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● Markets

O fim do prémio: como ler uma tesouraria cripto em 2026

A Strategy vendeu bitcoin e mudou o nome ao seu modelo. Em 2026, o prémio das tesourarias cripto evaporou. Um guia para ler uma DAT quando o mNAV cai abaixo de 1.

O sinal que ninguém esperava da Strategy

Em julho de 2026, a Strategy (a empresa antes conhecida como MicroStrategy) fez algo que o seu presidente executivo tinha jurado nunca fazer: vendeu bitcoin. Foram 3.588 moedas, encaixadas por cerca de 216 milhões de dólares, perto de 185 milhões de euros, para pagar os dividendos das suas ações preferenciais, segundo um formulário 8-K entregue ao regulador norte-americano e noticiado pela imprensa especializada. Poucas semanas depois, a Forbes contabilizava mais de 105 milhões de dólares em vendas, parte delas abaixo do preço de custo.

Michael Saylor, o homem que transformou o lema «nunca vender» numa identidade, passou a descrever a Strategy não como uma tesouraria de bitcoin, mas como um «Digital Credit Framework»: uma estrutura de capital pensada para sustentar dívida e dividendos, com o bitcoin a servir de garantia em vez de simples reserva. A venda é minúscula perto das mais de 840 mil moedas que a empresa continua a deter. Como sinal, porém, é enorme.

Marca o fim de uma era. Durante quase dois anos, as chamadas tesourarias cripto funcionaram como máquinas de imprimir dinheiro: vendiam ações a um valor muito superior ao das moedas que guardavam e usavam o encaixe para comprar ainda mais cripto. Em 2026, esse prémio evaporou. Segundo dados da Capriole Investments citados pela DL News, cerca de uma em cada três destas empresas passou a valer em bolsa menos do que a cripto que tem em carteira. O motor que as fez crescer começou a trabalhar ao contrário.

Este texto é um guia para ler uma tesouraria cripto agora que o prémio desapareceu. Explica o que são, como funciona a métrica que decide tudo (o mNAV), por que razão o modelo se inverte quando esse número cai abaixo de 1, onde estão os riscos que não aparecem no anúncio de compra (dívida, dividendos, exclusão de índices) e o que separa as empresas que sobrevivem das que se tornam zombies cotados.

O que é, afinal, uma tesouraria cripto

O termo técnico é DAT, sigla inglesa para Digital Asset Treasury. Uma DAT é uma empresa cotada cuja principal razão de existir, do ponto de vista do investidor, é deter cripto no balanço. Não se confunde com uma empresa operacional que decide guardar uma fatia da tesouraria em bitcoin, como a Tesla ou a Block fizeram de forma parcial. Numa DAT pura, o ativo digital é o negócio: a empresa levanta capital nos mercados públicos, compra cripto e oferece as suas ações como um substituto alavancado da moeda.

O arquétipo é a Strategy, que a partir de 2020 trocou a rotina do software empresarial pela acumulação sistemática de bitcoin. O modelo revelou-se tão contagioso que, em meados de 2026, cerca de 200 empresas cotadas seguiam uma estratégia de acumulação de bitcoin, detendo em conjunto mais de 1,26 milhões de BTC, mais de 6% de toda a oferta em circulação. Depois do bitcoin, a moda alastrou ao Ethereum e à Solana, e trouxe consigo um novo argumento de venda que analisaremos adiante.

A pergunta óbvia é porque compraria alguém as ações em vez da moeda. Há três respostas. A primeira é a alavancagem: uma tesouraria que se financia com dívida oferece exposição amplificada aos movimentos do ativo, sobe mais na subida e cai mais na descida. A segunda é o acesso: muitos fundos, planos de reforma e mandatos institucionais não podem deter cripto diretamente, mas podem comprar ações cotadas em bolsa. A terceira, e a mais poderosa durante a euforia, era a promessa de crescimento da «cripto por ação», a ideia de que cada título passaria a estar coberto por cada vez mais bitcoin sem que o acionista fizesse nada.

mNAV: o número que decide tudo

A métrica que governa este universo chama-se mNAV, ou market net asset value. O cálculo é simples: divide-se a capitalização bolsista da empresa pelo valor de mercado da cripto que ela detém. Acima de 1 existe um prémio, ou seja, o mercado paga mais do que valem as moedas; abaixo de 1 existe um desconto, o mercado paga menos. É o indicador de saúde mais importante de uma tesouraria, porque toda a mecânica de criação de valor depende do lado da linha em que a empresa se encontra.

