Guia prático: como pagar menos de 1 cêntimo nas L2 em 2026
Esqueça mais uma previsão macro sobre taxas. Aqui fica o passo a passo real para transacionar por menos de 1 cêntimo numa L2 hoje, com comparação de redes e o que os modelos preveem até 2027.
Nos últimos meses tornou-se quase um lugar comum ouvir que as taxas das L2 da Ethereum ficaram tão baixas que deixaram de ser um problema. Os números de fundo sustentam a frase: a taxa média de uma transferência simples numa L2 caiu mais de 99% desde o início de 2024, segundo dados da Token Terminal. O que falta, quase sempre, é a parte prática, ou seja, quanto custa mesmo hoje em euros, que carteira usar, que rede escolher e o que pode correr mal a tentar poupar uns cêntimos.
Este artigo não repete mais um exercício de previsão macro sobre para onde vão as taxas das L2 (essa análise já existe noutros artigos da HOGE Wire, com modelos quantitativos e cenários até 2027). Aqui o objetivo é diferente: mostrar quanto custa mesmo transacionar hoje, explicar passo a passo como fazer a primeira transferência por menos de um cêntimo de euro, comparar as redes mais usadas, listar os erros mais caros que se cometem no processo, e terminar com o que os modelos de previsão dizem sobre até onde a compressão de taxas pode chegar em 2027 e 2028.
O estado atual: quanto custa mesmo transacionar numa L2, em euros
O ponto de partida é fácil de verificar e, ainda assim, raramente é mostrado com números concretos em euros. Com o ether (ETH) a negociar perto dos 1.613 euros no momento em que este artigo foi escrito, segundo a CoinGecko, uma transferência simples entre carteiras numa L2 popular custa hoje, em geral, entre uma fração de cêntimo e poucos cêntimos de euro, consoante a rede e o congestionamento do momento. Compare isto com o que a mesma operação custava em 2021, ou mesmo em períodos de pico em 2024 ainda na camada base (L1) da Ethereum, quando era normal pagar vários euros por uma única transferência.
A tabela seguinte resume a ordem de grandeza das taxas médias nas L2 mais usadas para uma transferência simples, com base em dados agregados a partir do L2BEAT e da Token Terminal. Os valores exatos oscilam ao longo do dia consoante a procura por espaço em blobs, pelo que devem ser lidos como referência de grandeza e não como cotação em tempo real.
| Rede | Tipo de rollup | Taxa média (transferência simples) |
|---|---|---|
| Base | Optimistic | ≈ 0,02 USD (poucos cêntimos de euro) |
| OP Mainnet | Optimistic | ≈ 0,03 USD |
| Arbitrum One | Optimistic | ≈ 0,04 USD |
| Linea | zk-rollup | ≈ 0,04 USD |
| zkSync Era | zk-rollup | ≈ 0,05 USD |
| Scroll | zk-rollup | ≈ 0,06 USD |
Para dar escala a estes números: as L2 já processam, no conjunto, entre cinco a dez vezes mais transações do que a própria L1 da Ethereum, distribuídas por cerca de 73 rollups ativos com um valor total bloqueado (TVL) agregado à volta dos 41 mil milhões de euros segundo o L2BEAT; a Arbitrum sozinha responde por cerca de 44% desse total, com a Base a seguir de perto. E o indicador mais citado para mostrar a tendência: a taxa média das três maiores L2 por transferência simples (Arbitrum, Base e Optimism) caiu de cerca de 0,18 dólares (cerca de 0,16 euros) no primeiro trimestre de 2024 para cerca de 0,0015 dólares no primeiro trimestre de 2026, uma queda de 99,16%, segundo a Token Terminal.
Porque caíram tanto: de Dencun a Fusaka, e as forks BPO
A queda não é acidental. É o resultado direto de uma sequência de atualizações ao protocolo da Ethereum desenhadas especificamente para baratear o custo que as L2 pagam para publicar dados na camada base. Tudo começou com a Dencun, em março de 2024, que introduziu os blobs através da EIP-4844, um espaço de dados mais barato do que usar calldata tradicional e que, por si só, cortou os custos de dados das L2 em mais de 90%.
