Posicionamento em derivados: a aposta adiada para setembro
Em julho, o mercado apostou 5 mil milhões em calls que dependiam do CLARITY Act, e perdeu. Setembro herda a aposta: FOMC, voto no Senado e vencimento trimestral na mesma janela.
Durante quase todo o mês de julho, o mercado de opções de Bitcoin fez uma aposta cara e muito específica: a de que o Congresso norte-americano aprovaria a sua lei de estrutura de mercado, o CLARITY Act, antes do fim do mês, empurrando o preço para os 70.000 ou 72.000 dólares. O aglomerado de calls concentrado nesses dois strikes valia cerca de 5 mil milhões de dólares em nocional, segundo a CoinDesk. No dia 31 de julho, expirou sem pagar nada.
Não foi um acidente de preço, foi um erro de calendário. A lei não passou, o Bitcoin fechou o mês perto dos 64.000 dólares e as calls de 70.000 e 72.000 dólares ficaram fora do dinheiro. Duas semanas depois, o próprio catalisador que sustentava a tese mudou de data: o Senado dos EUA não votou o CLARITY Act antes das férias de agosto e transferiu todo o processo para setembro. No início de agosto, o Bitcoin negociava perto dos 64.900 dólares (cerca de 56.100 euros), com uma capitalização de mercado à volta de 1,3 biliões de dólares, segundo a CoinGecko.
É por aqui que começa este guia. Posicionamento em derivados é a leitura das apostas que traders e instituições deixam registadas nos mercados de futuros e opções: onde está a multidão, quanto risco carrega e o que precisa de acontecer para que essas posições paguem. E o caso de julho é o exemplo perfeito de como um posicionamento inteiro pode estar tecnicamente certo na direção e na estrutura, e ainda assim perder, porque o calendário não colaborou. Setembro herdou essa aposta. Vale a pena perceber como se lê o tabuleiro antes que a próxima ronda comece.
O que é, afinal, o posicionamento em derivados
No mercado à vista (spot), um investidor compra Bitcoin e fica com Bitcoin. No mercado de derivados, compra-se exposição: um contrato cujo valor deriva do preço do Bitcoin, sem que seja preciso deter a moeda. É aí que vive a maior parte da alavancagem do mercado, e é aí que o dinheiro grande deixa pistas sobre o que espera que aconteça. Ler essas pistas é o que se chama posicionamento.
O posicionamento não prevê o futuro. Descreve o presente: quanta gente está do mesmo lado, com que grau de convicção e a que custo. Quando quase toda a gente aposta na mesma direção, o mercado fica frágil precisamente porque já não há compradores marginais para alimentar a subida, e qualquer choque força vendas em cadeia. Perceber o posicionamento é perceber onde a multidão se acumula e onde a fragilidade se instala.
Há três instrumentos onde essa informação se concentra, e convém distingui-los antes de avançar:
- Perpétuos (perpetual swaps): futuros sem data de vencimento, ancorados ao preço à vista por um mecanismo chamado funding. São o instrumento mais negociado da cripto e o termómetro de curto prazo do sentimento alavancado.
- Futuros com data (dated futures): contratos que expiram numa data fixa, cuja diferença face ao spot (a base) mede quanto o mercado paga para ter exposição no futuro.
- Opções (options): contratos que dão o direito, não a obrigação, de comprar (call) ou vender (put) a um preço fixo. São onde se lê o medo, a ganância e as apostas direcionais mais explícitas, como as calls de 70.000 dólares de julho.
Cada um destes mercados deixa um rasto de dados: interesse em aberto (open interest, o total de contratos vivos), taxas de funding, rácios put/call, níveis de max pain e mapas de liquidação. Nenhum deles conta a história toda sozinho. O erro clássico é ler uma métrica isolada e confundir uma fotografia com um filme.
A aposta de julho: cinco mil milhões que dependiam do Senado
Para entender setembro, é preciso reconstruir julho. Ao longo do mês, os traders de opções carregaram dois strikes de compra na Deribit, a maior bolsa de opções de cripto: o de 70.000 dólares (cerca de 60.500 euros) e o de 72.000 dólares (cerca de 62.300 euros). A 16 de julho, a call de 70.000 dólares já era o strike mais povoado de todo o mercado, com 1,63 mil milhões de dólares em interesse em aberto, destronando a call de 80.000 que liderara durante seis meses, segundo a CoinDesk.
