários solvers competem para encontrar a melhor execução para o conjunto. Dentro de um lote não há uma ordem «à frente» ou «atrás» de outra, pelo que o sandwich deixa de ter onde se agarrar. E sempre que duas ordens opostas coincidem (uma «coincidence of wants»), a troca faz-se diretamente entre os dois utilizadores, sem sequer tocar num pool e sem derrapagem.Para ordens grandes, o lote resolve um problema que o RPC privado não resolve: o impacto no preço. É também a razão por que os grandes investidores continuam a preferir mesas de balcão para mover volume sem mexer o mercado, um mecanismo que detalhámos em o volume invisível do mercado de balcão. O princípio é o mesmo: quanto menos o mercado vê a sua intenção, menos lhe podem cobrar por ela.Um exemplo torna a ideia concreta. Imagine que quer trocar ether por uma stablecoin ao mesmo tempo que outro utilizador quer fazer exatamente o oposto. Num leilão em lote, os dois pedidos podem cruzar-se diretamente, ao preço justo do momento, sem passarem por um pool e, portanto, sem deixarem rasto para um bot cercar. É esta a lógica da «coincidence of wants», e explica por que os leilões em lote já liquidaram muitos milhares de milhões de dólares em ordens sem a derrapagem típica das trocas convencionais. A tabela abaixo compara as três grandes ferramentas e os seus limites.
FerramentaO que fazProtege contraO que não resolve
RPC privado (Flashbots Protect)Esconde a ordem do mempool públicoFront-running e sandwich públicoImpacto no preço; confiança no operador
Order-flow auction (MEV Blocker)Esconde e devolve 90% do back-runFront-running e sandwich; e reembolsaDependência de um leilão fora da cadeia
Leilão em lote (CoW Swap)Agrupa ordens a preço únicoSandwich, derrapagem e impactoVelocidade; confiança nos solvers
Definições (slippage, limite)Reduz a margem de ataqueLimita o lucro do sandwichNão esconde a ordem

O que o utilizador controla: slippage, ordens-limite e a carteira

Mesmo sem ferramentas dedicadas, há decisões que encolhem a margem de ataque. A mais importante é o slippage (a derrapagem máxima que aceita entre o preço esperado e o executado). Um sandwich só é lucrativo até ao limite de slippage que o utilizador autoriza; definir uma tolerância apertada tira oxigénio ao ataque, embora demasiado apertada faça a transação falhar em mercados voláteis. Dividir uma ordem grande em várias mais pequenas, usar ordens-limite em vez de ordens de mercado e negociar em pools profundos são outras formas simples de reduzir a exposição.O slippage merece um exemplo. Se aceita uma derrapagem de 2% numa troca de mil euros, está, na prática, a autorizar que a sua execução piore até 20 euros; um bot que consiga cercar a ordem tentará capturar exatamente essa folga. Baixar a tolerância para 0,5% reduz o prémio disponível para o atacante, mas, num token volátil, uma tolerância demasiado apertada faz a transação reverter e obriga a repetir a operação, pagando gás de novo. O ponto ótimo depende da profundidade do pool e da volatilidade do momento, e é por isso que combinar um slippage sensato com um RPC privado funciona melhor do que qualquer um dos dois isolado.A tendência de fundo, porém, é a proteção deixar de depender do utilizador. Cada vez mais carteiras e redes tornam a defesa invisível e ativa por omissão: a MetaMask encaminha ordens por vias protegidas através das suas Smart Transactions, e a BNB Chain integrou proteção contra sandwich em várias carteiras do seu ecossistema. O objetivo é que, dentro de pouco tempo, o utilizador deixe de precisar de saber o que é um RPC privado para estar protegido.