mNAVO que significaO que a empresa consegue fazer
Acima de 1,5xPrémio elevadoEmitir ações e comprar cripto aumenta muito a cripto por ação; a roda gira a todo o gás
Entre 1,0x e 1,5xPrémio moderadoEmitir ações ainda cria valor, mas cada ronda rende menos
Perto de 1,0xSem prémioEmitir ações deixa de ser vantajoso; a máquina de acumulação abranda
Abaixo de 1,0xDescontoEmitir ações passa a diluir a cripto por ação; recomprar ações é que cria valor
Muito abaixo de 1,0x, com dívidaZona de perigoRisco de venda forçada de cripto para servir dívida e dividendos
Como interpretar o mNAV de uma tesouraria cripto.

Há variantes que importam. O mNAV básico usa apenas a capitalização e o valor das moedas; o mNAV por valor da empresa (enterprise value) acrescenta a dívida líquida, dando uma leitura mais honesta das empresas alavancadas. A distinção deixou de ser académica: em meados de 2026, a Strategy negociava com um mNAV por valor da empresa perto de 1x, mas com uma leitura básica já claramente abaixo disso, um contraste que resume a tensão entre o balanço e a bolsa.

O mNAV é útil, mas não é infalível. Analistas da NYDIG alertaram que o rácio ignora o negócio operacional, os termos da dívida e o custo dos dividendos, e que duas empresas com o mesmo mNAV podem esconder perfis de risco radicalmente diferentes. Serve para saber se há prémio ou desconto, não para medir a fragilidade que está por baixo.

A máquina de acreção: como o prémio vira bitcoin por ação

Para perceber por que o prémio importa tanto, convém ver a mecânica a funcionar. Imagine-se uma tesouraria com 100 ações, cada uma coberta por um bitcoin, num total de 100 moedas. Se as ações negociarem com um prémio de 100% (um mNAV de 2x), cada ação vale em bolsa o equivalente a dois bitcoin. A empresa emite 100 novas ações, encaixa o correspondente a 200 bitcoin e compra 200 moedas. Passa a ter 300 bitcoin repartidos por 200 ações: 1,5 bitcoin por ação, contra 1 no início. Os acionistas antigos ficaram mais ricos em cripto sem terem movido um dedo.

É este o coração do modelo, o mecanismo a que o setor chama flywheel, a roda que se autoalimenta. Cada ronda de emissão acima do valor das moedas aumenta a cripto por ação, o que atrai mais investidores, o que sustenta o prémio, o que permite nova emissão. A ferramenta preferida é a oferta at-the-market (ATM), que deixa a empresa vender ações ao mercado de forma contínua, ao preço do dia, sem o aparato de uma colocação tradicional.

As empresas passaram a medir o seu sucesso não em euros, mas numa métrica própria, o rendimento em cripto, que capta o crescimento percentual da cripto por ação ao longo do tempo. A Forward Industries, a maior tesouraria de Solana, chegou a reportar um crescimento anualizado na ordem dos 36% na quantidade de SOL por ação graças a este tipo de emissões. Enquanto o prémio existe, é uma engenharia elegante. O problema, como toda a gente descobriu em 2026, é que a roda gira nos dois sentidos.

Quando o mNAV cai abaixo de 1: a roda ao contrário

Abaixo de 1x, a mesma operação destrói valor. Se as ações valerem menos do que as moedas que representam, emitir ações para comprar cripto passa a diluir a cripto por ação, exatamente o oposto do objetivo. A máquina de acumulação gripa. E, para uma empresa com dívida e dividendos a pagar, a situação pode agravar-se depressa: sem acesso a capital barato, resta vender as próprias moedas para cumprir obrigações, o que pressiona o preço do ativo, o que aprofunda o desconto, o que dificulta ainda mais a próxima emissão.

Foi este cenário que levou o antigo analista do Goldman Sachs Dom Kwok a falar num «spiral of doom», uma espiral de perdição, ao comentar as alterações às regras de diluição da Strategy, em declarações à DL News. Na mesma reportagem, Carlos Guzmán, da casa de investigação GSR, avisava que a queda dos mNAV podia persistir por «razões estruturais», e o analista James Check argumentava que a maioria das tesourarias não consegue manter um ritmo de acumulação suficiente para justificar qualquer prémio.

