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● Predictions & Forecasts

A oferta que encolhe: quem está a trancar o ETH em 2026

O ETH saltou perto de 20% num só dia. Por trás do movimento está uma oferta líquida cada vez mais fina: staking, tesourarias e ETF trancam moedas mais depressa do que a rede as emite.

Na tarde de 20 de agosto de 2026, o Ethereum fez algo que não fazia há semanas: saltou perto de 20% em 24 horas, da zona dos 1.850 a 1.950 dólares em que dormitava para lá dos 2.300, arrastando consigo uma cascata de cerca de 1,9 mil milhões de dólares em posições curtas liquidadas, segundo a CryptoTimes. Em euros, o ETH voltou a negociar acima dos 1.977, com uma capitalização de cerca de 238 mil milhões de euros, de acordo com a CoinGecko. A explicação fácil aponta para o costume: entradas nos ETF, otimismo regulatório e o Tesouro norte-americano a dobrar as recompras de dívida longa. A explicação mais interessante é outra, e é sobre oferta.

Um mercado só se move com esta violência quando há pouca coisa à venda. E, em 2026, há cada vez menos ETH disponível para vender. As moedas estão a ser retiradas de circulação por três aspiradores em simultâneo: o staking, as tesourarias cotadas em bolsa e os ETF à vista. Ao mesmo tempo, a emissão nova quase parou. O resultado é uma oferta líquida, aquilo a que os traders chamam o «float», que encolheu para mínimos de vários anos. Este artigo faz as contas a essa oferta: quem a está a trancar, quanto sobra realmente para transacionar e porque é que um float fino corta nos dois sentidos. É o reverso da conta da oferta que fizemos para o Bitcoin, agora aplicada ao segundo maior ativo da classe.

Oferta total, circulante e líquida: três números diferentes

Antes de discutir quem tranca o quê, convém separar três números que costumam ser confundidos. O primeiro é a oferta total: todo o ETH que existe. A ultrasound.money, que soma os saldos da camada de execução e da camada de consenso, coloca-a em cerca de 121,97 milhões de ETH. O segundo é a oferta em circulação, à volta de 120,68 milhões, o número que a CoinGecko usa para calcular a capitalização de mercado. A diferença entre os dois vem de convenções de contagem sobre depósitos e recompensas ainda não creditadas; para o investidor, a ordem de grandeza é a mesma.

O terceiro número é o único que verdadeiramente move o preço a curto prazo: a oferta líquida. Não interessa quantas moedas existem no papel, interessa quantas estão prontas a ser vendidas amanhã de manhã. Um ETH bloqueado num validador durante semanas, um ETH que a BitMine comprou e prometeu não vender, ou um ETH dentro de um ETF que só sai por resgate institucional, nenhum deles pressiona o mercado no dia a dia. A tese deste texto é simples: a oferta total praticamente não cresce, a oferta em circulação está estável, mas a oferta líquida está a ser drenada a um ritmo que a emissão nova não consegue repor. É essa terceira conta que explica a fragilidade do preço aos dois lados.

A emissão que quase parou

Comecemos pelo lado que injeta moedas novas, porque é o mais fraco dos dois pratos da balança. Desde a passagem para proof-of-stake, a rede emite ETH apenas para pagar aos validadores, algo na ordem dos 2.800 ETH por dia, ou perto de 0,8% ao ano em termos brutos. Contra isso joga a queima do EIP-1559, que retira das mãos de todos uma parte das comissões pagas em cada bloco. Entre setembro de 2022 e o início de 2024, a queima superou a emissão e o ETH tornou-se deflacionário, o período que deu origem ao slogan «ultrasound money».

Esse slogan deixou de descrever a realidade. A atualização Dencun, em 2024, e mais tarde a Fusaka, no final de 2025, empurraram a atividade para as redes de segunda camada, onde as comissões são uma fração das da mainnet. Menos atividade a pagar taxas caras na camada base significa menos queima. Hoje, a ultrasound.money mostra um crescimento anual da oferta próximo de zero, oscilando entre ligeiramente positivo e ligeiramente negativo consoante a semana. A deflação passou a ser episódica, dependente de picos de congestionamento que já quase não acontecem. Ainda assim, desde a introdução do EIP-1559, em agosto de 2021, foram queimados mais de 4,6 milhões de ETH, um montante que não volta a circular.

