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● Predictions & Forecasts

Taxas das L2 quase a zero: quem ganha e quem perde até 2028

As taxas das L2 já caíram para frações de cêntimo. Este artigo testa as previsões de 2026 e arrisca cenários concretos, com números, até 2028.

Em julho de 2026, enviar stablecoins numa L2 da Ethereum custa, em média, uma fração de cêntimo. A pergunta que dominava o debate sobre a Ethereum em 2023 e 2024, se as taxas alguma vez desceriam o suficiente para deixar de ser um obstáculo, já tem resposta, e é afirmativa. A pergunta que fica por responder é outra, e é bem mais interessante: o que acontece à economia das L2 quando o preço deixa de ser argumento de venda? Já escrevemos sobre os mecanismos técnicos por trás desta compressão nos nossos artigos anteriores sobre o tema; este arrisca-se a algo mais difícil, testar previsões feitas há seis ou doze meses contra os dados reais de 2026 e apontar cenários concretos, com números, para 2027 e 2028.

A resposta curta é que a concorrência entre L2 já não se decide em cêntimos. Decide-se noutro sítio: na profundidade do ecossistema de aplicações de cada rede, na forma como cada uma acumula valor para o seu token nativo, e na capacidade de sobreviver ao fim dos incentivos que mantiveram artificialmente vivas dezenas de redes sem utilizadores reais. É esse o fio condutor deste artigo.

O ponto de partida: taxas quase invisíveis em julho de 2026

Os números mais recentes do L2Beat e do L2fees.info confirmam a tendência que já era visível no início do ano: uma transferência simples numa L2 da Ethereum custa hoje frações de cêntimo, não cêntimos inteiros. Para dar uma ideia de escala, em 2021, durante os picos de mania por NFTs, uma simples troca num exchange descentralizado no mainnet podia custar o equivalente a dezenas de euros em gas; hoje, a mesma operação custa, em várias L2s, menos do que a moeda mais pequena que existe. Já explorámos esta compressão em detalhe num artigo anterior (Taxas das L2 da Ethereum: até onde vai a compressão em 2026); aqui o objetivo é diferente, perceber o que vem a seguir e, sobretudo, quem sai a ganhar com isso.

A tabela seguinte resume as taxas medianas para uma transferência simples nas seis maiores L2s por atividade, com o equivalente aproximado em euros à taxa de câmbio atual, cerca de 1,14 dólares por euro:

L2TipoTaxa mediana (USD)Equivalente em EUR
BaseOptimistic (OP Stack)≈ 0,02 $≈ 0,018 €
OP MainnetOptimistic (OP Stack)≈ 0,03 $≈ 0,026 €
Arbitrum OneOptimistic (Nitro)≈ 0,04 $≈ 0,035 €
LineazkEVM≈ 0,04 $≈ 0,035 €
zkSync ErazkEVM≈ 0,05 $≈ 0,044 €
ScrollzkEVM≈ 0,06 $≈ 0,052 €
Taxas medianas para uma transferência simples, meados de 2026. Fontes: L2Beat e L2fees.info.

A diferença entre a L2 mais cara e a mais barata desta lista é inferior a quatro cêntimos de euro. Escolher uma L2 com base apenas no preço deixou, na prática, de ser uma decisão racional; a decisão passa a ser sobre ecossistema, liquidez disponível e risco de segurança, não sobre cêntimos de diferença. É esta mudança de critério que atravessa todo o resto deste artigo.

Como chegámos aqui: de Dencun a Fusaka

A queda nas taxas não aconteceu de um dia para o outro; foi construída em cinco passos sucessivos desde março de 2024, cada um a aumentar a capacidade de blobs, o espaço de dados que a Ethereum reserva para as L2 publicarem transações sem competir diretamente com o gas da camada 1. O roteiro oficial da Ethereum documenta cada uma destas etapas em detalhe.

AtualizaçãoDataBlobs (alvo / máximo)Mudança principal
DencunMarço de 20243 / 6EIP-4844 introduz os blobs; custo de dados cai mais de 90%
PectraMaio de 20256 / 9EIP-7691 aumenta a capacidade base de blobs
Fusaka3 de dezembro de 20256 / 9EIP-7594 (PeerDAS), amostragem de disponibilidade de dados
BPO19 de dezembro de 202510 / 15Primeiro ajuste apenas de parâmetros pós-Fusaka
BPO27 de janeiro de 202614 / 21Capacidade final desta fase, cerca de 2,3x acima do nível pré-Fusaka
Glamsterdam2ª metade de 2026 (previsto)sem alteração diretaEIP-7732 (ePBS) e EIP-7928 (BALs), foco na camada 1
Roteiro de capacidade de blobs da Ethereum. Fontes: ethereum.org e EIPs oficiais.

