Rendimento real: a grande compressão da DeFi para a taxa base
Em 2026, quase todos os rendimentos da DeFi descem para o mesmo piso: os 3,42% dos bilhetes do Tesouro tokenizados. O que a grande compressão significa para quem investe em euros.
Quem abriu uma carteira DeFi no início de 2024 lembra-se dos números de dois dígitos. O sUSDe da Ethena chegou a pagar mais de 20% ao ano; a poupança on-chain da antiga MakerDAO ultrapassava os 8%; o staking de Ethereum rondava os 5%. Em agosto de 2026, esses mesmos produtos pagam, respetivamente, cerca de 4%, 3,75% e 2,66%. O rendimento não desapareceu. Comprimiu-se.
A história deste ano não é a de uma DeFi em colapso, nem a de mais uma mania de juros insustentáveis. É a de uma convergência. Quase todos os rendimentos «reais» da cadeia, aqueles que vêm de receita efetiva e não de emissão de tokens, estão a descer em direção a um mesmo piso. Esse piso é o cupão de um bilhete do Tesouro norte-americano, agora tokenizado e disponível on-chain a cerca de 3,42% ao ano, segundo os dados agregados da rwa.xyz. E, ao contrário do que muita gente esperava para 2026, esse piso não está a cair.
Para o investidor europeu, a compressão muda tudo. Quando um protocolo pagava 15% acima de um custo de oportunidade próximo de zero, um ponto de risco cambial ou de comissões não alterava a tese. Com o spread reduzido a três ou quatro pontos sobre uma taxa base em dólares, cada detalhe passa a decidir se o rendimento é real ou apenas aparente: a moeda em que se ganha, o imposto que se paga, o risco que efetivamente se assume. Este artigo mapeia a grande compressão, protocolo a protocolo, e o que ela significa para quem investe a partir do euro.
Rendimento real, em três linhas
O termo «real yield» nasceu no mercado em baixa de 2022, quando protocolos como GMX, Gains Network e Synthetix começaram a distribuir a receita efetiva das comissões em vez de imprimir tokens para alugar liquidez. A distinção é simples. Um rendimento é real quando alguém, em algum lugar, pagou por um serviço (uma troca, um empréstimo, uma cobertura, a execução de uma ordem) e parte dessa comissão chega a quem detém o token ou o ativo. É emissão quando o «rendimento» é apenas dinheiro novo, criado à custa da diluição de todos os outros detentores.
Em 2026, o conceito deixou de ser um nicho para se tornar a norma. Os grandes protocolos recompram os próprios tokens com a receita, ligam interruptores de comissões que estiveram anos desligados e ancoram reservas em dívida pública tokenizada. A fatia da receita que efetivamente chega aos detentores subiu de uns escassos pontos percentuais, na primeira vaga, para algo próximo de quinze por cento em 2026. O que mudou menos do que se pensa foi a mecânica; o que mudou muito foi o nível. Se a primeira vaga de rendimento real prometia capturar valor real, a vaga de 2026 mostra quanto valor real existe de facto quando o mercado deixa de subsidiar. E a resposta, para a maioria dos protocolos, é: um pouco acima da taxa sem risco, e a encolher.
A âncora: a taxa base tokenizada a 3,42%
Antes de medir qualquer rendimento, é preciso um referencial. Em 2026, esse referencial deixou de ser abstrato. Os fundos do mercado monetário e os bilhetes do Tesouro norte-americano passaram a existir como tokens que qualquer contrato inteligente pode deter e mover em segundos. Segundo a rwa.xyz, o mercado de dívida pública tokenizada valia cerca de 16,23 mil milhões de dólares (aproximadamente 14 mil milhões de euros) a 14 de agosto de 2026, distribuídos por 87 produtos e mais de 63 mil detentores, com um rendimento médio a sete dias de 3,42%.
