h hoge.gg
Subscribe
BTC$67,432.18+2.34%ETH$3,521.44+1.08%SOL$178.62-0.62%BNB$612.30+0.41%XRP$0.6234-0.18%ADA$0.4521+3.12%DOGE$0.1623+1.86%AVAX$38.71-1.24%LINK$17.84+0.92%HOGE$0.00004120+4.21%
BTC$67,432.18+2.34%ETH$3,521.44+1.08%SOL$178.62-0.62%BNB$612.30+0.41%XRP$0.6234-0.18%ADA$0.4521+3.12%DOGE$0.1623+1.86%AVAX$38.71-1.24%LINK$17.84+0.92%HOGE$0.00004120+4.21%
● Predictions & Forecasts

Reação ao FOMC: o guião da cripto para a subida de setembro

A Fed de Kevin Warsh deve subir os juros a 16 de setembro, a primeira subida desde 2023. Explicamos como ler a reação da cripto, canal a canal e cenário a cenário.

Na próxima quarta-feira, 16 de setembro, às 19:00 em Lisboa (14:00 na costa leste dos Estados Unidos), a Reserva Federal norte-americana anuncia a sua decisão de juros. Pela primeira vez desde julho de 2023, o mercado não espera uma pausa nem um corte: espera uma subida. Os contratos de futuros da CME atribuem cerca de 87% de probabilidade a um aumento de 25 pontos base (pb), que levaria a taxa dos fundos federais para o intervalo 3,75%-4,00% (Yahoo Finance). Seria a estreia de Kevin Warsh a apresentar o quadro de projeções da Fed enquanto presidente, e o primeiro aperto num ciclo que muitos davam por encerrado.

Isto muda o cálculo para quem investe em cripto. Durante boa parte de 2026, defendemos nestas páginas que a cripto tinha deixado de tremer a cada reunião do FOMC, porque o mercado já descontava aquilo que a Fed fazia. Setembro é o teste dessa tese. Uma subida amplamente antecipada, por si só, quase não mexe no preço; o que mexe é a surpresa, e a surpresa desta vez não está nos 25 pontos base, mas no tom de Warsh, nos pontos do dot plot e naquilo que a conferência de imprensa disser sobre o que vem a seguir.

Este texto é um guião: como se forma a reação, que canais ligam a decisão de Washington à carteira de um investidor europeu, e uma matriz de cenários para ler a quarta-feira em tempo real, sem cair na armadilha de confundir uma manchete com um sinal.

O que está em jogo na quarta-feira

A taxa dos fundos federais está no intervalo 3,50%-3,75% desde o corte de dezembro de 2025, o último de três cortes consecutivos naquele ano. Ficou aí em todas as reuniões de 2026. Uma subida de 25 pontos base colocaria a taxa em 3,75%-4,00% e encerraria o mais longo período sem apertos desde o início do ciclo restritivo. O calendário oficial confirma a reunião de dois dias, 15 e 16 de setembro, com a decisão e a conferência de imprensa na tarde do dia 16.

Setembro é também uma reunião de projeções. Quatro vezes por ano, a Fed publica o Summary of Economic Projections, que inclui o chamado dot plot, o gráfico em que cada membro marca, de forma anónima, onde acha que a taxa deve estar nos próximos anos. Será o primeiro que Warsh assina como presidente, depois de se ter recusado a submeter uma projeção em junho. Por isso, a quarta-feira não traz apenas um número: traz o mapa mental de todo o comité e a primeira leitura, em números, da doutrina do novo presidente.

O mercado de obrigações já tomou partido. Depois do relatório de inflação de agosto, a yield das Treasuries a dois anos saltou para 4,61%, com os investidores a atribuírem uma probabilidade próxima de 100% a uma subida na reunião seguinte (CoinDesk). Quando a dívida de curto prazo se move assim, está a dizer que o resultado base já não é dúvida. A dúvida transferiu-se para o que vem depois.