O salto mais recente, o BPO2 de 7 de janeiro de 2026, deixou a rede com cerca de 2,3 vezes mais espaço de blobs do que existia antes da Fusaka. Foi este aumento de capacidade, mais do que qualquer alteração cosmética, que finalmente empurrou as taxas das L2 para território de milésimos de cêntimo. Vale sublinhar que os BPO, ou Blob Parameter Only forks, são atualizações que mexem apenas em parâmetros já existentes no protocolo, sem exigir uma hard fork completa; é uma forma de a Ethereum ajustar a capacidade de blobs com muito menos fricção de coordenação do que uma atualização normal, e é provável que continuemos a ver BPOs adicionais sempre que a procura por espaço de blobs volte a aproximar-se do limite máximo atual.

O piso técnico: porque as taxas nunca chegam a zero

Aqui vale a pena travar um entusiasmo fácil: as taxas das L2 não vão a zero, e não é um acidente de mercado, é uma decisão de desenho deliberada. A EIP-7918, ativada com a Fusaka, prende o preço base dos blobs a uma fração do custo de execução da camada 1, para garantir que os validadores continuam a ser compensados por reservar espaço mesmo quando a procura por blobs é baixa.

Antes desta alteração, o preço base dos blobs passava longos períodos colado ao mínimo absoluto do protocolo, sempre que havia espaço de sobra. Depois da Fusaka, esse mínimo deixou, na prática, de se comportar como um chão fixo, porque passou a acompanhar os custos da camada 1 em vez de cair para perto de zero por defeito. Analisámos os mecanismos deste piso com mais detalhe noutro artigo, que continua a ser a nossa referência técnica sobre o tema (O piso técnico das taxas L2: três cenários até 2027).

A conclusão prática mantém-se simples: qualquer previsão de taxas verdadeiramente grátis nas L2 está, tecnicamente, errada. A compressão que ainda falta fazer vai ter de vir de outro lado, da eficiência da execução, da compressão de dados, das margens dos sequenciadores, não de mais blobs. Isto é importante para qualquer previsão sobre 2027 ou 2028: o limite inferior das taxas já não é uma incógnita, é uma fórmula conhecida.

As previsões antigas, testadas: o que já se confirmou em 2026

Vale a pena fazer aqui um exercício pouco comum neste tipo de artigo: testar previsões feitas há seis ou doze meses contra o que realmente aconteceu. Em 2024, quando a Dencun ainda era novidade, era comum ler previsões de que as taxas das três maiores L2s por atividade, Arbitrum, Base e Optimism, desceriam de forma gradual ao longo de vários anos. Não foi bem isso que aconteceu.

Segundo dados compilados a partir do L2Beat e do L2fees.info, a taxa média combinada dessas três redes caiu mais de 99% entre o primeiro trimestre de 2024 e o primeiro trimestre de 2026, de valores próximos de 18 cêntimos de dólar por transação para frações de milésimo de cêntimo. A queda foi mais rápida e mais concentrada do que a maioria das previsões de 2024 antecipava, porque aconteceu sobretudo em dois momentos muito específicos, a ativação da Dencun e depois a da Fusaka, e não ao longo de uma trajetória suave e previsível.

Também se confirmou a parte menos otimista das previsões: a tensão entre a Ethereum e as suas próprias L2. Um estudo da Yellow.com estima que a Base gerou perto de 94 milhões de dólares, cerca de 82 milhões de euros, em lucro operacional num período recente, enquanto pagou apenas cerca de 4,9 milhões de dólares, pouco mais de 4 milhões de euros, à Ethereum em taxas de blob. Esta proporção ilustra bem porque é que os defensores da tese do «ultrasound money» ficaram mais calados ao longo de 2026: uma rede pode gerar lucros consideráveis para si própria enquanto devolve à camada 1 apenas uma fração residual desse valor. Já tínhamos assinalado esta tensão noutro artigo sobre a previsão de compressão pós-Fusaka (Taxas das L2 depois da Fusaka: a previsão de compressão até 2027); os números reais de 2026 confirmam, até agora, esse cenário mais do que a alternativa mais otimista de uma recuperação de receita para a camada 1 através do simples aumento do volume de transações.

