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● Markets

O volume cripto que os rankings não contam

O volume à vista caiu, mas as taxas, os market makers e os mercados de previsão contam outra história. Um raio-X ao que os rankings trimestrais deixam de fora.

O volume à vista das exchanges centralizadas caiu 27,9% no segundo trimestre de 2026, segundo o relatório trimestral da CoinGecko. A notícia correu as manchetes do costume: quem subiu no ranking, quem perdeu quota, se a Binance continua a dominar. Já tratámos esse retrato completo do trimestre, com os números da queda, da resistência dos derivados e da subida das DEX.

Há, no entanto, uma segunda camada de informação que os rankings trimestrais não mostram bem. Quem fica com a diferença entre o que um comprador paga e um vendedor recebe. Quem gera, na prática, a maior parte da liquidez que aparece nos livros de ordens. A que horas do dia esse volume realmente acontece. E, sobretudo, para onde está a fugir o dinheiro que já não fica nas exchanges de cripto tradicionais: mercados de previsão que cresceram 48,7% no mesmo trimestre em que o volume à vista caiu, e uma categoria inteiramente nova, ações e metais tokenizados, que multiplicou o volume por mais de cem vezes num ano.

Este artigo olha para essas camadas. Não repete o ranking, olha para a engenharia por trás dele: as taxas, os intermediários, o calendário e os novos mercados que estão a redesenhar onde o dinheiro especulativo realmente circula em 2026. Para quem negoceia a partir de Portugal, estas camadas importam tanto ou mais do que o ranking em si, porque determinam o custo real de cada operação, a fiabilidade dos números que aparecem no ecrã e, cada vez mais, se existe sequer proteção regulatória aplicável ao produto específico que está a ser negociado.

Quem fica com a diferença: a engenharia das taxas maker-taker

Cada vez que uma operação é executada numa exchange, há uma taxa a pagar, e quase sempre duas taxas diferentes consoante o papel de cada parte. Quem coloca uma ordem que fica no livro à espera de ser executada é o «maker»: cria liquidez, e por isso paga menos. Quem executa contra uma ordem já existente é o «taker»: consome essa liquidez de forma instantânea, e paga mais por essa comodidade.

A diferença entre os dois nem sempre é pequena. Segundo a tabela de taxas oficial da Binance, um utilizador comum paga 0,100% tanto como maker como taker em spot; no topo da escala VIP (VIP 9, reservado a quem movimenta somas muito elevadas em 30 dias), a taxa de maker cai para 0,011% e a de taker para 0,023%, mais de quatro vezes menos do que o utilizador comum. Na Kraken, o efeito é ainda mais pronunciado: o escalão de entrada paga 0,40% de maker e 0,80% de taker, enquanto o escalão mais alto paga 0% de maker e apenas 0,05% de taker.

Este desenho não é acidental, e tem um efeito prático fácil de ilustrar: um utilizador que negoceia 10 mil euros por mês paga, em qualquer uma destas plataformas, um múltiplo da taxa que paga uma mesa institucional a mover centenas de milhões todos os meses. Uma exchange sem liquidez suficiente tem spreads largos, execuções más e, no limite, perde volume para concorrentes com livros de ordens mais profundos; pagar pouco, ou quase nada, a quem fornece essa profundidade é mais barato do que perder o negócio todo. Algumas plataformas vão mais longe e pagam mesmo um rebate a quem faz de maker: a Bybit, por exemplo, oferece rebates até -0,015% no seu programa para criadores de mercado, o que significa que a exchange paga ao trader por cada ordem executada como maker, em vez de lhe cobrar.

A tabela seguinte resume a distância entre o escalão de entrada e o escalão mais alto em duas das maiores exchanges centralizadas:

ExchangeMaker (entrada)Taker (entrada)Maker (topo)Taker (topo)
Binance0,100%0,100%0,011%0,023%
Kraken0,40%0,80%0,0%0,05%

Os intermediários invisíveis: quem gera a liquidez que aparece no livro de ordens

Uma fatia significativa do volume que aparece no ecrã não vem de investidores individuais a decidir comprar ou vender. Vem de firmas especializadas em criação de mercado, cujo negócio é cotar preços de compra e venda em simultâneo, capturar o spread entre os dois e fazê-lo em volume suficiente para que a margem, minúscula em cada operação, se torne relevante à escala do dia inteiro.