A regra que governa a reação: surpresa é resultado menos expectativa

Há uma regra simples por trás de quase todas as reações do mercado a decisões de bancos centrais, e vale a pena tê-la à frente na quarta-feira: os preços movem-se com a surpresa, não com o facto. Surpresa é a diferença entre o resultado e aquilo que estava previsto. Se a Fed subir 25 pontos base e toda a gente esperava exatamente isso, o essencial já foi descontado nas semanas anteriores, e o anúncio em si pode passar quase despercebido no gráfico do Bitcoin.

Foi o que se viu na reunião de 29 de julho. A Fed manteve os juros com um voto dividido e um tom duro, e o Bitcoin mal reagiu, ancorado num intervalo estreito. O resultado tinha sido antecipado; a surpresa foi mínima. A lição não é que a cripto ficou imune à política monetária, mas que reage àquilo que ainda não estava no preço. Descontar é, precisamente, transformar uma expectativa num facto já pago.

É por isso que a expressão inglesa buy the rumor, sell the news existe. Quando um evento muito esperado se concretiza sem novidade, o dinheiro que antecipou o movimento realiza lucros, e o ativo pode até cair no momento em que a boa notícia sai. Na quarta-feira, a subida é o rumor já comprado. A notícia que ainda não está no preço é o resto: quantos membros veem mais apertos, se Warsh deixa a porta aberta a subir outra vez em dezembro, e com que confiança fala da inflação. Aí, sim, há espaço para surpresa.

Como chegámos aqui: os três dados de setembro

A subida deixou de ser hipótese e passou a ser cenário base por causa de três relatórios que aterraram em cima uns dos outros. No início do mês, a probabilidade de um aperto rondava os 30%. No fim, ultrapassava os 85%. A sequência foi implacável.

Primeiro, o emprego. O relatório de agosto, divulgado a 4 de setembro, mostrou a criação de 162 mil postos de trabalho, muito acima do esperado, com a taxa de desemprego em 4,1% (CNBC). Afastou o receio de fraqueza no mercado laboral que, em agosto, tinha feito colapsar as apostas numa subida. Depois, os preços no produtor. O PPI de agosto, publicado a 10 de setembro, acelerou para 5,4% em termos homólogos, o valor mais alto de 2026 (CNBC). Por fim, o golpe decisivo: o índice de preços no consumidor.

O CPI de agosto, divulgado a 11 de setembro, subiu 0,4% em cadeia mensal e 3,4% face ao ano anterior; a componente subjacente, que exclui energia e alimentação, acelerou 0,3% no mês, acima dos 0,2% previstos, e ficou em 2,4% no acumulado do ano (Bureau of Labor Statistics). O núcleo mais quente do que o previsto foi o que fez as probabilidades de subida saltarem de cerca de 70% para perto de 90% num único dia (CoinDesk). A tabela abaixo resume a escalada.

IndicadorDataLeituraEfeito nas probabilidades de subida
Emprego (payrolls) de agosto4 set+162 mil vagas; desemprego 4,1%Afasta a fraqueza; subida volta à mesa
Preços no produtor (PPI) de agosto10 set+5,4% homólogo, o mais alto de 2026Odds sobem para cerca de 70%
Preços no consumidor (CPI) de agosto11 set+0,4% mensal; 3,4% homólogo; núcleo +0,3%Odds saltam para cerca de 87%-90%

A raiz da inflação persistente é, em boa parte, um choque energético. O conflito no Médio Oriente empurrou o petróleo para cima e alastrou aos combustíveis: só a gasolina explicou mais de um terço da subida mensal do CPI. É uma inflação de oferta, não de procura sobreaquecida, o que torna a decisão de Warsh mais desconfortável, porque subir juros não faz baixar o preço do barril.

A doutrina Warsh: uma Fed mais silenciosa, um alvo não negociável

Para ler a reação, é preciso entender quem preside. Kevin Warsh chegou à liderança da Fed com uma filosofia diferente da de Jerome Powell. Quer uma instituição que fale menos, que abandone a orientação prospetiva detalhada (o chamado forward guidance) e que não sirva de bengala aos mercados. No seu discurso de estreia em Jackson Hole, a 28 de agosto, foi inequívoco sobre prioridades: o foco tem de estar nos preços, e a inflação precisa de convergir para o alvo de 2% a um ritmo suficiente (Federal Reserve).

