Liquid staking na Solana: JitoSOL, MEV e os ETF de SOL
O liquid staking não fala só Ethereum. Na Solana, a Jito transformou o MEV em rendimento, a Sanctum multiplicou os LST e Wall Street chegou com ETF que fazem staking direto.
Enquanto o mercado passou a semana a olhar para a Ethereum, que teve a sua melhor semana do verão, a Solana fez o seu próprio movimento. O SOL subiu cerca de 6% em 24 horas, para 74,61 euros (86,93 dólares), com uma capitalização a rondar os 43,5 mil milhões de euros e uma queda de aproximadamente 70% face ao máximo histórico de 293,31 dólares em janeiro de 2025, segundo a CoinGecko. No mesmo período, o JitoSOL, o maior liquid staking token da rede, valorizou mais de 14% em sete dias, para 96,48 euros (112,40 dólares), de acordo com a CoinGecko. Por trás destes números está uma história que a imprensa em português quase não contou: o liquid staking deixou de ser um assunto exclusivamente da Ethereum.
Quando o staking líquido é explicado por cá, fica quase sempre no mundo da Ethereum, o de converter ETH bloqueado em capital produtivo através de tokens como o stETH da Lido. Mas existe um segundo mercado, com regras próprias, que corre sobre outra arquitetura, paga de outra maneira e acaba de ganhar uma porta de entrada em Wall Street. É o mercado da Solana, dominado pela Jito, pela Sanctum e pela veterana Marinade, e é um mercado onde o rendimento não vem só do protocolo: vem também do MEV.
Este artigo mapeia esse outro liquid staking. Porque é que a Solana precisa (menos) de tokens líquidos do que a Ethereum, quem são os protocolos que se disputam o mercado, de onde vem exatamente o rendimento e quanto dele é real, quais os riscos que a euforia esconde, e o que muda com a chegada dos ETF de SOL com staking e com a maior revisão de sempre do consenso da rede, o Alpenglow. No fim, o enquadramento que interessa a um investidor europeu: MiCA, CMVM e o fosso de acesso que separa quem investe em Lisboa de quem investe em Nova Iorque.
A Solana faz staking de outra maneira
Para perceber os LST da Solana, é preciso perceber primeiro como a rede trata o staking, porque quase tudo diverge da Ethereum. Na Ethereum, um validador exige 32 ETH (ou múltiplos, desde a Pectra), e entrar ou sair da fila de validação pode demorar semanas ou meses quando a procura aperta. Na Solana não há mínimo: qualquer quantidade de SOL pode ser delegada a um validador. O tempo, esse, é medido em épocas (epochs), períodos de cerca de 432.000 slots que duram aproximadamente dois dias, e a ativação ou desativação do stake só acontece nas fronteiras dessas épocas, como explica a Everstake.
Existe até uma espécie de fila de saída, mas curta: a rede limita a 25% do stake ativo a quantidade que pode ser desativada numa única época, o que em períodos de corrida às saídas empurra o levantamento para uma segunda época. Comparada com a fila da Ethereum, é um piscar de olhos. E é aqui que está o primeiro contraste importante. Na Ethereum, uma das grandes razões para comprar um LST no mercado aberto é contornar a fila de entrada; na Solana, essa fila mal existe. Se o LST não serve para saltar a fila, para que serve?
Serve para três coisas: liquidez imediata sem esperar a época, composição em DeFi (usar o token como colateral, em pools, em estratégias) e, sobretudo na Solana, captura de MEV. O apetite por staking na rede é enorme. Cerca de dois terços do SOL em circulação, mais de 400 milhões de moedas, está delegado, a maior taxa de participação entre as grandes redes de proof-of-stake, segundo a Datawallet. O paradoxo é que, com tanta gente a fazer staking, muito poucos usam a versão líquida.
stETH fala Ethereum, JitoSOL fala Solana
A diferença mais reveladora está na penetração dos tokens líquidos. Na Ethereum, os LST representam perto de um terço de todo o ETH em staking, e a Lido sozinha controla cerca de metade desse segmento. Na Solana, os LST são uma minoria: dependendo do agregador e da data, algo entre 14% e 18% do SOL em staking está em forma líquida, contra os cerca de 30% da Ethereum, como nota a Streamflow. Ou seja, a esmagadora maioria do staking na Solana continua a ser nativo, feito diretamente com um validador, sem token intermédio.