Seguiu-se a Pectra, em maio de 2025, que aumentou a capacidade de blobs por bloco através da EIP-7691. Depois veio a Fusaka, ativada a 3 de dezembro de 2025, com a EIP-7594 (PeerDAS, ou amostragem de disponibilidade de dados), que permite aos validadores verificar apenas partes dos dados em vez de blobs inteiros, reduzindo drasticamente os requisitos de largura de banda. A Fusaka foi seguida por duas forks «Blob Parameter Only» (BPO), que ajustam apenas os parâmetros de capacidade sem exigir uma hard fork completa: a BPO1, a 9 de dezembro de 2025, elevou o alvo para 10 blobs por bloco e o máximo para 15; a BPO2, a 7 de janeiro de 2026, subiu novamente para um alvo de 14 e um máximo de 21. No conjunto, isto representa cerca de 2,3 vezes mais espaço de blobs do que existia antes da Fusaka.
Uma BPO3 e uma BPO4 já estavam previstas na conceção original do roteiro, mas os programadores da Ethereum optaram por esperar por telemetria real das duas primeiras antes de avançar. À data de escrita deste artigo não há data confirmada para nenhuma das duas, e a discussão pública, nomeadamente no fórum Ethereum Magicians, aponta para um alvo aspiracional de cerca de 128 blobs por bloco a prazo, sem calendário fechado.
O piso técnico: porque as taxas nunca vão chegar a zero
Há uma armadilha comum em qualquer previsão sobre taxas das L2: assumir que, com blobs suficientes, o custo tende para zero. Não é bem assim. A própria Fusaka introduziu a EIP-7918, que fixa um piso técnico para a taxa base dos blobs, ancorado ao custo de execução da L1. Em termos simples, a taxa base de um blob deixa de poder ficar persistentemente perto de zero enquanto a L1 continuar a cobrar pelo espaço de execução; o piso corresponde exatamente a um dezasseis avos (1/16) do custo de execução base da L1.
O efeito prático deste mecanismo já se sentiu. O analista conhecido como Kydo (0xkydo) documentou que a taxa base dos blobs subiu cerca de 15 milhões de vezes desde a ativação da EIP-7918, precisamente porque deixou de poder cair para os valores residuais (perto de 0,000000001 Gwei) que se tinham tornado comuns antes da atualização. É um salto percentual dramático, mas em termos absolutos continua a falar-se de frações de cêntimo, o que ajuda a explicar porque é que a Fusaka baixou as taxas para o utilizador final ao mesmo tempo que, tecnicamente, disparou a taxa base dos blobs.
A implicação para quem tenta prever até onde as taxas podem cair é direta: mais blobs por bloco deixaram de ser, sozinhos, a alavanca principal. A próxima fase de compressão tem de vir de outro lado, como eficiência de execução, melhor compressão de dados ou margens de sequenciador mais apertadas, não apenas de mais capacidade de blobs.
Antes de começar: o que precisa para a primeira transação barata
A parte teórica ajuda a perceber o porquê, mas a pergunta mais prática é: como é que um utilizador comum chega a uma taxa de poucos cêntimos hoje? Antes de mais, há três coisas a ter à mão.
- Uma carteira compatível com EVM (MetaMask, Rabby, Trust Wallet ou equivalente), já configurada ou pronta a adicionar a rede L2 escolhida.
- Uma pequena quantidade de ETH nessa L2 especificamente para pagar gas; ter ETH na L1 ou noutra L2 não chega, o gas é sempre pago na rede onde a transação acontece.
- Fundos a mover, já numa carteira própria ou ainda numa exchange centralizada, o que determina qual dos dois caminhos do capítulo seguinte é o mais direto.
Um erro comum de principiante é assumir que basta ter ETH «na carteira» sem perceber que cada rede é, para efeitos de saldo, um livro-razão separado; o mesmo endereço pode mostrar saldo zero na Base e saldo positivo na Arbitrum, por exemplo, mesmo sendo controlado pela mesma frase de recuperação.
