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● Predictions & Forecasts

Quanto vão custar as L2 em 2027? Dentro do modelo de previsão

Um piso técnico do protocolo, um modelo estatístico e o roadmap Lean Ethereum de Vitalik Buterin apontam para onde podem ir as taxas das L2 até 2027. Eis três cenários e os sinais a vigiar.

Para quem acompanha o Ethereum, a pergunta sobre quanto vai custar uma transação numa L2 daqui a um ano costumava ter uma resposta simples: menos do que custa hoje. Essa tendência continua a verificar-se, mas desde a ativação da atualização Fusaka, a 3 de dezembro de 2025, a resposta tornou-se mais complexa. A rede ganhou um mecanismo, o EIP-7918, que impede o custo dos blobs de cair a zero por mais capacidade que seja adicionada, e há poucos dias Vitalik Buterin anunciou um roteiro de três a quatro anos, o Lean Ethereum, que pode alterar de forma estrutural onde as L2 se encaixam no ecossistema.

Este artigo não se limita a descrever o que já aconteceu às taxas das L2. Propõe-se construir uma previsão: decompõe a taxa L2 nos seus componentes, cruza um estudo académico de regressão de tendência temporal com o piso técnico imposto pelo protocolo, e traduz tudo isto em três cenários concretos para 2027 e 2028, com sinais específicos que qualquer leitor pode acompanhar para perceber se a previsão está a cumprir-se ou a falhar.

Para traders e investidores, a distinção entre os três cenários não é apenas académica. Estratégias de arbitragem entre redes, o valor residual de tokens de governação de rollups, e até a viabilidade de novos casos de uso como jogos on-chain ou pagamentos recorrentes dependem diretamente de qual destes cenários se aproxima mais da realidade nos próximos dois anos.

O ponto de partida: quanto custam as L2 hoje

Antes de prever para onde vão as taxas, importa fixar onde estão. Em meados de julho de 2026, o ETH negoceia perto dos €1.620, segundo a CoinGecko. O que interessa mais para este artigo, contudo, não é o preço do ETH, mas o custo de o movimentar dentro de uma L2.

A tabela seguinte reúne as faixas medianas observadas para uma transferência simples em cada uma das principais L2s da Ethereum, com base em dados agregados pela L2BEAT e pela Token Terminal. Os valores variam consoante a congestão da rede e o tipo de operação: uma troca (swap) numa exchange descentralizada custa tipicamente duas a quatro vezes mais do que uma transferência simples de ETH ou de uma stablecoin.

RedeTecnologiaTaxa mediana (transferência simples)
Arbitrum OneOptimistic rollup, blobs Ethereum€0,01 a €0,04
BaseOptimistic rollup, blobs Ethereum€0,01 a €0,02
OP MainnetOptimistic rollup, blobs Ethereum€0,01 a €0,03
LineazkEVM, blobs Ethereum€0,02 a €0,04
zkSync ErazkEVM, blobs Ethereum€0,02 a €0,05
ScrollzkEVM, blobs Ethereum€0,03 a €0,06

Vale a pena explicar porque é que as faixas são largas e não um número único. As médias e as medianas divergem porque uma pequena percentagem de transações em horas de pico paga várias vezes mais do que a maioria, o que empurra a média para cima sem alterar muito a experiência típica de um utilizador. Os agregadores também diferem na forma como classificam uma transferência simples: alguns incluem sempre uma margem de segurança do sequenciador, outros medem apenas o custo bruto de execução mais dados. Por isso este artigo prefere apresentar faixas, cruzadas entre mais do que uma fonte, em vez de um número isolado que passaria uma falsa sensação de precisão.

A queda acumulada é o dado mais relevante para uma previsão. Segundo dados agregados pela Token Terminal, a taxa média das três L2s com mais volume, Arbitrum, Base e Optimism, caiu 99,16% entre o primeiro trimestre de 2024, quando rondava os 0,18 dólares, e o primeiro trimestre de 2026, quando já estava abaixo de 0,002 dólares. Essa queda não é acidental: reflete diretamente a expansão da capacidade de blobs que a Ethereum tem implementado desde a atualização Dencun, em março de 2024, uma tendência que já detalhámos no artigo sobre até onde foi a compressão das taxas em 2026, e que este texto tenta agora projetar para a frente.

