MEV: o PFOF da cripto e a guerra pela ordem de fluxo
A 30 de junho de 2026, a União Europeia proibiu o payment for order flow na bolsa. On-chain, o seu gémeo (o MEV) nunca esteve tão vivo, e a guerra pela ordem de fluxo mal começou.
A 30 de junho de 2026 entrou em vigor em toda a União Europeia uma proibição que quase nenhum investidor de retalho chegou a notar: nenhuma corretora pode continuar a ser paga por encaminhar as ordens dos seus clientes para um determinado intermediário. O chamado payment for order flow (PFOF), o motor silencioso por trás de uma década de corretagem «sem comissões», passou a ser ilegal para clientes de retalho ao abrigo do artigo 39.º-A do novo Regulamento dos Mercados de Instrumentos Financeiros (MiFIR).
No mesmo mês, do outro lado do espelho, o equivalente funcional do PFOF nunca esteve tão vivo. On-chain, o direito de decidir a ordem pela qual as transações entram num bloco vale dinheiro real, é vendido em leilão a cada doze segundos e não tem qualquer regulador a vigiá-lo. Esse valor tem um nome: MEV, ou maximal extractable value.
Este artigo não é o catálogo de estratégias de extração; esse trabalho já foi feito na nossa análise das estratégias de extração e defesa on-chain. Aqui interessa o dinheiro: quanto vale a ordem de fluxo, quem a captura hoje, porque é que a indústria está em guerra por ela e porque é que a Europa acabou de proibir a versão tradicional deste negócio sem tocar na versão cripto.
A ordem de fluxo é o ativo. Tudo o resto é detalhe.
Antes de falar de MEV é preciso perceber uma ideia que a finança tradicional aprendeu há décadas e que a cripto redescobriu à sua custa: a ordem de um cliente vale mais para quem a executa do que a comissão que o cliente paga por ela.
Quando alguém envia uma transação para trocar tokens numa exchange descentralizada, essa transação carrega informação. Revela uma intenção, um preço a que a pessoa está disposta a negociar e uma margem de tolerância ao deslize (slippage). Quem vê essa intenção antes de ela ser executada, e sobretudo quem decide em que posição ela entra no bloco, pode colocar-se à frente, atrás ou dos dois lados dela e extrair valor. A ordem de fluxo é, por isso, o verdadeiro ativo. A taxa que o protocolo cobra é quase um detalhe contabilístico ao lado do que se pode ganhar a ordenar essa mesma transação.
Um working paper recente de Antonio Lopez Hernandez, publicado no SSRN, quantifica esta assimetria de forma desconfortável: numa troca típica em DEX, a taxa visível do fornecedor de liquidez representa apenas 28% a 36% do custo total da operação. O resto (gás, deslize adverso, impacto de mercado e MEV) é implícito, invisível no ecrã, e é onde o dinheiro a sério muda de mãos. Para o utilizador, é uma taxa que paga sem nunca a ver discriminada.
PFOF: a mecânica que Bruxelas acabou de proibir
Na bolsa tradicional, o payment for order flow funciona assim: uma corretora de retalho (o exemplo clássico é a Robinhood, nos Estados Unidos) não cobra comissão ao cliente. Em vez disso, vende o fluxo das ordens dos seus clientes a um market maker grossista (a Citadel Securities é o nome incontornável), que paga pelo direito exclusivo de as executar. O market maker ganha na diferença entre a compra e a venda e devolve uma pequena «melhoria de preço» ao cliente. O cliente julga que negoceia de graça; na verdade, paga através de uma execução ligeiramente pior, repetida milhões de vezes.
O modelo ganhou notoriedade global durante o episódio da GameStop, em 2021, quando se percebeu até que ponto a corretora que dizia democratizar o investimento dependia, para sobreviver, de vender o fluxo dos seus utilizadores a um punhado de market makers. Foi essa dependência, e o conflito de interesses que ela cria, que levou o regulador europeu a concluir que o retalho estava a pagar um preço escondido por uma execução que julgava gratuita. A pergunta óbvia, para quem conhece cripto, é por que razão o mesmo raciocínio não se aplica ao MEV.
