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● Markets

O mapa do volume cripto em 2026: CEX, DEX e derivados

O volume à vista das exchanges caiu 27,9% no segundo trimestre, mas os derivados resistiram e as DEX continuam a ganhar terreno. Este é o novo mapa do mercado cripto em 2026.

O volume de negociação é o número que qualquer gráfico de exchange mostra em destaque, mas raramente é o número que parece ser à primeira vista. No segundo trimestre de 2026, o volume à vista nas dez maiores exchanges centralizadas caiu 27,9%, segundo o mais recente relatório trimestral da CoinGecko. Ao mesmo tempo, o volume de derivados recuou apenas 10%, as exchanges descentralizadas continuaram a ganhar quota de mercado e a Binance reforçou a liderança mesmo com o mercado global em contração. Este artigo mapeia onde está realmente o dinheiro em 2026: quem lidera o volume à vista, porque é que os derivados resistem melhor às quedas, como as DEX estão a mudar a estrutura do mercado, e o que a CMVM e o Banco de Portugal supervisionam, e não supervisionam, neste ecossistema.

O trimestre em que o volume caiu, mas o mercado não esvaziou

O 2026 Q2 Crypto Industry Report da CoinGecko, publicado em julho, resume o trimestre em poucos números: o volume à vista das dez maiores exchanges centralizadas somou 1,95 biliões de dólares, uma queda de 27,9% face aos 2,70 biliões do primeiro trimestre. Maio foi o mês mais fraco, com apenas 619 mil milhões de dólares negociados, o mínimo mensal do ano; junho recuperou parcialmente para 695 mil milhões, sem no entanto se aproximar dos níveis do início do ano. A capitalização total do mercado cripto caiu 12,6% para 2,1 biliões de dólares, a terceira queda trimestral consecutiva.

Estes números, à primeira vista, descrevem um mercado a esvaziar-se. Mas a queda não foi uniforme: os derivados resistiram muito melhor do que o volume à vista, as exchanges descentralizadas continuaram a crescer em quota, ainda que não em volume absoluto, e a distribuição de quota entre as próprias exchanges centralizadas mudou de forma mais acentuada do que em qualquer trimestre recente. Perceber estas diferenças importa mais do que decorar um único número trimestral, sobretudo para quem escolhe onde negociar a partir de Portugal e precisa de avaliar liquidez, custódia e enquadramento regulatório ao mesmo tempo.

Vale ainda notar que esta é já a terceira queda trimestral consecutiva na capitalização total do mercado, o que sugere um ciclo de contração mais longo do que um simples ajuste técnico de um trimestre isolado. Ainda assim, e como se detalha nas secções seguintes, a forma como essa contração se distribui entre volume à vista, derivados, exchanges centralizadas e exchanges descentralizadas conta uma história bem mais matizada do que a manchete inicial sugere, com vencedores e vencidos muito diferentes consoante o segmento observado.

Volume à vista e volume de derivados: a diferença que muda tudo

Volume à vista é o valor de ativos que efetivamente mudam de dono a um preço corrente: comprar um bitcoin, vender um lote de ether, trocar stablecoins por um token específico. Volume de derivados é o valor nocional de contratos que apostam na direção de um preço sem exigir a posse do ativo subjacente, tipicamente com recurso a alavancagem. Um contrato de futuros de bitcoin com valor nocional de 50.000 euros pode ser aberto com uma margem de apenas alguns milhares de euros, e essa mesma posição pode ser aberta e fechada várias vezes no mesmo dia, gerando múltiplos de volume reportado sem que um único bitcoin mude fisicamente de carteira.

Esta distinção explica grande parte da diferença entre os 1,95 biliões de dólares de volume à vista e os muitos biliões movimentados em derivados no mesmo trimestre: os derivados geram naturalmente mais volume nominal por unidade de capital, porque a alavancagem multiplica o valor nocional de cada posição. Não significa que o mercado de derivados seja «maior» em termos de capital real investido, apenas que cada euro de margem gera mais rotação de volume reportado, o que torna as comparações diretas entre os dois mercados enganadoras se não forem lidas com este contexto em mente.

