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● Culture & Long-reads

Drama nas DAO: a novela permanente da governação on-chain

De Aave a BonkDAO, a governação das DAO tornou-se o género nativo da cripto: metade assembleia, metade telenovela. Um guia dos arquétipos do drama on-chain e do que ele revela.

Na véspera de Natal de 2025, a maior comunidade de crédito descentralizado do mundo andava a discutir quem era dono do seu próprio nome. A proposta parecia burocrática: deviam os detentores do token AAVE recuperar o controlo dos domínios, das contas nas redes sociais e da marca do protocolo, colocando tudo sob uma entidade da DAO? Por baixo da linguagem processual, era uma luta pelo poder. A The Block noticiou que boa parte da comunidade via a manobra da Aave Labs, a empresa fundada por Stani Kulechov, como «uma tentativa de tomada hostil». A votação fechou a 26 de dezembro com 55,29% contra, 41,21% em abstenção e apenas 3,5% a favor, segundo a Cointelegraph. Poucos meses depois, os dois contribuidores mais influentes do protocolo saíam porta fora.

Isto não é um acidente. É um género. Uma organização autónoma descentralizada promete substituir chefes, conselhos de administração e recursos humanos por código e votos. O que produz, com uma regularidade quase televisiva, é drama: revoltas, golpes, cismas, processos, comédias de erros. Este artigo não pergunta quem manda de facto numa DAO, uma questão de estrutura de poder já bem mapeada. Pergunta outra coisa: porque é que a governação on-chain dá sempre novela, quais são os seus enredos recorrentes, e o que essa teatralidade revela sobre a promessa impossível de coordenar estranhos com dinheiro e sem patrão.

«Golpe de Estado» sem Estado: porque é que as DAO dão sempre novela

Junte quatro ingredientes e o drama é inevitável. Primeiro, dinheiro líquido: as tesourarias das grandes DAO valem centenas de milhões, por vezes milhares de milhões, e estão a uma proposta de distância de mudar de mãos. Segundo, ideologia: estas comunidades nasceram a prometer descentralização, e cada compromisso pragmático é vivido como traição de um princípio. Terceiro, pseudonimato: metade dos protagonistas são identidades sem cara, o que remove os travões sociais que moderam qualquer reunião de condomínio. Quarto, palco público: tudo acontece em fóruns abertos, em votações registadas na blockchain e em transmissões no X, com uma plateia a comentar em tempo real.

O resultado é que a governação deixa de ser administração e passa a ser espetáculo. E, ao contrário de um colapso técnico, o drama de uma DAO raramente é um bug. É a máquina a funcionar exatamente como foi desenhada, só que a produzir um resultado que metade da comunidade detesta. É a diferença entre um cofre arrombado e uma assembleia de acionistas que aprova, por maioria, aquilo que a minoria considera um assalto. Quando a falha já não é código, a autópsia técnica não serve de nada; o que resta é ler a política. Nas próximas secções, essa política surge como um conjunto de arquétipos, papéis que se repetem de projeto para projeto com uma fidelidade quase mitológica.

O pecado original: The DAO e o trauma de 2016

Toda a novela tem um episódio-piloto, e o da cripto foi The DAO, em 2016. Era um fundo de investimento coletivo governado por código, que arrecadou uma soma enorme de ether durante a captação. A 17 de junho de 2016, um atacante encontrou uma falha reentrante e drenou cerca de 3,6 milhões de ETH, então perto de um terço de tudo o que o fundo tinha acumulado, segundo a retrospetiva de dez anos publicada pela The Block. A comunidade viu-se perante uma pergunta que continua a assombrar todas as DAO: quando o código faz uma coisa e as pessoas queriam outra, quem ganha?

