Restaking em 2026: o colapso do TVL e o novo mapa do setor
O restaking perdeu grande parte do TVL depois do hack à Kelp DAO e à Aave em abril. Explicamos o colapso, a recuperação e o que muda com o fim do período transitório do MiCA.
O restaking passou, em pouco mais de dois anos, de conceito experimental a um dos maiores setores do DeFi, e depois a um estudo de caso sobre os limites de empilhar demasiada complexidade financeira sobre a mesma garantia. A ideia de base continua sedutora: pegar em ETH já apostado na rede Ethereum, ou num token que o representa, e voltar a colocá-lo a proteger outros serviços, ganhando uma segunda fonte de rendimento sobre o mesmo capital. Em meados de 2026, depois de um pico de valor bloqueado próximo dos 18 mil milhões de dólares e do maior hack de DeFi do ano, essa promessa revela-se bem mais complicada do que parecia em 2023.
Este artigo faz o balanço do setor a meio de 2026: como o restaking cresceu, o que correu mal no incidente que envolveu a Kelp DAO e a Aave, como esse episódio foi parcialmente resolvido, para onde aponta o pivô da EigenCloud, quem são os concorrentes que lhe disputam terreno, que riscos ficaram expostos, e o que muda para quem investe a partir de Portugal agora que terminou o período transitório do MiCA.
É também um exercício de memória curta contra memória longa: o setor gosta de celebrar inovação técnica, mas tende a esquecer depressa os avisos que a acompanharam. Revisitar esses avisos, à luz do que aconteceu nos últimos meses, é talvez o exercício mais útil que qualquer investidor pode fazer antes de decidir se ainda quer expor capital a este setor.
O que é restaking, em termos simples
Staking, no contexto da Ethereum, é o ato de bloquear ETH para ajudar a validar a rede e receber uma recompensa em troca, uma taxa de juro anual modesta, atualmente perto de 2,78%, com cerca de 32% de todo o fornecimento de ETH em stake e perto de 900 mil validadores ativos, segundo dados da Staking Rewards. Restaking é um passo adicional sobre essa base: pegar no ETH em stake, ou num token líquido que o representa, e voltar a comprometê-lo para ajudar a proteger outros serviços que não a própria Ethereum, os chamados AVS, Actively Validated Services, que vão de oráculos e pontes entre cadeias a camadas de disponibilidade de dados e sequenciadores de rollups.
O conceito foi popularizado pela EigenLayer, protocolo lançado em 2023 e hoje rebatizado EigenCloud, que criou o mercado onde operadores oferecem a sua garantia, ETH nativo ou tokens derivados, a múltiplos serviços em simultâneo, em troca de recompensas adicionais. A contrapartida chama-se corte de garantias, ou slashing: se um operador falhar as suas obrigações num AVS, uma parte da garantia depositada pode ser confiscada. Quanto mais serviços um mesmo ETH protege, mais condições de corte se acumulam sobre o mesmo capital, e mais complexa se torna a análise de risco para quem, no fundo, é apenas um investidor de retalho a tentar maximizar rendimento.
Como funciona: EigenLayer, EigenCloud e o mecanismo do AVS
O mecanismo assenta em três camadas. Primeiro, quem deposita a garantia, os restakers, ETH nativo ou tokens como stETH e rETH. Depois, quem opera os nós que efetivamente correm o software de cada AVS, os operadores, aos quais os restakers delegam a sua garantia sem necessariamente correrem eles próprios qualquer infraestrutura técnica. Por fim, os próprios AVS, serviços que compram segurança económica ao ecossistema em troca de uma comissão paga aos operadores e aos restakers que lhes delegaram capital.
O corte de garantias esteve em vigor apenas na teoria durante os primeiros anos do protocolo, um mecanismo descrito na documentação mas não ativado. Só passou a estar operacional na mainnet a 17 de abril de 2025, segundo o blogue oficial da EigenCloud, e mesmo assim como opção que cada operador escolhe ativar, e não como obrigação universal. Esse atraso de quase dois anos entre o lançamento do protocolo e a ativação real do corte de garantias tornou-se, em retrospetiva, um dos pontos mais debatidos sobre o setor: durante boa parte da sua existência, o restaking prometeu um mecanismo de responsabilização que, na prática, ainda não mordia.