As palavras de Warsh nesse discurso foram duras. Atribuiu a responsabilidade por meses de inflação elevada diretamente ao banco central e descreveu o objetivo de 2% como um alvo fixo e não negociável. Defendeu ainda uma Fed mais discreta, em que os investidores não deviam estar a olhar para o banco central à procura da próxima transação. Traduzido para o mercado: Warsh não vai oferecer o conforto de sinais claros sobre cortes futuros. Cada palavra sua na conferência de imprensa terá de ser interpretada, e essa ambiguidade é, ela própria, uma fonte de volatilidade.

Há um subtexto político que não convém ignorar. A Administração pressiona por juros mais baixos, e a tentativa de afastar a governadora Lisa Cook, travada por uma decisão apertada do Supremo, deixou a independência da Fed debaixo de escrutínio. Um presidente nomeado por quem queria cortes prepara-se para subir juros: é uma demonstração de autonomia que dá credibilidade ao aperto, mas também alimenta o receio de que o próximo braço de ferro entre a Casa Branca e a Fed possa desestabilizar as expectativas.

Os quatro canais que ligam a Fed ao Bitcoin

A decisão de Washington não chega ao Bitcoin por magia. Chega por quatro canais concretos, e vale a pena saber qual deles está a mandar em cada momento.

O dólar. Juros mais altos tendem a valorizar o dólar, porque atraem capital para ativos denominados na moeda. Um dólar forte costuma pesar sobre o Bitcoin, cotado em dólares, e sobre as matérias-primas em geral. É o canal mais imediato e o que um investidor europeu sente de forma mais peculiar, como veremos adiante.

As taxas reais. O que importa para os ativos sem rendimento, como o Bitcoin e o ouro, é a taxa de juro descontada da inflação. Quando a taxa real sobe, guardar dinheiro em obrigações passa a pagar mais, e o custo de oportunidade de deter um ativo que não distribui juros aumenta. É também o canal que se propaga ao crédito descentralizado: quando a referência sem risco sobe, as taxas de empréstimo on-chain reajustam-se, um mecanismo que explicámos em detalhe em crédito on-chain e quem gere o risco por trás dos juros.

A liquidez. Para além do preço do dinheiro, há a quantidade. O balanço da Fed, as reservas do sistema bancário e a folga de liquidez determinam quanto capital anda à procura de risco. Um aperto que também drene liquidez é mais duro para a cripto do que um aperto isolado na taxa. É neste plano que se joga boa parte da formação de preços dos ativos digitais, um tema que dissecámos em da curva ao solver, como se forma o preço on-chain.

Os ETF e a alavancagem. Este é o canal novo, específico deste ciclo. Os fundos cotados de Bitcoin à vista criaram uma procura estrutural que absorve parte dos choques, enquanto o grau de alavancagem no mercado de derivados determina se um susto se transforma em cascata de liquidações. É a diferença entre uma correção ordeira e um flash crash.

O verdadeiro sinal está nos pontos e na conferência de imprensa

Se a subida está no preço, onde está a surpresa? Em dois sítios: no dot plot e na boca de Warsh. Comecemos pelos pontos. Em junho, a mediana das projeções apontava para uma taxa de 3,8% no final de 2026, contra 3,4% em março, e 9 dos 18 membros previam pelo menos mais uma subida, seis deles esperando duas (Yahoo Finance). O mercado desconta agora cerca de meio ponto percentual de apertos para 2026.

A quarta-feira vai revelar se essa expectativa se confirma, se endurece ou se suaviza. Um conjunto de pontos que sinalize mais subidas para lá de setembro é restritivo e tende a pressionar a cripto. Um que sugira que este é o último aperto do ciclo, uma espécie de subida de despedida, pode desencadear alívio, mesmo com os juros a subir. O paradoxo aparente resolve-se com a regra da surpresa: o que conta é a distância entre os pontos e aquilo que o mercado já pagou.