Anatomia de uma taxa L2: de que é feito o custo

Para prever uma taxa é preciso primeiro decompô-la. O custo que um utilizador paga numa L2 optimista ou numa zk-rollup resulta, grosso modo, de quatro componentes: o custo de publicar dados na Ethereum (disponibilidade de dados, hoje maioritariamente pago através de blobs, ao abrigo da EIP-4844), o custo de execução dentro da própria L2 (o gás gasto a processar a transação na máquina virtual da rede), a margem que o operador do sequenciador retém, e, no caso das zk-rollups, o custo de gerar e verificar provas criptográficas do lote de transações.

Antes da atualização Dencun, em março de 2024, o custo de disponibilidade de dados podia representar mais de 90% da taxa final numa L2, porque os dados de cada lote de transações eram publicados como calldata normal na Ethereum, um dos recursos mais caros do protocolo. A introdução dos blobs, um espaço de armazenamento temporário e mais barato, cortou esse custo de forma abrupta. O efeito prático é que, à medida que a disponibilidade de dados deixa de dominar a fatura, qualquer nova compressão de taxas tem de vir cada vez mais de outro lado: eficiência de execução, otimização das provas, ou compressão da margem do sequenciador.

O custo das provas merece nota à parte. As zk-rollups como a zkSync Era, a Linea ou a Scroll pagam, além dos custos de dados, o custo computacional de gerar uma prova criptográfica que ateste a validade de cada lote de transações. Esse custo tem vindo a cair de forma consistente à medida que os fabricantes de hardware especializado e as equipas de investigação melhoram os algoritmos de geração de provas, mas segue uma curva diferente da dos blobs, mais ligada a avanços de engenharia do que a mudanças de parâmetros do protocolo. É por isso que, num modelo de previsão, faz sentido tratar o custo de dados e o custo de prova como duas variáveis distintas, mesmo que ambas apontem na mesma direção.

Esta decomposição em quatro partes, dados, execução, margem e provas, é o fio condutor do resto deste artigo. As secções seguintes tratam cada uma delas separadamente: o piso técnico que agora existe para os dados, o roteiro de capacidade que ainda falta cumprir, os modelos que tentam extrapolar a tendência, e as duas variáveis mais incertas, o roteiro de longo prazo da própria Ethereum e o limite de gás da camada 1, antes de tudo se juntar num conjunto de cenários mais adiante.

O piso técnico: como o EIP-7918 impede a queda a zero

Um dos erros mais comuns em previsões sobre taxas das L2 é assumir que, com blobs suficientes, o custo tende para zero. Tecnicamente, isso deixou de ser verdade a partir da atualização Fusaka. O EIP-7918, incluído nessa atualização, introduziu um preço de reserva para os blobs: a taxa base do blob não pode cair abaixo de um valor ligado ao custo de execução na camada 1. Em termos práticos, a constante BLOB_BASE_COST está fixada em 2 elevado a 13 (8.192), o que impõe um piso equivalente a cerca de um dezasseis avos da taxa base de execução da Ethereum.

A razão para este mecanismo é reveladora do problema que existia antes. Entre a atualização Dencun e a Fusaka, a taxa base de um blob podia cair, e frequentemente caía, para o mínimo técnico de 1 wei sempre que a procura por espaço de blob era baixa, mesmo que o custo de execução na Ethereum estivesse elevado. Isto criava um desequilíbrio: os rollups estavam, na prática, a obter capacidade de publicação de dados a um preço que já não refletia o custo real do recurso. O analista on-chain conhecido como Kydo (0xkydo) resumiu o efeito da correção numa publicação na rede social X: «Desde a Fusaka, a taxa base do blob aumentou 15 000 000 vezes por causa deste EIP. Parece assustador, mas é na verdade uma correção. Desde a 4844, a taxa base do blob manteve-se em 0,000000001 Gwei.» (fonte)

Um exemplo torna isto mais concreto. Se a taxa base de execução da Ethereum estiver, num determinado bloco, em torno de 1 gwei, o piso do EIP-7918 fixa a taxa base do blob em pelo menos cerca de 0,0625 gwei, independentemente de quão vazios estejam os blobs desse bloco. Antes da Fusaka, essa mesma taxa podia estar, na prática, encostada a 0,000000001 gwei durante longos períodos. A diferença entre os dois números é o que explica o salto descrito por Kydo.