A concentração é enorme e diz muito sobre quem está a construir esta camada. Os sete maiores fundos representam cerca de três quartos do total, e os nomes não são de startups anónimas.
| Fundo tokenizado | Emissor | Ativos (USD) |
|---|---|---|
| USYC | Circle | 3,01 mil milhões |
| BUIDL | BlackRock (via Securitize) | 2,71 mil milhões |
| USDY | Ondo Finance | 2,14 mil milhões |
| iBENJI | Franklin Templeton | 1,73 mil milhões |
| JTRSY | Janus Henderson | 883 milhões |
| JLTXX | JPMorgan | 792 milhões |
| USTB | Invesco | 786 milhões |
Este é o novo chão. Um cupão do Tesouro, embrulhado num token, disponível on-chain, componível com o resto da DeFi e resgatável quase de imediato. Qualquer protocolo que peça ao investidor que assuma risco de contrato inteligente, de contraparte ou de mercado tem agora de justificar por que razão paga mais (ou, pior, por que paga menos) do que estes 3,42% quase sem risco. É a mesma força que traz para a cadeia os grandes gestores de ativos, os mesmos que já estão por detrás dos fluxos de ETF que analisámos noutro lugar: quando Wall Street traz o seu balanço para on-chain, traz também a sua taxa de referência.
Porque a base não cai: Fed e BCE em «mais alto por mais tempo»
Durante grande parte de 2025, o consenso era de que 2026 traria cortes de juros e, com eles, a queda da taxa base. Não aconteceu. A Reserva Federal manteve os juros no intervalo de 3,50% a 3,75% pela quinta reunião consecutiva, e a decisão de julho de 2026 trouxe três votos discordantes que preferiam uma subida, não um corte, com a inflação ainda em 3,4% em termos homólogos, segundo a Trading Economics. Os mercados chegaram a atribuir cerca de 77% de probabilidade a uma subida em setembro.
Do lado europeu, o quadro é semelhante e ainda mais desconfortável para quem investe em euros. Com a economia da zona euro a crescer 0,4% no segundo trimestre e a inflação pressionada pela energia, os investidores passaram a antecipar uma subida de 25 pontos base do BCE em setembro, o que ajudou o euro a valorizar cerca de 1% no último mês, para perto de 1,158 dólares, segundo a Trading Economics. A conclusão é contraintuitiva mas central: a compressão de 2026 não é a taxa base a descer, é o rendimento nativo da cripto a descer em direção a uma taxa base que se mantém firme. É também por isso que começa a formar-se uma verdadeira curva de juro on-chain, tema que tratámos na análise sobre a taxa fixa a chegar ao crédito on-chain.
A grande compressão, em números
Vista de cima, a compressão impressiona pela sua uniformidade. Produtos com fontes de rendimento completamente diferentes (comissões de negociação, taxas de financiamento de perpétuos, juros de empréstimos, recompensas de staking) descem todos para a mesma vizinhança de três a quatro por cento. A tabela seguinte reúne os cinco casos mais citados.
| Produto | Pico 2024 / início 2025 | Agosto 2026 | Fonte do rendimento |
|---|---|---|---|
| sUSDe (Ethena) | mais de 20% | cerca de 4,1% | financiamento de perpétuos + RWA |
| Sky Savings Rate | mais de 8% | 3,75% | bilhetes do Tesouro + juros de empréstimos |
| Staking de Ethereum (tudo incluído) | cerca de 5% | 2,66% a 3,8% | emissão + comissões de prioridade + MEV |
| Hyperliquid (recompra trimestral) | 316,76 milhões USD | cerca de 149 milhões USD | comissões de negociação |
| Aave (orçamento anual de recompra) | cerca de 50 milhões USD | cerca de 30 milhões USD | receita do protocolo + GHO |
O mecanismo por detrás desta convergência é simples e implacável: arbitragem. Sempre que um rendimento nativo da cadeia se afasta muito do que a dívida pública paga sem risco equivalente, entra capital a persegui-lo, e esse capital comprime-o. No staking, mais validadores diluem a recompensa; nos perpétuos, mais liquidez esmaga as taxas de financiamento; nos empréstimos, mais depositantes baixam a taxa. A gravidade da taxa base faz o resto. O que sobra, depois de o dinheiro esperto ter feito o seu trabalho, é o prémio que corresponde ao risco genuíno de cada estratégia, e pouco mais.