Depois vem a conferência. É aqui que Warsh, sem forward guidance, terá de comunicar por tom e por ênfase. Uma referência a mais trabalho por fazer soa a mais apertos. Uma admissão de que a inflação é sobretudo energética e de oferta soa a paciência. A mesa de trading QCP Capital descreveu a reunião de quarta-feira como sendo tanto sobre Warsh conseguir o apoio de um conselho dividido, atento à influência da Administração, quanto sobre a própria decisão de juros (COINOTAG). Por outras palavras, a coreografia interna importa: uma decisão com vários votos contra revela um comité em desacordo e pode minar a mensagem.

Matriz de cenários: como ler a decisão em tempo real

Em vez de tentar adivinhar o número, vale mais ter um mapa de reações prontas. A tabela seguinte cruza os desfechos plausíveis com a leitura provável para o Bitcoin e o sinal concreto a vigiar em cada caso. Não é uma previsão, é uma grelha de interpretação.

CenárioDecisão e projeçõesReação provável do BitcoinSinal a vigiar
Aperto confirmado, tom duroSobe 25 pb; dot plot aponta mais subidas até dezembroPressão vendedora; teste dos suportesMediana dos pontos acima de 4,00%
Aperto com porta a fecharSobe 25 pb; projeções sugerem que é a última; Warsh equilibradoAlívio; possível recuperaçãoLinguagem de fim de ciclo na conferência
Pausa surpresaMantém 3,50%-3,75% contra o consensoSalto imediato, depois dúvidas de credibilidadeJustificação de Warsh para não subir
Aperto agressivoSobe 25 pb e não exclui 50 pb ou mais até ao fim do anoQueda mais acentuada; dólar sobeÊnfase repetida em mais trabalho por fazer

O cenário mais benigno para os ativos de risco é, curiosamente, o do aperto com porta a fechar: subir os juros como esperado, mas sinalizar que o ciclo termina aqui. O mais perigoso não é a pausa surpresa, que traria um salto imediato, mas sim o aperto agressivo, em que Warsh confirma a subida e ainda deixa 50 pontos base ou mais em cima da mesa. Nesse caso, o dólar dispara, as taxas reais sobem e os três primeiros canais empurram todos na mesma direção.

Bitcoin em euros: o dólar como amortecedor

Aqui está o detalhe que muitos comentários em inglês ignoram e que é central para um leitor português: quando o Bitcoin é cotado em dólares mas a sua carteira está em euros, o par EUR/USD funciona como um amortecedor (ou como um amplificador). No dia 12 de setembro, o Bitcoin transacionava acima dos 77.000 dólares, cerca de 66.500 euros ao câmbio da altura, com uma capitalização de mercado próxima de 1,55 biliões de dólares e ainda cerca de 39% abaixo do máximo histórico de 126.198 dólares, atingido a 6 de outubro de 2025 (CoinGecko).

Como funciona o amortecedor? Se uma Fed agressiva valorizar o dólar, o Bitcoin em dólares tende a cair, mas o EUR/USD também desce, o que significa que cada dólar vale mais euros. Para um investidor da zona euro, parte da queda em dólares é compensada pela subida do dólar face ao euro. O contrário também é verdade: numa fase de dólar fraco, o ganho em dólares pode ser corroído pela valorização do euro. O EUR/USD tem rondado a faixa de 1,16-1,17, e essa cotação é parte do vosso resultado tanto quanto o preço do Bitcoin.

Um exemplo simples: imagine que o Bitcoin cai 3% em dólares na sequência de uma decisão dura, mas o dólar valoriza 1% face ao euro na mesma sessão. Em euros, a perda efetiva ronda os 2%, não os 3%. Não é uma cobertura perfeita, e em movimentos violentos os dois efeitos podem alinhar-se contra si, mas explica por que razão a experiência de um investidor de Lisboa numa noite de FOMC raramente é idêntica à de um investidor de Nova Iorque. Vale a pena olhar para o gráfico em euros, e não apenas para a manchete em dólares.

