h hoge.gg
Subscribe
BTC$67,432.18+2.34%ETH$3,521.44+1.08%SOL$178.62-0.62%BNB$612.30+0.41%XRP$0.6234-0.18%ADA$0.4521+3.12%DOGE$0.1623+1.86%AVAX$38.71-1.24%LINK$17.84+0.92%HOGE$0.00004120+4.21%
BTC$67,432.18+2.34%ETH$3,521.44+1.08%SOL$178.62-0.62%BNB$612.30+0.41%XRP$0.6234-0.18%ADA$0.4521+3.12%DOGE$0.1623+1.86%AVAX$38.71-1.24%LINK$17.84+0.92%HOGE$0.00004120+4.21%
● Predictions & Forecasts

Depois da compressão: a previsão para os sequenciadores das L2

As taxas das L2 já colapsaram para frações de cêntimo, mas quem as processa está a perder margem. A próxima previsão da compressão é sobre os sequenciadores, não sobre o preço.

O debate que já não interessa: quanto custam as L2

Nos últimos dois anos, praticamente todos os textos sobre o futuro da Ethereum e das suas redes de camada 2 (L2) fizeram a mesma pergunta: quanto vão custar as transações daqui a um ano, dois anos, cinco anos. A resposta, resumida, já está escrita em dezenas de gráficos. Segundo dados da Token Terminal, a taxa média de transação nas três maiores L2 por atividade (Arbitrum, Base e Optimism) caiu de 0,180219 dólares no primeiro trimestre de 2024 para cerca de 0,001512 dólares no primeiro trimestre de 2026, uma queda de 99,16%. Ao câmbio atual, segundo a CoinGecko, isso equivale a passar de quase 16 cêntimos de euro por transação para uma fração de cêntimo.

Só que esta pergunta, isolada, deixou de ser interessante. Não porque a resposta não importe (importa, e muito, para quem constrói produtos que dependem de custos de transação previsíveis), mas porque já foi respondida de tantas formas, com tantos modelos e cenários, que a discussão começa a repetir-se. Este site já tratou o tema em profundidade, incluindo em «Taxas das L2 depois da Fusaka: a previsão de compressão até 2027». O que ainda não foi respondido com o mesmo detalhe é uma pergunta adjacente e mais incómoda: se as taxas continuam a cair em direção ao piso técnico da rede, quem continua a ter incentivo para processar essas transações? E o que acontece ao negócio de operar uma L2 quando a margem por transação se aproxima de zero?

É essa a previsão que este texto tenta fazer: não mais uma releitura da compressão de taxas em si, mas uma previsão sobre o que essa compressão faz à economia de quem sequencia os blocos, e sobre a corrida, ainda mal contada, para descentralizar essa função antes que deixe de compensar operá-la sozinho.

O piso técnico chama-se EIP-7918 (e já tem um desafiante)

Para perceber por que razão as taxas não vão simplesmente desaparecer, é preciso perceber o mecanismo que as trava. Desde a ativação da Fusaka, a 3 de dezembro de 2025, o EIP-7918 impõe um piso à taxa base dos blobs (os pacotes de dados que as L2 usam para publicar transações na Ethereum): essa taxa não pode cair de forma persistente abaixo de um valor ancorado ao custo de execução da própria camada 1. Na prática, o piso corresponde a cerca de um dezasseis avos (1/16) do custo de execução do L1, calculado pela razão entre o gás por blob (131.072) e o custo base do blob (8.192). Isto já foi explicado com mais detalhe em «O piso técnico das taxas L2: três cenários até 2027», mas o ponto central para este texto é outro: o piso técnico não é uma curiosidade de engenharia, é o limite que define até onde a receita de uma L2 pode cair antes de deixar de compensar operá-la.

