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● Predictions & Forecasts

Taxas das L2 depois da Fusaka: a previsão de compressão até 2027

O EIP-7918 pôs um piso nas taxas de blob e os forks BPO quase triplicaram o espaço para as L2. Eis o que isso significa para as taxas em 2026 e 2027.

Nove de julho de 2026: passaram pouco mais de sete meses desde a ativação da Fusaka e cerca de seis desde o segundo fork só parâmetros de blob (BPO2), e a conversa sobre taxas nas L2 da Ethereum mudou de tom. Já não se trata de saber se as taxas continuam a cair (continuam), mas de perceber onde está agora o verdadeiro limite dessa queda, quem paga a diferença entre um blob quase gratuito e a segurança de uma rede de milhares de milhões de dólares, e quem fica com o valor que sobra no meio. Como já explorámos em Taxas das L2 da Ethereum: até onde vai a compressão em 2026, a resposta deixou de ser um simples gráfico a descer, sempre, para a direita.

O que mudou entretanto foi, sobretudo, o EIP-7918: um parâmetro técnico com um efeito muito concreto, que pela primeira vez desde o lançamento dos blobs, em março de 2024, impede o preço mínimo de um blob de cair para perto de zero de forma permanente. Ao mesmo tempo, os forks BPO1 e BPO2 mais do que duplicaram a capacidade de dados disponível para as L2, a Base tornou-se um negócio de largas dezenas de milhões de euros por ano com taxas de poucos cêntimos, e a Ethereum enfrenta, cada vez mais às claras, uma pergunta desconfortável: se as L2 pagam cada vez menos para usar o L1, quem continua a financiar a segurança da rede principal, e durante quanto tempo isso é sustentável?

Este artigo tenta responder com números, não com slogans: o roteiro técnico que nos trouxe até aqui, o estado atual das taxas L2 a L2, o que a Fidelity Digital Assets, analistas independentes e o próprio Vitalik Buterin têm dito sobre o assunto nos últimos meses, e os cenários mais prováveis para o resto de 2026 e para 2027, incluindo o que isto significa para quem usa estas redes a partir de Portugal.

O que mudou desde a Fusaka: o novo estado da compressão de taxas

Em termos puramente técnicos, a fotografia de julho de 2026 é a seguinte: a Ethereum tem hoje um alvo de 14 blobs por bloco e um máximo de 21, depois de o BPO2 ter entrado em vigor a 7 de janeiro de 2026. Antes da Fusaka, esse par de números era 6 e 9; antes da Dencun, em março de 2024, era apenas 3 e 6. No total, a capacidade de dados disponível para as L2 cresceu cerca de 2,3 vezes num intervalo de pouco mais de um ano, segundo o oitavo boletim de progresso da Ethereum Foundation, o Checkpoint #8.

Só que capacidade não é o mesmo que preço, e é aqui que a história de 2026 se torna mais interessante do que a de 2024 ou 2025. É o EIP-7918, ativado dentro da própria Fusaka, que fixa pela primeira vez um preço mínimo para os blobs, ligado ao custo real de execução no L1. A partir de agora, dizer que as taxas das L2 vão continuar a cair já não significa automaticamente que os blobs vão continuar a ficar mais baratos: para perceber o que vem a seguir é preciso separar as duas coisas, e é isso que este artigo tenta fazer, secção a secção.

Vale também notar o contexto de mercado em que tudo isto acontece: depois de um máximo em torno de janeiro de 2026, o preço do ETH recuou de forma acentuada, o que reduz o valor em euros ou dólares de qualquer métrica de valor total bloqueado (TVL) medida nestes ativos, mesmo que a atividade subjacente das L2 se mantenha estável ou cresça. É um detalhe que convém ter em mente sempre que se comparam números de TVL entre trimestres diferentes.

De Dencun a Pectra: o caminho até aos blobs baratos

Vale a pena recuar um pouco. A Dencun, em março de 2024, introduziu o conceito de blob através do EIP-4844: um espaço de dados temporário, apagado ao fim de cerca de 18 dias, pensado especificamente para as L2 publicarem os lotes de transações de que precisam para provar a validade (ou permitir contestar a fraude) do que aconteceu fora da cadeia principal. Esse upgrade, isolado, cortou os custos de dados das L2 em mais de 90%, um dos saltos de eficiência mais citados da história recente da Ethereum.