Fed e BCE em sincronia: acabou a divergência

Durante meses, a história macro foi de divergência: a Fed em pausa, o Banco Central Europeu a arrancar com subidas. Essa narrativa acabou. A 10 de setembro, o BCE subiu as suas taxas pela segunda vez em três meses, colocando a facilidade de depósito em 2,50%, a taxa de refinanciamento em 2,65% e a facilidade de cedência em 2,90%, com efeito a 16 de setembro (CNBC). Christine Lagarde classificou a decisão como um no brainer, uma evidência, e sublinhou que foi tomada por unanimidade (Bloomberg).

A presidente do BCE avisou ainda que o choque energético manterá a inflação acima do alvo de 2% durante um período prolongado, um diagnóstico que ecoa o de Warsh do outro lado do Atlântico. Com os dois maiores bancos centrais do mundo a apertar ao mesmo tempo, e pelo mesmo motivo, o choque energético, o pano de fundo para os ativos de risco é de liquidez a contrair em ambos os lados do Atlântico. É um regime diferente do da divergência, e mais restritivo.

Para um português, há uma consequência muito concreta e que se sente na conta ao fim do mês: a subida do BCE alimenta a Euribor, o indexante da esmagadora maioria dos créditos à habitação em Portugal. Quem tem uma prestação de taxa variável sente Frankfurt de forma direta e rápida, ao passo que a decisão da Fed só chega de forma indireta, pelo dólar e pelo preço do Bitcoin. Por outras palavras, para o orçamento familiar, a reunião que mais pesa esta semana pode não ser a de quarta-feira em Washington, mas a que já aconteceu na quinta-feira anterior em Frankfurt.

Banco centralTaxa de referência atualÚltima decisãoDireção
Reserva Federal (EUA)3,50%-3,75% (fundos federais)Manteve em julho; decide a 16 setProvável subida
BCE (zona euro)2,50% (facilidade de depósito)Subiu 25 pb a 10 setAperto, com mais em cima da mesa

Os ETF como amortecedor de choques

A grande razão para o Bitcoin ter deixado de tremer a cada FOMC chama-se procura institucional. Os fundos cotados à vista trouxeram um comprador de fundo que, em muitos episódios de 2026, absorveu a volatilidade macro que noutros ciclos teria provocado quedas de dois dígitos. Essa base de procura mudou a função de reação do ativo: já não é só o especulador alavancado a definir o preço na margem, é também o fluxo constante de alocações de longo prazo. Quem quiser perceber como o capital institucional passou a comprar com disciplina, e não a qualquer preço, encontra o retrato em tesourarias cripto e o fim da compra a qualquer preço.

Mas há um alerta importante, e é a pergunta certa a fazer na quarta-feira à noite. O que sustenta o preço: compra à vista ou alavancagem? Se a subida recente do Bitcoin assentar sobretudo em posições alavancadas nos perpétuos, um choque hawkish pode desencadear liquidações em cascata, o cenário de flash crash. Se assentar em compra à vista, via ETF e acumulação, a reação tende a ser mais contida. Vários analistas têm insistido que a diferença entre um recuo ordeiro e um colapso está exatamente aí: na qualidade da procura que segura o preço, não apenas no seu nível.

É também por isso que a reação mais clara aos dados de setembro, até agora, apareceu nas obrigações e não na cripto. As yields de curto prazo dispararam, mas o Bitcoin manteve-se relativamente estável em torno dos 77.000 dólares, sinal de que o mercado de dívida já digeriu o aperto enquanto o mercado de risco espera pela confirmação e, sobretudo, pelo tom dos pontos e da conferência.

