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● Predictions & Forecasts

O piso técnico das taxas L2: três cenários até 2027

O EIP-7918 criou um piso técnico que impede as taxas das L2 de chegarem a zero. Este artigo modela três cenários de compressão até 2027, do otimista ao pessimista.

Em dezembro de 2025, a atualização Fusaka trouxe o PeerDAS para a rede principal da Ethereum e, com ele, uma nova fase na história das taxas de transação nas L2. Sete meses depois, com dois forks BPO já em produção, transferir tokens ou trocar ativos numa L2 como a Arbitrum One, a Optimism ou a Base custa, em muitos casos, frações de cêntimo de euro. A pergunta que fica por responder não é se as taxas desceram, isso já é facto documentado, mas até onde podem continuar a descer e o que trava essa queda antes de chegarem a zero.

Este artigo tenta responder a essa pergunta de forma disciplinada, com três cenários (base, otimista e pessimista) construídos a partir do que já está fixado no protocolo, como o piso técnico do EIP-7918, e do que ainda está em aberto, como o calendário da atualização Glamsterdam, a pressão competitiva de camadas de disponibilidade de dados externas à Ethereum e a forma como as próprias L2 vão reagir quando a receita de sequenciamento se aproximar de zero. Nenhum dos três cenários assume que a queda de preços é ilimitada; todos partem da mesma restrição matemática imposta pelo protocolo.

O caminho até aqui: de Dencun à Fusaka

A compressão de taxas nas L2 não começou com a Fusaka. Arrancou em março de 2024, com a atualização Dencun e a introdução dos blobs através do EIP-4844, que separou os dados que as L2 publicam na Ethereum do espaço de bloco usado pelas transações normais. Esse desenho cortou o custo de publicar dados em mais de 90% praticamente da noite para o dia, tal como já tínhamos analisado em detalhe pouco depois da ativação da Fusaka.

O desenho original da Ethereum para escalar previa sharding completo dos dados, um plano muito mais ambicioso e complexo tecnicamente. Os blobs, tal como implementados desde o EIP-4844, são uma versão deliberadamente mais simples desse objetivo, muitas vezes chamada de «proto-danksharding»: cada blob é um pacote de dados temporário, apagado da maioria dos nós ao fim de cerca de 18 dias, suficiente para que as L2 e qualquer verificador consigam confirmar a validade dos dados sem que a Ethereum tenha de guardar esse histórico para sempre. Esta escolha de desenho, dados temporários em vez de permanentes, é uma das razões pelas quais foi possível cortar custos tão depressa sem comprometer a segurança da rede.

Depois de Dencun vieram a Pectra, em maio de 2025, com o EIP-7691 a fixar um alvo de 6 e um máximo de 9 blobs por bloco, e a própria Fusaka, ativada a 3 de dezembro de 2025 com o EIP-7594, também conhecido como PeerDAS ou data availability sampling. O PeerDAS permite que cada nó verifique a disponibilidade de um blob através de amostragem, sem ter de descarregar o ficheiro inteiro, o que é o que tornou viável aumentar a capacidade de blobs sem sobrecarregar a rede de nós.

A verdadeira expansão de capacidade veio a seguir, através de dois forks BPO (Blob Parameter Only, um tipo de fork que altera apenas os parâmetros de blobs sem exigir uma atualização completa de consenso): o BPO1, a 9 de dezembro de 2025, elevou o alvo para 10 e o máximo para 15 blobs por bloco; o BPO2, a 7 de janeiro de 2026, subiu de novo para um alvo de 14 e um máximo de 21. Na prática, o espaço disponível para blobs mais do que duplicou face ao período imediatamente anterior à Fusaka, segundo a página oficial do roadmap da Ethereum.

EIP-7918: porque as taxas não vão a zero

É aqui que a ideia de taxas grátis esbarra num limite técnico deliberado. O EIP-7918, também incluído na Fusaka, impõe um piso à taxa base dos blobs: sempre que essa taxa desce abaixo de cerca de 1/15,258 da taxa base de execução da camada 1, o algoritmo deixa de tratar o bloco como estando acima do alvo e para de empurrar o preço para baixo.