Nem toda a gente subscreve o alarme. André Dragosch, responsável de investigação para a Europa da Bitwise, defendeu na mesma peça que os riscos são «relativamente limitados», porque muitas destas empresas têm pouca ou nenhuma dívida e não são forçadas a vender. A distinção é decisiva: uma tesouraria sem dívida que negoceie abaixo do valor das moedas é apenas uma pechincha aborrecida para o investidor; uma tesouraria endividada na mesma situação é um problema. A resposta racional, quando o mNAV cai abaixo de 1, deixa de ser comprar cripto e passa a ser recomprar as próprias ações, o tema que explorámos em o flywheel ao contrário e a era das recompras.

Como se financia a máquina: ações, dívida e preferenciais

Uma tesouraria tem três torneiras de capital, e a escolha entre elas define o seu risco. A primeira são as ações ordinárias, sobretudo via ofertas ATM: é o financiamento mais seguro, porque não cria obrigações fixas, mas só funciona bem com prémio. A segunda é a dívida, tipicamente obrigações convertíveis com juro baixo ou nulo, que dão dinheiro hoje em troca de potencial diluição futura e de um vencimento que é preciso honrar. A terceira são as ações preferenciais, que pagam dividendos regulares e ocupam um lugar intermédio entre a dívida e o capital próprio.

A Strategy construiu uma verdadeira escada de instrumentos preferenciais, conhecidos pelos tickers STRC, STRF, STRD, STRE e STRK, cada um com a sua taxa de dividendo. No conjunto, geram obrigações que rondam os 1,5 mil milhões de dólares por ano. Enquanto o prémio permitia emitir ações a bom preço, pagar esses dividendos era trivial. Quando o prémio desapareceu, tornou-se a razão pela qual a empresa acabou por vender moedas. Comparámos em detalhe estas opções em ações ou dívida: como se financiam as tesourarias cripto.

A lição é que a estrutura de capital é destino. Duas empresas podem deter a mesma cripto e ter o mesmo mNAV, mas aquela que se financiou apenas com ações resiste a um inverno prolongado, enquanto a que se encheu de dívida e preferenciais tem um relógio a contar. Por isso o calendário de vencimentos, que muitos investidores ignoram, é tão importante quanto a quantidade de moedas anunciada nos comunicados.

Strategy: do «nunca vender» ao «Digital Credit Framework»

Nenhuma empresa ilustra melhor o ciclo completo do que a pioneira. A Strategy detém 840.447 bitcoin, comprados por cerca de 63,36 mil milhões de dólares (perto de 54 mil milhões de euros), o que dá um custo médio na ordem dos 75.400 dólares por moeda. Com o bitcoin a oscilar em torno dos 70.000 dólares, cerca de 60.000 euros, em meados de agosto de 2026, a maior tesouraria do mundo passou a ter a sua posição avaliada perto ou abaixo do que pagou por ela. O maior detentor empresarial de bitcoin está, no papel, no vermelho.

O mNAV da empresa conta a mesma história. No pico de euforia, em novembro de 2024, as ações chegaram a negociar a mais de três vezes o valor do bitcoin em carteira. Em meados de 2026, esse múltiplo tinha-se comprimido para perto de 1x na leitura por valor da empresa e para baixo de 1x na leitura básica. Sem prémio, a fonte de capital barato secou, e as contas dos dividendos deixaram de se pagar sozinhas.

A resposta de Saylor foi reveladora. Já na apresentação de resultados do primeiro trimestre tinha admitido que a empresa «provavelmente vai vender algum bitcoin para pagar um dividendo, só para inocular o mercado e passar a mensagem de que o fizemos», segundo o que foi noticiado. Em julho concretizou-o, com a maior alienação de bitcoin da história da empresa. E redesenhou a narrativa: a Strategy deixou de se apresentar como colecionadora de moedas para se descrever como uma máquina de crédito, em que o bitcoin é o colateral que sustenta uma pilha de dívida e dividendos.

Para os defensores, é maturação: a empresa está a transformar-se num emissor de crédito com lastro em bitcoin, um papel legítimo e potencialmente rentável. Para os críticos, é a confissão de que o modelo original, comprar e nunca vender, não sobrevive a um mNAV abaixo de 1. As duas leituras podem estar certas ao mesmo tempo.