Só que este piso não é imutável. Em julho de 2026, o debate à volta do EIP-7938, uma proposta do investigador Dankrad Feist para aumentar exponencialmente o limite de gás do L1 (com incrementos automáticos por votação dos clientes, até dez vezes em dois anos e cem vezes em quatro), ganhou força precisamente porque, ao baixar o custo de execução do L1 ao longo do tempo, baixaria também, de forma indireta, o próprio piso da EIP-7918. Nenhuma data de ativação foi ainda fixada, e a comunidade continua dividida sobre a velocidade segura desse aumento, mas é um dos poucos mecanismos que poderia empurrar o piso técnico ainda mais para baixo sem uma nova hard fork dedicada só a isso. Para quem quer o modelo quantitativo completo, com a decomposição da taxa e os cenários até 2027, a análise em «Quanto vão custar as L2 em 2027? Dentro do modelo de previsão» vai mais fundo nesse cálculo.

Mais adiante no horizonte há uma variável ainda maior. O roteiro «Lean Ethereum», anunciado por Vitalik Buterin no início de julho de 2026 e descrito por ele como «a terceira grande iteração da Ethereum, depois de o Merge ter sido a segunda», segundo a The Defiant, propõe uma reformulação da camada de execução ao longo dos próximos três a quatro anos, incluindo um redesenho do modelo de contas ao estilo UTXO para tokens ERC-20 que Buterin afirma poder cortar taxas «em mais de dez vezes». Se parte deste roteiro avançar, o próprio piso técnico da EIP-7918, hoje ancorado ao custo de execução do L1, pode descer de forma muito mais acentuada do que qualquer aumento isolado do limite de gás conseguiria sozinho.

Vale a pena tornar explícita a ligação entre este piso técnico e o resto deste texto: a EIP-7918 garante que a Ethereum, como camada de liquidação, continua a receber uma fatia mínima de receita por cada blob publicado, não importa quão comprimidas fiquem as taxas cobradas ao utilizador final. Isso protege o incentivo económico dos validadores da Ethereum a longo prazo. Mas não protege, de forma nenhuma, a margem de quem opera o sequenciador de uma L2 específica, que fica espremida entre o piso que tem de pagar à Ethereum e o preço que o mercado está disposto a aceitar pagar pela transação. É precisamente nesse espaço espremido que a próxima fase desta história se vai decidir.

A economia dos sequenciadores: quem fatura o quê

Um sequenciador é, em termos simples, a peça de infraestrutura que recebe as transações dos utilizadores de uma L2, ordena-as, executa-as e publica o resultado, normalmente comprimido em blobs, na Ethereum. Hoje, esse papel é quase sempre desempenhado por uma única entidade: a Offchain Labs na Arbitrum, a Coinbase na Base, a OP Labs e a Optimism Foundation na rede Optimism. Apesar de taxas medianas por transação simples já na casa de poucos cêntimos (a Base ronda os 0,02 dólares, a Optimism os 0,03, a Arbitrum os 0,04), o negócio de sequenciar continua lucrativo, sobretudo pelo volume.

Segundo uma análise da Yellow.com, a Base gerou cerca de 94 milhões de dólares (aproximadamente 82 milhões de euros) em lucro operacional do sequenciador, enquanto pagou apenas cerca de 4,9 milhões de dólares (perto de 4,3 milhões de euros) de volta à Ethereum sob a forma de taxas de publicação de dados. É uma margem enorme, e é exatamente o tipo de assimetria que alimenta o debate sobre se as L2 estão a «drenar» valor da rede que lhes dá segurança. Dados referentes ao primeiro semestre de 2026, citados pela VaaSBlock, apontam para uma receita de sequenciador de cerca de 35 a 45 milhões de dólares (30 a 39 milhões de euros) na Arbitrum e de 60 a 70 milhões de dólares (52 a 61 milhões de euros) na Base, sendo que a Coinbase reporta parte destes números nos seus relatórios trimestrais à SEC por a Base representar uma linha de receita material para a empresa. A Optimism não divulga com o mesmo nível de detalhe, o que por si só diz algo sobre como cada operador trata esta receita: como ativo estratégico a proteger, não como métrica pública a otimizar.