Existe até uma proposta para levar esta lógica ao extremo. O EIP-8361, apresentado no início de agosto por um grupo próximo da Ethereum Foundation, prevê queimar uma fatia crescente das recompensas dos validadores à medida que o staking sobe, chegando a zerar a emissão da camada de consenso quando o ETH em staking atingir cerca de 60 milhões de moedas. Mike Silagadze, presidente executivo da ether.fi, resumiu numa frase por que razão a oferta trancada raramente regressa ao mercado: «quem faz staking de ETH não o vende». A proposta perdeu o prazo de inclusão na próxima atualização e deverá escorregar para mais tarde, mas o sinal é claro: o consenso social da Ethereum caminha para emitir o menos possível. O prato da emissão está, para todos os efeitos práticos, quase vazio.

O staking como sorvedouro: 34% da oferta trancada

Se a emissão é o prato leve, o staking é o primeiro dos pesos que puxam a oferta líquida para baixo. Em meados de agosto de 2026, cerca de 41,41 milhões de ETH estavam bloqueados a validar a rede, o equivalente a 33,98% de toda a oferta, um máximo histórico, segundo dados compilados pela Coinpedia. Mais de um terço de todo o ETH que existe está, neste momento, comprometido com a segurança da rede em vez de estar numa exchange à espera de comprador.

O detalhe que confirma a pressão é a fila. A 17 de agosto, havia praticamente ninguém a querer sair (a fila de saída resumia-se a dois validadores), enquanto do lado da entrada esperavam cerca de 2,23 milhões de ETH, com um tempo de ativação a rondar os 39 dias. Por outras palavras: continua a entrar muito mais ETH em staking do que aquele que sai, apesar de as recompensas por validador estarem num mínimo de três anos, precisamente porque há tantos a partilhar o mesmo bolo de emissão. Quem entra em staking hoje aceita render menos em troca de deter um ativo que sabe estar a ficar escasso. Essa dinâmica de sorvedouro repete-se noutras cadeias, e a mecânica de rendimento e liquidez do staking líquido merece um artigo à parte, como fizemos ao dissecar o JitoSOL e os ETF de SOL na Solana. No caso da Ethereum, o efeito no float é direto: 41 milhões de moedas fora do mercado imediato.

Tesourarias de ETH: a BitMine e a alquimia dos 5%

O segundo aspirador é novo e cresceu com uma rapidez que apanhou o mercado de surpresa: as tesourarias de ativos digitais, ou DAT, empresas cotadas em bolsa que acumulam ETH como reserva estratégica, à imagem do que a MicroStrategy fez com o Bitcoin. Em agosto de 2026, a CoinGecko contava 34 empresas com um total de cerca de 7,83 milhões de ETH, avaliados em perto de 15,5 mil milhões de euros e equivalentes a 6,49% de toda a oferta, segundo o seu registo de tesourarias.

Uma empresa domina o quadro. A BitMine Immersion Technologies, presidida por Tom Lee, da Fundstrat, detém mais de 5,8 milhões de ETH, cerca de 4,8% de toda a oferta de Ethereum, depois de comprar praticamente todas as semanas desde que lançou a estratégia a 30 de junho de 2025, de acordo com a CoinDesk. A empresa apelida o objetivo de «alquimia dos 5%» e está a poucos pontos de o cumprir. Mais importante para a conta da oferta: a BitMine faz staking de cerca de 87% do que detém, mais de cinco milhões de ETH, que assim ficam duplamente trancados, na tesouraria e no protocolo, rendendo cerca de 250 milhões de dólares (mais de 200 milhões de euros) por ano.

Empresa (ticker)ETH detidoValor aprox.Nota
BitMine Immersion (BMNR)5.815.164~11,5 mil milhões €~4,8% da oferta; ~87% em staking; pres. Tom Lee
SharpLink Gaming (SBET)868.699~1,7 mil milhões €pres. Joseph Lubin, cofundador da Ethereum
The Ether Machine (ETHM)496.712~1,0 mil milhões €veículo dedicado a ETH
Bit Digital (BTBT)158.461~310 milhões €ex-minerador que rodou para ETH
Coinbase Global (COIN)150.193~300 milhões €reserva própria da exchange
Total (34 empresas)7.829.419~15,5 mil milhões €6,49% da oferta
Fonte: CoinGecko, tesourarias de Ethereum, agosto de 2026. Valores em euros calculados ao preço corrente.