A Europa decidiu que este modelo é incompatível com o princípio da melhor execução. Ao abrigo do artigo 39.º-A do Regulamento (UE) 2024/791, que altera o MiFIR e entrou em vigor a 28 de março de 2024, nenhuma empresa de investimento que atue por conta de clientes de retalho pode receber qualquer pagamento, comissão ou benefício não monetário por encaminhar essas ordens para um determinado local de execução. Um período transitório permitiu que os Estados-membros isentassem empresas domésticas até 30 de junho de 2026; apenas a Alemanha ativou essa cláusula, e a sua exceção expirou nessa data, como recorda a cobertura do fim do regime. Desde então, corretoras que assentavam todo o modelo no PFOF (a Trade Republic e a Scalable Capital são os casos mais citados) tiveram de passar a financiar-se por spreads, comissões ou subscrições.
Em Portugal, a supervisão de conduta destas corretoras cabe à CMVM, que aplica as regras do MiFIR tal como vigoram no direito nacional. O princípio é simples: o regulador não quer que quem executa a sua ordem tenha um incentivo escondido para a encaminhar para onde lhe dá mais lucro, e não para onde lhe dá melhor preço. Guarde esta frase, porque ela é a chave de tudo o que se segue.
MEV é o PFOF da cripto, mas sem o cheque de volta
A analogia entre MEV e PFOF deixou de ser retórica e passou a ser objeto de estudo académico. O working paper de Lopez Hernandez chama-lhe diretamente «o PFOF da cripto»: em ambos os casos, um agente privilegiado extrai renda de fluxo de retalho pouco informado através do controlo da ordem de execução. Há, no entanto, uma diferença que corre contra o utilizador cripto.
No PFOF tradicional, o market maker é obrigado, na prática, a devolver alguma melhoria de preço ao cliente; era essa devolução parcial que a indústria usava para justificar o modelo. No MEV clássico, não há devolução nenhuma. O bot que faz um sandwich à sua transação fica com a totalidade do valor extraído, e o utilizador recebe zero. É PFOF sem o rebate, extração sem contrapartida. A tabela seguinte resume o paralelo.
| Dimensão | PFOF (bolsa tradicional) | MEV (on-chain) |
|---|---|---|
| O que se vende | O direito de executar a ordem do retalho | O direito de ordenar e inserir transações no bloco |
| Quem paga | O investidor, via pior execução | O utilizador, via deslize e sandwich |
| Quem recebe | Corretora e market maker grossista | Searcher, builder e validador |
| Rebate ao cliente | Melhoria de preço (parcial) | Historicamente nenhum; hoje via OFA |
| Transparência | Opaco, mas reportável ao regulador | Público na chain, mas pseudónimo |
| Regulação na UE | Proibido desde 30 de junho de 2026 | Fora do perímetro |
Foi precisamente esta ausência de devolução que abriu espaço a toda uma indústria nova, dedicada a fazer on-chain aquilo que o regulador europeu quer garantir off-chain: que parte do valor volte para quem origina a ordem.
A cadeia que transforma a sua transação em receita
Para perceber quem ganha o quê, é preciso seguir a transação desde o momento em que sai da carteira até ao momento em que fica gravada num bloco. A documentação da própria Ethereum descreve a cadeia com quatro papéis principais, a que se junta um quinto na ponta: o utilizador.