A resposta foi um cisma. A 20 de julho de 2016, no bloco 1.920.000, a rede executou um hard fork que reverteu o roubo. A maioria seguiu a nova cadeia, que hoje chamamos Ethereum. Uma minoria recusou-se a reescrever a história, alegando que «o código é lei», e ficou na cadeia original, que passou a chamar-se Ethereum Classic. Foi o momento fundador do drama on-chain: a prova de que uma comunidade descentralizada, confrontada com uma crise, não decide por consenso sereno, mas por rutura, facções e uma bifurcação literal da realidade. Tudo o que veio depois, os golpes, as revoltas, as fugas, são variações deste trauma original.

Arquétipo 1: o fundador-monarca

O primeiro enredo recorrente é o do fundador que não consegue largar o leme. As DAO nascem quase sempre de uma equipa fundadora carismática que, em teoria, se deve dissolver na comunidade. Na prática, o fundador continua a ser o autor moral do projeto, e a tensão entre a sua visão e a vontade dos detentores de tokens é uma fonte inesgotável de conflito. O caso paradigmático é o da MakerDAO, um dos protocolos mais antigos e respeitados da DeFi, e do seu fundador Rune Christensen.

Em 2024, ao abrigo de um plano grandioso chamado «Endgame», Christensen conduziu a MakerDAO a uma reinvenção completa: novo nome, Sky; nova stablecoin, USDS; e a troca do venerável token MKR por um novo token, SKY, como noticiou a Bloomberg. A comunidade nunca comprou a ideia. Chegou a haver a sugestão de construir uma cadeia própria, a «NewChain», eventualmente a partir do código da Solana, o que soou a heresia para uma comunidade nativa de Ethereum. Passados poucos meses, o próprio Christensen admitia à Unchained que a aposta na marca Sky, «claramente, não resultou de todo», e ponderava reverter para Maker. O fundador-monarca governa por decreto até ao momento em que o mercado e a comunidade lhe recusam obediência. É a mesma dinâmica que analisámos ao estudar quem controla o palco do fundador cripto: a autoridade informal sobrevive muito depois de a estrutura formal a ter, supostamente, dissolvido.

Arquétipo 2: a revolta contra a fundação

O segundo enredo é o inverso do primeiro: a comunidade descobre o seu próprio poder e volta-o contra a fundação que a criou. O caso que definiu o género foi a primeira votação da Arbitrum, uma das maiores redes de camada 2 de Ethereum, em 2023. A Arbitrum Foundation submeteu a proposta AIP-1, que pedia a ratificação da alocação de 750 milhões de tokens ARB, então perto de mil milhões de dólares, a uma carteira administrativa controlada pela própria fundação.

O problema é que a fundação já tinha começado a mexer nos tokens antes de a votação estar sequer decidida, tratando o voto como uma formalidade. A comunidade percebeu que aquilo era teatro de ratificação, não governação a sério, e amotinou-se. Mais de 76% dos votos foram contra, e a fundação foi obrigada a recuar, prometendo dividir a proposta em partes e submeter as alocações a calendários de aquisição mais apertados, como relatou a CoinDesk. A revolta da Arbitrum ensinou uma lição a todo o setor: a partir do momento em que se distribui um token de governação, a fundação deixa de poder fingir que o poder é seu. O drama é o mecanismo pelo qual a comunidade testa, pela primeira vez, se os seus votos valem alguma coisa.

Arquétipo 3: o golpe da baleia

O terceiro enredo é o mais desconfortável, porque não envolve nenhuma ilegalidade óbvia. Uma baleia, ou um grupo coordenado, compra tokens suficientes para se tornar o votante decisivo e aprova uma proposta que serve os seus interesses. Em julho de 2024, um grupo apelidado «Golden Boys», liderado por um pseudónimo chamado Humpy, fez passar na Compound a Proposta 289: transferir 499.000 tokens COMP, cerca de 24 milhões de dólares (à volta de 22 milhões de euros), para um cofre de rendimento que o próprio grupo controlaria. A proposta passou por uma margem apertada, 682.191 votos contra 633.636, como documentou a The Block. Só depois de dias de indignação pública é que os Golden Boys aceitaram anular a proposta, em troca de um produto de staking desenhado à medida dos seus interesses, segundo a Cointelegraph. Numa comunidade construída em torno de protocolos de empréstimo como a Compound, onde a curva de juro chega ao crédito on-chain, o cofre da tesouraria é ao mesmo tempo o património comum e o alvo mais tentador.