Na Solana é outra história

A Solana não tem um mempool público global, o que torna o front-running clássico mais difícil: não há uma sala de espera aberta para espreitar. Mas isso não elimina o MEV, apenas o desloca. O cliente Jito-Solana, que corre na larga maioria do stake da rede, introduziu um sistema de bundles e tips (gorjetas) que permite aos searchers pagar para ordenar transações, e alguns validadores chegaram a correr mempools privados para cercar utilizadores de retalho.O modelo de gorjetas e taxas de prioridade da Solana muda a natureza do problema. Em vez de um leilão público de gás visível no mempool, a competição faz-se por pacotes enviados diretamente ao líder do bloco, o que concentra a ordenação em menos mãos e torna a transparência mais difícil. Para o utilizador de retalho, a defesa prática passa por usar interfaces e routers que já encaminham as ordens de forma protegida e que não vendem o fluxo a quem o quer explorar, uma escolha de plataforma mais do que uma configuração manual.A resposta da rede foi dura. A Solana Foundation expulsou mais de 30 validadores do seu programa de delegação por operarem mempools de sandwich contra utilizadores, uma medida que Tim Garcia, responsável pelas relações com validadores, descreveu como final. O JitoSOL, por seu lado, recicla as gorjetas de MEV para quem faz staking, transformando parte da extração em rendimento, uma lógica parecida com a que os ETF de Ethereum com staking trouxeram para a leitura dos fluxos. Com o SOL a cotar-se nos 107,98 euros, a economia em torno destas gorjetas move somas consideráveis.

O senão: a ordem privada também é apanhada

Aqui está a parte que a maioria dos guias não conta. Encaminhar as ordens por vias privadas tornou-se o reflexo natural de quem já foi cercado: um estudo de Davide Mancino e Davide Rezzoli, da PBS Foundation, mostra que 37,2% das vítimas de um sandwich público migram para a ordem privada nos 60 dias seguintes ao primeiro ataque, uma proporção que sobe para 54% entre os utilizadores atacados repetidamente. O instinto está certo. O problema é que o destino não é tão seguro como parece.Os mesmos investigadores documentaram 2.932 ataques sandwich dentro de canais privados, afetando 3.126 transações de vítimas que se julgavam protegidas, com perdas totais de cerca de 409 mil dólares num período de apenas dois meses. Mais revelador ainda: uma única entidade controlava perto de 65% desse volume. A conclusão dos autores é direta: a ordem privada não garante proteção contra a extração de MEV, e pode até constituir uma superfície de ataque mais estreita, mas altamente concentrada.Os valores individuais são pequenos (a perda mediana por vítima ronda os 27 dólares), mas o padrão é o que importa: quem se move para a ordem privada deixa de ser alvo da multidão de bots do mempool aberto e passa a estar exposto a quem tem acesso privilegiado ao próprio canal privado. É uma troca de uma ameaça difusa por uma ameaça concentrada, e nem sempre é um bom negócio se o operador do canal for, ele próprio, parte interessada na extração.A explicação liga-se ao aviso de Robert Miller. Quando encaminha uma ordem por um canal privado, está a confiar que o operador desse canal (o RPC, o relay, o builder) não espreita o conteúdo nem se coliga com quem o faria. Numa indústria em que os maiores builders também correm as suas próprias operações de extração, como mostrámos na análise sobre a concentração do mercado de construção de blocos, essa confiança não é trivial. A defesa individual, por melhor que seja, esbarra sempre no mesmo limite: há um intermediário, e o utilizador tem de confiar nele.