Somados, os dois strikes juntavam cerca de 39.000 calls a 70.000 dólares e 37.900 a 72.000, um aglomerado de aproximadamente 5 mil milhões de dólares em nocional, o equivalente a perto de 18% de todo o livro de opções de Bitcoin da Deribit, de acordo com a análise da CoinDesk. Um único trader chegou a pagar 3,4 milhões de dólares em prémio por calls de 70.000; outro bloco comprou 20.000 calls de 70.000 e vendeu 20.000 de 72.000 na mesma operação, uma spread de touro (bull call spread) de milhares de milhões em nocional bruto.
A tese por trás desta montanha de calls não era mística. Jimmy Yang, cofundador da Orbit Markets, resumiu-a à CoinDesk: «no início do mês, vimos uma procura considerável por calls de topo em BTC (…) grande parte deste posicionamento foi impulsionada pela expectativa de que o CLARITY Act pudesse ser aprovado» antes do fim do mês. O posicionamento não era uma aposta no Bitcoin em abstrato. Era uma aposta numa data legislativa.
Porque a aposta falhou: o expiry de 31 de julho
O vencimento mensal de 31 de julho foi um dos maiores do ano. Cerca de 149.000 contratos de opções de Bitcoin, com um nocional próximo de 9,6 mil milhões de dólares, expiraram nesse dia, com um max pain de 64.000 dólares e um rácio put/call de apenas 0,28, segundo o The Crypto Times. O max pain é o preço a que o maior valor de opções expira sem valor, o ponto que causa o máximo de dor ao conjunto dos compradores.
O Bitcoin liquidou o vencimento perto dos 63.824 dólares, praticamente em cima do max pain e muito abaixo dos 70.000 e 72.000 onde estava a aposta. As calls de topo, que valiam milhares de milhões em nocional, expiraram fora do dinheiro, ou seja, sem qualquer valor intrínseco. A plataforma de análise Greeks.live foi lapidar na véspera: «as condições para um rally não estão reunidas». Não estavam.
A ironia é que o posicionamento estava, à sua maneira, correto. Havia realmente apetite institucional por exposição de subida, e a estrutura das apostas (spreads de touro, risco limitado) era prudente. O que falhou foi o gatilho. A lei que devia mover o preço não se materializou a tempo, e as opções, ao contrário do Bitcoin à vista, têm prazo de validade. Estar certo na direção e errado no calendário, no mercado de opções, é indistinguível de estar simplesmente errado.
O adiamento: o que o Senado fez (e não fez)
Chegamos a agosto e ao coração desta história. A 6 de agosto, ficou claro que não haveria voto do CLARITY Act antes das férias de verão do Senado. O líder da maioria, John Thune, foi direto: «os Democratas estão irredutíveis quanto a não haver voto sobre o Clarity (…) trabalhei com os patrocinadores da lei. A senadora Cynthia Lummis foi excelente, e vamos deixar isso a postos logo que regressarmos», disse à CoinDesk.
Não foi um abandono, foi um adiamento processual. Já de madrugada, ao sábado, Thune apresentou uma moção para avançar (motion to proceed), iniciando o processo de cloture sobre a H.R. 3633, o Digital Asset Market Clarity Act, segundo a CoinDesk. A moção chegou tarde demais para um voto em agosto, mas deixou o dossiê armado: a primeira votação processual pode acontecer logo após o regresso do Senado, a 14 de setembro, possivelmente já a 15 ou 16.
Os obstáculos que travaram agosto não desapareceram, apenas foram reagendados. Entre eles:
- Uma cláusula de ética que restringe responsáveis públicos de apoiarem projetos de cripto, um ponto sensível depois de o Presidente Trump ter declarado ganhos «acima de mil milhões de dólares» com negócios de cripto em 2025.
- Detalhes sobre o rendimento (yield) e as recompensas das stablecoins.
- Proteções contra financiamento ilícito e questões da comissão de Agricultura.
- Uma contraproposta redigida pelos senadores Thom Tillis e Ruben Gallego, enviada à Casa Branca no final de julho.
A aritmética não ajuda: a lei precisa de 60 votos na cloture, o que significa pelo menos dez senadores Democratas, e o apoio atual permanece por confirmar. É este o pano de fundo que o posicionamento de setembro tem de descontar: um catalisador real, com data provável mas resultado incerto, comprimido numa janela de três semanas.