O que quase ninguém previu em 2024, nem sequer em boa parte de 2025, foi a reviravolta do próprio Buterin sobre o valor do modelo centrado em rollups. As previsões técnicas sobre blobs e capacidade acertaram, em larga medida, na direção e na magnitude; a previsão implícita de que a Ethereum continuaria a tratar «mais L2s, mais baratas» como um objetivo em si mesmo não se confirmou. Foi a parte estratégica do roteiro, não a parte técnica, que mais surpreendeu os analistas ao longo de 2026.

O que vem a seguir: Glamsterdam, Hegotá e a segunda metade de 2026

A atualização a seguir à Fusaka já tem nome: Glamsterdam, prevista para a segunda metade de 2026. Ao contrário das atualizações anteriores, o foco não está nos blobs, está na camada 1. As duas propostas principais são a EIP-7732, que formaliza diretamente no protocolo a separação entre quem propõe um bloco e quem o constrói, conhecida como ePBS, e a EIP-7928, que introduz listas de acesso ao nível do bloco para permitir processamento paralelo de transações em vez do processamento sequencial atual. Nenhuma das duas baixa diretamente as taxas das L2; ambas preparam a rede para um salto de débito mais à frente, ao mesmo tempo que reduzem a dependência de intermediários externos, os chamados relays, para a construção de blocos.

Mais longe no horizonte está a Hegotá, nome que já circula entre programadores como sucessora da Glamsterdam, com data de ativação ainda por confirmar mas apontada para o final de 2026 ou o início de 2027. O seu destaque é a FOCIL, ou Fork-Choice Enforced Inclusion Lists, pensada para reduzir a possibilidade de censura ao nível da construção de blocos, obrigando a incluir um conjunto de transações escolhidas por participantes aleatórios da rede mesmo que o construtor do bloco preferisse excluí-las. A Hegotá deverá trazer ainda uma migração para árvores de Verkle, uma estrutura de dados que promete reduzir de forma acentuada o espaço de armazenamento exigido aos nós da rede.

É, na prática, uma atualização de resistência à censura e de descentralização de clientes, não uma atualização de taxas; mas confirma um padrão que vale a pena reter para qualquer previsão sobre 2027 e 2028: o roteiro da Ethereum deixou de tratar taxas mais baixas como o problema central a resolver. Esse problema, no essencial técnico, já está resolvido; o que resta são ajustes finos, não saltos de ordem de grandeza.

2027: consolidação entre as rollups

Se o preço deixou de ser argumento, o que separa hoje as L2 que sobrevivem das que se tornam peso morto? Um estudo recente da Yellow.com mede a resposta em concentração: as três maiores redes por valor total bloqueado, a Arbitrum One, com perto de 18 mil milhões de dólares (cerca de 15,7 mil milhões de euros), a Base, com cerca de 13,5 mil milhões de dólares (perto de 11,8 mil milhões de euros), e a zkSync Era, com cerca de 4,5 mil milhões de dólares (uns 3,9 mil milhões de euros, depois de uma recuperação de cinco vezes face ao mínimo pós-airdrop de finais de 2024), controlam entre 70% a 80% do valor total e da receita de taxas de todo o setor de L2. Sobram mais de meia centena de rollups a disputar o que fica.

O mecanismo que está a acelerar esta separação chama-se, informalmente, «grants cliff», o precipício dos incentivos: vários programas de incentivos à liquidez lançados em 2023 e 2024 estão a expirar, e as redes que nunca construíram uma razão de ser própria, para além de replicar o mesmo stack técnico com outro nome, estão a registar saídas líquidas de capital assim que os incentivos terminam. A Arbitrum, por contraste, beneficia da profundidade do seu próprio ecossistema de aplicações; só a GMX, uma das maiores plataformas de derivados descentralizados construída sobre a rede, gera mais de 180 milhões de dólares, cerca de 157 milhões de euros, em receita anual, uma cifra que nenhuma L2 mais pequena consegue replicar apenas com taxas de gas mais baixas.