Há ainda uma terceira categoria que complica a leitura dos números agregados: a dupla contagem. Uma ordem que passa por um agregador, ou que é encaminhada automaticamente de uma exchange para outra através de mecanismos de liquidez partilhada, pode em certas metodologias ser contabilizada mais do que uma vez. É por isso que comparar números de fontes diferentes, CoinGecko contra CoinMarketCap contra o painel interno de uma exchange, raramente produz o mesmo total exato, mesmo quando todas descrevem em teoria o mesmo mercado no mesmo dia. Escolher uma fonte consistente ao longo do tempo importa mais do que perseguir o número mais alto.

O ranking das exchanges centralizadas no segundo trimestre

A Binance terminou o segundo trimestre de 2026 com 38,7% de quota do volume à vista entre as dez maiores exchanges centralizadas, segundo a CoinGecko, reforçando uma liderança que já vinha do trimestre anterior. A Bybit ultrapassou a MEXC e subiu ao segundo lugar, com 10% de quota. A mudança mais dramática, porém, foi o colapso da própria MEXC: caiu do segundo para o sétimo lugar, com o volume a recuar de 275,2 mil milhões de dólares para 121,2 mil milhões, uma queda de 56% num único trimestre. A Crypto.com recuou 40,9% e a KuCoin 38,5%, ambas quedas muito acima da média do setor.

ExchangeQuota ou variação no volume à vista (Q2 2026)Nota
Binance38,7% de quotaReforçou a liderança face ao Q1 2026
Bybit10,0% de quotaUltrapassou a MEXC, subiu ao 2.º lugar
MEXCDe 275,2 para 121,2 mil milhões USD (-56%)Caiu do 2.º para o 7.º lugar
Crypto.com-40,9%Queda acentuada face ao Q1 2026
KuCoin-38,5%Queda acentuada face ao Q1 2026

Nenhuma destas quatro exchanges divulgou uma explicação oficial única para a travagem, mas a MEXC ofereceu uma pista indireta: a 22 de julho de 2026, contratou Robert Macdonald, antigo diretor jurídico e de compliance da Bybit, para o cargo de Chief Compliance Officer, segundo a cryptonews.net. Reforçar a função de compliance depois de uma queda de quota tão acentuada sugere que a exchange está a tentar reconstruir confiança institucional, não apenas recuperar volume perdido através de campanhas comerciais.

Curiosamente, o próprio volume à vista da MEXC recuperou 2,7% só em junho, segundo dados mensais compilados pela Cryptonomist, um lembrete de que a queda trimestral não foi uma linha reta: houve meses de estabilização dentro da tendência de fundo, e a leitura mensal pode divergir bastante da leitura trimestral para a mesma exchange. Quem acompanha estes rankings apenas uma vez por trimestre arrisca-se a perder estas oscilações intermédias, que muitas vezes antecipam a direção seguinte.

Porque é que a Binance continua a dominar

A vantagem da Binance não é nova, mas está a tornar-se mais difícil de contestar à medida que o mercado amadurece. Profundidade de livro de ordens, gama de produtos, à vista, derivados, staking, cartão, produtos estruturados, e a capacidade de absorver grandes ordens sem deslizamento de preço significativo continuam a atrair tanto retalho como capital institucional, mesmo em trimestres de queda generalizada em todo o setor.

O analista Ali Martinez resumiu esta dinâmica ao comentar os dados do segundo trimestre: «centralized exchanges and TradFi systems were converging», com as exchanges centralizadas a expandir para ações e matérias-primas enquanto as instituições financeiras tradicionais adotam infraestrutura blockchain, segundo a cryptonews.net. Esta convergência é também visível na forma como o posicionamento institucional em derivados diverge, por vezes de forma acentuada, do posicionamento de retalho nas mesmas classes de ativos, um tema que já explorámos em detalhe no artigo sobre posicionamento em derivados entre CEX, DEX e Wall Street.

