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● Predictions & Forecasts

ZKsync e a compressão de taxas: a aposta institucional até 2028

As taxas L2 comprimem-se para todos, mas a ZKsync aposta a sobrevivência na Prividium e nos bancos, não no retalho. Vale a pena essa tese até 2028?

A compressão das taxas nas L2 já é, para quem acompanha o ecossistema Ethereum, quase um lugar-comum. Os números confirmam-no de forma inequívoca: a taxa média das três maiores L2 (Arbitrum, Base e Optimism) caiu mais de 99% entre o primeiro trimestre de 2024 e o primeiro trimestre de 2026, segundo dados agregados por trackers do setor. O HOGE Wire já dissecou este fenómeno de várias formas, incluindo um guia de decisão sobre o que fazer com essa compressão até 2028. Mas há uma pergunta mais interessante, e bem menos respondida, escondida dentro desta história: o que acontece a uma rede que decidiu, deliberadamente, não competir apenas pelo utilizador de retalho que paga cêntimos por uma troca de tokens?

É essa a aposta da ZKsync Era. Enquanto a maioria das L2 disputa a mesma base de utilizadores com taxas cada vez mais próximas do piso técnico imposto pelo EIP-7918, a Matter Labs (a empresa por trás da ZKsync) tem gasto 2026 a construir algo diferente: uma rede privada para bancos chamada Prividium, um motor de provas que promete tornar a criação de provas de conhecimento zero praticamente gratuita, e uma tokenomics reformulada que tenta ligar o valor do token ZK a receita empresarial em vez de volume especulativo. Este artigo analisa se essa aposta tem substância técnica e económica suficiente para alterar a trajetória de uma rede cujo token perdeu mais de 97% do valor desde o dia em que começou a negociar, e traça três cenários plausíveis para a ZKsync até 2028.

O estado das taxas L2 em julho de 2026

Depois da Dencun (março de 2024, que introduziu os blobs via EIP-4844), da Pectra (maio de 2025) e da Fusaka (ativada a 3 de dezembro de 2025, com o EIP-7594 e o PeerDAS), a capacidade de dados disponível para as L2 aumentou de forma consistente, e os dois hard forks seguintes dedicados apenas a parâmetros de blobs (BPO1 a 9 de dezembro de 2025, BPO2 a 7 de janeiro de 2026) elevaram o alvo de seis para catorze blobs por bloco. O resultado imediato foi uma queda abrupta no custo de publicar dados na camada 1. O L2BEAT contabiliza atualmente cerca de 73 rollups, com um valor total bloqueado agregado próximo dos 48 mil milhões de dólares, e um volume de transações que chega a superar em cinco a dez vezes o da própria camada 1 em dias de atividade elevada.

Há um detalhe técnico que a cobertura mais genérica sobre este tema costuma tratar como rodapé: o EIP-7918, também incluído na Fusaka, impõe um piso à taxa base dos blobs, ancorado ao custo de execução da camada 1 da Ethereum. Segundo o texto final do EIP, publicado em eips.ethereum.org, o custo base do blob (BLOB_BASE_COST, fixado em 2 elevado a 13, ou 8192) implica que a taxa base do blob não pode cair, de forma persistente, abaixo de um dezasseis avos da taxa base de execução da camada 1. Ou seja, «taxas L2 grátis» não é uma previsão realista; é uma leitura incorreta do mecanismo. O analista independente Kydo (0xkydo) resumiu o efeito prático do piso numa publicação amplamente partilhada: a taxa base dos blobs subiu cerca de 15 milhões de vezes desde a ativação da Fusaka, precisamente porque deixou de poder ficar ancorada perto de zero.

Isto significa que, dali para a frente, qualquer compressão adicional de taxas nas L2 já não vem de mais blobs. Vem de eficiência de execução, compressão de dados e margem do sequenciador. E é exatamente aqui que a ZKsync Era faz algo que a maioria dos seus concorrentes optimistic rollups não pode replicar com a mesma facilidade: reduzir drasticamente o custo da prova de validade que tem de submeter à camada 1.

A ZKsync Era: da fila da frente ao quase esquecimento

Vale a pena recordar o contexto antes de avançar. A ZKsync Era foi, durante largos períodos de 2023 e 2024, uma das L2 mais faladas do ecossistema, em grande parte por causa do lançamento do token ZK. O airdrop de 3,67 mil milhões de tokens, distribuído a 695.232 carteiras a 17 de junho de 2024, foi descrito pela imprensa da altura, incluindo o The Block, como um dos maiores da história do setor, com o token a abrir com uma capitalização de mercado superior a 900 milhões de dólares e a atingir um máximo histórico de 0,3285 dólares no próprio dia de estreia, segundo dados da CoinGecko.

