Tesourarias cripto corporativas: o guia completo de 2026
Da Strategy à GameSquare, dezenas de empresas cotadas compram bitcoin, ether e solana para o balanço. Explicamos o mNAV, os protagonistas e o que a CMVM realmente supervisiona.
Em julho de 2026, a Strategy vendeu bitcoin pela maior quantia da sua história. Na mesma semana, uma antiga fabricante japonesa de acessórios de viagem confirmou ter ultrapassado as 43.000 bitcoin em reservas, e uma agência de esports cotada na Nasdaq revelou deter mais de 15.000 ether no balanço. Nenhuma destas empresas nasceu para negociar criptoativos. É precisamente isso que torna o fenómeno das tesourarias cripto corporativas, conhecidas pela sigla DAT (Digital Asset Treasury), uma das histórias mais consequentes do mercado em 2026.
Este artigo explica o que são estas tesourarias, como funciona o mecanismo financeiro que as sustenta, e que em certas condições as pode empurrar para vendas forçadas, quem são os principais protagonistas em bitcoin, ether e solana, e o que a regulação europeia, incluindo a portuguesa, efetivamente supervisiona. Os valores citados referem-se a meados de julho de 2026 e podem mudar rapidamente: o bitcoin ronda os 56.700 euros, o ether os 1.640 euros e a solana os 68 euros, com o câmbio euro/dólar perto de 1,14, segundo dados da CoinGecko.
O que são as tesourarias cripto corporativas
Uma tesouraria cripto corporativa é uma empresa cotada em bolsa que usa o seu balanço, financiado por emissão de ações, dívida convertível, linhas de crédito ou fluxo de caixa operacional, para comprar e manter criptoativos como reserva estratégica de longo prazo. A empresa mantém uma atividade formal, por vezes irrelevante para o negócio original, por vezes ligada a ele, mas o mercado passa a avaliá-la, em boa parte, pelo valor da cripto que guarda.
O modelo nasceu em agosto de 2020, quando a então MicroStrategy, uma empresa de software empresarial liderada por Michael Saylor, anunciou a compra dos seus primeiros bitcoin como reserva de tesouraria, invocando proteção contra a desvalorização do dólar. A ideia manteve-se marginal durante anos, até a subida do preço do bitcoin, a clareza regulatória crescente nos EUA e o sucesso bolsista da própria Strategy (entretanto renomeada) convencerem dezenas de outras empresas a copiar o modelo entre 2024 e 2026, primeiro para bitcoin, depois para ether e, mais recentemente, para solana.
Para muitos investidores, uma ação de tesouraria cripto oferece uma forma familiar de exposição indireta, através de uma conta de corretora comum, sem necessidade de abrir conta numa exchange ou gerir a própria custódia. Isso é particularmente relevante na Europa, onde a diretiva UCITS impede a existência de fundos cotados de ativo único como o bitcoin (mais sobre os fluxos dos ETF de bitcoin e ethereum nos EUA, que não têm equivalente direto na União Europeia); uma ação como a da Capital B, cotada em Paris, não tem essa limitação estrutural, porque é apenas uma ação ordinária. Segundo agregadores especializados, o número de empresas cotadas com reservas relevantes de cripto no balanço já se conta às centenas, com um valor agregado na ordem das dezenas de milhares de milhões de euros.
| Empresa | Ticker / mercado | Ativo principal | Reservas | Valor aproximado |
|---|---|---|---|---|
| Strategy | MSTR, Nasdaq | Bitcoin | 843.775 BTC | ≈€47,8 mil milhões |
| Twenty One Capital | XXI, NYSE | Bitcoin | 43.514 BTC | ≈€2,47 mil milhões |
| Metaplanet | 3350 (Tóquio) / MTPLF | Bitcoin | 43.000 BTC | ≈€2,44 mil milhões |
| Capital B | ALCPB, Euronext Growth Paris | Bitcoin | 3.139 BTC | ≈€178 milhões |
| BitMine Immersion | BMNR, NYSE | Ether | 5,77 milhões ETH | ≈€9,48 mil milhões |
| SharpLink Gaming | SBET, Nasdaq | Ether | 886.725 ETH | ≈€1,46 mil milhões |
| Forward Industries | FWDI, Nasdaq | Solana | 7,55 milhões SOL | ≈€512 milhões |
| GameSquare | GAME, Nasdaq | Ether | 15.502 ETH | ≈€25,5 milhões |
mNAV: o multiplicador que faz, e desfaz, o modelo
A métrica central para perceber se uma tesouraria cripto está saudável chama-se mNAV, «multiple to net asset value». Calcula-se dividindo o valor de mercado, ou o valor empresarial, que soma dívida e subtrai caixa, pelo valor de mercado dos criptoativos detidos. Um mNAV de 2x significa que os investidores pagam o dobro do valor da cripto só para ter exposição indireta a ela através da ação.