A Pectra, em maio de 2025, trouxe o EIP-7691 e subiu o alvo de blobs de 3 para 6 e o máximo de 6 para 9. A Fusaka, ativada a 3 de dezembro de 2025, foi tecnicamente mais ambiciosa: introduziu o EIP-7594, conhecido como PeerDAS (amostragem de disponibilidade de dados entre pares), que permite a cada nó verificar que os dados de um blob estão disponíveis sem ter de descarregar o blob inteiro. Foi isto que tornou seguro, do ponto de vista da rede, aumentar o número de blobs sem multiplicar na mesma proporção a carga sobre cada validador individual.

ForkDataAlvo de blobsMáximo de blobsEIP principal
DencunMarço de 202436EIP-4844
PectraMaio de 202569EIP-7691
Fusaka3 de dezembro de 202569EIP-7594 (PeerDAS)
BPO19 de dezembro de 20251015EIP-7892
BPO27 de janeiro de 20261421EIP-7892 + EIP-7918

No total, entre a Fusaka e o BPO2, o espaço de blobs disponível por bloco passou de 6 e 9 para 14 e 21 em pouco mais de um mês, um ritmo de atualização que seria impensável para uma rede do tamanho da Ethereum antes de existir o mecanismo dos forks só parâmetros de blob, que é precisamente o assunto da próxima secção.

Fusaka, PeerDAS e os forks BPO: dobrar o espaço em semanas, não em anos

A peça que tornou possível esta cadência foi o EIP-7892, que formalizou o conceito de Blob Parameter Only Hardfork (BPO): em vez de coordenar um hard fork completo, com meses de testes e alterações de código em todos os clientes, a rede pode agora alterar apenas três parâmetros (o alvo de blobs, o máximo de blobs e a fração de atualização da taxa base de blob) através de um fork leve, agendado por um simples timestamp de ativação.

Na prática, isto significa que a Ethereum pode reagir à procura real por espaço de blobs em semanas, não em ciclos de upgrade inteiros. O BPO1 entrou em vigor a 9 de dezembro de 2025, poucos dias depois da própria Fusaka, subindo o alvo para 10 e o máximo para 15; o BPO2 seguiu-se a 7 de janeiro de 2026, com o alvo a subir para 14 e o máximo para 21. Duas subidas de capacidade em cinco semanas, sem exigir que os operadores de nós fizessem mais do que atualizar um ficheiro de configuração.

O mecanismo em si é elegante, mas não é gratuito: cada aumento de blobs por bloco exige mais largura de banda de upload por parte de quem constrói blocos, e é exatamente essa exigência de infraestrutura, não uma limitação de código, que está agora a travar o próximo passo do roteiro, como se vê na secção seguinte.

EIP-7918: porque as taxas de blob deixaram de estar coladas a zero

Desde a Dencun, o preço base de um blob esteve praticamente sempre colado ao mínimo técnico possível: 1 wei, ou 0,000000001 Gwei. Na prática, isto significava que as L2 estavam a obter verificação de provas KZG e capacidade de computação do L1 de forma quase gratuita, um desequilíbrio que vários investigadores da Ethereum já classificavam como uma falha de desenho, e não como uma vitória de eficiência.

Foi essa a leitura do analista independente Kydo (conhecido como 0xkydo), que resumiu o efeito do EIP-7918 numa publicação amplamente partilhada: «Desde a Fusaka, a taxa base de blob subiu 15.000.000 de vezes por causa deste EIP. Isso parece assustador, mas é, na verdade, uma correção. Desde o EIP-4844, a taxa base de blob esteve presa em 0,000000001 Gwei; o protocolo estava avariado e os rollups estavam, na prática, a receber computação e verificação KZG do L1 de graça», escreveu Kydo, sublinhando que o salto não se traduz numa subida de 15 milhões de vezes nas taxas pagas pelos utilizadores finais das L2, precisamente porque o valor de partida era, para efeitos práticos, zero.