Isso significa duas coisas em simultâneo. Primeiro, que o mercado de liquid staking da Solana tem muito espaço para crescer se seguir a curva da Ethereum. Segundo, que a filosofia das duas redes é diferente: a Solana favorece a flexibilidade, a composição em DeFi e a participação massiva; a Ethereum favorece a descentralização dos validadores e um perímetro de segurança mais conservador. A tabela seguinte resume os dois mundos.
| Dimensão | Ethereum | Solana |
|---|---|---|
| Mínimo por validador | 32 ETH (ou múltiplos) | Sem mínimo (delegação) |
| Fila de entrada/saída | Semanas a meses | Cerca de 2 dias por época (limite de 25% por época) |
| SOL/ETH em staking | Cerca de um terço | Cerca de dois terços |
| Penetração de LST | Perto de 30% do staking | Cerca de 14% a 18% do staking |
| Líder de LST | Lido (stETH) | Jito (JitoSOL) |
| Modelo do token | Rebasing (stETH) ou taxa de câmbio (wstETH) | Taxa de câmbio (JitoSOL, mSOL) |
| Rendimento base | Cerca de 2,6% | Cerca de 5,5% a 6,5% |
| Fonte de yield extra | Taxas de prioridade e MEV via relays | MEV via Block Engine da Jito, embutido no LST |
O rendimento base mais alto da Solana explica-se pela emissão da rede, e voltaremos a esse ponto. Mas a linha que realmente distingue os dois ecossistemas é a última: na Solana, o MEV não é um extra que fica na mão de terceiros, é uma componente do rendimento que chega ao detentor do LST. E o protocolo que fez isso foi a Jito.
Jito, o rei que fez do MEV um rendimento
O JitoSOL foi, nas palavras da própria CoinGecko, a primeira LST da Solana a incluir recompensas de MEV. A ideia é simples de enunciar e difícil de replicar. A Jito opera o Block Engine, a infraestrutura que organiza as transações e captura as taxas de prioridade e as gorjetas de MEV (o valor que os traders pagam para ter as suas transações executadas primeiro) que, de outra forma, se perderiam ou ficariam com os validadores. Esse valor é depois redistribuído: uma parte para os detentores de JitoSOL, na forma de rendimento acrescido, e outra para a tesouraria da DAO, através da proposta JIP-24, como detalha a análise de tokenomics da Jito.
O resultado é que a Jito se tornou infraestrutura crítica. A esmagadora maioria do stake ativo da rede, mais de 90% segundo várias estimativas, corre em validadores que usam o cliente Jito-Solana, o que faz da empresa o principal condutor do fluxo de MEV da Solana. Esse corte de MEV historicamente acrescenta entre 50 e 150 pontos-base ao rendimento do JitoSOL face ao staking simples de SOL. Não é por acaso que este é o mesmo tipo de dinâmica que analisámos a propósito da guerra pela ordem de fluxo, o PFOF da cripto: quem controla a ordenação das transações controla um fluxo de receita que agora é partilhado com quem faz staking.
Em números atuais, o JitoSOL vale 96,48 euros (112,40 dólares), com uma capitalização perto de 745 milhões de euros (867 milhões de dólares) e cerca de 7,72 milhões de tokens em circulação, segundo a CoinGecko. Cada JitoSOL vale hoje cerca de 1,29 SOL, porque é um token de taxa de câmbio: não muda de quantidade na carteira, muda de valor à medida que acumula recompensas. Lucas Bruder, CEO da Jito Labs, tem defendido publicamente que a qualidade de execução da Solana já rivaliza com a das bolsas tradicionais, uma tese que apresentou no podcast Bankless; é essa execução de baixa latência que torna o MEV capturável e, no modelo da Jito, redistribuível.