Wintermute, GSR, Jump Trading e Cumberland (a divisão de negociação da DRW) são os nomes mais citados neste espaço, operando tanto em livros de ordens públicos como em mesas de balcão para clientes institucionais. O seu volume raramente é reportado de forma separada nos rankings de exchanges, porque aparece disperso por dezenas de pares e plataformas diferentes, mas a sua presença é o que torna possível executar uma ordem grande sem mover o preço de forma abrupta. Esse é, aliás, um dos ângulos que já explorámos a propósito do posicionamento de grandes investidores em derivados e da forma como o capital institucional se distribui hoje entre CME, Hyperliquid e Deribit: nem toda a atividade relevante aparece como um movimento visível de preço.

A Jump Trading é um caso particularmente interessante de como estas firmas estão a expandir-se para lá da negociação cripto pura. Segundo a CoinDesk, a Jump tomou posições tanto na Kalshi como na Polymarket para fornecer liquidez, o que significa que a mesma firma que cota preços em bitcoin e ether nas exchanges tradicionais está agora a cotar preços em mercados de previsão sobre eleições, eventos desportivos e dados económicos. A linha entre negociação cripto e negociação de eventos está, na prática, a esbater-se ao nível dos próprios intermediários, muito antes de estar clara ao nível da regulação.

Não há uma estimativa pública consensual sobre que fatia exata do volume total é gerada por negociação algorítmica versus decisões manuais de investidores individuais. O que é verificável é a lista de intervenientes e o alcance das suas operações: firmas como a Wintermute descrevem publicamente operar em dezenas de plataformas em simultâneo, cotando preços de forma contínua em vez de reagir a notícias como faria um trader individual, o que por si só ajuda a explicar por que o volume agregado nunca chega a zero, mesmo nas horas mortas do relógio descrito na secção seguinte.

Stablecoins: a moeda silenciosa por trás de quase todo o volume

Um detalhe que os relatórios trimestrais raramente destacam, mas que está por trás de praticamente todos os números discutidos neste artigo, é que a esmagadora maioria dos pares de negociação usa uma stablecoin, normalmente USDT (Tether) ou USDC (Circle), como moeda de cotação. Isto aplica-se tanto ao volume à vista tradicional como aos novos perpétuos sobre ações e aos mercados de previsão: quando um contrato na Kalshi ou na Polymarket é liquidado, ou quando um perpétuo sobre uma ação é negociado numa exchange cripto, o dinheiro que entra e sai raramente é euro ou dólar de forma direta, é uma stablecoin.

Isto tem uma implicação prática simples, mas frequentemente esquecida: o volume cripto reportado nestes relatórios mede, na maior parte dos casos, fluxo denominado em stablecoins, não fluxo direto de moeda fiduciária. Para um investidor, isso significa que a solidez da própria stablecoin usada como base, a sua liquidez, a qualidade das reservas que a sustentam, o risco de a paridade se descolar do dólar, é parte do risco de qualquer operação, mesmo quando o ativo final negociado nada tem a ver com cripto no sentido tradicional.

O relógio do volume: por que as 14h UTC valem mais do que as 3h da manhã

O volume cripto não se distribui de forma uniforme ao longo do dia, apesar de os mercados nunca fecharem. A liquidez concentra-se em torno de três janelas regionais: a sessão asiática (00h00 às 08h00 UTC), a europeia (08h00 às 17h00 UTC) e a norte-americana (13h00 às 22h00 UTC). A sobreposição entre a tarde europeia e a manhã americana, entre as 13h00 e as 17h00 UTC, é consistentemente a janela de maior volume agregado nas principais exchanges, período em que traders europeus, do Médio Oriente e da costa leste dos Estados Unidos estão todos ativos ao mesmo tempo. Para quem negoceia a partir de Portugal, isso corresponde, grosso modo, ao início e meio da tarde local.

