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● Markets

Funding dos perpétuos: a taxa que ancora o mercado cripto

O funding mantém os perpétuos colados ao spot. Explicamos as fórmulas por exchange, o episódio negativo de 2026 e as novas regras da ESMA.

Quem negoceia contratos perpétuos paga ou recebe uma pequena taxa a cada poucas horas, mesmo sem tocar em nada. Essa taxa chama-se funding e é o mecanismo que impede um contrato sem data de vencimento de se desligar do preço à vista do ativo que replica. Em 2026 esse mecanismo ficou particularmente visível: o funding do bitcoin passou grande parte do primeiro semestre em território negativo, a série mais longa desde o colapso da FTX em novembro de 2022.

Este artigo dissecta a fórmula exata usada por cada exchange, o que aconteceu ao mercado nos primeiros meses de 2026, como se pode transformar o funding numa estratégia de rendimento e o que a ESMA veio esclarecer em fevereiro sobre a forma como estes produtos são regulados na União Europeia. Já tínhamos abordado os fundamentos do tema neste artigo anterior; aqui aprofunda-se a mecânica, exchange a exchange, e o contexto regulatório mais recente.

O que é o funding e porque existe

Um contrato perpétuo (perpetual future ou perpetual swap) replica a exposição ao preço de um ativo, por exemplo o Bitcoin ou o Ethereum, sem nunca expirar e sem liquidação física. Isso resolve um problema prático (não há necessidade de rolar posições de contrato em contrato, como acontece nos futuros tradicionais da CME), mas cria outro: sem uma data de vencimento que force a convergência entre o preço do contrato e o preço à vista, nada impede o perpétuo de derivar indefinidamente para longe do spot.

A solução, inventada pela BitMEX em maio de 2016, foi o funding: um pagamento periódico trocado diretamente entre quem está comprado (long) e quem está vendido (short), sem passar pela exchange. Quando o perpétuo negoceia acima do preço à vista, os longs pagam aos shorts; quando negoceia abaixo, são os shorts que pagam aos longs. Esse custo, ou receita, extra é o que mantém o incentivo económico para arbitrar o contrato de volta para perto do spot.

«Perguntávamo-nos rotineiramente se havia uma forma de criar um produto sem vencimento, para concentrarmos a liquidez num único contrato.»

Arthur Hayes, cofundador da BitMEX, em Adapt or Die

Hayes explica o mecanismo com um exemplo simples: se o perpétuo negociasse, em média, com um prémio de 1% face ao preço à vista nas últimas oito horas, quem mantivesse uma posição comprada no momento da liquidação do funding pagaria esse 1% a quem estivesse vendido. É importante perceber que este pagamento não é uma comissão da exchange: é uma transferência direta entre traders, ponto a ponto (peer to peer), redistribuída proporcionalmente ao tamanho de cada posição.

Futuros com vencimento vs. perpétuos: a mecânica que muda tudo

Nos futuros tradicionais, como os contratos de bitcoin negociados na CME, a convergência com o preço à vista acontece de forma automática: no vencimento, o contrato é liquidado em numerário face a uma referência de preço à vista (a CF Bitcoin Reference Rate, no caso da CME), e a diferença entre o preço do futuro e o spot, a chamada base, desaparece por definição.

O perpétuo não tem esse luxo. A ideia de um futuro sem vencimento nem é nova: o economista Robert Shiller descreveu, num artigo académico de 1993, um contrato perpétuo em que os pagamentos de juro entre longs e shorts seriam determinados por uma fonte de preço exógena. Só que, como o próprio Hayes reconhece, o que a BitMEX construiu tomou emprestado elementos de mercados de câmbio e de plataformas de empréstimo peer to peer, aplicando-os pela primeira vez a um contrato de bitcoin.

O resultado é um instrumento híbrido: comporta-se como trading com margem, sem data para fechar a posição, mas usa uma fórmula de funding, e não a convergência natural do vencimento, para manter o preço ancorado. É essa fórmula que se detalha a seguir.

A fórmula: taxa de juro mais índice de prémio

Apesar das variações entre exchanges, a generalidade das fórmulas de funding partilha a mesma estrutura, popularizada pela documentação da Binance e replicada, com pequenos ajustes, por praticamente todo o setor: o funding rate é a soma de um índice de prémio com uma componente de taxa de juro, sujeita a um limite (clamp).