O que se seguiu foi menos badalado. O valor total bloqueado (TVL) da rede recuou para perto dos 900 milhões de dólares (cerca de 790 milhões de euros) no final de 2024, um mínimo que a investigação da Yellow.com sobre vencedores e peso morto entre as L2 em 2026 usa como ponto de partida para descrever a recuperação seguinte: entre 4,1 e 4,5 mil milhões de dólares (cerca de 3,6 a 3,9 mil milhões de euros à cotação atual) em meados de 2026, o que coloca a ZKsync Era como a maior L2 baseada em provas de validade (ZK-rollup) por TVL, à frente de Linea, Scroll, World Chain e Starknet. É uma recuperação genuína, mas que precisa de ser lida em contexto: a Arbitrum, sozinha, mantém uma fatia próxima dos 44 a 45% do TVL total das L2, com um valor que ronda os 20 mil milhões de dólares, e a Base, mesmo sem token próprio, continua a liderar em atividade de utilizadores e em receita de sequenciador.

O token ZK, entretanto, negoceia a cerca de 0,009373 dólares (0,0082 euros), segundo a CoinGecko, uma queda de aproximadamente 97% face ao máximo histórico de junho de 2024. A capitalização de mercado atual, próxima dos 94,6 milhões de dólares (cerca de 83 milhões de euros), sobre uma oferta em circulação de 10,1 mil milhões de tokens (de um máximo de 21 mil milhões), deixa a ZKsync Era numa posição pouco comum: TVL a recuperar, token a não acompanhar.

Atlas: a arquitetura que tenta devolver competitividade à rede

A resposta técnica da Matter Labs a este desfasamento chama-se Atlas. Lançada em outubro de 2025 como uma atualização à ZK Stack, a Atlas introduziu, segundo o The Block, um sequenciador de baixa latência capaz de finalidade próxima de um segundo e um débito superior a 15.000 transações por segundo, mantendo equivalência total com a EVM (o ambiente de execução da Ethereum). Para uma rede que compete diretamente com a Arbitrum e a Base em casos de uso de pagamentos e DeFi de alta frequência, sair de finalidades de vários segundos para cerca de um segundo é uma diferença que se sente na experiência do utilizador, não apenas nas folhas de especificações técnicas.

O objetivo declarado da Atlas não é apenas velocidade. Segundo o roteiro de 2026 da Matter Labs, a atualização serve como base de infraestrutura para clientes empresariais e institucionais, o que liga diretamente à aposta na Prividium, descrita mais à frente. Mas a Atlas, por si só, resolve apenas metade do problema de custos: acelera a sequenciação e a finalidade, não o custo de gerar a prova de validade que tem de ser submetida à Ethereum. Essa segunda metade fica a cargo de outro produto, lançado poucos meses depois.

Airbender: o motor de provas que pode reescrever a economia dos custos

Se a Atlas resolve a velocidade, o Airbender ataca o custo. Descrito na página oficial do projeto como o zkVM (máquina virtual de conhecimento zero) baseado em RISC-V mais rápido de código aberto (licença MIT), o Airbender atinge 21,8 MHz de débito de prova num único GPU H100, mais de seis vezes mais rápido do que zkVMs concorrentes segundo os números publicados pela própria equipa: o SP1 Turbo atinge 3,45 MHz e precisa de 50 a 160 GPUs para provar um bloco Ethereum completo, e o RiscZero atinge 1,1 MHz, precisando de 30 a 80 GPUs para a mesma tarefa. O Airbender consegue provar um bloco Ethereum completo, incluindo agregação recursiva, em cerca de 35 segundos com um único GPU, contra 45 a 90 segundos (SP1 Turbo) e cerca de 90 segundos (RiscZero) das alternativas.