A nossa leitura para 2027: o número de rollups tecnicamente ativas mas irrelevantes na prática continua a crescer antes de começar a diminuir de facto. Só quando os incentivos acabarem por completo é que se vai perceber quantas destas redes tinham utilizadores reais e quantas eram apenas liquidez mercenária à procura do próximo airdrop. É plausível que vejamos os primeiros encerramentos ou fusões formais de rollups de médio porte já em 2027, à medida que os seus operadores percebem que manter um sequenciador ativo deixou de se justificar economicamente sem receita própria que sustente o custo operacional.

2028: o fim da guerra de preços e o novo campo de batalha

Já dedicámos um artigo inteiro a esta pergunta (Taxas das L2 em 2028: o fim da guerra do preço mais baixo), e os acontecimentos dos primeiros meses de 2026 só reforçaram essa tese. Em fevereiro, o cofundador da Ethereum, Vitalik Buterin, disse publicamente aquilo que várias equipas de L2 já murmuravam em privado. Buterin foi direto ao afirmar, segundo a CoinDesk, que «não precisamos de mais chains EVM copiadas e coladas», argumentando que, à medida que a própria camada 1 escala, ser mais barata deixou de justificar sozinho a existência de uma L2. Nas suas próprias palavras, «as vibrações têm de corresponder à substância».

A resposta das equipas de L2 confirma que a mensagem chegou. Jesse Pollak, responsável pela Base na Coinbase, resumiu-o sem rodeios: «daqui para a frente, as L2 não podem ser só Ethereum mas mais barata.» Marc Boiron, da Polygon Labs, foi na mesma direção, defendendo que o ponto de Buterin «não era que as rollups sejam um erro, era que escalar sozinho já não chega», apontando pagamentos e casos de uso do mundo real, onde custo, fiabilidade e consistência importam mais do que a arquitetura técnica subjacente, como o verdadeiro campo de batalha a seguir.

Para 2028, arriscamos três cenários possíveis para a estrutura do setor:

CenárioRollups ativas e relevantesTaxasPrincipal motor
ConservadorPróximo do número atual (70 a 80)Continuam a cair, mas devagarFragmentação persiste, incentivos residuais mantêm redes pouco usadas
CentralConsolidação para poucas dezenasFrações de cêntimo, já estáveisFim dos programas de incentivos («grants cliff»), fusões e encerramentos silenciosos
AgressivoConcentração forte em meia dúzia de vencedorasDeixam de ser critério de escolhaAbstração de chain e interoperabilidade tornam a fragmentação invisível para o utilizador
Cenários da HOGE Wire para a estrutura do setor em 2028. Projeção editorial, não uma certeza.

Nenhum destes três cenários depende de as taxas subirem outra vez; todos partem do princípio, já confirmado pelos dados de 2026, de que o preço deixou de ser a variável que decide o vencedor. O que muda de cenário para cenário é a velocidade da consolidação e se a experiência do utilizador consegue, ou não, esconder a fragmentação técnica que ainda existe por baixo da superfície.

Quem ganha e quem perde: a nova equação de valor dos tokens L2

A compressão das taxas está a forçar uma pergunta desconfortável para quem detém tokens de governação de L2: se a taxa de gas deixa de gerar receita significativa para a rede principal, o que é que o token realmente vale? A Arbitrum respondeu em julho de 2026 com o chamado Programa de Expansão Arbitrum: qualquer chain construída sobre o stack Orbit que se estabeleça fora da rede principal Arbitrum One passa a ser obrigada a devolver 10% da sua receita líquida de protocolo ao ecossistema Arbitrum, dos quais 8% vão para a tesouraria da DAO, controlada por detentores de ARB, e 2% para um fundo de desenvolvimento de protocolo, segundo reportagem da Cryptonomist. O termo chave aqui é «receita líquida de protocolo», não taxas brutas cobradas ao utilizador; a base de cálculo é o lucro do sequenciador depois de custos de rede, não a totalidade do que cada utilizador paga.

A Robinhood Chain, construída sobre este stack e lançada em julho de 2026, processou 568 milhões de dólares, perto de 497 milhões de euros, em volume num único dia pouco depois do lançamento, servindo como primeiro teste real deste modelo em escala. Isto muda estruturalmente o que o token ARB representa: deixa de ser apenas um token de governação sem ligação direta a receita, e passa a ser algo mais próximo de um ativo com direito a uma fatia de receita futura de um ecossistema de chains empresariais, não apenas da Arbitrum One isolada.