  • Índice de prémio: mede a diferença entre o preço de impacto do livro de ordens do perpétuo (impact bid/ask) e o preço de referência (index price), normalmente uma média ponderada do preço à vista em várias exchanges.
  • Taxa de juro: uma componente fixa, definida pela exchange, que replica o custo teórico de financiamento entre deter a cripto e deter dinheiro; na maioria das plataformas ronda 0,01% por período de oito horas.
  • Clamp (limite): uma banda que absorve pequenas divergências entre as duas componentes, para que prémios insignificantes não gerem funding em todas as sessões.

Na prática, isto significa que o funding raramente reflete apenas o custo de financiamento; a maior parte do movimento vem do índice de prémio, ou seja, de quanto o perpétuo está a negociar acima ou abaixo do índice de preço à vista. Quando há mais procura por posições compradas alavancadas do que vendidas, o perpétuo tende a negociar ligeiramente acima do spot, o prémio sobe, e o funding torna-se positivo.

A liquidação do funding não acontece de forma instantânea no momento da marca temporal: a generalidade das exchanges usa uma média ponderada no tempo (TWAP) do índice de prémio ao longo de todo o período anterior, precisamente para impedir que alguém manipule o preço nos segundos antes da liquidação e force um funding artificialmente alto ou baixo.

Como cada exchange calcula o funding

Não existe um standard único. Cada plataforma afina os seus próprios parâmetros, o intervalo de liquidação, a largura da banda de amortecimento e o limite máximo, o que faz do funding um mecanismo com a mesma lógica mas resultados diferentes consoante a exchange escolhida.

ExchangeFrequênciaComponente de juroAmortecimento / limite
Binance8 em 8 horas0,01% por período (fixo, salvo exceções como ETHBTC)Clamp de ±0,05% entre juro e prémio
Bybit8 em 8 horas0,01% por período, atualizado ao minuto (TWAP)Clamp de ±0,05%; bandas alargadas em mercados muito voláteis
OKX8 em 8 horas (passa a 1 hora se o limite for atingido)0,01% por período de 8 horasMédia ponderada móvel desde a revisão de abril de 2025; clamp de ±0,05%
DeribitContínua, expressa em base de 8 horasImplícita no prémio (sem componente separada)Banda morta de ±0,025%; limite de ±0,5% (BTC) e ±1% (ETH)
Hyperliquid1 em 1 hora0,01% por 8 horas (0,00125%/hora, cerca de 11,6% ao ano, pago aos shorts)Limite extremo de 4% por hora (circuit breaker)
dYdX v41 em 1 hora0,125 pontos base por hora (cerca de 1 pb por 8 horas), ajustável por governançaLimite de 8 horas ligado à margem de manutenção (cerca de 12% para o BTC)

As fontes primárias, a documentação da Deribit e a documentação da Hyperliquid, detalham estas fórmulas com o mesmo grau de abertura que um repositório de código: a Hyperliquid, por exemplo, publica a fórmula completa, incluindo a forma como o prémio é amostrado a cada cinco segundos e depois calculada a média ao longo da hora.

Um pormenor que gera confusão: a Deribit não tem uma componente de juro explícita, o prémio é amortecido diretamente e depois sujeito ao limite máximo. Já a dYdX, por ser uma chain com governança on-chain, permite literalmente votar a alteração destes parâmetros, algo impensável numa exchange centralizada.

Frequência de liquidação: uma hora ou oito horas?

A frequência com que o funding é cobrado não é um detalhe menor. Um ciclo de uma hora, como o da Hyperliquid ou da dYdX, gera pagamentos mais pequenos mas mais frequentes, o que mantém o preço do perpétuo mais colado ao spot em permanência. Um ciclo de oito horas, como o da Binance, Bybit ou OKX, permite que o prémio se acumule mais tempo entre liquidações, o que pode produzir saltos maiores em cada pagamento.

Esta diferença de desenho tem consequências reais. Segundo o relatório de derivados do segundo trimestre de 2026 da BitMEX, assinado pelo analista sénior Shang Wu, o spread entre o contrato inverso XBTUSD e o linear XBTUSDT da própria BitMEX ficou, em média, em -3,93% e negativo em 94% de todas as janelas móveis de 90 dias analisadas em 2026, prova de como até dois contratos do mesmo ativo, na mesma exchange, podem ter perfis de funding sistematicamente diferentes consoante a forma como são desenhados.