Nas horas mortas, entre as 02h00 e as 06h00 UTC e novamente entre as 21h00 e as 23h00 UTC, o volume agregado cai de forma visível. Exchanges com base de utilizadores mais concentrada geograficamente sentem este efeito com mais força: a Coinbase, com uma base norte-americana dominante, mostra picos mais pronunciados entre as 13h00 e as 21h00 UTC, enquanto a Binance, com utilizadores em mais de 180 países, tem uma distribuição mais equilibrada ao longo do dia, ainda que também beneficie da janela das 12h00 às 18h00 UTC.

Há também um padrão semanal: terça a quinta-feira tendem a ser os dias de maior volume, com quarta-feira frequentemente no topo quando coincide com divulgações agendadas de inflação ou decisões de política monetária nos Estados Unidos, dias em que a incerteza sobre o preço atrai mais participantes dos dois lados do livro de ordens.

Mercados de previsão: o segmento que cresceu 48,7% enquanto as exchanges cripto encolheram

Enquanto o volume à vista das exchanges cripto caía quase 28% no segundo trimestre, uma categoria de mercado adjacente registava a trajetória oposta. Segundo o mesmo relatório da CoinGecko, o volume nocional em mercados de previsão atingiu 113,8 mil milhões de dólares (cerca de 98,7 mil milhões de euros, à taxa de câmbio do início de agosto de 2026, com 1 dólar equivalente a cerca de 0,87 euros) no segundo trimestre, um crescimento de 48,7% face ao trimestre anterior. Só em junho, o volume mensal disparou para 52,8 mil milhões de dólares, impulsionado por um calendário carregado de grandes eventos desportivos.

Mecanicamente, um contrato de evento funciona de forma simples: cada participante compra uma posição «sim» ou «não» sobre o resultado de um acontecimento específico, a um preço entre 0 e 1 dólar que reflete a probabilidade implícita atribuída pelo mercado, e recebe o valor total por contrato apenas se a previsão se confirmar. É uma estrutura de pagamento binária, e é exatamente essa característica binária que a torna, aos olhos da ESMA, comparável a uma opção binária tradicional, como se vê mais à frente.

O crescimento não é um fenómeno isolado de um trimestre. Segundo dados do Pew Research Center, o volume mensal combinado da Kalshi e da Polymarket passou de menos de 5 mil milhões de dólares em setembro de 2025 para cerca de 24 mil milhões de dólares em abril de 2026, um aumento de quase cinco vezes em sete meses, já superando nesse mês a média mensal de todas as casas de apostas desportivas legais nos Estados Unidos (cerca de 14 mil milhões de dólares em 2025, segundo o mesmo estudo). Em junho de 2026, o volume mensal combinado das duas plataformas chegou a 44,8 mil milhões de dólares (cerca de 38,9 mil milhões de euros), segundo dados da The Block citados pela CoinDesk.

A composição por tema ajuda a explicar por que este mercado interessa tanto a quem já negoceia cripto. Na Kalshi, o desporto representa cerca de 80% do volume desde julho de 2024, contra apenas 7% para criptomoedas e 4% para política; na Polymarket, a distribuição é mais equilibrada, com 39% em desporto, 32% em política e 20% em criptomoedas. Isto sugere dois públicos parcialmente distintos: a Kalshi está mais próxima do apostador desportivo tradicional, a Polymarket mantém uma base mais próxima da cultura cripto original, o que também ajuda a explicar por que os picos de volume de cada plataforma nem sempre coincidem com os mesmos eventos.

Kalshi contra Polymarket: a corrida pela licença que está a redesenhar o mercado

Esta explosão de volume não aconteceu num vácuo regulatório, aconteceu, em boa parte, por causa de uma mudança de posição da CFTC (Commodity Futures Trading Commission, o regulador norte-americano de derivados). Depois de anos de incerteza sobre se contratos de eventos desportivos e políticos eram sequer legais ao abrigo da lei federal, o presidente da CFTC, Michael Selig, retirou em fevereiro de 2026 uma proposta de regra de 2024 que teria proibido este tipo de contrato, e passou a defender publicamente o desenvolvimento do setor. Em declarações citadas pela CoinDesk em março de 2026, Selig afirmou que «os participantes do mercado merecem clareza», resumindo a lógica por trás da agenda regulatória que se seguiu, incluindo uma proposta de regras específicas para mercados de previsão publicada em junho do mesmo ano.