Enquanto o mNAV se mantém acima de 1x, a empresa consegue emitir novas ações ou dívida convertível a um preço superior ao valor dos seus ativos, usar o produto para comprar mais cripto, e assim aumentar a quantidade de bitcoin ou ether por ação, mesmo depois da diluição. É o que no jargão do setor se chama o «flywheel»: quanto maior o prémio, mais capital barato a empresa consegue levantar, mais cripto compra, e mais a narrativa de crescimento se reforça.
O problema surge quando o prémio se comprime. Emitir ações abaixo do valor líquido dos ativos dilui os acionistas existentes sem lhes dar mais cripto por ação em troca, o inverso do flywheel. Foi exatamente isso que aconteceu à Strategy: a 27 de junho de 2026, o mNAV da empresa, numa base de valor empresarial, caiu abaixo de 1,0x pela primeira vez desde que o modelo começou, com o valor empresarial a rondar os 50,4 mil milhões de dólares contra bitcoin avaliado em cerca de 51,1 mil milhões, segundo a CoinDesk. O rácio já tinha estado em 3,89x no pico de novembro de 2024. Duas semanas depois, com o bitcoin a recuperar parte do terreno perdido, o mNAV empresarial da Strategy voltou a subir para cerca de 1,03x a 6 de julho, segundo dados compilados pela The Block, uma boa ilustração de como esta métrica pode oscilar em poucos dias.
Strategy: o pioneiro sob pressão inédita
A Strategy (Nasdaq: MSTR), a antiga MicroStrategy de Michael Saylor, continua a ser, de longe, a maior tesouraria cripto do mundo: 843.775 bitcoin, avaliados a preços atuais em cerca de 47,8 mil milhões de euros, comprados por um custo acumulado de aproximadamente 63,7 mil milhões de dólares (perto de 55,8 mil milhões de euros) desde 2020. Aos preços de hoje, isso traduz-se numa perda contabilística não realizada de cerca de 10,7 mil milhões de dólares face ao custo médio de aquisição, segundo a The Block.
A 5 de julho de 2026, a empresa vendeu 3.588 bitcoin por 216 milhões de dólares, a maior alienação única da sua história, e a primeira vez que a Strategy vendeu bitcoin explicitamente para financiar o pagamento de dividendos das suas ações preferenciais, e não para gerir dívida ou comprar mais cripto. Movimentos desta escala não passam despercebidos: são exatamente o tipo de transferência que os serviços de whale alerts assinalam em tempo real quando uma carteira institucional desloca milhares de bitcoin de uma só vez.
Entre 6 e 12 de julho, a Strategy não comprou nem vendeu bitcoin, mas vendeu 4.818.781 ações MSTR por cerca de 466,7 milhões de dólares, elevando a sua reserva em dólares para 3 mil milhões, segundo o relatório da The Block de 13 de julho citado acima. A manobra insere-se num novo «Digital Credit Capital Framework» anunciado pela empresa, que combina uma reserva em dólares equivalente a cerca de 17 meses de cobertura de dividendos e juros, um aumento da taxa de dividendo numa das suas classes de ações preferenciais, um programa de recompra de mil milhões de dólares para os seus próprios títulos de crédito digital, outro programa de recompra de mil milhões para ações ordinárias, e um programa de monetização de bitcoin que autoriza explicitamente a venda de reservas quando necessário.