Gamma: o travão que continua a limitar as subidas
Há um motivo técnico para o Bitcoin ter tido tanta dificuldade em chegar aos 70.000 dólares, e chama-se gamma dos market makers. Quando os criadores de mercado vendem opções, ficam com uma exposição que têm de cobrir continuamente no mercado à vista, comprando e vendendo Bitcoin para se manterem neutros. A direção dessa cobertura depende de estarem com gamma longo ou curto.
Imran Lakha, fundador da Options Insights, explicou o mecanismo à CoinDesk a propósito do muro de calls de 70.000: os dealers detêm gamma líquido longo acima desse nível, por isso «vendem ou reduzem na força acima dos 70.000 para se manterem neutros ou cobertos», o que «funciona como um travão, limitando a rapidez com que o BTC pode correr depois de lá chegar». Por outras palavras, a própria concentração de apostas de subida criava a resistência que impedia essa subida de acontecer depressa.
O inverso também é verdade. Quando os dealers estão com gamma curto, a cobertura obriga-os a comprar em alta e a vender em baixa, amplificando os movimentos em vez de os travar. É por isso que os mapas de gamma são tão vigiados: dizem-nos se, numa dada zona de preço, o fluxo mecânico dos market makers vai amortecer ou acelerar o próximo movimento. Para setembro, a pergunta é onde estará concentrado esse gamma quando o calendário legislativo e o macro se cruzarem.
O calendário de setembro: três eventos, uma janela
A grande diferença entre julho e setembro é a densidade. Em julho, a aposta dependia de um único evento difuso, uma lei que podia passar algures antes do fim do mês. Setembro concentra três catalisadores potentes numa janela de dez dias, o que transforma o mês numa espécie de tríplice vencimento à escala cripto.
| Data (2026) | Evento | Porque importa para o posicionamento |
|---|---|---|
| Meados de agosto | IPC dos EUA (inflação de julho) | Primeiro teste macro; recalibra as apostas sobre cortes de juros e o apetite por risco |
| 14 de setembro | Regresso do Senado | Reabre a janela para o voto do CLARITY Act |
| 15 e 16 de setembro | Reunião do FOMC (decisão e dot plot a 16) | Reunião com projeções económicas; define o custo do dinheiro e o pano de fundo de liquidez |
| ~15 a 16 de setembro | Voto de cloture do CLARITY Act (provável) | Precisa de 60 votos; resultado binário para a estrutura de mercado |
| 25 de setembro | Vencimento trimestral de opções (Deribit) | Maior expiry do trimestre; concentra gamma e risco de pin |
Repare-se na sobreposição. O FOMC decide a 16 de setembro, precisamente quando o Senado pode estar a votar a cloture do CLARITY Act, e ambos caem a nove dias do maior vencimento de opções do trimestre. Um mercado que já teve dificuldade em digerir um catalisador de cada vez em julho vai ter de processar três quase em simultâneo. É esta compressão que torna o posicionamento de setembro tão delicado: o resultado de um evento altera a forma como os outros dois são descontados. As datas do FOMC estão confirmadas no calendário oficial da Reserva Federal.
Vale a pena lembrar que a reação da cripto ao Fed já não é o que era. Como explorámos na análise sobre porque a cripto já não treme com o Fed em 2026, o mercado aprendeu a antecipar as decisões de política monetária, e o choque tende a estar no dot plot e no tom, não na taxa em si. Em julho, recorde-se, o FOMC manteve os juros no intervalo de 3,50% a 3,75%, mas com três dissidências a favor de uma subida, um sinal de que o comité está longe de um consenso dovish.
Como está o posicionamento agora: calls dominam, o CME cobre-se
Feita a fotografia do calendário, falta a do posicionamento. No início de agosto, o mercado de opções voltava a inclinar-se para o otimismo, mas de forma mais matizada do que em julho. Na Deribit, as calls voltaram a dominar o livro, com cerca de 241.010 BTC em interesse em aberto do lado das compras (60,4%) contra 157.934 BTC em puts (39,6%), segundo dados compilados pela Bitcoin.com News.
