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● Predictions & Forecasts

Taxas das L2 em 2028: o fim da guerra do preço mais baixo

O piso técnico da EIP-7918 travou a queda das taxas L2, mas o Glamsterdam pode empurrá-lo mais para baixo em 2026. Ao mesmo tempo, o preço deixou de decidir que L2s sobrevivem.

As taxas de transação nas L2 da Ethereum caíram mais de 99% desde o início de 2024, e a fase mais dramática dessa compressão já ficou para trás. A pergunta que dominou os últimos dois anos, «até onde podem cair as taxas», está a ser substituída por outra mais interessante: o que acontece quando todas as L2 grandes convergem para o mesmo piso técnico, ao mesmo tempo, e o preço deixa de ser argumento de venda?

Esse piso existe por desenho. Chama-se EIP-7918, entrou em vigor com o upgrade Fusaka em dezembro de 2025, e amarra o custo mínimo de um blob ao custo de execução da camada 1. Mas um piso amarrado a outra variável não é uma linha fixa gravada em pedra: se essa variável se mover, o piso move-se com ela. E a Ethereum tem agendado para o segundo semestre de 2026 um upgrade, o Glamsterdam, com potencial para alterar precisamente essa variável.

Este artigo cobre duas coisas que os textos anteriores sobre este tema ainda não desenvolveram em profundidade: primeiro, a matemática de porque o piso técnico das taxas L2 pode voltar a descer depois do Glamsterdam; segundo, o facto de a batalha competitiva entre L2s já ter mudado de eixo, com Vitalik Buterin, os líderes da Base, da Arbitrum e da Optimism, e a casa de research 21Shares a discutirem publicamente o que significa sobreviver numa era em que já ninguém compete por ser a mais barata. Para quem já leu a nossa análise sobre o piso técnico das taxas L2 e os três cenários até 2027, este texto assume-se como continuação, estendendo o horizonte até 2028 e mudando o foco da mecânica para a economia competitiva.

Recapitulação rápida: como chegámos ao piso técnico

Em março de 2024, a Dencun introduziu a EIP-4844 e os «blobs», um espaço de dados dedicado às L2 que cortou os custos de publicação de dados em mais de 90% quase da noite para o dia. Seguiu-se a Pectra, em maio de 2025, com a EIP-7691 a alargar a meta de blobs por bloco. Depois veio a Fusaka, ativada a 3 de dezembro de 2025, que trouxe a EIP-7594 (PeerDAS, amostragem de disponibilidade de dados) e abriu caminho a dois forks de parâmetros de blob, conhecidos como BPO: o BPO1 a 9 de dezembro de 2025 e o BPO2 a 7 de janeiro de 2026, que juntos mais do que duplicaram a capacidade de blobs face ao período pré-Fusaka.

O resultado está nos números. Um estudo que acompanhou a taxa média das três maiores L2 (Arbitrum, Base e Optimism) mostra uma queda de cerca de 0,18 dólares por transação no primeiro trimestre de 2024 para aproximadamente 0,0015 dólares no primeiro trimestre de 2026, uma redução superior a 99%, confirmada de forma consistente por dados recolhidos junto do L2Beat. Nenhuma outra fase de scaling da Ethereum comprimiu custos tão depressa. O problema, para quem espera que a tendência continue em linha reta, é que essa fase já não é sobre adicionar mais blobs. É sobre um travão que a própria rede instalou de propósito.

O piso não é uma linha fixa: a fórmula por trás da EIP-7918

A EIP-7918 resolve um problema muito específico: antes dela, era possível que a taxa de um blob caísse para praticamente zero (1 wei) sempre que a procura por espaço de blob fosse baixa, mesmo que o custo computacional de processar esse blob para os nós da rede continuasse a existir. Ou seja, a rede podia subsidiar involuntariamente o armazenamento de dados das L2.