Mais relevante ainda: o mesmo relatório mostra que a Hyperliquid paga, em média, cerca de 7,17 pontos percentuais mais de funding anualizado do que a Binance em bitcoin, e cerca de 5,31 pontos percentuais mais em ether, um viés que se manteve consistente em mais de 90% dos dias analisados. Isto sugere que a cadência horária e o desenho on-chain da Hyperliquid não tornam o funding mais barato, tornam-no mais reativo, o que nem sempre é a mesma coisa.

Funding positivo vs. negativo: quem paga a quem

O sinal do funding conta uma história sobre o posicionamento do mercado, não sobre o valor justo do ativo. Funding positivo significa que o perpétuo negoceia acima do índice de preço à vista: há mais procura por exposição comprada alavancada do que vendida, e os longs pagam aos shorts para manter as suas posições. É o estado mais comum durante fases de otimismo generalizado.

Funding negativo é o espelho: o perpétuo negoceia abaixo do spot, os shorts pagam aos longs, e o sinal é de posicionamento vendido dominante, seja por cobertura (hedging), seja por apostas direcionais de queda. Períodos prolongados de funding negativo tendem a coincidir com fases de medo ou de capitulação, embora, como se verá adiante, isso não signifique automaticamente que o preço vá subir a curto prazo.

Há ainda um terceiro estado, o funding neutro ou próximo de zero, que reflete um mercado equilibrado entre compradores e vendedores alavancados, ou simplesmente baixa atividade especulativa. Traders experientes olham menos para o valor absoluto do funding num dado momento e mais para a sua tendência ao longo de dias ou semanas, e para o open interest, os contratos em aberto, que o acompanha: funding a subir com open interest a subir é diferente de funding a subir com open interest estagnado.

Quando o funding fica extremo: sobreaquecimento e pânico

Picos extremos de funding, positivos ou negativos, são normalmente lidos como sinais de posicionamento excessivamente unilateral, e por isso propensos a reversões bruscas (short squeezes ou long squeezes). Em janeiro de 2026, por exemplo, com o bitcoin a testar os 100 mil dólares, analistas da QCP Capital notaram que o funding perpétuo do bitcoin na Deribit tinha disparado para lá de um equivalente anualizado de 30%, sinal, escreveram, de que os market makers estavam short gamma face à subida, o que os obrigava a comprar mais à medida que o preço avançava, amplificando o movimento.

Vale a pena ter uma referência para o que é «normal»: com uma componente de juro típica de 0,01% por período de oito horas, o funding de base, sem qualquer prémio, já anualiza para perto de 11%. Qualquer leitura muito acima ou muito abaixo dessa referência reflete posicionamento real, e não apenas o custo de financiamento embutido na fórmula.

O contrário também se verifica: quando o funding cai para valores fortemente negativos durante semanas seguidas, isso tende a indicar um mercado inclinado para o lado vendido, por vezes de forma excessiva. Foi exatamente isso que aconteceu ao bitcoin ao longo de boa parte de 2026, como se detalha a seguir.

Estudo de caso: o funding negativo prolongado de 2026

O bitcoin atingiu um máximo histórico de 126.198 dólares a 6 de outubro de 2025, segundo a Forbes, impulsionado por entradas fortes nos ETF à vista e por um dólar mais fraco. A partir daí, o preço entrou numa correção prolongada que se estendeu pelo primeiro semestre de 2026.

No final de fevereiro de 2026, com o bitcoin a recuar para perto dos 63 mil dólares depois de já ter tocado os 60 mil dólares a 6 de fevereiro, o funding caiu para cerca de -6%, o nível mais negativo em três meses, segundo dados da CoinGlass citados pela CoinDesk. O detalhe mais interessante não foi a queda em si, mas o facto de o open interest em contratos com margem em cripto ter subido de 668 mil para 687 mil BTC nas 24 horas seguintes: eram posições vendidas novas a entrar, não apenas posições antigas a resistir. Nesse mesmo período, mais de 500 milhões de dólares foram liquidados em 24 horas, dos quais mais de 420 milhões em posições compradas.

O funding do bitcoin manteve-se maioritariamente negativo desde então, a série mais longa desde o colapso da FTX em novembro de 2022, quando o preço tocou perto de 15.500 dólares e o funding passou cerca de 50 dias em território negativo antes de o lado vendido capitular e o preço recuperar para perto de 23.000 dólares até finais de janeiro de 2023, segundo dados compilados pela Phemex. É um padrão histórico conhecido: funding negativo prolongado tende a preceder recuperações, mas o intervalo de tempo até isso acontecer pode ser medido em semanas ou meses, não em dias.