O mapa das tesourarias em 2026

O universo é hoje muito mais vasto do que a Strategy. Do lado do bitcoin, a japonesa Metaplanet, liderada por Simon Gerovich, tornou-se a terceira maior tesouraria do mundo, com 43.000 bitcoin; como o seu custo médio de aquisição se situa bem acima do preço atual, é também um bom exemplo de tesouraria mergulhada no vermelho. Do lado do Ethereum e da Solana cresceu uma nova geração que junta à acumulação um argumento que o bitcoin não tem: rendimento de staking.

EmpresaTickerAtivoDetémValor aprox.Nota
StrategyMSTRBitcoin840.447 BTC~50 mil M€Maior do mundo; custo acima do preço
Metaplanet3350Bitcoin43.000 BTC~2,6 mil M€3.ª maior; sede no Japão
BitMine ImmersionBMNREthereum5.815.164 ETH~9,4 mil M€Maior de ETH; 4,8% da oferta
Forward IndustriesFORDSolana7,55 M SOL~480 M€Maior de SOL; quase tudo em staking
DeFi Development CorpDFDVSolana2,29 M SOL~150 M€Ex-Janover; opera validadores
Principais tesourarias cripto cotadas. Quantidades segundo os últimos dados públicos; valores de mercado aproximados a preços de agosto de 2026.

Somando tudo, cerca de 200 empresas cotadas detinham mais de 1,26 milhões de bitcoin em meados de 2026, além de milhões de ETH e SOL. É uma concentração que pesa na oferta e que examinámos em a conta da oferta: quem absorve o Bitcoin até dezembro. Quando estas carteiras compram, retiram moedas do mercado; quando são forçadas a vender, devolvem-nas todas ao mesmo tempo, e é aí que a concentração passa de trunfo a ameaça.

Ethereum e Solana: as tesourarias que rendem

A grande novidade de 2026 foi a ascensão das tesourarias de Ethereum. A líder é a BitMine Immersion, presidida por Tom Lee, o fundador da Fundstrat, que em agosto detinha mais de 5,8 milhões de ETH, cerca de 4,8% de toda a oferta em circulação, num valor a rondar os 11 mil milhões de dólares. A BitMine comprou ETH todas as semanas durante 58 semanas seguidas, incluindo enquanto o preço caía de quase 5.000 dólares em agosto de 2025 para menos de 2.000 no verão de 2026.

A tese de Lee é explícita: a próxima vaga de adoção da blockchain, argumenta, beneficiará o Ethereum e não o bitcoin. E há um trunfo mecânico que separa estas tesourarias das de bitcoin, o staking. Enquanto o bitcoin apenas se guarda, o ETH e a SOL podem ser colocados a validar a rede e a render juros nativos. Lee estima que a BitMine e a rival SharpLink Gaming, presidida pelo cofundador da Consensys Joseph Lubin, controlam juntas cerca de 7% da oferta de ETH e recolhem à volta de 500 milhões de dólares por ano em recompensas de staking. Quando Lee anunciou o objetivo de chegar a 5% da oferta, Lubin respondeu com um lacónico «Game On».

Na Solana, o padrão repete-se. A Forward Industries detém 7,55 milhões de SOL, quase todos em staking a render mais de 6% ao ano, enquanto a DeFi Development Corp, com mais de 2,29 milhões de SOL, antiga Janover reconvertida por antigos executivos da Kraken, acumula a moeda e opera os seus próprios validadores. Este rendimento nativo dá às tesourarias de ETH e SOL uma almofada que as de bitcoin não têm: mesmo com o mNAV abaixo de 1, o staking gera fluxo de caixa para pagar despesas sem tocar no principal. É uma diferença que ajuda a explicar por que o capital tem rodado do bitcoin para o Ethereum, um movimento que descrevemos em a oferta que encolhe: quem está a trancar o ETH em 2026.

O muro dos vencimentos: dívida, dividendos e o calendário

O risco mais subestimado de uma tesouraria não é o preço da cripto, é o calendário. Uma obrigação convertível emitida em euforia tem uma data de vencimento. Se, nesse dia, as ações negociarem abaixo do preço de conversão, os detentores exigem o reembolso em dinheiro em vez de aceitarem ações, e a empresa precisa de encontrar essa liquidez. Sem prémio para emitir ações novas, as opções reduzem-se a refinanciar em condições piores ou vender moedas.