Antes desta correção, a taxa base dos blobs podia ficar presa perto do valor mínimo possível durante meses seguidos, o que significava, na prática, que os validadores estavam a verificar provas KZG das L2 quase de graça, sem retribuição proporcional ao custo computacional real. Depois da Fusaka, nas semanas em que a procura por blobs voltou a subir, a taxa base disparou por várias ordens de grandeza em poucos dias, um sinal de que o piso está mesmo a funcionar como desenhado.

Um exemplo torna a mecânica mais concreta: se a taxa de execução da camada 1 estiver em 10 gwei, o piso do EIP-7918 obriga a taxa base dos blobs a não descer abaixo de aproximadamente 0,655 gwei (10 dividido por 15,258). Se a procura por blobs for baixa, a taxa fica exatamente nesse piso; só sobe acima dele quando os blocos consecutivos ultrapassam o alvo de blobs definido pelo fork BPO em vigor. É um desenho que troca simplicidade por previsibilidade, o oposto de um mercado onde o preço podia ficar colado a um valor residual durante meses.

A implicação para qualquer previsão é simples: a componente de dados da taxa de uma L2 pode continuar a cair enquanto houver folga entre a procura e a capacidade disponível, mas nunca vai a zero absoluto enquanto a Ethereum L1 continuar a cobrar por gas de execução. É esta restrição, mais do que qualquer limite de largura de banda, que define o chão dos três cenários que se seguem.

Fotografia atual: quanto custa usar cada L2 hoje

Para perceber a que distância já estamos do piso técnico do EIP-7918, vale a pena olhar para uma fotografia real, ainda que instantânea, das taxas cobradas hoje. A tabela seguinte usa dados do l2fees.info, convertidos de dólares para euros à taxa de câmbio do dia (aproximadamente 1 USD equivale a 0,875 EUR, com o ETH a negociar perto dos 1.551 euros segundo a CoinGecko), para uma transferência simples de ETH e para uma troca de tokens num par comum:

RedeTransferência simplesSwap de tokens
Metis Network0,04 €0,16 €
Loopring0,04 €0,52 €
zkSync Era0,06 €n/d
zkSync Lite0,08 €0,19 €
Optimism0,08 €0,16 €
Arbitrum One0,08 €0,24 €
Boba Network0,13 €0,15 €
StarkNet0,17 €0,50 €
Polygon zkEVM0,17 €2,41 €
Ethereum (camada 1)0,96 €4,80 €

As diferenças de preço entre redes não são arbitrárias. Rollups otimistas como a Arbitrum One e a Optimism assumem que as transações são válidas por defeito e só recorrem a provas de fraude em caso de disputa, o que mantém os custos computacionais baixos. Rollups baseados em validez, como a zkSync Era ou a StarkNet, geram uma prova criptográfica para cada lote de transações, um processo computacionalmente mais pesado que só recentemente começou a beneficiar de hardware dedicado e de agregação de provas, o que explica parte da diferença de preço a favor dos rollups otimistas nesta fotografia específica.

Estes valores são um instantâneo, não uma constante. A taxa base dos blobs oscila ao longo do dia consoante a procura agregada de todas as L2 que partilham o mesmo espaço, pelo que uma rede pode passar de tarifas residuais para vários cêntimos em poucas horas de congestionamento generalizado. A Base, apesar de ser uma das L2 com mais transações diárias do ecossistema, não constava desta amostra em particular no momento da recolha, mas fontes do setor colocam sistematicamente as suas taxas medianas abaixo dos 0,01 dólares por transferência simples, em linha com a Optimism e a Arbitrum One.

O que os dados de longo prazo mostram

Os valores pontuais escondem a dimensão real da queda. Um estudo académico publicado em junho de 2026 por Meghan Ambrosia e Bruce Mizrach, da Rutgers University, e disponibilizado no arXiv, mediu a mediana diária das taxas de transação nas três L2 com mais volume (Arbitrum, Base e Optimism) entre janeiro de 2024 e março de 2026. O resultado: a média das medianas diárias caiu de 0,180219 dólares no primeiro trimestre de 2024 para 0,001512 dólares no primeiro trimestre de 2026, uma queda de 99,16%.