A implicação para qualquer previsão é direta: o piso não é um número fixo em euros ou dólares, é uma fração do custo de execução da camada 1. Se a Ethereum conseguir baixar ainda mais o custo de executar transações no seu próprio livro-razão, por exemplo através de um aumento do limite de gás, o piso desce com ele. Mas nunca chega a zero absoluto enquanto o mecanismo estiver ativo. Já explorámos esta mecânica com mais detalhe, incluindo os cenários técnicos possíveis, no artigo sobre o piso técnico das taxas L2.

O roteiro dos blobs: de Dencun ao BPO2, e o que falta

A capacidade de blobs da Ethereum não aumentou de uma só vez, nem por acidente. Cresceu por fases negociadas e testadas em fóruns públicos, cada uma com a sua própria data de ativação e os seus próprios parâmetros:

  • Dencun (13 de março de 2024): introduz a EIP-4844, alvo de 3 blobs e máximo de 6 blobs por bloco, cortando o custo de dados das L2 em mais de 90%.
  • Pectra (7 de maio de 2025): introduz a EIP-7691, elevando o alvo para 6 e o máximo para 9 blobs por bloco.
  • Fusaka (3 de dezembro de 2025, 21h49 UTC): ativa a EIP-7594, conhecida como PeerDAS, amostragem de disponibilidade de dados que prepara a rede para aumentos de capacidade mais agressivos sem obrigar cada nó a descarregar todos os blobs.
  • BPO1 (9 de dezembro de 2025): eleva o alvo para 10 e o máximo para 15 blobs por bloco.
  • BPO2 (7 de janeiro de 2026): eleva o alvo para 14 e o máximo para 21 blobs por bloco, o nível em vigor à data desta publicação.

No total, a capacidade de blobs mais do que duplicou entre a véspera da Fusaka e o BPO2, uma expansão de cerca de 2,3 vezes, segundo o anúncio da Ethereum Foundation. Os investigadores do protocolo já discutem, em fóruns como o Ethereum Magicians, elevar a capacidade para perto de 128 blobs por bloco em forks futuras, batizadas BPO3 e BPO4, mas a decisão está deliberadamente suspensa: os developers preferem primeiro analisar a telemetria de rede recolhida com o BPO1 e o BPO2 antes de comprometer uma data. Esta pausa é, como se vai perceber mais à frente, um dos sinais mais úteis para acompanhar se esta previsão se está a confirmar. O tema já foi tratado com mais profundidade no artigo sobre a previsão de compressão pós-Fusaka publicado na HOGE Wire.

Um modelo quantitativo: o que diz a extrapolação estatística

Para além dos mecanismos do protocolo, existe uma segunda forma de prever taxas: extrapolar estatisticamente a partir da tendência histórica. Um estudo publicado em julho de 2026 no arXiv, sobre custos de transação e velocidade no ecossistema Ethereum, aplica exatamente essa abordagem. Os autores ajustam modelos de regressão de tendência temporal, com erros-padrão robustos a heterocedasticidade e autocorrelação, relacionando o logaritmo das taxas medianas com o limite de gás da camada 1 e com o alvo de blobs nas L2.

A relação central que encontram é que cada aumento de 5 milhões de unidades no limite de gás está associado a uma queda de aproximadamente 59,2% nas taxas. Extrapolando essa relação, o modelo projeta que as taxas das L2 líderes (Arbitrum, Base e Optimism) cruzem, por volta de outubro de 2026, o nível historicamente associado às taxas da Solana (cerca de 0,000328 dólares), e que continuem a descer até cerca de 0,0001 dólares por transação em meados de 2027. Para a própria camada 1 da Ethereum, o modelo aponta uma convergência para níveis semelhantes aos da Solana por volta de agosto de 2027, mantendo-se a trajetória atual de crescimento do limite de gás.