Tecnicamente, o EIP-7918 liga o preço mínimo de um blob ao custo de execução no L1 (o custo real de verificar a prova KZG associada), em vez de o deixar flutuar livremente até quase zero sempre que a procura por blobs é baixa. É, na prática, um piso de preço com uma justificação de engenharia, não uma decisão arbitrária de subir taxas.

Uma análise da Fidelity Digital Assets Research ajuda a medir a dimensão do desequilíbrio anterior: em 93% dos dias desde a Dencun, a taxa ajustada pelo novo piso teria sido superior à taxa efetivamente observada no mercado, ou seja, os blobs estiveram sistematicamente subvalorizados durante quase dois anos seguidos. Nas contas da Fidelity, aplicar este piso desde a Dencun teria gerado uma receita adicional estimada em 78,6 milhões de dólares (cerca de 68,7 milhões de euros, ou 24.641 ETH); só entre a Pectra e a Fusaka, essa receita adicional ronda os 9,8 milhões de dólares (cerca de 8,6 milhões de euros, 3.037 ETH). O custo extra por blob sob o novo regime é estimado em cerca de 6,02 dólares (5,26 euros).

Porque o BPO3 está em pausa: o preço da velocidade extra

Depois de dois forks BPO em cinco semanas, seria natural esperar um terceiro pouco depois. Não aconteceu, e a razão é reveladora sobre os limites reais da compressão de taxas.

Uma análise da CryptoSlate, baseada em dados da MigaLabs e no painel do analista Hildobby no Dune, mostra que a taxa de blocos perdidos (blocos que não se propagam a tempo pela rede, aumentando o risco de reorganizações da cadeia) se mantém abaixo de 0,75% enquanto os blocos têm menos de 16 blobs, mas sobe de forma visível a partir daí, chegando a cerca de 1,79% no teto atual de 21 blobs. Ou seja: o hardware e a rede de propagação de blocos começam a mostrar sinais de esforço bem antes de se esgotar o limite teórico já aprovado.

A conclusão dos investigadores citados é direta: sem novos dados de telemetria a confirmar que a rede aguenta bem, de forma consistente, blocos com muitos blobs, e sem procura real a preencher sequer os 14 blobs já definidos como alvo, não há urgência, nem seria prudente, avançar já para um BPO3. É um lembrete útil: a compressão de taxas nas L2 não é apenas uma escolha de política monetária da Ethereum, está também limitada pela engenharia de rede que tem de aguentar, bloco a bloco, tudo o que se decide permitir.

Quanto custa usar uma L2 hoje

Depois de todo este roteiro técnico, a pergunta prática continua a ser simples: quanto custa, hoje, mover ativos ou interagir com uma aplicação numa L2 da Ethereum? A resposta, segundo os principais painéis de acompanhamento (L2BEAT, growthepie e a investigação da yellow.com Research), é: muito pouco, e a continuar a cair, ainda que já não em queda livre.

RedeTaxa mediana (transferência simples)Equivalente aproximado
Base≈0,02 dólares≈0,02 euros
OP Mainnet≈0,03 dólares≈0,03 euros
Arbitrum One≈0,04 dólares≈0,03 euros
Linea≈0,04 dólares≈0,03 euros
zkSync Era≈0,05 dólares≈0,04 euros
Scroll≈0,06 dólares≈0,05 euros

Olhando para a média de taxas das três maiores L2 por valor total bloqueado (Arbitrum, Base e Optimism), a queda desde o início de 2024 é ainda mais dramática: de 0,180219 dólares por transação no primeiro trimestre de 2024 para 0,001512 dólares no primeiro trimestre de 2026, uma redução de 99,16%, segundo dados compilados pela yellow.com Research. É esta estatística, mais do que qualquer tabela de taxas medianas, que resume o que a Dencun, a Pectra e a Fusaka já entregaram.

Em termos de valor total bloqueado, a Arbitrum One lidera com cerca de 17,46 mil milhões de dólares (perto de 15,3 mil milhões de euros) e a Base segue-se com cerca de 11,46 mil milhões de dólares (cerca de 10 mil milhões de euros), segundo dados em tempo real do L2BEAT à data de escrita; juntas, as duas maiores L2 já representam bem mais de metade do valor bloqueado em toda a camada de escalabilidade da Ethereum, que no total ultrapassa os 40 mil milhões de dólares espalhados por dezenas de rollups.