Há ainda uma fonte de receita menos visível que nenhum destes números captura na totalidade: o MEV (maximal extractable value), o valor que um sequenciador pode capturar ao escolher a ordem exata das transações dentro de um bloco, por exemplo priorizando uma transação de arbitragem em detrimento de outra. Como o sequenciador de uma L2 centralizada controla essa ordem sozinho, tem acesso a uma fonte de receita adicional que raramente aparece separada nos relatórios financeiros, mas que pesa na equação de por que razão abrir mão desse controlo, mesmo com margens de taxa a encolher, continua a ser uma decisão difícil para qualquer operador.

A escala desta receita está diretamente ligada à quota de mercado. Segundo a The Block, a TVL da Base em aplicações DeFi subiu de 3,1 para um pico acima de 5,6 mil milhões de dólares entre janeiro e outubro, uma quota de cerca de 46,6% de toda a TVL de DeFi em L2, contra 30,86% da Arbitrum. Essa dominância, construída em grande parte sobre o funil de utilizadores da própria Coinbase, é hoje o maior argumento a favor do cenário de consolidação discutido mais adiante neste texto.

A tabela seguinte resume a situação de cada uma das três maiores L2 por atividade, cruzando receita do sequenciador com o estado real da descentralização dessa função.

L2Operador do sequenciadorReceita do sequenciador (H1 2026, aprox.)Estado da descentralização
ArbitrumOffchain Labs35 a 45 milhões de dólares (~30 a 39 milhões de euros)Centralizado; roteiro de descentralização anunciado, sem data de conclusão
BaseCoinbase60 a 70 milhões de dólares (~52 a 61 milhões de euros)Centralizado; decisões de infraestrutura internas à Coinbase
OptimismOP Labs / Optimism FoundationNão divulgado com o mesmo detalheCentralizado; sequenciação partilhada da Superchain em desenvolvimento

O detalhe mais importante desta tabela não é nenhum dos números, é a última coluna. Nenhuma das três maiores L2 por atividade tem, hoje, um sequenciador genuinamente descentralizado em produção. É uma escolha deliberada, e faz sentido enquanto a margem justificar o custo de manter o controlo centralizado. A questão que este texto tenta antecipar é o que acontece quando deixar de justificar.

O que acontece quando a margem desaparece

A lógica é simples de enunciar e difícil de resolver. Enquanto a taxa cobrada ao utilizador for muito superior ao custo de publicar os dados na Ethereum, o operador do sequenciador embolsa a diferença. Foi essa diferença que financiou, nos últimos anos, equipas de engenharia inteiras, campanhas de incentivos para atrair utilizadores e, no caso da Coinbase, uma linha de receita relevante o suficiente para aparecer em relatórios a investidores. Mas a compressão de taxas não afeta só o que o utilizador paga, afeta a margem inteira da cadeia de valor. Se a taxa cobrada cai 99% e o custo de publicação cai também, mas não necessariamente na mesma proporção nem ao mesmo ritmo, a margem que sobra para o operador pode encolher ainda mais depressa do que qualquer um dos dois lados isoladamente.

Há três respostas possíveis a esta pressão, e nenhuma delas é mutuamente exclusiva. A primeira é a consolidação: menos L2 sobrevivem como negócios independentes, e a atividade concentra-se nas que já têm escala e distribuição própria. A segunda é a diversificação de receita para fora da simples cobrança por transação: serviços de dados, produtos financeiros nativos, ou taxas cobradas mais acima na pilha, na camada de aplicação, não na de sequenciação. A terceira, e a que este texto trata com mais detalhe, é a descentralização da própria função de sequenciação, não porque seja ideologicamente correta, mas porque pode ser economicamente mais eficiente: partilhar a infraestrutura entre várias L2 dilui o custo fixo de a operar, mesmo que dilua também o controlo sobre ela.

Há ainda uma quarta resposta, menos falada, que é simplesmente aceitar uma margem mais fina como preço a pagar pela escala. Nenhum operador de sequenciador precisa de manter a margem percentual de 2024 para continuar rentável, se o volume de transações crescer o suficiente para compensar. É essa aposta, implícita mas nunca dita em voz alta, que sustenta grande parte do otimismo à volta de L2 como a Base: a ideia de que vale mais a pena processar mil milhões de transações com uma margem mínima do que cem milhões com uma margem confortável.