Matthew Sigel, responsável de investigação em ativos digitais da VanEck, resumiu a mudança sem rodeios num podcast com o analista Scott Melker: «está a comprar um hedge fund que consegue negociar cinco coisas: a sua própria estrutura de capital e bitcoin», disse, questionando que múltiplo de lucros a empresa merece agora que deixou de ser uma simples proxy de compra e detenção; quando lhe perguntaram que preço pagaria por essas ações, respondeu que pagaria «muito pouco», segundo a Stocktwits. Sigel foi mais longe num artigo no blog da própria VanEck, propondo que empresas como a Strategy incluam uma cláusula de «testamento vital» nos seus prospetos, um mecanismo de liquidação ordenada forçada caso o mNAV se mantenha abaixo de um determinado múltiplo durante um período definido, precisamente para proteger os acionistas do cenário que quase se concretizou em junho (VanEck).
Twenty One Capital: o desafiante apoiado pela Tether
Atrás da Strategy, mas à frente da Metaplanet, está a Twenty One Capital (NYSE: XXI), hoje a segunda maior detentora corporativa de bitcoin do mundo, com cerca de 43.514 BTC, perto de 2,47 mil milhões de euros aos preços atuais. A empresa começou a negociar em bolsa a 9 de dezembro de 2025, depois de uma fusão com a Cantor Equity Partners, uma SPAC ligada ao banco de investimento Cantor Fitzgerald. É cofundada por Jack Mallers, fundador e presidente executivo da Strike, e detida maioritariamente pela Tether, a emissora da stablecoin USDT, que em maio de 2026 comprou a participação que a SoftBank ainda mantinha na empresa, assumindo o controlo total.
Em abril de 2026, durante a conferência Bitcoin 2026, a Tether propôs uma fusão a três entre a Twenty One Capital, a Strike (a plataforma de serviços financeiros em bitcoin também liderada por Mallers) e a Elektron Energy, uma mineradora com cerca de 50 EH/s de capacidade, perto de 5% da hashrate total da rede bitcoin, segundo a CoinDesk. O objetivo declarado é transformar a XXI na maior empresa pública de bitcoin do mundo, combinando tesouraria, mineração, serviços financeiros, crédito e mercados de capitais numa única estrutura. Até à data, a proposta não tem termos nem calendário definidos, mas ilustra bem para onde o modelo DAT pode evoluir: de uma posição passiva em bitcoin para um conglomerado vertical construído à volta do próprio ativo.
Metaplanet: a tesouraria que gera rendimento em Tóquio
A Metaplanet (Tóquio: 3350; também negociada nos EUA via OTCQX sob o símbolo MTPLF) é a terceira maior tesouraria corporativa de bitcoin do mundo, com 43.000 BTC a 2 de julho de 2026, cerca de 2,44 mil milhões de euros aos preços atuais, comprados por um custo acumulado de 4,09 mil milhões de dólares (perto de 3,58 mil milhões de euros), a um preço médio de 95.209 dólares por bitcoin, segundo a CoinDesk.
O que distingue a Metaplanet é a forma como financia parte das suas compras. O negócio de «Bitcoin Income Generation», que vende opções sobre bitcoin para gerar prémio, rendeu cerca de 10,85 milhões de dólares só no segundo trimestre de 2026, o que reduziu o custo efetivo por moeda para perto de 77.000 dólares, abaixo do preço médio de compra de 80.000 dólares registado nesse trimestre. Segundo a empresa, as compras do segundo trimestre foram financiadas sobretudo por linhas de crédito, emissão de obrigações comuns e pelo próprio rendimento das opções, e não por diluição acionista, uma estrutura de capital claramente mais conservadora do que a da Strategy.
A ambição, porém, é enorme: o chamado «555 Million Plan» da empresa aponta para 100.000 bitcoin até ao final de 2026 e 210.000 até ao final de 2027. Com 43.000 BTC em carteira e seis meses para cumprir a primeira meta, a Metaplanet precisaria de acrescentar, em média, cerca de 9.500 bitcoin por mês, um ritmo muito superior ao registado até agora, o que faz da meta um objetivo declaradamente ambicioso mais do que uma projeção linear.