A cifra que mais interessa para este artigo, no entanto, é outra: segundo a Matter Labs, os custos de prova podem descer até 0,0001 dólares por transferência simples, uma fração de cêntimo que torna a geração da prova de validade quase irrelevante na conta final do utilizador. Isto é relevante para a previsão de compressão de taxas porque separa dois custos que, em conversas mais genéricas sobre este tema, costumam ser tratados como um só: o custo de publicar dados na camada 1 (sujeito ao piso do EIP-7918, que nenhuma L2 consegue contornar) e o custo de gerar e verificar a prova de validade (uma despesa que os optimistic rollups como a Arbitrum ou a Base simplesmente não têm, mas que a Matter Labs está agora a aproximar de zero). Na prática, se o Airbender cumprir em produção o que promete em benchmarks, a ZKsync Era elimina a sua desvantagem estrutural de custos face aos optimistic rollups, sem conseguir, porque ninguém consegue, eliminar o piso comum imposto pela camada 1.

Vale notar que estes números são benchmarks internos da própria Matter Labs, ainda não replicados de forma independente em produção a larga escala; a ambição declarada no roteiro de 2026 é tornar o Airbender um «standard universal» para prova de conhecimento zero em todo o ecossistema, não apenas na ZKsync, o que, a confirmar-se, teria implicações para a economia de custos de outras ZK-rollups também.

Elastic Network: liquidez partilhada entre cadeias ZK Stack

A terceira peça da estratégia é a visão de rede elástica: a ideia de que a ZKsync Era deixa de ser uma única cadeia e passa a ser o nó central de uma rede de cadeias construídas sobre a ZK Stack (o kit de ferramentas open-source da Matter Labs para lançar rollups específicos de aplicação), todas partilhando liquidez e interoperabilidade nativa sem depender de pontes externas. O objetivo de longo prazo, segundo o roteiro da empresa, é sub-segundo de finalidade a mais de 100.000 transações por segundo agregadas, uma ambição que rivaliza, no papel, com o débito da Solana.

Esta narrativa não é exclusiva da ZKsync. A Arbitrum tem os seus Orbit chains, a Optimism tem a Superchain, e o argumento de liquidez partilhada entre cadeias satélite já foi feito, com resultados mistos, por praticamente todos os grandes fornecedores de infraestrutura L2. O ceticismo faz sentido: sequenciadores partilhados e based rollups continuam, em grande medida, por provar em produção com volume real. A diferença é que a Elastic Network da ZKsync tem, pelo menos, uma tese de receita mais concreta do que «mais cadeias, mais tarde, mais liquidez», porque a liga diretamente à Prividium e a clientes empresariais que pagam por infraestrutura, não apenas por espaço de bloco.

A ZKsync Era face à concorrência: uma comparação direta

Para situar a ZKsync Era dentro do panorama mais amplo das L2, a tabela seguinte resume a posição de seis redes relevantes, com taxas convertidas para euros à cotação atual (1 euro aproximadamente 1,14 dólares) e valores de TVL arredondados a partir de fontes públicas.

L2TipoTVL aproximadoTaxa medianaAposta estratégica principal
ZKsync EraZK-rollup3,6 a 3,9 mil M€ (4,1 a 4,5 mil M$)0,044€ (0,05$)Prividium (banca) e Elastic Network
Arbitrum OneOptimistic rollupcerca de 17,5 mil M€ (20 mil M$)0,035€ (0,04$)Tesouraria DAO, Robinhood Chain, based rollups
BaseOptimistic rollup (OP Stack)não divulgado, líder em atividade0,018€ (0,02$)Distribuição Coinbase, sem token próprio
OP MainnetOptimistic rollupcerca de 5,3 mil M€ (6 mil M$)0,026€ (0,03$)Superchain, licenciamento OP Stack
LineazkEVMescala menor0,035€ (0,04$)Distribuição ConsenSys e MetaMask
ScrollzkEVMescala menor0,053€ (0,06$)Alinhamento técnico com a Ethereum

Duas coisas saltam à vista. Primeiro, a diferença de taxas entre a L2 mais barata (Base) e a mais cara da tabela (Scroll) é de poucos cêntimos, o que confirma que, para a esmagadora maioria dos casos de uso de retalho, a diferença entre L2s deixou de ser um critério de decisão relevante. Segundo, e mais importante para este artigo, apenas a ZKsync Era, entre as redes listadas, tem uma linha de receita institucional declarada e já com um cliente nomeado e verificável. A Linea depende da distribuição da ConsenSys e da MetaMask; a Scroll aposta num argumento de alinhamento técnico com a Ethereum; a Arbitrum tem a maior tesouraria de DAO do setor, mas não a canaliza para um produto empresarial equivalente à Prividium.