Em julho de 2026, o quadro mantém-se frágil: o bitcoin chegou a negociar abaixo dos 60 mil dólares a 1 de julho, o nível mais baixo em quase dois anos, antes de recuperar para perto dos 63 mil dólares, cerca de 55 mil euros ao câmbio atual, nos dias seguintes. Este pano de fundo de funding cronicamente negativo ajuda a explicar por que razão o posicionamento em derivados se tornou, em 2026, uma das leituras de sentimento mais seguidas pelos traders, ao lado do open interest e da própria base dos futuros.

PeríodoSinal de fundingContexto
Novembro de 2022Negativo durante cerca de 50 diasColapso da FTX; bitcoin perto dos 15.500 dólares
Janeiro de 2026Acima de um equivalente anualizado de 30% (Deribit)Bitcoin a testar os 100 mil dólares; dealers short gamma
6 de fevereiro de 2026NegativoBitcoin perto dos 60 mil dólares
28 de fevereiro de 2026Cerca de -6%Mínimo de três meses; mais de 500 milhões de dólares em liquidações em 24h
Julho de 2026Persistentemente negativoBitcoin entre os 60 mil e os 63 mil dólares

Estratégias: cash-and-carry, delta-neutral e o caso Ethena

O funding não é apenas um indicador de sentimento, é também uma fonte de rendimento. A estratégia mais comum, conhecida como funding rate arbitrage ou farming, consiste em deter o ativo à vista, ou uma posição comprada equivalente, e abrir, em simultâneo, uma posição vendida no perpétuo de tamanho igual. A exposição direcional ao preço anula-se, daí o termo delta-neutral, e o que resta é o fluxo de funding, recebido sempre que este é positivo.

É a mesma lógica do cash-and-carry, mas aplicada de forma contínua em vez de um único desconto capturado no vencimento; no jargão do setor, esta família de operações costuma ser agrupada sob o nome «crypto carry».

O exemplo mais visível à escala é a Ethena: o seu dólar sintético USDe é garantido por colateral em ETH e staked ETH coberto por uma posição vendida de igual valor nocional em perpétuos, e o rendimento distribuído a quem faz stake em sUSDe vem da combinação do yield de staking com o funding, e a base, capturados nessa perna vendida. Segundo dados citados pela Forbes, ao longo de três anos o funding somado foi negativo em cerca de 17,5% dos dias, com a sequência negativa mais longa a rondar os 13 dias, e o USDe chegou a descolar para 0,97 dólares a 10 de outubro de 2025, durante uma queda súbita e generalizada do mercado.

Esta arquitetura de rendimento sintético não é exclusiva dos dólares estáveis: partilha ADN com os produtos de restaking que já analisámos anteriormente, no sentido em que ambos empacotam um fluxo de rendimento nativo da cripto, funding, neste caso, recompensas de validação e de segurança partilhada, no caso do restaking, num token que parece, à superfície, mais simples do que a estratégia subjacente. Em ambos os casos, o risco de cauda está escondido na correlação: se o mercado cair a pique e o funding virar negativo ao mesmo tempo que a liquidez de cobertura seca, o rendimento transforma-se em custo.

Funding vs. base de futuros: duas métricas, uma só história

Funding e base de futuros medem, no fundo, a mesma força de mercado, a disposição para pagar um prémio por exposição alavancada, apenas com relógios diferentes. Já dedicámos um artigo inteiro à base dos futuros de bitcoin: a base dos futuros com vencimento, como os da CME, é uma taxa anualizada que converge para zero à medida que se aproxima a data de liquidação; o funding dos perpétuos é essa mesma lógica sem data de convergência, reavaliada a cada hora ou a cada oito horas, para sempre.

Quando as duas métricas divergem, por exemplo um funding perpétuo muito aquecido numa exchange cripto-nativa enquanto a base dos futuros da CME está comprimida, essa divergência transforma-se, ela própria, numa oportunidade de arbitragem entre plataformas, e é por isso que profissionais do setor costumam ler em conjunto o open interest, a base e o funding, e não isoladamente.

Uma diferença estrutural que vale a pena reter: nos futuros da CME não existe funding nenhum. A convergência com o spot é garantida pela própria mecânica do contrato datado; o preço do futuro e o preço à vista fundem-se automaticamente no vencimento, sem qualquer pagamento periódico entre as partes.

