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A base dos futuros mudou de casa: o mapa da arbitragem em 2026

O Kalshi lançou o primeiro perpétuo regulado pela CFTC, a CME passou a negociar 24 horas por dia e a Fed dividiu-se numa reunião tensa. Eis o novo mapa de onde vive o carry trade cripto em 2026.

Em julho de 2025, a operação parecia dinheiro fácil: comprar bitcoin à vista através de um ETF, vender futuros na CME, e embolsar uma base anualizada de 20% a 25%, mais do dobro do que qualquer T-bill pagava na altura. Um ano depois, a mesma operação mal cobre os custos de financiamento. Mas reduzir 2026 a «a arbitragem morreu» é perder a história maior: o próprio mapa do mercado de derivados cripto mudou de forma. A CFTC aprovou o primeiro perpétuo regulado nos Estados Unidos, a CME passou a negociar futuros de bitcoin 24 horas por dia, sete dias por semana, e a Reserva Federal decidiu os juros de referência com uma dissidência que não se via há anos. Este guia mapeia onde vive agora o carry trade cripto, quem ainda o faz depois de os fundos especulativos terem recuado em massa, e porque é que a base de futuros continua a ser um termómetro fiável do mercado, mesmo com a febre muito mais baixa do que em 2024.

O que é a base de futuros (e porque voltou às manchetes em 2026)

A base de futuros é simplesmente a diferença entre o preço de um contrato de futuros e o preço à vista (spot) do ativo subjacente. Quando os futuros negoceiam acima do spot, o mercado está em contango; quando negoceiam abaixo, está em backwardation. Para comparar contratos com prazos diferentes, os traders anualizam a base: dividem a base relativa pelos dias até ao vencimento e multiplicam por 365. Um contrato a um mês com uma base relativa de 1% equivale, anualizado, a cerca de 12,2%; a mesma base relativa num contrato a três meses equivale a menos de metade disso, cerca de 4,1%.

A operação clássica que capta essa diferença chama-se cash and carry: comprar bitcoin à vista, normalmente através de um ETF spot, e vender, em simultâneo, um valor nocional equivalente em futuros. Se tudo correr como previsto, o lucro fica bloqueado no momento em que as duas pernas são executadas, e materializa-se na convergência dos preços no vencimento, independentemente de o bitcoin subir ou descer entretanto. É por isso que a imprensa financeira chama a esta estratégia «neutra ao preço» ou «quase sem risco», embora, como se vê mais à frente, o «quase» faça ali um trabalho pesado.

Em 2024 e na primeira metade de 2025, esta base rondou os 20% a 25% anualizados, turbinada pela entrada dos ETFs spot nos EUA e por um apetite de risco elevado. Ao longo de 2026, a mesma base comprimiu para valores de um só dígito, próximos ou mesmo abaixo do que um investidor ganharia sem qualquer risco só com dívida pública norte-americana de curto prazo. Este artigo explica porquê, e, mais importante, mostra que a compressão da base clássica na CME coincidiu com o nascimento de uma nova infraestrutura de negociação, o que muda onde e como esse carry ainda pode ser capturado.

Contango, backwardation e a fasquia dos juros sem risco

Para perceber se uma base de 4% ou 5% é boa ou má, é preciso compará-la com o custo de oportunidade do capital. Nos Estados Unidos, esse custo de oportunidade é essencialmente a yield de um T-bill a três meses, que acompanha de perto a taxa dos fundos federais. A 29 de julho de 2026, a Reserva Federal decidiu manter essa taxa entre 3,50% e 3,75%, na segunda reunião sob a liderança do novo presidente, Kevin Warsh, segundo o comunicado oficial do Federal Reserve Board. A decisão não foi unânime: três participantes (Beth Hammack, da Fed de Cleveland; Neel Kashkari, da Fed de Minneapolis; e Lorie Logan, da Fed de Dallas) votaram contra, preferindo uma subida de um quarto de ponto percentual, uma dissidência invulgarmente hawkish numa reunião que os mercados de opções, dias antes, davam como praticamente certa em manter os juros inalterados. Warsh resumiu o ambiente interno aos jornalistas: «Pedi uma boa discussão de família e tive uma.»