Convém ler estes números com as devidas reservas. É um modelo estatístico baseado em tendência passada, não uma garantia: assume que o ritmo de expansão do limite de gás e da capacidade de blobs se mantém, algo que, como se viu na secção anterior, está deliberadamente em pausa enquanto se avalia a telemetria do BPO2. O modelo também não capta choques de procura, como o aparecimento de uma aplicação que sature a rede da noite para o dia, nem mudanças regulatórias que alterem o comportamento dos utilizadores. Ainda assim, é um dos poucos exercícios de previsão quantitativa publicados sobre o tema com metodologia explícita, o que o torna um ponto de referência útil para calibrar os cenários mais adiante neste artigo.

Vale a pena confrontar este modelo com o piso técnico descrito na secção anterior. O estudo académico extrapola a partir de dados históricos anteriores à aplicação sistemática do EIP-7918, pelo que os seus números mais otimistas, taxas de L2 a rondar os 0,0001 dólares, só são compatíveis com o piso se o custo de execução da camada 1 também continuar a cair proporcionalmente. Os dois modelos não se contradizem, mas só se encaixam um no outro se o limite de gás da Ethereum, tratado mais à frente neste artigo, também evoluir como o estudo pressupõe.

A concorrência da disponibilidade de dados: Celestia, EigenDA e a fuga de valor

Os blobs da Ethereum não são a única forma de garantir disponibilidade de dados a uma L2. Redes modulares como a Celestia e a EigenDA oferecem o mesmo serviço fora da Ethereum, tipicamente a um preço mais baixo por megabyte. Segundo uma análise da Blockworks, o custo de um blob na Ethereum ronda os 3,83 dólares por megabyte, contra cerca de 0,07 dólares por megabyte na Celestia, uma diferença de 55 vezes. A EigenDA, construída sobre a infraestrutura de restaking da EigenLayer, um tema que já explorámos no artigo sobre o colapso do TVL do restaking em 2026, compete pelo mesmo orçamento de custos que uma L2 tem disponível para disponibilidade de dados.

Esta concorrência é uma faca de dois gumes para a previsão de taxas. Por um lado, pressiona os blobs da Ethereum a manterem-se competitivos, o que reforça a tendência de compressão. Por outro, cada transação que uma L2 decide publicar numa DA layer externa em vez de num blob da Ethereum deixa de contribuir para a procura, e portanto para a receita, da camada 1. Segundo investigação da Fidelity Digital Assets, os blobs deverão representar entre 30% e 50% da queima total de ETH em 2026, uma fatia relevante da forma como a rede acumula valor desde a transição para prova de participação. É o chamado debate da fuga de valor: as L2 ficam mais baratas para o utilizador final, mas isso não garante que a Ethereum capture uma fatia proporcional desse valor.

Na prática, a escolha entre publicar dados na Ethereum ou numa DA layer externa é uma troca entre custo e segurança. Um blob na Ethereum herda a segurança económica de toda a rede, validada por dezenas de milhares de validadores. A Celestia e a EigenDA oferecem os seus próprios conjuntos de garantias, geralmente mais baratos mas com um histórico mais curto e uma base de validadores diferente. Para uma L2 que movimenta milhares de milhões de dólares em ativos, essa diferença de segurança pesa tanto quanto o preço por megabyte, o que ajuda a explicar porque é que a maioria das L2 com mais TVL continua a publicar os seus dados na Ethereum apesar do custo mais alto.

O equilíbrio entre estas opções deverá continuar a evoluir. Novas rollups lançadas em 2026 já nascem com a opção de escolher a sua camada de disponibilidade de dados no momento do desenho, em vez de assumirem por defeito os blobs da Ethereum, o que significa que a fatia de mercado que cada camada de disponibilidade de dados detém é, ela própria, uma variável a observar em qualquer previsão de taxas de longo prazo.

Lean Ethereum: o roteiro de Vitalik Buterin muda o cálculo?

A 4 de julho de 2026, Vitalik Buterin partilhou nas redes sociais os contornos do Lean Ethereum, um roteiro de protocolo que descreveu como «a terceira grande iteração da Ethereum, da mesma forma que a Merge foi a segunda». Segundo Buterin, «quase todas as peças importantes do protocolo serão substituídas» ao longo de um período de três a quatro anos, com objetivos que incluem criptografia resistente a computação quântica, finalidade mais rápida, um mercado de gás multidimensional, e um novo desenho de estado.