A segunda maior é a SharpLink Gaming, presidida por Joseph Lubin, cofundador da Ethereum e responsável pela Consensys, com cerca de 869 mil ETH; tal como a BitMine, trata a tesouraria como um ativo produtivo, colocando ETH em staking em vez de o deixar parado. A mecânica de financiamento destas empresas, entre emissão de ações e dívida convertível, é um tema em si mesmo, que já destrinchámos ao explicar como se financiam as tesourarias cripto. Para a oferta, o que conta é o saldo: quase 8 milhões de ETH nas mãos de empresas que existem, literalmente, para não vender.

ETF à vista: o balde institucional

O terceiro aspirador tem porta larga e um público diferente: o investidor institucional que quer exposição a ETH sem tocar numa carteira. Os ETF de Ethereum à vista negociados nos Estados Unidos acumulam cerca de 12 mil milhões de dólares (perto de 10 mil milhões de euros) em ativos sob gestão, depois de atraírem à volta de 11,6 mil milhões de dólares em entradas líquidas desde o lançamento, segundo o rastreador da Datawallet. O iShares Ethereum Trust da BlackRock, sozinho, concentra mais de 6,5 mil milhões de dólares, quase metade de todo o dinheiro que entrou. Traduzido em moedas, e usando o preço corrente, estes fundos guardam qualquer coisa como cinco milhões de ETH em custódia (uma estimativa a partir dos ativos e do preço, não um número exato).

Há um pormenor que reforça o efeito de trancar. Depois de o regulador norte-americano ter clarificado, em março de 2026, que as recompensas de staking não são valores mobiliários, surgiram os primeiros ETF que fazem staking do ETH que detêm e distribuem o rendimento aos cotistas. Um ETF que faz staking é, ao mesmo tempo, procura institucional e mais uma moeda retirada da oferta líquida. E a porta de saída destes veículos é estreita: um cotista comum vende as suas ações do fundo em bolsa a outro investidor, sem que o ETF tenha de vender ETH; só um resgate no atacado, feito por um participante autorizado, devolve moedas ao mercado. Enquanto entram mais dólares do que saem, como aconteceu com os 189 milhões de dólares de entradas líquidas a 19 de agosto, o balde só enche.

As reservas nas exchanges: o verdadeiro float em mínimos

Se os três aspiradores são o lado da procura estrutural, as reservas nas exchanges são o retrato do que sobra para vender. É o número mais próximo do conceito de oferta líquida, porque uma moeda numa exchange é uma moeda a um clique de ser vendida. E esse número está em queda livre há anos. Do pico do mercado altista de 2021, perto de 35 milhões de ETH, as reservas agregadas caíram mais de metade. Em 2026 chegaram a rondar os 14,5 milhões de ETH, o valor mais baixo em cerca de oito anos, de acordo com dados da CryptoQuant citados pela CryptoTimes.

Vale a pena deixar assentar o que isto significa. De uma oferta em circulação de perto de 120,68 milhões de ETH, apenas algo como 12% está pousado em exchanges, pronto a ser transacionado num instante. Todo o resto está em staking, em tesourarias, em ETF, em autocustódia fria ou em contratos de DeFi. O mercado à vista que decide o preço de referência do ETH assenta, portanto, numa base surpreendentemente estreita. Quando aparece um comprador grande, ou quando uma vaga de vendedores em posições curtas é forçada a recomprar, essa base fina não amortece o choque; amplifica-o. Foi exatamente o que se viu a 20 de agosto.

A conta da oferta líquida: somar sem contar duas vezes

Chegados aqui, a tentação é somar tudo: 41 milhões em staking, mais 8 milhões em tesourarias, mais 5 milhões em ETF, e concluir que 54 milhões de ETH estão trancados. Seria errado, porque os baldes se sobrepõem. Os mais de cinco milhões de ETH que a BitMine tem em staking estão a ser contados ao mesmo tempo na fatia das tesourarias e na fatia do staking. Os ETF que fazem staking aparecem em dois sítios. Somar as fatias sem cuidado inflaciona a conta e destrói a credibilidade do argumento.

A forma honesta de olhar para isto é tratar cada fatia como uma lente sobre a mesma oferta, não como parcelas que se adicionam. O quadro seguinte mostra as quatro lentes com as respetivas percentagens da oferta em circulação, deixando claro que não somam 100% porque se cruzam.