A Optimism segue uma lógica parecida através do modelo de partilha de receita do Superchain, em que o valor do token OP depende cada vez mais das entradas na tesouraria da Optimism Collective geradas pelo conjunto de chains construídas sobre o OP Stack, e cada vez menos da receita gerada isoladamente pela própria Optimism Mainnet. Em ambos os casos, a aposta implícita para quem detém estes tokens é que o ecossistema de chains construídas sobre a tecnologia cresce mais depressa do que a rede principal consegue crescer sozinha.

Este tipo de mecanismo é também o motivo pelo qual vale a pena olhar para as chamadas chains «based», que usam preconfirmações e, nalguns casos, capital em restaking para garantir execução rápida sem depender de um sequenciador centralizado; já cobrimos esta tendência com mais detalhe no nosso guia sobre o colapso do TVL em restaking e o novo mapa do setor. Se as taxas deixaram de ser o argumento de venda, a forma como uma L2 garante segurança e captura valor sem depender de um único operador central passa a ser um dos poucos diferenciadores estruturais que ainda restam para 2027 e 2028.

A tensão com a Ethereum: menos taxas, menos ETH queimado

Há um lado da equação que raramente aparece nos artigos mais otimistas sobre taxas baixas: cada cêntimo que uma L2 deixa de pagar à Ethereum é um cêntimo que não é queimado ao abrigo do mecanismo geral de queima de taxas introduzido pela EIP-1559 e alargado aos blobs pela EIP-4844. Max Wadington, analista da Fidelity Digital Assets Research, quantificou parte deste efeito num relatório que estima o impacto acumulado da EIP-7918 em dezenas de milhões de dólares em receita adicional para a camada 1, precisamente porque o piso técnico impede que essa receita desapareça por completo à medida que a capacidade de blobs aumenta.

Ainda assim, estimativas do setor apontam para que os blobs representem entre 30% a 50% da queima total de ETH em 2026, uma fatia elevada que só existe porque a queima do lado da execução tradicional, ou seja, transações normais na camada 1, caiu para uma fração do que era nos máximos de 2021.

É esta tensão que alimenta o debate sobre se a Ethereum está, na prática, a subsidiar a escala das suas próprias L2 à custa da sua receita de longo prazo. Não há consenso sobre a resposta; há, isso sim, um reconhecimento crescente, incluindo por parte do próprio Buterin nas suas declarações de fevereiro, de que a receita da camada 1 deixou de poder depender apenas do volume bruto de atividade nas L2 para se sustentar a si própria. Para 2027 e 2028, isto sugere que a Ethereum vai precisar de encontrar outras fontes de valor para o ETH, para além da queima ligada à atividade das L2, seja através do crescimento do staking, de novos casos de uso na própria camada 1, ou de uma combinação de ambos.

A concorrência da disponibilidade de dados: Celestia, EigenDA e a fuga de receita

Parte da compressão de taxas não vem da Ethereum, vem de fora dela. Camadas de disponibilidade de dados alternativas, como a Celestia e a EigenDA, oferecem preços por megabyte muito abaixo dos blobs da Ethereum; segundo uma análise da Blockworks, o custo por megabyte dos blobs da Ethereum chegou a ser cerca de 55 vezes superior ao da Celestia em determinados períodos de 2026. Para uma L2 cujo único objetivo é o preço mais baixo possível, mudar de camada de disponibilidade de dados é uma forma óbvia, e cada vez mais tentadora, de cortar custos ainda mais.

O problema é que essa opção tem um preço que não aparece na fatura imediata: menos segurança herdada diretamente da Ethereum. Uma L2 que publica dados na Celestia ou na EigenDA em vez de blobs da Ethereum está, por definição, a confiar num conjunto diferente de validadores para garantir que os dados estão realmente disponíveis quando alguém precisar de os reconstruir.

Para previsões sobre 2027 e 2028, isto significa que a compressão de taxas mais agressiva pode vir acompanhada de uma fragmentação de modelos de segurança, não apenas de uma fragmentação entre chains. É uma troca que faz sentido económico para muitas equipas, mas que desloca risco para um sítio que a maioria dos utilizadores finais nunca chega a examinar: quem, exatamente, garante que os dados por trás do saldo apresentado numa carteira estão mesmo disponíveis e verificáveis. À medida que mais L2s fazem esta troca, o argumento de que herdam a segurança da Ethereum, durante anos o principal argumento de venda dos rollups, torna-se cada vez menos universal e cada vez mais uma característica que varia de rede para rede.