A parte mais relevante para este artigo é a que toca diretamente nas taxas. Segundo Buterin, reescrever tokens ERC-20 com um desenho baseado em UTXO, à semelhança do modelo usado pela Bitcoin, poderia reduzir as taxas de transação em mais de dez vezes para aplicações que adotem esse desenho, através de STARKs recursivos que substituem a reexecução direta de cada transação. O roteiro também prevê que a própria camada 1 recupere parte da execução que, na década anterior, tinha sido delegada às L2, o que altera a pergunta de fundo: talvez o que baixe as taxas nos próximos anos não seja apenas mais capacidade de blobs para as L2, mas uma camada 1 estruturalmente mais eficiente a competir diretamente pelo mesmo tráfego.

Nem toda a reação foi favorável. Segundo múltiplos relatos da imprensa especializada, declarações anteriores de Buterin sobre o papel das L2 já tinham gerado contestação pública de equipas de rollups e comentadores da comunidade, que alertaram para o risco de descartar prematuramente o valor de redes que hoje processam a maior parte da atividade da Ethereum. O roteiro final do Lean Ethereum, tal como apresentado em julho, surge mais moderado do que essas primeiras declarações, mas a controvérsia é um lembrete de que a relação entre a camada 1 e as L2 continua por resolver, o que reforça a incerteza à volta desta variável do modelo.

Para um modelo de previsão, o Lean Ethereum é a variável mais difícil de quantificar. É um roteiro de três a quatro anos anunciado há poucos dias, sem forks nomeadas nem datas de ativação, e a própria comunidade de developers ainda está a discutir prioridades. Mesmo nas leituras mais otimistas, ninguém no ecossistema espera mudanças visíveis para o utilizador comum antes de 2027: os primeiros anos deverão ser dominados por trabalho de especificação e testes em redes de teste, não por alterações que um utilizador de uma L2 sinta na sua carteira. Mas é precisamente por poder redistribuir onde a execução acontece que este roteiro teria de constar em qualquer previsão séria sobre para onde vão as taxas das L2 até 2028.

O limite da procura: o limite de gás e a EIP-7938

Todo o modelo anterior assume implicitamente que a capacidade de blobs continua a crescer. Mas há uma segunda alavanca, menos falada, que também empurra as taxas para baixo: o limite de gás da própria camada 1, que define quanta execução cabe em cada bloco e, indiretamente, onde se situa o piso do EIP-7918, já que este está ancorado ao custo de execução.

A proposta mais ambiciosa nesta frente é a EIP-7938, que defende um aumento exponencial do limite de gás, na prática multiplicando-o por dez a cada dois anos, até um total de cem vezes ao longo de quatro anos, através do comportamento por defeito dos clientes de validação em vez de uma votação manual, tal como acontece hoje. A proposta, da autoria do investigador Dankrad Feist, ainda não tem data de ativação confirmada, com estimativas a apontar para 2027, e a comunidade está dividida: alguns veem-na como forma de manter a Ethereum competitiva face a redes de alto débito, outros alertam para riscos técnicos e de descentralização caso os operadores de nós não consigam acompanhar o crescimento do estado da rede a esse ritmo.

Para a previsão que este artigo constrói, a EIP-7938 funciona como um multiplicador silencioso. Se for adotada pelos clientes de validação por defeito, o piso do EIP-7918 desce mais depressa do que a simples expansão de blobs conseguiria sozinha, porque o piso está ancorado ao custo de execução, não ao número de blobs disponíveis. Se ficar pelo caminho, por falta de consenso entre as equipas de cliente, o piso desce ao ritmo mais lento que se tem visto desde o BPO2, e o cenário conservador descrito na secção seguinte torna-se o mais provável dos três.

Três cenários para 2027 e 2028

Cruzando os fatores descritos até aqui, o piso do EIP-7918, o ritmo de expansão de blobs (BPO3 e BPO4), o modelo estatístico do estudo académico, e as duas variáveis mais incertas (Lean Ethereum e EIP-7938), é possível construir três cenários ilustrativos para o custo mediano de uma transferência simples numa L2 líder. Não são previsões oficiais de nenhuma das fontes citadas neste artigo, mas uma síntese construída a partir delas.