Rede a rede, a Optimism foi a que mais comprimiu, de 0,136594 para 0,000027 dólares, uma queda de praticamente 100%, seguida pela Arbitrum, de 0,134343 para 0,002183 dólares, e pela Base, de 0,149274 para 0,001634 dólares. O mesmo estudo estabelece uma relação direta entre capacidade e preço: cada blob adicional de alvo está associado a uma queda de 4,3% na taxa mediana de transação.

Vale a pena notar que a queda não foi uniforme ao longo do tempo, teve dois momentos de aceleração clara: logo após o EIP-4844 em março de 2024, e de novo depois da Fusaka e dos dois forks BPO, entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Nos períodos intermédios, com a capacidade de blobs estável, as taxas oscilaram lateralmente, confirmando que a variável determinante não é o tempo que passa, é a capacidade disponível face à procura em cada momento.

É esta relação, mais do que qualquer promessa de roadmap, que serve de base matemática aos três cenários seguintes: quanto mais rápido a Ethereum aumentar o alvo de blobs, seja via novos forks BPO, seja mais tarde via danksharding completo, mais rápido as taxas continuam a cair, até ao piso do EIP-7918.

Cenário base: compressão contínua, a um ritmo mais lento

No cenário central, ao qual atribuímos a maior probabilidade, a Ethereum continua a expandir a capacidade de blobs a um ritmo semelhante ao dos últimos dois forks BPO, sem alterações de protocolo dramáticas antes da Glamsterdam. Isto significa possivelmente mais um fork BPO ao longo de 2026, cada um a acrescentar poucos blobs ao alvo, com quedas de custo cada vez mais marginais à medida que o piso do EIP-7918 se aproxima.

Para as L2 líderes, a componente de dados da taxa, a fatia que hoje ainda domina o custo total em muitos casos, deixa progressivamente de ser o fator decisivo. A taxa de execução na própria L2, a margem do sequenciador e o custo da prova (no caso dos rollups baseados em validez) passam a pesar mais do que o espaço de blob em si. Neste cenário, é razoável esperar mais uma queda de 30% a 50% nas taxas medianas das L2 líderes até ao final de 2027 face aos níveis atuais, mas sem qualquer L2 relevante a operar de forma sustentada abaixo do piso técnico.

Continuamos a acompanhar esta trajetória desde a nossa análise anterior sobre a compressão pós-Fusaka, e os dados recolhidos até agora confirmam a desaceleração prevista: a queda deixou de ser uniforme entre redes, com a Optimism já muito perto do piso teórico e a Arbitrum e a Base com mais margem para comprimir.

O sinal mais claro de que este cenário está a concretizar-se será a ausência de sobressaltos: nem anúncios de forks BPO adicionais fora do calendário habitual, nem picos de volatilidade nas taxas de blob acima do que já se observa hoje. Se, no primeiro trimestre de 2027, a taxa mediana das três L2 líderes rondar valores entre 30% e 50% abaixo dos atuais, sem eventos de rutura pelo meio, o cenário base terá sido validado.

Cenário otimista: a corrida para o quase-zero

No cenário otimista, a pressão competitiva das camadas de disponibilidade de dados externas, que detalhamos mais à frente, obriga a Ethereum a acelerar. A Glamsterdam ativa dentro do calendário revisto, terceiro trimestre de 2026, o ePBS (EIP-7732) alarga a janela de propagação de dados de cerca de 2 para 9 segundos, permitindo blocos maiores sem comprometer a descentralização de quem os valida, e isso abre caminho a um novo fork BPO ainda em 2026, com o alvo de blobs a subir para bem acima dos 14 atuais.