Vale ainda notar que, nas redes mais usadas, o token usado para pagar gas é sempre o ETH nativo da própria L2, não o token de governação da rede quando este existe, como o ARB da Arbitrum ou o OP da Optimism. Confundir os dois é outro erro comum de quem chega pela primeira vez a uma L2 vindo de uma exchange onde comprou o token errado a pensar que serviria para pagar as taxas.
Passo a passo: da exchange (ou da carteira) até à L2
Há dois caminhos práticos para chegar a uma L2, e o mais direto depende de onde os fundos estão hoje.
Caminho A, a partir de uma exchange centralizada. Várias das maiores plataformas já suportam levantamentos diretos para redes L2 específicas, sem passar por um bridge à parte. A Coinbase, por exemplo, não cobra taxa de rede em levantamentos de USDC para várias redes suportadas, incluindo a Base, absorvendo o custo internamente, segundo a própria documentação de apoio da Coinbase; a Base foi criada pela própria Coinbase, o que explica a integração direta. A Binance, a OKX, a Bybit e a Kraken suportam, entre outras, levantamentos diretos para a Arbitrum One e para a Base em ativos como USDC ou ETH. Na prática, o processo é: escolher levantar, selecionar o ativo, e no menu de rede escolher a L2 pretendida (não a rede Ethereum L1 por defeito), confirmar o endereço de destino, que é o mesmo endereço EVM em qualquer rede, e aguardar a confirmação, normalmente questão de minutos.
Caminho B, a partir de uma carteira já na L1. Quem já tem ETH ou stablecoins numa carteira própria na Ethereum precisa de um bridge, seja o bridge nativo de cada L2 (mais lento, mas sem confiar em terceiros) ou um bridge de liquidez de terceiros, como o Across ou o Hop (mais rápido, com uma pequena comissão adicional, porque estas plataformas adiantam os fundos do lado de destino antes de confirmar o lado de origem). Para um depósito de L1 para L2, o tempo típico é de minutos; é no sentido inverso, de L2 de volta para a L1, que os tempos variam significativamente consoante o tipo de rede, como se detalha no capítulo seguinte.
Feito o depósito, o passo final é o mesmo em qualquer dos dois caminhos: confirmar que a carteira está mesmo ligada à rede L2 correta (a maioria das carteiras modernas deteta e sugere a mudança de rede automaticamente ao visitar uma aplicação nessa L2, mas vale a pena confirmar manualmente antes da primeira transação, verificando o nome da rede e o chain ID no seletor da carteira) e enviar uma transação de teste, por exemplo uma transferência pequena para o próprio endereço, antes de mover valores maiores. Todo este processo, desde a confirmação do levantamento na exchange até à transação de teste confirmada na L2, costuma demorar menos de dez minutos na primeira vez, e menos de um minuto nas seguintes.
Qual L2 escolher? Comparação prática
Não existe uma resposta única. Depende do que se procura: menor taxa absoluta, ecossistema de aplicações mais maduro, ou tempo de saída mais rápido de volta para a L1. A tabela seguinte resume os fatores mais relevantes para quem está a escolher pela primeira vez.
| Rede | Tipo | Tempo de saída canónico para a L1 | Melhor para |
|---|---|---|---|
| Base | Optimistic rollup | ≈ 7 dias (ou minutos via bridge de liquidez) | Utilizadores de produtos Coinbase, DeFi de consumo |
| Arbitrum One | Optimistic rollup | ≈ 7 dias (ou minutos via bridge de liquidez) | Maior ecossistema DeFi, maior TVL |
| OP Mainnet | Optimistic rollup | ≈ 7 dias (ou minutos via bridge de liquidez) | Superchain (OP, Base e outras redes OP Stack) |
| zkSync Era | zk-rollup | Entre meia hora e poucas horas | Quem valoriza saída canónica mais rápida |
| Linea | zk-rollup | Entre meia hora e poucas horas | Integração com produtos ConsenSys/MetaMask |
| Scroll | zk-rollup | Entre meia hora e poucas horas | Compatibilidade EVM mais próxima do bytecode original |
A diferença estrutural mais importante para quem pretende mover fundos de volta para a L1 com frequência é o tipo de rollup. As optimistic rollups (Base, Arbitrum One, OP Mainnet) assumem que os dados publicados estão corretos a menos que sejam desafiados, por isso mantêm uma janela de contestação de sete dias antes de um levantamento canónico ser finalizado, um mecanismo confirmado pela própria documentação de apoio da Arbitrum Foundation. As zk-rollups (zkSync Era, Linea, Scroll) publicam uma prova de validade que a própria Ethereum verifica matematicamente, o que permite finalizar levantamentos canónicos tipicamente entre meia hora e poucas horas, não dias. Em qualquer dos dois casos, bridges de liquidez de terceiros permitem contornar a espera adiantando os fundos, mediante uma comissão. Para quem quiser aprofundar apenas a zkSync, a HOGE Wire dedicou-lhe uma análise própria sobre a aposta institucional da rede até 2028.
