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● DeFi & On-chain

Perp DEX: a guerra on-chain que a Hyperliquid está a vencer

Os futuros perpétuos saíram das corretoras centralizadas e mudaram-se para a blockchain. Em 2026, a Hyperliquid engoliu quase todo o mercado, mas Aster, Lighter e a CMVM complicam a história.

Durante anos, negociar futuros perpétuos com alavancagem quis dizer uma coisa: abrir conta numa corretora centralizada, entregar-lhe os fundos e confiar que a casa jogava limpo. Em 2026, essa lógica virou-se do avesso. Só em julho, a Hyperliquid processou cerca de 218 mil milhões de dólares em volume de perpétuos, mais do que os outros sete maiores perp DEX somados (perto de 189 mil milhões), com a Aster, a segunda classificada, muito atrás, nos 43,6 mil milhões, segundo dados compilados pela CryptoRank e noticiados pela Blockchain Reporter.

Um perp DEX (abreviatura de perpetual decentralized exchange) é uma corretora de derivados que vive dentro de uma blockchain: o livro de ordens, a liquidação e a custódia acontecem em contratos inteligentes, sem uma empresa a guardar o dinheiro dos clientes. A categoria passou de curiosidade a infraestrutura. A fatia do volume de perpétuos que corre on-chain subiu de cerca de 2% no início de 2024 para mais de 10% em meados de 2026, e houve meses em que os perp DEX, sozinhos, ultrapassaram um bilião de dólares de volume.

Esta é a história de como isso aconteceu: quem ganhou, quem caiu, que desenhos técnicos se impuseram e porque é que um investidor de retalho em Portugal, tentado pela alavancagem de 1001x que alguns destes sítios anunciam, está a operar fora do perímetro de proteção que a CMVM e a ESMA construíram, ao longo de anos, para os CFD.

O que é um perp DEX (e porque não é a Binance)

Comecemos pelo produto. Um futuro perpétuo é um contrato que segue o preço à vista (o spot) de um ativo, mas nunca expira. Para o manter colado ao spot existe o funding, um pagamento periódico que muda de sentido conforme o preço do contrato esteja acima ou abaixo do mercado à vista: quando há mais compradores alavancados do que vendedores, os longs pagam aos shorts, e vice-versa. É esse mecanismo, e não uma data de vencimento, que ancora o perpétuo à realidade.

Numa corretora centralizada (uma CEX como a Binance ou a Bybit), tudo isto corre em servidores privados. A empresa guarda os fundos, cruza as ordens internamente, decide quando liquidar uma posição e mostra ao utilizador apenas o que quer mostrar. Num perp DEX, o utilizador mantém as suas próprias chaves (autocustódia), o livro de ordens e a liquidação são verificáveis na cadeia, e as regras estão escritas em código aberto. A troca é clara: ganha-se transparência e elimina-se o risco de a corretora desaparecer com o dinheiro, mas o utilizador carrega a sua própria segurança e não há um balcão de apoio para desfazer erros.

Essa diferença de transparência é, aliás, o argumento comercial central do líder do sector. Jeff Yan, cofundador da Hyperliquid, tem criticado publicamente a forma como as CEX escondem dados de liquidações; nota que, mesmo quando milhares de ordens de liquidação ocorrem no mesmo segundo, uma corretora centralizada pode reportar apenas uma. Num perp DEX, cada liquidação fica registada on-chain, à vista de todos.

De 2% a mais de 10%: a maré on-chain dos perpétuos

Os números explicam porque é que este tema deixou de ser marginal. No espaço de dois anos, o conjunto dos perp DEX passou de um nicho a um mercado que, em trimestres de pico, moveu mais do que todo o ano de 2024, e o volume mensal do sector chegou a cruzar a marca de um bilião de dólares.

A tendência estrutural é a que importa reter: segundo os dados compilados pela Blockchain Reporter, a quota dos perpétuos on-chain no mercado total de perpétuos (CEX mais DEX) subiu de cerca de 2% no início de 2024 para mais de 10% em meados de 2026. É uma migração lenta mas persistente de liquidez que, durante uma década, viveu quase toda em plataformas centralizadas offshore.