Porque a ZKsync não pode vencer a guerra dos sequenciadores

Há uma razão estrutural, para lá de qualquer preferência estratégica, que explica porque a Matter Labs foi à procura de uma fonte de receita fora do retalho. A receita de sequenciador (a diferença entre o que o utilizador paga e o que a rede efetivamente gasta a publicar dados na camada 1) é, hoje, uma corrida que a Arbitrum e a Base já venceram por escala. Segundo dados discutidos na análise do HOGE Wire sobre a economia dos sequenciadores depois da compressão, a Arbitrum gerou entre 35 e 45 milhões de dólares em receita de sequenciador no primeiro semestre de 2026, e a Base, apoiada pela distribuição da Coinbase, gerou entre 60 e 70 milhões de dólares no mesmo período. A ZKsync Era, com um TVL e uma atividade de utilizadores significativamente menores do que qualquer uma das duas, não tem, com a mesma base de utilizadores de retalho, forma realista de se aproximar desses números.

Isto não é um problema novo, nem exclusivo da ZKsync. É a mesma dinâmica de concentração que leva a Yellow.com a descrever as três maiores L2 como responsáveis por cerca de 80% do TVL e das taxas de todo o setor, deixando o resto (mais de cem rollups específicos de aplicação e menos de dez L2 generalistas com TVL acima dos mil milhões de dólares) a disputar as migalhas. A diferença é que a maioria das L2 mais pequenas não tem alternativa: ou crescem em escala de retalho, ou ficam presas nessa cauda longa. A ZKsync, com a Prividium, está a tentar uma terceira via, que consiste em deixar de competir diretamente nessa métrica e ir buscar receita a um mercado (banca regulada) onde nem a Arbitrum nem a Base têm, para já, uma oferta equivalente lançada.

ZKnomics Parte II: staking, queima e a tentativa de dar utilidade ao ZK

A dissociação entre a recuperação do TVL e o desempenho do token levou a Matter Labs a redesenhar a tokenomics do ZK, um processo que a própria equipa chama de ZKnomics. A segunda fase, lançada em fevereiro de 2026, criou um programa piloto de staking dividido em duas épocas ao longo de seis meses, com um total de 37,5 milhões de tokens ZK reservados para recompensas, segundo a cobertura da KuCoin. A taxa de rendibilidade anual (APR) inicial de 3% ajusta-se dinamicamente até um máximo de 10% consoante a participação, sem período de bloqueio, o que significa que quem faz staking pode retirar os tokens a qualquer momento. A primeira época terminou a 8 de maio de 2026.

O mecanismo mais relevante para a pergunta central deste artigo, porém, é o de queima e recompra: segundo a mesma cobertura, o valor do ZK passa a acumular-se através de taxas de interoperabilidade on-chain e de receita de licenciamento empresarial fora da cadeia (ou seja, o que a Prividium fatura a bancos e outras instituições), receita essa que financia recompensas de staking, financiamento ao ecossistema e um mecanismo de recompra e queima. É, em teoria, exatamente o desenho que resolve o problema descrito nas secções anteriores: se a receita de taxas de retalho está condenada, pelo piso do EIP-7918 e pela concorrência, a aproximar-se de um mínimo comum a todas as L2, a única forma de um token como o ZK acumular valor de forma sustentável é através de uma fonte de receita que não dependa desse retalho. A questão em aberto, que nenhuma fonte consultada para este artigo consegue ainda responder com números, é se a receita da Prividium, que a Matter Labs não divulga publicamente de forma discriminada, é hoje sequer expressiva o suficiente para mover a agulha da queima.

Prividium: a aposta institucional que não depende do utilizador de retalho

A Prividium é o produto que concentra toda esta tese. Descrita pela Matter Labs como uma blockchain privada e permissionada, construída para bancos e instituições reguladas, a Prividium integra privacidade em fluxos empresariais completos, desde gestão de acessos e aprovação de transações até relatórios e auditoria, ligando-se ainda a sistemas financeiros já existentes. Em 2026, a Prividium teve três desenvolvimentos concretos que vale a pena destacar: a conclusão do exame SOC 2 Tipo I a 16 de junho, a extensão da plataforma ao Hyperledger Besu a 2 de julho, e, o mais significativo, a adoção pela Cari Network, um consórcio bancário liderado pelo antigo Comptroller of the Currency dos Estados Unidos, Gene Ludwig.