Os erros mais caros que se cometem a tentar poupar cêntimos
Poupar cêntimos numa transação e depois perder minutos, ou euros, a corrigir um erro evitável é mais comum do que parece. Os cinco erros seguintes explicam a maior parte dos casos.
- Escolher a rede errada no menu de levantamento da exchange, por exemplo enviar para «Ethereum (ERC-20)» quando o destino devia ser «Base» ou «Arbitrum One»; os fundos não se perdem tecnicamente, mas ficam presos na L1 e é preciso um segundo passo (um bridge) para os mover, anulando a poupança inicial.
- Não deixar ETH suficiente para gas na L2 de destino; sem isto, é impossível mover ou trocar o resto do saldo, mesmo que esse saldo seja avultado.
- Usar um bridge de terceiros para uma quantia pequena, onde a comissão fixa do bridge pode ser maior do que o valor que se estava a tentar poupar ao evitar a espera de sete dias.
- Confundir aprovações de contratos (approve) com transferências; numa aplicação DeFi, a primeira interação com um novo contrato costuma exigir uma transação de aprovação separada, com o seu próprio custo de gas, antes da transação principal.
- Assumir que o endereço é universal sem confirmar que a rede selecionada na carteira corresponde à rede pretendida; o endereço é o mesmo em todas as redes EVM, mas confirmar numa rede errada pode significar fundos difíceis de recuperar se o destino não suportar essa rede.
O que os modelos de previsão dizem sobre 2027
Voltando à pergunta que dá título a esta rubrica de previsões: até onde pode isto ir? Um estudo académico publicado no arXiv aplicou uma regressão de tendência temporal aos dados históricos de taxas de várias L2 e chegou a conclusões específicas: as L2 já teriam taxas medianas mais baixas do que a Solana a partir de outubro de 2026, e ultrapassariam a Solana em throughput (transações por segundo) por volta de março de 2029. O mesmo estudo documenta uma queda da taxa mediana das L2 superior a 95%, de cerca de 0,05 dólares (cerca de 0,04 euros) para cerca de 0,0015 dólares, no período analisado.
Vale a pena ler este tipo de previsão com alguma cautela. Modelos de regressão baseados em tendências passadas assumem que o ritmo de melhoria tecnológica (mais blobs, melhor compressão, adoção do PeerDAS) se mantém constante, o que nem sempre acontece, sobretudo quando, como se viu atrás, um mecanismo como a EIP-7918 introduz deliberadamente um piso técnico que não existia antes. Para uma leitura mais aprofundada dos pressupostos e dos cenários alternativos por detrás deste tipo de modelo, a HOGE Wire dedicou uma análise própria à mecânica do modelo de previsão.
Do lado do protocolo, a próxima grande atualização depois da Fusaka chama-se Glamsterdam, com um alvo interno, ainda sujeito a testes multi-cliente, para a segunda metade de 2026. O foco muda de capacidade de blobs para a descentralização da construção de blocos, através da separação proposer-builder incorporada diretamente no protocolo (ePBS). Não é, em si, uma atualização desenhada para reduzir taxas nas L2, mas qualquer mudança na forma como os blocos da L1 são construídos acaba por ter efeitos indiretos no custo de execução sobre o qual o piso da EIP-7918 é calculado.