A Jito é hoje mais do que um protocolo de staking. Depois de distribuir o token de governação JTO num dos maiores airdrops da Solana, a empresa expandiu-se para o trading e lançou em 2026 uma aplicação de negociação para consumidores, na sequência de uma ronda de financiamento de 50 milhões de dólares, segundo a Fortune. O sinal é claro: a captura de MEV deixou de ser um detalhe técnico do JitoSOL para se tornar a fundação de um negócio muito maior, que vai do staking à execução de ordens.
Sanctum e a tese do LST infinito
Se a Jito é a marca, a Sanctum é a cave onde muitas outras marcas assentam. A Sanctum resolveu um problema estrutural do liquid staking: cada novo LST precisa de liquidez própria para que os utilizadores possam sair sem perdas, e liquidez fragmentada é liquidez frágil. A resposta foi criar uma camada partilhada, uma reserva de unstake instantâneo e um router que permite trocar entre dezenas de LST diferentes. Na prática, qualquer validador, por mais pequeno, pode emitir o seu próprio LST e apoiar-se na infraestrutura da Sanctum para a liquidez. É o que a comunidade apelidou de tese do LST infinito.
O efeito agregado é notável. Somados, os LST de validador emitidos através da Sanctum formavam, em maio de 2026, a maior categoria isolada de liquid staking da Solana, com cerca de 1,33 mil milhões de dólares em TVL, segundo dados compilados pela Datawallet. O token índice da Sanctum, o INF, chega a oferecer rendimentos superiores aos LST individuais graças às receitas de taxas de troca da própria plataforma, ainda que com maior variabilidade, como a própria Sanctum descreve. A Sanctum representa a mesma lógica de desagregação que temos visto noutras camadas de DeFi: separar a marca do LST da infraestrutura que o sustenta.
Marinade, o pioneiro que virou para o nativo
Houve um tempo em que liquid staking na Solana era sinónimo de Marinade. O mSOL foi o token pioneiro e chegou a dominar o mercado. Depois veio a Jito, e a quota da Marinade no segmento de LST caiu de cerca de 60% para os 22% ao longo de um ano, de acordo com a leitura de mercado da Bankless. Em vez de insistir apenas no token líquido, a Marinade fez uma aposta estratégica diferente: o staking nativo.
O Marinade Native permite delegar SOL a um conjunto diversificado de validadores mantendo a autocustódia e sem risco de smart contract, com um mecanismo de Protected Staking Rewards que compensa o utilizador quando um validador tem mau desempenho. A jogada resultou: segundo o relatório State of Marinade da Messari, o TVL do staking nativo cresceu 21% num trimestre, para 5,3 milhões de SOL, ultrapassando pela primeira vez o próprio mSOL, e o produto institucional Marinade Select disparou 205% em cadeia, para 2,7 milhões de SOL. A Marinade deixou de ser sobretudo um emissor de LST para ser um gestor de infraestrutura de staking, com os institucionais como motor de crescimento.
O resto do mapa completa-se com dois nomes conhecidos: o bnSOL, o LST custodial da Binance, e o jupSOL, ligado ao agregador Jupiter. Ambos beneficiam da distribuição das respetivas plataformas, o que lhes dá escala sem precisarem de conquistar o utilizador de DeFi um a um.
