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Tesourarias cripto 2026: a Strategy trava, o Ethereum acelera

O mNAV da Strategy volta a afundar e a fusão da Twenty One Capital cai por terra. As tesourarias de ether e solana avançam com staking nativo, enquanto a Europa ganha a Capital B.

Enquanto as manchetes de agosto se concentram nos fluxos dos ETF e nas atas da Reserva Federal, outro mercado mais discreto continua a redesenhar-se: o das empresas cotadas que compram bitcoin, ether ou solana diretamente para o balanço. Estas «tesourarias de ativos digitais» (Digital Asset Treasury companies, ou DAT) tornaram-se, nos últimos dois anos, uma das formas mais visíveis de exposição institucional à cripto fora dos produtos regulados como os ETF.

Mas o mecanismo que tornou este modelo popular está a mostrar sinais de fadiga, pelo menos do lado do bitcoin. A Strategy, a maior tesouraria corporativa do mundo, voltou a vender bitcoin para financiar dividendos numa altura em que a sua ação negoceia com um desconto considerável face ao valor da cripto que detém. A Twenty One Capital, controlada pela Tether, perdeu o cofundador que lhe dava rosto depois de a fusão que devia redefinir o setor ter caído por terra a meio do verão. Do outro lado, as tesourarias de ether e solana parecem seguir um caminho diferente, apoiadas num rendimento nativo que o bitcoin, por definição, não gera.

Este artigo faz um ponto de situação sobre o estado das tesourarias cripto corporativas em agosto de 2026: o que aconteceu à Strategy, porque é que a Twenty One Capital mudou de direção, como a Europa ganhou a sua própria tesouraria com a Capital B, e porque é que o Ethereum e a Solana parecem estar a resolver, pelo menos por agora, um problema que o bitcoin ainda não resolveu.

O que é uma tesouraria cripto corporativa?

Uma tesouraria cripto corporativa, normalmente designada pelo acrónimo inglês DAT (Digital Asset Treasury company), é uma empresa cotada em bolsa cujo modelo de negócio passa por usar o balanço, financiado através da emissão de ações, dívida convertível ou ações preferenciais, para comprar e deter criptomoedas como reserva de valor. Em vez de manter o capital excedentário em dinheiro ou obrigações do Tesouro, como faria uma empresa industrial tradicional, uma DAT compra bitcoin, ether ou solana e mantém-nos na sua contabilidade como ativo principal.

O modelo foi popularizado a partir de agosto de 2020 pela então MicroStrategy (hoje Strategy), de Michael Saylor, que converteu uma empresa de software de inteligência empresarial num veículo quase dedicado à acumulação de bitcoin. Desde então, dezenas de empresas cotadas em bolsas de Tóquio a Paris, passando por Nova Iorque e a Nasdaq, seguiram lógicas semelhantes, cada uma com a sua criptomoeda de eleição.

A diferença fundamental face a um ETF de bitcoin ou ether é que uma ação de uma DAT não se limita a espelhar o preço do ativo subjacente. Como a empresa pode financiar novas compras através de dívida ou de emissões de ações, a exposição pode ser alavancada, para cima ou para baixo, e o preço da ação pode divergir significativamente do valor da cripto detida por ação, consoante o sentimento do mercado sobre a gestão, a estrutura de capital e a estratégia de longo prazo. É exatamente essa divergência que a métrica mNAV tenta medir.

mNAV: a métrica que faz e desfaz o flywheel

mNAV, abreviatura de «multiple to Net Asset Value», é o rácio entre o valor de mercado de uma tesouraria cripto (seja a capitalização bolsista simples, seja o valor de empresa, que soma dívida e subtrai caixa) e o valor de mercado da criptomoeda que detém. Um mNAV de 2x significa que os investidores estão dispostos a pagar o dobro do valor da cripto subjacente pela ação da empresa que a detém.

Enquanto o mNAV se mantém acima de 1x, a empresa tem um incentivo poderoso para emitir novas ações ou dívida convertível: cada dólar ou euro levantado no mercado, acima do valor patrimonial, permite comprar mais cripto por ação existente do que a diluição retira aos acionistas atuais. É o mecanismo que o setor apelida de «flywheel», ou volante de inércia: quanto maior o prémio, mais fácil é financiar novas compras, o que por sua vez pode sustentar o prémio.