Nem tudo é linha reta. Em julho de 2026, o volume conjunto dos oito maiores perp DEX caiu cerca de 85 mil milhões de dólares face ao mês anterior, sinal de um mercado a arrefecer depois de um primeiro semestre febril. Mas foi precisamente nesse mês de retração que a Hyperliquid reforçou o domínio: os seus 218 mil milhões representaram mais de metade do volume dos oito maiores juntos. Quando a maré desce, vê-se quem estava a nadar sem calções, e a liquidez concentrou-se ainda mais no líder.

Hyperliquid: onze pessoas, zero capital de risco e quase todo o mercado

A Hyperliquid não é uma aplicação sobre outra blockchain; é a sua própria camada 1, desenhada de raiz para negociação. O consenso HyperBFT dá finalidade abaixo de um segundo e capacidade para centenas de milhares de ordens por segundo, o suficiente para correr um verdadeiro livro de ordens central (o HyperCore) inteiramente on-chain, com uma camada de contratos compatível com Ethereum (o HyperEVM) por cima. É essa arquitetura, e não um programa de incentivos, que sustenta a liderança: como o mês de julho voltou a mostrar, a Hyperliquid concentra hoje a larga maioria de todo o volume de perpétuos on-chain.

O mais notável é a estrutura por trás disto. Segundo um perfil publicado pela TechFlow, a Hyperliquid é gerida por uma equipa de onze pessoas, não aceitou uma ronda de capital de risco e gerou mais de 900 milhões de dólares de lucro em 2025. Yan, um antigo trader de alta frequência formado em Harvard, faz da recusa de investidores externos uma questão de princípio. Numa entrevista amplamente citada, resumiu a filosofia: «Se a Bitcoin tivesse feito uma ronda de capital de risco, sinceramente não creio que fosse a Bitcoin. Toda a sua proposta de valor teria sido destruída.»

A ambição declarada vai além dos perpétuos. Yan descreve a Hyperliquid como uma infraestrutura aberta capaz de albergar «toda a finança», onde equipas externas montam os seus próprios mercados sobre o mesmo protocolo, dos mercados de previsões às opções. É uma visão de sistema operativo financeiro, e é a chave para perceber o que a distingue de uma corretora tradicional.

Livro de ordens ou pool de liquidez: os dois modelos

Por baixo da marca, quase todos os perp DEX assentam num de dois desenhos, e a diferença entre eles determina quem lucra e quem arrisca. O primeiro é o livro de ordens central (CLOB), o modelo das corretoras clássicas trazido para a cadeia: compradores e vendedores colocam ordens que se cruzam, um oráculo externo define o preço de marcação e o funding, e a plataforma limita-se a emparelhar. Foi este modelo, executado com latência quase instantânea, que a Hyperliquid usou para vencer a corrida de 2026.

O segundo modelo é o peer-to-pool: não há livro de ordens. Um oráculo (Chainlink, Pyth) dita o preço e uma pool de liquidez partilhada fica automaticamente do outro lado de cada negócio. Os fornecedores de liquidez ganham comissões, mas assumem coletivamente o lucro ou o prejuízo dos traders. É o desenho da GMX e da Jupiter, útil para dar liquidez imediata a ativos de cauda longa, com a contrapartida de expor os depositantes a perdas quando os traders acertam em cheio.

ModeloComo forma o preçoQuem fica do outro ladoPontos fortesExemplos
Livro de ordens (CLOB)Ordens cruzam-se; um oráculo define marcação e fundingOutros traders (makers e takers)Spreads apertados, execução profissional, escalaHyperliquid, dYdX, Aster, Lighter, edgeX, Paradex
Peer-to-pool (oráculo)Um oráculo externo dita o preço; sem livro de ordensUma pool de liquidez partilhada (LPs)Liquidez imediata para ativos de cauda longaGMX, Jupiter (JLP), gTrade
HíbridoEmparelhamento fora da cadeia, liquidação on-chainOutros traders, com um operador a emparelharLatência baixa com liquidação verificávelEVEDEX e várias L2/L3

HLP e as recompras: como o dinheiro entra e volta em HYPE

A peça que torna a Hyperliquid uma máquina financeira, e não apenas um software, chama-se HLP (Hyperliquidity Provider). É um cofre de market-making comunitário: qualquer pessoa deposita capital, o cofre fornece liquidez ao livro de ordens e absorve liquidações, e os depositantes partilham os ganhos e as perdas. Em março de 2025, o HLP absorveu milhões de dólares num único evento de liquidação sem acionar perdas socializadas, um teste de stress que a plataforma gosta de exibir.