Capital B: a resposta europeia, em Paris
A Capital B (Euronext Growth Paris: ALCPB), antiga The Blockchain Group até ser renomeada em julho de 2025, foi a primeira tesouraria cripto corporativa da Europa, desde novembro de 2024. A empresa detém hoje cerca de 3.139 bitcoin, comprados por um custo acumulado de 283,8 milhões de euros a um preço médio de 90.418 euros por bitcoin. Aos preços atuais, essa posição vale cerca de 178 milhões de euros, ou seja, quase 40% abaixo do custo médio de aquisição, uma ilustração, à escala europeia, do mesmo mecanismo de compressão de prémio que empurrou o mNAV da Strategy abaixo de 1,0x em junho.
A 17 de junho de 2026, uma assembleia geral aprovou, com mais de 95% dos votos, um quadro que permite à Capital B levantar capital ou linhas de crédito até um limite máximo de 105 mil milhões de euros, um teto ambicioso e não um montante já angariado, ao serviço de duas metas: 15.000 bitcoin até ao final de 2027, e 1% de todo o fornecimento de bitcoin até 2033. A empresa está também a explorar um instrumento de crédito garantido por bitcoin inspirado na STRC da própria Strategy.
Não existe, para já, nenhuma tesouraria cripto cotada em Portugal. Um investidor português que procure exposição direta por ação tende a olhar para a Capital B em Paris, ou a comprar diretamente ações da Strategy, da Twenty One Capital ou da Metaplanet através de um corretor internacional, tal como faria com qualquer outra ação estrangeira.
Ethereum entra na corrida: Tom Lee, Joseph Lubin e o staking corporativo
Se o bitcoin tem a Strategy, a Twenty One Capital e a Metaplanet, o ether tem a BitMine Immersion (NYSE: BMNR) e a SharpLink Gaming (Nasdaq: SBET) a disputar a liderança. A BitMine, presidida por Tom Lee, cofundador da Fundstrat e conhecido por previsões otimistas sobre o ether, detinha 5,77 milhões de ETH a 13 de julho de 2026, cerca de 4,8% de todo o fornecimento em circulação, com um valor total de cripto e caixa de 11,3 mil milhões de dólares (perto de 9,9 mil milhões de euros), segundo a CoinDesk. A empresa subiu de bolsa, da NYSE American para a NYSE principal, a 9 de abril de 2026, e opera a MAVAN, uma plataforma própria de staking. Lee associa diretamente a aposta da BitMine à evolução regulatória nos EUA: «acreditamos que a clareza regulatória é um marco importante, que permite que a cripto, particularmente plataformas de contratos inteligentes como o Ethereum, beneficie à medida que a cripto se torna parte do nosso quotidiano», disse à CoinDesk.
A SharpLink Gaming, presidida por Joseph Lubin, cofundador da Ethereum e presidente executivo da Consensys, detinha 886.725 ETH a 28 de junho de 2026 (632.719 em ether nativo, o resto em derivados de staking líquido como o LsETH e o weETH), segundo um comunicado da própria empresa. É o mesmo mecanismo de rendimento extra que já explorámos em detalhe no nosso guia sobre restaking na Ethereum: em vez de deixar o ether parado, uma parte da reserva fica exposta a protocolos de staking líquido que geram rendimento adicional. No mesmo período, a SharpLink recomprou mais de 2,1 milhões das suas próprias ações, uma dupla aposta em comprar mais ether e, simultaneamente, reduzir o número de ações em circulação. Lubin já chamou ao modelo DAT «uma inovação bastante profunda», apontando a SharpLink e a BitMine como guardiãs de longo prazo do ecossistema Ethereum, segundo a The Block.
A 14 de julho de 2026, a BitMine, a SharpLink e o próprio Lubin anunciaram apoio à EthSystems, uma nova empresa de infraestrutura institucional para a Ethereum, fundada por antigos investigadores da Ethereum Foundation que tinham trabalhado no grupo de privacidade institucional da própria fundação. O objetivo é permitir que bancos e gestoras de ativos reguladas transacionem na rede Ethereum sem revelar dados de negociação, posições ou informação de clientes. O mercado reagiu com entusiasmo no próprio dia: as ações da BitMine subiram mais de 11%, as da SharpLink perto de 10%, e o próprio ether valorizou mais de 6%. O episódio mostra as tesourarias de ether a irem além da simples acumulação passiva, investindo diretamente na infraestrutura que pode justificar a aposta a prazo.