Combinado com melhorias na compressão de dados ao nível de cada L2 e com a agregação de provas nos rollups de validez, este cenário aproxima várias L2 líderes do território que a Optimism já ocupa hoje segundo o estudo da Rutgers University, taxas medianas na casa dos milésimos de cêntimo, efetivamente imperceptíveis para o utilizador comum, mesmo que o piso do EIP-7918 continue a existir em teoria.

O risco deste cenário não é técnico, é económico: taxas residuais tornam cada vez mais difícil sustentar a receita de sequenciamento de que muitas L2 dependem para financiar equipas e infraestrutura, um tema que retomamos mais à frente neste artigo.

Para este cenário se confirmar, o sinal a observar é a velocidade de resposta da Ethereum a qualquer sinal de perda de quota de mercado para a Celestia ou para a EigenDA: anúncios de forks BPO fora do calendário normal, ou uma Glamsterdam que não desliza mais e ativa efetivamente no terceiro trimestre de 2026, seriam ambos indícios fortes de que este é o caminho que se está a impor.

Cenário pessimista: o piso chega mais cedo do que o esperado

O cenário pessimista não depende de a Ethereum falhar tecnicamente, depende de prioridades mudarem. O calendário da Glamsterdam já deslizou de um objetivo inicial de meados de 2026 para o terceiro trimestre, sem data firme confirmada, e cada blob adicional por bloco aumenta os requisitos de largura de banda e armazenamento para quem corre um nó, uma tensão direta com o objetivo paralelo de manter a rede descentralizada.

Se os investigadores da Ethereum Foundation priorizarem «The Verge» e a statelessness via árvores Verkle (o foco da atualização seguinte, batizada Hegotá e prevista para a segunda metade de 2026) em vez de novos forks BPO, a expansão de capacidade de blobs pode estagnar durante grande parte do ano. Ao mesmo tempo, como o piso do EIP-7918 está indexado à taxa de execução da camada 1, qualquer subida sustentada da procura por gas na mainnet, por exemplo via atividade de restaking, emissão de stablecoins ou uma apreciação do preço do ETH que torne o gas mais caro em termos absolutos, empurra o piso para cima, revertendo parte da compressão já conseguida.

Neste cenário, as taxas das L2 líderes estabilizam nos níveis atuais ou sobem ligeiramente durante 2026, só voltando a comprimir-se de forma visível depois de a Glamsterdam entrar em produção e libertar espaço para um novo salto de capacidade de blobs.

O sinal de alerta mais fácil de seguir é o próprio calendário da Glamsterdam: cada novo adiamento para lá do terceiro trimestre de 2026 aumenta a probabilidade deste cenário, tal como qualquer subida sustentada da taxa base de execução da Ethereum motivada por procura de gas fora do universo das L2, que empurraria o piso do EIP-7918 para cima independentemente do que as L2 façam.

O que taxas quase invisíveis mudam para utilizadores e aplicações

A compressão de taxas não é só uma métrica para analistas, muda o que é possível construir. Jogos totalmente on-chain, que precisam de escrever o estado do jogo na blockchain a cada ação do jogador, só se tornam viáveis quando cada transação custa frações de cêntimo; a taxas de 2021, mover uma peça num jogo de estratégia on-chain podia custar mais do que uma subscrição mensal de um jogo tradicional. Estúdios que constroem em L2 como a Arbitrum, a Base ou redes especializadas em jogos têm hoje margem para desenhar mecânicas que exigem múltiplas transações por minuto sem tornar o jogo economicamente inviável para o jogador comum.

O mesmo raciocínio aplica-se a pagamentos. Micropagamentos, subscrições pagas ao segundo, ou remessas de pequeno valor entre carteiras, casos de uso que nunca fizeram sentido económico com taxas de vários dólares por transação, tornam-se praticáveis quando a taxa é uma fração residual do valor transferido. Combinado com o crescimento de stablecoins denominadas em euros e dólares nas próprias L2, este é um dos argumentos mais fortes a favor de continuar a comprimir taxas, mesmo à custa da receita direta que a Ethereum L1 capta por transação.