O searcher é o caçador: um bot que vasculha o mempool e o estado da chain à procura de oportunidades e as empacota num «bundle». O builder pega em bundles e transações e monta o bloco mais rentável possível. O relay serve de intermediário de confiança entre o builder e quem propõe o bloco, garantindo que ninguém rouba o trabalho do outro. E o proposer, o validador que naquele momento tem o direito de propor, escolhe o bloco que lhe paga o lance mais alto. O utilizador está no início de tudo e, durante anos, esteve também no fim: era quem pagava a conta.
| Ator | Função | Como captura valor | Concentração |
|---|---|---|---|
| Searcher | Deteta oportunidades e monta bundles | Arbitragem, liquidações, sandwich | Dezenas ativos, margens a tender para zero |
| Builder | Monta o bloco mais rentável | Fica com parte do MEV via leilão | 2 builders assinam mais de 85% dos blocos |
| Relay | Intermediário de confiança | Função de confiança, sem taxa direta | Cerca de dez relays relevantes |
| Proposer/validador | Propõe o bloco e recebe o lance | MEV-Boost paga-lhe o lance mais alto | Milhares, mas dependentes do MEV-Boost |
| Utilizador | Origina a transação | Pagava tudo; hoje pode reaver via OFA | Difuso |
O ponto crítico é este: em cada elo, alguém decide se fica com o valor ou se o repassa. E, historicamente, quase todo esse valor parava nos três primeiros elos, sem nunca chegar de volta ao utilizador que o gerou.
Quanto vale, afinal, o MEV
Medir o MEV é notoriamente difícil, porque grande parte dele acontece em transações privadas e porque cada painel usa uma metodologia diferente. Ainda assim, as ordens de grandeza são claras. O total acumulado de MEV extraído na Ethereum ao longo da sua história ultrapassa 1,2 mil milhões de dólares, segundo estimativas compiladas pela DEXTools, com os ataques de sandwich a representarem mais de metade desse valor. Painéis mais conservadores, como o da própria Flashbots, que só conta o mainnet da Ethereum, chegam a totais bem menores, o que dá a medida da incerteza. O que ninguém contesta é a escala: o ritmo anual continua a medir-se em centenas de milhões de dólares por rede.
Os dois grandes painéis do setor, o MEV-Explore da Flashbots e o da EigenPhi, usam definições diferentes do que conta como valor extraído, e é por isso que os seus totais divergem tanto. A EigenPhi, especializada em rastrear sandwiches, mostrou como esse tipo de ataque, outrora a fatia dominante da extração, foi perdendo peso à medida que a proteção se generalizou. O que parecia uma maré imparável tornou-se um jogo de gato e rato, em que cada nova defesa empurra os bots para transações e redes menos protegidas.
Houve, contudo, uma inflexão importante. Ao longo de 2025 e 2026, a extração via sandwich caiu de forma acentuada, à medida que mais utilizadores passaram a enviar as suas transações através de relays privados e ferramentas de proteção, retirando-as do mempool público onde os bots as caçavam. O MEV não desapareceu; migrou, sofisticou-se e, em boa parte, começou a ser redistribuído. É essa migração que define a fase atual.
Convém dar escala em euros. A um preço de cerca de 1.646 EUR por ETH (CoinGecko), cada ponto percentual de deslize evitado numa troca de dez mil euros são cem euros que ficam no bolso do utilizador em vez de irem parar a um bot. Multiplicado por milhões de transações, percebe-se porque é que a ordem de fluxo se tornou um campo de batalha.
A guerra pela ordem de fluxo
Se a ordem de fluxo é o ativo, então a pergunta que move a indústria é: quem controla a torneira? Um retrato de referência publicado pela Flashbots, o estudo Illuminating Ethereum’s Order Flow Landscape, mostra quão concentrada e disputada é essa torneira. Num mês de referência com cerca de 14 mil milhões de dólares de volume em DEX, a origem das ordens distribuía-se assim.
| Fonte | Tipo | Quota aproximada |
|---|---|---|
| Uniswap | Frontend | 29% do volume |
| 1inch | Agregador | 28% do volume |
| Maestro e Banana Gun | Bots de Telegram | 15% e 10% das transações |
| MetaMask e Coinbase Wallet | Carteiras | 11% e 7% dos utilizadores |
| SCP e Wintermute | Market makers | 75% do volume ETH/BTC |
Cada uma destas fontes é hoje um campo de batalha. As carteiras querem monetizar o fluxo que originam; os agregadores querem intermediá-lo; os builders querem exclusividade sobre ele. Porque quem tiver acesso privilegiado e exclusivo à ordem de fluxo consegue construir os blocos mais rentáveis e, com isso, dominar toda a cadeia a jusante. É a mesma lógica que fez da Citadel Securities um gigante no PFOF tradicional, agora replicada on-chain. O mesmo estudo nota que o número de searchers a competir por essas ordens ronda várias dezenas em cada plataforma de proteção, e que as suas margens tendem para zero com o tempo, um sinal de que a concorrência, quando existe, acaba por beneficiar o utilizador.