O problema surge quando o mNAV cai para perto ou abaixo de 1x. Nesse ponto, emitir novas ações deixa de comprar cripto suficiente para compensar a diluição, e o flywheel trabalha ao contrário: cada nova emissão destrói valor por ação em vez de o criar. Foi exatamente isso que aconteceu à Strategy em 2026, e é o fio condutor de boa parte do que se segue neste artigo.

A própria definição de mNAV tornou-se, esta primavera, motivo de debate público. Na conferência BTC Prague, a 11 de junho, Michael Saylor confrontou o cofundador da Twenty One Capital, Jack Mallers, sobre como medir corretamente o valor da Strategy. Segundo a cobertura da CoinDesk, Saylor argumentou que «mNAV is only one valuation framework. Investors can also evaluate gross assets per share and net assets per share», acrescentando que «issuing equity for cash is not inherently dilutive because shareholders receive a tangible asset in return» e que emitir capital «strengthens the balance sheet, expands the capital base and improves creditworthiness». A discussão, embora técnica, resume bem a tensão entre a forma como a gestão destas empresas prefere ser avaliada e a forma como o mercado, cada vez mais, escolhe fazê-lo.

Strategy: da euforia ao desconto mais profundo de sempre

A Strategy continua, de longe, a maior tesouraria corporativa do mundo. Segundo o rastreador dedicado do The Block, a empresa detinha 842.137 bitcoins no início de agosto de 2026, avaliados em cerca de 54 mil milhões de dólares (aproximadamente 47 mil milhões de euros ao câmbio atual), o equivalente a pouco mais de 4% do fornecimento total de bitcoin alguma vez emitido. A capitalização bolsista da empresa, no entanto, era de apenas 33,5 mil milhões de dólares.

É precisamente essa disparidade que o mNAV capta, e os números não são favoráveis. Depois de ter atingido um pico de 3,89x em novembro de 2024, o múltiplo básico da Strategy caiu para território inédito a 27 de junho de 2026, quando o valor de empresa da companhia ficou, pela primeira vez, abaixo do valor dos seus próprios bitcoins. Seguiu-se uma recuperação breve durante julho, mas por meados de agosto o mNAV básico tinha voltado a cair para cerca de 0,62x segundo o The Block, com outras plataformas de referência a apontar para valores semelhantes numa base diluída. Segundo a Protos, a empresa perdeu cerca de dois terços do seu múltiplo em apenas dois anos.

Esta pressão está a ter consequências diretas na forma como a empresa gere a sua posição. Na semana entre 27 de julho e 3 de agosto, a Strategy vendeu 1.638 bitcoins por cerca de 105 milhões de dólares, uma das maiores vendas pontuais de sempre da empresa, ao mesmo tempo que recomprava 81,2 milhões de dólares em ações preferenciais STRC e levantava ainda 290 milhões de dólares através da venda de ações ordinárias, segundo a CoinDesk. O programa de «monetização de bitcoin» da empresa autoriza explicitamente vendas pontuais para financiar dividendos e juros das suas várias classes de ações preferenciais, sem que isso represente, segundo a própria gestão, uma mudança de estratégia de longo prazo.

Michael Saylor tem rejeitado publicamente a ideia de que o desconto reflete um problema estrutural do modelo. Matthew Sigel, responsável de investigação de ativos digitais da gestora VanEck, resume a tensão de forma mais cética: «You’re buying a hedge fund that can trade five things: its own capital stack and Bitcoin.» Sigel já tinha proposto, no mesmo texto, uma cláusula de «testamento vital» para o prospeto da empresa, um mecanismo que forçaria uma liquidação ordenada caso o mNAV se mantivesse abaixo de um determinado múltiplo durante um período definido, proposta que a gestão da Strategy nunca adotou.