Sequenciamento centralizado: o estado real em 2026

É tentador presumir que, com tanto dinheiro e tanta engenharia investidos no tema, a descentralização dos sequenciadores já estaria bem encaminhada. Não está. A já citada análise da The Block sobre o panorama das L2 em 2026 é direta: a maioria continua a usar «um sequenciador permissionado operado por uma única entidade», e a descentralização continua a ser tratada como «um objetivo de longo prazo, e não uma prioridade imediata». Isto aplica-se a praticamente todas as L2 relevantes por atividade, da Arbitrum à Base, passando pela OP Mainnet, a zkSync Era, a Linea e a Scroll.

Um dos sinais mais claros de como este caminho é mais difícil do que parecia é o desfecho da Astria, um dos projetos mais citados como candidato a sequenciador partilhado independente, que encerrou por completo as operações em 2025. Não foi por falta de ambição técnica, foi porque construir uma rede de sequenciação partilhada simultaneamente rápida, segura e economicamente sustentável para quem a opera revelou-se mais difícil do que construir a própria L2. O resultado prático é que, a meio de 2026, o espaço de sequenciadores partilhados tem menos concorrentes viáveis do que tinha há um ano, não mais.

Há também um incentivo estrutural a manter as coisas como estão que raramente é dito em voz alta: um sequenciador centralizado permite decisões rápidas, atualizações de emergência sem coordenação com terceiros e controlo total sobre a captura de MEV interna. Descentralizar significa abrir mão de parte dessa agilidade e dessa receita em troca de resistência à censura e de uma narrativa mais alinhada com os valores fundadores da própria Ethereum. Para operadores que já têm quota de mercado consolidada, esse é um preço que só compensa pagar quando a pressão competitiva, regulatória ou de reputação se tornar grande o suficiente para justificar.

Based rollups: a Taiko e a sequenciação pelo próprio Ethereum

Há, no entanto, uma abordagem que contorna o problema em vez de o resolver: em vez de construir uma rede de sequenciação nova, delegar essa função inteiramente aos validadores da própria Ethereum. É essa a proposta dos chamados based rollups, um conceito descrito pela primeira vez pelo investigador da Ethereum Foundation Justin Drake em 2023, e implementado em produção pela Taiko, hoje o exemplo mais citado desta arquitetura. Num based rollup, os proponentes de blocos do L1, que já propõem blocos da Ethereum de forma permissionada por rotação, também propõem os blocos do rollup. Não existe um operador de sequenciador separado a extrair valor no meio do processo.

A vantagem central, resumida pelo próprio Drake num tópico técnico no fórum Ethereum Research, é que esta arquitetura continua a ser, nas suas palavras, «um sequenciador partilhado sem token, credivelmente neutro e descentralizado, que reutiliza a sequenciação do L1 e herda a sua resistência à censura». Ou seja: a segurança e a neutralidade não precisam de ser construídas de raiz, porque já existem ao nível da Ethereum. O preço a pagar, historicamente, era a latência (esperar pela confirmação de um bloco L1 demora muito mais do que um sequenciador dedicado), mas a introdução de pré-confirmações, promessas assinadas sobre a ordem e o resultado de uma transação antes da confirmação final, reduziu essa latência para a ordem das centenas de milissegundos, tornando a experiência do utilizador comparável à de um rollup com sequenciador centralizado.

A limitação óbvia dos based rollups é que só funcionam bem para rollups que aceitam essa dependência direta e permanente da Ethereum L1, o que nem toda a L2 está disposta a assumir, sobretudo as que competem por diferenciação técnica ou por controlo total sobre o seu roteiro. Mas para quem está preocupado sobretudo com resistência à censura e neutralidade credível, e menos com ter uma equipa própria a gerir infraestrutura de sequenciação, é hoje a arquitetura mais madura das que efetivamente já correm em produção.