Os dividendos das preferenciais funcionam como um muro contínuo, pago trimestre a trimestre, que não espera pelo bom tempo. Foi precisamente para os cobrir que a Strategy vendeu bitcoin. Por isso, ao avaliar uma tesouraria, o investidor atento olha para três datas antes de olhar para o preço: quando vencem as obrigações, quanto custam os dividendos por ano e quanto tempo a empresa aguenta a pagar essas contas sem aceder a capital novo.

Há aqui um paralelo instrutivo com as finanças tradicionais. Uma tesouraria muito endividada a negociar abaixo do valor dos ativos é, em essência, um fundo fechado alavancado a transacionar com desconto, uma estrutura que a história dos mercados conhece bem e que raramente termina de forma serena para quem chega tarde. A diferença é que o ativo subjacente, a cripto, se move com uma volatilidade que amplifica tanto o resgate como o colapso.

O risco estrutural: a ameaça de exclusão dos índices

Em outubro de 2025, um risco que quase ninguém tinha no radar materializou-se. A MSCI, uma das maiores fornecedoras de índices do mundo, abriu uma consulta para excluir dos seus índices de ações as empresas cujos ativos digitais representem 50% ou mais do balanço, tratando-as como veículos de investimento e não como empresas operacionais. O anúncio, feito a 10 desse mês, contribuiu para uma queda acentuada do mercado nesse dia, porque a exclusão retiraria dessas ações a procura automática dos fundos que replicam os índices.

A ameaça é séria porque grande parte da procura por estas ações vem, precisamente, de investidores passivos. Perder o lugar num índice como o MSCI ou o Russell significa perder compradores forçados. Não por acaso, a Forward Industries destaca no seu material a inclusão nos índices Russell 2000 e Russell 3000 como um ativo estratégico que lhe permite levantar capital quando as ações negoceiam com prémio.

Em janeiro de 2026, a MSCI recuou: decidiu não excluir as tesourarias por agora, e as ações da Strategy subiram cerca de 6% com a notícia. Mas o adiamento não é um perdão: o regulador dos índices remeteu a questão para uma consulta mais ampla sobre o tratamento das empresas não operacionais. A espada continua suspensa, e é um lembrete de que estas empresas dependem de regras que não controlam e que podem mudar de um dia para o outro.

Como ler uma tesouraria: a checklist do investidor

Reunindo tudo, avaliar uma tesouraria cripto exige olhar para muito mais do que a quantidade de moedas anunciada em comunicado. Antes de comprar, vale a pena percorrer uma lista de verificação:

  • mNAV: a ação negocia com prémio ou desconto face à cripto que detém? Acima ou abaixo de 1?
  • Dívida: existe dívida? Quando vence? A que preço de conversão?
  • Dividendos: quanto custam por ano as ações preferenciais e outras obrigações fixas?
  • Rendimento: o ativo faz staking (ETH, SOL) e gera fluxo, ou é inerte (bitcoin)?
  • Custo médio: a que preço foram compradas as moedas? A empresa está no vermelho?
  • Diluição: qual o ritmo de emissão de novas ações e o crescimento real da cripto por ação?
  • Índices: a ação está em índices relevantes e qual o risco de exclusão?
  • Gestão: a equipa comunica com transparência ou vende sobretudo narrativa?

Nenhum destes pontos, isolado, condena ou salva uma empresa. Em conjunto, distinguem uma tesouraria sólida de um veículo frágil disfarçado de aposta na cripto. E há um viés humano a vigiar: o culto em torno de fundadores carismáticos tende a inflacionar prémios muito para lá do que os balanços justificam, e é quando esse culto arrefece que o desconto aparece.

Europa e Portugal: o vazio regulatório e a CMVM

Para o investidor português e europeu, há uma camada adicional a considerar. O regulamento MiCA harmonizou as regras para emissores de criptoativos e prestadores de serviços na União Europeia, mas foi desenhado a pensar em exchanges, carteiras e stablecoins, não em empresas cotadas que enchem o balanço de cripto. Uma tesouraria cripto europeia é, antes de mais, uma empresa cotada como qualquer outra, sujeita às regras dos mercados de valores mobiliários.

Em Portugal, isso significa a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, a CMVM. Uma empresa nacional que decidisse converter-se em tesouraria de bitcoin ficaria sujeita às obrigações habituais de informação ao mercado, prospeto e divulgação de factos relevantes, mas não a um enquadramento específico para o risco de concentrar quase todo o ativo numa moeda volátil. Esse vazio é, precisamente, o mesmo que a MSCI tentou preencher pela via dos índices.