O mapa do mercado em números
A fotografia seguinte usa dados de maio de 2026, quando o SOL negociava bem acima do preço atual, pelo que os valores em dólares estão hoje mais baixos por efeito de preço, não necessariamente por saída de capital. Serve para ordenar as forças, não para cravar uma casa decimal.
| LST | Emissor | Modelo | TVL (mai. 2026) | Traço distintivo |
|---|---|---|---|---|
| LST de validador | Sanctum | Infraestrutura partilhada | Cerca de 1,33 mil milhões USD | Maior categoria agregada; LST infinito |
| bnSOL | Binance | Custodial | Cerca de 1,07 mil milhões USD | Distribuição da maior exchange |
| JitoSOL | Jito | Taxa de câmbio | Cerca de 938 milhões USD | MEV embutido; mais integrações em DeFi |
| jupSOL | Jupiter | Taxa de câmbio | Cerca de 914 milhões USD | Ligado ao maior agregador de swaps |
| mSOL | Marinade | Taxa de câmbio | Cerca de 305 milhões USD | Pioneiro; foco desviado para o nativo |
Duas leituras saltam à vista. A primeira é a fragmentação: ao contrário da Ethereum, onde um único protocolo domina, na Solana o poder está repartido entre uma camada de infraestrutura (Sanctum), um custodiante de exchange (Binance) e o campeão de MEV (Jito). A segunda é que, somando tudo, o conjunto dos LST vale uma fração do staking nativo, o que confirma que a versão líquida ainda é minoritária nesta rede.
Porque é que tão poucos usam a versão líquida
A pergunta óbvia, depois de ver o mapa, é porque é que a versão líquida continua tão pequena numa rede onde dois terços das moedas estão em staking. A resposta tem três camadas. A primeira é técnica: como a fila de saída da Solana é curta, o staking nativo já oferece boa parte da liquidez que, na Ethereum, só um LST consegue dar, e quem não precisa de compor o token em DeFi tem pouco incentivo para assumir o risco de smart contract. A segunda é a custódia: uma fatia enorme do SOL em staking passa por exchanges e por soluções custodiais, que fazem o staking pelo utilizador sem lhe entregar um token negociável. A terceira é institucional: os grandes alocadores preferem, muitas vezes, staking nativo diversificado e com autocustódia a um LST exposto a um único contrato, uma procura que a P2P.org descreve no seu balanço do segundo trimestre de 2026 e que a Marinade capturou ao ver o produto nativo ultrapassar o mSOL. O reverso da medalha, para os protocolos de LST, é que o crescimento não está garantido: depende de convencer quem faz staking nativo de que a composição em DeFi e a captura de MEV compensam o risco adicional. É por isso que vários analistas veem na Solana espaço para duplicar ou triplicar a penetração de LST, se a rede seguir a curva que a Ethereum já percorreu.
De onde vem o rendimento (e quanto é real)
O rendimento nominal do staking de SOL ronda os 5,5% a 6,5% ao ano, segundo a Datawallet, e recuou ligeiramente ao longo de 2026, de cerca de 5,9% para perto de 5,5% no segundo trimestre, de acordo com a P2P.org. Mas esse número esconde três componentes muito diferentes.
- Emissão do protocolo. Uma boa parte da recompensa é SOL recém-criado. A Solana ainda tem inflação de emissão nos dígitos baixos, a diminuir gradualmente rumo a um piso de longo prazo perto de 1,5%. Isto é diluição: quem não faz staking perde poder relativo, quem faz apenas corre para se manter no mesmo sítio.
- Taxas de prioridade. O que os utilizadores pagam para serem processados mais depressa. É receita real, paga por procura real de blockspace.
- MEV. As gorjetas capturadas pelo Block Engine da Jito. Também é receita real, e é a componente que distingue o JitoSOL.
Para um investidor europeu há ainda uma camada por cima de tudo isto, a da moeda. O rendimento do staking é denominado em SOL, mas as despesas do dia a dia são em euros, pelo que um ganho de 5% ao ano em SOL pode evaporar-se se o par SOL/euro se mover contra o investidor, ou ampliar-se se se mover a favor. Juntando a volatilidade do próprio SOL, que caiu cerca de 70% desde o máximo de janeiro de 2025, percebe-se que o rendimento de staking é o prémio mais pequeno de uma equação dominada pelo preço do ativo. Quem faz staking está, antes de tudo, exposto ao SOL; o yield é o bónus, não a tese.