Sequenciadores partilhados: a Espresso e a lição da Astria

A alternativa aos based rollups é construir uma rede de sequenciação partilhada independente da Ethereum L1, que sirva várias L2 ao mesmo tempo e reparta o custo de a operar. É essa a proposta da Espresso Network, hoje a rede de sequenciação partilhada mais citada depois do encerramento da Astria. A Espresso não sequencia diretamente pelos validadores da Ethereum, como a Taiko; em vez disso, fornece confirmações rápidas e partilhadas a rollups que integrem a sua rede, incluindo cadeias como a ApeChain, construída sobre o stack Orbit da Arbitrum. Em dezembro de 2025, segundo o próprio blog do projeto, a equipa anunciou ter atingido finalidade de dois segundos em ambiente de testes, uma melhoria de três vezes na velocidade e cinco vezes no throughput face às versões anteriores.

O encerramento da Astria é o contraponto que qualquer previsão sobre este tema tem de levar a sério. Era um dos projetos mais promissores da categoria, angariou financiamento, teve cobertura extensa, e mesmo assim não sobreviveu até 2026. A lição não é que os sequenciadores partilhados sejam uma má ideia, é que o modelo de negócio por trás deles ainda não está resolvido: alguém tem de pagar pela infraestrutura de consenso partilhada, e nem sempre é óbvio quem, quanto, nem por quanto tempo esse alguém está disposto a subsidiar a fase em que ainda há poucos rollups clientes a pagar por ela.

O restaking entra em cena: AVS de sequenciação

Uma terceira via, ainda mais recente, tenta resolver o problema de financiamento dos sequenciadores partilhados pedindo emprestada a segurança económica do restaking. A ideia, descrita pela própria EigenCloud (o novo nome da EigenLayer) como uma «Shared Sequencing AVS» (Actively Validated Service), funciona assim: operadores que já fizeram restaking de ETH aceitam condições adicionais de slashing, ou seja, perda de capital em caso de comportamento malicioso, em troca de uma comissão por ordenar transações e construir blocos para os rollups que servem. Em vez de um sequenciador partilhado ter de construir a sua própria rede de validadores de raiz, aluga a segurança económica que já está depositada na EigenCloud.

Este site já explorou em detalhe o estado do setor de restaking, incluindo a contração acentuada do valor total bloqueado ao longo de 2026, em «Restaking em 2026: o colapso do TVL e o novo mapa do setor». O que interessa aqui é a lógica de fundo: Sreeram Kannan, fundador da EigenLayer/EigenCloud, resumiu a proposta de valor mais ampla da plataforma num episódio do podcast Bankless, dizendo que «tudo o que se pode programar na cloud devia poder ser programado na EigenCloud com verificabilidade de nível cripto; se se fizer isto, não é preciso confiar em ninguém». Aplicada à sequenciação, a promessa é que um rollup pequeno, sem capital nem reputação para atrair validadores próprios, pode subcontratar essa confiança a um conjunto de operadores já economicamente comprometidos noutro lado.

Na prática, esta abordagem continua numa fase muito inicial. O conceito está documentado e é tecnicamente viável, mas a adoção por rollups de peso real, com volume de transações que justifique o esforço de integração, ainda é escassa. O próprio setor de restaking atravessa uma fase de contração de capital que não ajuda a inspirar confiança de longo prazo em nenhuma das suas aplicações mais recentes, e a sequenciação via AVS é, neste momento, mais uma prova de conceito do que um pilar de receita para qualquer L2 relevante.

Rollup-as-a-Service: a consolidação da infraestrutura

Nem toda a L2 quer, ou consegue, resolver o problema da sequenciação sozinha. Uma fatia crescente do mercado nem sequer opera a sua própria infraestrutura: contrata-a a fornecedores especializados em Rollup-as-a-Service (RaaS), como a Caldera, a Conduit ou a AltLayer, que tratam do lançamento e da manutenção do rollup em troca de uma comissão recorrente. A esmagadora maioria destes rollups geridos por terceiros corre, também ela, com um único sequenciador operado pelo próprio fornecedor RaaS, o que apenas desloca o problema da centralização, não o resolve.