Há ainda uma distinção técnica importante entre restaking nativo, em que o próprio validador da Ethereum delega diretamente o seu ETH em stake, e restaking através de tokens líquidos, em que o utilizador nunca opera um validador e apenas deposita um token como stETH num cofre gerido por terceiros. A esmagadora maioria do retalho usa a segunda via, precisamente porque não exige os 32 ETH nem o conhecimento técnico necessários para correr um validador, mas essa comodidade tem um preço: introduz uma camada adicional de intermediários, o cofre, o operador, o protocolo emissor do token, cada um dos quais pode falhar de forma independente do próprio protocolo de restaking.
A escalada: como o restaking cresceu depois de 2023
Entre 2023 e o início de 2026, o restaking foi um dos destinos preferidos do capital em busca de rendimento dentro do ecossistema Ethereum. A lógica parecia simples: o ETH em stake já rendia uma taxa modesta; restakar esse mesmo ETH prometia uma camada adicional de retorno sem exigir capital novo. Os liquid restaking tokens (LRTs) tornaram o processo ainda mais acessível, permitindo a qualquer utilizador ganhar exposição ao restaking sem operar diretamente um nó, apenas depositando ETH ou um token de staking líquido num cofre e recebendo, em troca, um token negociável que podia depois voltar a ser usado noutras aplicações DeFi.
No primeiro trimestre de 2026, a EigenCloud chegou a ultrapassar os 18 mil milhões de dólares em valor total bloqueado, de acordo com dados agregados pela DefiLlama, representando à data mais de 90% de todo o mercado de restaking na Ethereum. O interesse institucional acompanhou o crescimento: em junho de 2025, a Eigen Labs, a empresa por trás do protocolo, angariou 70 milhões de dólares junto da a16z para financiar precisamente a expansão que se seguiria, a transformação do restaking puro numa plataforma mais ampla de computação verificável.
Parte do crescimento entre 2023 e 2024 teve pouco que ver com o rendimento em si e mais com a expectativa de recompensas futuras em forma de tokens: programas de «pontos» que prometiam distribuições (airdrops) a quem depositasse cedo, tanto na própria EigenLayer como em praticamente todos os LRTs que nasceram à boleia do seu sucesso. Essa dinâmica ajudou a inflacionar o TVL do setor para além do que a procura orgânica por segurança económica adicional justificaria, e ajuda também a explicar por que razão o valor bloqueado se revelou tão sensível a qualquer choque de confiança, capital especulativo tende a sair com a mesma rapidez com que entra.
O caso Kelp DAO e Aave: o maior hack de DeFi de 2026
O momento que expôs os limites desta engenharia financeira aconteceu a 18 e 19 de abril de 2026. Um atacante enviou uma mensagem fabricada à ponte entre cadeias da Kelp DAO, assente na infraestrutura da LayerZero, e conseguiu emitir entre 116.500 e 117.132 rsETH, o liquid restaking token da Kelp, praticamente do nada, o equivalente a cerca de 18% de toda a oferta em circulação do ativo à data. O valor envolvido ficou entre 292 e 293 milhões de dólares, cerca de 256 milhões de euros ao câmbio atual, segundo a reportagem da CoinDesk, que descreveu o episódio como o maior exploit de DeFi do ano, com fundos dispersos por 20 cadeias diferentes. Investigadores de segurança associaram mais tarde o ataque ao grupo norte-coreano Lazarus.
O rsETH fabricado foi depositado como garantia na Aave V3 e usado para pedir emprestado wETH, deixando o maior protocolo de empréstimos em DeFi com uma dívida incobrável estimada entre 177 e 236 milhões de dólares, consoante a fonte, o equivalente a algo entre 155 e pouco mais de 200 milhões de euros. O impacto foi imediato: o TVL da Aave caiu cerca de 6 mil milhões de dólares, perto de 5,3 mil milhões de euros, num único fim de semana, o mercado de wETH ficou preso a 100% de utilização, impedindo levantamentos normais, e o token AAVE chegou a cair mais de 18%, segundo a CoinDesk.