Essa clareza regulatória tem um preço, e as duas maiores plataformas estão a pagá-lo de formas diferentes. A Kalshi opera diretamente como bolsa registada na CFTC desde o início. A Polymarket, historicamente mais associada à cultura cripto e à liquidação on-chain, adquiriu a QCEX, uma bolsa e câmara de compensação já licenciada pela CFTC, para conseguir, pela primeira vez, uma entidade doméstica regulada nos Estados Unidos e reabrir a plataforma a utilizadores norte-americanos através de acesso intermediado por corretoras, segundo reportado pela Rare Evo. A escala financeira desta corrida é elevada: a Kalshi atingiu uma avaliação de 22 mil milhões de dólares (cerca de 19,1 mil milhões de euros) na sua ronda de financiamento mais recente, segundo a CoinDesk, com a já mencionada Jump Trading a tomar posições de capital em ambas as plataformas.

Em julho de 2026, a Kalshi detinha cerca de 73% da quota de mercado combinada, contra 27% da Polymarket, muito por via da preferência de alguns traders por uma plataforma já sujeita a supervisão federal direta desde a origem, em vez de uma estrutura híbrida on-chain e off-chain a meio de uma transição regulatória.

A Europa trava os mercados de previsão para o retalho

Do lado europeu, a resposta regulatória seguiu a direção oposta. A 3 de julho de 2026, a ESMA (Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados) publicou um esclarecimento a confirmar que muitos contratos de mercados de previsão já caem dentro da proibição de comercialização a retalho de opções binárias, em vigor desde 2018 em vários Estados-membros. Segundo o esclarecimento, resumido pela CoinDesk, «a comercialização, distribuição ou venda a clientes de retalho de contratos de eventos que preencham a definição de instrumento financeiro está proibida», independentemente do nome comercial usado para os descrever.

A distinção técnica que a ESMA traçou ajuda a perceber por que a regra não se aplica da mesma forma a toda a categoria. Contratos cujo resultado dependa de ativos listados na secção C(4) a C(10) do Anexo I da MiFID II, essencialmente ativos financeiros tradicionais, qualificam-se como derivados e ficam sujeitos à proibição de retalho. Já contratos de eventos tokenizados numa blockchain que não se qualifiquem como instrumento financeiro podem cair antes ao abrigo do MiCA, com o seu próprio regime de autorização e divulgação, distinto e menos restritivo. Cris Carrascosa, presidente executivo da ATH21, descreveu a clarificação da ESMA como «menos uma nova restrição do que um lembrete do alcance da lei já existente», sublinhando que o verdadeiro desafio passa a ser a análise caso a caso de cada produto antes do lançamento.

Para plataformas como a Kalshi e a Polymarket, isto deixa três caminhos na União Europeia: reestruturar os produtos para escapar à classificação de instrumento financeiro, obter autorização ao abrigo da MiFID II, um processo caro e moroso, ou simplesmente fechar o acesso de retalho na Europa. Em Portugal, a supervisão de conduta de mercado destes instrumentos cairia sob a alçada da CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários), a mesma entidade que já fiscaliza a comercialização de derivados cripto ao abrigo da MiFID II, incluindo os limites de alavancagem de 2:1 para clientes de retalho já aplicados aos perpétuos cripto tradicionais.

Ações tokenizadas: a nova classe de volume que multiplicou por cem num ano

Se os mercados de previsão são a história mais visível de crescimento fora do radar das exchanges cripto tradicionais, a negociação de ativos tradicionais tokenizados, ações, metais preciosos e outros instrumentos, é a mais surpreendente pela velocidade. Segundo um relatório conjunto da MEXC e da CoinGecko publicado em julho de 2026, o volume combinado destes ativos «TradFi» em seis grandes exchanges cripto passou de 3,46 mil milhões de dólares em janeiro de 2025 para 393,15 mil milhões de dólares (cerca de 341 mil milhões de euros) em junho de 2026, um crescimento superior a cem vezes. A esmagadora maioria deste volume, 98,5% em junho, vem de contratos perpétuos, não de posse direta do ativo subjacente.