O que a compressão de taxas significa para os jogos on-chain

A compressão de taxas não é só uma história de finanças e tokens de governação; é também, talvez sobretudo, uma história de jogos. Mecânicas que dependem de transações frequentes e de baixo valor, como recolher um recurso, mover um item de inventário ou pagar uma taxa de reparação, só fazem sentido em jogos on-chain quando o custo de cada ação é residual. Com taxas medianas na casa dos milésimos de cêntimo, esse tipo de mecânica deixou de ser uma fantasia de conferência para passar a ser viável em produção.

O exemplo mais direto desta mudança é a Ronin, a rede por trás da Axie Infinity e da Pixels. Em maio de 2026, a Ronin migrou de uma chain soberana própria para se tornar uma L2 da Ethereum construída sobre o OP Stack, recorrendo à EigenDA, e não a blobs da Ethereum, para a disponibilidade de dados. É, ao mesmo tempo, uma prova de como a compressão de taxas e a maturidade técnica das L2 tornaram essa migração possível sem sacrificar débito, e um exemplo concreto exatamente do padrão descrito na secção anterior: uma chain de jogos a escolher deliberadamente uma camada de disponibilidade de dados fora da Ethereum.

A Immutable ilustra o outro lado da equação, o de encontrar valor para além do preço. Depois de cortar cerca de um terço do seu quadro de pessoal ao longo de nove meses, incluindo praticamente toda a equipa dos seus próprios estúdios internos, a empresa reposicionou-se de estúdio de jogos Web3 para fornecedora de uma plataforma de crescimento e marketing por inteligência artificial, vendida não só a jogos on-chain mas a todo o mercado de jogos tradicional. É, na prática, exatamente o conselho que Buterin deu às equipas de L2 em fevereiro: taxas baixas deixaram de chegar como argumento comercial, é preciso vender outra coisa.

Vale ainda um alerta honesto: a Pixels, uma das aplicações mais ativas da Ronin, continua a ser descrita por analistas como um caso de «baixa sustentabilidade, alto risco», com a própria equipa a admitir níveis elevados de atividade de bots em picos de utilização. A compressão de taxas resolveu o problema do custo; não resolveu, por si só, o problema mais antigo dos jogos play-to-earn, que é construir uma economia interna que não dependa de injeção constante de novos jogadores para se manter de pé.

Portugal e a UE: o que isto significa na prática

Para quem lê a partir de Portugal, esta compressão de taxas tem uma relevância prática imediata: quanto mais barato for usar uma L2, mais provável é que a atividade de retalho, desde swaps em DeFi até coleções de NFT, se desloque para lá do Ethereum mainnet. O enquadramento legal para essa atividade mudou recentemente: o período transitório da MiCA para os prestadores de serviços de ativos virtuais portugueses terminou a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025. Isto significa que qualquer plataforma que sirva clientes portugueses precisa agora de autorização plena como CASP, prestador de serviços de criptoativos, já não do regime transitório mais permissivo que vigorou até há duas semanas.

Vale notar que nem a MiCA nem a CMVM regulam diretamente o protocolo de uma L2 ou o preço técnico de uma transação on-chain; isso é uma camada de infraestrutura, não uma atividade financeira licenciada em si mesma. O que a CMVM supervisiona é a conduta de mercado e a negociação, ao abrigo dos Títulos II e VI da MiCA, que cobrem abuso de mercado, divulgação de informação privilegiada e manipulação de mercado, enquanto o Banco de Portugal trata dos aspetos prudenciais e dos tokens referenciados a ativos e de moeda eletrónica.

Na prática, isto quer dizer que um CASP autorizado em Portugal pode oferecer acesso a produtos construídos sobre L2 mais baratas sem que isso, por si só, altere o seu perímetro de licenciamento; a obrigação de conduta, transparência de custos e divulgação de informação ao cliente mantém-se inalterada, mesmo quando o custo subjacente da infraestrutura desce para frações de cêntimo. Para o investidor de retalho português, a principal mudança prática não está na regulação, está na experiência: operações que há poucos anos custavam alguns euros em taxas de gas passam a custar, em muitos casos, menos do que uma moeda de cêntimo.