Do lado da receita, os números aproximam a Hyperliquid de uma corretora rentável mais do que de um projeto DeFi típico. As comissões de negociação rendem, todos os meses, dezenas de milhões de dólares, o que se traduz em centenas de milhões anualizados, e uma parte substancial desse fluxo é usada para recomprar o token HYPE no mercado, num programa de recompras que já soma centenas de milhões de dólares. É aqui que os perp DEX tocam o debate mais amplo sobre rendimento real na DeFi: em vez de imprimir tokens para subornar liquidez, a Hyperliquid devolve dinheiro real, gerado por comissões reais, aos detentores. Hoje o HYPE vale cerca de 49,19 euros, para uma capitalização perto dos 12,7 mil milhões de dólares.

A crítica, que os próprios analistas reconhecem, é que a atividade não garante valor para o token: enquanto os traders continuam a preferir a Hyperliquid, fica por provar se o domínio de mercado se traduz, de forma duradoura, em retorno para quem detém HYPE.

Aster: a aposta de CZ e a sombra do wash trading

Se a Hyperliquid é o campeão instalado, a Aster foi o desafiante mais barulhento. Nascida da fusão da Astherus com a APX Finance, é multicadeia (BNB Chain, Ethereum, Solana e Arbitrum), oferece dois modos de negociação e chega a anunciar alavancagem até 1001x. O que a catapultou foi o apoio do ecossistema em torno de Changpeng Zhao (CZ) e da antiga Binance Labs, hoje YZi Labs. Após o evento de geração do token, a 17 de setembro de 2025, o ASTER disparou milhares de pontos percentuais numa só semana.

O problema é distinguir o entusiasmo genuíno do artificial. No pico de outubro de 2025, o rácio entre o volume declarado da Aster e o capital efetivamente bloqueado disparou para muito acima do intervalo considerado saudável, um sinal clássico de wash trading. Volume não é o mesmo que liquidez, um ponto que já explorámos ao analisar quem decide o preço do Bitcoin: dez negócios do mesmo ator entre duas carteiras suas inflacionam a estatística sem criar profundidade real.

Consciente de que os incentivos não sustentavam a festa, a Aster reformulou a economia do token: passou a um modelo de emissões só por staking, cortando os desbloqueios mensais em 97%, segundo o The Block. Diversificou também para perpétuos sobre ações tokenizadas (Apple, Tesla, Samsung, SK Hynix). Ainda assim, em julho de 2026 os seus 43,6 mil milhões de volume ficaram a uma distância enorme do líder, e o ASTER negoceia perto de 0,52 euros, bem abaixo do máximo histórico.

Lighter, dYdX e a morte do modelo pontos-para-airdrop

A Lighter foi a estrela seguinte: um perp DEX assente em tecnologia de conhecimento-zero (zk), com um modelo praticamente sem comissões para o retalho e um cofre de liquidez próprio. Antes do token, acumulou dezenas de mil milhões em volume graças a uma campanha de pontos. Depois do evento de geração do token, a 30 de dezembro de 2025, o volume desabou drasticamente, o padrão que se repete sempre que os incentivos param.

Foi essa dinâmica que Stephan Lutz, presidente executivo da BitMEX, sintetizou no Token2049: os incentivos em tokens funcionam como publicidade paga, geram picos de atividade, mas raramente sustentam um compromisso de risco a longo prazo, notou, em declarações recolhidas pela CoinDesk. Em janeiro de 2026, a Hyperliquid já detinha cerca de 9,57 mil milhões de dólares em posições em aberto, mais do que a Aster, a Lighter e vários rivais somados, o que sugere que os traders parqueiam ali risco a sério, não apenas caçam recompensas.

O caso mais melancólico é o da dYdX, que inventou a categoria. Em 2023 chegou a controlar a maior parte do mercado de perpétuos on-chain; em 2026 está reduzida a uma fatia residual, com um volume diário na casa das centenas de milhões. A dYdX v4 corre na sua própria cadeia (construída com o Cosmos, operada por mais de 60 validadores independentes) e é, tecnicamente, das mais descentralizadas, mas isso não bastou. O token DYDX vale hoje cerca de 0,096 euros, para uma capitalização de menos de 100 milhões de dólares. A lição de 2026 é dura: o mercado deixou de premiar TVL temporário e passou a premiar fossos técnicos e a fidelidade dos utilizadores.