Um exemplo simplificado ajuda a perceber a fasquia: suponha um investidor que compra bitcoin à vista através de um ETF e vende, em simultâneo, um futuro a três meses com uma base relativa de 1,2%. Anualizada, essa base equivale a cerca de 4,9%. Depois de descontar custos de transação, comissões do ETF, o spread de execução em ambas as pernas e o custo de oportunidade de imobilizar margem, a operação pode facilmente cair para perto de zero, ou mesmo para território negativo, sobretudo se o investidor não tiver acesso a financiamento ao nível da taxa dos fundos federais. A base observada na CME funciona, assim, como um limite superior teórico do rendimento, não como o rendimento líquido que um investidor de retalho conseguiria replicar na prática; os bancos que entraram no trade em 2026 têm, tipicamente, um custo de capital mais baixo do que os hedge funds que saíram, o que ajuda a explicar por que a mesma base compensa uns e não compensa outros.

O que isto significa para a base de futuros é direto: se o custo de financiamento sem risco ronda os 3,5% a 3,75% e a base anualizada de bitcoin na CME anda por valores próximos disso, o prémio de risco que resta para compensar um trader por imobilizar capital, gerir margens e aceitar risco de contraparte é, na prática, marginal. É essa fasquia, e não um número redondo qualquer, que separa uma base «que ainda compensa» de uma base que só serve de termómetro de sentimento, sem ser uma oportunidade real de arbitragem.

O mapa dos venues: onde vive o carry cripto em 2026

Até 2026, «negociar a base de bitcoin» significava, na prática, um único par de instrumentos: o ETF spot contra o futuro da CME. Depois de maio de 2026, esse mapa ficou muito mais complexo, com pelo menos quatro tipos de venue a competir pelo mesmo capital, cada um com uma combinação diferente de regulação, mecanismo e alavancagem disponível. A tabela abaixo resume as diferenças.

VenueReguladorInstrumentoMecanismoAlavancagem de retalho (UE)
CME (Chicago Mercantile Exchange)CFTC (EUA)Futuros com data de vencimentoConvergência para o spot no vencimentoNão aplicável (acesso institucional)
Kalshi BTCPERPCFTC (EUA)Perpétuo reguladoFunding rateNão disponível fora dos EUA
DeribitOffshore; acesso institucional dos EUA via Coinbase BermudaPerpétuo e opçõesFunding rate2:1 (regime CFD da ESMA)
Binance e outras plataformas offshoreVária consoante a jurisdiçãoPerpétuoFunding rate2:1 (regime CFD da ESMA)

A fragmentação tem um efeito prático: já não basta olhar para a base anualizada da CME para saber quanto vale a arbitragem cripto. Uma parte do capital que antes só tinha a opção CME-contra-ETF pode agora perseguir o funding rate mais atrativo num perpétuo regulado, ou arbitrar a diferença entre o funding onshore e offshore. O mapa do volume cripto em 2026 já mostrava esta fragmentação entre CEX, DEX e derivados; a chegada de um perpétuo regulado pela CFTC é mais uma peça no mesmo puzzle, desta vez dentro do perímetro regulatório norte-americano.

Kalshi BTCPERP: o primeiro perpétuo regulado pela CFTC

A 29 de maio de 2026, a Commodity Futures Trading Commission aprovou o contrato BTCPERP submetido pela KalshiEX, LLC, tornando-o o primeiro futuro perpétuo de bitcoin genuinamente regulado nos Estados Unidos, segundo a ordem oficial da CFTC. A mesma ordem trouxe mais três peças: uma declaração de política a permitir que outros mercados regulados (DCMs) listem os seus próprios contratos perpétuos, um aviso técnico sobre negociação e compensação 24 horas por dia, e uma carta de não ação que permite à Coinbase Financial Markets encaminhar clientes institucionais dos EUA para os perpétuos da Deribit através da Coinbase Bermuda, tratando-os como «futuros estrangeiros» para efeitos regulatórios.