Destino do ETHQuantidade aprox.% da oferta circulanteLiquidez
Em staking (protocolo)~41,41 milhões~34%Trancada; saída sujeita a fila
Em tesourarias cotadas (DAT)~7,83 milhões~6,5%Estratégica; ~87% da BitMine também em staking
Em ETF à vista (EUA)~5 milhões (est.)~4%Custodiada; saída só por resgate no atacado
Em reservas de exchanges~14,5 milhões~12%Líquida, pronta a vender
As fatias sobrepõem-se (por exemplo, o ETH das tesourarias em staking conta nas duas primeiras linhas), pelo que não são aditivas. O remanescente está em autocustódia, DeFi e carteiras inativas ou perdidas.

A leitura que resiste à sobreposição é esta: qualquer que seja a forma como se cortem os números, a única fatia verdadeiramente líquida, as reservas em exchanges, é pequena, ronda os 12% da oferta e está a encolher. As restantes fatias, todas elas «pegajosas», estão a crescer e a alimentar-se precisamente dessa fatia líquida. Cada ETH que a BitMine compra, ou que um ETF absorve, sai quase sempre de uma exchange e vai para custódia fria ou para staking. O aspirador puxa do mesmo sítio de onde os vendedores teriam de ir buscar moedas. É esse o aperto.

Reflexividade: um float fino corta nos dois sentidos

É aqui que a análise de oferta deixa de ser contabilidade e passa a ser dinâmica de preço. Num mercado com pouca oferta à vista, um mesmo fluxo de compra produz um movimento de preço muito maior. A subida de 20 de agosto ilustra-o na perfeição: não foi preciso um catalisador gigantesco, bastaram entradas nos ETF e um pano de fundo macro favorável para desencadear uma cascata de cerca de 1,9 mil milhões de dólares em posições curtas liquidadas. Cada liquidação de uma posição curta é uma ordem de compra forçada, e essas ordens tiveram de ser satisfeitas contra um livro de ofertas raso. Preço fino, movimento grande.

O problema da reflexividade é que a faca tem dois gumes. O mesmo float estreito que transforma um impulso de compra num salto de 20% pode transformar uma onda de vendas num tombo igualmente brutal. Quando poucas moedas seguram o preço marginal, a profundidade do mercado é ilusória: parece líquido enquanto ninguém tem pressa, e evapora-se no momento em que alguém tem. É por isso que analisar a oferta não serve para prometer que o ETH «só pode subir». Serve para explicar por que razão a volatilidade nos dois sentidos tende a aumentar à medida que a oferta líquida encolhe. A mecânica da alavancagem que alimenta estas cascatas, sobretudo nos mercados de futuros perpétuos, é um capítulo por si só: quando o preço à vista se move pouco por falta de oferta, os derivados alavancados amplificam tudo o resto.

Quando o flywheel anda para trás: mNAV e recompras

A parte mais frágil de toda esta arquitetura de absorção é aquela em que os investidores menos pensam: as tesourarias só continuam a comprar ETH enquanto o mercado lhes deixar. O motor de uma DAT funciona quando as suas ações negoceiam acima do valor do ETH que detém, o chamado prémio sobre o valor líquido dos ativos, ou mNAV. Com prémio, a empresa emite ações caras e compra ETH barato, aumentando o ETH por ação a cada ronda; é um flywheel que se auto-alimenta. Sem prémio, o motor gripa. Se as ações passarem a negociar abaixo do valor do ETH, a lógica inverte-se por completo: passa a fazer sentido vender ETH para recomprar as próprias ações subvalorizadas.

Não é hipótese de manual. Em agosto, a própria BitMine anunciou um programa de recompra de ações de mil milhões de dólares, uma decisão que irritou parte dos investidores que esperavam ver esse dinheiro em mais ETH. A empresa negoceia com um prémio de cerca de 35% sobre o valor das suas moedas, noticiou a DL News, o que torna a recompra estranha do ponto de vista do manual (recompra-se com desconto, não com prémio). Ceteris, investigador da Delphi Digital, foi direto ao classificar a medida como um «desenvolvimento bastante mau» que «trava o momentum» de acumulação. O ponto que interessa para a oferta não é se a BitMine acertou ou não: é que o maior comprador estrutural de ETH do mundo acabou de lembrar toda a gente de que o seu apetite não é uma constante da natureza. É uma função do preço da sua própria ação. Este risco de o motor andar para trás é o tema central do nosso artigo sobre o flywheel ao contrário e a era das recompras.