A solução, segundo o texto oficial da proposta em eips.ethereum.org, define uma reserva mínima: um blob nunca pode custar menos do que uma fração fixa do custo de gás de execução no L1. Essa fração resulta da divisão de duas constantes do protocolo, BLOB_BASE_COST (8192) por GAS_PER_BLOB (131072), o que dá exatamente 1/16. Na prática, sempre que a taxa base do blob, calculada pelo mecanismo normal de oferta e procura, ficaria abaixo de 1/16 da taxa base de execução, a rede ignora esse cálculo e trava a queda. É esse mecanismo que impede o discurso de «taxas L2 a caminho de zero»: enquanto a Ethereum cobrar alguma coisa para processar transações no L1, as L2 vão pagar, no mínimo, uma fração proporcional disso pelos seus blobs.

A implicação para quem tenta prever preços é simples de enunciar e fácil de esquecer: o piso não é um número fixo em dólares ou euros, é um rácio. Isso significa que a única forma de o piso descer de forma duradoura é a taxa base de execução do L1 descer também. E é exactamente aí que entra o próximo upgrade.

Glamsterdam: o upgrade que pode reabrir a compressão

O Glamsterdam, cujo nome junta Amsterdão (camada de execução) e Gloas (camada de consenso), é descrito pela própria ethereum.org como o próximo grande upgrade depois da Fusaka, com ativação prevista para o segundo semestre de 2026. As duas propostas mais importantes chamam-se ePBS (EIP-7732, separação de proponentes e construtores de blocos incorporada no protocolo) e BALs, as listas de acesso ao nível de bloco (EIP-7928).

A ePBS alarga a janela de propagação de blocos de cerca de 2 para cerca de 9 segundos, o que permite à rede lidar com blocos maiores sem comprometer a velocidade de propagação. As BALs funcionam como um mapa prévio do que cada bloco vai tocar na base de dados, o que permite processamento paralelo de transações em vez do modelo sequencial atual, reduzindo o tempo que os nós demoram a sincronizar e a validar. Juntas, segundo cobertura da The Defiant, estas mudanças destinam-se a tornar seguro subir o limite de gás do L1 dos atuais 60 milhões para um alvo de desenho de cerca de 200 milhões, mais do que triplicando a capacidade bruta da camada base. O upgrade está, à data desta análise, na fase final de devnets multi-cliente, com ativação em mainnet estimada entre setembro e dezembro de 2026 caso o calendário habitual de testnets públicas se confirme.

Vale notar que 200 milhões é o objetivo estrutural que o Glamsterdam viabiliza, não um valor que o próprio fork imponha de imediato; a subida real do limite de gás continua a depender de votação dos validadores e produtores de blocos, como acontece hoje. Mas a diferença é que, pela primeira vez, a rede vai ter a infraestrutura de propagação e execução paralela necessária para suportar esse salto sem degradar a descentralização dos nós.

A aposta técnica: o que acontece ao piso se a capacidade do L1 triplicar

Aqui entra a análise própria deste artigo, que nenhuma das peças anteriores sobre este tema desenvolveu: se o limite de gás do L1 sobe de forma sustentada e a procura por espaço de bloco não acompanha esse aumento na mesma proporção, a mecânica de EIP-1559 tende a empurrar a taxa base de execução para baixo ao longo do tempo, porque a rede está persistentemente abaixo do seu alvo de utilização. E como o piso da EIP-7918 é, por definição, 1/16 dessa taxa base, um L1 estruturalmente mais barato arrastaria consigo um piso de blob estruturalmente mais barato.

Isto não é uma certeza, é uma hipótese condicionada a três fatores que ainda não estão resolvidos: se a procura por gás no L1 crescer ao mesmo ritmo da nova oferta (por exemplo, por via de aplicações que preferem liquidação direta no L1 agora que fica mais barato fazê-lo), o efeito sobre a taxa base pode ser nulo ou até inverso; se o Glamsterdam atrasar para lá de 2026, como já aconteceu com upgrades anteriores da Ethereum; e se os operadores de blocos decidirem manter o limite de gás efetivo bem abaixo do máximo teórico de 200 milhões por precaução, tal como fizeram durante anos com os 60 milhões atuais, herdados de subidas gradual desde os 30 milhões de 2021.

Dito isto, a direção do argumento é consistente com o desenho do protocolo: a Ethereum está, pela primeira vez desde a criação da EIP-7918, prestes a mexer deliberadamente na variável que define o piso das taxas L2, e não apenas na oferta de blobs em torno dela. É essa a diferença central entre a fase de compressão 2024-2026, motivada por mais blobs, e a fase 2026-2028, potencialmente motivada por um L1 mais barato.