As ações norte-americanas tokenizadas lideram esta categoria: o volume mensal saltou 337,4% entre maio e junho de 2026, atingindo 189,84 mil milhões de dólares e uma quota de 48,3% do total TradFi, ultrapassando os metais preciosos como maior segmento. Os próprios metais, que tinham atingido um pico de 236,76 mil milhões de dólares em março de 2026, caíram para 122,59 mil milhões em junho, uma queda de 48,2% face ao máximo, o que sugere rotação de capital dentro da própria categoria TradFi, e não apenas crescimento acumulado.

Vugar Usi Zade, diretor executivo da MEXC, resumiu a lógica por trás deste crescimento numa citação incluída no relatório: «os ativos tradicionais estão a tornar-se uma parte central da forma como os utilizadores interagem com as plataformas cripto», e já não uma oferta experimental. Os números de intenção parecem confirmar essa leitura: segundo o mesmo relatório, 83,3% dos inquiridos afirmaram planear negociar mais destes produtos, com 74,2% dos utilizadores vindos de finanças tradicionais já a migrar para estas plataformas e 61,9% dos traders cripto nativos já a experimentá-los.

Vale a pena notar que esta categoria, tal como os mercados de previsão, levanta a mesma pergunta regulatória em aberto na Europa: um contrato perpétuo sobre uma ação de uma grande tecnológica norte-americana, negociado numa exchange cripto, é, na substância, um derivado financeiro tradicional embrulhado em infraestrutura cripto, precisamente o tipo de produto que a MiFID II foi desenhada para regular e que o MiCA explicitamente não cobre.

As DEX voltam a ganhar terreno: os 24% que reabrem o debate

A subida das DEX face às exchanges centralizadas, já detalhada no artigo anterior sobre o mapa do volume cripto, continuou depois do fecho do segundo trimestre. Segundo dados citados pela crypto.news em julho de 2026, o volume à vista das DEX subiu para cerca de 24% do volume das CEX, a leitura mais alta da série de dados atualmente citada. Vale a pena não tratar este número como um recorde absoluto incontestável: fontes anteriores, como a The Block, já tinham registado rácios de 25% a 29% em maio e junho de 2025, e a própria CoinGecko situava o pico em 24,5% em junho de 2025 antes de uma queda para 13% a 14% em janeiro de 2026. A diferença entre estas séries reflete sobretudo metodologia, que exchanges e pares são contabilizados, como se filtra volume artificial, mais do que uma mudança súbita e inequívoca de comportamento dos traders.

Dito isto, a direção geral é consistente com o que se via desde 2024: o rácio manteve-se abaixo de 10% durante grande parte desse ano, antes de começar a subir à medida que mais traders passaram a usar mercados sem permissão prévia. Parte dessa migração está diretamente ligada à queda do custo de transação nas L2 (redes de camada 2 do Ethereum), um tema que já tratámos em detalhe: quando executar uma troca numa DEX custa menos de um cêntimo em taxas de rede, a diferença de custo total face a uma CEX deixa de ser um argumento decisivo, e passam a pesar mais fatores como autocustódia, transparência on-chain e ausência de verificação de identidade. Uma parte desta subida também reflete uma fronteira cada vez mais ténue entre CEX e DEX: funcionalidades como o encaminhamento automático de ordens de exchanges centralizadas para pools de liquidez descentralizados, usadas por exemplo pela Binance Alpha, tornam a distinção estatística entre os dois tipos de plataforma cada vez mais uma questão de definição do que de comportamento real do utilizador.