Vale notar que estas duas métricas, a taxa mediana de uma transferência simples e a taxa média entre as três maiores L2, medem coisas ligeiramente diferentes e não devem ser lidas como o mesmo número: a primeira reflete o custo de uma ação concreta e comum; a segunda é uma média que inclui toda a atividade registada nessas cadeias, incluindo interações mais complexas com contratos inteligentes. Ambas apontam, ainda assim, na mesma direção.

O paradoxo da Base: negócio recorde, taxas cada vez mais baratas

Se as taxas por transação estão tão baixas, como é que a Base, a L2 da Coinbase, se tornou o negócio mais rentável de todo o ecossistema de rollups? A resposta está no volume, não no preço unitário.

Segundo a investigação da yellow.com Research, a Base captura hoje a maior fatia de receita de sequenciador entre todas as L2 rastreadas, e é praticamente a única rollup consistentemente lucrativa em termos de operação; as três maiores L2 por TVL controlam, em conjunto, cerca de 80% de toda a receita de sequenciador rastreada no setor. É uma cifra notável para redes onde uma transferência simples custa, em média, poucos cêntimos: o truque está em multiplicar uma margem minúscula por um volume de transações imenso.

Esta dinâmica já vinha de trás. Uma análise da Blockworks mostra como os custos de publicação de dados da própria Base no L1 caíram de 9,34 milhões de dólares no primeiro trimestre de 2024 (cerca de 8,16 milhões de euros) para 699 mil dólares no trimestre seguinte e apenas 42 mil dólares no terceiro trimestre de 2024, logo a seguir à Dencun. Ou seja, o maior custo variável de correr uma L2, pagar à Ethereum pela disponibilidade de dados, praticamente desapareceu num único ano, o que ajuda a explicar como uma cadeia com taxas de poucos cêntimos consegue, ainda assim, gerar dezenas de milhões de euros de lucro líquido.

Nem sempre foi assim: em novembro de 2024, Jesse Pollak, o criador da Base na Coinbase, descartava por completo um token de rede, dizendo estar focado apenas em construir; menos de um ano depois, em setembro de 2025, no evento BaseCamp, o tom mudou. Segundo a CoinDesk, Pollak admitiu: «Vamos explorar um token de rede. Vou ser sincero convosco: ainda é cedo.» O desenho que tem circulado desde então equaciona libertar até 85% da receita de sequenciador para detentores ou stakers de um eventual token, transformando-o de um simples ativo de governação num ativo com direito a uma fatia real da receita da rede. Para quem acompanha a especulação em torno destes tokens de L2 nos mercados de derivados, esta é exatamente a narrativa que costuma mexer com o posicionamento em contratos perpétuos e futuros.

Quem fica com o valor: ETH, sequenciadores ou utilizadores

A outra face desta história é o que sobra para a própria Ethereum enquanto rede. Antes da Dencun, a receita anualizada de taxas da Ethereum ultrapassava regularmente os mil milhões de dólares, com meses de pico em 2023 acima dos 300 milhões de dólares num único mês, segundo a investigação da yellow.com. Depois da Dencun, essa receita mensal caiu entre 60% e 80% em poucos trimestres: a receita de taxas de blob que chega ao L1 anda muitas vezes na casa de um único dígito de ETH por dia, contra as centenas de ETH por dia que as L2 pagavam quando publicavam dados diretamente como calldata.

É este o debate de fundo por trás do EIP-7918: taxas mais baratas e menos transações diretas no L1 significam menos ETH queimado ao abrigo do EIP-1559, precisamente quando a Ethereum depende cada vez mais desse mecanismo para sustentar a tese de ativo com escassez programada. Um piso de preço para os blobs é, em parte, uma tentativa de travar essa erosão sem voltar a tornar as L2 caras para o utilizador final.