Twenty One Capital: o fim da fusão e uma nova direção

Se a Strategy ilustra o que acontece quando o desconto se instala, a Twenty One Capital (XXI, cotada na NYSE) mostra o que pode acontecer quando um plano de expansão ambicioso simplesmente não se concretiza. A empresa, maioritariamente detida pela Tether e cofundada pelo CEO da Strike, Jack Mallers, detinha cerca de 43.514 bitcoins na sua tesouraria, tornando-a a terceira maior detentora corporativa de bitcoin do mundo, atrás apenas da Strategy e da Metaplanet.

No final de abril de 2026, a Tether propôs uma fusão a três bandas que juntaria a Twenty One Capital (tesouraria), a Strike (a plataforma de pagamentos e serviços financeiros de Mallers) e a Elektron Energy (uma mineradora com cerca de 50 EH/s de capacidade, perto de 5% da hashrate global da rede bitcoin) numa única empresa verticalmente integrada, com a Tether a prometer 2,1 mil milhões de dólares em nova linha de crédito para apoiar a operação.

A fusão nunca se concretizou. A 21 de julho, a CoinDesk noticiou que o negócio a três tinha sido abandonado, com a Strike a sair completamente da equação, e que Jack Mallers, o próprio rosto público da Twenty One Capital desde o arranque, tinha deixado o cargo de CEO com efeitos a partir de 20 de julho para se dedicar de novo, em exclusivo, à Strike, que se mantém independente. Raphael Zagury, até então à frente da Elektron Energy, assumiu a liderança da Twenty One Capital.

Sob a nova direção, a empresa diz estar a rever a estratégia para se focar na aquisição de negócios operacionais, na expansão das suas capacidades de mercado de capitais e no desenvolvimento de serviços de crédito garantidos por bitcoin, mantendo em aberto uma eventual fusão apenas a duas bandas com a Elektron Energy. É um recuo notório face à ambição original de construir, nas palavras da própria empresa quando estreou em bolsa em dezembro de 2025, a primeira empresa verdadeiramente nativa de bitcoin, segundo o comunicado da Business Wire na altura da estreia na NYSE.

Metaplanet: a rota japonesa e o rendimento das opções

No Japão, a Metaplanet (3350, Tóquio; também negociada como MTPLF na OTCQX norte-americana) seguiu uma trajetória mais estável. A empresa, que há dois anos era uma pequena operadora hoteleira, detinha cerca de 43.000 bitcoins no final de julho de 2026, segundo a CoinDesk, com um objetivo declarado de chegar às 100.000 bitcoins até ao final deste ano e às 210.000 até final de 2027.

Uma diferença relevante face à Strategy é a estrutura de capital: a dívida da Metaplanet representa apenas cerca de 23% do valor líquido dos seus bitcoins, uma posição bastante mais conservadora do que a da congénere norte-americana. A empresa gere ainda um negócio paralelo de geração de rendimento em bitcoin, essencialmente venda de opções sobre a sua posição, que gerou cerca de 10,85 milhões de dólares no segundo trimestre de 2026 e que a gestão diz ter reduzido o custo efetivo por moeda da posição para perto dos 77 mil dólares, bem abaixo do preço de mercado atual.

Esta combinação, crescimento constante, alavancagem moderada e uma fonte de rendimento que não depende apenas da valorização do bitcoin, tem ajudado a Metaplanet a evitar o tipo de escrutínio que atingiu a Strategy em 2026, ainda que a empresa continue exposta ao mesmo risco de fundo: se o preço do bitcoin cair de forma prolongada, o valor da posição cai com ele, independentemente da estrutura de capital escolhida.

Capital B: a Europa ganha a sua tesouraria cripto

A tesouraria cripto europeia mais visível continua a ser a Capital B (ALCPB, Euronext Growth Paris), antiga The Blockchain Group, que se tornou a primeira empresa cotada na Europa a adotar uma estratégia de tesouraria em bitcoin, em novembro de 2024. Segundo o mais recente comunicado da empresa, divulgado a 3 de agosto de 2026 através da Actusnews, a empresa detinha 3.140 bitcoins, com um custo médio de aquisição de 90.407 euros por moeda e um rendimento em bitcoin por ação de 2,13% desde o início do ano.