O fundador da Aave, Stani Kulechov, reagiu publicamente ainda durante o fim de semana do ataque, sublinhando que a vulnerabilidade tinha origem fora do código da própria Aave: «rsETH has been frozen on Aave V3 and V4, the asset does not have any borrowing power as a measure due to KelpDAO bridge exploit that happened outside of Aave», escreveu, citado pela CoinDesk. Dias depois, resumiu o momento numa frase mais pessoal: «Aave is my life’s work and we’re working nonstop to find the best possible outcome for users».
O episódio gerou ainda um efeito de contágio de confiança que ultrapassou os números diretamente envolvidos. Outros protocolos que aceitavam LRTs como garantia reviram apressadamente os seus parâmetros de risco, alguns suspenderam temporariamente novos depósitos de tokens de restaking, e o volume de levantamentos em LRTs concorrentes, mesmo os que nada tinham a ver com a Kelp, aumentou visivelmente nos dias seguintes, um padrão clássico de pânico em que os investidores primeiro vendem e só depois perguntam se o seu protocolo específico estava exposto.
O impacto no TVL: os números depois da tempestade
O ataque à Kelp DAO não foi a única causa da travagem no restaking, mas funcionou como o gatilho que testou a resiliência de todo o setor. Os números que se seguiram são, admitidamente, difíceis de fixar com total precisão: diferentes agregadores de dados medem TVL de forma diferente, uns contam apenas a garantia efetivamente exposta a corte, outros somam todo o ETH e tokens derivados depositados, e os valores em dólares oscilam com o preço do próprio ETH. Ainda assim, o sentido da variação é inequívoco, como resume a tabela seguinte.
| Momento | TVL aproximado | Fonte |
|---|---|---|
| Pico, 1.º trimestre de 2026 | ≈18 mil milhões USD (≈15,8 mil milhões EUR) | DefiLlama |
| Análise pós-pico, março de 2026 | ≈8,9 mil milhões USD (≈7,8 mil milhões EUR) | DefiLlama / Fensory |
| Leituras dispersas, meados de 2026 | 4,7 a 11 mil milhões USD (≈4,1 a 9,6 mil milhões EUR) | Vários agregadores |
| Setor de restaking (todos os protocolos) | ≈14,6 mil milhões USD (≈12,8 mil milhões EUR) | DefiLlama |
| Apenas liquid restaking tokens | ≈7,0 mil milhões USD (≈6,1 mil milhões EUR) | DefiLlama |
Para comparação, só o Lido, que faz liquid staking simples sem qualquer camada de restaking, tem sozinho mais de 18 mil milhões de dólares bloqueados, mais do que todo o setor de restaking junto, um sinal de que o mercado continua a tratar o restaking como um complemento de nicho, e não como substituto do staking simples. O próprio token EIGEN reflete esta travagem: negoceia a cerca de 0,24 dólares (0,21 euros), com uma capitalização de mercado de 177 milhões de dólares (155 milhões de euros) segundo a CoinGecko, uma queda de quase 96% face ao máximo histórico de 5,65 dólares atingido em dezembro de 2024.
A recuperação: como Kelp e Aave repuseram o rsETH
Ao contrário de muitos hacks de DeFi que deixam utilizadores permanentemente a perder, o episódio Kelp DAO teve um desfecho pouco comum. Nos dias seguintes ao ataque, uma coligação informal reuniu comprometimentos superiores a 300 milhões de dólares para cobrir o buraco, incluindo contribuições da Lido, da ether.fi, da Consensys e do próprio Stani Kulechov, que ofereceu 5.000 ETH do seu património pessoal, segundo a CoinDesk.
O mecanismo técnico de reparação passou por queimar os rsETH ilegitimamente cunhados e repor gradualmente o lastro através de uma carteira multisignatura dedicada, controlada em conjunto pela coligação de recuperação e pela própria Kelp. Segundo a atualização publicada pelo The Crypto Post, a Kelp confirmou que o rsETH em mainnet e nas redes L2, com uma capitalização de mercado de 1,5 mil milhões de dólares, cerca de 1,3 mil milhões de euros, passou a estar «fully backed at all times». Como parte das melhorias de segurança, a ponte entre cadeias está a migrar do adaptador original da LayerZero para o Cross-Chain Interoperability Protocol da Chainlink, com exigência de quatro atestadores independentes e 64 confirmações de bloco antes de qualquer transferência, precauções que, convenhamos, deveriam ter existido desde o primeiro dia.