Segundo a CoinDesk, a Cari Network junta bancos regionais norte-americanos, incluindo Huntington Bancshares, First Horizon, M&T Bank, KeyCorp e Old National Bancorp, com o apoio da Mid-Size Bank Coalition of America, para construir uma rede comum de depósitos tokenizados sobre a infraestrutura Prividium da Matter Labs. Ao contrário de stablecoins emitidas por entidades não bancárias, estes tokens representam depósitos bancários normais, sujeitos a regulação e à proteção do seguro de depósitos já existentes, com lançamento em produção previsto para 2026. Ludwig resumiu o argumento de forma direta: «Banks should be leading the next phase of digital money, not reacting to it» (os bancos devem liderar a próxima fase do dinheiro digital, não reagir a ela). Do lado da Matter Labs, Alex Gluchowski, cofundador e CEO, descreveu a mudança em curso em termos ainda mais amplos: «Financial infrastructure is undergoing the same shift computing went through decades ago, from siloed databases to shared, programmable infrastructure» (a infraestrutura financeira está a passar pela mesma transição que a computação atravessou décadas atrás, de bases de dados isoladas para infraestrutura partilhada e programável).

Este é, note-se, um argumento distinto do que se costuma ouvir sobre capital institucional a entrar no restaking em 2026: ali, a instituição aloca capital a um protocolo em troca de rendimento; aqui, a instituição paga para usar infraestrutura, o que é um modelo de receita mais parecido com licenciamento de software do que com finança descentralizada tradicional. Se resultar, é uma fonte de receita mais previsível e menos sujeita a ciclos de mercado do que taxas de retalho. Se não resultar, e a integração de bancos regionais em infraestrutura nova, sujeita a supervisão prudencial apertada, tende a ser lenta, a ZKsync fica sem uma segunda perna em que apoiar-se.

Do lado da distribuição de retalho, a Matter Labs também tem procurado alargar o acesso ao token: o ZK entrou na Bitstamp a 18 de junho de 2026, alargando o acesso a cerca de 4 milhões de utilizadores, e, de forma mais relevante para o público português e europeu, na Revolut a 27 de abril de 2026, alargando o acesso a cerca de 15 milhões de utilizadores europeus, segundo o blog oficial da ZKsync. Para um leitor em Portugal, esta última é provavelmente a forma mais direta de qualquer exposição de retalho ao ZK chegar a uma conta bancária ou de investimento nacional, já que a Revolut é uma das aplicações de banca e investimento mais usadas no país.

O que dizem os analistas e a reação do mercado

A reação do mercado a esta estratégia tem sido, na melhor das hipóteses, dividida. A cobertura mais recente descreve um sentimento misto: por um lado, um grupo de comentadores concentrado nos gráficos de preço, que continuam a apontar para baixo praticamente desde o pico de junho de 2024; por outro, um grupo mais pequeno que aposta no pipeline institucional concreto e na tokenomics revista como catalisadores de médio prazo. Nenhum dos dois lados tem, para já, dados suficientes para reclamar vitória: a recuperação do TVL é real e verificável, mas o preço do token não a acompanhou, e a receita da Prividium não é divulgada com detalhe suficiente para confirmar se já é materialmente relevante.

Vale a pena comparar esta dinâmica com o que o HOGE Wire já descreveu sobre vencedores e perdedores na compressão de taxas L2: nesse enquadramento mais amplo, os vencedores tendem a ser redes com efeitos de rede fortes o suficiente para captar volume mesmo com margens finas (Arbitrum, Base), enquanto os perdedores são redes presas no meio, sem a escala das primeiras nem uma proposta de valor suficientemente diferenciada. A ZKsync Era, tecnicamente, não está presa no meio, tem uma proposta claramente diferenciada com a Prividium, mas também ainda não tem a escala para se qualificar como vencedora inequívoca. É, por agora, um caso à parte, e talvez seja essa a descrição mais honesta possível em julho de 2026.