Os riscos para este cenário base

Nenhuma previsão sobre 2027 ou 2028 devia ser lida como certeza. Há pelo menos quatro riscos que podem alterar de forma significativa o cenário descrito neste artigo:

  • Aceleração da concorrência de disponibilidade de dados: se mais L2s migrarem para a Celestia ou para a EigenDA mais depressa do que o previsto, a receita de blobs da Ethereum, e a fatia da queima de ETH que dela depende, pode cair mais rápido do que as estimativas de 30% a 50% para 2026.
  • Risco de centralização do sequenciador: a maioria das rollups continua classificada como Stage 0 ou Stage 1 pelo L2Beat, com apenas a Arbitrum, a Base e a OP Mainnet a terem alcançado o Stage 1 até 2025; isto significa que uma falha ou compromisso do operador único ainda pode bloquear ou atrasar levantamentos de fundos para o mainnet nalgumas destas redes.
  • Eventos de congestionamento pontual: uma corrida especulativa a um mint de NFT ou a um novo memecoin pode, mesmo com o piso técnico da EIP-7918 em vigor, provocar picos temporários de preço que contrariam a narrativa de uma compressão suave e constante.
  • Fragmentação do roteiro técnico: a mudança de posição de Buterin sobre o modelo centrado em rollups pode gerar divergência entre equipas de L2 sobre que direção seguir a partir daqui, atrasando consensos técnicos necessários para atualizações como a Glamsterdam ou a Hegotá.

Qualquer um destes fatores, isoladamente, é gerível dentro da margem de erro normal de qualquer previsão de médio prazo; a combinação de dois ou mais ao mesmo tempo é o cenário que mais provavelmente invalidaria, ou pelo menos atrasaria de forma substancial, as previsões descritas neste artigo.

Perguntas frequentes

Seguem-se cinco perguntas frequentes sobre a compressão das taxas nas L2 da Ethereum e o que esperar até 2028.

As taxas das L2 da Ethereum vão chegar a zero?

Tecnicamente, não. A EIP-7918, ativada com a Fusaka em dezembro de 2025, prende o preço base dos blobs a uma fração do custo de execução da camada 1, criando um piso técnico que impede as taxas de caírem para zero. A partir daqui, novas quedas de preço tendem a vir da eficiência de execução e da compressão de dados, não de mais capacidade de blobs.

Qual é atualmente a L2 da Ethereum com as taxas mais baixas?

Em meados de 2026, a Base e a OP Mainnet estão entre as mais baratas para transferências simples, com taxas medianas na casa dos dois a três cêntimos de dólar, segundo dados do L2Beat e do L2fees.info. A diferença para as restantes grandes L2s é hoje inferior a poucos cêntimos, o que torna o preço um critério cada vez menos decisivo na escolha de rede.

O que foi o BPO2 e como afetou as taxas das L2?

O BPO2 foi o segundo Blob Parameter Only fork da Ethereum, ativado a 7 de janeiro de 2026, que elevou a capacidade de blobs para um alvo de 14 e um máximo de 21 por bloco. Foi este ajuste, o último da fase Fusaka, que consolidou a queda das taxas das L2 para frações de milésimo de cêntimo em transferências simples.

Porque é que a Ethereum continua a perder receita para as suas próprias L2?

Porque uma parte cada vez maior da atividade que antes pagava taxas de execução completas diretamente no mainnet passou a acontecer em L2s, que pagam à Ethereum apenas o custo de publicar dados em blobs, uma fração do valor anterior. Um estudo da Yellow.com estima que a Base gerou dezenas de milhões de dólares em lucro operacional recente enquanto pagava um valor muito menor à Ethereum em taxas de blob.

Vale a pena investir em tokens de L2 como ARB ou OP depois da compressão das taxas?

Isto não é conselho de investimento. O que se pode dizer é que o valor destes tokens deixou de estar ligado apenas às taxas de gas cobradas na rede principal. A Arbitrum passou em 2026 a captar uma percentagem da receita de chains construídas sobre o seu stack Orbit fora da rede principal, e a Optimism segue lógica semelhante através da partilha de receita do Superchain; é uma mudança de modelo de negócio, associada a ativos que continuam a ser muito voláteis.

Artigo da redação da HOGE Wire.

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