Esta escala também cria um efeito de rede difícil de replicar: mais liquidez atrai mais market makers, o que reduz spreads, o que por sua vez atrai ainda mais volume. Exchanges mais pequenas competem sobretudo em nichos, pares de negociação locais, taxas mais baixas em tokens específicos ou produtos regulados numa jurisdição concreta, em vez de tentar replicar diretamente a profundidade de mercado da Binance, uma batalha que muito poucas conseguem vencer de frente.

Os derivados dominam o mercado: porque caem menos do que o volume à vista

O volume de derivados nas exchanges centralizadas somou 12,7 biliões de dólares no segundo trimestre de 2026, uma queda de apenas 10% face aos 14,1 biliões do primeiro trimestre, segundo a CoinGecko. Todos os meses do trimestre mantiveram-se acima dos 4 biliões de dólares. Comparado com a queda de 27,9% no volume à vista, a diferença é grande: os derivados provaram ser muito mais resistentes num trimestre de mercado fraco, e essa resistência relativa tornou-se, por si só, um dado a observar.

A explicação mais simples é que negociar derivados não exige convicção direcional para comprar e manter o ativo subjacente: um trader pode manter posições curtas e longas em simultâneo, cobrir exposição existente ou simplesmente especular sobre volatilidade, mesmo quando não há apetite para comprar bitcoin ou ether à vista. A mecânica exata de como estes contratos se ligam ao preço à vista, através da taxa de funding nos perpétuos ou da base nos futuros com vencimento, é o tema do nosso guia completo sobre basis trade, que explica como traders profissionais exploram a diferença entre os dois mercados para capturar retorno quase neutro em relação ao preço.

O rácio entre derivados e volume à vista tornou-se, por si só, um indicador de sentimento acompanhado por analistas de mercado: um rácio a subir de forma acentuada, como aconteceu neste trimestre, tende a coincidir com fases em que o mercado prefere exprimir opinião através de alavancagem em vez de compra direta do ativo subjacente, um padrão que historicamente precede maior volatilidade, não menor, e que vale a pena vigiar nos próximos trimestres.

A CME e a institucionalização dos derivados cripto

O sinal mais claro de que os derivados cripto deixaram de ser um nicho veio da CME Group, a maior bolsa de derivados do mundo: desde 29 de maio de 2026, os futuros e opções de criptoativos da CME negoceiam de forma contínua, 24 horas por dia, sete dias por semana, com apenas uma janela de manutenção de duas horas semanais. No primeiro fim de semana sob o novo regime, negociaram-se mais de 7.200 contratos, num total nocional de cerca de 50 milhões de dólares, segundo o comunicado oficial da CME Group.

Tim McCourt, responsável global da CME para ações, câmbios e produtos alternativos, explicou a lógica por trás da mudança: «By offering continuous liquidity over the weekend, we are meeting client demand and bridging the gap between traditional regulated venues and the 24/7 nature of crypto assets». A CME já oferece futuros e opções sobre bitcoin, ether, solana e XRP, um sinal de que a procura institucional se estende muito além dos dois maiores criptoativos e começa a tratar o setor como uma classe de ativos com múltiplas exposições distintas.

Para um investidor de retalho em Portugal, este tipo de infraestrutura raramente é acessível de forma direta, mas importa como pano de fundo: quando uma bolsa regulada e supervisionada ao nível federal norte-americano decide alargar o horário de negociação especificamente para acomodar cripto, isso é um voto de confiança institucional na durabilidade da classe de ativos, independentemente da volatilidade trimestral do volume nas exchanges de retalho mais visíveis do dia a dia.