Quanto custa usar cada L2 em euros, agora

Com o euro a negociar perto de 1,67 mil dólares por ETH, segundo dados recolhidos junto do CoinGecko, e o câmbio EUR/USD próximo de 1,14, a fotografia atual das taxas L2 fica assim, com valores aproximados para meados de julho de 2026 recolhidos a partir do L2Beat e do L2Fees.info. Estes números oscilam ao longo do dia consoante o preço do gás no L1 e o congestionamento de cada rede, por isso devem ser lidos como ordem de grandeza e não como cotação fixa.

L2Transferência simples (aprox.)Swap ou interação DeFi (aprox.)
Base€0,01 a €0,02€0,05 a €0,10
Arbitrum One€0,02 a €0,04€0,08 a €0,15
OP Mainnet€0,02 a €0,03€0,08 a €0,12
Linea€0,02 a €0,04€0,08 a €0,15
zkSync Era€0,03 a €0,06€0,10 a €0,20
Starknet€0,04 a €0,08€0,15 a €0,30
Ethereum L1 (referência)€0,80 a €1,20€3 a €6

O contraste com o L1 continua a ser a melhor forma de visualizar a compressão: usar uma L2 custa hoje entre um trigésimo e um centésimo do que custa liquidar diretamente na camada base. Mas reparem no que já não aparece nesta tabela: uma diferença competitiva relevante entre L2s. Em 2023, escolher a L2 mais barata podia significar pagar metade ou um terço do que se pagava noutra rede. Em 2026, a diferença entre a mais barata e a mais cara desta lista, excluindo o L1, é de poucos cêntimos.

Quando o preço deixa de vender: a crise de identidade das L2

Em fevereiro de 2026, Vitalik Buterin publicou uma crítica direta às L2 que ainda se apresentam apenas como versões mais baratas da Ethereum. Segundo a cobertura do CoinDesk, Buterin escreveu que «já não precisamos de mais cadeias EVM copiadas-coladas» («we don’t need more copypasta EVM chains», no original), e resumiu o problema numa frase que ficou colada ao debate desde então: «vibes need to match substance», ou seja, a narrativa de marketing de cada L2 precisa de corresponder ao que a rede realmente faz de diferente. O argumento de fundo é que, com o L1 a ficar mais rápido e mais barato por si só, lançar mais uma cadeia cuja única proposta de valor é «Ethereum, mas mais barata» deixou de ser justificação suficiente.

As respostas dos próprios líderes de L2, recolhidas pela Crypto Economy, mostram posições diferentes. Jesse Pollak, responsável pela Base, concordou publicamente que as L2s «não podem ser apenas ‘Ethereum, mas mais barata’», classificando a evolução do L1 como «uma vitória para todo o ecossistema», e apontou a integração de conta abstrata, privacidade e distribuição junto de utilizadores como os eixos onde a Base quer competir a partir de agora. Já Steven Goldfeder, cofundador da Arbitrum, discordou de forma mais direta, afirmando que «a Arbitrum não é a Ethereum» e defendendo que scaling continua a ser fundamental, citando períodos em que a Arbitrum processou mais de mil transações por segundo enquanto a Ethereum processava uma fração disso. Karl Floersch, da Optimism Foundation, ocupou uma posição intermédia: aceitou o desafio de construir uma pilha modular capaz de suportar «todo o espectro de descentralização», mas admitiu que a rede ainda tem problemas por resolver, incluindo janelas de levantamento longas e provas de Stage 2 que, nas suas palavras, «ainda não estão prontas para produção».

Esta discussão pública, entre as figuras mais influentes do ecossistema, é o sintoma mais claro de que a compressão de taxas mudou a natureza da concorrência entre L2s. Quando o preço já não diferencia, resta competir em distribuição de utilizadores, integração com carteiras, profundidade de liquidez DeFi, ou parcerias institucionais, o mesmo tipo de vantagem que já vimos a decidir vencedores noutras corridas de capital dentro da cripto, como descrevemos na nossa cobertura das tesourarias cripto corporativas, onde a distribuição e a credibilidade institucional pesam tanto ou mais do que a proposta técnica.