O próprio Vitalik Buterin, cofundador da Ethereum, tem insistido que parte da compressão de custos que ainda falta depende de mudanças na própria L1, não só nas L2. No roteiro «Lean Ethereum», descrito em pormenor pelo The Defiant, escreveu que «quase todas as peças principais do protocolo vão ser substituídas» ao longo dos próximos três a quatro anos, a que chamou «a terceira grande iteração da Ethereum, tal como a Merge foi a segunda». Entre as mudanças descritas está um redesenho do modelo de contas ao estilo UTXO para tokens ERC-20 que, segundo o relato do The Defiant, poderia cortar as taxas de transação desse token em mais de dez vezes.
Quem paga a diferença: sequenciadores, margens e a Ethereum
Taxas mais baixas para quem transaciona não significam que operar uma L2 seja gratuito, apenas que o custo passou a ser suportado, cada vez mais, pela margem do sequenciador (a entidade, normalmente a própria equipa da L2, que ordena e submete lotes de transações à L1) e cada vez menos pelo utilizador final. Este é precisamente o tema que a HOGE Wire já explorou em detalhe numa análise dedicada à economia dos sequenciadores depois da compressão.
Os números públicos disponíveis mostram uma disparidade significativa entre redes. Segundo dados compilados pela VaaSBlock, a Arbitrum gerou entre cerca de 30 e 39 milhões de euros (35 a 45 milhões de dólares) em receita de sequenciador no primeiro semestre de 2026, enquanto a Base gerou entre cerca de 52 e 61 milhões de euros (60 a 70 milhões de dólares) no mesmo período. A diferença mais relevante, porém, não é o valor mas o destino: a Arbitrum tem um token (ARB) e uma tesouraria de DAO que, em teoria, pode beneficiar dessa receita; a Base não tem token próprio, e toda a receita gerada flui para a Coinbase, que já a descreve nos seus relatórios à SEC como uma nova linha de receita.
Um exemplo concreto da assimetria: segundo dados da Yellow.com, a Base gerou um lucro líquido de cerca de 81 milhões de euros (94 milhões de dólares) enquanto pagou apenas cerca de 4,2 milhões de euros (4,9 milhões de dólares) à própria Ethereum pelo espaço de blobs consumido, uma proporção que alimenta o debate sobre se as L2 estão, na prática, a esvaziar a Ethereum das receitas que antigamente cobrava diretamente na L1 através do mecanismo de queima da EIP-1559.
Nem todos veem isto como um problema. Steven Goldfeder, cofundador da Offchain Labs (a empresa por trás da Arbitrum), argumentou, a propósito do lançamento da Robinhood Chain sobre a stack Arbitrum Orbit, que «à medida que a adoção empresarial acelera, a Arbitrum está pronta para capturar receita», segundo a crypto.news. A Robinhood Chain destina 10% da sua receita líquida ao ecossistema Arbitrum, dividida entre 8% para a tesouraria da DAO e 2% para um fundo de programadores, uma tentativa concreta de devolver parte dessa receita ao token e à comunidade em vez de a deixar apenas com o operador do sequenciador.
Além da receita direta de taxas, muitos sequenciadores também capturam valor através de MEV (maximal extractable value), a reordenação ou inserção de transações dentro de um lote para extrair lucro adicional, por exemplo em arbitragem entre pools de liquidez. Esta fonte de receita é normalmente menos transparente do que a receita de taxas e raramente aparece separada nos relatórios públicos, o que torna difícil saber a dimensão real da margem total de um sequenciador.
A pressão da concorrência: outras camadas de disponibilidade de dados
A queda das taxas nas L2 da Ethereum também está a ser empurrada por fora, não apenas por dentro. Camadas de disponibilidade de dados (DA) alternativas, como a Celestia ou a EigenDA, oferecem-se para publicar os mesmos dados de transação que hoje vão para os blobs da Ethereum, tipicamente a um custo por megabyte substancialmente mais baixo, o que cria pressão competitiva direta sobre o preço que a Ethereum pode cobrar pelos seus blobs sem perder clientes, as próprias L2, para uma camada de dados concorrente. A EigenDA, por exemplo, usa a segurança económica de operadores que fizeram restaking de ETH através da EigenLayer para garantir a disponibilidade dos dados publicados, um modelo diferente do consenso próprio da Celestia.