Mike Selig, presidente da CFTC, descreveu a aprovação em termos ambiciosos, segundo a cobertura da CoinDesk: «Ter verdadeiros contratos perpétuos nos Estados Unidos é um passo importante para cumprir o objetivo do Presidente Trump de consolidar a América como a capital cripto do mundo», disse, chamando ao BTCPERP «uma ferramenta fundamental de gestão de risco e descoberta de preço nos mercados globais de criptoativos», ao mesmo tempo que sublinhou o objetivo de «limitar alavancagem excessiva, volatilidade e risco sistémico». Na primeira semana, os perpétuos da Kalshi ultrapassaram mil milhões de dólares em volume negociado, distribuídos por mais de uma dezena de contratos distintos.

A reação da concorrência não se fez esperar: a CME processou a própria CFTC em tribunal federal, pedindo a anulação da ordem que aprovou o BTCPERP, ao alegar que o regulador terá excedido a sua autoridade ao aprovar um produto que, argumenta a bolsa, se assemelha mais a uma prática de negociação contínua do que a um futuro tradicional sujeito às regras habituais de listagem. O desfecho desse processo é, para já, o maior risco de cauda regulatório pairando sobre toda a nova arquitetura de perpétuos onshore, e vale a pena seguir com atenção nos próximos meses.

CME 24 horas por dia: o fim do desconto de fim de semana

No mesmo dia em que a CFTC aprovava o BTCPERP, a CME lançava a negociação contínua de futuros e opções de criptomoedas, 24 horas por dia, sete dias por semana, com uma única janela de manutenção semanal de duas horas, segundo o comunicado oficial da bolsa. Tim McCourt, responsável global de produtos de ações, câmbios e alternativos na CME Group, explicou a lógica: «Ao oferecer liquidez contínua durante o fim de semana, estamos a responder à procura dos clientes e a colmatar o fosso entre os mercados tradicionais regulados e a natureza 24 horas por dia, sete dias por semana, dos ativos cripto.» No primeiro fim de semana de negociação contínua, mais de 7.200 contratos mudaram de mãos, representando cerca de 50 milhões de dólares em valor nocional; os futuros de volatilidade de bitcoin também passaram a negociar sem interrupção.

O detalhe técnico interessa porque, antes de maio de 2026, o mercado de futuros regulado fechava ao fim de semana enquanto o mercado spot cripto nunca dorme. Isso criava um gap de fim de semana: se o preço à vista se movia significativamente num sábado ou domingo, o futuro reabria na segunda-feira com um salto que distorcia artificialmente a base, sem que essa distorção refletisse verdadeiramente sentimento ou custo de financiamento. Com negociação contínua, esse ruído específico do calendário desaparece, e a base observada aproxima-se mais de um sinal genuíno. A CME também lista futuros de Ether (50 ETH por contrato, liquidados pela CME CF Ether-Dollar Reference Rate), e tanto bitcoin como Ether já negoceiam através do mecanismo Basis Trade at Index Close (BTIC), que permite fixar uma operação de base contra a referência das 16h em Londres, Nova Iorque ou Hong Kong e Singapura.

A base implícita em opções: o sinal que os futuros já não dão sozinhos

Quando a base de futuros comprime para valores próximos do ruído estatístico, deixa de ser, sozinha, um bom indicador de sentimento. É aí que o mercado de opções ganha peso como sinal complementar. O skew (a diferença entre a volatilidade implícita de puts e calls fora do dinheiro) mede quanto os traders estão dispostos a pagar por proteção contra quedas relativamente a apostas em subidas; quando o skew é muito positivo, o mercado está defensivo, quando comprime, está mais complacente.