A construção destes cenários não atribui probabilidades formais, no sentido estatístico do termo, porque as variáveis mais incertas, o ritmo do Lean Ethereum e a adoção da EIP-7938, dependem de decisões de governação que ainda não foram tomadas. Em vez disso, cada cenário assume um conjunto coerente de pressupostos sobre essas variáveis, de forma a que o leitor possa avaliar, à medida que os checkpoints descritos mais à frente se vão resolvendo, qual dos três conjuntos está a revelar-se mais próximo da realidade.

CenárioTaxa L2 mediana prevista (2027 a 2028)Principais motores
Conservador€0,01 a €0,02, praticamente estávelO piso do EIP-7918 domina; BPO3 e BPO4 continuam adiadas; o Lean Ethereum atrasa-se
Central€0,002 a €0,008BPO3 e BPO4 avançam a um ritmo semelhante ao histórico; o modelo estatístico do estudo académico confirma-se
AgressivoAbaixo de €0,001 para transferências simplesO Lean Ethereum acelera; a EIP-7938 ganha consenso de clientes; a concorrência das DA layers intensifica-se

O detalhe mais importante para reter não é qual dos três cenários vai acontecer, é que em nenhum deles a taxa chega literalmente a zero. Mesmo no cenário agressivo, o piso do EIP-7918 continua a existir, apenas ancorado a um custo de execução da camada 1 mais baixo do que o atual. Taxas das L2 quase a zero é, na prática, uma forma de dizer taxas uma ou duas ordens de grandeza abaixo das atuais, não um custo literalmente nulo.

Quem ganha e quem perde com a compressão

Os beneficiários mais óbvios são os utilizadores finais, sobretudo os que fazem operações de baixo valor ou de alta frequência: jogos on-chain, micropagamentos, estratégias de DeFi que rebalanceiam posições várias vezes ao dia. Para esse tipo de utilização, a diferença entre pagar 0,04 euros e pagar 0,002 euros por transação é, na prática, a diferença entre a operação ser viável ou não.

Do lado dos perdedores relativos estão os próprios operadores de sequenciadores. Segundo dados compilados a partir da Token Terminal e da DefiLlama, tal como reportado pela vaasblock, a receita de sequenciador do Arbitrum, a margem retida depois de pagar os custos de disponibilidade de dados, situou-se entre 35 e 45 milhões de dólares no primeiro semestre de 2026, enquanto a Base, construída pela Coinbase, gerou entre 60 e 70 milhões de dólares no mesmo período, uma cifra que a própria Coinbase já reporta como fonte de receita distinta nos documentos que envia à SEC. É uma receita substancial, mas depende do volume de transações multiplicado pela taxa cobrada: à medida que a taxa mediana cai, a margem por transação cai com ela, e só um crescimento de volume proporcionalmente maior consegue compensar a diferença.

Há ainda um efeito indireto sobre os MEV searchers e os construtores de blocos que operam nestas redes: taxas mais baixas reduzem o custo de experimentação, o que tende a aumentar o número de participantes a competir pelas mesmas oportunidades de arbitragem e liquidação, comprimindo também as margens desse nicho especializado do ecossistema.

Os fornecedores de disponibilidade de dados externos, Celestia e EigenDA incluídos, tendem a beneficiar relativamente da compressão, na medida em que competem precisamente pela fatia de custo que resta depois de descontada a margem do sequenciador. Já as L2 mais pequenas, sem uma proposta de valor diferenciada, tendem a ser as mais afetadas: se a taxa deixa de ser vantagem competitiva porque todas as redes convergem para valores residuais, a distribuição, ou seja, ter utilizadores e liquidez já instalados, torna-se o fator decisivo. Esta dinâmica está detalhada, com mais números sobre TVL e quota de mercado, no artigo sobre quem ganha e quem perde com as taxas L2 quase a zero até 2028.