A isto soma-se uma segunda pressão, vinda de fora da própria Ethereum: a concorrência de camadas de disponibilidade de dados alternativas, como a Celestia ou a EigenDA. Segundo a mesma análise da Blockworks citada acima, quando as L2 da Ethereum pagavam 3,83 dólares por megabyte em blobs (cerca de 3,35 euros), a rollup Eclipse pagava apenas 0,07 dólares à Celestia pelo mesmo megabyte (cerca de 0,06 euros), uma diferença de 55 vezes. Nada obriga uma L2 a publicar os seus dados na Ethereum: pode escolher uma camada de disponibilidade de dados mais barata, ou mesmo um comité de disponibilidade de dados centralizado, com garantias de segurança bastante mais fracas.

Este ponto liga diretamente ao debate mais amplo sobre restaking e segurança económica partilhada que já explorámos em Restaking em 2026: rendimento extra na Ethereum e o olhar da CMVM, já que a EigenDA depende precisamente da segurança emprestada por operadores de restaking na própria Ethereum: é uma forma de a rede principal continuar a vender segurança a camadas de dados externas, mesmo quando perde a receita direta de blobs para essas mesmas camadas.

Glamsterdam e o roteiro «Lean Ethereum» até 2027

O próximo capítulo do roteiro técnico chama-se Glamsterdam. Era originalmente esperado para junho de 2026; à data de escrita, deslizou para o terceiro trimestre do ano, com uma probabilidade estimada entre 20% e 30% de escorregar ainda mais, para o quarto trimestre, segundo uma análise detalhada da SpotedCrypto. Ao contrário do que por vezes se lê, a Glamsterdam não sobe diretamente o limite de gas do L1; faz algo mais subtil, uma reformulação ampla do preço dos opcodes, tornando a computação mais barata e o acesso a estado (leituras e escritas de armazenamento) mais caro, o que desloca o peso dos custos para longe das chamadas de contrato simples.

  • EIP-7928, Block-level Access Lists (BALs): permite que um bloco declare antecipadamente que contas e posições de estado vai tocar, abrindo a porta à execução paralela de transações que não se sobrepõem, o que aumenta o débito efetivo do L1 sem alterar o limite de gas.
  • EIP-7732, ePBS, separação proposer-builder inscrita no próprio protocolo: remove a dependência de relays de MEV fora do protocolo, um dos pontos mais frágeis da configuração atual, e abre caminho a mais participação institucional no staking.

Para as L2, o efeito líquido esperado é uma continuação da compressão de custos de dados e uma execução mais eficiente no L1, mas isso agrava, em vez de resolver, a tensão de valor descrita na secção anterior: mais atividade a mudar-se para fora do L1 significa, tudo o resto constante, menos ETH queimado.

Nos últimos meses, o cofundador da Ethereum tornou público, segundo a CoinDesk, um roteiro plurianual que tornaria o armazenamento de longo prazo mais caro para abrir espaço a mais processamento de transações do dia a dia, e que inclui trabalho para redesenhar os blobs de forma a resistirem a computação quântica, uma prioridade que o próprio Vitalik Buterin descreveu como tendo subido muito na lista de urgências nos últimos tempos.

Mas Buterin também tem sido cáustico sobre L2s que se limitam a copiar a EVM sem acrescentar nada de próprio. Numa publicação no X a 5 de fevereiro de 2026, resumiu assim a sua irritação: «Não precisamos de mais cadeias EVM copypasta», escreveu, comparando o exercício de lançar mais uma cadeia EVM com uma ponte otimista de uma semana de atraso a copiar a governação da Compound sem inovar, segundo a CoinDesk. A ideia de fundo é simples e desconfortável para muitas L2: se o L1 ficar suficientemente rápido e barato, o argumento original para a existência de dezenas de rollups quase idênticos começa a esvaziar-se.

Cenários de previsão para o resto de 2026 e para 2027

Juntando o roteiro técnico à dinâmica de mercado, valem a pena três cenários de trabalho, nenhum deles apontando para o regresso de taxas altas nas L2 da Ethereum, mas cada um com implicações bem diferentes para quem depende destas redes.