A versão de 2026 deste enredo foi mais crua. A 6 de julho, um atacante gastou cerca de 4,4 milhões de dólares a comprar pouco mais de 1% da oferta do memecoin BONK, o suficiente para atingir o quórum da BonkDAO. Numa votação em que participaram sete carteiras, num universo de mais de dezoito mil membros, a proposta passou com 99,9% de aprovação e drenou do tesouro cerca de 4,4 biliões de tokens BONK, na ordem dos 20 milhões de dólares, como noticiou a CoinDesk. Não houve exploração de código; houve apenas alguém a ler as regras e a usá-las. Já em 2021, num ensaio de referência, Vitalik Buterin argumentava que o problema estrutural do voto por moeda é que um token junta num só ativo dois direitos distintos, o interesse económico no protocolo e o direito de decidir sobre ele, e que essa fusão é precisamente o que torna a compra de votos possível e barata (o texto está disponível em vitalik.eth.limo). O golpe da baleia é a demonstração empírica desse argumento.

Arquétipo 4: a guerra civil do tesouro

Quando uma facção não consegue vencer a votação, resta-lhe a saída, e a saída também é drama. Em setembro de 2023, a Nouns DAO, um projeto de NFT com uma tesouraria recheada de ether, viveu a sua guerra civil. Cerca de 56% dos detentores de Nouns votaram para «ragequit», ativando um mecanismo de bifurcação que lhes permitia sair levando a sua fatia do tesouro. Saíram com 16.757 ETH, cerca de 27,3 milhões de dólares (perto de 25 milhões de euros), deixando a DAO original com 13.310 ETH, segundo a CoinDesk, que descreveu o episódio como uma mistura tóxica de traders sedentos de dinheiro e idealistas da blockchain. A ironia final: a própria DAO bifurcada começou a sangrar quase de imediato, com os seus membros a fazerem ragequit uns aos outros, caindo de quase 16.750 para 7.700 ETH em três dias.

Há uma variante ainda mais sombria deste enredo: a fundação que prefere destruir a DAO a perdê-la. Em maio de 2023, a Aragon Association, que geria uma das plataformas mais antigas de criação de DAO, acusou um grupo de investidores ativistas, os chamados «RFV Raiders», entre os quais a gestora Arca, de tentar um ataque de 51% para se apoderar da tesouraria. A resposta da Aragon foi brutal: baniu vários membros do seu próprio Discord e cancelou o plano de entregar à comunidade o controlo de um tesouro de cerca de 200 milhões de dólares, como relatou a CoinDesk. Meses depois, a associação dissolvia-se e devolvia a maior parte da tesouraria aos detentores do token ANT. Uma organização criada para descentralizar o poder recentralizou-o à força, no momento em que a descentralização a ameaçou. É o paradoxo perfeito da governação cripto.

Um bestiário do drama nas DAO

Os enredos recorrem tanto que vale a pena catalogá-los. A tabela seguinte resume os arquétipos que atravessam a última década de governação on-chain, com o caso que melhor os ilustra.