O incidente também colocou pressão sobre a própria LayerZero, cuja tecnologia de ponte esteve no centro do problema. A empresa disputou publicamente a atribuição de responsabilidade, argumentando que a vulnerabilidade residia em configurações específicas escolhidas pela Kelp e não no protocolo base da LayerZero, uma discussão que, independentemente de quem tinha razão técnica, deixou claro que a segurança de qualquer LRT depende de decisões de configuração tomadas por terceiros, muitas vezes invisíveis para quem apenas vê o rendimento anunciado. Este tipo de reconstrução técnica e financeira depois de um exploit é hoje um género jornalístico próprio dentro da cripto, como já explorámos no nosso artigo sobre autópsias de protocolos, e o caso Kelp e Aave promete tornar-se uma referência recorrente nesse género.
O aviso de Vitalik Buterin, revisitado três anos depois
Em maio de 2023, ainda antes de a EigenLayer sequer ter lançado a sua mainnet, Vitalik Buterin já alertava para os riscos de sobrecarregar o consenso da Ethereum com camadas adicionais de responsabilidade. No ensaio «Don’t overload Ethereum’s consensus», escreveu: «Any expansion of the ‘duties’ of Ethereum’s consensus increases the costs, complexities and risks of running a validator.» E acrescentou um aviso que, em retrospetiva, descreve de forma quase literal o episódio Kelp e Aave: «Blockchain communities’ social consensus is a fragile thing (…) each such extension makes the core itself more fragile.»
O cofundador da EigenLayer, Sreeram Kannan, respondeu na altura que via o restaking como um risco menor do que o liquid staking, argumentando que tudo o que o restaking permite fazer, o liquid staking já permitia antes. O episódio de abril de 2026 não desmentiu tecnicamente esse argumento, o exploit teve origem numa ponte entre cadeias da LayerZero, não numa falha do protocolo de restaking em si, mas confirmou uma das preocupações mais subtis de Vitalik: a de que o setor, ao aceitar tokens derivados de restaking como garantia noutros protocolos sem precificar corretamente o risco da infraestrutura à sua volta, cria exatamente o tipo de contágio sistémico e de lógica «demasiado grande para falhar» que o ensaio de 2023 descrevia. A coligação de mais de 300 milhões de dólares que salvou o rsETH é, ela própria, uma versão prática desse cenário: quando um protocolo cresce o suficiente, o resto do setor sente-se obrigado a resgatá-lo.
Vale a pena notar que Vitalik nunca defendeu a proibição do restaking, apenas pediu prudência: que os protocolos evitassem acumular primitivas financeiras demasiado complexas sobre a mesma base de consenso, e que a comunidade resistisse à tentação de tratar qualquer protocolo como demasiado importante para ser autorizado a falhar. Três anos depois, o setor continua a debater-se precisamente com essa tensão, entre a inovação que atrai capital e utilizadores, e a fragilidade sistémica que essa mesma inovação introduz numa rede que, para milhões de pessoas, é também a base da sua poupança.
De restaking a «verifiable cloud»: o pivô da EigenCloud
Talvez a resposta mais reveladora ao ano de 2026 não tenha sido técnica, mas estratégica. A Eigen Labs rebatizou o protocolo de EigenLayer para EigenCloud e passou a apresentá-lo não como uma plataforma de restaking, mas como uma «cloud verificável», uma infraestrutura onde aplicações podem correr fora da cadeia mantendo garantias criptoeconómicas de verificação, através de produtos como o eigenverify e o eigencompute, com foco explícito em agentes de inteligência artificial, registos médicos e outros casos de uso que exigem confiança sem intermediários centralizados.
Sreeram Kannan resumiu a ambição no podcast Bankless: «Anything you can program on the cloud, you should be able to program on Eigencloud with crypto-grade verifiability. If you do it on this, you don’t need to trust anybody.» É uma reformulação ambiciosa que tenta transformar o argumento de venda do restaking, até 2026 sobretudo «rendimento adicional sobre o mesmo ETH», num argumento de infraestrutura, segurança económica como serviço para qualquer aplicação, dentro ou fora da blockchain.