Há também um lado menos celebrado: taxas mais baixas tornam o spam e a atividade de bots mais baratos também. Redes com taxas residuais já viram picos de transações geradas por scripts a explorar programas de incentivos ou a tentar extrair MEV de forma automatizada, o que obriga os operadores de L2 a desenhar mecanismos de limitação de ritmo ou priorização ao nível da aplicação, já que o próprio custo de gas deixou de funcionar como filtro natural contra abuso.

A concorrência da disponibilidade de dados externa

Nenhum destes cenários existe num vácuo. A Ethereum não é a única opção para publicar dados de uma L2, e a existência de alternativas mais baratas é, ao mesmo tempo, um argumento a favor de mais compressão (a Ethereum tem de competir em preço) e um argumento contra a narrativa de que os blobs vão gerar receita significativa a prazo para a camada base.

Camada de disponibilidade de dadosCusto aproximado por MBParticularidade
Blobs da Ethereum (pós-Fusaka)cerca de 3,35 €Piso mínimo fixado pelo EIP-7918, indexado à taxa de execução da L1
Celestiacerca de 0,06 €Cerca de 55 vezes mais barata; perto de 84% do volume diário depende de um único cliente (o rollup Eclipse)
EigenDAsem preço público diretamente comparávelModelo de comité de disponibilidade (DAC) ligado ao restaking da EigenLayer; débito próximo de 100 MB/s

A diferença de preço é real, mas a concorrência é menos ameaçadora do que parece à primeira vista. Segundo uma análise da BlockEden.xyz, o rollup Eclipse é responsável por cerca de 84% do volume diário de blobs publicados na Celestia, o que significa que essa rede ainda depende fortemente de um único cliente e está longe de ser o utilitário público neutro que a narrativa modular costuma prometer. Se a Eclipse migrasse para outra camada de disponibilidade de dados, as métricas de utilização da Celestia cairiam de forma abrupta.

Existe ainda um terceiro nome a acompanhar nesta corrida, a Avail, que persegue uma proposta semelhante à da Celestia mas com uma arquitetura de amostragem de disponibilidade de dados própria. Nenhum dos três (Celestia, EigenDA ou Avail) tem, para já, volume que ameace de forma imediata a posição dominante da Ethereum enquanto camada de disponibilidade de dados para os rollups mais estabelecidos, mas todos beneficiam de qualquer sinal de que a Ethereum está a abrandar a expansão de capacidade de blobs.

Um relatório da The Block resume bem esta tensão ao descrever os mercados de disponibilidade de dados como estando a fragmentar-se, mas com a Ethereum a continuar a ser a opção premium, na medida em que os rollups que mais valorizam segurança e liquidação direta na L1 continuam a preferir blobs nativos, mesmo pagando um prémio de preço face à Celestia ou à EigenDA.

Nem todos veem os blobs baratos como um problema para a Ethereum. Tim Robinson, responsável de investigação cripto na BlueYard Capital, defende que os blobs funcionam como um «loss leader»: geram pouca receita direta hoje, mas o desenho económico do EIP-7918 significa que essa receita cresce rapidamente assim que a procura por espaço de bloco aumentar, segundo a sua análise citada pela Blockworks. Nessa leitura, comprimir taxas agora para conquistar quota de mercado às camadas de disponibilidade de dados externas é uma troca deliberada, não um acidente de desenho, algo que se aproxima da lógica de subsidiar crescimento no restaking antes de cobrar pelo serviço a prazo, ainda que os mecanismos técnicos sejam diferentes.

O dilema do value accrual: quem fica com a receita

A compressão de taxas alimenta um debate mais antigo do que a própria Fusaka: quem capta valor quando as L2 processam cada vez mais transações e a Ethereum L1 recebe cada vez menos por elas. Segundo dados compilados pela yellow.com, a Base gerou cerca de 94 milhões de dólares em lucro de sequenciamento num período recente, tendo pago apenas cerca de 4,9 milhões de dólares à Ethereum L1 pelos dados publicados no mesmo período, uma proporção de quase 19 para 1 a favor da L2.