Para além do Bitcoin: Ethereum e o beta dos altcoins

O guião até aqui centrou-se no Bitcoin, mas a reação raramente é uniforme dentro da cripto. O Ethereum e, sobretudo, os altcoins de menor capitalização tendem a ter mais beta ao risco: amplificam tanto as subidas como as descidas. Num choque hawkish, é normal que o Bitcoin caia menos do que o Ethereum, e que o Ethereum caia menos do que a cauda longa de tokens mais pequenos e menos líquidos. A hierarquia repete-se noite após noite de FOMC.

A razão é a liquidez. Em momentos de stress, o capital concentra-se nos ativos mais líquidos e foge da periferia, numa espécie de risk-off dentro da própria cripto. O Bitcoin funciona como o porto de abrigo relativo; os altcoins são os primeiros a ser vendidos quando as mesas reduzem exposição. Por isso, uma carteira muito inclinada para tokens pequenos vai sentir a decisão de quarta-feira com muito mais intensidade do que sugere o gráfico do Bitcoin.

O Ethereum ocupa um lugar intermédio. Tem agora os seus próprios fundos cotados, que oferecem um amortecedor de procura semelhante ao do Bitcoin, ainda que mais fino e com menos histórico. E, tal como no Bitcoin, o investidor da zona euro deve lembrar-se de que o par EUR/USD entra na equação: parte do movimento em dólares dilui-se ou intensifica-se na conversão para euros. Ler a reação exige, portanto, olhar para o ativo certo, e não assumir que o comportamento do Bitcoin descreve toda a carteira.

Não é só a Fed: CLARITY e o vencimento de opções

A reunião de quarta-feira não acontece no vácuo. Está encaixada numa semana carregada de catalisadores que se podem sobrepor ao ruído macro. No dia anterior, terça-feira 15 de setembro, o Senado dos EUA tem agendada uma votação processual sobre a lei de estrutura de mercado, a CLARITY Act, que fixaria as regras do jogo para o setor cripto nos Estados Unidos. Um resultado positivo dá suporte estrutural ao mercado; um chumbo remove um catalisador que muitos já esperavam. Dedicámos a esta colisão de dois veredictos, o da Fed e o do Congresso, uma análise própria em subida quase certa, lei quase morta, os dois veredictos de setembro.

Há ainda o calendário técnico. Setembro traz um vencimento trimestral de opções de Bitcoin e Ethereum, dos maiores do ano, e a proximidade entre a expiração e a decisão da Fed pode ampliar os movimentos, à medida que as mesas ajustam coberturas em torno dos preços de exercício mais carregados. Um mercado que já está tenso com a macro fica ainda mais sensível quando milhares de milhões em opções expiram na mesma janela. Para o mapa completo da semana, com a inflação, o BCE, a CLARITY e a Fed alinhados, vale a leitura de chegaram os dados, faltam os votos, a semana que decide a cripto.

O espelho de 2022 e porque este ciclo é diferente

Há sempre a tentação de olhar para 2022, quando o ciclo agressivo de subidas da Fed coincidiu com um colapso brutal da cripto, e assumir que a história se repete. As diferenças são grandes e valem a pena. Em 2022, o dólar disparou, as taxas reais saíram de território negativo profundo, não existiam ETF à vista a canalizar procura institucional, e o mercado estava saturado de alavancagem oculta que rebentou em série, da Terra à Celsius, da Three Arrows à FTX.

Em 2026, o quadro é outro. As taxas reais já são positivas e o aperto marginal é de 25 pontos base, não de 75. Existe uma base de procura via ETF que não existia. E a alavancagem no sistema, embora presente, está mais visível e mais regulada. Isto não torna a cripto imune, mas torna o mecanismo de transmissão menos explosivo. Um aperto de despedida em 2026 não é o mesmo animal que o aperto de emergência de 2022.

O risco que substitui o de 2022 é institucional, não cíclico: a erosão da independência da Fed. Se o mercado começar a duvidar de que o banco central pode combater a inflação sem interferência política, o prémio de risco sobe para todos os ativos, e aí o Bitcoin volta a ser, como lhe chamam alguns gestores, o canário na mina do sistema monetário. A quarta-feira também é um teste a isso: uma Fed que sobe juros contra a vontade da Casa Branca está, à sua maneira, a defender a sua autonomia.