O mesmo comunicado revela um pormenor pouco divulgado: a conversão de 14.195.352 obrigações convertíveis (OCA B-01) detidas pela Blockstream Capital Partners, a gestora ligada a Adam Back, um dos nomes históricos do bitcoin. A presença da Blockstream como detentora de dívida convertível da Capital B sublinha até que ponto a tesouraria francesa se tornou um ponto de encontro para capital especificamente alinhado com a tese maximalista do bitcoin, mais do que um simples veículo de investimento generalista.

A ambição de longo prazo da empresa é chegar a 1% do fornecimento total de bitcoin até 2033, com uma meta intermédia de 15.000 bitcoins até final de 2027. Para financiar essa trajetória, os acionistas aprovaram, em assembleia geral a 17 de junho de 2026, um quadro que permite à empresa levantar até 105 mil milhões de euros em capital e linhas de crédito futuras (um teto de ambição, não um valor já angariado). A empresa anunciou também, a 20 de julho, um desdobramento inverso de ações na proporção de 10 para 1, com efeitos a partir de 8 de setembro de 2026.

Para investidores portugueses, a Capital B ilustra também os limites da comparação direta com a Strategy: a escala é ordens de grandeza menor, a liquidez do título é significativamente mais reduzida, e a exposição cambial, euro contra um ativo cotado globalmente em dólares, acrescenta uma camada extra de risco que não existe da mesma forma para uma tesouraria norte-americana.

Ethereum: BitMine, SharpLink e a corrida ao staking

Enquanto o lado do bitcoin lida com desconto e reestruturações, as tesourarias de ether parecem estar a resolver, pelo menos por agora, o problema que mais atormenta os críticos do modelo Strategy: a ausência de rendimento nativo. A BitMine Immersion (BMNR, NYSE, presidida por Tom Lee, cofundador da Fundstrat) detinha, a 2 de agosto de 2026, cerca de 5,8 milhões de ETH (5.797.813 moedas, para ser exato), quase 4,8% do fornecimento circulante de ether e cerca de 96% do caminho até à meta declarada de 5%, segundo a CoinDesk. Só na última semana de julho, a empresa comprou mais 10.399 ETH por cerca de 19,1 milhões de dólares.

Cerca de 85% dessa posição, aproximadamente 4,9 milhões de ETH, está em staking através da plataforma institucional própria da empresa, a MAVAN, com a gestão a projetar uma receita anualizada de staking na ordem das centenas de milhões de dólares, segundo a cobertura da CoinDesk sobre a evolução da posição. Tom Lee resumiu a tese em declarações citadas pela mesma publicação: «In July, ETH outperformed the Nasdaq 100 by 2,500 basis points. This is the largest outperformance since July 2025, and we believe it is reflective of the strengthening fundamentals of crypto.»

A SharpLink Gaming (SBET, Nasdaq), presidida por Joseph Lubin, cofundador da Ethereum e CEO da Consensys, seguia uma lógica semelhante: 886.725 ETH a 28 de junho de 2026, dos quais cerca de 632.719 em ETH nativo e o remanescente em derivados de staking líquido como LsETH e weETH, segundo comunicado divulgado via GlobeNewswire. É precisamente esta fatia crescente de exposição via derivados de staking líquido que liga as tesourarias de ether ao ecossistema mais amplo de restaking institucional que já cobrimos aqui: capital corporativo a fluir não apenas para staking simples, mas para camadas adicionais de rendimento e de risco.

Esse risco adicional é real. Posições de staking e restaking estão sujeitas a penalizações por falhas operacionais dos validadores subjacentes, e a exposição a derivados líquidos acrescenta ainda risco de contraparte e de liquidez em momentos de stress de mercado, temas que explorámos em detalhe no texto sobre o slashing em cascata e a corrida ao seguro no restaking. Nenhuma das duas empresas divulga publicamente uma cobertura de seguro dedicada para estas posições, o que significa que o rendimento adicional gerado pelo staking não é isento de risco de cauda.