Uma das aplicações mais concretas deste pivô é o EigenDA, a camada de disponibilidade de dados construída sobre o restaking da EigenCloud, hoje usada por vários rollups como alternativa mais barata do que publicar dados diretamente na Ethereum. Como já detalhámos no nosso artigo sobre as taxas das L2 da Ethereum, a disponibilidade de dados chegou a representar até 90% do custo operacional de um rollup depois do EIP-4844, pelo que soluções como o EigenDA, ou concorrentes como a Celestia, competem diretamente pela fatura que os utilizadores finais pagam em cada transação. Se a EigenCloud conseguir vender segurança económica para além do restaking puro, o argumento de investimento no token EIGEN muda de figura, deixa de depender apenas do crescimento do TVL para passar a depender da receita gerada por estes novos produtos.
Nem todos veem o pivô com bons olhos. Parte da comunidade lê a mudança de narrativa como uma forma de justificar o token EIGEN depois de o TVL puro de restaking ter deixado de crescer ao ritmo que sustentava a avaliação anterior do protocolo, uma crítica que ecoa, de resto, o próprio ceticismo com que Vitalik olhou para o restaking desde o início: se a proposta de valor original precisa de ser reinventada tão cedo, talvez nunca tenha sido tão sólida quanto o crescimento do TVL em 2024 e 2025 sugeria.
Symbiotic e Karak: os desafiantes ao trono
A EigenCloud continua, de longe, a dominar o mercado de restaking na Ethereum, mas já não está sozinha. Dois protocolos concorrentes tentam captar quota: a Symbiotic, que lançou a sua mainnet no início de 2025 com corte de garantias ativo desde o primeiro dia e que aceita qualquer token ERC-20 como garantia, não apenas ETH ou os seus derivados, e a Karak, que aposta numa abordagem multiativo e multicadeia.
| Plataforma | TVL aproximado | Quota estimada | Particularidade |
|---|---|---|---|
| EigenCloud (ex-EigenLayer) | ver tabela de TVL acima | acima de 90% | Corte de garantias opcional desde abril de 2025; pivô para «verifiable cloud» |
| Symbiotic | ≈897 milhões USD (≈786 milhões EUR) | ≈5,5% | Aceita qualquer ERC-20 como garantia; resolução de disputas via comité ou terceiros |
| Karak | ≈102 milhões USD (≈89 milhões EUR) | ≈0,6% | Abordagem multiativo e multicadeia |
A Symbiotic optou por um modelo mais modular, deixando a cada mercado escolher quem resolve disputas de corte, e tem atraído capital de risco para expandir essa proposta. Na prática, isso significa que a EigenCloud continua a ser a escolha natural para AVS que procuram o maior conjunto possível de garantia económica disponível, enquanto a Symbiotic tende a atrair projetos que querem experimentar com tipos de garantia fora do universo ETH, e a Karak aposta em equipas que já operam em múltiplas cadeias para além da Ethereum e quereriam um único sistema de restaking a cobri-las a todas. Nenhum dos dois concorrentes se aproxima, para já, da escala da EigenCloud, mas ambos representam uma pressão competitiva que ajuda a explicar por que razão a própria EigenCloud sentiu necessidade de expandir o seu argumento de venda para lá do restaking puro, um mercado onde continua a deter, segundo dados da DefiLlama, mais de nove em cada dez dólares depositados.
Os liquid restaking tokens (LRTs) em 2026
Os liquid restaking tokens resolveram um problema prático: permitir que qualquer utilizador ganhe exposição ao restaking sem correr um nó, trocando ETH ou um token de staking líquido por um recibo negociável que pode, por sua vez, voltar a ser usado noutras aplicações DeFi, uma espécie de reidratação (rehypothecation) da mesma garantia.