A frente de Solana: Jupiter, Drift e o susto dos 280 milhões

A guerra dos perpétuos não se joga só na Hyperliquid. Em Solana existe um ecossistema próprio, dominado por dois nomes que usam o modelo por pool. A Jupiter processou centenas de mil milhões de dólares em volume de perpétuos em 2025, apoiada na sua pool JLP, a mais profunda da rede. A Drift moveu dezenas de mil milhões no mesmo ano, e uma recém-chegada, a Pacifica, cresceu depressa o suficiente para lhes disputar o topo diário. A veterana GMX, referência do desenho por pool em Arbitrum e Avalanche, também desembarcou em Solana.

Mas Solana serviu igualmente o aviso mais brutal do ano. A 1 de abril de 2026, a Drift foi drenada em cerca de 280 milhões de dólares, não por uma falha no motor de negociação, mas através de um ataque de engenharia social à sua carteira multisig de 2 em 5, segundo o The Block. O atacante converteu o produto do roubo em USDC através da própria Jupiter e depois em ETH.

O episódio recorda que, num perp DEX, o risco não vive apenas na alavancagem. Vive nas chaves de administração, nos oráculos, nas pontes e nas multisig que controlam o protocolo. Um contrato inteligente pode ser impecável e o dinheiro sair na mesma pela porta das traseiras, se as pessoas certas forem enganadas.

HIP-3: os mercados que qualquer pessoa pode criar

A visão de Yan, a de uma infraestrutura aberta, ganhou forma concreta no HIP-3, o mecanismo que permite a qualquer equipa lançar o seu próprio mercado de perpétuos sobre a Hyperliquid. Basta bloquear 500.000 HYPE como garantia (passível de penalização) e fornecer o oráculo, e o operador passa a controlar as margens, o colateral e as comissões desse mercado. Deixou de ser preciso pedir licença a uma corretora para listar um ativo.

O resultado foram mercados que nenhuma CEX ofereceria: perpétuos sobre a SpaceX antes da entrada em bolsa, sobre índices, matérias-primas e ações pré-IPO. Explorámos essa fronteira em detalhe no artigo sobre a fronteira on-chain que vai da SpaceX à OpenAI, e a conclusão mantém-se: o poder de criar um mercado sem autorização é revolucionário, mas concentra riscos novos. Grande parte do interesse em aberto destes mercados-satélite fica nas mãos de um único operador, e é esse operador, não um regulador nem uma bolsa, que define o oráculo de que depende toda a liquidação. Descentralização na base, centralização na ponta.

O caso JELLY e os limites da descentralização

Nenhum episódio expôs melhor essa tensão do que o caso JELLY. A 26 de março de 2025, um trader manipulou o preço da memecoin JELLYJELLY, empilhando posições contrárias para forçar o cofre HLP a uma perda potencial de milhões. A resposta da Hyperliquid foi drástica: o conjunto de validadores reuniu-se e votou a retirada dos perpétuos de JELLY, fechando o mercado a um preço favorável ao cofre e prometendo compensar os utilizadores lesados através da Hyper Foundation, tudo documentado pela CoinDesk. O que seria uma perda acabou em lucro para o cofre.

O problema não foi o resultado, foi o método. Os validadores chegaram a consenso em cerca de dois minutos, revelando um grau de centralização difícil de conciliar com o discurso descentralizador: à data, a fundação controlava a esmagadora maioria do HYPE em staking. A CEO da Bitget, Gracy Chen, classificou a decisão como «imatura, antiética e pouco profissional», e a Hyperliquid acabou por rever o funcionamento dos validadores, tornando a validação inteiramente on-chain. É o mesmo dilema que percorre a novela permanente da governação on-chain: quando o código falha, alguém tem de intervir, e essa capacidade de intervenção é, por definição, um ponto de centralização.