Portugal, a MiCA e o que isto significa para o investidor de retalho

Para quem lê a partir de Portugal, há duas camadas de contexto regulatório a ter presentes. A primeira é geral a qualquer criptoativo negociado no país: o período transitório da MiCA para os prestadores de serviços de criptoativos (CASP) portugueses terminou a 1 de julho de 2026, depois de a Lei n.º 69/2025 (publicada no Diário da República a 22 de dezembro de 2025 e em vigor desde 27 de dezembro) ter transposto o regime europeu. Na prática, isto significa que qualquer plataforma que sirva clientes portugueses, incluindo a Revolut, onde o ZK está agora listado, opera sob supervisão direta da CMVM (que fiscaliza condutas de mercado e negociação, ao abrigo dos títulos II e VI da MiCA) e do Banco de Portugal (que trata da supervisão prudencial e de stablecoins, os chamados tokens referenciados a ativos e a moeda eletrónica). As coimas por incumprimento variam entre 25 mil e 5 milhões de euros, ou até 15% do volume de negócios anual, consoante a gravidade.

A segunda camada é mais específica a este artigo: nada na arquitetura da Prividium, por ser uma rede permissionada para bancos, está desenhado para servir diretamente o investidor de retalho português. A exposição de um leitor em Portugal à tese da ZKsync passa, quase exclusivamente, pela compra direta do token ZK (hoje cotado a poucos milésimos de euro, com toda a volatilidade que isso implica) ou por produtos de terceiros que possam vir a expor-se à rede. Esta é uma distinção importante que falta em muita da cobertura genérica sobre taxas L2 quase zero: a compressão de taxas é uma história sobre custos de utilização da rede, mas a tese de investimento na ZKsync via token ZK depende de uma linha de receita institucional à qual o retalho não tem acesso direto nenhum. São duas apostas diferentes, disfarçadas de uma só.

Três cenários de previsão até 2028

Feito o levantamento, importa arriscar cenários. Nenhuma previsão sobre uma rede a meio de uma transição estratégica desta dimensão pode ser tratada como certeza; a tabela seguinte descreve três trajetórias plausíveis, com os sinais que ajudariam a confirmar cada uma.

CenárioTaxa mediana prevista (2027-2028)TVL previstoSinal a observar
OtimistaFração de cêntimo, dominada apenas pelo piso do EIP-7918Acima de 7 a 8 mil milhões de eurosCari Network entra em produção com volume mensurável; Season 2 do staking atrai participação elevada
CentralPróxima do piso técnico, sem grande diferenciação face a outras L2Estável entre 3,5 e 5 mil milhões de eurosReceita da Prividium cresce mas não é discriminada publicamente; queima do ZK é simbólica, não material
PessimistaIdêntica às rivais, sem prémio nem descontoRegressa perto do mínimo de 2024 (cerca de 800 milhões de euros)Bancos da Cari Network adiam ou abandonam o piloto; concorrência de Linea e Scroll intensifica-se sem resposta

O cenário central parece, à data de escrita, o mais provável: a ZKsync Era tem tecnologia (Atlas, Airbender) suficientemente competitiva para não perder terreno adicional por razões técnicas, e uma tese institucional (Prividium) genuína, com pelo menos um cliente nomeado e verificável (a Cari Network). O que falta, e que só os próximos dois a três trimestres podem confirmar, é prova de que essa tese institucional gera receita em escala suficiente para justificar a reformulação completa da tokenomics à volta dela.

Riscos que podem descarrilar qualquer um destes cenários

Vale enumerar, de forma direta, os riscos que mais pesam contra o cenário central ou otimista. O primeiro é competitivo: a Linea, a Scroll e outras zkEVMs perseguem uma parcela de mercado semelhante, e nenhuma delas depende de convencer bancos regionais norte-americanos a mudar infraestrutura de depósitos, um processo historicamente lento e sujeito a supervisão prudencial apertada. O segundo é interno à própria Ethereum: o roteiro «Lean Ethereum» anunciado por Vitalik Buterin em julho de 2026 aponta para uma reformulação de três a quatro anos do protocolo, incluindo um redesenho do modelo de contas ao estilo UTXO para tokens ERC-20 que, segundo o próprio Buterin em declarações reportadas pela thedefiant.io, poderia cortar taxas «by more than 10x» (em mais de dez vezes); se a camada 1 recuperar parte da execução que hoje delega às L2, o argumento de que a Ethereum precisa das L2 para escalar fica mais frágil, com implicações para todas as L2, não apenas para a ZKsync.

O terceiro risco é de tokenomics: uma recompra e queima financiada por receita empresarial só acumula valor se essa receita for, de facto, expressiva face à emissão e à oferta em circulação; caso contrário, é um mecanismo simbólico. O quarto é regulatório, e aqui vale notar uma tensão interessante: quanto mais a Prividium se aproxima de bancos regulados e de depósitos tokenizados, mais escrutínio prudencial atrai, o que pode tanto validar a tese (ao normalizar a infraestrutura) como atrasá-la (ao multiplicar os requisitos de conformidade antes de qualquer lançamento em produção).