Há um padrão dentro do padrão. As linhas que ainda pagam claramente acima do piso (o sUSDe, por exemplo) são exatamente as que carregam o risco menos visível. As que já tocaram os três a quatro por cento são, na prática, versões embrulhadas do mesmo bilhete do Tesouro. Percorramos as principais, uma a uma.
Hyperliquid: quando o próprio buyback encolhe
Nenhum caso ilustra melhor a compressão do que a Hyperliquid, a bolsa de perpétuos que domina a lista de receita distribuída a detentores. O seu Assistance Fund canaliza cerca de 97% das comissões de negociação para recomprar HYPE no mercado aberto, de forma automática. É rendimento real no sentido mais puro: sai da comissão que os traders pagam e volta para o token. O problema não é a mecânica; é a trajetória.
Segundo a crypto.news, as recompras trimestrais caíram de 316,76 milhões de dólares no terceiro trimestre de 2025 para 255,05 milhões, depois 192,25 milhões e cerca de 149 milhões no segundo trimestre de 2026, ou seja, mais ou menos metade num ano, ainda que o total acumulado ultrapasse mil milhões de dólares. A causa não é falta de volume, é a partilha desse volume. Com o HIP-3, lançado em outubro de 2025, qualquer construtor pode criar mercados de perpétuos, incluindo os populares perpétuos sobre ativos do mundo real, e ficar com uma fatia das comissões. O custo de receita da plataforma subiu de menos de 6% para cerca de 18% num ano, à medida que mais comissões vão para construtores e criadores de mercado, como nota a análise da SpotedCrypto. Menos comissão retida significa menos recompra, mesmo com o negócio a crescer.
A lição vale para toda a categoria de perpétuos: o rendimento que vem de taxas de financiamento e de comissões de negociação é tão real quanto volátil, e depende de quem, na cadeia de valor, consegue reter a margem. É um tema que exploramos em detalhe a propósito do posicionamento em derivados on-chain, onde a mesma taxa de financiamento que financia estas recompras é também um instrumento de especulação.
Aave e os buybacks automáticos e imutáveis
O maior protocolo de empréstimos da DeFi seguiu o caminho oposto ao da discricionariedade. Com a Aavenomics 3.0, em vigor desde meados de 2026, a Aave passou a recomprar AAVE de forma automática e sem votação caso a caso. O fundador Stani Kulechov resumiu a filosofia ao descrever o novo desenho como assente em «recompras imutáveis e automáticas de AAVE», segundo a ForkLog. A proposta que consolidou o modelo, apelidada de «Aave Will Win», foi aprovada com cerca de 75% de apoio em abril de 2026 e encaminha 100% da receita do protocolo e dos produtos de marca para a DAO e os detentores, como confirmou a The Defiant.
E, no entanto, também aqui a compressão apareceu. Em março de 2026, a governação reduziu o orçamento anual de recompra de cerca de 50 para 30 milhões de dólares, invocando uma queda de 25% na receita das comissões de empréstimo face ao pico. Com uma receita anualizada da ordem dos 134 milhões de dólares totalmente encaminhada para a DAO, o protocolo continua a distribuir valor real, mas a um ritmo mais modesto do que o entusiasmo de 2025 sugeria. As decisões sobre estes orçamentos são, elas próprias, um espetáculo de governação, tema da nossa cobertura sobre o drama permanente das DAO.
