Restaking 2026: a aposta da EigenCloud na IA verificável
A EigenCloud troca segurança partilhada por computação verificável para IA, com 70 milhões da a16z e três integrações reais. Nenhum concorrente direto seguiu o mesmo caminho até agora.
A EigenCloud passou os últimos dois anos a vender uma ideia simples: pegar no ETH já apostado na rede Ethereum e voltar a colocá-lo a trabalhar, protegendo pontes, oráculos e camadas de disponibilidade de dados através do restaking. Em 2026, essa ideia perdeu parte do seu brilho. O valor total bloqueado no protocolo caiu de um pico próximo dos 19,7 mil milhões de dólares para uma fração disso, o token EIGEN negoceia mais de 96% abaixo do máximo histórico, e vários dos maiores nomes do setor, como a Symbiotic e a Karak, já mudaram de discurso para se afastarem do restaking puro. É neste contexto que a Eigen Labs está a apostar praticamente tudo numa direção diferente: já não segurança partilhada para outros protocolos, mas computação verificável para aplicações de inteligência artificial.
A aposta chama-se EigenCompute, tem por trás um investimento direto de 70 milhões de dólares da a16z, já contabiliza três integrações reais, incluindo um protocolo de agentes da Google, e obriga a uma pergunta desconfortável: o ETH em restaking ajuda mesmo a verificar que um modelo de inteligência artificial correu como devia, ou é apenas mais um capítulo de uma tentativa de recuperar relevância num setor em contração? Este artigo detalha a arquitetura por trás do EigenCompute, o dinheiro que a financia, o calendário de desbloqueios que continua a diluir o token EIGEN, e porque nenhum dos concorrentes diretos (Symbiotic, Babylon, SSV Network, Karak/OpenGDP) seguiu o mesmo caminho até agora. Explica-se também o que isto significa em Portugal, onde a CMVM e o Banco de Portugal já têm um regime MiCA em pleno funcionamento desde julho.
O que é o restaking, em síntese rápida
Restaking é o mecanismo, popularizado pela EigenLayer a partir de 2023, que permite a quem já tem ETH apostado (ou um token de staking líquido) voltar a comprometer esse mesmo capital para proteger serviços terceiros, os chamados AVS (Actively Validated Services): oráculos, pontes entre blockchains, sequenciadores de rollups, camadas de disponibilidade de dados. Em troca, o operador recebe rendimento adicional; em contrapartida, aceita novas condições de corte (slashing) caso o serviço protegido falhe ou seja atacado. Vitalik Buterin, cofundador da Ethereum, avisou já em maio de 2023 que sobrecarregar o consenso da rede desta forma tem custos: escreveu no seu blogue pessoal que «qualquer expansão das funções do consenso da Ethereum aumenta os custos, a complexidade e os riscos de correr um validador». O aviso não impediu o crescimento do setor, mas ajuda a perceber porque o restaking sempre teve uma relação tensa com a ala mais conservadora da comunidade Ethereum.
Depois do lançamento do slashing em produção, em abril de 2025, o setor cresceu, estagnou e por fim contraiu-se de forma acentuada ao longo de 2026, um percurso já detalhado noutros artigos desta série, incluindo o levantamento de quem está mesmo a alocar capital institucional em restaking e os riscos de slashing em cascata que acompanham qualquer estratégia deste tipo. É contra este pano de fundo que a EigenCloud decidiu mudar de rumo.
Da EigenLayer à EigenCloud: o pivô que poucos viram chegar
A EigenLayer mudou de nome para EigenCloud ao longo de 2025, mas o rebranding foi mais do que cosmético. A Eigen Labs, empresa por trás do protocolo, passou a apresentar-se não como um mercado de segurança partilhada, mas como uma «cloud verificável», uma alternativa à AWS ou à Google Cloud em que qualquer computação, não apenas a validação de blocos, pode ser acompanhada de uma garantia económica ou criptográfica de que correu corretamente. O argumento comercial é direto: o mercado de segurança partilhada para AVS é finito e já mostra sinais de saturação, mas o mercado de infraestrutura de computação verificável para inteligência artificial é, em teoria, muito maior.