A distinção importa porque nem todo o rendimento é rendimento real. Como já discutimos a propósito da taxa de juro nativa da cripto, a única parte sustentável do yield é a que vem de receita (taxas, MEV), não da impressão de novas moedas. Descontada a inflação, o rendimento real do staking de SOL é bastante inferior ao número de montra. Não é surpresa que exista uma corrente, tanto na Solana como na Ethereum, a defender cortes na emissão para tornar o staking menos dependente de diluição, um debate que a CryptoSlate resumiu bem: Wall Street transformou o staking num dividendo, e agora as duas redes querem encolher a emissão que o financia.
O risco de depeg: a lição de dezembro de 2023
Um LST promete valer o SOL subjacente mais as recompensas acumuladas. Na prática, o preço no mercado secundário pode afastar-se desse valor teórico, e foi exatamente o que aconteceu em dezembro de 2023 com o mSOL. Um único endereço trocou cerca de 68.536 mSOL por SOL no mercado aberto, em nove transações ao longo de cerca de vinte minutos, e o rácio mSOL/SOL caiu de aproximadamente 1,14 para 1,01, uma perda de paridade (depeg) na ordem dos 15%, antes de recuperar no mesmo dia. O episódio desencadeou uma cascata de liquidações em vários protocolos e abriu um debate público entre plataformas de crédito como a MarginFi e a Solend sobre como cada uma tratava os oráculos e o risco, como documentou a Solana Compass.
A raiz do problema é estrutural. Um LST só é resgatável ao par pela via lenta (esperar a época, cerca de dois dias) ou pela reserva de unstake instantâneo do protocolo, que cobra uma comissão e tem profundidade limitada. Quando alguém quer sair depressa e em grande quantidade, resta o mercado secundário, e se a liquidez for pouca, o preço desloca-se. LST com baixa liquidez são muito mais vulneráveis a este efeito do que os líderes. Esta mecânica de contágio, em que a queda de um ativo dispara liquidações que fazem cair mais, é a mesma que dissecámos ao falar do negócio da autópsia forense na cripto: quando um LST tropeça, o dano raramente fica contido no próprio token.
Há formas de reduzir esta exposição. A mais direta é privilegiar LST com reservas de unstake instantâneo profundas e com liquidez funda face ao seu tamanho, precisamente o tipo de infraestrutura que a Sanctum tenta padronizar. A segunda é olhar para a diversificação do conjunto de validadores por trás do token, já que um LST ancorado num punhado de validadores herda o risco de slashing e de falha de cada um deles. A terceira, para quem usa o LST como colateral em DeFi, é perceber qual o oráculo que o protocolo de crédito utiliza para o preço do token, porque foi exatamente a divergência entre o oráculo e o preço de mercado que amplificou as liquidações de dezembro de 2023. O depeg raramente é o fim da história; costuma ser o gatilho.
A concentração que ninguém quer discutir
Na Ethereum, o grande receio de descentralização tem nome: a quota da Lido a aproximar-se de um terço de todo o staking, com as implicações que isso tem para a finalidade da rede. Na Solana, o receio equivalente é diferente mas não menor, e é sobre a Jito. Quando mais de 90% do stake ativo corre no mesmo cliente de software e o fluxo de MEV passa esmagadoramente por uma única infraestrutura, cria-se um ponto de concentração que é ao mesmo tempo técnico (um bug no cliente dominante afeta quase toda a rede) e económico (quem controla o Block Engine controla a distribuição do MEV).
Há atenuantes reais. O cliente Jito-Solana é código aberto, a redistribuição do MEV é governada por uma DAO, e o historial de interrupções da rede tem melhorado com cada atualização. Mas concentração é concentração, e um mercado de liquid staking saudável precisa de diversidade de clientes, de validadores e de emissores. A boa notícia, para quem valoriza a descentralização, é que a fragmentação entre Jito, Sanctum, Binance e Jupiter significa que o poder de emissão de LST está mais repartido do que na Ethereum, mesmo que o poder de infraestrutura de MEV esteja mais concentrado.