As DEX continuam a roubar quota às exchanges centralizadas

Enquanto as exchanges centralizadas disputam posições entre si, as exchanges descentralizadas continuam a crescer de forma constante. Segundo o CEX & DEX Trading Activity Report 2026 da CoinGecko, a quota de volume à vista das DEX duplicou de 6,9% em janeiro de 2024 para 13,6% em janeiro de 2026, com o volume absoluto a subir de 95,86 mil milhões de dólares para 231,29 mil milhões no mesmo período. A quota chegou a atingir um pico de 24,5% em junho de 2025, impulsionado em grande parte pelo Binance Alpha 2.0 a encaminhar ordens automaticamente através da PancakeSwap, um detalhe que mostra como a própria fronteira entre exchange centralizada e descentralizada se está a esbater na prática.

As exchanges centralizadas continuam, ainda assim, a dominar em termos absolutos: mantiveram sempre mais de um bilião de dólares de volume mensal à vista ao longo de todo o período analisado. Mas a tendência estrutural é clara, e parte da explicação está fora do próprio mercado cripto: negociar diretamente numa blockchain só se tornou competitivo com uma exchange centralizada à medida que as taxas de execução em L2 caíram para frações de cêntimo, um tema que analisámos em detalhe no artigo sobre taxas de L2 quase a zero.

No período de seis meses entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, a PancakeSwap acumulou 0,55 biliões de dólares em volume à vista e a Uniswap 0,54 biliões, ambas à frente de exchanges centralizadas estabelecidas como a Bitget, a OKX, a Coinbase ou a Upbit nesse período específico, segundo a mesma CoinGecko. Não significa que estas duas DEX tenham ultrapassado essas exchanges de forma permanente, mas mostra que, em determinadas janelas temporais, os maiores protocolos descentralizados já competem diretamente com nomes historicamente dominantes, algo impensável há apenas três ou quatro anos.

Perpétuos on-chain: a ascensão da Hyperliquid

O crescimento mais acentuado não está no volume à vista das DEX, mas nos seus contratos perpétuos. Entre janeiro de 2024 e janeiro de 2026, o volume combinado de perpétuos, CEX mais DEX, cresceu 75%, de 4,14 biliões para 7,24 biliões de dólares, segundo a CoinGecko. Nesse mesmo período, o volume de perpétuos nas DEX multiplicou por oito, de 81,74 mil milhões para 739,48 mil milhões de dólares, elevando a sua quota de mercado de 2% para 10,2%, um dos crescimentos mais acentuados de qualquer segmento deste mercado nos últimos dois anos.

A Hyperliquid lidera esmagadoramente esta categoria: foi a única exchange descentralizada a entrar no top 10 global de volume de perpétuos entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, com 1,59 biliões de dólares acumulados, ainda muito atrás dos 13,61 biliões da Binance no mesmo período, mas à frente de várias exchanges centralizadas de menor dimensão. O crescimento da categoria foi impulsionado pelo airdrop da Hyperliquid em novembro de 2024 e por concorrentes mais recentes, como a Lighter e a Aster, que replicam o modelo de livro de ordens on-chain com incentivos próprios para atrair liquidez inicial.

Dados mensais mais recentes confirmam que o impulso não abrandou: em junho de 2026, o volume de derivados da Hyperliquid cresceu 24,4% só nesse mês, e o da Deribit 26,6%, segundo a Cryptonomist, mesmo num mês em que exchanges centralizadas maiores, como a Bybit ou a Gate, registaram quedas mensais de dois dígitos no mesmo segmento. Para quem quer perceber a mecânica que move estes contratos, o nosso artigo sobre funding rate explica como a taxa que liga o preço do perpétuo ao preço à vista funciona na prática, exchange a exchange.