Julho de 2026 mostrou essa dinâmica em tempo real, segundo dados compilados pela CoinDesk a partir da Amberdata e da Velo: o skew a 25-delta, prazo de uma semana, caiu de cerca de 25% em 23 de junho para cerca de 16% em 3 de julho, e para apenas 4% em 24 de julho, sinalizando que a cobertura de curto prazo estava a ser desmontada rapidamente. O rácio put/call em aberto seguiu o mesmo caminho, de 0,76 no final de junho para 0,52 a 24 de julho, ou seja, os traders passaram a deter cerca de duas calls por cada put. Mas o sinal não era uniforme ao longo da curva: enquanto a volatilidade implícita a uma semana estava em 34,3%, a de seis meses continha-se em 40,8%, e o skew a três e seis meses mantinha-se em torno de 11% a 12%, um prémio defensivo que não desapareceu.

A leitura mais honesta é que o mercado estava relaxado quanto aos próximos sete dias mas continuava a pagar seguro contra o resto do ano, uma divergência que o posicionamento em derivados já vinha documentando ao longo de julho. Há aqui um aviso implícito: um posicionamento tão leve em proteção de curto prazo tende a amplificar movimentos bruscos em vez de os absorver, precisamente porque há menos coberturas a atenuar o choque inicial.

DataSkew 25-delta (1 semana)Rácio put/callNota
23 de junho~25%0,76Posicionamento defensivo após a queda de meados de junho
3 de julho~16%N/DCoberturas de curto prazo começam a ser desmontadas
24 de julho~4%0,52IV a 1 semana em 34,3% contra 40,8% a 6 meses; skew a 3-6 meses mantém-se em 11-12%
31 de julho (expiry)N/A (vencimento)0,28 (BTC) / 0,63 (ETH)Max pain 64.000 USD (BTC) e ~1.850 USD (ETH); 9,6 mil milhões USD em opções BTC venceram

O expiry de 31 de julho: a base em ação num único dia

O expiry mensal de opções de 31 de julho de 2026 serviu de estudo de caso ao vivo. Venceram 9,6 mil milhões de dólares em opções de bitcoin (cerca de 149.000 contratos) e mais 830 milhões de dólares em opções de Ether (435.000 contratos), um total combinado de 10,4 mil milhões de dólares, cerca de 30% do open interest então em aberto, segundo dados da CryptoTimes. O max pain, o nível de preço que minimiza o valor pago aos titulares de opções no vencimento, estava fixado em 64.000 dólares para bitcoin e cerca de 1.850 dólares para Ether; o preço do bitcoin gravitou precisamente para essa zona ao longo da sessão, recuando cerca de 1,3%, de perto de 64.700 para cerca de 63.600 dólares. Os rácios put/call desse expiry específico, 0,28 para bitcoin e 0,63 para Ether, confirmam a assimetria: o mercado de opções de bitcoin estava muito mais inclinado para calls do que o de Ether.

Nenhum destes números é, isoladamente, «a base». Mas juntos formam o mesmo tipo de termómetro que a base de futuros costumava fornecer sozinha: mostram onde o mercado está posicionado, quanto está disposto a pagar por proteção, e para onde o preço tende a gravitar quando grandes quantidades de contratos expiram ao mesmo tempo.

Quem ainda faz o cash and carry: fundos saem, bancos entram

Se a base clássica mal cobre os custos, porque é que alguém continua a negociá-la? A resposta está nos relatórios 13F da CoinShares relativos ao primeiro trimestre de 2026: os hedge funds cortaram a sua exposição via ETF em 31.400 bitcoin, uma queda de 39% face ao trimestre anterior e de 42% em termos homólogos, uma retirada consistente com uma base que deixou de compensar o risco assumido. Ao mesmo tempo, porém, os bancos fizeram exatamente o oposto: aumentaram as suas posições em 7.800 bitcoin só no trimestre, elevando o total acumulado para 15.200 bitcoin, um crescimento de 339% em termos homólogos. O JPMorgan somou 3.000 bitcoin, o Wells Fargo 4.000, o Intesa Sanpaolo entrou pela primeira vez com 1.600, e o Citigroup apresentou a sua primeira declaração com apenas 97 bitcoin.