ArquétipoEnredo típicoCaso exemplarO que está em jogo
O fundador-monarcaO fundador impõe uma visão que a comunidade rejeitaMakerDAO para Sky (2024)Identidade e direção do protocolo
A revolta contra a fundaçãoA comunidade descobre que os seus votos contamArbitrum AIP-1 (2023)Controlo da tesouraria fundadora
O golpe da baleiaCapital compra o voto decisivo, dentro das regrasCompound e BonkDAO (2024 a 2026)Saque legal do tesouro comum
A guerra civil do tesouroA facção derrotada sai e leva a sua fatiaNouns e Aragon (2023)Coesão e sobrevivência da DAO
O carnavalMobilização de massas em torno de um objetivo simbólicoConstitutionDAO e SpiceDAO (2021 a 2022)Reputação e expectativas dos membros
A classe dos delegadosPrestadores profissionais disputam poder e orçamentoAave (2025 a 2026)Legitimidade da governação delegada

Arquétipo 5: o carnaval

Nem todo o drama é trágico. Alguns dos episódios mais memoráveis foram comédias coletivas. Em novembro de 2021, a ConstitutionDAO mobilizou mais de dezassete mil pessoas para angariar, em cerca de uma semana, mais de 40 milhões de dólares com um único objetivo: comprar num leilão da Sotheby’s um exemplar raro da Constituição dos Estados Unidos. Perderam. O gestor de fundos Ken Griffin arrematou o documento por 43,2 milhões de dólares (cerca de 38 milhões de euros à altura), como noticiou a CNBC. Seguiu-se o anticlímax: o plano de tokenizar a propriedade coletiva esbarrou na lei dos valores mobiliários, e os contribuidores foram convidados a pedir o reembolso, muitas vezes por um valor inferior ao que tinham posto, depois de descontadas as taxas de gás. O token PEOPLE, criado para o projeto, sobreviveu como memecoin, um monumento irónico a uma causa perdida.

Ainda mais eloquente foi a SpiceDAO. Em 2022, este coletivo comprou num leilão um exemplar raro do livro de storyboards da adaptação nunca filmada de «Dune» por Alejandro Jodorowsky, pagando 2,66 milhões de dólares (cerca de 2,4 milhões de euros) por um lote avaliado entre 25 mil e 35 mil euros. O plano era produzir uma série animada a partir da obra. Havia só um problema: comprar o objeto físico não confere os direitos de autor da história, como qualquer advogado de propriedade intelectual explicou depois, e a The Next Web resumiu com crueldade. O carnaval revela a face mais pura da cultura DAO: a capacidade extraordinária de coordenar capital e entusiasmo em torno de um símbolo, e a fragilidade igualmente extraordinária de um coletivo que decide sem ninguém responsável por verificar os pressupostos básicos.

Os figurantes profissionais: a classe dos delegados

Quando a maioria dos detentores de tokens não vota, alguém tem de o fazer por eles. Surgiu assim uma classe profissional de governação: firmas de gestão de risco, coletivos de delegados e prestadores de serviços que vivem, literalmente, de participar em DAO. São entidades como a Gauntlet, a StableLab ou a BGD Labs, remuneradas por escrever propostas, analisar parâmetros e votar em nome de milhares de carteiras passivas. A governação, que devia ser participação direta, transformou-se numa democracia representativa com fornecedores pagos, o que traz consigo as suas próprias intrigas orçamentais. É a mesma profissionalização que se vê quando Wall Street entra na DeFi e traz consigo a lógica das entidades reguladas.

É aqui que a saga da Aave, com que abrimos este texto, atinge o clímax. Depois da votação da marca em dezembro de 2025, o conflito entre a Aave Labs e a comunidade escalou até ao ponto em que os dois prestadores mais influentes, a Aave Chan Initiative (ACI), de Marc Zeller, e a BGD Labs, anunciaram a saída. Em março de 2026, a CoinDesk descrevia um protocolo com mais de 25 mil milhões de dólares em depósitos mergulhado numa guerra de governação. Zeller foi explícito sobre a razão: a votação, disse, demonstrara que «uma única entidade detém poder de voto suficiente para aprovar as suas próprias propostas de orçamento contra a oposição da comunidade», e por isso o processo já não era suficientemente descentralizado para garantir compromissos, segundo a The Block. Quando os próprios profissionais da governação desistem em protesto, o teatro deixa de ser entretenimento e passa a ser diagnóstico.