A correção estrutural: encriptar o mempool e reescrever o bloco

Se a defesa individual tem um teto, a solução definitiva tem de vir do protocolo, e avança em duas frentes paralelas. A primeira são os mempools encriptados: cifrar o conteúdo das transações até ao momento em que a ordem é fixada, de modo que ninguém, nem sequer o builder, consiga ler uma ordem a tempo de a cercar. É uma ideia poderosa, mas com custos de latência e de complexidade que a mantêm, para já, em fase experimental.A abordagem mais estudada usa encriptação por limiar (threshold encryption), em que um conjunto de participantes só consegue decifrar as transações depois de a ordem do bloco estar fixada, impedindo que alguém leia o conteúdo a tempo de o explorar. O desafio é garantir que as ordens são mesmo decifradas e incluídas (o chamado problema de liveness) sem abrir a porta à censura. É uma troca delicada entre privacidade e garantias, e a razão por que estas soluções ainda não substituíram as ferramentas do dia a dia.A segunda frente chega já esta semana. A atualização Glamsterdam ativa-se na rede de teste Sepolia a 6 de outubro de 2026, com lançamento em mainnet previsto para o quarto trimestre. A estrela é o ePBS (EIP-7732), que inscreve no próprio protocolo a separação entre quem propõe o bloco e quem o constrói, eliminando a necessidade de software intermediário externo como o MEV-Boost e alargando a janela de propagação de 2 para cerca de 9 segundos. A acompanhá-lo vão as block-level access lists (EIP-7928), que permitem processar as transações em paralelo.O ePBS torna o mercado de construção de blocos mais neutro, mas não acaba, por si só, com a extração. O próprio Vitalik Buterin avisou que o ePBS sozinho é insuficiente, porque o estado partilhado síncrono continua a empurrar para alguma centralização, e defende juntar-lhe o FOCIL (listas de inclusão que obrigam a aceitar transações, travando a censura) e os mempools encriptados. É o reconhecimento de que resolver o MEV é um projeto de anos, não de uma única atualização.
Correção estruturalO que mudaEstado
Mempools encriptadosOrdens cifradas até serem fixadasExperimental
ePBS (EIP-7732)Separação proponente-builder no protocoloSepolia a 6 de outubro de 2026
Block-level access lists (EIP-7928)Processamento de transações em paraleloSepolia a 6 de outubro de 2026
FOCILListas de inclusão contra a censuraEm investigação

O MEV que nenhuma defesa individual apanha

Convém não confundir todo o MEV com um ataque pessoal. A arbitragem que mantém o preço de um token alinhado entre uma DEX e uma CEX é MEV, mas é também o que garante que os preços on-chain fazem sentido; sem ela, os pools ficariam permanentemente desalinhados. As liquidações que fecham posições insolventes protegem os credores do protocolo. Este tipo de extração não vive de piorar a sua execução individual; é um custo estrutural do sistema, e nenhum RPC privado o faz desaparecer.Há ainda uma forma de MEV que recai sobre quem fornece liquidez, e não sobre quem negoceia: a chamada LVR (loss-versus-rebalancing), a perda sistemática dos fornecedores de liquidez face a uma carteira que se limitasse a deter os ativos. Defender-se do MEV predatório, o sandwich e o front-running, é possível e cada vez mais fácil. Eliminar o MEV benigno seria eliminar os próprios mecanismos que fazem a DeFi funcionar. A meta realista não é um mundo sem MEV, mas um mundo em que o utilizador comum deixa de ser a presa mais fácil.A distinção útil é entre fluxo tóxico e fluxo benigno. O sandwich e o front-running são tóxicos porque só existem para extrair valor de uma transação específica, sem acrescentarem nada ao sistema. A arbitragem e as liquidações, pelo contrário, prestam um serviço: mantêm os preços corretos e os protocolos solventes. As melhores defesas de 2026, dos leilões em lote aos mempools encriptados, são precisamente as que conseguem neutralizar o fluxo tóxico sem travar o benigno, e é esse equilíbrio, e não a eliminação total do MEV, que define o sucesso.

O vazio regulatório: a CMVM, a MiCA e os bots anónimos

Em mercados tradicionais, correr à frente das ordens dos clientes é uma infração clássica de abuso de mercado. A MiCA tem um título dedicado ao tema (o Título VI, que proíbe o abuso de informação privilegiada, a sua divulgação ilícita e a manipulação de mercado), com as últimas regras em vigor desde 28 de julho de 2026, e em Portugal cabe à CMVM supervisionar a conduta de mercado dos prestadores de serviços de criptoativos. A Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, repartiu a supervisão entre o Banco de Portugal e a CMVM e prevê coimas que podem chegar aos milhões de euros; o período transitório para os antigos VASP portugueses terminou a 1 de julho de 2026.O problema é a quem aplicar estas regras. Se um prestador licenciado corresse à frente dos seus clientes, a CMVM teria como atuar. Mas um bot de sandwich numa DEX sem permissões não tem emitente, não tem licença e não tem um rosto identificável: vive fora do perímetro que a MiCA desenhou. É o mesmo vazio que aproxima o regulador do crédito descentralizado sem o conseguir alcançar por completo, uma tensão que analisámos quando os cofres de DeFi entraram na mira da MiCA. Por agora, a melhor proteção do investidor português não vem de um regulador, mas das ferramentas que escolhe usar.Há um debate de fundo que ultrapassa Portugal. Reguladores de vários Estados-membros têm defendido uma supervisão mais uniforme e, em alguns casos, a fiscalização direta dos maiores prestadores por parte da ESMA, precisamente porque a atividade on-chain não conhece fronteiras. Mas nada disto alcança um bot anónimo que corre num contrato inteligente sem dono. Enquanto a lacuna existir, o investidor que queira proteção efetiva não pode esperar por ela do lado regulatório; tem de a construir, transação a transação, com as escolhas técnicas que estão ao seu alcance.