Nem todos os mercados se movem da mesma forma: o caso da Coreia do Sul

A queda de volume não afeta todas as regiões, nem todas as exchanges, da mesma maneira. O exemplo mais extremo em 2026 vem da Coreia do Sul: o volume diário combinado das cinco maiores exchanges locais, Upbit, Bithumb, Coinone, Korbit e Gopax, caiu 89% em termos homólogos, de 2,82 mil milhões de dólares em julho de 2025 para cerca de 305 milhões em julho de 2026, segundo dados compilados pela GN Crypto News. A explicação principal não tem nada a ver com cripto: o índice bolsista KOSPI valorizou 114,44% nos doze meses até 22 de julho de 2026, atraindo capital de retalho para as ações locais em vez das exchanges de criptoativos.

O caso sul-coreano é um lembrete útil de que o volume de negociação cripto compete diretamente com outras classes de ativos pela atenção, e pelo capital, do investidor de retalho, e que quedas de volume podem refletir rotação de capital tanto quanto perda de confiança no setor. A pressão sobre a receita já levou pelo menos uma exchange, a Korbit, a liquidar reservas próprias, 15 bitcoin e 60 ether, para gerir o caixa, um sinal de tensão estrutural em exchanges menores num mercado local em contração acentuada.

A nível global, os dados mensais de junho de 2026 mostram uma dinâmica parecida em miniatura: o volume à vista caiu 5,1% face a maio, mas o volume de derivados subiu 4,2% no mesmo mês, segundo a Cryptonomist. Também revelador: o tráfego web da Deribit disparou 165,1% em junho, muito acima do crescimento de 26,6% no seu volume de derivados no mesmo mês. Um pico de visitas que não se traduz proporcionalmente em volume negociado é exatamente o tipo de sinal enganador que levou a CoinGecko a rever a forma como calcula a confiança de uma exchange, como se explica na secção seguinte.

Nem todo o volume é real

Nenhuma discussão sobre volume de negociação está completa sem reconhecer o problema mais antigo do setor: nem todo o volume reportado corresponde a negociação real. Em 2019, a gestora Bitwise submeteu à SEC norte-americana uma análise que se tornou referência: de 81 exchanges com volume diário reportado superior a um milhão de dólares, 71 apresentavam dados de wash trading, negociação fictícia entre contas relacionadas para inflacionar rankings artificialmente. O volume real, segundo a Bitwise, rondava apenas 270 milhões de dólares, concentrados em dez exchanges, muito longe dos cerca de seis mil milhões de dólares reportados coletivamente, segundo a Cointelegraph.

O incentivo por trás desta prática não desapareceu: uma posição mais alta num ranking de volume continua a atrair mais listagens de tokens, mais parcerias e mais utilizadores novos. Uma forma de contornar esta opacidade é acompanhar diretamente os movimentos on-chain, que não podem ser fabricados da mesma forma que um número reportado internamente por uma exchange, uma abordagem que detalhámos no artigo sobre whale alerts nos derivados, que mostra o que os alertas de movimentação de grandes carteiras revelam, e o que não revelam, sobre a atividade real do mercado.

Trust Score e a atualização Basilisk: como a CoinGecko separa o sinal do ruído

Desde 2019, a CoinGecko tenta resolver este problema com o seu próprio Trust Score, uma pontuação que vai além do volume reportado e considera liquidez, profundidade do livro de ordens, segurança cibernética e outros fatores qualitativos. Em maio de 2026, a CoinGecko lançou a atualização Basilisk, que reformulou a metodologia por completo: removeu a ponderação por tráfego web, com a lógica de que a maior parte da negociação passa hoje por aplicações móveis e APIs, não por visitas ao website, passou a usar volume direto e profundidade do livro de ordens como sinais centrais, introduziu uma «Regulation Score» e passou a avaliar exchanges numa curva relativa aos seus pares, segundo a metodologia oficial.