Uniswap liga finalmente o interruptor
Durante anos, o «fee switch» da Uniswap foi o maior potencial de rendimento adormecido da DeFi: um mecanismo, previsto no protocolo, que podia desviar parte das comissões de troca para os detentores de UNI, mas que a DAO nunca ligara. Isso mudou no final de 2025. A proposta «UNIfication» foi aprovada a 25 de dezembro de 2025, com mais de 125 milhões de UNI a favor, e o interruptor foi ativado na Ethereum a 28 de dezembro, encaminhando cerca de 17% das comissões de troca para recompra e queima de UNI, segundo a DL News.
O arranque incluiu uma queima simbólica de cerca de 100 milhões de UNI (perto de 596 milhões de dólares ao preço da altura) e, a 27 de julho de 2026, a Proposta 100 alargou as comissões às pools da versão 4 em sete redes em simultâneo. O resultado prático, um ano depois? Cerca de 23 milhões de dólares de receita de protocolo em 2026 e uma redução da oferta de UNI estimada em 0,4% ao ano, de acordo com a Crypto Briefing. O fundador Hayden Adams confirmou publicamente o lançamento. É rendimento real, sem dúvida, mas a escala relativiza o entusiasmo: mesmo a maior bolsa descentralizada do mundo, ao ligar o interruptor, gera uma receita que, anualizada e comparada com a capitalização do token, fica muito perto da tal taxa base.
Ethena e o dólar sintético a caminho do aborrecido
A Ethena foi o cartaz do rendimento de dois dígitos. O seu dólar sintético USDe, com uma oferta que ronda os 5,5 a 6 mil milhões de dólares, gera rendimento através de uma estratégia delta-neutra: comprado em ETH e em ativos de staking, vendido em perpétuos de ETH num montante equivalente, capturando as taxas de financiamento e o staking enquanto neutraliza a exposição ao preço. Quem deposita o USDe no sUSDe recebe esse rendimento. Em 2024, chegou a passar dos 20%. Em agosto de 2026, o sUSDe paga cerca de 4,1%, segundo a Aavescan.
A queda não é só de taxa; é de modelo. Com o financiamento dos perpétuos menos generoso, a Ethena reduziu a dependência do «basis trade» e deslocou reservas para empréstimo institucional sobrecolateralizado e para ativos do mundo real, aproximando-se do território tradicional descrito na nossa peça sobre crédito on-chain institucional. O fundador Guy Young tem descrito o sUSDe como uma espécie de «obrigação da internet», uma expressão que capta bem a ambição de oferecer um rendimento de referência nativo da cadeia. A Forbes observou, em junho de 2026, que o USDe paga rendimento de forma legal precisamente porque o rendimento vive no invólucro sUSDe e não no dólar em si, um ponto que se torna decisivo quando chegarmos à regulação europeia.
Sky: a taxa de poupança on-chain
A antiga MakerDAO, hoje Sky, tornou explícita a lógica que os outros escondem. A sua Sky Savings Rate (SSR), o rendimento pago a quem detém o sUSDS, é um parâmetro definido pela governação, atualmente em 3,75%, face a valores acima de 8% em 2024. O dólar USDS tem uma oferta entre 9 e 11 mil milhões de dólares, com cerca de metade depositada no sUSDS, segundo a Sky. E de onde vem o rendimento? De bilhetes do Tesouro tokenizados, das comissões de empréstimo do Spark e das taxas de estabilidade do sistema original de CDP.
Por outras palavras, a poupança on-chain mais usada da DeFi é, no seu núcleo, a taxa base com uma camada de risco de contrato inteligente por cima. Não há nada de errado nisso; é honesto e transparente. Mas confirma a tese: quando o subsídio desaparece, o rendimento real converge para aquilo que o colateral efetivamente produz, e hoje esse colateral é, em boa parte, dívida pública.