Multiplicado por dezenas de rollups, este desequilíbrio é o cerne da crítica de que as L2 estão a drenar a receita da Ethereum, ao mesmo tempo que dependem inteiramente da sua segurança para liquidar transações. Menos gas consumido em L1 significa também menos ETH queimado através do mecanismo do EIP-1559, o que pressiona a narrativa de ativo ultra-sólido que sustentou parte da valorização do ETH em ciclos anteriores, um tema que já explorámos ao analisar os fluxos dos ETF de Ethereum e o apetite institucional pelo ativo.

Vitalik Buterin reconheceu publicamente esta tensão em fevereiro de 2026, ao propor uma reestruturação da forma como a Ethereum cobra por diferentes tipos de atividade na rede. Segundo a sua argumentação, citada pela CoinDesk, nem toda a atividade na Ethereum exerce a mesma pressão sobre a rede, pelo que o armazenamento permanente de dados deveria ficar mais caro enquanto o débito de transações normais aumenta, uma forma indireta de recuperar valor para a camada base sem travar a compressão de taxas nas L2. Buterin chegou a argumentar que a visão de as L2 serem o único vetor de escala «já não faz sentido» isoladamente, defendendo antes um equilíbrio entre melhorias na L1 e continuação do trabalho nas L2.

Nem todos os analistas concordam que este seja o fator mais relevante para o preço do ETH. Comparado com o efeito de fluxos de ETF à vista, de dinâmicas de staking ou da atividade de restaking sobre a oferta em circulação, a receita direta gerada por blobs continua a ser uma fração pequena da equação, o que leva alguns a considerar o debate sobre value accrual mais relevante a prazo do que no imediato.

Depois da Fusaka: Glamsterdam, Hegotá e o roadmap até 2027

A Fusaka não foi o fim da linha, foi apenas o penúltimo grande capítulo antes de uma fase do roadmap mais focada na camada de execução do que na de dados. A próxima atualização, batizada Glamsterdam, tinha como objetivo inicial ativar em meados de 2026, mas o calendário já deslizou para o terceiro trimestre, sem data de mainnet confirmada nesta fase.

As suas duas peças centrais são a separação nativa de proposer e builder no protocolo (ePBS, EIP-7732), que alarga a janela de propagação de um bloco de cerca de 2 para 9 segundos e permite blocos maiores sem penalizar validadores com ligações mais lentas, e as Block-Level Access Lists (BALs), que preparam a rede para execução paralela e para limites de gas mais altos no futuro, segundo a descrição oficial no roadmap da Ethereum.

Depois da Glamsterdam, os investigadores da Ethereum Foundation já deram nome à atualização seguinte, a Hegotá, prevista para a segunda metade de 2026 e centrada em «The Verge» e «The Purge»: árvores Verkle para permitir statelessness (nós capazes de validar blocos sem guardar todo o estado histórico da rede) e a limpeza de dados redundantes acumulados desde o lançamento da rede.

Para o objetivo deste artigo, o detalhe importante é que nenhuma destas duas atualizações aumenta diretamente a capacidade de blobs; são melhorias de eficiência e descentralização da camada de execução. Isto significa que, entre o BPO2 (janeiro de 2026) e uma eventual próxima expansão de blobs associada à Glamsterdam ou a um novo fork BPO independente, pode não haver novos saltos de capacidade de disponibilidade de dados durante grande parte de 2026, um argumento a favor do cenário base, ou mesmo do pessimista, em detrimento do otimista.

O que a compressão faz aos modelos de negócio das L2

Taxas mais baixas são uma vitória inequívoca para quem usa as L2 no dia a dia, mas colocam pressão sobre quem as opera. A receita de sequenciamento, a diferença entre o que uma L2 cobra aos utilizadores e o que paga à Ethereum para publicar dados e, no caso dos rollups de validez, para gerar provas, é hoje a principal fonte de receita de operadores como a Coinbase (Base), a Offchain Labs (Arbitrum) e a OP Labs (Optimism).