O palco e a plateia: fóruns, Snapshot e a estética do drama

Nada disto seria drama se acontecesse à porta fechada. A infraestrutura da governação cripto é, antes de tudo, um palco. As propostas discutem-se em fóruns públicos de estilo Discourse, votam-se em plataformas como o Snapshot ou o Tally, e comentam-se ao vivo em transmissões no X que chegam a durar horas. Cada voto fica registado para sempre na blockchain, o que significa que a traição, a hipocrisia e a mudança de posição são todas auditáveis por qualquer pessoa, para sempre. É uma transparência que não pacifica; radicaliza.

O efeito é que a governação se tornou um desporto para espetadores. Há contas dedicadas a narrar as brigas de governação como se fossem jornadas desportivas, delegados que cultivam seguidores como se fossem comentadores, e uma estética própria de acusações, capturas de ecrã e fios explicativos. Esta plateia não é acessória: é ela que transforma uma votação técnica sobre parâmetros de colateral numa questão de honra pública. O drama funciona como cola social. Numa comunidade de pseudónimos dispersos pelo planeta, sem escritório nem máquina de café, a única coisa que cria identidade partilhada é uma boa polémica. A novela não é o preço a pagar pela descentralização; é o que mantém a comunidade unida o suficiente para existir.

Quando a novela vai a tribunal

Há um ponto em que o drama deixa de ser interno e encontra a lei dos homens. O precedente decisivo foi o caso Ooki DAO. Em junho de 2023, um tribunal federal da Califórnia deu razão à CFTC, o regulador norte-americano dos mercados de derivados, e impôs à Ooki DAO uma sanção de 643.542 dólares, proibindo o seu site. O mais importante não foi o valor, mas o fundamento: o tribunal considerou que a DAO era uma «associação não incorporada» e uma «pessoa» à luz da lei, podendo por isso ser responsabilizada, como consta do comunicado da própria CFTC. Traduzido para linguagem simples: os detentores de tokens que votam podem, em teoria, ser pessoalmente responsáveis pelos atos coletivos da organização.

O outro caso que assombra o setor é o da Mango Markets. Em 2022, depois de Avraham Eisenberg ter drenado a plataforma através da manipulação do preço do token de governação, a própria DAO votou deixá-lo ficar com uma parte dos fundos em troca da devolução do resto. Parecia um acordo elegante entre adultos on-chain. Não foi: Eisenberg acabou detido e condenado, embora um juiz tenha depois anulado as condenações penais, em parte por não existirem regras escritas que ele pudesse ter violado, num raro triunfo judicial da lógica de que «o código é lei», como noticiou a The Block. A lição, para qualquer comunidade, é gelada: uma votação de DAO pode legitimar internamente uma decisão e, anos depois, essa mesma decisão ser reavaliada por um tribunal que não reconhece o voto como fonte de direito.

Casos emblemáticos, lado a lado

Reunidos numa só vista, os episódios desta década desenham o mapa do género. A tabela abaixo compara os casos referidos, do valor em jogo ao desfecho.

CasoDataO que aconteceuValor em jogoDesfecho
The DAO2016Falha reentrante e hard forkCerca de 3,6 milhões de ETHCisma: Ethereum e Ethereum Classic
Arbitrum AIP-12023Fundação pré-alocou tokens antes do voto750 milhões de ARBRevolta; proposta dividida
Nouns (fork)202356% dos membros fizeram ragequit16.757 ETHCisão do tesouro
Aragon2023Fundação travou alegado ataque de 51%Cerca de 200 milhões de dólaresDAO dissolvida; ANT reembolsado
Compound (Prop 289)2024Baleia fez passar desvio para cofre próprio499.000 COMPProposta anulada após protesto
ConstitutionDAO2021Angariação falhou no leilãoMais de 40 milhões de dólaresReembolso menos taxas; token PEOPLE
Ooki DAO2023CFTC venceu por incumprimento643.542 dólaresDAO tida como pessoa responsável
BonkDAO2026Atacante comprou quórumCerca de 20 milhões de dólaresTesouro drenado; caça aos fundos
Aave2025 a 2026Disputa de marca e poder de votoMais de 25 mil milhões em depósitosSaída de ACI e BGD Labs