A escolha de onde publicar dados não é neutra em termos de segurança: usar uma DA fora da Ethereum normalmente significa abdicar de parte das garantias herdadas da própria L1, uma troca que cada equipa de L2 pondera de forma diferente consoante o perfil de aplicações que aloja. Ainda assim, a existência da alternativa, mesmo que poucas L2 grandes a adotem de forma exclusiva, funciona como um teto implícito sobre quanto a Ethereum pode deixar as taxas de blob subir antes de se tornar competitivamente desvantajosa.
Portugal: o que muda com a CMVM e o fim do regime transitório
Para quem transaciona a partir de Portugal, há uma camada adicional que não tem nada a ver com blobs ou sequenciadores: o enquadramento regulatório mudou de forma relevante nos últimos meses. A Lei n.º 69/2025, publicada a 22 de dezembro de 2025 e em vigor desde 27 de dezembro de 2025, transpôs para a ordem jurídica portuguesa o regulamento europeu MiCA (Markets in Crypto-Assets).
Na prática, a supervisão em Portugal ficou dividida: a CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários) é responsável pela supervisão comportamental do mercado, incluindo regras de abuso de mercado e negociação; o Banco de Portugal trata do registo e autorização dos prestadores de serviços de criptoativos (CASP) e da supervisão prudencial, incluindo tokens referenciados a ativos e moeda eletrónica (ART/EMT, na terminologia do MiCA). O período transitório, durante o qual entidades já registadas ao abrigo da lei anterior podiam continuar a operar sem autorização MiCA, terminou a 1 de julho de 2026; a partir dessa data, só prestadores autorizados ao abrigo do MiCA podem operar legalmente para clientes em Portugal. A própria CMVM tem vindo a reforçar a comunicação com investidores sobre criptoativos, incluindo material explicativo e listas de prestadores autorizados, à medida que o volume de dúvidas do público aumenta.
Nada disto muda diretamente o custo de gas de uma transação numa L2, que é uma função do protocolo, não da jurisdição. Mas muda quem pode, legalmente, intermediar o acesso a essas redes a partir de Portugal, por exemplo que exchanges podem operar, e quais as coimas em caso de incumprimento, que no regime português podem ir de 25 mil a 5 milhões de euros, ou até 15% do volume de negócios anual, consoante o que for mais elevado.
Segurança prática: bridges, contratos e o que pode correr mal
Taxas baixas tornam mais tentador experimentar redes novas e aplicações desconhecidas só para ver como é, e é exatamente nesse tipo de experimentação despreocupada que costumam surgir os incidentes de segurança mais caros. Bridges continuam a ser um dos alvos preferidos de ataques, precisamente porque concentram grandes quantidades de fundos bloqueados como garantia do lado oposto da rede.
Antes de aprovar qualquer contrato desconhecido, mesmo numa L2 onde o gas custa cêntimos, vale a pena confirmar o endereço através da documentação oficial do projeto, não apenas de uma ligação recebida numa rede social ou devolvida por um motor de busca; ataques de phishing que imitam interfaces legítimas não ficam mais baratos só porque a rede subjacente está mais barata. Para quem quiser perceber como é feita a investigação depois de um incidente destes, e quem são as equipas que reconstroem o que aconteceu numa exploração de bridge ou de contrato, a HOGE Wire mapeou a indústria forense que hoje investiga hacks cripto.
A regra prática mais simples continua a ser a mais eficaz: nunca aprovar um limite ilimitado de gastos a um contrato que não se pretende usar de forma continuada, e revogar aprovações antigas periodicamente através de ferramentas dedicadas a isso. O custo de gas de uma revogação, tal como o de uma transferência simples, também caiu para poucos cêntimos, o que remove a última desculpa prática para não o fazer.