A razão para esta escolha é sobretudo prática: lançar uma L2 própria de raiz, com uma equipa dedicada a manter nós, monitorizar o sequenciador e gerir upgrades, tem um custo fixo elevado que só compensa a partir de um determinado volume de atividade. Contratar um fornecedor RaaS reduz esse custo inicial para uma fração do que seria necessário internamente, ao preço de aceitar que a infraestrutura crítica, incluindo o sequenciador, fica nas mãos de um terceiro cujos incentivos nem sempre estão perfeitamente alinhados com os do rollup cliente.

A tabela seguinte organiza as quatro abordagens à sequenciação discutidas neste texto, da mais descentralizada à mais tradicional.

AbordagemExemploComo funcionaEstado em meados de 2026
Based rollupTaikoValidadores do Ethereum L1 sequenciam diretamente os blocos do rollupEm produção
Sequenciador partilhadoEspresso NetworkRede externa dedicada dá confirmações rápidas partilhadas a vários rollupsTestes avançados, integrações parciais em produção
Sequenciação via AVS (restaking)EigenCloud Shared Sequencing AVSOperadores com restaking ordenam transações sob condições de slashingConceito documentado, adoção inicial
RaaS tradicionalCaldera, Conduit, AltLayerFornecedor externo opera o sequenciador em nome do rollup clienteDominante; centralizado na esmagadora maioria dos casos

O padrão que emerge desta comparação é revelador: quanto mais madura e usada é uma solução, mais centralizada tende a ser na prática, e quanto mais descentralizada é uma arquitetura, mais recente e menos testada em escala ela ainda está. Isso não invalida a tese da descentralização, mas sugere que o calendário para a ver acontecer de forma generalizada é mais longo do que o discurso à volta do tema costuma sugerir.

O que realmente vai puxar a procura: stablecoins, RWA e pagamentos

Toda esta discussão sobre sequenciadores parte de um pressuposto que também merece ser questionado: o de que o volume de transações vai continuar a crescer o suficiente para compensar margens cada vez mais finas por transação. Aqui, o ângulo mais interessante para uma previsão não é técnico, é de procura. As L2 que sobreviverem à compressão de margem não vão ser necessariamente as que têm a arquitetura de sequenciação mais elegante, vão ser as que capturarem o tipo de atividade que gera volume suficiente para compensar taxas unitárias cada vez mais baixas: liquidação de stablecoins, tokenização de ativos do mundo real (RWA) e pagamentos, incluindo pagamentos entre máquinas e agentes automatizados.

O caso dos pagamentos entre agentes automatizados merece um parêntese. À medida que mais serviços de inteligência artificial passam a pagar uns aos outros por chamadas de API, dados ou capacidade de computação de forma autónoma, sem um humano a autorizar cada transação individual, a exigência de taxas ínfimas e previsíveis torna-se ainda mais rígida: um agente que faz milhares de micropagamentos por hora não tolera nem a incerteza de uma taxa variável, nem um custo unitário que ainda hoje seria considerado baixo para um humano. Esta é, plausivelmente, a categoria de procura mais alinhada com o cenário de compressão extrema de margem, precisamente porque só funciona a custos residuais.

É por isso que o comportamento da tesouraria corporativa e dos fluxos institucionais interessa tanto a esta previsão como a arquitetura de sequenciação em si. Empresas que mantêm reservas em cripto, um fenómeno já detalhado em «Tesourarias cripto corporativas: o guia completo de 2026», precisam de infraestrutura de liquidação previsível e barata para movimentar capital entre exchanges, custodiantes e produtos on-chain. O mesmo vale para os fluxos institucionais que entram e saem de produtos cotados sobre Bitcoin e Ethereum: quanto mais esse capital interage com produtos on-chain, em vez de ficar parado num produto puramente custodiado, mais depende de taxas de liquidação baixas e previsíveis nas L2 onde essa atividade acontece.

Se as L2 conseguirem provar que a sua infraestrutura de sequenciação é suficientemente robusta e neutra para suportar esse tipo de fluxo institucional, a procura agregada pode crescer o suficiente para manter viável mesmo uma margem por transação muito reduzida. Se não conseguirem, a compressão de margem transforma-se num problema estrutural, e não apenas cíclico.