Tentativas de matar o drama: wrappers, DUNA e futarquia

Se o drama é caro, porque não o eliminar? Tem sido essa a ambição de uma parte crescente do setor, que procura tornar a governação aborrecida no melhor sentido da palavra. A primeira frente é jurídica. Em vez de deixar as DAO num vazio legal, onde qualquer membro pode ser responsabilizado como no caso Ooki, juristas como Miles Jennings, conselheiro-geral da a16z Crypto, promovem invólucros legais desenhados à medida. O mais falado é a DUNA, uma associação sem fins lucrativos não incorporada, já adotada por vários estados norte-americanos, que dá à DAO existência legal, permite pagar impostos e, sobretudo, protege os membros de responsabilidade pessoal. Jennings descreveu a figura como «um grande avanço». O drama não desaparece, mas passa a ter uma sala de tribunal previsível em vez de um abismo.

A segunda frente é o próprio desenho da votação. Há quem defenda modelos bicamerais, que separam o voto por capital do voto por reputação, e há experiências mais radicais como a futarquia, em que as decisões são tomadas por mercados de previsão em vez de por votação direta, uma ideia testada por projetos na Solana e analisada em detalhe pela CoinDesk. A aposta é que, se apostarmos dinheiro no resultado em vez de gritarmos opiniões, a multidão decide melhor. A ver vamos. A ironia é que cada tentativa de suprimir o drama tende a gerar o seu próprio drama, sobre quem desenha as regras. É uma dinâmica de reinvenção permanente, próxima da que descrevemos ao ler o regresso do fundador cripto: a promessa de um recomeço limpo esbarra sempre na memória de quem já lá esteve.

Portugal, a CMVM e o limbo jurídico das DAO

Para um leitor em Portugal, a pergunta prática é simples: e se eu participar numa DAO? A resposta é que a lei europeia, por enquanto, quase não olha para o problema. O regulamento MiCA, que enquadra os criptoativos na União Europeia, foi desenhado para supervisionar emitentes e prestadores de serviços de criptoativos (os CASP), como bolsas e custodiantes. Não regula protocolos verdadeiramente descentralizados nem a governação on-chain. Uma DAO sem entidade legal não é, para o direito português, ninguém: não tem personalidade jurídica, não pode celebrar contratos em nome próprio e não oferece aos seus membros o escudo da responsabilidade limitada que uma sociedade daria.

Na prática, isto reparte-se por várias autoridades. A CMVM supervisiona a conduta de mercado e a proteção do investidor, e o Banco de Portugal trata do registo dos CASP e das stablecoins; o enquadramento nacional consolidou-se com a Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, e o período transitório para os antigos VASP terminou a 1 de julho de 2026. Mas nenhuma destas autoridades certifica ou fiscaliza a governação de uma DAO enquanto tal. Um investidor português que vote numa proposta maliciosa, ou que faça parte de um coletivo depois considerado responsável por danos, move-se num território sem rede: o precedente Ooki mostra que, do outro lado do Atlântico, os tribunais já tratam os votantes como associados responsáveis, e a Europa não tem ainda doutrina firme em sentido contrário. Quem quiser perceber os deveres atuais pode consultar a página de fintech e criptoativos da CMVM, mas deve fazê-lo sabendo que a governação em si continua a ser um limbo.

O que o drama nos ensina

Depois de uma década de golpes, cismas e comédias, é tentador concluir que as DAO falharam. Muitos protagonistas do setor pensam algo parecido, embora com nuances. Ali Yahya, sócio da a16z Crypto, resumiu à Fortune, em junho de 2026, o veredito da experiência: «Passámos os últimos dez anos a redescobrir da pior maneira que a democracia direta é uma má ideia.» Na mesma reportagem, Jake Brukhman, da CoinFund, observava que, na prática, a governação acabou por acontecer quase em todo o lado menos na própria blockchain.