A Sky tem ainda um mérito pedagógico raro no setor: torna o número visível e votável. A taxa de poupança não emerge de um mercado opaco, é fixada em governação, publicada e ajustada em função do que as reservas rendem. Para o investidor, isso significa que a SSR funciona como o melhor termómetro do rendimento honesto da DeFi num dado momento. Quando a SSR desce, não é um protocolo a ser avarento; é o sinal de que o colateral subjacente, hoje dominado por dívida pública, está a render menos. Ler a SSR é, na prática, ler a taxa base com um dia de atraso.
Staking de Ethereum: o alicerce que também cedeu
Se há um rendimento a que se pode chamar «taxa base da cripto», é o staking de Ethereum, o pagamento por proteger a rede. Também aqui a direção é descendente, e por uma razão saudável: quanto mais ETH é colocado em staking, mais se dilui a recompensa por validador. A 4 de agosto de 2026, cerca de 41,41 milhões de ETH estavam em staking, um recorde de 33,98% da oferta, com o rendimento base a sete dias a recuar para 2,66%, segundo a Coinpedia. Somando comissões de prioridade e MEV, o total ronda os 3% a 3,8%.
A compressão do staking empurrou capital para o liquid staking e o restaking, que prometem rendimento extra por cima do base. Mas cada camada adicional acrescenta risco, e nem sempre spread suficiente para o justificar. O sinal mais claro dessa mudança de exigência foi o recuo do restaking, com a ether.fi a abandonar a EigenLayer: quando o rendimento extra deixa de compensar o risco extra, o capital vota com os pés.
O spread que sobrevive: rendimento real ou subsídio disfarçado?
Nem toda a receita distribuída a detentores é rendimento real. A distinção mais importante de 2026 é entre o que um protocolo ganha e o que um protocolo paga. Um caso recente tornou isto vívido. Segundo a Crypto Briefing, três protocolos devolveram 96,3 milhões de dólares a detentores em apenas 30 dias, mas só um o fez de forma sustentável.
| Protocolo | Pago a detentores (30 dias) | Receita do protocolo | Origem do pagamento |
|---|---|---|---|
| Hyperliquid | cerca de 51 milhões USD | igual ou superior | 100% comissões, sem incentivos |
| Pump.fun | cerca de 22,1 milhões USD | 38,8 milhões USD | receita efetiva |
| edgeX | cerca de 23,3 milhões USD | 8,26 milhões USD | lacuna coberta por reservas / incentivos |
A edgeX pagou cerca de 23,3 milhões de dólares aos seus detentores gerando apenas 8,26 milhões de receita: a diferença de uns 15 milhões saiu de reservas ou de orçamentos de incentivo pré-lançamento, como sublinhou a BeInCrypto. Isso não é rendimento real, é emissão com outro nome, e tem prazo de validade. A mesma análise nota que os dez maiores protocolos concentram 87% de toda a receita distribuída a detentores da DeFi, um sinal de que o rendimento real genuíno é, para já, um clube pequeno.
Daqui sai a regra prática mais útil de 2026: identifica o risco que justifica o spread, ou é uma aposta. Um rendimento acima de 3,42% tem sempre uma explicação. Pode ser risco de financiamento (as taxas dos perpétuos podem ficar negativas), risco de crédito (o mutuário pode falhar), risco de MEV (a captura de valor pode secar), risco de contrato inteligente (o código pode ter falhas) ou, simplesmente, incentivos temporários que vão terminar. Se ninguém consegue nomear o risco, o «rendimento» é, quase de certeza, subsídio a esgotar-se ou risco não precificado.
Há uma leitura adicional na concentração. Se dez protocolos geram 87% de toda a receita distribuída da DeFi, então a esmagadora maioria dos tokens que prometem «partilhar a receita» distribui, na verdade, quase nada, ou distribui incentivos travestidos de receita. Para o investidor, o rácio a vigiar não é a taxa anunciada, é a relação entre o que o protocolo ganha e o que promete pagar. Um protocolo que paga mais do que ganha está a queimar reservas para comprar a atenção do mercado, e essa é uma corrida que termina quase sempre da mesma maneira.