Perpétuos on-chain: Hyperliquid, dYdX e a pressão sobre as centralizadas

A fatia dos perpétuos negociados on-chain, fora das exchanges centralizadas tradicionais, cresceu de forma acentuada em 2026. A Hyperliquid tornou-se a plataforma claramente dominante entre as descentralizadas, à frente da dYdX e de outras alternativas, e passou a disputar diretamente open interest com exchanges centralizadas de topo como a Binance, a Bybit e a OKX.

Essa arquitetura on-chain tem implicações diretas no funding. Como referido, a Hyperliquid usa um ciclo horário e um preço de oráculo, uma agregação de várias exchanges à vista, em vez do mark price interno de uma única plataforma para calcular tanto o prémio como o valor nocional de cada pagamento, o que a torna estruturalmente mais sensível a desequilíbrios de posicionamento do que uma exchange centralizada com ciclos de oito horas.

A dYdX v4 segue uma lógica parecida, mas acrescenta uma camada que nenhuma exchange centralizada oferece: governança. Os parâmetros do funding, o fator de amortecimento, a componente de juro, a duração de cada época, podem, em teoria, ser alterados por votação da comunidade, um desenho radicalmente mais transparente do que a atualização unilateral que, por exemplo, a OKX fez à sua fórmula em três lotes ao longo de abril de 2025.

Para as estratégias de funding farming descritas acima, esta transparência tem um efeito prático: negociar e reequilibrar posições numa infraestrutura on-chain implica custos de execução, gas e slippage, que só se tornaram competitivos com os das exchanges centralizadas à medida que a infraestrutura subjacente foi baixando as suas próprias taxas nos últimos anos.

Enquadramento regulatório: ESMA, MiFID II e a CMVM

A 24 de fevereiro de 2026, a ESMA (European Securities and Markets Authority) publicou uma declaração pública a lembrar às empresas que o nome comercial «perpetual futures» é irrelevante para efeitos de classificação legal: sempre que um derivado destes ofereça exposição alavancada a um ativo subjacente, incluindo criptoativos como o bitcoin, é provável que caia no âmbito das medidas de intervenção de produto sobre CFD já em vigor ao abrigo da DMIF II (MiFID II).

Na prática, isto implica limites de alavancagem, aviso de risco obrigatório, a regra do fecho de posição por perda de margem (margin close-out), proteção contra saldo negativo e a proibição de incentivos comerciais para a angariação de clientes. Para criptoativos, o limite de alavancagem para investidores não profissionais mantém-se em 2:1, o mesmo que a ESMA já tinha fixado em 2018 para CFD sobre cripto, muito abaixo dos 30:1 permitidos para pares de câmbio principais.

Para um investidor português, a novidade da declaração de fevereiro é mais uma clarificação do que uma mudança de regras: a CMVM já tinha tornado permanentes, através de regulamento próprio, as medidas de intervenção de produto da ESMA para CFD, incluindo o limite de 2:1 para cripto, e entre 74% e 89% dos investidores não profissionais perdem dinheiro a negociar CFD em diferentes mercados da UE, segundo dados compilados pelo Jornal Económico. O que a ESMA fecha é a brecha de quem argumentava que, por se chamar «perpétuo» e não «CFD», o produto escaparia a estas regras.

Vale sublinhar a distinção que já se aplica a todo este universo: os perpétuos e outros derivados de cripto são instrumentos financeiros ao abrigo da DMIF II, supervisionados pela CMVM enquanto autoridade de conduta de mercado; não são criptoativos ao abrigo do MiCA, que regula os mercados à vista e os prestadores de serviços de criptoativos (CASP), cujo período transitório em Portugal terminou a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.o 69/2025. Um residente em Portugal que negoceie perpétuos com alavancagem de 20x, 50x ou mais numa plataforma sem qualquer entidade autorizada na UE está, na prática, fora deste perímetro de proteção ao investidor, seja qual for o nome que a plataforma dá ao produto.

Ferramentas para acompanhar o funding em tempo real

Para quem quer acompanhar o funding sem depender de capturas de ecrã de terceiros, existem hoje várias fontes de dados agregados, gratuitas na sua maioria, cobrindo dezenas de exchanges em simultâneo.