O panorama completo: onde está o volume cripto em agosto de 2026

Juntando todas estas peças, a fotografia do volume especulativo ligado a cripto, e já adjacente a cripto, em 2026 fica assim, com os valores do segundo trimestre ou do período mais recente disponível para cada categoria:

SegmentoPeríodoVolume (USD)Equivalente em EURVariação
CEX à vistaT2 2026$1,95 biliões~€1,69 biliões-27,9% trimestral
CEX derivadosT2 2026$12,7 biliões~€11,02 biliões-10,0% trimestral
DEX à vista (quota face a CEX)Julho 2026~24% do volume CEXn/dsubida face a 13-14% em janeiro
DEX perpétuos (quota do total)Janeiro 202610,2% do total de perpétuosn/dsubida desde 2,0% em jan. 2024
Mercados de previsãoT2 2026$113,8 mil milhões~€98,7 mil milhões+48,7% trimestral
TradFi tokenizado (6 exchanges)Junho 2026$393,15 mil milhões~€341 mil milhõesface a $3,46 mil milhões em jan. 2025

A leitura mais útil desta tabela não é qual categoria é maior em termos absolutos, os totais das CEX continuam a dominar em escala, mas sim a direção do movimento: as categorias mais tradicionais e mais escrutinadas contraíram, enquanto as categorias mais novas e ainda pouco reguladas cresceram a um ritmo muito mais rápido.

O risco de seguir o volume errado

Nem todo este volume novo tem o mesmo grau de maturidade ou de escrutínio. As exchanges cripto centralizadas já passaram por mais de uma década de exposição ao wash trading (negociação artificial entre contas coordenadas para inflacionar números reportados) e de resposta a esse problema: a CoinGecko mantém desde 2019 o seu Trust Score, atualizado em maio de 2026 com a revisão «Basilisk», que passou a dar mais peso à profundidade real do livro de ordens e menos ao tráfego web como sinal de legitimidade. Já escrevemos sobre este problema em detalhe, incluindo os casos históricos mais citados na literatura académica e regulatória.

Os mercados de previsão e as plataformas de TradFi tokenizado ainda não têm um equivalente amplamente aceite a este tipo de auditoria de terceiros. São mercados jovens, com menos historial de deteção de manipulação e menos consenso sobre qual é a metodologia correta para medir liquidez real versus volume nocional inflacionado pela alavancagem. Um contrato perpétuo sobre uma ação, tal como um perpétuo sobre bitcoin, pode gerar volume nocional muito superior ao capital efetivamente em risco, precisamente porque a alavancagem multiplica o valor de cada contrato sem exigir posse do ativo subjacente.

Para quem usa o volume como indicador de qualidade antes de negociar, a recomendação prática mantém-se: cruzar sempre mais do que uma fonte, desconfiar de plataformas cujo volume reportado seja desproporcional à profundidade visível do livro de ordens, e tratar categorias de produto muito recentes com uma margem extra de cautela, independentemente de quão impressionante seja a taxa de crescimento reportada.

Portugal: CMVM, Banco de Portugal e o que ainda fica de fora

O quadro regulatório português para cripto está, entretanto, mais consolidado do que estava há um ano. O período transitório para VASP já registados terminou a 1 de julho de 2026, e a supervisão distribui-se entre o Banco de Portugal (autorização e registo de prestadores de serviços de criptoativos) e a CMVM (supervisão de conduta de mercado, abuso de mercado e reclamações de consumidores), ao abrigo da Lei n.º 69/2025, com coimas que podem chegar a 5 milhões de euros em casos graves.

O que este quadro não cobre de forma clara, tal como no resto da União Europeia, são precisamente as duas categorias mais dinâmicas descritas neste artigo. Contratos de eventos ao estilo Kalshi ou Polymarket que se qualifiquem como instrumento financeiro caem sob a MiFID II, não sob o MiCA, o que na prática os coloca fora do alcance direto da supervisão especificamente cripto da CMVM e mais perto do regime, mais restritivo, aplicado a produtos financeiros complexos vendidos a retalho. Perpétuos sobre ações tokenizadas enfrentam ambiguidade semelhante: nem claramente cripto ao abrigo do MiCA, nem claramente um produto MiFID II tradicional, dependendo de detalhes de estrutura contratual que a Comissão Europeia identificou, numa consulta pública recente, como uma das áreas a clarificar em futuras revisões do MiCA.

Na prática, para um investidor português, isto significa que a proteção regulatória disponível varia muito mais por tipo de produto do que a experiência de utilizador sugere. A mesma aplicação pode oferecer negociação de bitcoin (claramente MiCA, com todas as proteções associadas), perpétuos sobre bitcoin (MiFID II, com o limite de alavancagem 2:1 para retalho) e, cada vez mais, contratos de eventos ou ações tokenizadas cujo enquadramento ainda está, nas palavras usadas pela própria ESMA, a ser definido caso a caso.