O que isto significa para Portugal: CMVM, MiCA e o investidor de retalho

Em Portugal, este debate técnico cruza-se com uma mudança regulatória recente. O regime transitório previsto no Regulamento MiCA, transposto para a ordem jurídica portuguesa pela Lei n.º 69/2025, terminou a 1 de julho de 2026. Na prática, a partir dessa data, qualquer prestador de serviços de criptoativos que sirva clientes em Portugal só pode continuar a operar se estiver devidamente autorizado ao abrigo do MiCA, ou se beneficiar de um facto permissivo legalmente aplicável.

A supervisão está dividida entre duas entidades. O Banco de Portugal fica com a supervisão prudencial, a emissão e a oferta pública de tokens referenciados a ativos e de moeda eletrónica (as chamadas stablecoins), participações qualificadas e outsourcing. A CMVM fica com a supervisão da emissão e oferta pública dos restantes criptoativos, a prevenção de abuso de mercado, e os deveres gerais de conduta e organização dos prestadores de serviços de criptoativos.

A ligação com o tema deste artigo é direta, ainda que pouco discutida: taxas de blob mais baixas reduzem o custo operacional de qualquer prestador de serviços de criptoativos autorizado pela CMVM que liquide operações on-chain, seja em nome próprio seja em nome de clientes. Isso não significa necessariamente que o investidor de retalho português pague menos: o custo de gás é apenas uma fração do que uma exchange ou corretora cobra, que inclui ainda spread, comissão de custódia e outros encargos sujeitos aos deveres de transparência do MiCA. Mas para os utilizadores que interagem diretamente com contratos inteligentes através de uma carteira própria, sem passar por um intermediário, a compressão das taxas de blob traduz-se quase integralmente em poupança direta.

O momento também é relevante para o setor em Portugal de forma mais ampla. Com o fim do regime transitório, as plataformas que pretendem continuar a servir clientes portugueses tiveram de decidir entre obter autorização MiCA junto da CMVM e do Banco de Portugal, ou cessar operações no mercado nacional, uma escolha que reduziu o número de prestadores ativos mas, em teoria, aumentou a proteção do investidor de retalho através dos deveres de divulgação e de organização exigidos pelo regulamento. Custos de blockchain mais baixos, incluindo os das L2 aqui analisadas, tornam mais barato para esses prestadores autorizados construir produtos que liquidam diretamente on-chain, em vez de dependerem apenas de livros internos.

Como usar esta previsão na prática

Esta previsão não é um sinal de compra ou de venda, mas pode informar decisões concretas. Para quem constrói produtos sobre L2s, o cenário central sugere que vale a pena desenhar para um custo de transação uma ordem de grandeza abaixo do atual dentro de dois anos, o que abre casos de uso hoje marginais, como micropagamentos por conteúdo ou liquidação frequente de pequenas posições.

Para quem negoceia tokens de rollups ou de DA layers, a compressão de taxas é um lembrete de que a receita destes protocolos depende cada vez mais de volume e cada vez menos de margem por transação, pelo que métricas como o número de transações ativas ou a quota de mercado tendem a pesar mais do que a taxa nominal cobrada. Para o investidor de retalho que apenas usa L2s para transferir ou trocar ativos, o efeito prático mais imediato é simples: o custo de errar uma transação, ou de experimentar uma nova aplicação, continua a descer, o que reduz a fricção para participar em mercados on-chain mesmo com capital limitado.

Checkpoints: como saber se a previsão está a falhar

Um modelo de previsão só é útil se for possível verificar, com o tempo, se está certo. Eis os sinais concretos a acompanhar nos próximos trimestres:

  • Data de anúncio do BPO3: se os core developers anunciarem uma data de ativação até ao final de 2026, o cenário central ou agressivo ganha probabilidade; se a decisão continuar suspensa até 2027, o cenário conservador torna-se mais provável.
  • Primeiras EIPs formais do Lean Ethereum: o roteiro anunciado em julho de 2026 ainda não tem forks nomeadas; a velocidade a que a Ethereum Foundation formaliza as primeiras propostas é um indicador direto do ritmo real do roteiro.
  • Consenso de clientes sobre a EIP-7938: uma proposta deste tipo só avança se a maioria dos clientes de validação a adotar por defeito; qualquer sinal de bloqueio nas discussões do Ethereum Magicians aponta para atraso.
  • Quota de mercado das DA layers externas: um crescimento acelerado da Celestia ou da EigenDA às custas dos blobs da Ethereum sinaliza que a pressão competitiva está a intensificar-se mais depressa do que o modelo assume.
  • Receita de sequenciador reportada por Arbitrum e Coinbase: uma compressão de margem mais rápida do que a queda da taxa cobrada ao utilizador é sinal de que a concorrência entre L2s está a acelerar a compressão além do que os fatores técnicos, isoladamente, explicariam.