A aposta em Ethereum ganhou ainda uma dimensão nova a 14 de julho de 2026, quando a BitMine, a SharpLink e o próprio Lubin apoiaram, a título pessoal, o lançamento da EthSystems, uma infraestrutura institucional de privacidade para a Ethereum fundada por antigos investigadores da Ethereum Foundation, destinada a permitir que bancos e gestoras regulados transacionem na rede sem revelar posições ou dados de clientes, segundo a Decrypt. O mercado reagiu de imediato: as ações da BitMine subiram 11,5% e as da SharpLink quase 9,8% no próprio dia, com o ether a valorizar mais de 6%. Numa intervenção na conferência Consensus 2026, Lubin já tinha descrito o próprio modelo de tesouraria cripto como «a profound innovation», segundo o The Block, apontando a BitMine e a SharpLink como guardiãs de longo prazo do ecossistema, mais do que meras compradoras oportunistas.

A Solana entra em jogo: a aposta da Forward Industries

A Solana tem hoje o seu próprio equivalente à Strategy: a Forward Industries (FWDI, Nasdaq), presidida por Kyle Samani, cofundador da gestora Multicoin Capital. A empresa reforçou a sua posição em mais de 500.000 SOL durante o terceiro trimestre fiscal, elevando o total para 7,55 milhões de SOL a 30 de junho de 2026, segundo a GlobeNewswire, tornando-a a maior tesouraria de solana cotada em bolsa, maior do que as três seguintes juntas.

Ao contrário da Strategy, a Forward Industries stakea a totalidade da sua posição, gerando um rendimento bruto anual que a própria empresa situa entre 6,5% e 7,2%, com Samani a explicar, em declarações televisivas, que o objetivo é reinvestir continuamente as receitas de staking, empréstimo e arbitragem on-chain na compra de mais SOL, num ciclo que a empresa descreve como autossustentável.

A Forward Industries tem ainda uma particularidade que a distingue de qualquer tesouraria de bitcoin: desde dezembro de 2025, através de uma parceria com a Superstate, as próprias ações da empresa podem ser tokenizadas e detidas diretamente na blockchain da Solana, permitindo negociação contínua e, para detentores fora dos Estados Unidos, o uso dessas ações tokenizadas como garantia em protocolos de crédito on-chain como a Kamino, segundo o The Block. É um exemplo concreto de como a linha entre ação cotada e ativo on-chain está a esbater-se precisamente nas empresas que já fazem da cripto o seu negócio principal.

Mineradoras e o cruzamento com o gaming: MARA, Riot e a GameSquare

As mineradoras de bitcoin têm funcionado, na prática, como quase-tesourarias há vários anos, e 2026 trouxe uma reviravolta: várias começaram a vender parte das suas posições para financiar outros negócios. A MARA Holdings vendeu 15.133 bitcoins por cerca de 1,1 mil milhões de dólares em março, reduzindo a dívida de 3,3 para 2,3 mil milhões e recomprando obrigações convertíveis com desconto, mantendo ainda assim cerca de 38.700 bitcoins em carteira. A Riot Platforms vendeu 3.778 bitcoins a um preço médio de 76.626 dólares, mantendo cerca de 15.680 moedas, num movimento que se seguiu a uma carta pública do investidor ativista Starboard Value a defender que a empresa priorizasse a expansão para inteligência artificial e centros de dados em vez de mineração pura, segundo a CoinDesk.

No cruzamento entre tesourarias cripto e o setor do gaming, que aqui na HOGE Wire seguimos com particular atenção, o exemplo mais visível é a GameSquare (GAME, Nasdaq), uma empresa de media e esports que aprovou um programa de tesouraria e gestão de caixa em ether de até 250 milhões de dólares. No final do primeiro trimestre de 2026, a empresa detinha 15.502 ETH, mais cerca de 1,6 milhões de dólares noutras altcoins, com uma parceria com a Dialectic a gerir uma estratégia de staking e DeFi com o objetivo declarado de gerar entre 8% e 14% de rendimento anualizado. Ainda em 2025, a empresa tinha aprovado um programa de recompra das próprias ações financiado precisamente pelos rendimentos gerados por essa posição em ether, segundo a própria GameSquare. A empresa reporta os resultados do segundo trimestre de 2026 a 10 de agosto, o que deverá atualizar estes números.