Os números da consolidação: quem sobrevive à compressão

Um relatório da gestora de ativos 21Shares, sintetizado pela TradingView, coloca números concretos por trás da crise de identidade descrita acima. No final de 2025, Base, Arbitrum e Optimism, juntas, já processavam cerca de 90% de todas as transações em L2, com a Base sozinha a ultrapassar 60% desse volume. A Base foi, segundo o mesmo relatório, a única L2 que fechou 2025 com lucro, cerca de 55 milhões de dólares, apoiada na distribuição direta da Coinbase junto de milhões de utilizadores.

Do outro lado da tabela, a 21Shares descreve mais de 50 L2s ativas, muitas delas já classificadas como «zombie chains», redes com atividade mínima e liquidez esgotada. A atividade nas rollups mais pequenas caiu 61% desde meados de 2025, à medida que a guerra de preços desencadeada pela Dencun empurrou a maioria delas para prejuízo estrutural: pagam para manter sequenciadores e infraestrutura, mas já não conseguem cobrar o suficiente para compensar esse custo, porque a concorrência as obrigou a alinhar preços com o piso técnico da EIP-7918. A conclusão do relatório é que o ecossistema deve consolidar-se em torno de redes alinhadas com a Ethereum, de alto desempenho, ou apoiadas por exchanges com distribuição própria, exactamente o tipo de vantagem que já não se mede em cêntimos por transação.

O que preveem os analistas para 2027 e 2028

Em vez de construir apenas um cenário otimista e um pessimista, como já fizemos noutras análises deste tema, esta tabela reúne o que diferentes fontes já publicaram sobre o rumo das taxas e da estrutura de mercado das L2 até 2028, incluindo a nossa própria leitura editorial identificada como tal.

FonteO que prevêMecanismo apontado
21SharesConsolidação acentuada: a maioria das L2 pequenas desaparece ou torna-se irrelevantePreço deixou de ser vantagem competitiva; distribuição e alinhamento com a Ethereum decidem quem sobrevive
Fidelity Digital AssetsBlobs podem representar entre 30% e 50% da queima total de ETH em 2026, apesar da taxa unitária ser baixaVolume compensa o preço unitário comprimido
Justin Drake / Ethereum Foundation («Lean Ethereum»)Visão a dez anos de «abundância de performance», com o L1 a suportar ordens de grandeza mais transaçõesRoadmap multi-fork (Fusaka, Glamsterdam e sucessores) a reduzir progressivamente o custo por transação em toda a pilha
HOGE Wire (leitura editorial própria)Compressão adicional moderada nas taxas medianas até final de 2027 se o Glamsterdam ativar dentro do calendário e a procura por gás L1 não acompanhar a nova ofertaDescida indireta do piso da EIP-7918 via queda da taxa base de execução no L1

O padrão comum a estas quatro leituras, apesar de partirem de ângulos diferentes, é que nenhuma delas aposta em taxas a subir de forma sustentada. A divergência está no «porquê» e no «para quem»: a 21Shares fala de sobrevivência de projetos, a Fidelity fala de receita para a própria Ethereum, a Ethereum Foundation fala de capacidade técnica a dez anos, e a nossa leitura foca-se especificamente no mecanismo que pode reabrir a compressão depois de 2026.

O novo campo de batalha: abstração de cadeias e intents

Se o preço deixou de diferenciar, para onde se desloca a concorrência? Uma resposta cada vez mais visível em 2026 é a camada de interoperabilidade. A norma ERC-7683, um standard aberto para «intents» entre cadeias, permite que um utilizador declare o resultado que quer (por exemplo, «quero 100 USDC na Base, não me interessa de onde saem») e deixe que uma rede de «solvers» especializados compita para executar essa transação da forma mais eficiente possível, movendo liquidez entre L2s nos bastidores.