A armadilha cambial: o euro que come o rendimento
Chegamos ao ponto que os artigos escritos a partir dos Estados Unidos ignoram. Praticamente todo este rendimento é ganho em dólares. Os bilhetes do Tesouro, o sUSDe, o USDS, as recompras de HYPE e de UNI: tudo denominado na moeda americana. O investidor europeu que persegue os 3,42% da taxa base assume, sem sempre o perceber, um risco cambial que pode ser maior do que o próprio rendimento.
A matemática é implacável. Se o euro se valorizar face ao dólar ao longo do ano, a conversão de volta para euros apaga parte ou a totalidade do ganho. Com o euro perto de 1,158 dólares e o BCE a caminho de uma possível subida, essa valorização deixou de ser hipotética. A tabela seguinte mostra o rendimento líquido, em euros, de uma posição que rende 3,42% em dólares, para diferentes variações do EUR/USD ao longo de um ano.
| Variação do EUR/USD no ano | Efeito cambial no capital | Rendimento líquido em euros |
|---|---|---|
| Euro sobe 5% | -5% | cerca de -1,5% |
| Euro sobe 3% | -3% | cerca de +0,4% |
| Estável | 0% | +3,42% |
| Euro desce 3% | +3% | cerca de +6,6% |
Quando o spread sobre a taxa base era de quinze pontos, uma oscilação cambial de cinco pontos era ruído. Com o spread comprimido a três ou quatro pontos, o câmbio passa a ser o fator dominante do retorno. Cobrir o risco cambial é possível, mas o custo dessa cobertura tende a comer justamente o spread que se estava a tentar capturar. Para o investidor em euros, a grande compressão significa que a decisão mais importante deixou de ser «que protocolo rende mais» e passou a ser «em que moeda quero de facto ficar exposto».
MiCA, CMVM e o fisco: onde o investidor em euros de facto ganha (ou perde)
Há uma razão regulatória para o rendimento viver sempre num invólucro (sUSDS, sUSDe) e nunca na própria stablecoin. O regulamento MiCA proíbe expressamente o pagamento de juros aos detentores de tokens de moeda eletrónica e de tokens referenciados a ativos (os artigos 50 e 40, respetivamente). A lógica é de proteção do consumidor: uma stablecoin deve funcionar como dinheiro eletrónico, não como uma conta poupança. Um emissor pode ganhar juros com as reservas, mas não os pode repassar como remuneração a quem detém o token, como resume a Scorechain. Daí a engenharia dos tokens que acumulam valor: o rendimento chega pela valorização do invólucro, não por um juro sobre o dólar. A Comissão Europeia abriu a 20 de maio de 2026 uma revisão do MiCA, aberta a contributos até 31 de agosto, em que a questão da remuneração é um dos temas em cima da mesa.
Em Portugal, o enquadramento está montado. A CMVM supervisiona a conduta de mercado e o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores de serviços de criptoativos e das stablecoins, ao abrigo da Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, com o período transitório do MiCA para os antigos prestadores nacionais a terminar a 1 de julho de 2026. Regulação, porém, não é fiscalidade, e é na fiscalidade que a compressão morde com mais força.
O ponto essencial para quem persegue rendimento: em Portugal, as recompensas de staking e de rendimento passivo são tratadas como rendimentos de capitais (categoria E) e tributadas a 28% no momento em que são recebidas, sem qualquer isenção por prazo de detenção, segundo o resumo fiscal da Rankia. A célebre regra dos 365 dias, que isenta as mais-valias de criptoativos detidos mais de um ano, aplica-se à venda do ativo, não ao rendimento que ele gera pelo caminho. Isto cria uma subtileza importante: um rendimento distribuído diretamente (uma recompensa de staking) tende a cair na categoria E, a 28% já; um rendimento que se acumula no preço de um token-invólucro, como o sUSDS, só se materializa na venda e pode, em tese, seguir o regime das mais-valias e a regra dos 365 dias. A fronteira entre os dois casos ainda não está totalmente clarificada pela Autoridade Tributária, pelo que qualquer estruturação merece aconselhamento profissional. Depois de descontar 28% e o câmbio, um «rendimento real» de 3,42% pode transformar-se em muito pouco.