Como vimos atrás com o exemplo da Base, essa receita ainda é confortavelmente positiva quando comparada com o que é pago à L1, mas a margem por transação individual só tende a encolher à medida que a compressão avança, o que empurra os operadores para dois caminhos: aumentar volume, com mais transações a margens mais finas, ou diversificar receita para lá das taxas puras, através de MEV capturado internamente, produtos de pagamentos ou liquidação de ativos do mundo real.

Quem não conseguir nenhum dos dois entra no grupo que a The Block já sinaliza no seu relatório sobre 2026: L2s genéricas de médio porte, sem proposta de valor distinta, que perdem capital assim que os incentivos de liquidez terminam. A concentração de valor total imobilizado nas três maiores redes, Arbitrum One, Base e zkSync Era, já ultrapassa dois terços do total do setor segundo diversas fontes de tracking do ecossistema, uma tendência que a compressão de taxas tende a reforçar, porque a escala passa a ser a única forma sustentável de compensar margens cada vez mais finas.

Este é também o pano de fundo para fusões, encerramentos silenciosos ou pivôs de L2s de nicho ao longo de 2026: uma rede que dependia de taxas mais altas do que a concorrência para ser rentável perde essa vantagem assim que os custos de blob caem para todos ao mesmo tempo, já que a compressão do EIP-7918 e dos forks BPO beneficia por igual qualquer rollup construído sobre a Ethereum, independentemente da sua dimensão ou maturidade.

Portugal: CMVM, Banco de Portugal e a supervisão de um mercado de taxas cada vez mais baixas

A compressão de taxas nas L2 não é apenas uma questão técnica, tem também uma leitura regulatória em Portugal. Desde 1 de julho de 2026, terminou oficialmente o regime transitório do MiCA para os prestadores de serviços de criptoativos portugueses, com a Lei n.º 69/2025 a definir a divisão de competências: o Banco de Portugal fica responsável pelo registo dos prestadores de serviços de criptoativos e pela supervisão prudencial das stablecoins, enquanto a CMVM assume a supervisão comportamental do mercado, incluindo regras de abuso de mercado ao abrigo do Título VI do MiCA, segundo noticiado pelo Dinheiro Vivo. As coimas para incumprimento podem chegar aos 5 milhões de euros.

Para um leitor português, a relevância prática da compressão de taxas nas L2 está menos na regulação direta (a CMVM não fixa preços de gas nem intervém no mercado de blobs) e mais no efeito indireto sobre custos de acesso: taxas residuais tornam produtos financeiros tokenizados, staking líquido ou mesmo esquemas de restaking mais acessíveis a carteiras pequenas, precisamente o segmento que a supervisão comportamental da CMVM mais visa proteger. É uma dinâmica que já explorámos ao analisar como a CMVM olha para o rendimento extra gerado na Ethereum: quanto mais barato for interagir com contratos inteligentes numa L2, maior a probabilidade de investidores de retalho participarem diretamente em vez de recorrerem a intermediários com comissões mais altas, o que aumenta a importância de regras claras de divulgação de risco.

Portugal não está sozinho nesta transição. O mesmo prazo de 1 de julho de 2026 aplicou-se a outros Estados-membros com regimes transitórios mais curtos, como a Alemanha, a Áustria, a Itália, a Irlanda e a Espanha, o que significa que o mercado de criptoativos em toda a União Europeia entra praticamente em simultâneo numa fase de supervisão mais apertada, precisamente quando o custo de interagir com contratos inteligentes nas L2 está no ponto mais baixo de sempre. A coincidência entre custos mínimos e supervisão máxima é um contexto que vale a pena vigiar nos próximos trimestres.