Esta divisão, fundos de cobertura a sair e bancos a entrar, ajuda a explicar o recorde de saídas líquidas dos ETFs spot de bitcoin em junho de 2026, mais de 4 mil milhões de dólares num único mês, o pior desde o lançamento destes produtos em 2024. É tentador ler saídas desta magnitude como pânico generalizado, mas um episódio anterior e estruturalmente análogo sugere outra leitura. Michael Marshall, responsável de investigação na Amberdata, analisou saídas semelhantes em outubro e novembro de 2025 e concluiu, segundo a CoinDesk, que estavam «altamente concentradas num pequeno número de emissores e ligadas a um desmantelamento mecânico do basis trade, não a um medo generalizado dos investidores»; nesse episódio, a base anualizada a 30 dias comprimiu 217 pontos base, de 6,63% para 4,46%, com 93% dos dias abaixo do limiar de rentabilidade de 5%.

É exatamente o tipo de disputa de narrativa que os post-mortems a duelo deste mercado costumam travar: será que uma saída recorde é sinal de fuga ou apenas mecânica de arbitragem a desfazer-se? Os números de junho de 2026 apontam, mais uma vez, para a segunda leitura, ainda que a atividade das baleias nos derivados continue a ser o melhor indicador em tempo quase real de qual das duas hipóteses está, de facto, a acontecer num dado momento.

Bitcoin contra Ethereum: duas bases, dois apetites

A base de bitcoin e a de Ether não se movem em sincronia, e o expiry de 31 de julho ilustra bem porquê: o mercado de opções de bitcoin, com 9,6 mil milhões de dólares a vencer, é mais de dez vezes maior do que o de Ether, com 830 milhões, e muito mais inclinado para calls (rácio put/call de 0,28 contra 0,63). Historicamente, a relação também já foi inversa: segundo a investigação da CF Benchmarks, assinada por Mark Pilipczuk, houve alturas no segundo trimestre de 2025 em que a base anualizada de Ether ultrapassou os 10% enquanto a de bitcoin já estava em compressão, um lembrete de que os dois ativos respondem a ciclos de apetite de risco ligeiramente diferentes, mesmo partilhando a mesma infraestrutura de negociação.

A CME trata ambos de forma semelhante em termos de mecanismo, futuros com liquidação em dólares, acesso ao BTIC, negociação agora 24 horas por dia, mas o tamanho do mercado, a profundidade de liquidez e o apetite institucional continuam a favorecer claramente o bitcoin. Para um trader de base, isso significa que replicar mecanicamente numa posição em Ether uma estratégia pensada para bitcoin, sem ajustar ao perfil de liquidez e volatilidade próprio deste último, é um erro comum, e um dos motivos pelos quais os livros de opções de Ether tendem a mostrar rácios put/call mais defensivos, como se viu no próprio expiry de 31 de julho.

Os riscos que a arbitragem «sem risco» esconde

Chamar «sem risco» ao cash and carry é, na melhor das hipóteses, uma simplificação. Entre os riscos reais que a operação carrega:

  • Risco de base: a diferença entre futuros e spot pode alargar-se ou inverter-se antes do vencimento, obrigando a reforçar margem antes de a posição convergir como previsto.
  • Reversão do funding rate: em posições que usam perpétuos em vez de futuros com data fixa, um funding rate que se torna negativo transforma o que era um rendimento num custo direto.
  • Risco de contraparte e custódia: tanto o emissor do ETF como a bolsa de derivados podem falhar; a arbitragem só é neutra ao preço se ambas as pernas da operação sobreviverem intactas até à convergência.
  • Chamadas de margem: quedas bruscas do lado spot ou subidas do lado dos futuros podem forçar liquidações antecipadas, mesmo que a posição estivesse, em teoria, coberta.
  • Risco de aglomeração: quando um número elevado de fundos executa a mesma operação, um desenrolar coordenado, como o de 2026, amplifica a compressão da base para todos ao mesmo tempo.