Wall Street chega ao staking da Solana
O acontecimento que verdadeiramente mudou o enquadramento do staking de SOL em 2026 não veio de DeFi, veio da bolsa. Em 2 de julho de 2025, o REX-Osprey SOL + Staking ETF (ticker SSK) tornou-se o primeiro fundo cotado nos Estados Unidos a oferecer exposição a SOL com recompensas de staking, detendo a maioria dos ativos em SOL diretamente em staking, cerca de 40% em produtos que fazem staking e uma pequena parte em JitoSOL, segundo a REX Shares. Foi a prova de conceito.
A escala chegou em outubro. A 28 de outubro de 2025, a Bitwise lançou o BSOL, o primeiro ETP spot de Solana nos Estados Unidos, com uma comissão de 0,20% e o compromisso de fazer staking de 100% do SOL do fundo através da sua solução on-chain apoiada na Helius, como anunciou a Bitwise. A estreia foi recorde. Eric Balchunas, analista sénior de ETF da Bloomberg Intelligence, classificou os 56 milhões de dólares de volume no primeiro dia como o maior arranque de qualquer fundo lançado nesse ano, sublinhando ainda que o BSOL tinha sido semeado com 220 milhões de dólares, em declarações citadas pela CoinDesk.
Seguiu-se uma enxurrada de produtos. A Helius contabiliza cerca de doze ETF spot de Solana entre lançados e em fila, vários com staking ativado, como mostra a tabela.
| ETF (ticker) | Emissor | Comissão | Staking |
|---|---|---|---|
| SSK | REX-Osprey | 0,75% | Sim (SOL direto e JitoSOL) |
| BSOL | Bitwise | 0,20% | Sim (100% via Helius) |
| GSOL | Grayscale | 0,35% | Sim |
| VSOL | VanEck | 0,30% | Sim |
| SOLC | Canary | 0,50% | Sim (via Marinade) |
| JitoSOL ETF | VanEck | A definir | Sim (indexado a JitoSOL) |
A procura acompanhou. Os ETF spot de SOL nos Estados Unidos encadearam mais de doze dias consecutivos de entradas líquidas até fevereiro de 2026 e passaram os 900 milhões de dólares acumulados no início de março, com nomes como a Goldman Sachs a declarar 108 milhões de dólares em posições, segundo a Helius. E as projeções são ambiciosas. Zach Pandl, diretor de research da Grayscale, previu que os ETF spot de SOL nos Estados Unidos podem absorver pelo menos 5% da oferta total de SOL num a dois anos, o equivalente a mais de 5 mil milhões de dólares em entradas, em declarações à DL News.
Este é o mesmo enredo que temos acompanhado de forma mais ampla ao ver a cripto a tornar-se um ativo macro: a bolsa embrulha um rendimento nativo (o staking) num invólucro regulado (o ETF) e vende-o como um dividendo. E, tal como no debate sobre quem absorve a oferta de Bitcoin, a questão que fica é de contabilidade de mercado: se os ETF tirarem 5% do SOL de circulação para o pôr em staking, o efeito no preço e na dinâmica de emissão não é neutro.
Alpenglow, o que muda para o staking
Por cima de tudo isto paira a maior revisão de sempre do consenso da Solana. Formalizado na proposta SIMD-0326 e aprovado pelos validadores em setembro de 2025 com cerca de 98% do stake a favor, o Alpenglow substitui os primitivos originais da rede (o Proof of History e o TowerBFT) por uma arquitetura nova, construída em torno de dois componentes chamados Votor e Rotor. O objetivo é agressivo: reduzir a finalidade de cerca de 12,8 segundos para perto de 150 milissegundos, segundo a Crypto Briefing.