Do USDH ao USDC, e a chegada dos ETF de HYPE

Um perp DEX precisa de uma moeda de colateral, e a guerra por esse lugar foi reveladora. Em setembro de 2025, a Hyperliquid pôs a votação de governação quem emitiria a sua stablecoin nativa, a USDH. Numa disputa acesa que atraiu gigantes como a Paxos e a Ethena, venceu a Native Markets, uma equipa da própria comunidade, e a USDH arrancou dias depois. Parecia o triunfo do modelo descentralizado sobre os emissores tradicionais.

Menos de um ano depois, a história deu uma volta que diz muito sobre 2026. Em maio de 2026, a Coinbase assumiu o papel de gestora do USDC na Hyperliquid, a Native Markets aceitou vender-lhe os seus ativos de marca, e o USDC passou a ser o ativo de cotação nos mercados da plataforma, segundo o The Defiant. A infraestrutura mais descentralizada do sector escolheu, para o seu colateral, o dólar digital mais institucional que existe.

A institucionalização não parou no colateral. Depois dos ETF à vista de Bitcoin e de Ethereum, chegou a vez do próprio token do líder dos perpétuos: a 15 de maio de 2026, a Bitwise lançou na Bolsa de Nova Iorque o primeiro ETF à vista de HYPE (ticker BHYP), com uma comissão de 0,34% e, de forma inédita, com staking interno das participações do fundo, segundo a própria Bitwise. A 21Shares e a Grayscale seguiram-lhe os passos. Para quem quiser perceber quem está mesmo por trás destes fluxos, vale a pena reler a nossa análise sobre quem compra os ETF de cripto.

Perp, CFD e a CMVM: onde a Europa traça a linha

Aqui entra a parte que interessa diretamente ao leitor português. Do ponto de vista europeu, um futuro perpétuo sobre cripto não é um simples criptoativo à vista; é um derivado. A 24 de fevereiro de 2026, a ESMA emitiu uma declaração pública (referência ESMA35-243228190-8024) a lembrar que os produtos comercializados como «perpetual futures», quando cumprem a definição de CFD, ficam sujeitos às medidas de intervenção existentes ao abrigo da DMIF II, incluindo limites de alavancagem. O nome comercial é irrelevante: o que conta é a substância económica.

Isto tem consequências práticas. Ao contrário dos criptoativos à vista, que caem sob o regulamento MiCA e a supervisão de conduta da CMVM, os perpétuos são instrumentos financeiros sob a DMIF II, com a CMVM como autoridade nacional. No regime europeu de CFD, a alavancagem de retalho sobre cripto está limitada a 2:1, com aviso de risco obrigatório, proteção contra saldo negativo e encerramento por margem, muito longe dos 1001x anunciados offshore.

E os dados justificam a cautela. Segundo os números que a CMVM invocou para limitar a venda destes derivados a investidores não profissionais, entre 74% e 89% dos clientes de retalho de CFD perdem dinheiro, com prejuízos médios entre 1.600 e 29.000 euros, de acordo com o Jornal Económico. O ponto essencial é este: um residente em Portugal que use um perp DEX permissionless, sem KYC e com alavancagem extrema, opera fora de todo esse perímetro de proteção. Não há limite de 2:1, não há proteção contra saldo negativo, e não há a quem reclamar. Com o período transitório do MiCA para os prestadores portugueses a terminar a 1 de julho de 2026, a distância entre o que é regulado em Portugal e o que corre livremente na cadeia nunca foi tão nítida.

Os principais perp DEX em 2026, lado a lado

A tabela seguinte resume o campo de batalha. Os valores de preço e capitalização são referências de 15 de agosto de 2026 e os volumes refletem os dados mais recentes disponíveis; num sector tão volátil, servem para ordenar grandezas, não para cravar decimais.