CenárioPrincipal motorO que acontece às taxasPrincipal risco
ConservadorBPO3 e BPO4 continuam paradosTaxas estabilizam perto dos níveis atuais; nova queda vem só da eficiência de execuçãoEstagnação se a procura disparar sem aviso
CentralBPO3 aprovado ainda em 2026 e Glamsterdam entra em produçãoNova compressão moderada, sobretudo do lado da execuçãoAtrasos habituais de coordenação entre clientes
AgressivoProcura por blobs dispara e mais dados saem para Celestia ou EigenDAPreço do blob sobe em direção ao piso do EIP-7918 em picos, mesmo com taxas medianas baixasSubida da taxa de blocos perdidos e risco de reorganização

Como já detalhámos em Compressão das taxas nas L2: previsão para 2026 e 2027, a diferença entre estes três caminhos não está em saber se as taxas continuam baixas, isso já parece garantido, mas na velocidade da próxima queda e, sobretudo, em quem vai pagar a conta da segurança da rede principal enquanto isso não acontece.

O que isto significa na prática para utilizadores e criadores portugueses

Para quem usa DeFi, jogos on-chain ou paga por coleções de NFTs a partir de Portugal, o efeito prático de tudo isto já é visível: mover 50 euros em stablecoins numa L2 como a Base ou a Arbitrum custa hoje uma fração de cêntimo, não os vários euros que uma transação em Ethereum L1 ainda pode custar em períodos de congestionamento. Isso torna viáveis casos de uso que simplesmente não faziam sentido económico há dois ou três anos: micropagamentos dentro de jogos, subscrições geridas on-chain, ou até simples transferências recorrentes entre carteiras próprias.

O reverso da moeda é que escolher uma L2 deixou de ser só sobre taxa: passa a ser sobre onde os dados dessa L2 estão realmente a ser publicados (Ethereum, Celestia, EigenDA ou um comité centralizado), e sobre que garantias de segurança e de saída, prova de fraude no caso dos rollups otimistas, ou prova de validade no caso dos rollups baseados em ZK, essa escolha implica se algo correr mal. Para a maioria dos utilizadores de retalho, essa informação simplesmente não aparece em lado nenhum na interface de uma exchange ou de uma carteira, o que desloca para o utilizador um risco que ele normalmente não tem forma de avaliar.

Para criadores e pequenos estúdios, sobretudo no espaço de jogos on-chain e coleções digitais, a compressão de taxas significa também poder desenhar modelos de negócio baseados em muitas transações pequenas (recompensas, itens, conquistas registadas on-chain) que seriam impensáveis com as taxas de 2021 ou 2022, quando uma simples cunhagem de NFT podia custar mais do que o próprio item.

CMVM, MiCA e o fim do regime transitório: o que muda para quem usa L2

Do lado regulatório, Portugal fechou um capítulo relevante há muito pouco tempo: o regime transitório previsto no MiCA (Regulamento (UE) 2023/1114), transposto pela Lei n.º 69/2025, terminou a 1 de julho de 2026, segundo a análise da CMS Portugal. A partir dessa data, qualquer prestador de serviços de criptoativos a operar no país precisa de autorização MiCA, ou de outro fundamento legal válido, para continuar a operar; fazê-lo sem autorização passa a constituir contraordenação muito grave, com coimas e medidas cautelares que podem incluir a suspensão ou o encerramento preventivo do estabelecimento.

A divisão de tarefas mantém-se: o Banco de Portugal autoriza e regista os prestadores de serviços de criptoativos, enquanto a CMVM fica com a supervisão comportamental do mercado, prevenção de abusos, tratamento de reclamações e gestão de conflitos entre entidades e consumidores. Nenhuma destas competências incide diretamente sobre o número de blobs por bloco ou sobre o EIP-7918, claro, mas incide diretamente sobre as exchanges e carteiras que dão aos portugueses acesso às L2 onde esses blobs acabam por ser usados: se uma plataforma lista um ativo que corre sobre uma L2 com garantias de segurança fracas, a supervisão comportamental da CMVM sobre abuso de mercado aplica-se da mesma forma, independentemente da camada de disponibilidade de dados escolhida por essa L2.

Para o utilizador comum, a mensagem prática é simples: o fim do regime transitório não muda o custo de uma transação numa L2, mas muda quem está autorizado a servir esse utilizador em Portugal, e com que obrigações de conduta, transparência e tratamento de reclamações.