Para financiar esta aposta, a Eigen Labs recebeu, a 17 de junho de 2025, um investimento direto de 70 milhões de dólares da a16z crypto através da compra do próprio token EIGEN (não uma ronda de capital tradicional), depois de a mesma firma já ter liderado uma Série B de 100 milhões de dólares em fevereiro de 2024. Sreeram Kannan, fundador e presidente executivo da Eigen Labs, resumiu a ambição em declarações citadas pela CoinDesk: «a EigenCloud vai permitir a próxima geração de aplicações cripto disruptivas e de larga escala, fechando o fosso entre o que os programadores querem construir onchain e o que as blockchains atualmente permitem construir». Ali Yahya, general partner da a16z crypto, foi na mesma direção: «a EigenLayer está a superar os estrangulamentos técnicos das blockchains para permitir uma nova categoria de aplicações construídas sobre soluções verificáveis».
Os três pilares da nova arquitetura
A proposta da EigenCloud assenta em três produtos que, em conjunto, compõem essa «cloud verificável»:
- EigenDA: a camada de disponibilidade de dados, o AVS mais antigo da rede, em produção desde abril de 2024, que continua a servir rollups que precisam de publicar dados de forma barata e verificável.
- EigenVerify: mecanismo de verificação genérico para provar que uma computação feita fora da cadeia correu como devia.
- EigenCompute: máquinas virtuais confidenciais sobre o Google Cloud Confidential Space e o Intel TDX (Trust Domain Extensions), com execução que a própria página do produto descreve como ancorada onchain e apoiada por segurança económica real, com suporte para Ethereum, Arbitrum, Base, Solana, Polygon e Bitcoin.
A peça complementar chama-se EigenAI, uma interface de inferência compatível com a API da OpenAI que promete execução determinística bit a bit de modelos de linguagem em GPU, usando como primeiro modelo suportado uma variante do gpt-oss-120b. É um requisito técnico que se revela mais difícil do que parece, como se explica a seguir.
O problema do determinismo
Provar que uma computação correu corretamente costuma exigir que essa computação seja determinística, ou seja, que os mesmos dados de entrada produzam sempre exatamente o mesmo resultado, byte a byte. A inferência de modelos de linguagem em GPU não tem essa propriedade por definição: operações de vírgula flutuante não são associativas, e a forma como os cálculos são paralelizados e agrupados em lote varia consoante a carga do servidor, produzindo pequenas diferenças numéricas entre execuções idênticas na teoria. Chama-se a isto, informalmente, o paradoxo do determinismo: aquilo que torna a inferência de IA rápida e barata, o paralelismo massivo em GPU, é exatamente o que a torna difícil de verificar de forma barata.
Vitalik Buterin abordou o problema mais amplo da verificação de inteligência artificial num ensaio de janeiro de 2024, The promise and challenges of crypto + AI applications, onde distingue quatro papéis que a IA pode desempenhar num mecanismo: jogador dentro do jogo, interface para o jogo, regras do jogo, ou o próprio objetivo do jogo. A sua conclusão sobre porque a verificação importa continua a ser uma das citações mais repetidas do setor: «se um modelo de IA que desempenha um papel central num mecanismo é fechado, não se pode verificar o seu funcionamento interno, e por isso não é melhor do que uma aplicação centralizada». É esta lacuna, entre modelos opacos e mecanismos que exigem confiança, que produtos como o EigenCompute tentam preencher.