O detalhe que muda o jogo em 2026 é que as maiores fontes de ordem de fluxo já não são anónimas: são as carteiras. Quando uma carteira como a da Uniswap ou a MetaMask encaminha o fluxo de milhões de utilizadores, passa a ter poder negocial para exigir que o MEV dessas transações seja devolvido, ou para o vender ela própria em leilão. É a transposição quase perfeita do modelo da Robinhood para o mundo cripto, com uma diferença: aqui, a carteira pode escolher devolver o valor ao utilizador em vez de o vender ao maior licitador. Saber qual dos caminhos vai prevalecer, devolução ou revenda, é o verdadeiro campo de batalha comercial da DeFi neste momento.
Do assalto ao reembolso: os leilões de ordem de fluxo
A grande mudança dos últimos anos foi a passagem da extração pura para a redistribuição. O mecanismo chama-se leilão de ordem de fluxo (order flow auction, OFA) e a ideia é simples: em vez de deixar que os bots cacem a transação de graça no mempool público, o utilizador (ou a carteira, ou a app) leiloa o direito de a acompanhar e exige que uma parte do valor extraído lhe seja devolvida.
A Flashbots foi pioneira. Em fevereiro de 2023 propôs uma nova classe de intermediários, os «matchmakers», e semanas depois lançou o protocolo MEV-Share, que permite a utilizadores, carteiras e aplicações internalizar o MEV que as suas próprias transações criam, partilhando seletivamente informação com os searchers e ficando com uma fatia do lance, como noticiou a CoinDesk. O concorrente MEV Blocker, construído em torno da CoW Protocol, foi mais agressivo na devolução: reembolsa cerca de 90% do lance vencedor ao utilizador que originou a ordem, deixando os restantes 10% para o validador, segundo a documentação do próprio serviço.
A CoW Protocol leva a ideia mais longe com os chamados leilões em lote (batch auctions): em vez de executar cada ordem isoladamente, agrupa várias no mesmo lote e liquida-as todas ao mesmo preço de compensação, deixando a um conjunto de solvers a tarefa de encontrar a melhor rota. Como todas as ordens do lote partilham o mesmo preço, o sandwich deixa simplesmente de fazer sentido: não há uma ordem individual para cercar. É uma defesa estrutural, não um remendo, e ajuda a explicar por que boa parte do volume protegido migrou para este tipo de arquitetura.
Robert Miller, product lead da Flashbots, apresentou publicamente estes leilões como uma forma de os utilizadores reaverem o valor das suas próprias transações. A crítica que o próprio movimento reconhece é que os elementos off-chain que gerem estes leilões podem tornar-se, eles mesmos, um novo ponto de centralização. Por outras palavras, resolve-se o problema da extração e cria-se um problema de intermediação: exatamente o mesmo dilema que o PFOF trouxe à bolsa tradicional. A redistribuição do MEV ao utilizador é, no fundo, a resposta cripto à pergunta que o regulador europeu respondeu com uma proibição.
Os builders e o problema do novo intermediário
Se há um lugar onde o paralelo com a Citadel se torna quase literal, é na camada dos builders. Depois da transição da Ethereum para proof-of-stake, a construção de blocos separou-se da sua proposta (o modelo proposer-builder separation, PBS), e mais de 90% dos blocos passaram a ser construídos através do software MEV-Boost, num leilão de lances selados. O problema é que esse leilão é hoje ganho, na esmagadora maioria das vezes, pelos mesmos dois ou três construtores.