Para quem faz staking, o Alpenglow importa por duas razões. Primeiro, muda a economia dos validadores, incluindo a forma como os custos de votação pesam nas contas, o que afeta sobretudo os validadores mais pequenos, precisamente os que a Sanctum ajuda a emitir LST. Segundo, uma finalidade quase instantânea torna os LST mais úteis em DeFi, porque reduz o risco temporal entre o staking e a composição do token. O calendário aponta para uma migração de mainnet no final de 2026, apelidada de Alpenswitch, depois de um cluster de teste comunitário lançado a 11 de maio de 2026, de acordo com a proposta original no fórum da Solana. É um daqueles casos em que a infraestrutura da rede e o produto financeiro (o LST) evoluem em conjunto.
Regulação: CMVM, MiCA e o abismo de acesso
Aqui a assimetria entre um investidor americano e um europeu é gritante. Nos Estados Unidos, foi uma clarificação regulatória que abriu a porta aos ETF com staking: em agosto de 2025, o pessoal da Divisão de Corporation Finance da SEC emitiu uma declaração a estender o entendimento de que certas atividades de staking, incluindo o liquid staking e os tokens de recibo que o representam, não constituem, por si só, uma transação de valores mobiliários, um documento disponível no site da SEC. A comissária Hester Peirce resumiu a filosofia numa frase que ficou conhecida, a de que prestar segurança a uma rede não é o mesmo que emitir um valor mobiliário. Sem essa clarificação, o BSOL e o SSK dificilmente teriam saído do papel.
Na União Europeia, o quadro é o MiCA, cujo período transitório para os prestadores de serviços de criptoativos portugueses termina a 1 de julho de 2026, com a supervisão a caber à CMVM na vertente de conduta de mercado e ao Banco de Portugal no registo de CASP e nos stablecoins. O MiCA não tem uma categoria de serviço dedicada ao staking: o staking custodial encaixa nos serviços de custódia e administração, enquanto a emissão descentralizada de um LST cai numa zona cinzenta de DeFi que o regulamento ainda não fecha. A CMVM, por seu lado, mantém o aviso de que os criptoativos são ativos de elevado risco.
E há o fosso de acesso. Os ETF de staking de SOL estão cotados nos Estados Unidos e, na prática, um investidor de retalho na União Europeia não os consegue comprar, por falta do documento de informação fundamental exigido por cá. Existem ETP de cripto sobre SOL no mercado europeu, mas a distribuição de recompensas de staking está condicionada pelas regras do MiCA. Sobra a via on-chain, fazer staking diretamente ou comprar um LST, com a nota fiscal que isso implica em Portugal: as recompensas de staking são, em regra, rendimentos de capitais da categoria E, tributados a 28% pelo valor de mercado no momento em que são recebidas, e as mais-valias na venda seguem a regra dos 365 dias, com a diretiva DAC8 já a impor reporte a partir de 2026. Por outras palavras, o europeu que quer o rendimento do staking de SOL na versão embrulhada em fundo fica a ver o comboio passar do outro lado do Atlântico.
Como escolher um LST na Solana
Para quem decide ir pela via on-chain, vale a pena um guião prático antes de escolher onde pôr o SOL a render.
- Profundidade de liquidez e TVL. Quanto maior e mais líquido o LST, menor o risco de perder valor ao sair em stress. Os líderes têm vantagem estrutural aqui.
- Modelo do token. A maioria dos LST da Solana (JitoSOL, mSOL) é de taxa de câmbio: acumulam valor no preço, não na quantidade. Perceba como e quando pode resgatar ao par.
- Inclui MEV? O JitoSOL inclui; muitos LST de validador não. Essa diferença explica boa parte do rendimento extra.
- Descentralização do conjunto de validadores. Um LST concentrado num só validador herda o risco desse validador. Prefira conjuntos diversificados.