Portugal, a CMVM e o custo de operar cá

Para quem opera ou constrói a partir de Portugal, esta previsão tem também uma dimensão regulatória concreta. O regime transitório do MiCA para prestadores de serviços de ativos virtuais portugueses terminou a 1 de julho de 2026, conforme confirmado pela CMS Law, na sequência da transposição feita pela Lei n.º 69/2025. Na prática, isto significa que qualquer entidade que preste serviços sobre ativos virtuais a residentes em Portugal, incluindo plataformas que apenas roteiam ordens para L2 específicas, precisa de estar devidamente autorizada, com a CMVM a assumir a supervisão comportamental e de abuso de mercado, e o Banco de Portugal a tratar da supervisão prudencial e do registo como CASP (Crypto-Asset Service Provider).

A ligação a este texto é indireta, mas real: se a próxima fase de crescimento das L2 depende de capturar fluxo institucional e de pagamentos regulados, como argumentado na secção anterior, o custo de conformidade regulatória torna-se parte do cálculo de qual L2 vence essa corrida, tanto quanto o custo técnico de sequenciação. Uma L2 com sequenciação mais barata mas sem nenhum operador autorizado disposto a servir clientes europeus de forma compatível com o MiCA perde essa fatia de procura para uma concorrente pior tecnicamente mas mais bem posicionada regulatoriamente. A compressão de taxas, neste sentido, não acontece num vácuo técnico, acontece dentro de um perímetro que a CMVM e o Banco de Portugal ajudam a desenhar.

Três cenários para o modelo de negócio das L2 até 2027

Juntando os fios anteriores, é possível desenhar três cenários plausíveis para o que acontece à economia das L2 entre agora e 2027, distintos dos cenários de preço já explorados noutros textos deste site porque o eixo aqui não é «quanto custa uma transação», é «quem continua a ter um negócio viável a operá-la».

  • Cenário de consolidação: a margem encolhe mais depressa do que a descentralização avança, e o mercado consolida à volta de duas ou três L2 com escala e distribuição suficientes, enquanto as restantes ou fecham, ou se tornam essencialmente serviços geridos por fornecedores RaaS sem ambição de operar sequenciador próprio.
  • Cenário de descentralização gradual: based rollups, sequenciadores partilhados e AVS de sequenciação amadurecem ao ritmo atual, sem grandes acelerações nem colapsos como o da Astria, e por volta de 2027 uma parte minoritária mas relevante da atividade corre já sobre infraestrutura de sequenciação genuinamente partilhada, coexistindo com sequenciadores centralizados nas L2 maiores.
  • Cenário de procura institucional a compensar a margem: a compressão de margem por transação continua, mas o volume de liquidação de stablecoins, RWA e pagamentos cresce o suficiente para que a receita agregada dos operadores se mantenha estável ou até cresça, mesmo com uma margem unitária muito mais fina do que a atual.

Nenhum destes cenários é mutuamente exclusivo, e a experiência dos últimos dois anos sugere que o resultado mais provável é uma combinação dos três, com pesos diferentes consoante a L2: consolidação nas mais pequenas e sem distribuição própria, descentralização gradual nas que apostam nisso como diferenciação, sendo a Taiko o caso mais claro, e procura institucional a compensar a margem nas que já têm relação direta com tesourarias corporativas e produtos regulados, como a Base através da Coinbase.

Para quem constrói produtos sobre L2, a implicação prática mais direta é não presumir que a atual generosidade de custos de infraestrutura, subsidiada por operadores a competir por quota de mercado, vai durar para sempre. Assumir custos de transação de referência mais próximos do piso técnico da EIP-7918 do que dos valores promocionais de hoje, e escolher a L2 onde se constrói também com base na saúde do modelo de negócio do operador, não apenas na taxa mais baixa do momento, é uma forma mais robusta de planear um roteiro de produto para os próximos dois a três anos.

Como saber se esta previsão está certa: checkpoints para acompanhar

Uma previsão só é útil se puder ser falsificada. Em vez de pedir para acreditar neste enquadramento, aqui ficam sinais concretos, verificáveis nos próximos meses, que indicam em que direção a economia dos sequenciadores está de facto a evoluir.