Quatro maneiras de verificar uma máquina
O EigenCompute não é a única forma de resolver este problema. O setor tem vindo a convergir para quatro abordagens distintas, cada uma com um modelo de confiança próprio:
| Abordagem | Modelo de confiança | Exemplos | Principal limitação |
|---|---|---|---|
| zkML (provas de conhecimento zero) | Criptográfica, sem necessidade de confiar em ninguém | RISC Zero, Succinct SP1, Boundless | Custo computacional ainda proibitivo para modelos de grande escala |
| TEE (ambientes de execução confiáveis) | Atestação de hardware | Intel TDX, NVIDIA H100, Phala Network, EigenCompute | A confiança desloca-se para o fabricante do chip, com risco de canais laterais |
| opML (aprendizagem automática otimista) | Janela de contestação mais prova de fraude | Ora Protocol | Latência do período de disputa, exige pelo menos um vigilante honesto |
| Económico-criptográfico | Capital em stake sujeito a corte (slashing) | EigenCloud, modelo original de restaking | A garantia é económica, não matemática |
O EigenCompute enquadra-se sobretudo na segunda linha desta tabela: é, no essencial, uma oferta de TEE com verificação onchain por cima, não uma prova criptográfica no sentido zkML. A Eigen Labs tem sido relativamente transparente quanto a isto: o roteiro público da empresa aponta para reforçar primeiro as garantias económicas e só depois acrescentar camadas criptográficas mais fortes, à medida que a tecnologia zkML amadurecer para modelos de maior escala.
As integrações que já existem
Diferente de muitas promessas do setor cripto, o EigenCompute já tem utilizadores reais em produção, três, segundo a própria página do produto:
- OpenFront: plataforma de torneios de jogos que usa o EigenCompute para garantir que os resultados são justos e não manipulados pelo operador.
- Cap: mercado de crédito institucional em DeFi, que usa a verificação para provar que os modelos de risco correram sem interferência.
- Google: através do protocolo A2A (agent-to-agent), que permite a agentes de inteligência artificial autenticarem-se e pagarem uns aos outros de forma verificável.
A inclusão da Google é provavelmente a integração mais significativa em termos de validação externa: sugere que pelo menos uma parte da conversa sobre a chamada economia de agentes (agentes de IA autónomos que transacionam entre si) está a olhar para infraestrutura cripto como camada de confiança, e não apenas como veículo especulativo. Vale a pena notar que a Cap também aparece entre os primeiros clientes institucionais do Core V2 da Symbiotic, discutido mais abaixo, o que sugere que os grandes protocolos de restaking continuam a competir pelos mesmos clientes empresariais, mesmo quando divergem na estratégia de produto.
O desconto do mercado: TVL em milhares de milhões, receita perto de zero
Apesar do pivô, o mercado continua cético. O EIGEN negoceia a cerca de 0,16 euros (0,1865 dólares), com uma capitalização de mercado próxima dos 120 milhões de euros, segundo a CoinGecko, mais de 96% abaixo do máximo histórico de 5,65 dólares atingido em dezembro de 2024. O valor total bloqueado no protocolo, medido por agregadores como a DefiLlama, continua a rondar vários milhares de milhões de dólares (a cifra exata varia muito consoante a metodologia de cada plataforma, um problema recorrente neste setor), mas a receita gerada pelo protocolo mantém-se, segundo análises baseadas nos mesmos dados, perto de zero.
É um desfasamento incómodo: há capital de sobra a proteger o sistema, mas ainda pouca prova de que alguém está a pagar de forma consistente para usar essa segurança, seja para AVS tradicionais, seja para o novo EigenCompute. O pivô para inteligência artificial é, em larga medida, uma tentativa de encontrar clientes dispostos a pagar de forma recorrente, algo que o modelo original de restaking nunca conseguiu demonstrar de forma convincente.
O calendário de desbloqueios e a diluição do EIGEN
No passado dia 1 de agosto, 36,82 milhões de tokens EIGEN, entre 7,6 e 7,7 milhões de dólares ao câmbio da altura, entraram em circulação através de um desbloqueio programado para investidores e contribuidores iniciais, o segundo evento deste tipo em apenas um mês, depois de um desbloqueio idêntico a 1 de julho. Segundo a crypto.news, este desbloqueio fez parte de uma semana com cerca de 77 milhões de dólares em tokens libertados só entre três projetos, BEAT, EIGEN e ZETA.