Vozes do mercado: da euforia estrutural ao ceticismo

Do lado otimista, ninguém personifica melhor a tese da procura estrutural do que Tom Lee. Para lá de presidir à BitMine, o fundador da Fundstrat chegou a projetar, em declarações à CoinDesk, um preço de longo prazo de 250.000 dólares por ETH, sustentado na ideia de que a tokenização de ativos reais em Wall Street e a ascensão dos agentes de inteligência artificial vão gerar uma procura sem precedentes pela infraestrutura da Ethereum. Numa tese destas, cada dólar que entra choca contra uma oferta líquida que encolhe, e o salto de preço é a consequência aritmética.

Do lado cético, a objeção não vem tanto da tecnologia como da engenharia financeira. O aviso de Ceteris sobre as recompras da BitMine aponta para o calcanhar de Aquiles do modelo: um edifício de absorção que depende de prémios de mercado para funcionar é, por definição, pró-cíclico. Compra quando os preços sobem, e pode ser forçado a parar, ou a vender, quando descem. E há ainda a leitura sóbria de Silagadze, da ether.fi: se é verdade que quem faz staking não vende, também é verdade que uma proposta como o EIP-8361, ao travar a entrada de novo ETH em staking, poderia um dia devolver ao mercado moedas que hoje estão trancadas. A oferta líquida não é um destino; é um equilíbrio que se pode mover.

O gatilho macro de agosto

Nenhuma análise de oferta explica sozinha o timing de uma subida. A faísca de 20 de agosto veio de fora da cripto. Na véspera, o Tesouro dos Estados Unidos anunciou que ia pelo menos duplicar as suas operações de recompra de dívida de longo prazo, de 2 mil milhões para pelo menos 4 mil milhões de dólares por operação, numa tentativa de aliviar a pressão sobre uma taxa a 30 anos que tinha tocado o valor mais alto desde 2007, segundo a CNBC. As taxas cederam de imediato, o apetite pelo risco melhorou, e os ativos mais sensíveis à liquidez, entre eles o ETH, foram os primeiros a reagir.

Este é o padrão que define a cripto em 2026: um ativo que respira ao ritmo das taxas de juro e da liquidez global, tema que desenvolvemos ao argumentar que a cripto virou um ativo macro. Mas o macro só explica a faísca, não a explosão. O mesmo estímulo, num mercado com uma oferta líquida gorda, teria produzido uma subida morna. Foi a combinação de um impulso macro com um float esquelético que transformou uma boa notícia sobre obrigações do Tesouro num salto de 20% no ETH. A oferta é o multiplicador; o macro é apenas o dedo no gatilho.

Portugal e a UE: MiCA, CMVM e a fiscalidade de trancar ETH

Para o investidor português, esta história tem duas traduções concretas: o enquadramento e o imposto. No plano regulatório, o período transitório do MiCA para os prestadores nacionais terminou a 1 de julho de 2026; a lei que o transpõe é a Lei n.º 69/2025, e cabe agora ao Banco de Portugal registar os prestadores de serviços de criptoativos e à CMVM supervisionar a conduta de mercado. A CMVM tem repetido, em avisos ao público, que os criptoativos são «ativos de alto risco», uma nota que faz sentido guardar quando se lê que o ETH saltou 20% num dia: o mesmo float fino que produz esses saltos produz também as quedas simétricas.

No plano fiscal, a diferença entre deter e trancar ETH é material. As recompensas de staking, o rendimento que a BitMine ou um ETF capturam e que um investidor português também pode capturar, são tratadas como rendimentos de capitais da categoria E, tributadas a 28% pelo valor de mercado no momento em que são recebidas. Já as mais-valias na venda seguem a regra dos 365 dias: ETH detido há menos de um ano é tributado a 28% no Anexo G, mas acima de um ano fica isento, no Anexo G1. A diretiva DAC8, em vigor desde 2026, obriga as plataformas a reportar automaticamente estes movimentos ao fisco, pelo que a era do anonimato fiscal terminou. Um último detalhe de contexto: com a taxa de depósito do Banco Central Europeu em torno de 2%, o custo de oportunidade em euros de deter um ativo que não paga juros é real; um ETH em staking a render perto de 3% bruto responde em parte a essa conta, mas os ETF europeus, ao contrário dos norte-americanos, são na maioria produtos sem staking, o que deixa o investidor de retalho da UE com menos formas de capturar esse rendimento.

Três cenários para a oferta até dezembro

Fazer previsões de preço é um desporto de risco; mapear cenários de oferta é mais útil, porque a oferta é observável em tempo real. O quadro seguinte resume três caminhos possíveis para a oferta líquida do ETH até ao final de 2026, cada um com o seu gatilho e a sua leitura para o preço.