Protocolos como Across, UniswapX, CoW Protocol e Eco já têm implementações de produção deste standard em funcionamento. O efeito prático é que a fragmentação de liquidez entre dezenas de L2s, historicamente um dos maiores atritos de usar cripto, começa a ficar invisível para quem usa uma carteira compatível: a cadeia deixa de ser uma escolha consciente do utilizador e passa a ser um detalhe de execução, resolvido pelo solver mais competitivo. Isto reforça a tese central deste artigo: numa fase em que todas as L2 grandes cobram valores semelhantes, ganhar a corrida pela abstração de cadeias, ou seja, tornar-se o destino de execução preferido dos solvers, pode valer mais do que ganhar a corrida pelo cêntimo mais barato.

O dilema do value accrual, outra vez

A compressão de taxas tem um efeito colateral que já discutimos noutras análises, mas que ganha nova urgência com a perspetiva de um piso ainda mais baixo: menos ETH queimado. Cada transação processada no L1, incluindo a publicação de blobs, queima uma parte da taxa paga, ao abrigo da EIP-1559. Se as L2 pagam cada vez menos por blob, e se o Glamsterdam eventualmente baixar também a taxa base de execução, a quantidade de ETH retirada de circulação por essa via tende a encolher, mesmo que o número de transações continue a crescer.

A isto soma-se a concorrência de camadas de disponibilidade de dados externas à Ethereum, como a Celestia e a EigenDA, que competem diretamente pelo mesmo tipo de procura que hoje enche os blobs da Ethereum, normalmente a custos significativamente mais baixos por megabyte. Cada L2 que migra o seu tráfego de dados para uma dessas alternativas é procura que já não paga sequer o piso da EIP-7918 à Ethereum. É uma dinâmica que lembra, guardadas as devidas proporções, a concentração de capital que já documentámos no nosso artigo sobre o colapso de TVL no restaking: quando a receita por unidade cai, o capital e a atividade tendem a concentrar-se nos poucos locais onde ainda compensa operar, e a esvaziar-se de todos os outros.

Portugal: CMVM, Banco de Portugal e o fim do regime transitório

Para quem opera ou investe a partir de Portugal, há um marco regulatório que coincide quase exatamente com esta janela de previsão: a Lei n.º 69/2025, publicada em Diário da República a 22 de dezembro de 2025 e em vigor desde 27 de dezembro do mesmo ano, transpõe o Regulamento MiCA para o quadro nacional e divide a supervisão entre dois reguladores. A CMVM fica responsável pela emissão de criptoativos que não sejam tokens referenciados a ativos nem tokens de moeda eletrónica, pela prevenção de abuso de mercado e pelos deveres gerais de conduta. O Banco de Portugal supervisiona a emissão e oferta pública de tokens referenciados a ativos e de moeda eletrónica, os requisitos prudenciais e as participações qualificadas.

O detalhe mais relevante para 2026 é o fim do regime transitório: entidades já registadas junto do Banco de Portugal a 30 de dezembro de 2024 podiam continuar a operar até 1 de julho de 2026, ou até obterem uma decisão sobre o pedido de autorização MiCA, o que ocorresse primeiro. Essa data já passou há duas semanas em relação à publicação deste artigo, o que significa que qualquer prestador de serviços de criptoativos a operar a partir de Portugal sem autorização MiCA formal está, neste momento, fora do prazo transitório. As coimas para contraordenações muito graves variam entre 25 mil e 5 milhões de euros para pessoas coletivas. Para quem acompanha os fluxos institucionais que entram e saem do setor, vale a pena cruzar este contexto regulatório com a nossa cobertura dos fluxos dos ETF de Bitcoin e Ethereum, já que a clareza regulatória tende a ser um dos fatores que instituições europeias referem antes de alocar capital a produtos ligados a criptoativos.

O que pode travar, ou acelerar, esta previsão

Nenhuma previsão sobre taxas de rede sobrevive intacta ao contacto com a realidade, por isso vale a pena listar o que pode desviar este cenário em qualquer direção.