Sinais a observar até 2027

Resumindo os três cenários num conjunto de sinais concretos, eis o que vale a pena acompanhar entre agora e o final de 2027:

  • Data de ativação confirmada da Glamsterdam na mainnet, atualmente sem data firme, com o terceiro trimestre de 2026 como referência mais provável.
  • Anúncio de um novo fork BPO independente da Glamsterdam, que sinalizaria prioridade contínua à expansão de blobs em vez de uma pausa focada na camada de execução.
  • Evolução da concentração de cliente único na Celestia, com o peso do rollup Eclipse acima de 80% do volume diário a funcionar como termómetro de quão neutras as camadas de disponibilidade de dados externas realmente são.
  • Débito real, não apenas anunciado, da rede Fibre da Celestia e da EigenDA, para perceber se a concorrência às blobs da Ethereum se traduz em migração efetiva de rollups.
  • Primeiras ações de supervisão da CMVM ao abrigo do Título VI do MiCA, que vão testar como a fiscalização portuguesa lida com um mercado de custos de transação cada vez mais próximos de zero.
  • Publicação de dados atualizados equivalentes ao estudo da Rutgers University, para confirmar se a queda de 99,16% entre 2024 e 2026 continua a um ritmo semelhante ou desacelera como o cenário base prevê.

Perguntas Frequentes

Porque é que as taxas das L2 da Ethereum ficaram tão baratas?

As taxas caíram sobretudo por causa dos blobs, um tipo de espaço de dados introduzido pelo EIP-4844 em março de 2024 e expandido pela Fusaka e por dois forks BPO em dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Os blobs separam os dados que as L2 publicam na Ethereum do espaço usado pelas transações normais, o que cortou drasticamente o custo de disponibilidade de dados. Segundo um estudo da Rutgers University, a taxa mediana das três maiores L2 caiu 99,16% entre o primeiro trimestre de 2024 e o mesmo período de 2026. Este processo deverá continuar, ainda que a um ritmo mais lento, à medida que a Ethereum expande a capacidade de blobs através de novos forks.

As taxas das L2 podem chegar a zero?

Não de forma permanente. O EIP-7918, ativado com a Fusaka, fixa um piso técnico que liga a taxa base dos blobs à taxa de execução da camada 1 da Ethereum, numa proporção mínima de cerca de 1 para 15,258. Isto impede que a componente de dados da taxa fique presa perto de zero durante longos períodos, mesmo quando há pouca procura por espaço de blob. Analistas dividem-se sobre se esse piso será atingido já em 2026 ou só depois de novas atualizações como a Glamsterdam.

O que é o EIP-7918 e porque limita a queda das taxas?

O EIP-7918 é uma alteração de protocolo que impõe um preço de reserva aos blobs, indexado ao custo real de verificação das provas KZG na camada de execução. Sem este piso, a taxa base dos blobs podia ficar presa em valores residuais durante meses, como aconteceu depois do EIP-4844, o que na prática significava que os validadores estavam a subsidiar as L2. Com o piso ativo, a taxa sobe automaticamente sempre que o custo de execução na L1 sobe. Este mecanismo tornou-se particularmente visível logo após a ativação da Fusaka, quando a taxa base subiu de forma abrupta a partir de valores quase nulos.

Qual é a L2 da Ethereum mais barata em 2026?

Não existe uma resposta fixa, porque as taxas oscilam com a procura agregada de espaço de blob. Em julho de 2026, redes como a Metis Network, a Loopring, a zkSync Era, a Optimism e a Arbitrum One registavam taxas de transferência simples abaixo de 0,10 euros, segundo dados do l2fees.info, com a Base a manter-se historicamente também abaixo desse limiar. Estes valores podem mudar significativamente de um dia para o outro consoante o congestionamento da rede. Para comparações fiáveis, vale sempre a pena consultar ferramentas de tracking em tempo real em vez de confiar em valores fixos.

Como é que a CMVM regula as L2 e os custos de transação em Portugal?

A CMVM não regula diretamente o preço do gas ou das taxas de transação nas L2, isso é uma função do protocolo Ethereum. Desde 1 de julho de 2026, a CMVM é responsável pela supervisão comportamental do mercado de criptoativos em Portugal, incluindo regras de abuso de mercado, enquanto o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores de serviços e da supervisão das stablecoins, ao abrigo da Lei n.º 69/2025 que transpõe o MiCA. A CMVM também partilha competências com a ESMA ao nível europeu no que toca a orientações de supervisão do mercado sob o MiCA.

Artigo escrito pela redação da HOGE Wire.

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