Perp DEXModeloCadeiaAlavancagem máx.TokenVolume recenteNota
HyperliquidLivro de ordensL1 própria (HyperCore/HyperEVM)dezenas de xHYPE, ~49,19 EUR (~12,7 mil M USD)~218 mil M USD (julho 2026)Líder isolado
AsterLivro de ordens (multimodo)BNB, Ethereum, Solana, Arbitrumaté 1001xASTER, ~0,52 EUR (~1,6 mil M USD)~43,6 mil M USD (julho 2026)2.º lugar; dúvidas sobre volume
LighterLivro de ordens (zk)zk-rollupelevadaToken desde 30 dez. 2025caiu muito após o airdropModelo quase sem comissões
dYdXLivro de ordensCadeia própria (Cosmos, 60+ validadores)moderadaDYDX, ~0,096 EUR (~94 M USD)~300 a 500 M USD/diaPioneiro em queda
JupiterPeer-to-pool (JLP)Solanaaté 100xJUPcentenas de mil M USD (2025)Rei dos perps em Solana
GMXPeer-to-pool (GLP/GM)Arbitrum, Avalanche, Solanaaté 100xGMXveterano do sectorReferência do modelo por pool
edgeX / ParadexLivro de ordens (StarkWare)L2 de conhecimento-zeroelevadaEmergentesfatia do volume (conjunto Starknet)Nicho institucional

O que vigiar até ao fim de 2026

Três perguntas vão definir o resto do ano. A primeira é se o mercado consolida num único vencedor ou se estabiliza em caminhos paralelos. A leitura mais provável não é «o vencedor leva tudo»: a Hyperliquid deverá manter a liderança geral, enquanto a Aster e outras podem dominar segmentos específicos, das ações tokenizadas a nichos regionais. Liquidez atrai liquidez, mas os traders profissionais gostam de ter alternativas.

A segunda pergunta é a do valor. Domínio de volume não é o mesmo que valor para o token, e o teste de 2026 é se as recompras financiadas por comissões reais conseguem sustentar o HYPE quando os incentivos desaparecerem de vez do resto do sector. A terceira é regulatória: à medida que os perp DEX absorvem mais volume das CEX e atraem capital institucional via ETF, cresce a probabilidade de reguladores como a ESMA e a CMVM olharem para o acesso permissionless a alavancagem extrema com menos tolerância. Uma coisa é certa: a experiência de mover derivados alavancados para dentro de contratos inteligentes deixou de ser experiência. É, agora, uma parte permanente do mercado.

Perguntas frequentes

O que é um perp DEX?

É uma corretora de futuros perpétuos que funciona inteiramente numa blockchain, através de contratos inteligentes. Ao contrário de uma corretora centralizada, não guarda os fundos dos utilizadores (que mantêm a autocustódia) e as ordens, liquidações e o mecanismo de funding são verificáveis on-chain. A Hyperliquid é, em 2026, o maior perp DEX do mundo.

A Hyperliquid é mesmo descentralizada?

Em parte. A negociação corre num livro de ordens totalmente on-chain, mas o caso JELLY, em março de 2025, mostrou que um pequeno conjunto de validadores, ligado à fundação, conseguiu votar a retirada de um mercado em cerca de dois minutos. A empresa reviu o funcionamento dos validadores depois das críticas, mas o controlo concentrado do HYPE em staking continua a ser um ponto de centralização.

Posso usar um perp DEX em Portugal?

Tecnicamente, muitos perp DEX são permissionless e não exigem KYC, pelo que são acessíveis. Do ponto de vista legal, porém, os perpétuos sobre cripto são instrumentos financeiros sob a DMIF II, supervisionados pela CMVM, e a ESMA classifica-os como CFD com alavancagem de retalho limitada a 2:1. Ao usar uma plataforma offshore com 1001x, o investidor opera fora dessa proteção: sem limite de alavancagem, sem proteção contra saldo negativo e sem recurso.

Qual é a diferença entre a Hyperliquid e a Aster?

Ambas usam livro de ordens, mas seguem estratégias opostas. A Hyperliquid corre numa camada 1 própria, foi construída por uma equipa pequena sem capital de risco e ganhou pela execução e pela liquidez consistente. A Aster é multicadeia, apoiada pelo ecossistema de Changpeng Zhao, cresceu à custa de incentivos agressivos e anuncia alavancagem até 1001x, mas enfrentou dúvidas sobre a qualidade do seu volume.

O que é a taxa de funding num perp DEX?

É um pagamento periódico trocado entre traders com posições longas e curtas que mantém o preço do perpétuo colado ao preço à vista. Quando o contrato negoceia acima do spot, os longs pagam aos shorts; quando negoceia abaixo, os shorts pagam aos longs. Num perp DEX, este cálculo é feito de forma transparente e verificável na cadeia, muitas vezes com base num oráculo de preço externo.

Escrito por Liam Brennan, editor de mercados da HOGE Wire.

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