  • Se a Arbitrum, a Base ou a Optimism anunciarem uma data concreta, não apenas um roteiro genérico, para lançar sequenciação partilhada ou baseada em based rollup em produção, isso confirma o cenário de descentralização gradual.
  • Se a Coinbase deixar de reportar a receita da Base como linha relevante nos seus relatórios trimestrais à SEC, isso é um sinal de que a margem do sequenciador deixou de ser materialmente importante para o negócio.
  • Se surgir uma segunda vaga de encerramentos de projetos de sequenciação partilhada, semelhante ao da Astria, isso reforça o cenário de consolidação e atrasa qualquer calendário de descentralização.
  • Se o EIP-7938, ou uma proposta equivalente de aumento do limite de gás, for efetivamente ativado, isso altera a matemática do piso técnico da EIP-7918 e deve ser revisitado nesta previsão.
  • Se o volume de stablecoins e ativos tokenizados liquidados em L2 continuar a crescer mais depressa do que o volume de transações puramente especulativas, isso confirma que a procura institucional está de facto a compensar a compressão de margem.

Nenhum destes sinais, isoladamente, decide o resultado final, mas em conjunto formam um painel de acompanhamento mais honesto do que qualquer número único de «preço em 2027».

Perguntas frequentes

O que é um sequenciador numa rede L2?

Um sequenciador é o componente de infraestrutura de uma rede de camada 2 (L2) responsável por receber as transações submetidas pelos utilizadores, ordená-las, executá-las e publicar o resultado, normalmente comprimido, na Ethereum, a camada 1 que lhes dá segurança final. Hoje, na esmagadora maioria das L2 com atividade relevante, incluindo Arbitrum, Base e Optimism, esse papel é desempenhado por uma única entidade centralizada, o que levanta questões sobre censura, ordem de transações e concentração de receita.

O que é um based rollup?

Um based rollup é uma L2 que delega a sequenciação diretamente aos validadores da Ethereum L1, em vez de depender de um operador de sequenciador próprio e centralizado. A Taiko é o exemplo mais citado desta arquitetura, proposta originalmente pelo investigador da Ethereum Foundation Justin Drake. A vantagem é herdar diretamente a segurança e a resistência à censura da Ethereum; a limitação histórica era a latência, hoje reduzida através de mecanismos de pré-confirmação.

Porque é que as taxas das L2 não podem chegar a zero?

Desde a ativação da Fusaka, o EIP-7918 impõe um piso à taxa base dos blobs, ancorado ao custo de execução da própria Ethereum L1 e correspondente a cerca de um dezasseis avos desse custo. Isto significa que, mesmo com capacidade de blobs praticamente ilimitada, a taxa nunca cai de forma persistente para valores residuais. Compressão adicional só pode vir de eficiência de execução, compressão de dados ou margem do sequenciador, não de mais espaço de blobs.

Quais L2 têm sequenciadores descentralizados?

Em meados de 2026, nenhuma das L2 mais usadas por atividade, incluindo Arbitrum, Base, Optimism, zkSync Era, Linea ou Scroll, tem um sequenciador genuinamente descentralizado em produção plena. A Taiko, como based rollup, é a exceção mais próxima, ao delegar essa função aos validadores da Ethereum. Projetos de sequenciação partilhada como a Espresso Network estão em fase de testes avançados, com integrações parciais, mas ainda não substituíram os sequenciadores centralizados das maiores L2.

O que aconteceu à Astria?

A Astria foi um dos projetos mais citados na categoria de sequenciadores partilhados independentes da Ethereum L1, mas encerrou por completo as operações em 2025. O caso é frequentemente usado como aviso sobre a dificuldade de sustentar economicamente uma rede de sequenciação partilhada antes de existir um número suficiente de rollups clientes a pagar por ela, mesmo quando o projeto tem apoio técnico e financiamento consideráveis.

Por Priya Reddy, editora de mercados da HOGE Wire.

Share 𝕏 Post Telegram