Cenários até 2028: o que muda e o que não muda
Juntando o mecanismo técnico (o piso da EIP-7918), a pressão competitiva (DA alternativas) e a incerteza sobre o calendário das próximas atualizações (BPO3, BPO4, Glamsterdam), é possível esboçar três cenários amplos para onde as taxas das L2 podem estar em 2027 e 2028; nenhum deles deve ser lido como certeza, são cenários, não previsões pontuais. Para quem preferir uma grelha de decisão mais orientada a perfis concretos de utilizador ou investidor em vez de cenários agregados, a HOGE Wire tem um guia de decisão dedicado até 2028.
| Cenário | Pressupostos principais | O que observar |
|---|---|---|
| Otimista | BPO3 e BPO4 avançam perto do alvo aspiracional de ≈128 blobs por bloco; Glamsterdam ativa sem grandes atrasos; a concorrência de DA mantém pressão sobre o preço dos blobs | Anúncio de data para a BPO3; telemetria pública sobre uso de blobs após a BPO2 |
| Central | Ritmo de atualizações semelhante ao histórico recente, sem grandes atrasos nem grandes acelerações | Evolução trimestral dos dados do L2BEAT e da Token Terminal |
| Adverso | BPO3 e BPO4 adiadas para depois de 2027; disputas sobre a EIP-7918 ou outros parâmetros atrasam consenso; procura por blobs cresce mais depressa do que a capacidade | Sinais de congestionamento sustentado no L2BEAT; atrasos repetidos em calls de programadores |
O ponto em comum aos três cenários é que nenhum devolve a Ethereum a um mundo sem custos de dados; o piso técnico da EIP-7918 garante isso por desenho. A diferença entre eles é sobretudo de calendário e de intensidade, não de direção: a tendência de fundo continua a apontar para custos residuais, não para custos que voltem a ser um obstáculo real ao uso quotidiano.
Perguntas frequentes
Quanto custa mesmo enviar uma transação numa L2 da Ethereum em 2026?
Depende da rede, mas para uma transferência simples o valor típico anda entre uma fração de cêntimo e cerca de seis cêntimos de euro, segundo dados agregados pelo L2BEAT e pela Token Terminal. Em períodos de forte procura por espaço em blobs o valor pode subir temporariamente, mas fica muito longe dos vários euros que eram comuns na L1 antes das atualizações Dencun e Fusaka.
Qual é a L2 mais barata para usar neste momento?
Entre as redes mais usadas, a Base tende a mostrar as taxas médias mais baixas, seguida de perto pela OP Mainnet e pela Arbitrum One, mas as diferenças entre elas costumam ser de poucos cêntimos e variam com o congestionamento do momento. A escolha da rede deve depender também do ecossistema de aplicações que se pretende usar, não só do preço.
As taxas das L2 vão mesmo chegar a zero?
Não, tecnicamente não podem. A EIP-7918, introduzida na atualização Fusaka, fixa um piso para a taxa base dos blobs ancorado ao custo de execução da própria L1 da Ethereum, o que impede que as taxas caiam de forma persistente para perto de zero. A compressão futura tem de vir de eficiência de execução e de margens mais apertadas, não apenas de mais capacidade de blobs.
Como envio fundos de uma exchange diretamente para uma L2 sem pagar taxas extra de bridge?
Várias exchanges, incluindo a Coinbase, a Binance, a OKX, a Bybit e a Kraken, já suportam levantamentos diretos para redes L2 específicas como a Base ou a Arbitrum One. No ecrã de levantamento, em vez de escolher a rede Ethereum (L1) por defeito, é preciso selecionar explicitamente a rede L2 pretendida antes de confirmar, e verificar sempre o nome exato da rede antes de submeter o pedido.
Quanto tempo demora a levantar fundos de uma L2 de volta para a Ethereum?
Depende do tipo de rollup. Nas optimistic rollups, como a Arbitrum One, a Base ou a OP Mainnet, o levantamento canónico demora cerca de sete dias devido à janela de contestação de fraude. Nas zk-rollups, como a zkSync Era, a Linea ou a Scroll, o levantamento fica normalmente concluído entre meia hora e poucas horas, porque depende da verificação de uma prova de validade em vez de um período de espera fixo. Em qualquer dos casos, bridges de liquidez de terceiros permitem receber os fundos mais depressa mediante uma pequena comissão.
Por Priya Reddy, HOGE Wire.