A tokenomics do EIGEN também mudou de forma estrutural em dezembro de 2025, através da proposta de governação conhecida como ELIP-012, que substituiu o antigo mecanismo de emissões por um novo contrato, o EmissionsController, que distribui EIGEN semanalmente e direciona os incentivos para «stake produtivo», capital que está ativamente a proteger AVS reais e a gerar comissões, em vez de depósitos parados. A inflação mantém-se fixa em 7% ao ano, mais 1% discricionário para o ecossistema, mas 100% das comissões geradas pelos produtos de cloud, incluindo o próprio EigenCompute, após custos de operador, passam a alimentar um mecanismo de recompra que visa reduzir a oferta em circulação ao longo do tempo. Na prática, isto significa que o sucesso comercial do EigenCompute não é apenas uma história de produto: é também, em teoria, o principal mecanismo capaz de travar a diluição contínua do token.
Os concorrentes seguem o mesmo caminho?
Nenhum dos outros grandes nomes do restaking seguiu a EigenCloud rumo à inteligência artificial, pelo menos até agora. A tabela seguinte cruza o preço atual, com dados de CoinGecko para o SSV e para o BABY, a situação do valor bloqueado e se cada protocolo seguiu ou não o mesmo caminho da EigenCloud:
| Protocolo | Token | Situação atual | Pivô para IA verificável? |
|---|---|---|---|
| EigenCloud | EIGEN (cerca de 0,16 EUR) | TVL na casa dos milhares de milhões de dólares, receita ainda baixa | Sim, EigenAI e EigenCompute em produção desde a fase alpha de setembro de 2025 |
| Symbiotic | Sem token público | TVL estimado entre 1 e 1,7 mil milhões de dólares, leituras divergem consoante a fonte | Não, pivô para mercados de colateral e RWA através do Core V2 e da Liquid Lane |
| Karak / OpenGDP | Sem token líquido confirmado | TVL bem mais reduzido, já fora do topo do setor | Não, rebranding completo para tokenização de economias reais (RWA) |
| Babylon | BABY (cerca de 0,0095 EUR) | Cerca de 56.800 BTC em staking, segundo o próprio painel da Babylon Labs | Não, mantém o foco em restaking nativo de Bitcoin |
| SSV Network | SSV (cerca de 1,94 EUR) | Milhões de ETH sob validação distribuída, segundo dados próprios da rede | Não, o roteiro dos bApps continua centrado na segurança da Ethereum |
A Symbiotic é o caso mais instrutivo. Depois de quase dois anos sem lançar um token próprio, a equipa lançou em julho de 2026 o Core V2, uma extensão do modelo de cofres (vaults) da Symbiotic para colateral de crédito, seguros e liquidez de ativos tokenizados. Hugh Karp, fundador da Nexus Mutual e parceiro de um dos primeiros produtos do Core V2, resumiu a lógica ao The Block: «o colateral partilhado é especialmente importante para cobertura onchain, onde a procura por proteção está a crescer mais depressa do que aquilo que qualquer balanço isolado deveria suportar sozinho; a Symbiotic permite que capital delegado sirva de capacidade de resseguro por trás da Nexus Mutual, com exposição de primeira e segunda perda definidas em separado». É uma aposta em finança institucional tokenizada, não em inteligência artificial.
A Karak seguiu um caminho ainda mais radical: mudou de nome para OpenGDP em meados de 2026, e o seu site já não menciona restaking, AVS ou segurança partilhada uma única vez, apresentando-se antes como a camada operacional para a execução económica do mundo real. A Babylon mantém-se concentrada em restaking nativo de Bitcoin (o seu painel público mostra, há já várias semanas sem alteração relevante, cerca de 56.800 BTC em staking, uma estabilidade que sugere tratar-se de uma cifra atualizada com pouca frequência, não um contador em tempo real), e a SSV Network continua a desenvolver o seu roteiro de bApps em torno da segurança da própria Ethereum. Em nenhum destes três casos há sinal de um pivô para inteligência artificial.