Estes riscos não são exclusivos da base de futuros. A mesma lógica de rendimento institucional com risco estrutural escondido aparece noutras estratégias de yield em cripto, como o restaking institucional, onde o capital que entra à procura de rendimento descobre, mais tarde, que a saída nem sempre está disponível ao mesmo ritmo da entrada, sobretudo em momentos de stress generalizado do mercado.

O que observar nos próximos meses

Três frentes vão determinar se o carry trade cripto volta a compensar de forma consistente ou se continua a viver à margem do breakeven:

  • O desfecho do processo da CME contra a CFTC: se um tribunal federal anular a aprovação do BTCPERP, todo o argumento de que o perpétuo regulado é o futuro do carry onshore fica em suspenso.
  • A trajetória de volume da Kalshi: mil milhões de dólares na primeira semana é um arranque forte, mas a verdadeira prova está em saber se esse volume se mantém ou se refletiu sobretudo curiosidade inicial.
  • A próxima reunião do FOMC, em setembro: se a Fed cortar juros depois de uma dissidência hawkish em julho, o custo de oportunidade de capital desce, e uma base de bitcoin nos 4% a 5% volta a parecer mais atrativa em termos relativos, mesmo sem qualquer mudança na procura especulativa por bitcoin em si.

Nenhuma destas três frentes se resolve isoladamente: uma vitória da CME em tribunal, por exemplo, empurraria de novo volume para os perpétuos offshore e para os futuros tradicionais da própria CME, o que por si só já mudaria a leitura da base observada nos próximos meses.

CMVM, DMIF II e o que muda em Portugal

Em Portugal, como em toda a União Europeia, futuros e perpétuos de criptoativos são instrumentos financeiros ao abrigo da Diretiva dos Mercados de Instrumentos Financeiros (DMIF II, ou MiFID II na sigla inglesa), supervisionados pela CMVM, e não caem dentro do perímetro do MiCA, que regula apenas criptoativos à vista e os prestadores de serviços de criptoativos. A ESMA reforçou esta fronteira num comunicado de 24 de fevereiro de 2026: o nome comercial «perpétuo» é irrelevante para efeitos de classificação, estes derivados cripto alavancados enquadram-se nas medidas de intervenção de produto para CFDs já existentes ao abrigo da DMIF II, o que implica limites de alavancagem, aviso de risco obrigatório, encerramento automático de margem e proteção contra saldo negativo. Na prática, um investidor de retalho na União Europeia está sujeito a um limite de alavancagem de 2:1 em CFDs sobre criptoativos, muito longe dos 100:1 disponíveis nalgumas plataformas offshore, e o próprio BTCPERP da Kalshi nem sequer está disponível para clientes de retalho fora dos Estados Unidos.

O período transitório do MiCA para os prestadores de serviços portugueses terminou a 1 de julho de 2026; desde então, o Banco de Portugal e a CMVM partilham a supervisão dos prestadores de serviços de criptoativos em Portugal ao abrigo da Lei n.º 69/2025 (o Banco de Portugal trata autorização, registo e stablecoins, a CMVM foca-se em conduta de mercado), com coimas que podem chegar a 5 milhões de euros. Para quem negoceia base de futuros ou perpétuos a partir de Portugal, a implicação prática é simples: o instrumento pode ser sofisticado e novo, mas o perímetro de proteção do investidor de retalho não mudou, continua a ser definido pela DMIF II e pelas medidas CFD da ESMA, não pelo MiCA.