CenárioGatilho principalEfeito na oferta líquidaLeitura para o preço
Aperto continua (base)ETF e tesourarias continuam a comprar; staking sobe; reservas em mínimosOferta líquida encolhe ainda maisMovimentos bruscos em alta a cada impulso de procura
Procura arrefeceEntradas nos ETF secam; prémio das DAT comprime; recompras substituem compras de ETHO fluxo de absorção estagnaPreço perde o suporte estrutural; deriva sem tendência
Oferta destrancaPrémio das DAT vira desconto (venda de ETH) ou a fila de saída do staking inchaETH regressa ao mercado à vistaPressão vendedora amplificada pelo mesmo float fino
Cenários ilustrativos, não previsões. A oferta líquida pode ser acompanhada em tempo real através das reservas em exchanges, das entradas nos ETF e do prémio das tesourarias.

O cenário base, hoje, é o do aperto que continua: enquanto os ETF captarem dinheiro, as tesourarias mantiverem o prémio e o staking crescer, a oferta líquida encolhe e o preço fica refém de impulsos de procura que se traduzem em saltos desproporcionados. O cenário de risco não é uma catástrofe tecnológica; é uma coisa muito mais prosaica, o dia em que o prémio das DAT desaparecer e o maior comprador estrutural do mercado se tornar, de repente, num vendedor. Nesse dia, o mesmo float fino que hoje projeta o preço para cima trabalhará no sentido inverso. Vigiar a oferta é, no fundo, vigiar quem tem o dedo no interruptor: as reservas em exchanges, as entradas nos ETF e o prémio das tesourarias são os três mostradores que dizem, em tempo real, se o aperto aperta ou afrouxa.

Perguntas frequentes

Quanto ETH existe e que percentagem está em staking em 2026?

A oferta total ronda os 121,97 milhões de ETH, segundo a ultrasound.money, e a oferta em circulação cerca de 120,68 milhões, segundo a CoinGecko. Em agosto de 2026, aproximadamente 41,41 milhões de ETH, perto de 34% da oferta, estavam bloqueados em staking, um máximo histórico. Mais de um terço de todo o ETH está, portanto, comprometido com a segurança da rede em vez de disponível para venda.

O que são as tesourarias de ETH (DAT) e quanto detêm?

São empresas cotadas em bolsa que acumulam ETH como ativo de reserva, à imagem das tesourarias de Bitcoin. Em agosto de 2026, 34 empresas detinham cerca de 7,83 milhões de ETH, o equivalente a 6,49% da oferta, de acordo com a CoinGecko. A maior é a BitMine Immersion, presidida por Tom Lee, com mais de 5,8 milhões de ETH, cerca de 4,8% de toda a oferta, dos quais faz staking de perto de 87%.

O Ethereum ainda é deflacionário e ultrasound money?

Já não de forma consistente. Desde a atualização Dencun, em 2024, a maior parte da atividade migrou para as redes de segunda camada e a queima na mainnet caiu, pelo que a emissão líquida voltou a ser ligeiramente positiva. A ultrasound.money mostra um crescimento anual da oferta próximo de zero, e a deflação passou a ser episódica, dependente de picos de comissões que hoje quase não ocorrem.

Porque é que as reservas de ETH nas exchanges estão tão baixas?

Porque o staking, as tesourarias cotadas e os ETF à vista retiram moedas do mercado mais depressa do que a rede as emite. As reservas em exchanges caíram para cerca de 14 a 15 milhões de ETH em 2026, mínimos de vários anos, segundo a CryptoQuant, contra perto de 35 milhões no pico de 2021. Isso deixa uma oferta líquida pequena e muito sensível a choques de procura, o que amplifica os movimentos de preço nos dois sentidos.

Como são tributados o staking e as mais-valias de ETH em Portugal?

As recompensas de staking são rendimentos de capitais da categoria E, tributadas a 28% pelo valor de mercado no momento da receção. Nas mais-valias vale a regra dos 365 dias: a venda de ETH detido há menos de um ano é tributada a 28% no Anexo G, enquanto acima de um ano fica isenta, no Anexo G1. A diretiva DAC8 obriga as plataformas a reportar estes movimentos desde 2026, e a CMVM classifica os criptoativos como ativos de alto risco.

Por Duarte Fonseca, redator sénior da HOGE Wire para mercados e infraestrutura de criptoativos.

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