Em muitos dias, dois builders assinam mais de 85% de todos os blocos da Ethereum. A concentração não é acidente: quem tem acesso exclusivo à melhor ordem de fluxo consegue montar os blocos mais rentáveis, ganha mais leilões, atrai ainda mais fluxo exclusivo e reforça a vantagem. A vantagem alimenta-se a si própria até alguém a quebrar. Foi para quebrar essa dinâmica que nasceu a BuilderNet, lançada no final de 2024 pela Flashbots em conjunto com a Beaverbuild e a Nethermind: um construtor descentralizado, assente em hardware de execução confiável (TEE), que partilha o MEV e as taxas com os utilizadores em vez de as concentrar, como noticiou o The Block. No início de 2026 já construía cerca de um quarto de todos os blocos, o primeiro sinal sério de que a concentração pode ser revertida.
A concentração tem um custo político, além do económico. Quando meia dúzia de builders decide o conteúdo de quase todos os blocos, basta que apliquem uma lista de sanções para que certas transações deixem de ser incluídas, o problema de censura que assombrou a Ethereum depois das sanções ao Tornado Cash. Foi em parte para responder a isto que Vitalik Buterin insistiu, no seu plano, em mecanismos de inclusão forçada: se a rede não conseguir garantir que qualquer transação válida acaba por entrar num bloco, a neutralidade que a distingue de um intermediário tradicional fica em causa.
A camada de construção de blocos tornou-se, ela própria, uma indústria com receitas recorrentes, ao ponto de se ligar ao mercado de restaking, onde protocolos como a EigenLayer prometiam monetizar a segurança e a ordenação. Foi um entusiasmo que já conheceu o seu próprio recuo, quando a ether.fi se afastou da EigenLayer, um lembrete de que nem toda a promessa de monetizar o MEV se concretiza.
As apps querem o seu próprio MEV
A fronteira seguinte da guerra pela ordem de fluxo não está nos builders nem nos leilões: está dentro das próprias aplicações. A lógica é levar a decisão de ordenação para o nível da app, para que o MEV que a app gera volte para os seus utilizadores e fornecedores de liquidez, em vez de escapar para searchers e builders externos.
O projeto Angstrom, da Sorella Labs, usa os hooks da Uniswap V4 para criar um sequenciador específico da aplicação que devolve o MEV aos fornecedores de liquidez; a Unichain adota ordenação prioritária assente em TEE com o mesmo objetivo, segundo uma análise da Sei. A própria Uniswap avançou com a chamada UNIfication, um mecanismo que vende descontos temporários de taxa e queima as receitas, transformando parte do MEV numa fonte de valor para o token.
Esta é, no fundo, a mesma história que contámos a propósito do rendimento real e da grande compressão da DeFi para a taxa base: à medida que as emissões inflacionárias secam, protocolos e apps procuram receitas verdadeiras, e o MEV que antes fugia pela porta das traseiras é hoje uma dessas receitas a reconquistar. O fenómeno é ainda mais visível nas exchanges de perpétuos on-chain, onde o motor de ordenação é o próprio negócio, como analisámos na guerra que a Hyperliquid está a vencer. E nas redes de camada 2, onde um único sequenciador ordena todas as transações, a questão de quem fica com o MEV é ainda mais aguda, um tema que tratámos em detalhe na análise da taxa invisível das L2.
Solana joga o mesmo jogo com outras regras
Nem toda a cripto funciona como a Ethereum. A Solana não tem um mempool público global, o que muda por completo a mecânica do MEV. Na prática, mais de 90% do stake corre o cliente Jito-Solana, que introduz «bundles» e «tips»: os searchers pagam gorjetas para que as suas transações sejam incluídas numa ordem específica, e essas gorjetas são recicladas, em parte, através do token de staking líquido JitoSOL, como explica a Chainstack.