O que isto significa para quem negoceia a partir de Portugal

Três conclusões práticas emergem de tudo isto:

  • O número de volume que uma exchange anuncia diz pouco sobre a execução que um trader individual vai obter: a estrutura de taxas por escalão significa que o custo real depende do volume próprio de cada utilizador, não do volume total da plataforma, e vale a pena comparar os escalões de entrada, não apenas os números de topo usados em marketing.
  • A fronteira entre mercado cripto e mercado financeiro tradicional embrulhado em infraestrutura cripto está a esbater-se mais depressa do que a regulação consegue acompanhar, seja em mercados de previsão, seja em ações tokenizadas, o que abre mais opções mas também mais zonas cinzentas de proteção ao investidor.
  • Quando uma categoria de produto multiplica o volume por cem num ano, ou cresce quase 50% num trimestre, vale a pena perguntar não só se está a crescer, mas se esse crescimento acontece num mercado maduro o suficiente para confiar nos números apresentados, antes de alocar capital com base apenas na tendência.

Nenhuma destas conclusões torna as novas categorias de volume menos interessantes de acompanhar, torna-as apenas mais parecidas com qualquer mercado financeiro jovem: cheio de oportunidade, ainda a meio da construção das suas próprias regras, e por isso mais dependente do discernimento de quem negoceia do que um mercado já maduro e amplamente escrutinado.

Perguntas frequentes

O que é considerado volume de negociação numa exchange de cripto?

Volume de negociação é o valor total de ativos transacionados numa plataforma num determinado período, normalmente 24 horas. Inclui operações à vista e, em muitas plataformas, também contratos derivados como futuros e perpétuos, que costumam gerar números nominais muito superiores por causa da alavancagem. Nem todo o volume reportado corresponde a atividade económica real, parte pode resultar de wash trading ou de metodologias de contagem diferentes entre plataformas.

Por que caiu o volume das exchanges cripto no segundo trimestre de 2026?

Segundo a CoinGecko, o volume à vista das dez maiores exchanges centralizadas caiu 27,9% no segundo trimestre de 2026 face ao primeiro, para 1,95 biliões de dólares, com um mínimo mensal em maio. A queda seguiu-se a um recuo mais amplo do mercado cripto e não foi uniforme: os derivados caíram apenas 10%, e categorias adjacentes como mercados de previsão e ativos tradicionais tokenizados cresceram fortemente no mesmo período.

Qual é a diferença entre taxa maker e taxa taker?

A taxa de maker aplica-se a quem coloca uma ordem que fica no livro de ordens à espera de ser executada, acrescentando liquidez ao mercado; a taxa de taker aplica-se a quem executa imediatamente contra uma ordem já existente, consumindo essa liquidez. As exchanges cobram normalmente menos ao maker do que ao taker, e alguns programas para grandes criadores de mercado chegam a pagar um rebate em vez de cobrar uma taxa.

Os mercados de previsão como a Polymarket e a Kalshi são regulados na Europa?

Parcialmente. A ESMA esclareceu em julho de 2026 que muitos contratos de eventos, sobretudo os que se qualificam como instrumento financeiro ao abrigo da MiFID II, já caem dentro da proibição existente de comercialização a retalho de opções binárias. Contratos tokenizados que não se qualifiquem como instrumento financeiro podem em vez disso cair sob o MiCA. Em Portugal, a supervisão de conduta cabe à CMVM, mas o enquadramento definitivo para esta categoria específica ainda está em discussão a nível europeu.

Como posso saber se o volume reportado por uma exchange é real?

Cruze sempre mais do que uma fonte de dados e desconfie de plataformas cujo volume reportado pareça desproporcional à profundidade visível do livro de ordens. Ferramentas como o Trust Score da CoinGecko, atualizado em 2026 para dar mais peso à profundidade de mercado e menos ao tráfego do site, ajudam a filtrar volume artificial, mas nenhuma metodologia é perfeita, sobretudo em categorias de produto muito recentes.

Por Liam Brennan, redação de mercados da HOGE Wire.

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