Um método para avaliar rendimento em 2026
Se a compressão tem uma vantagem, é obrigar à disciplina. Com spreads finos, não há margem para ilusões. Cinco perguntas resolvem quase todos os casos.
- De onde vem a receita? Comissão efetiva de um serviço usado (troca, empréstimo, cobertura) ou emissão de tokens novos? Só a primeira é rendimento real.
- Qual é o spread sobre 3,42%? Compara sempre com a taxa base tokenizada. Um produto que paga 3,8% oferece pouco mais do que um bilhete do Tesouro on-chain.
- Que risco justifica o spread? Nomeia-o: financiamento, crédito, MEV, contrato inteligente, incentivo temporário. Se não consegues nomear, é uma aposta.
- É sustentável? A recompra está a crescer ou a encolher? A receita cobre o pagamento aos detentores ou este sai de reservas?
- Em que moeda ganho e que imposto pago? Rendimento em dólares, mais 28% de categoria E, mais risco cambial, pode anular o spread. Faz a conta em euros e depois de impostos.
Aplicado com honestidade, este teste desqualifica a maioria dos «rendimentos» de dois dígitos que ainda circulam. O que sobra é menos glamoroso, mas é o que interessa: alguns pontos percentuais acima de uma taxa base sólida, ganhos com risco identificado e declarados ao fisco. Numa palavra, real.
Perguntas frequentes
O que é rendimento real (real yield) em cripto?
É o rendimento que vem de receita efetiva de um protocolo (comissões de negociação, juros de empréstimos, taxas de financiamento, cupões de dívida tokenizada) e não da emissão de tokens novos. Distingue-se do rendimento inflacionário porque alguém pagou realmente por um serviço, e parte dessa comissão chega a quem detém o token ou o ativo.
Porque estão os rendimentos da DeFi a cair em 2026?
Porque o mercado deixou de subsidiar liquidez com emissão de tokens e os rendimentos passaram a refletir a receita real, que é modesta. Ao mesmo tempo, a taxa base tokenizada dos bilhetes do Tesouro, perto de 3,42%, funciona como um íman: sem um risco que o justifique, quase nenhum rendimento consegue manter-se muito acima dela.
Qual é a taxa sem risco da DeFi em 2026?
Na prática, é o rendimento da dívida pública norte-americana tokenizada, cerca de 3,42% ao ano em agosto de 2026, segundo a rwa.xyz. Como esses tokens são resgatáveis quase de imediato e componíveis com o resto da DeFi, tornaram-se o referencial contra o qual todos os outros rendimentos são medidos.
Como são tributados os rendimentos de staking e DeFi em Portugal?
As recompensas de staking e o rendimento passivo são geralmente tratados como rendimentos de capitais (categoria E) e tributados a 28% no momento em que são recebidos, sem isenção por prazo. A regra dos 365 dias, que isenta as mais-valias, aplica-se à venda do criptoativo, não ao rendimento que ele gera. Casos específicos merecem aconselhamento fiscal profissional.
Porque é que stablecoins como o USDC não pagam juros na UE?
Porque o regulamento MiCA proíbe o pagamento de juros aos detentores de tokens de moeda eletrónica e de tokens referenciados a ativos (artigos 50 e 40). Por isso o rendimento vive em invólucros separados, como o sUSDS ou o sUSDe, que acumulam valor no preço, e não na stablecoin em si.
Tiago Ferreira é redator sénior da HOGE Wire e escreve sobre DeFi, stablecoins e mercados on-chain.