O exemplo da Deribit na secção anterior, tráfego a disparar muito mais depressa do que o volume real, ilustra exatamente porque é que esta mudança fazia sentido: um website pode ganhar visitantes por curiosidade, cobertura mediática ou campanhas de marketing sem que isso se traduza em capital efetivamente negociado. Um ranking baseado em volume direto e profundidade de livro de ordens é, estruturalmente, mais difícil de manipular do que um baseado em tráfego de visitas.

Na prática, isto significa que um ranking ordenado apenas por volume reportado, o que a maioria dos gráficos mostra em destaque na primeira página, pode divergir significativamente de um ranking ordenado por Trust Score. Antes de escolher uma exchange com base num número de volume isolado, vale a pena verificar também a pontuação de confiança, e não apenas a posição no ranking de volume bruto.

Portugal pós-MiCA: CMVM, Banco de Portugal e os derivados sob DMIF II

Para quem negoceia a partir de Portugal, a supervisão deste mercado mudou de forma concreta em 2026. O regime transitório que permitia às entidades já registadas junto do Banco de Portugal como prestadoras de ativos virtuais continuar a operar terminou a 1 de julho de 2026, ou na data da decisão final sobre o respetivo pedido de autorização como CASP ao abrigo do MiCA, consoante o que ocorresse primeiro, segundo a página oficial do Banco de Portugal.

A supervisão está dividida entre dois reguladores: o Banco de Portugal trata da autorização e do registo dos prestadores de serviços de criptoativos, enquanto a CMVM é responsável pela supervisão comportamental, incluindo a prevenção de abuso de mercado e o tratamento de reclamações de consumidores. A Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, transpõe o quadro MiCA para o ordenamento jurídico português e prevê coimas até 5 milhões de euros para infrações graves, segundo o Diário da República. Uma exchange que reporta volume elevado mas que não figura em nenhum registo do Banco de Portugal ou da CMVM está, por definição, fora deste perímetro de proteção, independentemente da sua posição num ranking internacional de volume.

Há, contudo, um ponto frequentemente mal compreendido: o MiCA não cobre os derivados. Futuros, opções e contratos perpétuos de criptoativos são instrumentos financeiros ao abrigo da Diretiva dos Mercados de Instrumentos Financeiros, DMIF II ou MiFID II na sigla inglesa, supervisionados pela CMVM enquanto reguladora de mercados, não enquanto reguladora de CASP. A ESMA clarificou esta fronteira a 24 de fevereiro de 2026: o nome comercial «perpetual futures» é irrelevante para efeitos de classificação, e estes derivados cripto alavancados caem dentro das medidas de intervenção de produto aplicáveis a CFD, o que implica limites de alavancagem, aviso de risco obrigatório e proteção contra saldo negativo, segundo a ESMA. Na prática, a alavancagem de retalho em CFD de criptoativos está limitada a 2:1, muito longe dos 100:1, ou mais, oferecidos por algumas plataformas offshore fora deste perímetro regulatório europeu.

CEX ou DEX em 2026? Tabela comparativa

Com os dados dos últimos dois anos reunidos, a comparação direta entre os dois modelos ajuda a decidir onde negociar, dependendo da prioridade de cada investidor: liquidez máxima, custódia própria ou proteção regulatória formal.

CritérioExchanges centralizadas (CEX)Exchanges descentralizadas (DEX)
Quota de volume à vista (jan. 2026)Cerca de 86,4%Cerca de 13,6%
Quota de volume em perpétuos (jan. 2026)Cerca de 89,8%Cerca de 10,2%
Custódia dos fundosCustodial, a exchange guarda as chavesNão-custodial, o utilizador mantém as chaves
Exemplo líderBinanceUniswap à vista, Hyperliquid em perpétuos
Registo como CASP em PortugalAplicável, Banco de Portugal e CMVMNormalmente fora do perímetro CASP
Verificação de identidade (KYC)ObrigatóriaNormalmente não exigida