Solana e a consolidação das tesourarias mais pequenas
A solana é o terceiro grande ativo a atrair tesourarias corporativas dedicadas, com a Forward Industries (Nasdaq: FWDI), presidida por Kyle Samani, cofundador da Multicoin Capital, na liderança. A empresa detinha 7,55 milhões de SOL a 30 de junho de 2026, depois de comprar mais de 500.000 SOL só nesse trimestre fiscal a um preço médio de cerca de 79 dólares, segundo a Solana Compass. A empresa reivindica um crescimento anualizado de 36% na quantidade de solana por ação, e beneficiou da inclusão nos índices Russell 2000 e Russell 3000, o que atrai compra passiva de fundos indexados. A Forward Industries está também a estudar aquisições de tesourarias de solana mais pequenas, um sinal de consolidação incipiente no setor.
A Upexi é outro nome relevante, com cerca de 2,4 milhões de SOL e uma parceria de staking com a Blueprint. No total, as tesourarias cotadas dedicadas a solana somam hoje cerca de 15,4 milhões de SOL espalhados por mais de uma dezena de empresas; muitas das mais pequenas, com 2 milhões de SOL ou menos, são candidatas plausíveis a serem compradas pelas maiores à medida que o setor se consolida, um padrão já visto repetidamente entre mineradoras de bitcoin.
Mineradoras como quase-tesourarias: MARA e Riot
As mineradoras de bitcoin ocupam uma posição híbrida. Como geram bitcoin novo como subproduto da própria atividade, decidem constantemente quanto vender e quanto guardar, e cada vez mais emitem dívida garantida pelas suas próprias reservas, funcionando, na prática, como tesourarias com um negócio operacional por baixo. A MARA Holdings vendeu 15.133 bitcoin por cerca de 1,1 mil milhões de dólares em março de 2026, especificamente para reduzir dívida, de 3,3 para 2,3 mil milhões de dólares, e recomprar obrigações convertíveis com desconto; mantém ainda cerca de 38.700 BTC em reserva, com a ação a rondar os 12 dólares, cerca de 25% abaixo do seu máximo recente.
A Riot Platforms vendeu 3.778 bitcoin a um preço médio de 76.626 dólares, mantendo cerca de 15.680 BTC. Em fevereiro de 2026, o fundo ativista Starboard Value enviou uma carta pública a pressionar a empresa a redirecionar capital da mineração pura para infraestrutura de inteligência artificial e centros de dados. Esta dupla pressão, a volatilidade do preço do bitcoin e o custo de oportunidade da inteligência artificial, está a empurrar as mineradoras para os mesmos dilemas de afetação de capital que as tesourarias puras enfrentam: guardar o ativo à espera de valorização, ou monetizá-lo para financiar o próximo pivô estratégico. Algumas destas operações aproximam-se do universo das operações de base entre o mercado à vista e os futuros, que já detalhámos noutro artigo, uma forma de rentabilizar reservas sem as vender de imediato.
Gaming e cripto: o caso GameSquare
Nem todas as tesourarias são veículos dedicados. A GameSquare (Nasdaq: GAME), uma empresa de media e esports, aprovou um programa de tesouraria e gestão de caixa em ether até 250 milhões de dólares, dos quais já implementou cerca de 63 milhões. A empresa detinha 15.502 ETH no primeiro trimestre de 2026, perto de 25,5 milhões de euros aos preços atuais, depois de o valor de mercado dessas reservas ter caído para 47,4 milhões de dólares a 31 de dezembro de 2025, refletindo a queda do preço do ether desde a entrada.