| Protocolo | Token | TVL aproximado | Nota |
|---|---|---|---|
| ether.fi | eETH | líder do segmento, vários mil milhões USD | consistentemente o maior LRT por TVL |
| Renzo | ezETH | ≈2,0 mil milhões USD (≈1,75 mil milhões EUR) | sofreu um breve depeg em abril de 2024 |
| Puffer | pufETH | ≈1,3 mil milhões USD (≈1,14 mil milhões EUR) | requisitos de capital reduzidos para operadores |
| Kelp DAO | rsETH | ≈1,5 mil milhões USD (≈1,3 mil milhões EUR), pós-recuperação | alvo do exploit de abril de 2026; hoje descrito como «fully backed» |
Os rendimentos anunciados por estes tokens oscilaram historicamente entre 8% e 12% ao ano, muito acima do rendimento base de staking da Ethereum, mas essa diferença reflete precisamente o risco adicional descrito ao longo deste artigo: risco de corte, risco de ponte entre cadeias e risco de desancoragem do próprio token em relação ao ETH que representa. A Renzo, por exemplo, viu o ezETH perder brevemente a paridade com o ETH em abril de 2024, dois anos antes do episódio Kelp, um aviso prévio de que estes tokens não são equivalentes perfeitos ao ativo subjacente em todas as condições de mercado. Para além do rendimento base do restaking, muitos destes tokens acumulam ainda recompensas específicas de cada AVS que protegem, e durante a fase de crescimento mais especulativo, também pontos de programas de fidelização com promessa de futuros airdrops, uma multiplicidade de fontes de rendimento que tornou difícil, para o investidor comum, perceber quanto do retorno anunciado era real e sustentável, e quanto era apenas especulação sobre tokens que ainda nem existiam.
Portugal e o fim do período transitório do MiCA
Portugal transpôs o Regulamento MiCA para o direito nacional através da Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, que reparte a supervisão entre o Banco de Portugal, responsável pela supervisão prudencial e pela autorização dos prestadores de serviços de criptoativos, e a CMVM, encarregue da supervisão comportamental e da deteção de abuso de mercado, segundo o texto publicado no Diário da República.
As entidades que já operavam em Portugal antes de 30 de dezembro de 2024 podiam continuar a prestar serviços com ativos virtuais ao abrigo do regime transitório até 1 de julho de 2026, ou até decisão final sobre o seu pedido de autorização MiCA, consoante o que ocorresse primeiro. Essa data já passou. A partir de agora, qualquer prestador de serviços de criptoativos que opere em Portugal, ou na União Europeia em geral, sem autorização MiCA está impedido de aceitar novos clientes, fazer marketing ou continuar a operar normalmente, só lhe restando gerir uma saída ordenada das posições existentes, como explica a CMS Law. As violações mais graves podem ser qualificadas como contraordenação muito grave, com coimas entre 25 mil e 5 milhões de euros.
Para quem faz restaking a partir de Portugal, a fronteira regulatória mais relevante continua a ser a distinção entre interagir diretamente com um protocolo descentralizado, que tende a ficar fora do âmbito direto do MiCA, à semelhança do que já explicámos no nosso artigo sobre o olhar da CMVM sobre o restaking, e subscrever um serviço de restaking oferecido por um intermediário custodiante, que muito provavelmente já cai dentro do perímetro de licenciamento como prestador de serviços de criptoativos. Os investidores devem confirmar o estatuto de qualquer plataforma no registo europeu mantido pela ESMA antes de lhe confiar fundos, e ter em conta que produtos derivados sobre estes ativos, futuros e perpétuos, continuam sob a alçada da DMIF II e não do MiCA.
Os riscos que qualquer investidor deve perceber
O episódio Kelp e Aave tornou tangíveis riscos que, até então, muitos investidores só discutiam em teoria, ou liam em ensaios como o de Vitalik Buterin sem grande urgência prática. Vale a pena resumir os principais, precisamente porque nenhum deles desapareceu só porque o TVL do setor encolheu, pelo contrário, alguns tornaram-se mais visíveis agora que há menos capital a diluir o impacto de qualquer novo incidente.
- Risco de corte (slashing): operadores que falhem as suas obrigações num AVS podem perder parte da garantia depositada, mesmo que o investidor de retalho não controle diretamente o comportamento técnico do operador escolhido.
- Risco de ponte entre cadeias: o episódio Kelp DAO não resultou de uma falha no protocolo de restaking em si, mas na ponte que ligava a Kelp a outras redes, prova de que a segurança de um LRT depende de toda a infraestrutura à sua volta, não apenas do contrato principal.