Na prática, a maioria dos europeus ganha exposição a este tema por duas vias: comprando ações estrangeiras como a MSTR ou a Metaplanet através de uma corretora, ou preferindo os produtos negociados em bolsa (ETP) sobre a própria cripto, que evitam o prémio e o risco de balanço de uma tesouraria. A escolha entre a ação de uma tesouraria e um ETP sobre bitcoin é, no fundo, a escolha entre pagar por alavancagem e narrativa ou por exposição limpa ao ativo.

O que vem a seguir: consolidação, não capitulação

A grande pergunta é o que acontece a cerca de 200 empresas quando o prémio que as criou desaparece. A resposta mais provável, defendida por vários analistas, não é um colapso em cascata, mas uma consolidação. Geoff Kendrick, responsável global de investigação de ativos digitais do Standard Chartered, considera que a compra de bitcoin por estas tesourarias está praticamente esgotada, porque as avaliações já não justificam expandir a exposição, e antecipa uma vaga de fusões e reorganizações em vez de vendas em pânico.

O raciocínio é lógico. Uma tesouraria sem dívida a negociar com desconto é um alvo de aquisição apetecível: comprá-la é uma forma de adquirir cripto abaixo do preço de mercado. As mais fortes, com balanços limpos e rendimento de staking, absorverão as mais fracas. As mais endividadas e sem prémio arriscam tornar-se zombies, cotadas mas incapazes de crescer, até que alguém as compre ou a dívida as force a liquidar. O bitcoin que hoje está imobilizado nestes balanços pode, nalguns casos, regressar ao mercado.

Para o setor cripto no seu conjunto, a implicação é que uma fonte de procura estrutural que dominou 2024 e 2025 se apagou. Com as tesourarias fora do jogo, o principal motor do preço volta a ser o fluxo dos ETF e o ciclo macro, uma transição que enquadrámos em cripto virou ativo macro. O prémio que transformou uma ideia de nicho num fenómeno de 200 empresas foi, afinal, a parte fácil. O difícil, gerir dívida e dividendos num ativo volátil sem a rede de segurança do prémio, é o que agora começa.

Perguntas frequentes

O que é uma tesouraria cripto (DAT)?

Uma tesouraria cripto, ou Digital Asset Treasury, é uma empresa cotada cuja principal função é deter criptomoedas no balanço, como bitcoin, Ethereum ou Solana. Levanta capital nos mercados públicos e usa-o para comprar cripto, oferecendo as suas ações como um substituto alavancado da moeda. A Strategy, antiga MicroStrategy, é o exemplo mais conhecido.

O que significa o mNAV de uma tesouraria cripto?

O mNAV (market net asset value) é a capitalização bolsista da empresa dividida pelo valor de mercado da cripto que ela detém. Acima de 1 significa que o mercado paga um prémio sobre as moedas; abaixo de 1 significa um desconto. É o indicador de saúde mais importante, porque o modelo de acumulação só cria valor quando o mNAV está acima de 1.

Porque é que a Strategy começou a vender bitcoin?

Apesar do lema «nunca vender», a Strategy vendeu bitcoin em 2026 para pagar os dividendos das suas ações preferenciais, que ascendem a cerca de 1,5 mil milhões de dólares por ano. Com o prémio das ações desaparecido, deixou de poder financiar essas obrigações emitindo ações novas a bom preço e recorreu à venda de moedas, algo que Michael Saylor tinha admitido que faria.

É melhor comprar ações de uma tesouraria ou o próprio bitcoin?

Depende do objetivo. As ações de uma tesouraria oferecem alavancagem e acesso através de contas de investimento tradicionais, mas trazem risco de balanço, dívida e um prémio que pode evaporar. Comprar bitcoin diretamente, ou através de um ETP, dá exposição mais limpa ao ativo. Quando o mNAV está abaixo de 1, a ação pode até estar mais barata do que a cripto que representa.

As tesourarias cripto podem falir e provocar vendas forçadas?

As mais endividadas, sim. Se uma tesouraria com dívida ou dividendos negociar muito abaixo do valor das moedas e não conseguir levantar capital novo, pode ser obrigada a vender cripto para cumprir obrigações, num efeito a que alguns analistas chamam spiral of doom. As tesourarias sem dívida correm menos risco, porque não têm um relógio a contar e podem esperar pela recuperação do preço.

Por Liam Brennan, editor de mercados da HOGE Wire.

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