Não é a primeira vez que o mundo dos videojogos empresta vocabulário e cultura ao setor cripto, um paralelo que explorámos em detalhe no texto sobre o que os videojogos ensinaram primeiro à cripto em matéria de post-mortems. A diferença, neste caso, é que a GameSquare não está a pedir emprestada apenas linguagem: está a apostar receita operacional real na exposição a um ativo digital, um caminho que outras empresas de media e entretenimento têm vindo a observar com atenção crescente.

O panorama em números: quem tem o quê em agosto de 2026

A tabela seguinte resume as principais tesourarias cripto corporativas ativas em agosto de 2026, com valores calculados a preços de referência de início de agosto (bitcoin a cerca de 55.600 euros, ether a cerca de 1.610 euros e solana a cerca de 64 euros, segundo a CoinGecko) aplicados às quantidades divulgadas por cada empresa nas datas indicadas ao longo deste artigo. Em conjunto, estas empresas movimentam somas suficientemente grandes para se comportarem, elas próprias, como as baleias que os alertas on-chain tentam identificar noutros contextos de mercado.

EmpresaTicker / bolsaAtivo principalQuantidade detidaValor aproximadoNota
StrategyMSTR, NasdaqBitcoin842.137 BTC~47 mil milhões €mNAV ~0,62x, com desconto
Twenty One CapitalXXI, NYSEBitcoin43.514 BTC~2,42 mil milhões €Nova direção após fusão falhada
Metaplanet3350, Tóquio / MTPLF OTCBitcoin43.000 BTC~2,39 mil milhões €Rendimento via venda de opções
Capital BALCPB, Euronext Growth ParisBitcoin3.140 BTC~174,6 milhões €Primeira tesouraria cripto europeia
BitMine ImmersionBMNR, NYSEEther5.797.813 ETH~9,33 mil milhões €85% da posição em staking (MAVAN)
SharpLink GamingSBET, NasdaqEther886.725 ETH~1,43 mil milhões €Inclui derivados LsETH e weETH
Forward IndustriesFWDI, NasdaqSolana7,55 milhões SOL~483,2 milhões €Ações tokenizadas na Solana
GameSquareGAME, NasdaqEther15.502 ETH~25 milhões €Cruzamento com gaming e esports

Vale a pena notar que estes valores são, por natureza, uma fotografia instantânea. Uma variação de 10% no preço do bitcoin ou do ether altera estas contas em milhares de milhões de euros de um dia para o outro, o que é exatamente o motivo pelo qual o mNAV de cada empresa, a relação entre o valor da ação e o valor da cripto detida, importa mais do que o valor absoluto da posição.

A reserva soberana dos EUA e o risco suspenso do índice MSCI

Para além das empresas privadas, o maior detentor soberano conhecido de bitcoin continua a ser o próprio governo dos Estados Unidos. A Reserva Estratégica de Bitcoin, criada por ordem executiva a 6 de março de 2025, agrega cerca de 328.372 bitcoins, na sua totalidade provenientes de apreensões judiciais e não de compras em mercado aberto, segundo a CoinDesk. Mais de um ano depois da ordem executiva, a estrutura definitiva de custódia, entre o Tesouro e o Departamento do Comércio, continua por decidir, e propostas legislativas como o BITCOIN Act da senadora Cynthia Lummis, que fixaria uma meta de um milhão de bitcoins, continuam paradas no Congresso.

Um risco sistémico diferente, este sim diretamente relevante para as tesourarias privadas, esteve para se materializar no início do ano. A MSCI, uma das maiores fornecedoras de índices do mundo, tinha proposto excluir dos seus índices globais qualquer empresa com mais de 50% dos ativos totais em criptomoedas, uma categoria que incluiria pelo menos 39 empresas, entre as quais a própria Strategy. Analistas estimavam que a medida forçaria entre 10 e 15 mil milhões de dólares em vendas por fundos passivos indexados. A 6 de janeiro de 2026, a MSCI recuou: anunciou que não avançaria com a exclusão na revisão de fevereiro, embora tenha deixado em aberto uma consulta mais ampla sobre o tratamento de empresas não operacionais, segundo a CoinDesk. As ações da Strategy subiram 6% na sessão seguinte ao anúncio.