O modelo é diferente, mas o dilema é o mesmo. Em 2024, a Solana Foundation removeu mais de 30 validadores do seu programa de delegação por operarem mempools privados que facilitavam ataques de sandwich a utilizadores de retalho; Tim Garcia, responsável pelas relações com validadores, descreveu a decisão como definitiva, segundo o CryptoSlate. A um preço de cerca de 65,51 EUR por SOL (CoinGecko), e com o volume de retalho que a rede move, a tentação de extrair valor da ordem de fluxo é permanente, independentemente da arquitetura.
A floresta escura e os episódios que definiram 2026
Há um texto de 2020, assinado por Dan Robinson e Georgios Konstantopoulos, da Paradigm, que ficou como a metáfora fundadora deste mundo: «Ethereum is a Dark Forest». A ideia é que o mempool público é uma floresta escura onde predadores automáticos esperam por qualquer transação lucrativa e a devoram no instante em que ela aparece. Quem envia uma transação sem proteção está, literalmente, a acender uma luz nessa floresta.
Poucos episódios ilustraram isto melhor do que o de abril de 2026. O bot mais famoso do setor, conhecido como jaredfromsubway, fez um sandwich a uma transação de Vitalik Buterin. O cofundador da Ethereum trocou cerca de 4 dólares em tokens e o bot moveu à volta de 1,14 milhões de dólares em WETH para o cercar; no fim, por causa do tamanho irrisório da troca, o bot perdeu uns cêntimos na operação, como contou a CoinDesk. A ironia teve segundo ato: em junho de 2026, o próprio jaredfromsubway foi drenado de cerca de 7,5 milhões de dólares num exploit, prova de que a infraestrutura de MEV se tornou, ela mesma, uma superfície de ataque, segundo a mesma publicação.
O plano do Ethereum para domar o que criou
A Ethereum sabe que o MEV é, ao mesmo tempo, uma fonte de receita e uma ameaça à sua descentralização, e tem um plano para o domesticar. O próximo grande upgrade, conhecido como Glamsterdam e esperado para a segunda metade de 2026, traz como cabeça de cartaz o EIP-7732, que consagra uma versão «enshrined» da separação entre proposer e builder (ePBS), tirando parte do poder aos intermediários off-chain, segundo a EtherWorld.
Mas o próprio Vitalik Buterin veio avisar, num plano divulgado a 2 de março de 2026, que o ePBS por si só não chega: enquanto houver estado partilhado síncrono, alguma centralização na construção de blocos é inevitável. A sua proposta acrescenta o FOCIL (listas de inclusão geridas por comités aleatórios, para travar a censura), mempools encriptados e encaminhamento anonimizado, de modo a que nem os builders consigam ver o conteúdo das transações antes de as ordenarem, como noticiou a CoinDesk. Se os mempools encriptados funcionarem, boa parte do MEV extrativo simplesmente deixa de ser possível, porque ninguém consegue ler a transação que quereria cercar. É a solução mais radical de todas: não redistribuir o MEV, mas torná-lo tecnicamente impossível.
O vazio regulatório: a Europa baniu o PFOF, não o MEV
E chegamos ao paradoxo com que começámos. A União Europeia considerou o PFOF suficientemente lesivo para o proibir; no entanto, o seu gémeo on-chain permanece completamente fora do perímetro regulatório.
Em teoria, o MiCA tem um título dedicado ao abuso de mercado (o Título VI, artigos 86.º a 92.º, sobre informação privilegiada, divulgação ilícita e manipulação de mercado), e a CMVM, enquanto supervisor de conduta em Portugal, poderia atuar sobre um prestador de serviços de criptoativos (CASP) que fizesse front-running aos próprios clientes. O problema é que a esmagadora maioria do MEV não é feita por CASPs licenciados: é feita por bots anónimos, em DEXs sem dono, sobre transações pseudónimas. Não há entidade a notificar, não há licença a suspender, não há cliente identificável a ressarcir. O perímetro do MiCA, desenhado para intermediários, não alcança um mercado onde o intermediário foi substituído por código.