A sua defesa em 2026: a lista de verificação

Resumindo o que funciona hoje, por ordem de esforço crescente:
  • Troque o RPC da carteira por um privado (Flashbots Protect ou MEV Blocker); é a defesa com melhor relação eficácia-esforço.
  • Para trocas grandes, prefira um leilão em lote como a CoW Swap, que elimina a derrapagem e o impacto no preço.
  • Defina um slippage apertado, mas não ao ponto de a transação falhar em mercados voláteis.
  • Use ordens-limite em vez de ordens de mercado e divida as ordens grandes em parcelas.
  • Confirme no final se foi cercado, consultando o seu endereço num explorador ou num painel como o da EigenPhi.
  • Na Solana, use routers e carteiras conscientes do Jito e evite plataformas sem proteção.
  • Lembre-se: privado não é sinónimo de invulnerável; para volume muito grande, uma mesa de balcão continua a ser a via mais discreta.

Perguntas frequentes

O que é um ataque sandwich e como sei se fui vítima?

Um ataque sandwich é quando um bot compra um ativo imediatamente antes da sua ordem e o vende logo a seguir, empurrando o preço contra si para lucrar com a diferença. Para saber se foi vítima, consulte a sua transação num explorador de blocos ou num painel de análise on-chain como o da EigenPhi: se vir uma compra e uma venda do mesmo bot a cercarem a sua troca no mesmo bloco, foi cercado.

O RPC privado protege-me a 100% do MEV?

Não. Um RPC privado esconde a sua ordem do mempool público e elimina a grande maioria dos sandwiches, mas um estudo da PBS Foundation documentou milhares de ataques dentro de canais privados, com uma única entidade a controlar perto de 65% desse volume. Ao usar um canal privado está a confiar no operador desse canal, por isso a proteção é muito boa, mas não é absoluta.

É melhor usar a CoW Swap ou o MEV Blocker?

Depende do tamanho da ordem. O MEV Blocker é um RPC que esconde a ordem e lhe devolve 90% de qualquer back-run, ideal para trocas do dia a dia sem mudar de interface. A CoW Swap agrupa ordens num leilão a preço único e costuma ser superior para trocas grandes, porque elimina a derrapagem e o impacto no preço. Muitos utilizadores usam os dois, consoante a situação.

O ePBS do Glamsterdam acaba com o MEV?

Não acaba, mas muda o jogo. O ePBS inscreve no protocolo a separação entre quem propõe e quem constrói o bloco, tornando o mercado mais neutro e dispensando intermediários como o MEV-Boost. O próprio Vitalik Buterin reconhece que o ePBS sozinho é insuficiente e defende juntar-lhe listas de inclusão (FOCIL) e mempools encriptados. É um passo importante, não uma cura.

O MEV é ilegal em Portugal?

Não há uma proibição direta. A MiCA proíbe a manipulação de mercado e a CMVM supervisiona a conduta dos prestadores licenciados, pelo que um prestador que corresse à frente dos clientes poderia ser sancionado. Mas os bots de MEV em DEX sem permissões não têm emitente nem licença e ficam fora do perímetro da MiCA, por isso, na prática, a defesa do investidor depende sobretudo das ferramentas que usa.Yuki Tanaka cobre DeFi e infraestrutura on-chain para a HOGE Wire.
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