O risco não desapareceu, apenas ficou suspenso. Uma futura revisão da MSCI, ou de outros fornecedores de índices como a FTSE Russell ou a S&P Dow Jones, que reintroduza critérios mais apertados para empresas com concentração elevada num único ativo digital, continua a ser um dos riscos estruturais mais citados por analistas que cobrem o setor, precisamente porque afetaria todas estas empresas ao mesmo tempo, independentemente da qualidade individual da gestão de cada uma.

MiCA, CMVM e o fosso regulatório das tesourarias cripto

Um ponto frequentemente mal compreendido por investidores europeus é que as tesourarias cripto corporativas não são, regra geral, entidades reguladas ao abrigo da MiCA (Markets in Crypto Assets), o regulamento europeu que entrou em plena aplicação em 2025 e 2026. A MiCA regula os prestadores de serviços de criptoativos (CASP, na sigla inglesa) e os emitentes de stablecoins, não empresas de outros setores, biotecnologia, gaming, hotelaria ou mineração de bitcoin, que simplesmente optam por deter criptomoedas no balanço sem oferecerem qualquer serviço cripto a terceiros.

Isto significa que uma empresa como a Capital B, cotada em Paris, é supervisionada essencialmente como qualquer outra sociedade cotada na Euronext, ao abrigo das regras gerais de mercado de valores mobiliários e de abuso de mercado, com a AMF francesa como reguladora principal. Em Portugal, o mesmo raciocínio aplicar-se-ia a uma eventual tesouraria cripto nacional: a supervisão comportamental caberia à CMVM, com o Banco de Portugal responsável pelo registo de prestadores de serviços de criptoativos e pela supervisão de stablecoins, conforme explica o próprio portal do investidor da CMVM. A negociação da própria criptomoeda subjacente pela empresa cairia sob as regras de abuso de mercado do Título VI da MiCA, plenamente aplicáveis em toda a União desde 28 de julho de 2026, mas as ações da própria tesouraria continuam sujeitas apenas às regras de mercado de capitais tradicionais.

Este fosso regulatório não é acidental nem exclusivo de Portugal: reflete uma escolha deliberada do legislador europeu de regular a atividade de prestação de serviços cripto, não a decisão de alocação de capital de uma empresa industrial. Na prática, significa que um investidor português que compre ações de uma tesouraria cripto, seja a Capital B, seja a Strategy através de um intermediário internacional, está a assumir um risco de ação cotada comum, com toda a proteção e todas as lacunas que isso implica, e não um risco especificamente enquadrado pela regulação cripto europeia.

Como avaliar uma tesouraria cripto: sinais a observar

Com dezenas de empresas a seguir hoje algum tipo de estratégia de tesouraria cripto, e com a dispersão de resultados entre a Strategy, a Metaplanet, a BitMine e a Forward Industries a ilustrar como a mesma ideia de base pode ter desfechos muito diferentes, alguns sinais ajudam a distinguir empresas mais resilientes de empresas mais frágeis.

SinalO que costuma indicarExemplo em 2026
mNAV persistentemente abaixo de 1xO mercado valoriza a empresa por menos do que a cripto que detém; o flywheel deixa de funcionarStrategy, mNAV básico ~0,62x em agosto
Venda de cripto para financiar dividendos ou jurosPode sinalizar stress de caixa mais do que estratégia de longo prazoStrategy vendeu 1.638 BTC entre 27 de julho e 3 de agosto
Rendimento nativo via staking, e não só exposição ao preçoGera receita independente da valorização do ativoBitMine, cerca de 85% do ETH em staking via MAVAN
Estrutura de capital com pouca dívida face à posiçãoReduz o risco de venda forçada em quedas prolongadas de preçoMetaplanet, dívida equivale a cerca de 23% do valor líquido em bitcoin
Dependência de uma única figura fundadoraRisco de governação; uma saída súbita pode mudar a estratégia de um dia para o outroTwenty One Capital, saída de Jack Mallers a 20 de julho
Autorização acionista para grandes emissões futurasPode financiar crescimento, mas amplia o risco de diluição se o prémio desaparecerCapital B, autorização para até 105 mil milhões € em linhas futuras