Gestão de risco antes de quarta-feira

Nada nestas linhas é aconselhamento de investimento; é enquadramento para decidir com a cabeça fria. Ainda assim, há princípios que a experiência de noites de FOMC recomenda. O primeiro é sobre alavancagem: entrar numa decisão de política monetária com posições muito alavancadas é convidar as liquidações. Em janelas de volatilidade elevada, a corretora move margens e os spreads alargam, e uma vela de poucos minutos pode varrer posições que teriam sobrevivido a horizontes mais longos.

O segundo é sobre o funding dos perpétuos. Se a taxa de financiamento estiver muito positiva antes da reunião, o mercado está pesado de posições longas, e um resultado morno pode bastar para um squeeze de baixa. Ler a curva de funding a prazo dá pistas sobre onde está o excesso. O terceiro é sobre o veículo: em Portugal, um investidor de retalho pode aceder a exposição a cripto através de produtos regulados, e o enquadramento importa. A CMVM supervisiona a conduta de mercado e a proteção do investidor, o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores de serviços de criptoativos, e o regulamento europeu MiCA fixa as regras à escala da União. Um produto cotado e regulado tem um perfil de risco e de custódia diferente da autocustódia direta, e essa escolha deve ser deliberada, não acidental.

Por fim, uma nota de humildade estatística: ninguém sabe a reação exata. A grelha de cenários serve para reconhecer o que está a acontecer, não para prever o desfecho. Se a quarta-feira trouxer o aperto esperado com um tom equilibrado, é possível que o maior movimento venha não da Fed, mas da votação da CLARITY na véspera ou do vencimento de opções. O guião existe precisamente para não confundir o barulho de uma manchete com o sinal que move o preço.

Perguntas frequentes

A Fed vai subir os juros em setembro de 2026?

É o cenário mais provável. A 16 de setembro, os mercados de futuros atribuem cerca de 87% de probabilidade a uma subida de 25 pontos base, que levaria a taxa dos fundos federais para 3,75%-4,00%. Seria a primeira subida desde julho de 2023 e a estreia de Kevin Warsh a apresentar as projeções da Fed enquanto presidente.

A que horas sai a decisão do FOMC em Portugal?

O comunicado da Reserva Federal é publicado às 19:00 de Lisboa (14:00 na costa leste dos Estados Unidos) na quarta-feira, 16 de setembro. A conferência de imprensa de Kevin Warsh começa meia hora depois, às 19:30, e costuma mover mais o mercado do que o próprio comunicado.

Porque é que o Bitcoin pode não cair com uma subida de juros?

Porque a subida já está no preço. Os mercados reagem à surpresa, ou seja, à diferença entre o resultado e aquilo que era esperado, e não ao facto em si. Se a Fed subir 25 pontos base como toda a gente antecipa, o essencial já foi descontado; o que pode mexer com o Bitcoin é o tom de Warsh e o gráfico de pontos, não o aumento em si.

O que é o dot plot e porque importa para a cripto?

O dot plot é o gráfico de pontos em que cada membro da Fed marca a sua projeção para a taxa de juro nos próximos anos, sem nomes. Importa para a cripto porque resume o caminho futuro da política monetária: um conjunto de pontos que aponta para mais subidas é restritivo e pesa sobre os ativos de risco, enquanto um que sugira o fim do ciclo tende a aliviar.

Como é que a subida do BCE afeta os portugueses?

De forma bem mais direta do que a decisão da Fed. A subida do BCE a 10 de setembro, que colocou a facilidade de depósito em 2,50%, alimenta a Euribor, o indexante da maioria dos créditos à habitação em Portugal, e por isso chega à prestação mensal. A decisão da Fed sente-se sobretudo de forma indireta, através do dólar e do preço do Bitcoin cotado em dólares.

Por Tomás Albuquerque, editor de macro e mercados da HOGE Wire.

Share 𝕏 Post Telegram