CMVM, MiCA e a zona cinzenta regulatória
Em Portugal, o regime transitório do MiCA para prestadores de serviços de ativos virtuais terminou a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, em vigor desde 27 de dezembro de 2025. Desde essa data, apenas entidades já autorizadas como CASP (Crypto-Asset Service Provider) podem continuar a angariar novos clientes em Portugal; quem ainda não obteve autorização só pode gerir a carteira de clientes já existente, sem publicidade nem admissão de novos utilizadores. O Banco de Portugal trata da supervisão prudencial e da autorização como CASP; a CMVM fica com a supervisão comportamental e a deteção de abuso de mercado, ao abrigo dos Títulos II e VI do MiCA.
Para um token como o EIGEN, que não é emitido nem promovido diretamente a partir de Portugal, a obrigação central do MiCA (o prospeto informativo, ou white paper de criptoativo) recai sobretudo sobre as plataformas que o listam e o disponibilizam a investidores de retalho portugueses, não sobre a própria Eigen Labs. A responsabilidade prática de verificar se um utilizador em Portugal pode aceder a produtos como o EigenCompute, ou aos próprios tokens EIGEN, SSV e BABY, recai assim sobre a exchange ou plataforma CASP que serve esse cliente. Vale ainda notar que os derivados cripto, futuros e perpétuos, continuam fora do âmbito do MiCA, sujeitos antes à DMIF II e à supervisão da CMVM enquanto instrumentos financeiros. Fora da União Europeia, autoridades como a SEC e a CFTC nos Estados Unidos têm vindo a clarificar a classificação de criptoativos mais estabelecidos, mas continuam, até à data, sem se pronunciar especificamente sobre tokens de infraestrutura de computação verificável, uma lacuna regulatória que não é exclusiva da Europa.
Os riscos: confiança no hardware e ceticismo do mercado
O modelo do EigenCompute desloca parte da confiança para fabricantes de hardware e fornecedores de cloud, ou seja, para a Google e para a Intel. É uma troca deliberada, a atestação de hardware é mais rápida e barata do que provas de conhecimento zero, mas introduz um risco distinto: um canal lateral não descoberto, uma vulnerabilidade de firmware, ou mesmo uma decisão comercial da Google ou da Intel, passa a ser um ponto único de falha para qualquer aplicação que dependa do EigenCompute. É uma centralização diferente da centralização que o restaking tentou resolver originalmente (poder de validação concentrado numa única blockchain), mas ainda assim uma forma de centralização.
O ceticismo do mercado, refletido no preço do EIGEN, tem também uma leitura mais simples: promessas de pivô tecnológico são comuns no setor cripto, e nem sempre se traduzem em receita real. A própria Eigen Labs parece reconhecer isto ao concentrar as comissões do EigenCompute num mecanismo de recompra, em vez de prometer um crescimento explosivo do preço a curto prazo.
O precedente Kelp/Aave: porque o restaking ainda tem uma sombra
Qualquer conversa sobre a próxima fase do restaking é inevitavelmente colorida pelo que aconteceu em abril de 2026, quando um atacante conseguiu cunhar 116.500 rsETH indevidos, o token de restaking líquido da Kelp DAO, através de uma ponte entre cadeias mal configurada, no valor de cerca de 292 milhões de dólares à data. Esse rsETH foi depois usado como colateral na Aave para pedir empréstimos, gerando perdas que, consoante a fonte, são estimadas entre 196 e 230 milhões de dólares, além de uma queda súbita no valor total bloqueado da própria Aave. Stani Kulechov, fundador da Aave, resumiu o momento numa publicação citada pela CoinDesk: «a Aave é o trabalho da minha vida e estamos a trabalhar sem parar para encontrar o melhor resultado possível para os utilizadores». A recuperação, com contribuições da Lido, da ether.fi, da Consensys e do próprio Kulechov, acabou por restaurar o lastro do rsETH meses depois.