- Risco de desancoragem (depeg): tokens como o ezETH ou o rsETH podem, em momentos de stress, negociar abaixo do valor do ETH que dizem representar.
- Risco de reidratação (rehypothecation): aceitar um LRT como garantia noutro protocolo, como a Aave aceitou o rsETH, multiplica a exposição ao mesmo risco subjacente por todo o sistema DeFi.
- Risco de concentração: com a EigenCloud a deter mais de nove em cada dez dólares do mercado de restaking, uma eventual falha de grande escala no seu desenho de incentivos teria um efeito sistémico sobre praticamente todo o setor.
Nenhum destes riscos é hipotético: todos se manifestaram, de uma forma ou de outra, entre 2024 e 2026. A diferença, em meados de 2026, é que já existem casos concretos a que qualquer investidor pode recorrer para avaliar como cada protocolo, e cada intermediário, respondeu quando as coisas correram mal, em vez de ter de confiar apenas em auditorias e promessas de marketing.
Rendimento vs risco: ainda vale a pena em 2026?
Depois de todos estes incidentes, a pergunta óbvia é se o rendimento adicional do restaking ainda compensa o risco acrescido. A resposta depende do apetite de risco de cada investidor e do que se está a comparar. Quem procura rendimento em cripto sem assumir o risco de contrato inteligente e de ponte associado ao restaking tem outras alternativas dentro do próprio ecossistema Ethereum e do mercado de derivados: a taxa de financiamento dos contratos perpétuos, já explicada em detalhe no nosso guia sobre funding dos perpétuos, ou a base de futuros, a diferença entre o preço à vista e o preço dos futuros, detalhada no artigo sobre a base de futuros do Bitcoin, oferecem formas de rendimento com um perfil de risco bastante diferente, mais exposto a risco de contraparte e de exchange do que a risco de contrato inteligente.
Comparado com o rendimento nativo de staking, cerca de 2,78% ao ano, o restaking ainda oferece um prémio, mas esse prémio comprimiu-se claramente à medida que o TVL caiu e a procura por garantia adicional nos AVS não acompanhou o ritmo de crescimento anterior. O setor parece, aliás, estar a mudar de argumento: depois de dois anos a vender segurança adicional como proposta de valor, 2026 trouxe uma exigência mais dura por parte de investidores e analistas, provar receita real gerada pelos AVS e pelos novos produtos da EigenCloud, não apenas prometer mais um mecanismo de segurança sobreposto ao staking.
Dito isto, comparar diretamente rendimentos nem sempre é justo: a taxa de financiamento dos perpétuos pode ser negativa e obrigar quem está posicionado a pagar em vez de receber, e a base de futuros comprime-se em mercados calmos, reduzindo o retorno disponível para as estratégias de cash and carry. O restaking, apesar de tudo, continua a oferecer um rendimento mais previsível no curto prazo do que estas alternativas, desde que o investidor aceite que essa previsibilidade assenta sobre uma pilha de contratos inteligentes e pontes entre cadeias cuja segurança combinada é, por definição, mais difícil de avaliar do que a de um único protocolo.
O que vem a seguir para o setor
A EigenCloud parece apostar tudo numa transição de plataforma de restaking para infraestrutura de computação verificável, com casos de uso como agentes de inteligência artificial responsabilizáveis. Sreeram Kannan tem sido explícito sobre esta ambição, descrevendo o cenário mais preocupante como uma falha silenciosa em grande escala, sistemas autónomos a cometerem erros sem que ninguém perceba porquê, exatamente o tipo de problema que a verificação criptoeconómica promete resolver. Se esta aposta resultar, o restaking passa a ser apenas um dos mecanismos de segurança subjacentes a uma plataforma mais ampla, e não o produto final.
Para os concorrentes, Symbiotic e Karak, o caminho mais realista não passa por destronar a EigenCloud a curto prazo, mas por capturar nichos onde a flexibilidade de aceitar qualquer garantia, ou uma abordagem multicadeia, faça mais sentido do que o modelo mais rígido e mais testado da EigenCloud. Para os LRTs, é provável que se siga uma fase de consolidação: protocolos mais pequenos ou com práticas de segurança mais fracas dificilmente sobreviverão a outro episódio da escala do que atingiu a Kelp DAO, e utilizadores institucionais tendem a concentrar-se nos poucos nomes que já provaram capacidade de resposta a uma crise, ainda que a esse custo de uma coligação de emergência superior a 300 milhões de dólares.