Nenhum destes sinais é, isoladamente, decisivo. Mas em conjunto ajudam a explicar por que motivo a mesma tese cripto produziu, em agosto de 2026, uma Strategy sob pressão, uma Twenty One Capital a reinventar-se e uma BitMine a acelerar: o ativo escolhido, a estrutura de capital e, cada vez mais, a existência ou não de rendimento nativo, importam tanto como a convicção sobre o preço a longo prazo do próprio ativo. Quem investiga os incidentes quando alguma destas apostas corre mal, sejam falhas de custódia, ataques a plataformas de staking ou simplesmente insolvência, é hoje uma indústria própria, que já explorámos no texto sobre quem investiga os hacks cripto por dentro.

Perguntas frequentes

O que é uma tesouraria cripto corporativa (DAT)?

Uma tesouraria cripto corporativa, ou DAT (Digital Asset Treasury company), é uma empresa cotada em bolsa que usa o balanço, normalmente financiado através da emissão de ações ou dívida convertível, para comprar e deter criptomoedas como bitcoin, ether ou solana em vez de dinheiro ou obrigações. A Strategy popularizou o modelo a partir de 2020; hoje existem dezenas de empresas cotadas a seguir a mesma lógica, incluindo a Metaplanet no Japão, a Twenty One Capital nos Estados Unidos e a Capital B na Europa.

O que é o mNAV e porque é que os investidores lhe dão tanta atenção?

mNAV, abreviatura de multiple to Net Asset Value, é o rácio entre o valor de mercado de uma tesouraria cripto e o valor de mercado da cripto que detém. Um mNAV acima de 1x permite à empresa emitir novas ações ou dívida acima do valor patrimonial para comprar mais cripto por ação, mecanismo conhecido como flywheel. Quando o mNAV cai abaixo de 1x, como aconteceu à Strategy em 2026, o mecanismo inverte-se: emitir novas ações passa a diluir os acionistas sem comprar cripto suficiente para compensar.

Porque é que a Strategy continua a vender bitcoin se a gestão continua otimista sobre o preço?

As vendas de bitcoin da Strategy em 2026 não visam sair da posição, mas financiar obrigações específicas, sobretudo dividendos e juros das ações preferenciais, numa altura em que a ação negoceia com desconto face ao valor do bitcoin detido, o que torna a emissão de novas ações mais penalizadora em termos de diluição. O programa de monetização de bitcoin da empresa autoriza vendas pontuais para este fim, mantendo intacta a maior parte da posição.

As tesourarias cripto corporativas estão sujeitas à regulação MiCA na União Europeia?

Não diretamente. A MiCA regula os prestadores de serviços de criptoativos e os emitentes de stablecoins, não empresas de outros setores que apenas detêm bitcoin ou ether no balanço sem oferecerem serviços cripto a terceiros. Uma tesouraria cripto europeia é supervisionada como qualquer outra sociedade cotada, ao abrigo das regras de mercado de valores mobiliários do país onde está listada; em Portugal, isso significa a supervisão da CMVM e do Banco de Portugal.

Vale a pena comprar ações de uma tesouraria cripto em vez de comprar bitcoin ou ether diretamente?

Depende do objetivo. Uma ação de tesouraria cripto oferece exposição alavancada através de dívida e emissão de ações, acesso a mercados onde a compra direta de cripto não é prática e, nalguns casos, rendimento adicional via staking. Em troca, o investidor assume risco de execução da gestão, risco de diluição quando o mNAV está baixo e risco de que o prémio ou desconto da ação face à cripto detida se mova de forma imprevisível, um risco que não existe ao deter a cripto diretamente.

Por Sofia Antunes, equipa de mercados da HOGE Wire.

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