- Reserva de unstake instantâneo. Existe? Qual a profundidade e a comissão? É a sua saída de emergência quando o mercado secundário seca.
- Integrações em DeFi e auditorias. Um LST muito usado como colateral tende a ser mais testado, mas também mais exposto a contágio em liquidações.
- Nativo contra líquido. Se não precisa de compor o token em DeFi, o staking nativo (por exemplo, o Marinade Native) elimina o risco de smart contract, ao custo da liquidez imediata.
- Custódia. Um LST de exchange como o bnSOL é custodial: ganha em comodidade, perde em autocustódia. Decida o que pesa mais para si.
O liquid staking da Solana é, no fundo, uma versão mais rápida, mais líquida e mais dependente de MEV do que o da Ethereum, com um mercado mais fragmentado do lado dos emissores e mais concentrado do lado da infraestrutura. Tem mais rendimento nominal, mais espaço para crescer e, agora, um carimbo de Wall Street. Também tem os riscos de sempre: diluição por emissão, depeg em stress e concentração num único cliente. Conhecer as três componentes do yield e as duas vias de saída é o que separa quem faz staking com olhos abertos de quem persegue um número de montra.
Frequently Asked Questions
O que é o JitoSOL e porque rende mais do que o staking normal de SOL?
O JitoSOL é o liquid staking token da Jito, o maior da Solana. Além das recompensas base de staking, capta gorjetas de MEV através do Block Engine da Jito e redistribui parte desse valor pelos detentores, o que historicamente acrescenta entre 50 e 150 pontos-base ao rendimento face ao staking simples. É um token de taxa de câmbio: um JitoSOL vale hoje cerca de 1,29 SOL, porque acumula valor no preço em vez de aumentar em quantidade.
O liquid staking na Solana é seguro?
Tem dois riscos principais. O risco de protocolo e de smart contract (uma falha no código do LST) e o risco de depeg, em que o preço no mercado secundário cai abaixo do par durante um período de stress, como aconteceu com o mSOL em dezembro de 2023. Um LST só é resgatável ao par pela via da época (cerca de dois dias) ou pela reserva de unstake instantâneo, com comissão; fora disso, depende da liquidez do mercado. Não está coberto por qualquer garantia de depósitos.
Qual a diferença entre staking nativo e liquid staking na Solana?
No staking nativo, o utilizador delega o SOL diretamente a um validador, mantém a autocustódia e não corre risco de smart contract, mas o SOL fica bloqueado (ativação e desativação só nas fronteiras de cada época, cerca de dois dias) e não é utilizável em DeFi. No liquid staking, recebe um token (o LST) que pode usar em DeFi e vender no mercado secundário a qualquer momento, em troca de assumir o risco do protocolo que o emite.
Posso investir em staking de Solana através de um ETF a partir de Portugal?
Os ETF de staking de SOL (como o BSOL ou o SSK) estão cotados nos Estados Unidos e, em regra, o investidor de retalho na União Europeia não os consegue comprar por falta do documento de informação fundamental exigido pelo MiCA. Existem ETP de cripto sobre SOL no mercado europeu, mas a distribuição de recompensas de staking é limitada. A alternativa é fazer staking on-chain, com as recompensas a serem tributadas em Portugal como rendimentos de capitais da categoria E, a 28% no momento em que são recebidas.
Quanto rende o staking de SOL em 2026?
O rendimento base ronda os 5,5% a 6,5% ao ano em termos nominais (recompensas de staking mais taxas de prioridade), e o JitoSOL acrescenta o MEV, tipicamente mais 0,5 a 1,5 pontos percentuais. Atenção, porém: parte da recompensa vem da emissão de novo SOL, ou seja, inflação, pelo que o rendimento real descontada essa diluição é inferior ao número de montra. Ao longo de 2026, a taxa recuou de cerca de 5,9% para perto de 5,5%.
Yuki Tanaka cobre DeFi, staking e infraestrutura on-chain para a HOGE Wire.