Nenhum destes sinais, isoladamente, confirma ou refuta a previsão. Mas em conjunto formam um painel razoável para qualquer leitor que queira acompanhar, trimestre a trimestre, se as taxas das L2 estão a seguir o cenário central deste artigo, ou a desviar-se dele.

Perguntas Frequentes

Porque é que as taxas das L2 continuam a descer em 2026?

Porque a Ethereum tem vindo a aumentar a capacidade de blobs, o espaço de armazenamento barato criado pela EIP-4844, através de uma sequência de atualizações: Dencun, Pectra, Fusaka e as forks BPO1 e BPO2. Mais capacidade de blobs significa que cada L2 paga menos por megabyte de dados publicados na Ethereum, um custo que ainda hoje representa uma fatia relevante da taxa final numa L2 optimista. Zk-rollups como a zkSync Era ou a Scroll somam ainda o custo, cada vez mais baixo, de gerar provas criptográficas para cada lote de transações.

As taxas das L2 podem chegar a zero?

Não, pelo menos enquanto o EIP-7918 estiver em vigor. Este mecanismo, ativado com a Fusaka, impõe um preço de reserva aos blobs, ligado ao custo de execução da camada 1 da Ethereum, para impedir que a taxa colapse para o mínimo técnico de 1 wei. As taxas podem ficar residuais, uma fração de cêntimo, mas não literalmente nulas. Para efeitos práticos, isso significa que uma L2 pode tornar-se extremamente barata, mas nunca gratuita, e que qualquer promessa de taxas a zero deve ser lida com desconfiança.

O que é o EIP-7918 e como afeta as taxas dos blobs?

É uma proposta de melhoria da Ethereum, ativada com a atualização Fusaka em dezembro de 2025, que fixa um piso para a taxa base de um blob, calculado como aproximadamente um dezasseis avos da taxa base de execução da camada 1. Antes desta alteração, a taxa de um blob podia cair para praticamente zero mesmo quando a rede estava cara para outras operações, um desequilíbrio que o EIP-7918 corrige. O objetivo é evitar que os rollups obtenham espaço de dados a um preço artificialmente baixo quando o custo real de o processar na Ethereum é mais alto.

Qual é atualmente a L2 mais barata da Ethereum?

Em meados de 2026, redes como a Base e o OP Mainnet tendem a registar as taxas medianas mais baixas para transferências simples, tipicamente na casa dos cêntimos, mas a ordem exata varia consoante a congestão e a fonte de dados consultada. Todas as L2 líderes, incluindo Arbitrum One, Linea, zkSync Era e Scroll, operam hoje na mesma ordem de grandeza, entre um e seis cêntimos de euro por transferência simples. A escolha entre elas depende mais de fatores como o ecossistema de aplicações, a liquidez disponível e a segurança do mecanismo de saída (bridge) do que apenas do preço da transação.

Como é que o roteiro Lean Ethereum de Vitalik Buterin pode mudar esta previsão?

O Lean Ethereum, anunciado por Buterin em julho de 2026, propõe redesenhar partes centrais do protocolo ao longo de três a quatro anos, incluindo um novo desenho de estado que, segundo o próprio Buterin, poderia reduzir taxas em mais de dez vezes para tokens redesenhados num modelo semelhante ao UTXO da Bitcoin. Se este roteiro avançar como descrito, a camada 1 pode recuperar parte da execução hoje delegada às L2, alterando onde e como a compressão de taxas acontece. Investidores e equipas de desenvolvimento devem tratar este roteiro como uma variável de médio prazo a acompanhar, não como um facto já consumado.

Escrito pela redação da HOGE Wire.

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