O que isto significa para quem negoceia a partir de Portugal

Três conclusões práticas emergem destes dados. Primeiro, a concentração de liquidez nas exchanges líderes, Binance e cada vez mais Bybit, tende a significar melhor execução e menor deslizamento de preço em ordens grandes, enquanto exchanges em queda acentuada de quota, como a MEXC, podem começar a mostrar livros de ordens mais finos e spreads mais largos. Segundo, o crescimento das DEX e dos perpétuos on-chain oferece mais opcionalidade, mas também significa operar fora do perímetro de supervisão da CMVM e do Banco de Portugal, com todos os riscos de contraparte e de contrato inteligente que isso implica. Terceiro, o crescimento institucional através de veículos regulados como a CME sugere que uma fatia crescente do volume de derivados está a migrar para infraestrutura com supervisão tradicional, mesmo enquanto o volume de retalho se dispersa entre cada vez mais plataformas concorrentes.

Lennix Lai, diretor de institucional global da OKX, resumiu bem o princípio que devia orientar qualquer decisão sobre onde negociar, independentemente da exchange escolhida: «In times of uncertainty, transparency is paramount and users need to have access to crypto-native tools that prove an exchange’s reserves on the blockchain unequivocally», segundo um comunicado da OKX via PR Newswire. Com o bitcoin a negociar perto dos 57.300 euros à data de publicação, o próximo relatório trimestral, já referente ao terceiro trimestre de 2026, vai mostrar se a queda do volume à vista foi um ajuste pontual ou o início de uma tendência mais longa, e se a distância entre vencedores e vencidos dentro do próprio grupo de exchanges centralizadas continua a alargar-se.

Perguntas frequentes

Qual é a maior exchange de criptomoedas por volume em 2026?

A Binance continua a ser a maior exchange centralizada por volume à vista, com 38,7% de quota de mercado entre as dez maiores exchanges no segundo trimestre de 2026, segundo a CoinGecko. A Bybit ocupa o segundo lugar, com 10% de quota, depois de ultrapassar a MEXC no mesmo trimestre.

Porque é que o volume de derivados é maior do que o volume à vista?

Porque os derivados são negociados com alavancagem: uma posição pequena em capital pode controlar um valor nocional muito maior, e essa mesma posição pode ser aberta e fechada várias vezes por dia. No segundo trimestre de 2026, o volume de derivados nas exchanges centralizadas somou 12,7 biliões de dólares, mais de seis vezes o volume à vista, segundo a CoinGecko.

As exchanges descentralizadas (DEX) vão ultrapassar as centralizadas (CEX)?

Ainda não, mas a tendência aponta nesse sentido. A quota de volume à vista das DEX duplicou de 6,9% para 13,6% entre janeiro de 2024 e janeiro de 2026, e a quota de perpétuos on-chain cresceu de 2% para 10,2% no mesmo período. As exchanges centralizadas continuam, porém, a negociar mais de um bilião de dólares por mês só em volume à vista.

O volume reportado pelas exchanges é sempre real?

Não necessariamente. Uma análise da Bitwise submetida à SEC em 2019 concluiu que 71 de 81 exchanges analisadas apresentavam volume inflacionado por wash trading, uma prática que continua a ser um incentivo estrutural para exchanges menores. Ferramentas como o Trust Score da CoinGecko, atualizado com a metodologia Basilisk em maio de 2026, tentam corrigir esta distorção.

Que exchanges estão autorizadas a operar em Portugal ao abrigo do MiCA?

A autorização como prestador de serviços de criptoativos em Portugal é concedida pelo Banco de Portugal, com supervisão comportamental da CMVM. O regime transitório para entidades anteriormente registadas como prestadoras de ativos virtuais terminou a 1 de julho de 2026. Antes de negociar, vale a pena confirmar se uma exchange consta dos registos públicos do Banco de Portugal ou da CMVM, independentemente da sua posição em rankings internacionais de volume.

Escrito pela redação de mercados da HOGE Wire.

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