| Métrica (início de agosto de 2026) | Leitura | O que sugere |
|---|---|---|
| Calls vs puts (Deribit) | ~60% calls / ~40% puts | Viés otimista dominante nos nativos cripto |
| Max pain de setembro | Entre 70.000 e 75.000 dólares, consoante a bolsa | Zona de gravidade para o vencimento trimestral |
| Strike mais carregado até dezembro | 120.000 dólares (cerca de 104 mil euros) | Aposta de cauda otimista de longo prazo |
| Opções no CME | Puts dominam; OI no mínimo do ano | Instituições reguladas em modo defensivo |
| Futuros no CME | 105,27 mil BTC / 6,33 mil milhões de dólares | Exposição institucional contida |
| Base 3M anualizada | Positiva, a recuperar de perto de zero na primavera | Regresso gradual do apetite por carry |
Duas leituras saltam à vista. A primeira é a persistência da aposta de longo prazo: o strike de 120.000 dólares continua a ser o mais carregado nos vencimentos até dezembro, uma call de cauda que sobreviveu ao fracasso de julho, segundo a Bitcoin.com News. Quem quiser perceber como interpretar estes níveis sem os confundir com previsões, vale a pena rever o nosso guia sobre como ler os alvos de preço de 2026: um strike muito povoado é uma aposta com dinheiro em cima, não um preço-alvo consensual.
A segunda leitura é a divergência entre bolsas, e é aqui que está o detalhe mais interessante de agosto.
A divergência CME contra Deribit: dois mercados, duas histórias
Enquanto a Deribit, dominada por traders nativos de cripto e fundos offshore, mostra calls a superar puts numa proporção de 60 para 40, o CME (a bolsa regulada de Chicago, onde negoceiam sobretudo instituições norte-americanas) conta a história oposta. Aí, as puts dominam o livro de opções, e o interesse em aberto caiu para os mínimos do ano, segundo os dados de CryptoQuant citados pela Bitcoin.com News. Os hedgers institucionais, na bolsa regulada, estão em modo defensivo, cobrindo-se contra novas quedas abaixo dos 60.000 dólares.
Esta divergência não é ruído, é sinal. Diz-nos que os dois grandes blocos do mercado discordam sobre o próximo movimento: os cripto-nativos posicionam-se para a subida, os institucionais regulados protegem-se da descida. Não é a primeira vez que os mercados regulados e os offshore contam versões diferentes da mesma história; foi precisamente isso que motivou, em abril, o momento em que o interesse em aberto de opções do IBIT, o ETF da BlackRock, ultrapassou brevemente o da Deribit, com perto de 27,6 mil milhões de dólares contra 26,9, segundo a KuCoin. O dinheiro que precisa de proteção legal migra para produtos cotados nos EUA, e traz consigo um perfil de risco mais conservador.
Para o leitor que tenta ler o mercado, a lição é dupla. Primeiro, não existe um posicionamento único; existem posicionamentos, plurais e por vezes contraditórios. Segundo, a discordância entre o CME e a Deribit é, ela própria, uma informação: quando os institucionais se cobrem e os nativos compram calls, o desfecho de setembro dependerá de qual dos dois grupos é forçado a mudar de lado primeiro.
Hyperliquid: o posicionamento que vive on-chain
Há um terceiro bloco que muda a natureza do problema: os perpétuos on-chain, liderados pela Hyperliquid, que ao longo de 2026 se consolidou como a maior plataforma descentralizada de derivados, movimentando milhares de milhões de dólares em interesse em aberto. A diferença face ao CME e à Deribit não é apenas de escala, é de transparência.
No CME, o posicionamento institucional só se conhece através do relatório COT (Commitment of Traders), publicado com vários dias de atraso. Na Hyperliquid, o livro de ordens, o funding e o interesse em aberto estão publicamente registados na blockchain, em tempo real. Isto cria uma assimetria curiosa: o mercado teoricamente menos regulado é o mais transparente, e o mais regulado é o que se lê com uma semana de atraso. Para quem estuda posicionamento, o on-chain oferece um sinal mais fresco, ao preço de uma alavancagem que o retalho europeu não deveria sequer conseguir alcançar por vias reguladas.
O reverso da transparência é a fragilidade. Quando as posições são todas visíveis, as zonas de liquidação também o são, e podem tornar-se alvos. Um mercado em que toda a gente vê onde estão os stops de toda a gente é um mercado onde as cascatas de liquidação são mais rápidas e mais previsíveis, não menos. É por isso que o posicionamento on-chain, apesar de mais legível, não é necessariamente mais seguro.
Funding, base e o custo de ter razão cedo demais
Há um custo silencioso em manter uma aposta direcionista aberta, e mede-se em duas métricas: o funding dos perpétuos e a base dos futuros. Ambas dizem-nos quanto se paga para estar posicionado, e ambas foram parte do que corroeu a aposta de julho.