Já se analisou este tipo de episódio noutro contexto, incluindo a forma como a indústria conta a história depois do desastre nos post-mortems a duelo que decidem quem tem a culpa, e porque, tantas vezes, alguns protocolos sobrevivem ao hack e outros desaparecem. O episódio Kelp/Aave é o lembrete mais concreto de que o restaking, seja qual for a aplicação final, segurança de AVS ou computação de inteligência artificial, continua a ser, no fundo, uma forma de reutilizar o mesmo capital para proteger múltiplas coisas ao mesmo tempo, com todo o risco de contágio que isso implica.
Onde isto deixa o restaking em 2026
A aposta da EigenCloud na inteligência artificial verificável não resolve, por si só, os problemas que empurraram o setor para a contração deste ano: TVL em queda, preços de tokens historicamente baixos, e um mercado que continua a exigir prova de receita real antes de voltar a acreditar na narrativa. Mas é, pelo menos, uma tentativa de responder a uma pergunta incómoda que o setor há muito evita: qual é a procura real por segurança partilhada, para além do apetite especulativo por pontos e recompensas?
Se o EigenCompute conseguir provar que agentes de IA, mercados de crédito e plataformas de jogos estão dispostos a pagar de forma recorrente por verificação, a EigenCloud terá encontrado um mercado maior do que o restaking alguma vez foi. Se não conseguir, junta-se à lista de pivôs que prometeram mais do que entregaram. Para quem quer perceber porque sair de uma posição de restaking pode ser mais complicado do que entrar, vale a pena rever também a mecânica de saída e a proposta ELIP-018, um problema que continua por resolver, independentemente do produto final que o capital em restaking acabe por proteger.
Perguntas frequentes
O que é o EigenCompute?
O EigenCompute é um produto da EigenCloud (antiga EigenLayer) que permite correr aplicações dentro de máquinas virtuais confidenciais, com base no Google Cloud Confidential Space e em processadores Intel com Trust Domain Extensions, com garantias económicas e onchain de que a execução não foi alterada. Serve casos como jogos justos, modelos de crédito institucional e pagamentos entre agentes de inteligência artificial.
Como é que a EigenCloud verifica se uma inteligência artificial correu corretamente?
Combina atestação de hardware, em que o TEE prova através de assinaturas criptográficas do próprio chip que correu um determinado código sem alterações, com ancoragem onchain dos resultados. O objetivo declarado é alcançar execução determinística bit a bit da inferência de modelos de linguagem, algo tecnicamente difícil devido à natureza não determinística do cálculo em GPU, mas que a empresa afirma já ter conseguido para o seu modelo inicial.
O restaking ainda faz sentido depois deste pivô para inteligência artificial?
Faz, mas com expectativas diferentes. O caso original do restaking, proteger AVS como oráculos e pontes, continua a existir, mas o crescimento mais promissor da EigenCloud passou a estar ligado à procura por computação verificável para IA, não apenas à procura por segurança partilhada tradicional. Concorrentes como a Symbiotic e a Babylon continuam a apostar no modelo original.
Quais são os principais riscos do EigenCompute?
O principal é a concentração de confiança em fornecedores de hardware e cloud, Google e Intel, que substitui um tipo de risco de centralização por outro. Há também ceticismo de mercado quanto à receita real gerada pelo produto, ainda baixa face ao valor total bloqueado no protocolo, e o risco geral de contágio que qualquer estratégia de restaking carrega, como ficou demonstrado no caso Kelp/Aave em 2026.
Como é que a CMVM e o regime MiCA tratam tokens como o EIGEN em Portugal?
O MiCA não regula diretamente a Eigen Labs enquanto emissora, uma vez que o token não é oferecido a partir de Portugal; a obrigação recai principalmente sobre as plataformas CASP que o disponibilizam a investidores portugueses. Desde 1 de julho de 2026, apenas prestadores já autorizados podem angariar novos clientes; a CMVM supervisiona a conduta de mercado e o Banco de Portugal trata da autorização e supervisão prudencial dos CASP.
Beatriz Nogueira é editora da secção DeFi On-Chain na HOGE Wire.