O objetivo declarado é gerar um rendimento anualizado entre 8% e 14% através de uma parceria com a Dialectic para estratégias de staking e DeFi on-chain, transformando uma reserva passiva em capital que gera retorno recorrente. A empresa mantém ainda uma alocação menor, de 2,5 milhões de dólares, à Animecoin Foundation, através de uma parceria de agência. Para quem segue tanto a cripto como os jogos, a GameSquare é o exemplo mais claro de como uma empresa operacional, com um negócio próprio de esports e marketing, pode sobrepor uma estratégia de tesouraria cripto ao negócio principal, em vez de se tornar um veículo dedicado como a Strategy ou a Metaplanet.
Tesourarias soberanas: os Estados Unidos e a Tether
O fenómeno não se limita a empresas privadas. Os Estados Unidos criaram uma Reserva Estratégica de Bitcoin por ordem executiva a 6 de março de 2025, que detinha cerca de 328.372 BTC em fevereiro de 2026, na totalidade proveniente de apreensões judiciais, sem qualquer compra em mercado aberto. A estrutura administrativa da reserva, sob alçada do Departamento do Tesouro ou do Departamento do Comércio, continuava por decidir em julho de 2026, segundo a CoinDesk. Tanto a proposta ARMA como a «BITCOIN Act» da senadora Cynthia Lummis, que aponta para 1 milhão de bitcoin, continuam pendentes no Congresso.
A Tether, emissora da stablecoin USDT, também acumula uma tesouraria de dimensão quase soberana: 132 toneladas de ouro, cerca de 20 mil milhões de dólares, no primeiro trimestre de 2026, uma reserva de bitcoin de cerca de 7 mil milhões de dólares, e uma exposição a dívida pública dos EUA de aproximadamente 141 mil milhões de dólares, o que a torna a 17ª maior detentora mundial de treasuries norte-americanas. A empresa reportou um lucro de 1,04 mil milhões de dólares só no primeiro trimestre, com reservas excedentárias recorde de 8,23 mil milhões. A Tether desempenha assim um duplo papel invulgar: gere a sua própria tesouraria multiativos como emissora de stablecoin, e é, ao mesmo tempo, acionista maioritária da Twenty One Capital.
Riscos estruturais: diluição, dívida e o índice MSCI
Para além da compressão do mNAV já descrita, as tesourarias cripto enfrentam três riscos estruturais adicionais. O primeiro é o calendário de vencimento da dívida convertível: a Strategy, por exemplo, tem obrigações de 1,01 mil milhões de dólares a uma taxa de 0,625%, com vencimento em 2028 e um direito de venda antecipada em março desse ano, e outras de 2 mil milhões de dólares sem juro, com vencimento em 2030. Se o preço do bitcoin permanecer deprimido perto dessas datas, refinanciar ou converter essa dívida em condições favoráveis torna-se muito mais difícil.
O segundo é a segurança operacional da própria custódia. Guardar milhares de milhões de euros em criptoativos exige práticas de custódia robustas, e a história recente do setor, que já analisámos em detalhe no nosso artigo sobre quem paga quando a cripto é hackeada, mostra que a fronteira entre uma tesouraria bem gerida e um incidente caro é muitas vezes uma questão de processos internos, não apenas de tecnologia.
O terceiro é o risco de exclusão de índices bolsistas. Em 2025, a MSCI abriu uma consulta sobre um «limiar de ativos digitais» que excluiria dos seus índices globais qualquer empresa com 50% ou mais dos ativos em criptoativos, o que ameaçava provocar vendas forçadas entre 10 e 15 mil milhões de dólares em 39 empresas, representando cerca de 113 mil milhões de dólares em capitalização bolsista flutuante. Na revisão de fevereiro de 2026, a MSCI optou por não alterar as regras, adiando a decisão; uma revisão mais ampla, que poderá distinguir o bitcoin de outros criptoativos ou aplicar limiares mais rígidos, continua em aberto. É um risco adiado, não resolvido.