O funding é o pagamento periódico que troca de mãos entre longos e curtos nos perpétuos para manter o contrato colado ao preço à vista. Quando o funding é positivo e elevado, os longos pagam aos curtos, sinal de que a alavancagem otimista está sobrelotada e cara de manter. A base, por seu lado, é o prémio dos futuros com data face ao spot. No início de agosto, a base trimestral anualizada tinha voltado a território claramente positivo, depois de ter estado perto de zero no final da primavera, um regresso gradual do apetite por carry, mas ainda longe dos prémios de dois dígitos de outrora.
Esta recuperação da base é o oposto do que se via meses antes, quando a arbitragem de base praticamente secou e chegou a inverter-se. Já contámos essa história em detalhe em a base dos futuros prevê o mercado?: uma base que sobe é sinal de confiança a regressar, mas também encarece o custo de manter posições longas alavancadas. Quem entrou nas calls de julho pagou prémio; quem financia longos em perpétuos paga funding; em ambos os casos, o tempo é um custo, e o adiamento para setembro estica esse custo por mais seis semanas.
Liquidações e o risco de pin em torno do vencimento
O lado mais violento do posicionamento são as liquidações. Quando uma posição alavancada fica sem margem, a bolsa fecha-a à força, vendendo (ou comprando) no mercado, o que empurra o preço ainda mais na mesma direção e desencadeia a liquidação seguinte. É o mecanismo por trás das quedas de vários milhares de dólares em minutos.
Perto de vencimentos grandes, junta-se outro fenómeno: o risco de pin. O preço tende a ser atraído para o max pain, o nível onde mais opções expiram sem valor, porque a cobertura de gamma dos market makers o empurra para aí. Com o max pain de setembro algures entre os 70.000 e os 75.000 dólares e o vencimento trimestral a 25 de setembro, a poucos dias do FOMC e do possível voto do CLARITY Act, a probabilidade de movimentos bruscos em torno dessas datas é elevada.
Convém, no entanto, resistir à tentação de ler causalidade a mais. Que o preço feche perto do max pain num dia de vencimento é frequente, mas não é uma lei física, e confundir correlação com manipulação é um erro comum. A mesma prudência se aplica às liquidações: um mapa de liquidação denso mostra onde o combustível está acumulado, não garante que vá arder. Como argumentámos em volume não é liquidez, muito do que parece profundidade de mercado evapora-se precisamente quando é mais preciso, e é nesses momentos que as cascatas de liquidação fazem o maior estrago.
O enquadramento em Portugal: CMVM, MiFID II e o teto de 2:1
Para o investidor de retalho em Portugal, há uma distinção regulatória que muda tudo e que raramente é explicada. Os derivados de cripto (futuros, perpétuos, opções) não caem sob o regulamento MiCA, que entrou plenamente em vigor com o fim do período transitório português a 1 de julho de 2026 e que cobre os criptoativos à vista e os prestadores de serviços (CASP). Os derivados são instrumentos financeiros ao abrigo da DMIF II (MiFID II), supervisionados pela CMVM enquanto autoridade de conduta de mercado, com o Banco de Portugal a tratar da vertente prudencial e das stablecoins.
A consequência prática é importante. A ESMA, o regulador europeu de mercados, esclareceu a 24 de fevereiro de 2026 que o nome comercial «perpetual futures» é irrelevante para a classificação: estes derivados alavancados de cripto enquadram-se nas medidas de intervenção sobre CFD ao abrigo da DMIF II, segundo o comunicado da ESMA. Isso significa que, para clientes de retalho na União Europeia, a alavancagem em CFD sobre criptoativos está limitada a 2:1, com aviso de risco obrigatório, proteção contra saldo negativo e fecho automático por margem.
Traduzindo: o trader português que use uma plataforma offshore com alavancagem de 50:1 ou 100:1 em perpétuos está a operar fora do perímetro de proteção que a CMVM e a ESMA desenharam. Não é ilegal deter a exposição, mas é um terreno onde as salvaguardas europeias não se aplicam, e onde as liquidações descritas atrás acontecem muito mais depressa. O posicionamento agressivo que move os gráficos da Deribit e da Hyperliquid vem, em boa parte, de contas a que o retalho europeu regulado nem sequer deveria ter acesso nesses moldes.