Do lado regulatório, o fim do período transitório do MiCA em Portugal e no resto da União Europeia devolve alguma clareza a um setor que, até aqui, operava sobretudo em zona cinzenta. Não elimina os riscos técnicos descritos ao longo deste artigo, mas obriga os intermediários que servem investidores de retalho a assumir um nível de responsabilidade regulatória que, durante os primeiros anos do restaking, praticamente não existia. A combinação de menos capital especulativo, mais concorrência e mais regulação sugere um setor que, na segunda metade de 2026, se parece bem mais com uma indústria a amadurecer à força do que com a fronteira experimental que era em 2023.
Para o investidor de retalho, a lição mais prática de todo este ciclo é provavelmente a mais simples: perceber exatamente que camadas de risco está a acumular antes de perseguir mais alguns pontos percentuais de rendimento. Restaking direto, através de tokens líquidos, através de outro protocolo que aceita esses tokens como garantia, cada camada soma-se às anteriores, e o caso Kelp e Aave mostrou, com números reais, quanto pode custar ignorar essa soma.
Perguntas frequentes
O que é restaking em criptomoedas?
Restaking é o ato de voltar a comprometer ETH já apostado na rede Ethereum, ou um token líquido que o representa, para ajudar a proteger outros serviços descentralizados, chamados AVS, em troca de uma recompensa adicional sobre o mesmo capital. O conceito foi popularizado pela EigenLayer, hoje rebatizada EigenCloud, e implica risco de corte (slashing) caso o operador escolhido falhe as suas obrigações.
O que aconteceu ao Kelp DAO e à Aave em 2026?
Em abril de 2026, um atacante explorou a ponte entre cadeias da Kelp DAO para cunhar de forma fraudulenta entre 292 e 293 milhões de dólares em rsETH, o liquid restaking token da Kelp. Parte desse token foi usada como garantia na Aave para pedir emprestado wETH, deixando a Aave com uma dívida incobrável de centenas de milhões de dólares e uma queda de TVL de cerca de 6 mil milhões de dólares. Uma coligação de protocolos e fundadores, incluindo a Lido, a ether.fi e o próprio fundador da Aave, reuniu mais de 300 milhões de dólares para restaurar o lastro do rsETH.
É seguro investir em liquid restaking tokens (LRTs)?
Nenhum LRT está isento de risco. Além do risco de corte inerente ao restaking, os LRTs acrescentam risco de ponte entre cadeias, risco de desancoragem face ao ETH que representam e risco de contrato inteligente na própria emissão do token. O episódio Kelp DAO de 2026 demonstrou que mesmo protocolos estabelecidos podem sofrer perdas de centenas de milhões de dólares através de vulnerabilidades na infraestrutura à sua volta, não necessariamente no contrato principal.
Como funciona a supervisão do restaking em Portugal depois do MiCA?
Desde 1 de julho de 2026, com o fim do período transitório previsto na Lei n.º 69/2025, qualquer prestador de serviços de criptoativos que sirva clientes em Portugal precisa de autorização MiCA, supervisionada em conjunto pelo Banco de Portugal, autorização e supervisão prudencial, e pela CMVM, supervisão comportamental e deteção de abuso de mercado. A interação direta com protocolos descentralizados de restaking tende a ficar fora deste perímetro, mas serviços de restaking oferecidos por intermediários custodiantes já se enquadram, muito provavelmente, como prestadores de serviços de criptoativos.
Qual a diferença entre staking e restaking?
Staking é bloquear ETH para ajudar a validar a rede Ethereum e receber uma recompensa nativa, atualmente cerca de 2,78% ao ano. Restaking é usar esse mesmo ETH, ou um token que o representa, para proteger adicionalmente outros serviços descentralizados, os AVS, obtendo rendimento extra mas acumulando também mais condições sob as quais a garantia pode ser cortada.
Redação HOGE Wire, 11 de julho de 2026.