Regulação na Europa e em Portugal: o que a CMVM (não) supervisiona
É aqui que surge a confusão mais comum entre investidores portugueses. O MiCA (Markets in Crypto-Assets), o regulamento europeu que entrou em vigor por fases desde 2024, regula prestadores de serviços de criptoativos (CASP, como exchanges e custodiantes) e emitentes de stablecoins (tokens ART e EMT). Não regula empresas industriais que simplesmente detêm bitcoin ou ether no balanço, sem prestar qualquer serviço de cripto a terceiros. Por isso, a Strategy, a Twenty One Capital, a Metaplanet, a Capital B, a BitMine ou a SharpLink são supervisionadas como emitentes cotados comuns, ao abrigo das regras de valores mobiliários, prospetos e abuso de mercado do seu país de origem. Só a negociação dos criptoativos subjacentes cai sob o regime de abuso de mercado do Título VI do MiCA, artigos 86 a 92, plenamente aplicável em toda a União a partir de 28 de julho de 2026; as próprias ações cotadas dessas empresas continuam sob a diretiva MiFID II e a lei nacional de abuso de mercado.
Em Portugal, a Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, distribui a supervisão entre duas entidades: o Banco de Portugal autoriza e supervisiona prudencialmente os CASP, incluindo partes dos Títulos III, IV e V do MiCA, enquanto a CMVM supervisiona a emissão de criptoativos que não sejam stablecoins, o abuso de mercado, e as obrigações de conduta dos próprios CASP, segundo um alerta legal da Morais Leitão. O período transitório para os VASP já registados junto do Banco de Portugal antes de 30 de dezembro de 2024 terminou a 1 de julho de 2026, há duas semanas: qualquer entidade que ainda não tenha obtido autorização plena ao abrigo do MiCA deve, a partir de agora, ter cessado a atividade em Portugal.
Nada disto se aplica, contudo, à Capital B, à Strategy, à Metaplanet, à BitMine ou à SharpLink, porque nenhuma delas presta serviços de cripto a clientes portugueses; são apenas empresas cotadas cujo balanço inclui criptoativos. Um investidor português que compre ações da MSTR, da XXI, da 3350 japonesa ou da ALCPB através de um corretor está a comprar uma ação estrangeira comum, protegida pelas regras de valores mobiliários e pelas obrigações do próprio corretor, não pelo MiCA. Ao contrário de um ETF cotado na União Europeia, sujeito às limitações da diretiva UCITS para fundos de ativo único, uma ação de tesouraria cripto não tem essa restrição estrutural, o que ajuda a explicar parte do apetite europeu por nomes como a própria Capital B.
Como avaliar uma tesouraria cripto: guia prático para investidores
Investir numa tesouraria cripto não é o mesmo que comprar bitcoin, ether ou solana diretamente. É, antes de mais, um investimento em ações, com todos os riscos habituais de uma empresa cotada, como diluição, insolvência, exclusão de índices ou dependência de gestores-chave, somados à volatilidade do criptoativo subjacente. Antes de investir, vale a pena verificar um conjunto de fatores:
- mNAV atual e a sua tendência recente: um prémio elevado e a diminuir é um sinal de alerta mais cedo do que um mNAV já abaixo de 1x.
- Origem do capital usado para comprar cripto: dívida, emissão de ações ou fluxo de caixa operacional têm implicações muito diferentes para os acionistas existentes.
- Calendário de vencimento da dívida convertível e condições de conversão ou de venda antecipada.
- Ritmo de diluição acionista, acompanhando a evolução do número de ações em circulação ao longo dos trimestres.
- Práticas de custódia: quem guarda as chaves, se existe seguro, e se já houve incidentes de segurança.
- Liquidez da própria ação: volume diário negociado e o spread entre compra e venda.
- Frequência e transparência da divulgação de reservas.
- Concentração num único ativo versus alguma diversificação entre bitcoin, ether ou solana.