Como acompanhar a base em tempo real

Para quem quiser seguir esta base sem depender de um artigo pontual, algumas fontes públicas destacam-se: o gráfico CME Futures Annualized Basis da CryptoQuant, o indicador equivalente da Glassnode, os relatórios de liquidez e as páginas de BTIC da própria CME Group, os artigos de investigação da CF Benchmarks sobre os motores estruturais da base, os rastreadores de funding rate da CoinGlass para os mercados de perpétuos, e o Deribit Insights para o lado das opções. Ao fecho desta análise, o bitcoin negociava perto de 54.600 euros, segundo a CoinGecko, cerca de metade do máximo histórico de outubro de 2025; o Ether rondava os 1.615 euros. Nenhuma destas fontes, isoladamente, conta a história completa: a lição de 2026 é que a base de futuros, o funding rate dos perpétuos e o skew de opções são, cada vez mais, três leituras do mesmo termómetro, e vale a pena olhar para as três em conjunto antes de tirar qualquer conclusão.

Perguntas frequentes

O que é a base de futuros em cripto?

A base de futuros é a diferença entre o preço de um contrato de futuros e o preço à vista (spot) do mesmo ativo, normalmente expressa em termos anualizados para permitir comparar contratos com prazos diferentes. Quando os futuros negoceiam acima do spot, o mercado está em contango, o regime mais comum em bitcoin desde o lançamento dos ETFs spot em 2024; quando negoceiam abaixo, está em backwardation, um sinal mais raro de stress ou pessimismo generalizado. A base costuma ser lida como um termómetro do apetite de risco institucional: quanto maior a base, maior a procura por exposição alavancada ao ativo.

Como se calcula a base anualizada?

Divide-se a base absoluta (o preço do futuro menos o preço spot) pelo preço spot, para obter a base relativa, e depois multiplica-se esse valor por 365 e divide-se pelo número de dias até ao vencimento do contrato. Uma base relativa de 1% num contrato a 30 dias equivale a cerca de 12,2% anualizado; a mesma base relativa de 1% num contrato a 90 dias equivale a apenas cerca de 4,1% anualizado. É esta padronização que permite comparar, por exemplo, um contrato trimestral da CME com um perpétuo cujo custo de manter a posição se mede através do funding rate em vez de uma data de vencimento fixa.

O que é o cash and carry trade?

É a estratégia que efetivamente captura a base: comprar o ativo à vista, normalmente através de um ETF spot regulado, e vender em simultâneo um valor nocional equivalente em futuros. Quando os dois preços convergem no vencimento do futuro, o lucro fica bloqueado no momento em que a operação é montada, sem depender da direção do preço do ativo subjacente. É por isso que a estratégia é descrita como neutra ao preço, embora continue exposta a risco de base, risco de contraparte e a chamadas de margem, o que a torna «quase sem risco» mas não completamente isenta de risco.

O BTCPERP da Kalshi é igual a um perpétuo na Binance ou na Deribit?

Mecanicamente, sim, ambos usam um funding rate para manter o preço do contrato ancorado ao spot, sem data de vencimento fixa. A diferença está no perímetro regulatório: o BTCPERP é supervisionado pela CFTC, o regulador de derivados dos Estados Unidos, depois de uma aprovação formal em maio de 2026, enquanto os perpétuos da Binance ou da Deribit operam sob regimes offshore ou, no caso de clientes de retalho na União Europeia, sob o limite de alavancagem de 2:1 imposto pela ESMA às CFDs sobre criptoativos. Para um investidor europeu, o BTCPERP da Kalshi não está, para já, diretamente acessível, o que mantém a Deribit e plataformas semelhantes como o ponto de acesso mais comum, com as respetivas limitações de alavancagem para clientes de retalho.

Quais são os principais riscos do basis trade?

Os mais relevantes são o risco de base (a diferença entre futuros e spot pode alargar-se antes da convergência, obrigando a reforçar margem), a reversão do funding rate em posições com perpétuos, o risco de contraparte e custódia (tanto o emissor do ETF como a bolsa de derivados podem falhar), chamadas de margem forçadas por movimentos bruscos do lado errado da operação, e o risco de aglomeração, quando muitos fundos executam a mesma estratégia ao mesmo tempo e um desenrolar coordenado comprime a base para todos em simultâneo, como aconteceu ao longo do primeiro semestre de 2026.

Artigo da equipa de mercados da HOGE Wire.

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