FerramentaO que mostra
CoinGlassFunding em tempo real e histórico por exchange e por par, mapas de calor de posicionamento e liquidações
The Block DataSéries históricas de funding do bitcoin nas principais exchanges, com contexto editorial
CryptoQuantFunding agregado cruzado com métricas on-chain (exchange flows, open interest)
CoinalyzeGráficos de funding por contrato individual, por exemplo o BTC-PERPETUAL da Deribit
Páginas nativas das exchangesHistórico oficial de funding de cada plataforma, incluindo páginas de comparação entre exchanges

Nenhuma destas ferramentas substitui a leitura em conjunto: um número isolado de funding diz pouco sem o contexto do open interest, da direção do preço nas horas anteriores e do que está a acontecer nos futuros com vencimento em paralelo.

Riscos práticos para quem negoceia perpétuos

O funding é um custo, ou receita, recorrente que se acumula ao longo do tempo em que uma posição fica aberta. Uma tese direcional pode estar certa e, ainda assim, perder valor lentamente para o funding se a posição for mantida durante demasiado tempo contra o consenso do mercado; isto é especialmente relevante em posições alavancadas, onde o funding pesa proporcionalmente mais sobre a margem colocada do que sobre o valor nocional total.

  • O funding projetado pode inverter-se de um período para o outro; nenhuma exchange garante a continuidade de uma taxa favorável.
  • Estratégias delta-neutral de funding farming não são isentas de risco: dependem da solvência e da liquidez da contraparte, a exchange ou o protocolo onde a perna vendida está aberta.
  • Produtos on-chain acrescentam risco de contrato inteligente e, como mostrou o caso do USDe em outubro de 2025, risco de descolagem temporária do peg em choques de mercado generalizados.
  • Plataformas sem entidade autorizada na UE não oferecem proteção contra saldo negativo nem fecho automático de posição por perda de margem.

Há ainda um paralelo que vale a pena fazer com a cultura de autópsias de protocolos que já documentámos noutros artigos: quando uma estratégia de funding farming ou um produto sintético colapsa, raramente é por a fórmula do funding estar errada, é quase sempre por alavancagem excessiva sobreposta a um choque de liquidez que ninguém tinha testado. A fórmula, no papel, funciona sempre; o que falha é a gestão do risco à sua volta.

Uma prática simples reduz boa parte deste risco: verificar não só o funding atual mas também o funding previsto para o próximo período, a maioria das exchanges publica-o, e incorporar o custo esperado de manter a posição na decisão de quanto tempo a manter, e não apenas no preço de entrada.

Perguntas Frequentes

O que é a taxa de funding num contrato perpétuo?

É um pagamento periódico trocado diretamente entre traders comprados (longs) e vendidos (shorts) num contrato perpétuo. Substitui o mecanismo de convergência que, nos futuros tradicionais, é garantido pela data de vencimento, mantendo o preço do perpétuo próximo do preço à vista do ativo subjacente.

Quem paga o funding, os longs ou os shorts?

Depende do sinal da taxa. Quando o funding é positivo, o perpétuo negoceia acima do preço à vista e os longs pagam aos shorts. Quando é negativo, o perpétuo negoceia abaixo do spot e são os shorts que pagam aos longs. O pagamento é proporcional ao tamanho nocional de cada posição.

Com que frequência é cobrado o funding?

Varia por exchange. A Binance, a Bybit, a OKX e a Deribit liquidam de oito em oito horas, embora a OKX passe a hora a hora se um limite for atingido. Plataformas on-chain como a Hyperliquid e a dYdX v4 liquidam de hora a hora, gerando pagamentos mais pequenos mas mais frequentes.

Um funding negativo prolongado é sinal para comprar?

Historicamente, séries longas de funding negativo, como a de cerca de 50 dias após o colapso da FTX em 2022, ou a registada ao longo de boa parte de 2026, tendem a preceder recuperações de preço, porque refletem um posicionamento vendido excessivo. Não é, contudo, um sinal de entrada automático: o intervalo até uma eventual reversão pode alargar-se por semanas ou meses.

Os contratos perpétuos estão sujeitos ao regime MiCA em Portugal?

Não. Perpétuos e outros derivados de cripto são instrumentos financeiros ao abrigo da DMIF II (MiFID II), supervisionados pela CMVM enquanto autoridade de conduta, com limites de alavancagem de 2:1 para investidores não profissionais. O MiCA regula os criptoativos à vista e os prestadores de serviços de criptoativos (CASP), um perímetro diferente, também supervisionado pelo Banco de Portugal.

Escrito pela redação da HOGE Wire.

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