O que observar nos próximos trimestres

Para quem quiser acompanhar esta história sem depender de previsões genéricas, há um conjunto reduzido de sinais concretos que vale a pena vigiar nos próximos dois a três trimestres:

  • O arranque e a adesão à segunda época do programa de staking ZKnomics, que dará uma primeira leitura real de quanto capital está disposto a ficar exposto ao ZK sem necessidade de o vender.
  • Qualquer divulgação, ainda que parcial, de receita gerada pela Prividium ou pela Cari Network, hoje ausente de todos os relatórios públicos consultados para este artigo.
  • O calendário do BPO3 e do BPO4, que os developers da Ethereum estão deliberadamente a segurar até analisarem a telemetria do BPO1 e do BPO2, e que continua sem data confirmada.
  • Se a Cari Network avança mesmo para produção em 2026, como anunciado, ou se o prazo desliza, como é comum em integrações bancárias com infraestrutura nova.
  • A evolução do preço do ZK face ao TVL da rede: se o desfasamento atual entre os dois se mantiver por mais dois ou três trimestres, é um sinal de que o mercado, por agora, não está a atribuir valor à tese institucional.

Nenhum destes sinais, isoladamente, resolve a pergunta central deste artigo. Em conjunto, deverão dizer se a ZKsync Era conseguiu mesmo transformar-se na primeira L2 cuja sobrevivência não depende de vencer a guerra de preços que, para quase todas as outras, os modelos de previsão de custos já apontam como praticamente decidida.

Perguntas Frequentes

Quanto custa hoje uma transação simples na ZKsync Era?

Segundo comparações entre L2 recolhidas em 2026, a taxa mediana de uma transação simples na ZKsync Era ronda os 0,05 dólares (cerca de 0,044 euros), ligeiramente acima da Base (0,02 dólares) e da Optimism (0,03 dólares), mas ainda assim uma fração ínfima do que custaria a mesma operação diretamente na Ethereum. Com o Airbender em produção, a componente do custo referente à prova de validade tende a aproximar-se de 0,0001 dólares, deixando o custo de publicar dados na camada 1, sujeito ao piso do EIP-7918, como o principal fator no valor final pago pelo utilizador.

O que é o Atlas upgrade da ZKsync?

É a atualização lançada em outubro de 2025 que introduziu um sequenciador de baixa latência com finalidade próxima de um segundo e capacidade superior a 15.000 transações por segundo, mantendo equivalência total com a EVM. Serve de base de infraestrutura tanto para utilizadores comuns como para os clientes empresariais visados pela Prividium.

As taxas da ZKsync, ou de qualquer L2, podem chegar mesmo a zero?

Não de forma persistente. O EIP-7918, ativado com a Fusaka em dezembro de 2025, fixa um piso técnico que ancora a taxa base dos blobs a, no mínimo, um dezasseis avos da taxa base de execução da camada 1 da Ethereum. Qualquer comunicação que prometa taxas L2 literalmente gratuitas está a descrever subsídios temporários ou casos de uso muito específicos, não o custo estrutural da rede.

O que é a Prividium e porque interessa a bancos?

É uma blockchain privada e permissionada, construída pela Matter Labs sobre a tecnologia da ZKsync, desenhada para dar a bancos e outras instituições reguladas uma infraestrutura com privacidade nas transações mas auditabilidade para reguladores. O caso mais visível em 2026 é a Cari Network, um consórcio de bancos regionais norte-americanos que a está a usar para construir uma rede comum de depósitos tokenizados.

Vale a pena investir no token ZK só por causa da recuperação do TVL da rede?

A recuperação do valor total bloqueado na ZKsync Era, de cerca de 900 milhões de dólares no final de 2024 para mais de 4 mil milhões em 2026, não se refletiu no preço do token ZK, que continua cerca de 97% abaixo do máximo histórico atingido em junho de 2024. TVL e valorização do token parecem, neste caso, histórias distintas: a tese de valorização do ZK depende mais da tokenomics de queima ligada à receita da Prividium do que da atividade de retalho medida pelo TVL. Qualquer decisão de investimento deve ponderar essa distinção, e não apenas o número de TVL isoladamente.

Por Priya Reddy, editora sénior da HOGE Wire.

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