  • Atraso do Glamsterdam: upgrades da Ethereum já derraparam antes; se a ativação escorregar para 2027, a janela para o piso descer também escorrega.
  • Procura por gás L1 a acompanhar a nova oferta: se aplicações institucionais decidirem liquidar diretamente no L1 agora que fica mais barato, a taxa base pode não cair tanto quanto o aumento de capacidade sugeriria.
  • BPO3 e BPO4 continuam em pausa enquanto as equipas de cliente analisam telemetria de rede dos dois primeiros forks, o que significa que a via da oferta de blobs, por agora, não é prioridade de curto prazo.
  • Incidentes de segurança em L2 mais pequenas e com orçamento reduzido para auditorias tendem a acelerar a fuga de utilizadores para as redes maiores; a nossa cobertura sobre quem paga a conta quando a cripto é hackeada mostra como esses custos raramente são absorvidos de forma indolor pelos protocolos mais pequenos.
  • Migração de dados para Celestia ou EigenDA pode reduzir ainda mais a receita direta da Ethereum vinda de blobs, independentemente do que acontecer ao piso técnico.

Conclusão: o que vigiar até 2028

A fase fácil da compressão de taxas, aquela em que bastava adicionar mais blobs para cortar custos em dezenas de pontos percentuais de uma vez, terminou com o BPO2 em janeiro de 2026. A próxima fase, se existir, depende de uma variável muito mais lenta e política: o custo de execução no L1, que só desce de forma sustentada se o Glamsterdam ativar a tempo e se a procura não absorver toda a nova capacidade. Isso pode demorar até final de 2026 ou 2027 a ficar claro nos dados.

Entretanto, a história mais imediata já não é técnica, é competitiva. Com Base, Arbitrum e Optimism a concentrar cerca de 90% do volume de transações em L2 e a maioria das redes mais pequenas a operar como «zombie chains», a pergunta relevante para 2026-2028 não é apenas quanto vai custar uma transação, é que L2s ainda vão existir para processar essa transação. Vale a pena vigiar três sinais concretos: o calendário oficial de testnets do Glamsterdam a aproximar-se da ativação em mainnet; o volume processado pelas L2 fora do top três, para perceber se a consolidação da 21Shares se está a confirmar; e o número de integrações de produção via ERC-7683, como termómetro de quantas L2s ainda conseguem atrair solvers e liquidez apesar de já não competirem em preço.

Perguntas frequentes

As taxas das L2 da Ethereum vão continuar a descer em 2026 e 2027?

É improvável que desçam ao ritmo dramático de 2024, porque a EIP-7918 já impõe um piso técnico ligado ao custo de execução do L1. Uma nova descida sustentada depende sobretudo do Glamsterdam, previsto para o segundo semestre de 2026, e de a procura por gás no L1 não crescer ao mesmo ritmo da nova capacidade que esse upgrade viabiliza.

O que é a EIP-7918 e porque impede as taxas de chegarem a zero?

É a proposta ativada com o upgrade Fusaka que define um custo mínimo para cada blob, equivalente a 1/16 do custo de execução no L1. Antes desta regra, a taxa de um blob podia cair para praticamente zero sempre que a procura fosse baixa; agora, mesmo com pouca procura, as L2 continuam a pagar um valor mínimo proporcional ao custo do L1.

Qual é a L2 da Ethereum mais barata em 2026?

Com base em dados recolhidos junto do L2Beat e do L2Fees.info, a Base tende a apresentar as taxas mais baixas para transferências simples, seguida de perto por Arbitrum One, OP Mainnet e Linea. As diferenças entre as L2 maiores são hoje de poucos cêntimos, muito menores do que em 2023 ou 2024.

O upgrade Glamsterdam vai baixar ainda mais as taxas das L2?

Potencialmente sim, mas de forma indireta. O Glamsterdam não altera diretamente as taxas de blob; visa quase triplicar o limite de gás do L1, de 60 para cerca de 200 milhões. Se essa nova capacidade não for totalmente absorvida pela procura, a taxa base de execução tende a descer, e como o piso da EIP-7918 está ligado a essa taxa, o custo mínimo dos blobs desceria também.

As L2 mais pequenas vão desaparecer com a compressão de taxas?

Segundo um relatório da 21Shares, mais de 50 L2 já mostram sinais de se tornarem «zombie chains», com atividade a cair 61% desde meados de 2025, porque deixaram de conseguir cobrar o suficiente para cobrir custos de sequenciador numa altura em que o preço convergiu para o mesmo piso técnico em toda a indústria. A consolidação em torno de Base, Arbitrum e Optimism, que já processam cerca de 90% do volume de L2, deverá continuar.

Artigo escrito pela redação da HOGE Wire.

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