Este é o mesmo vazio que a CMVM, ao lado da AMF francesa e da FMA austríaca, tem tentado colmatar ao pedir uma supervisão europeia mais forte e uniforme dos grandes CASPs, com a hipótese de a ESMA passar a supervisionar diretamente os maiores. Mas mesmo essa reforma não resolveria o problema de fundo: um bot de sandwich não é um CASP. Com o fim do período transitório para os antigos VASP portugueses a 1 de julho de 2026 (ao abrigo da Lei n.º 69/2025), o mercado regulado ficou mais apertado; o mercado não regulado, esse, continua a operar à luz do dia, bloco a bloco. A ironia é difícil de ignorar: proibiu-se a versão transparente e reportável do problema e deixou-se em paz a versão opaca e automatizada.
O que o investidor português pode fazer hoje
Enquanto a regulação não alcança o MEV e a Ethereum não termina o seu plano, a defesa é responsabilidade de cada utilizador. Algumas práticas concretas reduzem muito a exposição.
- Usar um RPC privado ou um serviço de proteção (MEV Blocker, Flashbots Protect) que retire a transação do mempool público antes de a caçarem.
- Preferir agregadores e leilões em lote: a CoW Protocol executa em batches com preço uniforme, o que elimina o sandwich por construção.
- Definir limites de deslize (slippage) apertados; um limite generoso é um convite ao sandwich.
- Dividir ordens grandes e evitar negociar pares ilíquidos em momentos de alta volatilidade.
- Preferir carteiras e frontends que já devolvam o MEV via OFA, verificando se oferecem reembolsos.
Nenhuma destas medidas é perfeita, mas todas deslocam o equilíbrio a favor do utilizador. E, como vimos ao longo deste artigo, é exatamente esse o sentido da mudança: passar de um mundo em que a ordem de fluxo era pilhada de graça para um mundo em que ela é, pelo menos, disputada e parcialmente devolvida. O PFOF foi proibido; o MEV, esse, ainda vai ter de ser negociado, bloco a bloco, entre quem o extrai e quem o gera.
Perguntas Frequentes
O que é o MEV em palavras simples?
MEV (maximal extractable value) é o valor que se pode extrair ao escolher a ordem, a inclusão ou a exclusão de transações num bloco. Na prática, bots especializados reordenam ou cercam as transações dos utilizadores para capturar lucro, sobretudo através de arbitragem, liquidações e ataques de sandwich. É frequentemente descrito como uma taxa invisível que o utilizador paga sem a ver.
O MEV é o mesmo que payment for order flow?
São primos próximos. Tanto o MEV como o PFOF assentam em vender ou explorar o direito de executar a ordem de alguém, extraindo renda de fluxo de retalho pouco informado. A grande diferença é que no PFOF tradicional o cliente recebe alguma melhoria de preço, enquanto no MEV clássico não recebia nada, embora os leilões de ordem de fluxo estejam agora a mudar isso.
O MEV é ilegal em Portugal ou na União Europeia?
Não existe uma proibição direta do MEV. O MiCA prevê regras de abuso de mercado (Título VI) que a CMVM pode aplicar a prestadores de serviços de criptoativos licenciados, mas a maior parte do MEV é feita por bots anónimos em plataformas sem dono, fora do perímetro regulatório. É um contraste curioso com o PFOF, que a UE proibiu para o retalho a partir de 30 de junho de 2026.
Como me posso proteger de um ataque de sandwich?
As defesas mais eficazes são enviar as transações através de um RPC privado ou de um serviço de proteção como o MEV Blocker ou o Flashbots Protect, usar plataformas com leilões em lote como a CoW Protocol, definir limites de deslize apertados e evitar negociar pares ilíquidos em momentos de grande volatilidade.
Quanto dinheiro já foi extraído em MEV?
As estimativas variam consoante a metodologia. O total acumulado na Ethereum ultrapassa 1,2 mil milhões de dólares segundo a DEXTools, com os ataques de sandwich a representarem mais de metade; painéis mais conservadores, como o da Flashbots, apontam para valores bem menores só no mainnet. Em ritmo anual, fala-se de várias centenas de milhões de dólares por rede.
Por Mariana Osório, editora de mercados on-chain da HOGE Wire.