Os riscos que podem travar (ou inverter) a compressão

Nem tudo neste roteiro aponta, de forma linear, para taxas cada vez mais baixas. Vale a pena isolar os principais riscos.

  • Risco de rede: se a procura por blobs disparar antes de a taxa de blocos perdidos normalizar acima dos 16 blobs por bloco, a Ethereum pode preferir atrasar novos BPOs em vez de arriscar mais reorganizações da cadeia, travando a compressão que viria de mais capacidade.
  • Risco de centralização do sequenciador: a esmagadora maioria das L2 continua a depender de um único sequenciador centralizado para ordenar transações; uma falha técnica ou um comportamento malicioso nesse ponto único não desaparece só porque a taxa por transação é baixa, um tema que já explorámos em detalhe em Autópsias de protocolos: o post-mortem como ritual da cripto.
  • Risco de fuga de procura: se a diferença de custo face à Celestia ou à EigenDA persistir ou aumentar, mais rollups podem preferir publicar dados fora da Ethereum, reduzindo ainda mais a receita de blobs do L1 sem que isso apareça nas taxas pagas pelo utilizador final.
  • Risco de execução do roteiro: tanto o BPO3 como a Glamsterdam dependem de coordenação entre múltiplas equipas de cliente independentes; atrasos têm sido a norma, não a exceção, no historial recente da Ethereum.

Nenhum destes riscos aponta, isoladamente, para uma reversão da tendência de fundo: as L2 da Ethereum estão, e provavelmente vão continuar, muito mais baratas do que em 2024. Mas todos eles sugerem que a próxima fase da compressão de taxas vai depender menos de mais blobs e mais de decisões de engenharia de rede, de concorrência entre camadas de disponibilidade de dados e, cada vez mais, de regulação.

Perguntas frequentes

O que é a compressão de taxas nas L2 da Ethereum?

É a queda continuada no custo médio de usar redes L2 como a Arbitrum, a Base, a Optimism ou a zkSync Era, resultado direto de sucessivas atualizações da Ethereum (Dencun, Pectra, Fusaka e os forks BPO) que tornaram muito mais barato publicar os dados de transações da L2 na cadeia principal através de blobs. Entre o início de 2024 e o início de 2026, a taxa média das três maiores L2 caiu mais de 99%.

Porque é que as taxas das L2 continuam a cair em 2026?

Sobretudo por causa do espaço extra de blobs aberto pelos forks BPO1 e BPO2, que subiram o alvo de blobs por bloco de 6 para 14 (e o máximo de 9 para 21) entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, e por melhorias contínuas de eficiência na execução das próprias L2. A procura por esse espaço extra continua, no entanto, abaixo da capacidade já disponível.

As taxas das L2 podem chegar a zero?

É pouco provável. O EIP-7918, ativado com a Fusaka, criou um piso técnico para o preço dos blobs, ligado ao custo real de execução no L1, precisamente para impedir que caiam para perto de zero de forma permanente. A partir de agora, nova compressão depende mais de eficiência de execução e de margens dos sequenciadores do que de mais oferta de blobs.

O que é o EIP-7918 e como mudou o mercado de blobs?

É a alteração que liga o preço mínimo de um blob ao custo de execução no L1, corrigindo uma situação em que, desde 2024, esse preço esteve praticamente sempre colado ao mínimo técnico possível. O efeito imediato foi uma subida da taxa base de blob da ordem dos 15 milhões de vezes, mas a partir de um valor tão próximo de zero que o impacto direto nas taxas pagas pelos utilizadores das L2 foi mínimo.

O que significa a compressão de taxas para o valor do ETH e dos tokens das L2?

Cria uma tensão real: taxas mais baixas e menos transações diretas no L1 significam menos ETH queimado ao abrigo do EIP-1559, o que pressiona a tese de escassez do ETH. Ao mesmo tempo, L2s como a Base já exploram tokens próprios para capturar diretamente receita de sequenciador, uma forma alternativa de acumular valor que não depende das taxas cobradas ao utilizador final.

Por Redação HOGE Wire.

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