E, no entanto, o género não morreu. Simon Hudson, que gere a DAO por trás do artista de inteligência artificial Botto, respondeu à mesma pergunta com um encolher de ombros lúcido: «Estão mortas? De certeza que não. Foram muitas as pessoas que se queimaram com elas? Isso foram.» Talvez seja essa a leitura certa. O drama de uma DAO não é o sinal de que a governação descentralizada falhou; é o som da governação a acontecer em público, sem os filtros que, numa empresa normal, escondem as mesmas brigas atrás de portas fechadas. Uma DAO expõe, em direto e para sempre, a parte da vida organizacional que o resto do mundo prefere esconder: a negociação, a traição, a captura, a saída. É desconfortável de ver. Também é, talvez, a coisa mais honesta que a cripto faz.

Perguntas frequentes

O que é um ataque de governação numa DAO?

É a captura do processo de decisão de uma DAO usando as próprias regras, sem explorar código. Tipicamente, um ator compra ou pede emprestado tokens de governação suficientes para atingir o quórum e fazer aprovar uma proposta que desvia fundos ou muda parâmetros a seu favor. O caso da BonkDAO, em julho de 2026, é o exemplo puro: um atacante gastou cerca de 4,4 milhões de dólares para controlar uma votação de sete carteiras e drenar perto de 20 milhões do tesouro. Como não há falha técnica, estes ataques são difíceis de distinguir de decisões legítimas.

Uma DAO pode ser processada, e os seus membros são responsáveis?

Pode. O precedente mais citado é o da Ooki DAO, em que um tribunal norte-americano, em 2023, tratou a DAO como uma associação não incorporada e uma pessoa responsável perante a lei, impondo uma sanção e proibindo o site. A implicação é que os detentores que votam podem, em certas jurisdições, ser pessoalmente responsáveis. É precisamente esse risco que motiva os invólucros legais, como a DUNA ou as sociedades de DAO do Wyoming, que conferem personalidade jurídica e protegem os membros com responsabilidade limitada.

Porque é que a participação nas votações das DAO é tão baixa?

Por apatia racional. A maioria dos pequenos detentores sabe que o seu voto não altera o resultado, dominado por grandes carteiras, e por isso não vota. Isso cria um vazio que baleias, grupos coordenados e delegados profissionais preenchem. O problema é grave: na BonkDAO, apenas sete carteiras votaram num universo de mais de dezoito mil membros, o que baixou o custo de capturar a decisão. A baixa participação não é um detalhe; é a vulnerabilidade estrutural que torna quase todos os outros dramas possíveis.

O que foi o conflito de governação da Aave em 2025 e 2026?

Foi uma disputa entre a Aave Labs e a comunidade sobre quem controla a marca e o poder de voto do maior protocolo de crédito da DeFi. Uma votação em dezembro de 2025 sobre a propriedade da marca, vista por muitos como uma tentativa de tomada hostil, foi rejeitada. O conflito escalou até que, em 2026, os dois prestadores de governação mais influentes, a Aave Chan Initiative de Marc Zeller e a BGD Labs, anunciaram a saída, alegando que uma única entidade tinha poder de voto suficiente para aprovar os seus próprios orçamentos contra a comunidade.

As DAO estão mortas?

Não, mas mudaram. O consenso em 2026 é que a democracia direta de um token por voto se revelou má ideia para a maioria das decisões, e o setor migra para modelos representativos, invólucros legais e experiências como a futarquia. As DAO continuam a ser excelentes a formar capital depressa e a gerir tesourarias de forma transparente. O drama recorrente não significa fracasso; significa que a negociação de poder que qualquer organização vive acontece, aqui, em público e de forma auditável.

Marcus Okafor escreve sobre cultura e poder na cripto para a HOGE Wire.

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