Como ler o posicionamento sem cair na armadilha do sinal
Fica então a pergunta prática: como usar tudo isto sem se enganar? A regra de ouro é nunca ler uma métrica isolada. O funding positivo não é otimista por si só; combinado com interesse em aberto a subir, pode sinalizar convicção genuína, mas combinado com preço estagnado, sinaliza sobrelotação prestes a desfazer-se. O max pain não é um destino garantido; é uma força de gravidade que compete com o fluxo de notícias.
Um segundo hábito saudável é distinguir posicionamento de baleias de posicionamento de multidão. Um único bloco de 20.000 calls, como o de julho, pode distorcer os agregados sem representar o sentimento do mercado. Já explicámos como separar o sinal do ruído em como ler as baleias sem cair no sinal falso: uma posição gigante é uma aposta, não uma profecia, e às vezes é precisamente a cobertura de outra posição que não vemos.
Por fim, ancore sempre o posicionamento no calendário. Foi a lição de julho e é a tese de setembro. As opções têm prazo; os catalisadores têm datas; e o mesmo posicionamento pode ser brilhante ou desastroso consoante o timing. Quem olhar para o mapa de setembro (FOMC a 16, cloture do CLARITY em torno da mesma altura, vencimento trimestral a 25) e cruzar essas datas com onde o gamma e as apostas estão concentrados terá uma leitura muito mais honesta do risco do que quem se limita a perguntar para onde vai o preço.
Julho ensinou que estar certo na estrutura não chega se o calendário falha. Setembro herdou a aposta e comprimiu os prazos. O posicionamento, como sempre, não diz o que vai acontecer; diz apenas quem vai sofrer mais se acontecer o contrário do esperado. E, desta vez, com três catalisadores empilhados numa janela de dez dias, há muito pouco espaço para voltar a errar o calendário.
Perguntas frequentes
O que é o posicionamento em derivados na cripto?
É a leitura das apostas registadas nos mercados de futuros e opções de criptoativos: onde está concentrada a exposição de traders e instituições, com que grau de alavancagem e o que precisa de acontecer para essas posições darem lucro. Analisa-se através de métricas como o interesse em aberto, as taxas de funding, os rácios put/call, o max pain e os mapas de liquidação. Não prevê o futuro; descreve a fragilidade e a convicção do presente.
Porque é que a aposta de opções de julho de 2026 falhou?
Porque dependia de um calendário que não se cumpriu. Um aglomerado de calls de 70.000 e 72.000 dólares, com cerca de 5 mil milhões de dólares em nocional, apostava que o CLARITY Act seria aprovado antes do fim do mês. A lei não passou, o Bitcoin liquidou o vencimento de 31 de julho perto dos 64.000 dólares e as calls de topo expiraram fora do dinheiro. A direção estava plausível, mas o gatilho não chegou a tempo.
O que acontece ao CLARITY Act em setembro de 2026?
O Senado dos EUA não votou a lei antes das férias de agosto e transferiu o processo para setembro. Com o regresso a 14 de setembro, a primeira votação de cloture pode ocorrer a 15 ou 16 de setembro. A lei precisa de 60 votos, o que exige pelo menos dez senadores Democratas, e permanecem por resolver questões de ética, rendimento de stablecoins e financiamento ilícito. O resultado é incerto.
O que é o max pain e porque importa em setembro?
O max pain é o preço a que o maior valor de opções expira sem valor, causando o máximo de perda ao conjunto dos compradores. A cobertura de gamma dos market makers tende a atrair o preço para esse nível perto dos vencimentos. Para o vencimento trimestral de 25 de setembro, o max pain situa-se entre os 70.000 e os 75.000 dólares consoante a bolsa, o que o torna uma zona a vigiar, sobretudo por coincidir com o FOMC e o possível voto do CLARITY Act.
Os derivados de cripto são regulados em Portugal?
Sim, mas não pelo MiCA. Os futuros, perpétuos e opções de cripto são instrumentos financeiros ao abrigo da DMIF II (MiFID II), supervisionados pela CMVM, enquanto o MiCA cobre apenas os criptoativos à vista e os prestadores de serviços. A ESMA classifica os perpétuos como CFD, o que limita a alavancagem de retalho a 2:1 na União Europeia. Plataformas offshore com alavancagem de 50:1 ou mais operam fora desse perímetro de proteção.
Por Liam Brennan, editor de mercados da HOGE Wire.