Nenhum destes fatores, isoladamente, prevê o que vai acontecer ao preço de uma ação. Mas em conjunto ajudam a distinguir uma tesouraria com margem de segurança, como a Metaplanet, que financia grande parte das suas compras sem diluir acionistas, de uma tesouraria que depende quase inteiramente de emitir capital acima do valor dos seus ativos para continuar a crescer, uma estrutura que funciona bem em mercados em alta e se torna frágil precisamente quando mais se precisaria dela.
| Data (2026) | Empresa | Movimento |
|---|---|---|
| 2 de abril | Metaplanet | Compra 5.075 BTC, torna-se a 3ª maior tesouraria corporativa do mundo |
| 29 de abril | Twenty One Capital | Tether propõe fusão a três com a Strike e a Elektron Energy |
| 11 de maio | Capital B | Reserva ultrapassa as 2.900 BTC após nova colocação privada |
| Maio | Twenty One Capital | Tether compra a participação da SoftBank e assume o controlo total |
| 17 de junho | Capital B | Assembleia aprova quadro de financiamento até €105 mil milhões |
| 27 de junho | Strategy | mNAV cai abaixo de 1,0x pela primeira vez desde 2020 |
| 30 de junho | SharpLink | Compra mais ETH e recompra mais de 2,1 milhões de ações próprias |
| 1 de julho | Forward Industries | Reserva de solana atinge 7,55 milhões SOL |
| 2 de julho | Metaplanet | Reserva chega às 43.000 BTC |
| 5 de julho | Strategy | Vende 3.588 BTC, a maior alienação única da sua história |
| 13 de julho | BitMine | Reserva de ether atinge 5,77 milhões ETH, 4,8% do fornecimento |
| 14 de julho | BitMine, SharpLink | Apoiam o lançamento da EthSystems; as ações sobem em dois dígitos |
Perguntas frequentes
O que é uma tesouraria cripto corporativa (DAT)?
Uma tesouraria cripto corporativa, conhecida pela sigla inglesa DAT (Digital Asset Treasury), é uma empresa cotada em bolsa que usa o seu balanço, financiado por dívida, emissão de ações ou fluxo de caixa operacional, para comprar e manter criptoativos como bitcoin, ether ou solana como reserva estratégica. A Strategy, antiga MicroStrategy, foi pioneira do modelo a partir de 2020; hoje existem dezenas de empresas cotadas nos EUA, no Japão e na Europa a seguir a mesma lógica.
O que é o mNAV e porque é que os investidores lhe dão tanta atenção?
O mNAV mede quantas vezes o valor de mercado, ou o valor empresarial, de uma tesouraria excede o valor de mercado dos criptoativos que detém. Um mNAV acima de 1x permite à empresa emitir ações ou dívida convertível acima do valor dos seus ativos para comprar mais cripto por ação; um mNAV que cai para perto de 1x, ou abaixo, trava esse mecanismo e pode forçar vendas de ativos, como aconteceu à Strategy em finais de junho de 2026.
Porque é que a Strategy vendeu bitcoin em julho de 2026?
A 5 de julho de 2026, a Strategy vendeu 3.588 bitcoin por 216 milhões de dólares, a maior venda única da sua história, para financiar o pagamento de dividendos das suas ações preferenciais, depois de o mNAV da empresa ter caído abaixo de 1,0x pela primeira vez a 27 de junho. Foi a primeira vez que a empresa recorreu à venda de bitcoin para cobrir despesas correntes, e não apenas para comprar mais bitcoin ou gerir dívida.
As tesourarias cripto cotadas são supervisionadas pela CMVM?
Só em parte. A CMVM e o Banco de Portugal supervisionam prestadores de serviços de criptoativos ao abrigo do MiCA, não empresas industriais que apenas detêm bitcoin ou ether no balanço sem prestar serviços de cripto a terceiros. A Strategy, a Metaplanet, a Capital B, a BitMine ou a SharpLink são supervisionadas como emitentes cotados comuns, ao abrigo das regras de mercado do seu país de origem; só a negociação dos próprios criptoativos cai sob as regras de abuso de mercado do MiCA.
Quais são os principais riscos de investir numa ação de tesouraria cripto?
Para além da volatilidade do próprio criptoativo, um investidor fica exposto a diluição acionista quando a empresa emite novas ações para comprar mais cripto, ao risco de refinanciamento se a dívida convertível vencer com o mNAV baixo, ao risco de custódia dos próprios ativos, e à possibilidade de a empresa ser excluída de índices bolsistas relevantes, como quase aconteceu por proposta da MSCI em 2026.
Artigo da redação da HOGE Wire, atualizado a 15 de julho de 2026.